Open-access Brasil e México: especialização comercial e composição dos fluxos ajustados por preços relativos (2002-2019)#

Brazil and Mexico: trade specialization and the composition of flows adjusted for relative prices (2002-2019)

Resumo

RESUMO  Este artigo analisa comparativamente a estrutura das exportações e importações do Brasil e do México entre 2002 e 2019, depurando os efeitos das variações de preços relativos. O objetivo é distinguir em que medida as mudanças observadas na pauta comercial refletem transformações estruturais ou apenas oscilações conjunturais de preços. Para tanto, os fluxos comerciais foram ajustados a partir dos preços relativos setoriais em relação ao total, permitindo isolar mudanças no volume de efeitos de valorização ou desvalorização de grupos específicos de produtos. Os resultados confirmam que os preços relativos afetam de forma significativa a interpretação da especialização comercial. No caso brasileiro, o processo de especialização regressiva é atenuado quando se desconta a valorização de commodities, em especial da agropecuária, que, desde 2017, supera alimentos, bebidas e fumo como principal grupo exportador. No México, a concentração no setor automotivo se mostra ainda mais intensa quando ajustada pelos preços relativos, já que a queda nos preços industriais reduz a participação setorial em valores correntes. Em ambos os países, as importações apresentam menor sensibilidade a preços, mas confirmam forte dependência de bens intermediários e de capital de média-baixa e média-alta intensidades tecnológicas, notadamente insumos químicos, farmacêuticos e metálicos.

PALAVRAS-CHAVE:
Brasil; México; Comércio internacional; Preços relativos; Especialização produtiva


Abstract

ABSTRACT  This article provides a comparative analysis of the export and import structures of Brazil and Mexico between 2002 and 2019, filtering out the effects of relative price variations. The aim is to distinguish the extent to which changes in trade composition reflect structural transformations or merely conjunctural price fluctuations. To this end, trade flows were adjusted by sectoral relative prices compared to the total, allowing the isolation of volume changes from the effects of appreciation or depreciation of specific product groups. The results confirm that relative prices significantly affect the interpretation of trade specialization. In the Brazilian case, the process of regressive specialization is attenuated once the appreciation of commodities is discounted, particularly in agriculture, which, since 2017, has surpassed food, beverages, and tobacco as the main export group in the country. In Mexico, the concentration in the automotive sector becomes even more pronounced when adjusted for relative prices, since the decline in industrial prices reduces the share of the sector in current values. In both countries, imports are less sensitive to price variations but confirm a strong dependence on intermediate and capital goods of medium-low and medium-high technological intensity, notably chemical, pharmaceutical, and metallic inputs.

KEYWORDS:
Brazil; Mexico; International trade; Relative prices; Productive specialization


1. INTRODUÇÃO

Desde o início dos anos 2000, o debate sobre a pauta comercial de países em desenvolvimento tem se concentrado na especialização regressiva das exportações e no aumento da dependência de insumos importados. A composição das exportações e importações revela não apenas a inserção produtiva externa, mas também os aspectos estruturais que revelam importantes atributos do desenvolvimento econômico. Nesse sentido, a tradição estruturalista latino-americana – tanto nos autores clássicos (tais como Prebish, 1950; Singer, 1950, 1998; Rodríguez et al., 1977) quanto em releituras recentes (Cimoli; Porcile; Rovira, 2010) – enfatiza que os padrões de comércio refletem a posição dos países na lógica centro-periferia. A especialização periférica tende a se concentrar em setores de menor intensidade tecnológica e menor dinamismo, enquanto os países centrais dominam as atividades de maior valor agregado. Essa divisão internacional do trabalho, ao reproduzir desigualdades, impõe restrições externas ao crescimento.

Esse padrão vem sendo evidenciado em diversos estudos sobre Brasil e México. No México, pesquisas como Fujii-Gambero e Cervantes-Martínez (2013, 2017) e Gómez e Camacho (2020) destacam a concentração das exportações em maquilas automobilísticas voltadas ao mercado norte-americano. No Brasil, trabalhos como Castilho, Costa e Torracca (2019) e Nassif e Castilho (2020) apontam a crescente importância de bens agrícolas e minerais, sugerindo um processo de especialização regressiva. Do lado das importações, análises recentes indicam maior dependência de bens intermediários e de capital de alto conteúdo tecnológico, o que reforça a fragilidade das articulações produtivas domésticas (ver Passoni, 2019; Marcato; Ultremare, 2018; Passoni e Blancas, 2021 para Brasil e Fraga-Castillo; Moreno-Brid, 2015 e Fujii-Gambero e Cervantes-Martínez, 2017 para o México). A comparação realizada por Castilho e Puchet (2012) já havia mostrado que os dois países seguiam trajetórias distintas entre 1985 e 2008: enquanto o México consolidava uma especialização industrial no setor automotivo, o Brasil avançava para uma pauta primário-exportadora.

