RESUMO
Objetivo: Identificar soluções para preparar os profissionais de saúde para o enfrentamento da morte no contexto do nascimento a partir da vivência de docentes e discentes.
Método: Estudo qualitativo, problematizador, realizado com 10 docentes e 2 discentes dos cursos de medicina, enfermagem e psicologia de uma universidade do sul do Brasil. A coleta de dados ocorreu por meio de grupos focais, organizados nas etapas do arco da problematização de Charles Maguerez. A análise seguiu a operacionalização de Minayo e o referencial teórico de Paulo Freire.
Resultados: Profissionais da saúde relataram dificuldades no acolhimento aos distintos tipos de luto, associadas a lacunas formativas, limitações institucionais e ausência de espaços de escuta. Como soluções, destacaram a inserção transversal da temática nas graduações, a criação de espaços de apoio emocional, o incentivo a grupos interdisciplinares e o fortalecimento do protagonismo profissional diante de desafios éticos e assistenciais.
Conclusão: O compartilhamento de experiências revelou potencial formativo e transformador, evidenciando a urgência de mudanças curriculares e institucionais para qualificar o cuidado.
DESCRITORES
Educação Interprofissional; Docentes; Estudantes; Atitude Frente a Morte; Obstetrícia
ABSTRACT
Objective: To identify solutions to prepare health professionals to deal with death in the context of birth based on the experiences of teachers and students.
Methods: A qualitative, problematizing study was conducted with 10 teachers and 2 students from the medicine, nursing, and psychology courses at a university in southern Brazil. Data collection was carried out through focus groups, organized according to the stages of Charles Maguerez’s problematization arc. The analysis followed Minayo’s operationalization and Paulo Freire’s theoretical framework.
Results: Health professionals reported difficulties in welcoming different types of grief, associated with gaps in education, institutional limitations, and a lack of spaces for listening. As solutions, they highlighted the cross-cutting inclusion of the theme in undergraduate courses, the creation of spaces for emotional support, the encouragement of interdisciplinary groups, and the strengthening of professional leadership in the face of ethical and care challenges.
Conclusion: The sharing of experiences revealed educational and transformative potential, highlighting the urgency of curricular and institutional changes to improve the quality of care.
DESCRIPTORS
Interprofessional Education; Faculty; Students; Attitude to Death; Obstetrics
RESUMEN
Objetivo: Identificar soluciones para preparar a los profesionales de la salud para afrontar la muerte en el contexto del parto, basándose en las experiencias de profesores y estudiantes.
Método: Se llevó a cabo un estudio cualitativo y problematizante con 10 profesores y 2 estudiantes de los cursos de medicina, enfermería y psicología de una universidad del sur de Brasil. La recolección de datos se llevó a cabo mediante grupos focales, organizados según las etapas del arco de problematización de Charles Maguerez. El análisis siguió la operacionalización de Minayo y el marco teórico de Paulo Freire.
Resultados: Los profesionales de la salud informaron dificultades para aceptar diferentes tipos de duelo, asociadas con lagunas en la educación, limitaciones institucionales y falta de espacios para escuchar. Como soluciones, destacaron la inclusión transversal del tema en los cursos de licenciatura, la creación de espacios de apoyo emocional, el fomento de grupos interdisciplinarios y el fortalecimiento del liderazgo profesional ante los retos éticos y asistenciales.
Conclusión: El intercambio de experiencias reveló el potencial educativo y transformador, destacando la urgencia de cambios curriculares e institucionales para mejorar la calidad de la atención.
DESCRIPTORES
Educación interprofesional; Docentes; Estudiantes; Actitud Frente a la Muerte; Obstetricia
INTRODUÇÃO
A morte marca o fim da vida e caracteriza-se como um evento biológico e social, capaz de evocar diferentes significados e reações emocionais em quem a enfrenta. Embora seja parte do ciclo da vida, a morte é frequentemente temida pela maioria das pessoas, especialmente quando ocorre de maneira violenta ou abrupta. Nesse sentido, mortes inesperadas, como em um contexto de nascimento, costumam provocar reações de espanto, revolta e profundo sofrimento nas pessoas que a vivenciam(1,2,3).
Segundo dados da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), todos os dias aproximadamente 830 mulheres morrem de causas evitáveis relacionadas à gravidez e ao parto em todo o mundo, sendo 99% desses óbitos em países em desenvolvimento. No Brasil, essas taxas aumentaram em 94,4% durante a pandemia da Covid-19, chegando a 107,53 casos para cada 100 mil Nascidos Vivos (NV) em 2021(4). Já para o óbito neonatal, que corresponde a morte entre os primeiros 28 dias de vida de um bebê, estima-se uma taxa de aproximadamente 17 óbitos para cada 1.000/NV no ano de 2019, o equivalente a 6.700 mortes por dia. No Brasil, a média registrada foi de 12,4 óbitos/1.000 NV em 2018, um avanço comparado com a década de 1940, em que as taxas chegaram a 146,6 óbitos/1.000 NV(5,6). Nota-se, portanto, que casos de morte envolvendo o contexto do nascimento são comuns em todo o mundo e exigem atenção e preparo para o seu enfrentamento.
Autores destacam que a sociedade frequentemente atribui a figura do médico a responsabilidade de impedir que a morte aconteça. Assim, é comum que as formações em saúde se concentrem em desenvolver no futuro profissional habilidades técnicas para a realização de diagnóstico e intervenções clínicas, por vezes negligenciando aspectos psicossociais envolvidos na prática e no lidar com o paciente. Consequentemente, ao se depararem com experiências subjetivas, como as envolvidas no enfrentamento de uma morte, esses profissionais se veem sem as ferramentas e habilidades necessárias para lidar com a situação(7,8,9).
Estudos indicam que profissionais despreparados ou com pouca experiência tendem a adotar atitudes negativas ao se depararem com uma situação de morte, no intuito de evitar as próprias emoções. Assim, esses profissionais assumem postura mecanizada e de aparente frieza no trato com os pacientes e seus familiares, criando uma relação distanciada e sem vínculo que contradiz os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) (universalidade, integralidade e equidade) e a Política Nacional de Humanização. Por outro lado, profissionais devidamente capacitados demonstram maior habilidade para administrar suas emoções e oferecer suporte às famílias, ajudando-as a superarem a perda de forma mais saudável(2,8,9,10,11).
Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004), pioneira dos cuidados paliativos, afirmava a importância de os profissionais de saúde conhecerem sua postura frente à morte antes de prestarem atendimento aos familiares, destacando o impacto que suas ações causam na superação do luto dos pacientes. A psiquiatra ressaltava a necessidade dos cursos de formação desenvolverem nos discentes a conscientização sobre a realidade da própria morte, no intuito de fazê-los refletirem sobre sua finitude e desmistificar o tema no seu fazer profissional(1).
Frente a isso, pesquisas demonstram que os cursos de graduação da área da saúde integram conteúdos relacionados à morte em seus currículos. No entanto, tendem a uma abordagem técnica, focada em procedimentos assépticos, preenchimento de documentação de óbito e na conduta que os profissionais devem ter no momento do óbito. Dessa forma, não preparam os acadêmicos para conduzir essas situações de forma acolhedora, empática e humana, repercutindo negativamente na experiência dos familiares e no exercício da prática profissional(8,9,12,13).
Logo, partindo do pressuposto de que os hospitais se tornaram locais primordiais para o nascimento; que os profissionais da saúde se deparam regularmente com o processo de morte nesse contexto e não dispõem de preparo técnico e emocional para lidar com essa situação; e de que suas ações repercutem diretamente na vida das famílias, tem-se como objetivo: identificar soluções para preparar os profissionais de saúde para o enfrentamento da morte no contexto do nascimento a partir da vivência de docentes e discentes.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem problematizadora, fundamentado no referencial teórico de Paulo Freire(14). A pesquisa faz parte de um macroprojeto de natureza mista-transformativa, intitulado “Proposta pedagógica para o enfrentamento da morte e do luto no contexto do nascimento na formação de profissionais da área da saúde”, que teve como objetivo a construção coletiva de uma proposta educativa voltada ao preparo de profissionais da área da saúde para lidar com a morte e o luto no contexto do nascimento. O relatório final do estudo foi elaborado de acordo com os Critérios Consolidados de Comunicação de Estudos Qualitativos (COREQ): 32 checklist.
Local
Por buscar construir soluções para preparar os profissionais de saúde para o enfrentamento da morte no contexto do nascimento, a partir da vivência de docentes e discentes, os cenários escolhidos para esta investigação foram os cursos de graduação da área da saúde de uma universidade pública localizada no sul do Brasil. A escolha considerou os mais de 60 anos de história da instituição e sua classificação entre as cinco melhores universidades do país no Índice Geral de Cursos (IGC) de 2019, que a posicionou entre as instituições de ensino com padrão de excelência na classificação do MEC.
Embora a instituição ofereça vários cursos de graduação relacionados à área da saúde, para este estudo foram considerados apenas os de Enfermagem, Medicina e Psicologia, devido à sua atuação expressiva no contexto do nascimento e por lidarem diretamente com o processo de enfrentamento da morte e do luto das famílias nesse cenário. Essas três áreas também se destacam como as principais responsáveis pela produção científica sobre o tema, conforme apontado pelos achados da revisão de literatura.
População, Critérios de Seleção e Definição da Amostra
A população investigada consistiu em um total de 264 discentes matriculados nas duas últimas fases dos cursos de graduação em Enfermagem, Medicina e Psicologia da universidade mencionada (58 de Enfermagem, 134 de Medicina e 72 de Psicologia). No entanto, apenas 38 discentes foram incluídos neste estudo, por terem participado de uma etapa anterior do macroprojeto, que consistiu no preenchimento de um questionário relacionado à abordagem e o preparo recebido na formação para lidar com situações de morte e luto. Também foram considerados 41 docentes mencionados por esses discentes como potenciais participantes nesse questionário, por ministrarem disciplinas ou desenvolverem pesquisas sobre saúde materno-infantil e/ou os processos de morte e luto. Os convites foram realizados por meio do e-mail institucional e incluíram: uma carta de apresentação do estudo, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e uma ficha de caracterização.
Como critérios de elegibilidade, adotaram-se: ser docente e ministrar aulas para os cursos de graduação em Enfermagem, Medicina ou Psicologia da universidade selecionada, com pelo menos um ano de experiência; ou ser estudante de graduação matriculado nas duas últimas fases dos cursos mencionados e ter participado da primeira fase do macroprojeto. Foram excluídos os docentes temporários.
Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada por meio de grupos focais, conduzidos por uma animadora — pesquisadora principal, na época doutoranda em enfermagem, com experiência em pesquisas qualitativas, responsável por apresentar o tema e guiar as discussões de forma ativa e participativa —, e por uma relatora — também doutoranda em enfermagem, com experiência em entrevistas e atividades em grupo, que observou e registrou em diário de campo dados relativos à interação dos participantes, de maneira não participativa —, além dos próprios participantes(14). Por pertencerem à instituição pesquisada, tanto a animadora quanto a relatora já conheciam a maioria dos participantes, embora de forma superficial.
Para adequar a pesquisa à disponibilidade dos convidados, foram organizados três momentos de coleta: um encontro virtual, um presencial e uma etapa de validação. Tanto a dinâmica do encontro virtual quanto a do presencial foi repetida três vezes, em datas distintas, totalizando seis grupos focais (três online e três presenciais). Para tanto, utilizou-se um roteiro adaptado do arco da problematização de Charles Maguerez, visando garantir o rigor metodológico da pesquisa. O roteiro seguiu as seguintes etapas: 1) Reconhecimento da realidade; 2) Listagem dos pontos-chave; 3) Teorização; 4) Hipóteses de solução; e 5) Aplicação à realidade. Ressalta-se que cada participante compareceu apenas uma vez em cada etapa da coleta(15).
O encontro virtual foi realizado por meio da plataforma Google Meet®. No dia previsto, os participantes foram recepcionados pela animadora e pela relatora, que fizeram uma breve apresentação de suas credenciais, dos objetivos da pesquisa e das diretrizes para condução do grupo naquele dia. Em seguida, os participantes foram informados sobre a gravação do encontro, a qual teve início somente após o consentimento de todos.
Para iniciar a fase de desenvolvimento, foi realizada uma dinâmica de “quebra-gelo”, com base em três perguntas disparadoras: “a) O que representa a morte e como eu lido com ela no meu exercício profissional?; b) Como percebo a experiência da morte no contexto do nascimento?; e c) Como avalio o preparo dos profissionais da saúde para lidarem com a morte no contexto do nascimento?”. Em seguida, foi solicitado aos participantes que inserissem imagens e/ou palavras representativas de suas respostas no aplicativo Jamboard®, dentro do prazo de 15 minutos. Ao final, cada integrante apresentou suas reflexões, dando início à primeira etapa do arco de Charles Maguerez (Reconhecimento da realidade).