Esse período também foi marcado por fortes oscilações internacionais de preços: de um lado, a elevação das commodities agrícolas e minerais, impulsionada pela demanda global, especialmente da China; de outro, a redução dos preços de bens industriais, em função da expansão da produção asiática e da reorganização das cadeias globais de valor (Prates, 2007; Erten; Ocampo, 2013; Aslam et al., 2016; Silva; Prado; Torracca, 2016; Cypher, 2014; Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, 2017). Essas mudanças não alteram apenas a rentabilidade do comércio exterior, mas afetam diretamente a leitura da composição setorial, já que a preços correntes, setores que registraram aumentos de preços relativos tendem a parecer mais dinâmicos do que realmente são em termos de volume, enquanto aqueles com queda de preços podem ter sua importância subestimada.

Apesar de existirem vários estudos sobre a pauta comercial dos países e sua especialização regressiva, pouco se abordou a análise do impacto dos preços nesse cenário. Uma das razões é a falta de deflatores específicos para o comércio exterior, o que dificulta análises mais detalhadas. Uma forma de se contornar essa limitação é observar os preços relativos, ou seja, considerar o preço de cada grupo de produtos exportados ou importados com o preço médio de cada categoria. Essa abordagem ajuda a perceber se as mudanças na pauta refletem transformações estruturais ou se são apenas resultado de oscilações conjunturais nos preços.

Diante disso, o objetivo deste artigo é analisar comparativamente a estrutura das exportações e importações do Brasil e do México entre 2002 e 2019, depurando os efeitos dos preços relativos, para compreender de que forma a composição setorial dos fluxos comerciais expressa diferentes padrões de especialização. A escolha desses dois países se justifica por representarem os maiores PIBs da região, respondendo por aproximadamente dois terços do total, além de atuarem como importantes hubs comerciais na América Latina (Beaton et al., 2017; Chen; De Lombaerde, 2014).

Nesse sentido, a principal contribuição deste trabalho é oferecer uma comparação entre os fluxos comerciais do Brasil e do México entre 2002 e 2019, depurando os efeitos dos preços relativos na composição das exportações e importações. Parte-se da hipótese de que as variações nos preços relativos influenciam de maneira significativa a interpretação da pauta comercial dos dois países. Espera-se, assim, que no caso brasileiro a especialização regressiva apareça de forma menos intensa quando se desconta o efeito da valorização dos produtos primários, enquanto no caso mexicano a especialização no setor automotivo se mostre ainda mais acentuada em razão da queda nos preços dos bens industriais.

A seguir, apresenta-se a organização das próximas seções. A seção 2 contextualiza a problemática central, discutindo as evidências recentes sobre a pauta de exportações e importações do Brasil e do México (seção 2.1), a interpretação estruturalista latino-americana dos padrões de especialização (seção 2.2) e o papel das mudanças internacionais nos preços relativos como elemento adicional para se compreenderem tais trajetórias (seção 2.3). Já a seção 3 descreve a metodologia adotada para a análise comparativa, enquanto a seção 4 apresenta os resultados empíricos. Por fim, a seção 5 sintetiza as principais conclusões e implicações do estudo.

2. PADRÕES DE ESPECIALIZAÇÃO, ESTRUTURALISMO LATINO-AMERICANO E O PAPEL DOS PREÇOS RELATIVOS

2.1. ESTRUTURALISMO LATINO-AMERICANO E PADRÕES DE ESPECIALIZAÇÃO

A centralidade da composição do comércio para o desenvolvimento foi um dos pilares da tradição estruturalista latino-americana. Para Prebish (1950), Singer (1950, 1998) e Rodríguez et al. (1977), a divisão internacional do trabalho tende a posicionar os países periféricos como exportadores de bens primários e importadores de bens industriais, reproduzindo desigualdades tecnológicas e de produtividade.

Ao contrário da teoria neoclássica do comércio, fundada no teorema de Heckscher-Ohlin (Ohlin, 1933, apudNassif; Castilho, 2020), o qual sugere que a especialização com base em vantagens comparativas geraria ganhos mútuos e equalização de preços no longo prazo, os estruturalistas argumentam que tais diferenças não se corrigem espontaneamente. A crítica central de Prebish (1950) e Singer (1950) é de que não há uma tendência automática à equalização: os produtos primários, que compõem a base exportadora dos países periféricos, são homogêneos, sujeitos a forte concorrência e maior volatilidade de preços; já os produtos industriais, dominados pelos países centrais, possuem diferenciação tecnológica, maior poder de mercado e elasticidade-renda superior.