A partir disso, os participantes identificaram os pontos de conflito envolvidos na questão (2ª etapa do arco); teorizaram sobre sua ocorrência (3ª etapa); e articularam ideias compatíveis com sua realidade de atuação para solucioná-los (4ª e 5ª etapas). Os elementos trazidos pelos participantes em cada etapa foram registrados em forma de tópicos no próprio aplicativo, permitindo o acompanhamento simultâneo e a ciência de todos. Ao final, a animadora agradeceu a participação e informou as datas do segundo encontro. As atividades no Jamboard® foram fotografadas e utilizadas, juntamente com as gravações, para a preparação do encontro presencial.
O segundo momento de interação do grupo foi realizado presencialmente na própria universidade, seguindo todas as medidas de segurança recomendadas pelo Ministério da Saúde para conter a disseminação da Covid-19, ainda vigente à época. A animadora novamente recepcionou os participantes e informou sobre a gravação. Em seguida, foi realizada uma nova dinâmica de “quebra-gelo”, na qual foram apresentadas as imagens das atividades desenvolvidas nos grupos virtuais no aplicativo Jamboard®, seguidas de uma síntese dos principais temas discutidos. Os dados foram dispostos em um quadro para que os participantes pudessem revisar, corrigir, complementar ou excluir informações, até que fosse alcançado consenso entre todos e a saturação dos dados.
Como os encontros presenciais também ocorreram separadamente, a pesquisadora principal promoveu uma etapa adicional de validação dos conteúdos produzidos. Para isso, foi enviado aos participantes, por e-mail, um arquivo contendo os dados sistematizados dos dois momentos de coleta, para que pudessem validar e/ou propor alterações no conteúdo, no prazo de 15 dias úteis. Ao final, foram solicitadas apenas correções textuais, encerrando-se assim a fase de validação.
A média de duração de cada grupo, tanto online quanto presencial, foi de aproximadamente duas horas. Todas as gravações foram transcritas pela pesquisadora principal. A coleta ocorreu entre os meses de agosto de 2022 e março de 2023.
Análise e Tratamento dos Dados
O tratamento dos dados seguiu a proposta operativa de Minayo(14), onde foram mapeadas as determinantes fundamentais do campo e seus atores; interpretados os fatores empíricos observados, agrupando-os em categorias e realizada a análise por inflexão para apreender o conteúdo concreto e o abstrato dos discursos, a fim de compreender os sentidos que os permeiam. Em seguida, os dados, previamente organizados com base nas etapas do arco da problematização, foram analisados à luz do referencial teórico de Paulo Freire, resultando em categorias e subcategorias de sentido.
Aspéctos Éticos
Para preservar o anonimato dos participantes, os nomes dos docentes foram substituídos pela sigla “DO” e os dos discentes por “DI”, seguidos de um número correspondente à ordem de participação (DI1, DO2, DI3). O estudo seguiu as diretrizes das Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde, bem como as orientações da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e do Ofício nº 2/2021, que dispõe sobre os procedimentos de pesquisa em ambientes virtuais. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da universidade e aprovada sob o parecer nº 5.287.016, tendo sido iniciada apenas após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelos participantes.
RESULTADOS
Foram convidados 41 docentes para participar do estudo, dos quais 10 efetivamente compareceram às etapas de coleta. Desses, oito pertenciam ao curso de Enfermagem, um de Medicina e um de Psicologia. Todas as participantes eram mulheres, com titulação de doutorado. No que se refere ao estado civil, três eram solteiras, duas divorciadas e as demais casadas. A média de tempo de atuação na universidade entre as docentes participantes foi de aproximadamente 8,2 anos.
No que diz respeito aos discentes, dos 38 contactados, 11 manifestaram interesse em seguir participando da pesquisa. No entanto, apenas duas estudantes puderam estar presentes nos encontros: uma do curso de Enfermagem e outra de Medicina. Ambas eram do sexo feminino, uma casada e a outra solteira, com idades entre 22 e 26 anos. Ao todo, a etapa de coleta de dados contou com a participação de 12 pessoas: 10 docentes e 2 discentes.
Considerando as fases do arco da problematização e o referencial de Paulo Freire, os dados do estudo foram organizados em duas categorias principais de sentido, subdivididas em quatro e cinco subcategorias, respectivamente: 1) Reconhecendo a realidade e seus desafios: a) O significado da morte no contexto do nascimento diverge de outros cenários; b) Acolhimento de lutos diferentes; c) Conhecimento especializado e disponibilidade emocional; d) Limitações institucionais. 2) Identificando hipóteses de solução viáveis: a) Tornando a morte um tema transversal; b) Contato gradual e seguro com a experiência; c) Espaços para a vazão de sentimentos; d) Grupos de estudo multidisciplinares; e) Estímulo ao envolvimento ativo: o profissional como agente de mudança.
Reconhecendo a Realidade e Seus Desafios: O Significado da Morte no Contexto do Nascimento Diverge de Outros Cenários
Os dados indicam que a experiência da morte no contexto do nascimento impacta os profissionais de saúde de maneira singular, diferenciando-se de outras perdas. Isso se deve ao significado simbólico do início da vida, aliado à associação frequente com iniquidades sociais e falhas na assistência, o que atribui à morte neonatal/materna uma carga emocional específica.
A morte no contexto do nascimento é algo quase desestabilizador [...] quando isso acontece em um contexto de centro obstétrico [...] e todo aquele espaço está preparado para a vida, e de repente traz uma situação de morte, é algo muito delicado e difícil as vezes de lidar [...] tanto que a grande maioria foge [...] ninguém quer ter essa incumbência”. (DO2)
A gente percebe que a morte no contexto do nascimento está diretamente relacionada com os indicadores sociais. Ela reflete a qualidade da assistência à saúde para essa população, as interseccionalidades, porque a gente sabe que morrem mais mulheres negras, indígenas, de classe baixa [...] e apesar de a gente ter as políticas públicas [...] a gente sabe que nós estamos muito longe de alcançar as metas, principalmente em relação à mortalidade materna [...] [que] são, na sua grande maioria, mortes evitáveis. (DO6)
Reconhecendo a Realidade e Seus Desafios: Acolhimento de Lutos Diferentes
O contexto do nascimento envolve diferentes tipos de luto, que variam conforme o momento da morte (início da gestação, final da gestação, pós-parto), o tipo de óbito (materno, fetal ou neonatal) e suas causas (espontâneas, previstas ou esperadas, erros na identificação precoce de agravos e manejo, entre outras). Além disso, o luto é experienciado por diferentes sujeitos (pais, mães, irmãos, avós, profissionais de saúde, entre outros) e está associado ao significado que o falecido tinha para cada membro da família.
O pós-cureta a gente acaba não lidando [com a mulher] [..] Ela muitas vezes vai ficar internada um tempo antes do procedimento [...] vivendo esse luto, vivendo essa perda e ninguém tem esse olhar. É real, não tem uma pessoa que vai lá dar um apoio e um suporte porque: “aí, é bem no iniciozinho, a barriga nem cresceu. (DO2)
Uma vez eu acompanhei uma morte materna [...] e aí eu vi a irmãzinha chegar com dez anos e pedir para segurar [o bebê], e ela já se assumindo no papel de mãe, uma criança de dez anos. Ela também perdeu a mãe, sabe?. (DO9)
[...] a morte de um bebê é quando tu perdes um sonho.[...] Agora, quando a gente perde a mãe eu acho que é muito complicado, principalmente para o pai que ficou e se ficou ainda o bebê. [...] É como se fosse riscada uma história. Então dói de todas as formas, vai doer a morte de um idoso, de um bebê, de uma criança, de um adolescente, mas eu acho que são dores que tem conotações diferentes porque vão ter sonhos diferentes, envolvimentos diferentes, expectativas diferentes. (DO11)
Reconhecendo a Realidade e Seus Desafios: Conhecimento Especializado e Disponibilidade Emocional
A disponibilidade emocional exigida para o enfrentamento da morte e do sofrimento das famílias representa um desafio significativo para os profissionais, uma vez que demanda o manejo cuidadoso de sentimentos, experiências e crenças pessoais, bem como o domínio de competências técnicas específicas.
Lidar com alguém que lida com a morte é saber silenciar a sua própria experiência de morte [...] Eu gostaria que uma pessoa me falasse que eu sou nova ainda [para ter um filho], mas empatia não é sobre isso, empatia não é sobre fazer o que você queria que fizessem para você, empatia é fazer o que aquela pessoa precisa que seja feita com ela. Então entender essa dinâmica do contexto da pessoa silenciar e fazer isso é fundamental. (DI3)
Eu vejo que existem receitas básicas ou condutas protocoladas que a gente faz [...] Por exemplo, se você tem uma mãe que perdeu um bebê, você não coloca ela no alojamento junto com as outras mães [...]. Quando um bebê nasce [morto], você sempre estimula que a mãe pegue aquele bebê e possa fazer um reconhecimento na despedida [...] Mas às vezes [...] a resposta dela é não. Aí você espera, dá um tempinho [...] Aí, muitas vezes, elas mudam de opinião [...]. Então assim, a gente tem formas de tentar amenizar essas dores [...] mas eu acho que os profissionais precisam olhar através, para tentar entender o que as pessoas estão vivenciando. (DO9)
A gente teve uma experiência muito pesada de uma mãe que sabia que o neném não sobreviveria muitas horas após a parto, e ela tinha outras crianças. Então as outras crianças, junto ao pai e a mãe, fizeram uma cartinha [...] então, quando ela ganhou o bebê, o bebê veio para nós, com vida, para a gente deixar ele partir. [...] A gente colocou toda a roupinha [...] e leu a carta para ele [bebê] [...] [e] ficou com ele no colo [...]. Então não é fácil, [porque] tu está dando tchau para uma criancinha que nem é tua!. (DO11)
Reconhecendo a Realidade e Seus Desafios: Limitações Institucionais
Para os participantes da pesquisa, a alta rotatividade de profissionais nas instituições de saúde, motivada pela baixa remuneração salarial, acarreta sobrecarga de trabalho, mecanização da assistência e fragilização do entrosamento entre as equipes. Consequentemente, esses fatores dificultam o aporte humanizado do luto, além de aumentar a frequência de mortes no ambiente de trabalho.
Semana passada a gente estava conversando que a morte materna está aumentando as estatísticas e [...] [isso] não podia acontecer, porque a morte materna é um erro, é uma falha [...] E o que a gente vê? Tem muita mudança de equipe [...] porque o salário não compensa [...] [o valor é] um terço, em comparação a trabalhar no estado, ninguém fica. (DO2)
Eu atuo bastante na atenção primária e [lá] isso é algo mais [distante] ainda, porque parece que já tem que pular para outro assunto: “vamos encaminhar para o psicólogo, isso já não é mais da minha alçada”, sabe? É uma fuga [...] Então, no hospital, a gente já tem pouco preparo [...], [mas] eu acho que na atenção primária, [é] menos ainda. (DO6)
A gente escuta muito: “eu não tenho nem tempo de cuidar dos vivos, vou cuidar dos que morreram?”. Não que os que morreram não tenham importância, mas eu estou sem tempo. E aí eu acho que forma um ciclo vicioso [...] aí quando tem tempo eu já nem vou porque eu nem faço isso no andamento das coisas que eu preciso fazer. (DO12)
Identificando Hipótese de Solução Viáveis: Tornar a Morte um Tema Transversal
Considerando a abrangência do tema e o impacto que causa no fazer assistencial, os participantes concluíram que a temática da morte deveria ser tratada de forma transversal nas formações em saúde.
Acho que a graduação precisa sempre ter, de forma transversal, [e em] todas as disciplinas, alguns conteúdos vinculados como a morte e o cuidar de pessoas e família, porque é algo que tem que ser constante. [...] Ter uma proposta transversal e que abordasse os vários tipos de morte, não é um curso de especialização, mas é o mínimo que o aluno tem que ter de conceito, de experiências, de estratégias pedagógicas, para ele ir amadurecendo. (DO7)
No contexto do nascimento, quando acontece ali o aborto [...] também existe o aborto ilegal. [...] [E] essas pessoas chegam para a gente nos serviços e também foram atravessadas por um processo de luto, de morte, de perda, de julgamento social [...] de saúde psicossocial. Então, assim, se eu pensar em trabalhar isso na formação, eu acho que é um tema bioético [transversal] que faz parte. (DO8)
Identificando Hipótese de Solução Viáveis: Contato Gradual e Seguro Com a Experiência
No quesito aprendizagem, foi ressaltada a importância de proporcionar um contato gradual e realista com a temática da morte, para que os discentes compreendam sua complexidade e desenvolvam as habilidades necessárias para enfrentá-la.
Eu vi crianças nascendo sem cérebro [...],vi mães que sabiam que a criança já estava falecida e estavam esperando a hora do parto para parir [...] e isso eu vivi na graduação. Para mim, qual foi o meu benefício? Tinha duas enfermeiras obstétricas, que me acompanhavam na época do estágio [...] [e] elas me deram todo o suporte, além de emocional, a questão técnica, eu acompanhava elas, fazia toda abordagem junto com elas. Então isso foi muito importante e me trouxe também maturidade profissional. (DO7)
Todo mundo lembra do primeiro óbito que acompanhou [...] e é isso que vai nos trazer segurança, nos trazer conhecimento e reflexão. [...] Quem já perdeu lembra que as falas realmente ficam na sua memória [...], o que foi bom [...] e as falas que [nos] fizeram desmoronar. Então você tem que ter muito cuidado quando você fala. (DO9)
Identificando Hipótese de Solução Viáveis: Espaços para a Vazão de Sentimentos
Destacou-se a importância dos grupos de apoio, nos quais docentes e discentes possam expressar seus sentimentos relacionados ao luto, compartilhar experiências e participar de atividades conjuntas de educação continuada, visando ao desenvolvimento de competências técnicas e sensíveis para o manejo adequado de situações envolvendo morte e luto.
A instituição, considerando recursos, é muito difícil ela ter um profissional que é vinculado a ti. Psicólogo não vai poder te dar o suporte porque é contra os próprios princípios ter laços de profissionais ali. [Buscar] um profissional fora, a maioria não tem dinheiro para pagar. E a instituição também não tem. Então, o que é que eu sempre vi? Tu cria teus pequenos grupos de discussão sobre os problemas vividos [...] para dar subsídio tanto teórico quanto de troca de experiência para novos enfrentamentos. Mas a grande maioria dos grupos é sempre assim: “não tenho tempo, não tenho tempo. (DO7)
Eu fiquei muito admirada em descobrir através da minha tese [...] que os profissionais de modo geral têm muita dificuldade em lidar com a morte, principalmente para dar a notícia [...] para os familiares. [...] daí eu percebi [...] que os profissionais sofrem muito [...]. E quando essas mortes são constantes no teu trabalho, o sofrimento é maior ainda. [...] Então assim, eu acho que tem que ter esse acompanhamento para os profissionais que também não tem momentos de reflexão (DO10)
Identificando Hipótese de Solução Viáveis: Grupos de Estudo Multidisciplinares
Foi também sugerida a realização de momentos de troca multidisciplinares nas universidades, com o objetivo de promover o entendimento das diferentes perspectivas acerca da morte e do seu enfrentamento, favorecendo a superação de eventuais dificuldades inerentes a cada área de atuação.
Eu acho que o apoio dos próprios colegas, pelo menos no nosso departamento [...] tu tens um grupo de docentes, que tem reuniões constantes [...] todo mundo tem doutorado, tem pós--doutorado, muitos cursos... Eu vejo uma troca muito saudável de experiências, de planejamentos, de como abordar o aluno. Pode não te dar um suporte 100%, mas eu entendo, no meu ponto de vista, que é saudável e ajuda bastante. (DO7)
Essa roda de conversa hoje aqui, que coisa boa até para nós que estamos participando [...]. Isso deveria acontecer mais vezes, nós precisamos falar mais desse assunto na sociedade de uma forma geral, também na formação e na assistência. (DO10)
Identificando Hipótese de Solução Viáveis: Estímulo ao Envolvimento Ativo: O Profissional Como Agente de Mudança
Duas participantes ressaltaram a importância de promover o “agenciamento” do profissional de saúde no processo formativo, incentivando-o a assumir postura proativa diante dos conflitos entre o treinamento recebido, as necessidades da população atendida e as normativas institucionais vigentes.
Algo que eu acrescentaria seria entender as limitações institucionais [...] “Não pode entrar”, “não pode ver”, ‘’não pode levar’’ [...] tudo bem que a família inteira não possa ver uma criança que está na UTI [...] agora, será que está tudo bem a gente ter que mandar uma criança lá para o outro lugar [...] e tirá-la daquele berço pequeno? [...] Acho que entender as limitações institucionais nesses termos [...] é uma coisa importante [...] [para] perceber-se como potencial transformador dessas regras, sabe?. (DI3)
A gente é formado para trabalhar de um jeito legal e vem as regras da instituição [...]. Você paralisa, porque é um bom moço. Você aprendeu a seguir regras, não só porque elas são necessárias, mas porque elas falam também do nosso contrato social de se manter numa prática que seja coesa, não é? [...] Agenciamento significa justamente você ir criando as regras numa perspectiva [...] de dialogar com essas regras e agenciar um novo modo de vida, um novo modo de cuidar. (DO5)
DISCUSSÃO
Observa-se que docentes e discentes vivenciam situações de morte no contexto do nascimento ao longo da formação. Contudo, em razão da associação desse cenário ao início da vida, o significado da morte adquire conotações específicas que influenciam o enfrentamento tanto dos profissionais quanto dos enlutados. Para tanto, o acolhimento ao luto neste contexto apresenta complexidades, por envolver fatores simbólicos, crenças e iniquidades sociais frequentemente negligenciadas pelos processos formativos, resultando em preparo insuficiente e disponibilidade emocional limitada para conduzir adequadamente o processo de perda conforme as necessidades singulares de cada enlutado (depoimentos da primeira e segunda subcategoria).
Estudos salientam que a perda perinatal, frequentemente, não é reconhecida pela sociedade, já que os pais não têm a oportunidade de conviver com o filho por muito tempo. O fato fomenta no imaginário coletivo a crença de que o sofrimento é menor nesses casos e de que os pais não precisam de cuidados específicos(8,9,11). Consequentemente, os pais em processo de perda são tolhidos de demonstrar seu pesar em público, ao mesmo tempo em que têm sua maternidade/paternidade invalidada pelo meio, inclusive pelos profissionais da saúde.
A acolhida eficaz requer práticas fundamentadas no diálogo e na construção de vínculos. Uma cartilha de educação para a morte, sugere que os profissionais de saúde precisam considerar seis elementos para compreender o processo de luto de uma pessoa: 1) quem era o falecido na vida do enlutado e o que ele representava; 2) a natureza do vínculo emocional entre eles; 3) as circunstâncias da morte e a forma como o enlutado recebeu a notícia; 4) histórico de luto complicado anteriores ao vivido; 5) a personalidade do enlutado; 6) e os fatores sociais envolvidos, como as influências culturais, étnicas, religiosas e a presença de rede de apoio(16). Portanto, deixa explicita a importância dos profissionais desenvolverem habilidades de “silêncio e empatia” para ouvirem a dor do outro, de modo a se tornarem capazes de “olhar através das circunstâncias” e realizar uma assistência para além dos protocolos institucionais pré-estabelecidos (falas da terceira subcategoria).
A realização de práticas de cuidado complexas, como o acolhimento ao luto, demanda tempo, treinamento e a articulação das equipes de saúde. Consequentemente, tais práticas são diretamente afetadas quando há sobrecarga de trabalho, rotatividade profissional e mecanização da assistência (fatores mencionados na quarta subcategoria). Um estudo descritivo realizado em 35 unidades de saúde da família em um estado de médio porte do Brasil identificou que a alta rotatividade dos profissionais e a falta de capacitação especializada impactam os serviços prestados pelas equipes, resultando em avaliações insatisfatórias pelos usuários em quase todos os itens incluídos no Primary Care Assessment Tool (PCATool-Brasil)(17).
Outro estudo(18), realizado com 166 enfermeiros, indicou que a rotatividade nas instituições de saúde está relacionada a cinco fatores: apoio da chefia, recompensa, conforto físico, controle/pressão e coesão da equipe. Os dados apontam que o aumento da “recompensa” é o fator mais eficaz para reduzir a intenção de rotatividade, enquanto a diminuição do conforto físico e a baixa coesão da equipe a aumentam, o que é coerente com os depoimentos da subcategoria “limitações institucionais”. Curiosamente, esses fatores também foram associados em outras pesquisas ao desenvolvimento de distúrbios psíquicos nos profissionais, como burnout, ansiedade e depressão, principais causas de afastamentos e saídas precoces do trabalho(17,19,20).
Para superar os desafios identificados, os participantes do presente estudo refletiram sobre a importância do tema da morte ser desenvolvidos de forma transversal nas formações em saúde, possibilitando que os discentes identifiquem e desenvolvam gradativamente as habilidades necessárias para enfrentá-la de maneira assistida. Ressaltaram ainda a relevância da existência de espaços para diálogo, acolhimento ao luto e vazão dos sentimentos, tanto no ambiente acadêmico quanto no trabalho, além da criação de grupos de estudo multidisciplinares que estimulem uma postura ativa no processo de cuidado em saúde.
Essas reflexões encontram eco em um estudo qualitativo de 2025 com estudantes e membros do corpo universitário de uma universidade em Bruxelas (Bélgica), que participaram da Compassionate Week, um festival sobre morte, luto e doença grave. Os participantes relataram buscar o festival como forma de lidar com perdas pessoais, apoiar pessoas próximas e ampliar seus conhecimentos sobre o tema. O evento foi percebido como um espaço seguro para a expressão emocional e o compartilhamento de narrativas, contribuindo para ampliar a compreensão da morte e do luto como dimensões inerentes à vida, inclusive no contexto acadêmico, além de favorecer a normalização do diálogo sobre a finitude e o fortalecimento do apoio emocional(21).
Essas necessidades alinham-se a um estudo que analisou a presença de disciplinas relacionadas à educação para morte, perda e luto em 103 cursos de medicina e enfermagem no Brasil, o qual identificou que 83% dos cursos abordam a morte em disciplinas obrigatórias, mas apenas 28% contemplam conteúdos relacionados à educação para morte, perda e luto, sem jamais tratá-la como tema central. Esses dados evidenciam a fragilidade e a urgência de uma reformulação nos processos formativos das profissões da saúde, para que situações complexas e inerentes ao exercício profissional, como a morte, sejam aprofundadas nas graduações, oferecendo aos discentes a oportunidade de compreender as nuances técnicas, simbólicas e emocionais envolvidas(7).
Ademais, a relevância de um aprendizado detalhado sobre o enfrentamento da morte foi evidenciada em estudo realizado na Inglaterra, que investigou a experiência de pais cujos bebês morreram antes, durante ou após o nascimento. Os resultados demonstraram que a terminologia utilizada pelos profissionais para se referirem à morte do bebê impacta significativamente a saúde dos pais: aqueles informados de que estavam “perdendo seu bebê”, em vez de “tendo um aborto espontâneo”, demonstravam maior preparo para enfrentar o trabalho de parto, o nascimento do natimorto e para vê-lo e segurá-lo. Segundo os autores, essa terminologia valida a perda, facilitando a despedida e a elaboração do luto(22). Esses achados corroboram as falas da subcategoria “contato gradual e seguro com a experiência”, que ressaltam a importância do acolhimento e das palavras utilizadas pelos profissionais no momento de transmitir a notícia de um óbito.
Autores defendem que o contato com a terminalidade da vida provoca uma quebra nas defesas do ego de discentes, docentes e profissionais da saúde, obrigando-os a enfrentar as emoções relacionadas à perda e ao desapego(10,23). Isso propicia reflexão sobre a inevitabilidade da morte e a assunção das dificuldades para lidar com ela, incluindo crenças, conceitos e preconceitos. A aproximação contínua e assistida ao tema naturaliza a morte no meio acadêmico e profissional, facilitando o intercâmbio de saberes para um melhor preparo(7,9,22). O depoimento de DO7, na mesma subcategoria, reitera essa perspectiva ao afirmar que o enfrentamento supervisionado da morte, durante a formação acadêmica, possibilitou o desenvolvimento de sua confiança e maturidade para lidar com esses processos.
Na concepção freireana, escuta e diálogo constituem a base das relações humanas. Não há encontro sem diálogo, assim como não há respeito sem escuta. Por meio da dialogicidade emergem contradições e limites das situações vivenciadas, revelando fatores ocultos que sustentam as interpretações da realidade. A reflexão conjunta permite que os indivíduos conheçam e transcendam os limites da própria singularidade, encontrando novas formas de ser e estar no mundo(24,25,26).
Essa lógica se aplica aos espaços destinados à expressão do luto (mencionados na terceira subcategoria), que auxiliam os discentes a confrontar desafios emocionais da formação, trazendo benefícios como redução do estresse, aumento da produtividade e do foco, melhoria da empatia e maior habilidade para lidar com situações estressantes, como a morte(26). Um exemplo desses espaços são os Death Cafés — iniciativa originada no Reino Unido e atualmente presente em mais de 90 países —, encontros comunitários informais destinados ao compartilhamento de experiências de perda e reflexões sobre a finitude. Nessas atividades, os participantes podem ampliar seu conhecimento emocional e prático sobre morte e luto, além de fortalecer redes comunitárias de apoio, contribuindo para a promoção de respostas sociais mais integradas ao cuidado de pessoas enlutadas(27). No Brasil, entretanto, a oferta desse tipo de serviço nas universidades públicas permanece centrado na Região Sudeste e é destinada exclusivamente a discentes de medicina(26).
Nesse contexto, a criação de grupos de estudo multidisciplinares (quarta subcategoria) é uma ideia promissora, pois estimula a partilha de experiências entre pessoas com diferentes conhecimentos e habilidades para superar adversidades semelhantes, possibilitando crescimento coletivo e desenvolvimento de soluções condizentes com a realidade de cada contexto. Portanto, ao se abrirem ao aprendizado, os profissionais não apenas se sentem mais preparados para enfrentar situações adversas, mas também aprendem a identificar fatores de risco para aprimorar a assistência, a qualidade do ensino e a eficácia das políticas públicas(7,8,9,17,22).
Ao assumirem protagonismo em seu processo de aprendizado, os profissionais da saúde desenvolvem consciência sobre sua capacidade de sentir, conectar-se e refletir, individual e coletivamente, sobre seus direitos e responsabilidades. Mesmo diante de circunstâncias difíceis ou aparentemente impossíveis, o espírito investigativo, a esperança e o compromisso com a melhoria da realidade perduram, pois a adversidade passa a representar não o fim, mas a fronteira entre o que é e o que pode vir a ser (última subcategoria). Assim, ao dialogar construtivamente sobre os problemas da vida, os indivíduos transcendem limitações e tornam o “inédito viável” uma realidade possível(1,24,25).
Dessa forma, um processo formativo centrado no diálogo amoroso e na relação respeitosa entre educadores e educandos cria um ambiente acolhedor, capaz de promover crescimento conjunto e capacitar os envolvidos a compreender criticamente sua realidade e transformá-la ativamente. Nesse sentido, o exercício da busca pelo conhecimento desde a graduação facilita a conscientização dos futuros profissionais sobre a importância da educação permanente e o compromisso com a avaliação contínua da prática por meio do ciclo ação-reflexão-ação(24,25).
Avanços para a Área da Saúde e Limitações do Estudo
O estudo contribui para a área da saúde ao destacar a complexidade do enfrentamento da morte no contexto do nascimento, evidenciando a necessidade de uma formação integral que aborde aspectos técnicos, emocionais e simbólicos. Ressalta-se a importância de espaços de acolhimento, diálogo e grupos multidisciplinares para a troca de saberes, fortalecendo a preparação dos profissionais e subsidiando políticas que promovam a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores e famílias enlutadas.
Como limitações, destacam-se o contexto pandêmico, que dificultou maior adesão dos participantes, e o recorte restrito da realidade investigada. Assim, recomenda-se a realização de pesquisas futuras sobre o tema em outros contextos formativos, em diferentes períodos e com distintos desenhos metodológicos, de modo a possibilitar a comparação. Reforça-se, ainda, a importância da participação de homens da área da saúde em investigações que envolvam temas sensíveis e relacionados à saúde da mulher, considerando que, nesta pesquisa, apenas mulheres se sentiram impelidas a participar.
CONCLUSÃO
O objetivo deste estudo foi identificar soluções para preparar profissionais de saúde para o enfrentamento da morte no contexto do nascimento, com base nas vivências de docentes e discentes. Os resultados apontam a necessidade de que a formação em profissões de saúde considerem as especificidades simbólicas e emocionais que envolvem o óbito nesse cenário, promovendo a inclusão transversal da temática nas grades curriculares. Defende-se um contato gradual e assistido com o tema, articulado à criação de espaços de escuta e à formação de grupos de estudo multidisciplinares, a fim de favorecer o acolhimento aos diversos tipos de luto e fortalecer o protagonismo profissional. O diálogo entre diferentes saberes revelou-se fundamental para reconhecer fragilidades e propor estratégias compatíveis com cada realidade formativa. Nesse processo, o referencial freireano mostrou-se um importante aliado, ao sustentar a necessidade de escuta, diálogo e ação-reflexão-ação como fundamentos para a construção de práticas mais sensíveis, críticas e transformadoras na abordagem da morte na formação em profissões de saúde.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Referências bibliográficas
- 1. Kübler-Ross E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiros e aos próprios parentes. 10. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes; 2017.
-
2. Silva AR, Gomes AMT, Duarte ACS, Yarid SD. Influence of religious-spiritual coping on mother mourning. Rev Enferm Brasileira. 2020;19(4):310–6. doi: https://doi.org/10.33233/eb.v19i4.4147.
» https://doi.org/10.33233/eb.v19i4.4147 -
3. Figueiredo AM. Tanatologia: abordagem histórico-filosófico da morte no contexto da medicina legal e do direito. Rev Cientí Multidisc Núcleo do Conhecimento. 2020;9(10):26–55. doi: https://doi.org/10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/lei/medicina-legal.
» https://doi.org/10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/lei/medicina-legal -
4. Nações Unidas Brasil. UNFPA: mortalidade materna no Brasil aumentou 94,4% durante a pandemia. Brasília: Nações Unidas Brasil. 2022 [cited 23 Jan 2024]. Available from: https://brasil.un.org/pt-br/203964-unfpa-mortalidade-materna-no-brasil-aumentou-944-durante-pandemia
» https://brasil.un.org/pt-br/203964-unfpa-mortalidade-materna-no-brasil-aumentou-944-durante-pandemia -
5. United Nations Children’s Fund. Levels & trends in child mortality: report 2020. UNICEF; 2020 [cited 6 Sep 2021]. Available from: https://www.UNICEF.org/media/79371/file/UN-IGME-child-mortality-report-2020.pdf.pdf.
» https://www.UNICEF.org/media/79371/file/UN-IGME-child-mortality-report-2020.pdf.pdf. -
6. Organização das Nações Unidas. Unicef e OMS dizem que taxas de mortalidade materno-infantil nunca foram tão baixas. ONU News; 2019 [cited 18 Jul 2020]. Available from: https://news.un.org/pt/story/2019/09/1687532.
» https://news.un.org/pt/story/2019/09/1687532. -
7. Souza LG, dos Santos AA, Carneiro TV, dos Santos VR, Lopez FN. Health and Education Professionals for Death: a study of Brazilian higher education. Saúde Redes. 2023;9(2):16. doi: https://doi.org/10.18310/2446-4813.2023v9n2.4009.
» https://doi.org/10.18310/2446-4813.2023v9n2.4009 -
8. Rocha L, Costa R, Gomes IEM, Alves IFBO, Rosa R, Lima MM. Difficulties faced by nursing in care for women with fetal death. Saberes Plur. 2023;7(1):1–16. doi: https://doi.org/10.54909/sp.v7i1.128168.
» https://doi.org/10.54909/sp.v7i1.128168 -
9. Rosa R, Gomes IEM, Costa R, Alves IFBO, Aires LCP. Experiences and behaviors of health professionals in the face of neonatal death: an integrative review. Rev Min Enferm. 2022;26:e–1479. doi: https://doi.org/10.35699/2316-9389.2022.41101.
» https://doi.org/10.35699/2316-9389.2022.41101 -
10. Correia DS, Taveira MGMM, Marques AMVF, Chagas RRS, Castro CF, Cavalcanti SL. medical undergraduate student’s perception and experience of death. Rev Bras Educ Med. 2020;44(1):e013. doi: https://doi.org/10.1590/1981-5271v44.1-20190200.
» https://doi.org/10.1590/1981-5271v44.1-20190200 -
11. Aciole GG, Bergamo DC. Care to the bereaved family: a necessary public action. Saude Debate. 2019;43(122):805–18. doi: https://doi.org/10.1590/0103-1104201912212.
» https://doi.org/10.1590/0103-1104201912212 -
12. Melo VL, Maia CQ, Alkmim EM, Ravasio AP, Donadeli RL, De Paula LOE, et al. Death and dying in Brazilian medical training: an integrative review. Rev Bioet. 2022;30(2):300–17. doi: https://doi.org/10.1590/1983-80422022302526pt.
» https://doi.org/10.1590/1983-80422022302526pt -
13. Dias A, Vilela EFM, Paula RC. Maternal and Infant Death Combat Group at the São Paulo State Health Department: a strategy from the State Committee for Maternal, Infant, and Fetal Death Surveillance. Bepa. 2022;24(19):1–7. doi: https://doi.org/10.57148/bepa.2022.v.19.37324.
» https://doi.org/10.57148/bepa.2022.v.19.37324 - 14. Minayo MCS. O desafio do conhecimento. 14. ed. São Paulo: Hucitec; 2014.
-
15. Dias GAR, Santos JPM, Lopes MMG. Problematization arch for educational health planning in nursing students’ perception. Educ Rev. 2022;38:e25306. doi: https://doi.org/10.1590/0102-469825306t.
» https://doi.org/10.1590/0102-469825306t -
16. Pilger CH. Educação para morte no contexto de UTIN: orientação sobre o luto e acolhimento em situações de perda neonatal. 1. ed. Santa Maria: UFSM; 2023 [cited 24 Oct 2023]. Available from: https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/29174/Cartilha_Educacao_para_a_morte.pdf?sequence=1.
» https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/29174/Cartilha_Educacao_para_a_morte.pdf?sequence=1. -
17. Ribeiro LA, Scatena JHG. Quality evaluation of the Family Health Strategy in a medium-sized municipality. Saúde debate. 2019;43(esp 7):129–140. doi: https://doi.org/10.1590/0103-11042019S710.
» https://doi.org/10.1590/0103-11042019S710 -
18. Bracarense CF, Costa NS, Raponi MBG, Goulart BF, Chaves LDP, Simões ALA. Organizational climate and nurses’ turnover intention: a mixed method study. Rev Bras Enferm. 2022;75(4):e20210792. doi: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0792. PubMed PMID: 35442317.
» https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-07092 -
19. Munhoz OL, Arrial TS, Barlem ELD, Dalmolin GL, Andolhe R, Magnago TSBS. Occupational stress and burnout in health professionals of perioperative units. Acta Paulista. 2020;33:eAPE20190261. doi: https://doi.org/10.37689/acta-ape/2020AO0261.
» https://doi.org/10.37689/acta-ape/2020AO0261 -
20. Petermann XB. Stress between primary care professionals in the brazilian context. Perspect. Ci. e Saúde. 2020 [cited 21 Dec 2023]:5(3):101–12. Available from: http://sys.facos.edu.br/ojs/index.php/perspectiva/article/view/253.
» http://sys.facos.edu.br/ojs/index.php/perspectiva/article/view/253. -
21. Bakelants H, Dury S, Chambaere K, Deliens L, Vanderstichelen S, Droogenbroeck FV, et al. The role of a death and grief festival in cultivating awareness of serious illness, death, and bereavement at university: a qualitative study of students’ and staff’s motivations and experiences with Compassionate Week activities. Palliat Care Soc Pract. 2025;19:26323524251336766. doi: https://doi.org/10.1177/26323524251336766. PubMed PMID: 40417080.
» https://doi.org/10.1177/26323524251336766 -
22. Smith LK, Dickens J, Atik RB, Bevan C, Fisherm J, Hinton L. Parents’ experiences of care following the loss of a baby at the margins between miscarriage, stillbirth and neonatal death: a UK qualitative study. BJOG. 2020;127(7):868–74. doi: https://doi.org/10.1111/1471-0528.16113. PubMed PMID: 31976622.
» https://doi.org/10.1111/1471-0528.16113 -
23. Freitas-Júnior RAO. Avoidable maternal mortality as social injustice. Rev Bras Saude Mater Infant. 2020;20(2):615–22. doi: https://doi.org/10.1590/1806-93042020000200016.
» https://doi.org/10.1590/1806-93042020000200016 - 24. Freire P. Educação como prática de liberdade. 24. ed. São Paulo: Paz e Terra; 2000.
- 25. Freire P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 2005.
-
26. Roncaglia LP, Martins AF, Batista CB. Serviços de apoio aos estudantes de medicina: conhecendo alguns núcleos em universidades públicas brasileiras. Rev Pret. 2020 [cited 14 Oct 2023]:5(9):664–82. Available from: https://periodicos.pucminas.br/index.php/pretextos/article/view/22043.
» https://periodicos.pucminas.br/index.php/pretextos/article/view/22043. -
27. Laranjeira C, Dixe MA, Querido A, Stritch JM. Death cafés as a strategy to foster compassionate communities: contributions for death and grief literacy. Front Psychol. 2022;13:986031. doi: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.986031. PubMed PMID: 35983204.
» https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.986031