Assim, mesmo que os preços relativos não se deteriorem continuamente, a própria composição da pauta comercial, orientada por um hiato tecnológico persistente, limita a trajetória de crescimento das economias periféricas. Essa visão foi reforçada com a disseminação daquilo que hoje se chama Lei de Thirlwall, a partir de trabalho publicado em 1979, no qual se demonstra como a restrição externa ao crescimento decorre do desequilíbrio entre as elasticidades-renda das exportações e importações. Mesmo supondo preços relativos estáveis, se a economia exporta bens com baixa elasticidade-renda e importa bens com alta elasticidade-renda, sua taxa de crescimento será limitada pelo balanço de pagamentos1.

Portanto, o problema não reside apenas nos termos de troca, mas na própria composição do comércio, vinculada ao hiato tecnológico. Além disso, como destaca Singer (1998), os países exportadores de bens primários enfrentam maior dificuldade para fixar preços e taxas de lucro, dada a homogeneidade de seus produtos, ao contrário dos industriais, que conseguem preservar margens mais elevadas.

Autores contemporâneos, como Cimoli, Porcile e Rovira (2010), aprofundaram esse argumento ao enfatizar a importância de orientar a estrutura produtiva para setores com maior elasticidade-renda e maior intensidade tecnológica. A convergência das economias em desenvolvimento depende de ganhos de eficiência de dois tipos: a keynesiana, ligada ao dinamismo da demanda internacional, e a schumpeteriana, associada ao progresso tecnológico e à inovação. No caso específico da América Latina, esses autores mostram, a partir de estudos econométricos, que a região permanece concentrada em setores de baixo conteúdo tecnológico e com menor crescimento da demanda internacional.

Modelos multissetoriais ampliaram essa discussão da Lei de Thirwall, incorporando a diferenciação das elasticidades entre bens finais e intermediários (Araújo; Lima, 2007; Gouvêa; Lima, 2010) e destacando que não apenas a pauta exportadora, mas também a importadora, condiciona o crescimento de longo prazo (Ibarra; Blecker, 2016; Trigg, 2020). A literatura mais recente, como Dosi, Riccio e Virgillito (2022), reforça que a questão não se resume a “especializar ou diversificar”, mas sim em qual tipo de especialização ocorre. A inserção em cadeias globais de valor pode mascarar atividades de baixo valor agregado em setores formalmente classificados como tecnológicos, o que é particularmente relevante para entender o caso mexicano.

Assim, a leitura estruturalista sugere que a análise das composições do comércio de Brasil e México não deve se restringir a identificar setores dinâmicos ou regressivos, mas sim avaliar em que medida essas pautas reforçam ou reduzem o hiato tecnológico e as restrições externas ao crescimento.

2.2. PAUTA DE EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES NO BRASIL E NO MÉXICO

À luz da tradição estruturalista latino-americana, a composição das exportações e importações de Brasil e México revela como esses países permanecem inseridos em padrões de especialização que limitam seu crescimento de longo prazo. Embora ambos tenham expandido significativamente seu comércio exterior desde os anos 2000, a natureza setorial e a forma de inserção internacional seguiram trajetórias distintas, expressando diferentes combinações de vulnerabilidades e dependências.

No caso do México, as exportações se concentram fortemente na indústria automotiva e em atividades maquiladoras. A integração com o mercado norte-americano, intensificada após o NAFTA, promoveu uma profunda inserção nas cadeias globais de valor (Castilho; Puchet, 2012), permitindo a expansão de indústrias classificadas como de média-alta e alta intensidade tecnológica. No entanto, como enfatiza a literatura estruturalista, essa aparente sofisticação não corresponde a uma verdadeira transformação estrutural doméstica. A produção local continua fortemente dependente de insumos importados e tarefas de baixo valor agregado, configurando uma especialização em etapas menos dinâmicas das cadeias. Trabalhos como Fujii-Gambero e Cervantes-Martínez (2013, 2017) e Fuentes, Brugués e González (2020) mostram que quase metade das exportações mexicanas está vinculada ao setor automotivo, mas com reduzida capacidade de encadeamento interno.

Do ponto de vista do mercado de trabalho, Murillo-Villanueva, Puchet-Anyul e Fujii-Gambero (2018) mostram que esses setores têm baixa capacidade de geração de empregos com elevada qualificação, o que restringe os efeitos do setor sobre o desenvolvimento doméstico. Passoni (2024) demonstra que embora o setor de equipamentos de transporte tenha respondido por cerca de 11% do crescimento do valor bruto da produção, sua contribuição para o valor adicionado foi de apenas 2%, reflexo de um baixo coeficiente de valor adicionado por causa das elevadas parcelas de insumos importados. Assim, embora o México se beneficie da elevada elasticidade-renda internacional da demanda por automóveis (eficiência keynesiana), sua baixa autonomia tecnológica reduz o potencial de ganhos schumpeterianos.

O Brasil, por sua vez, apresenta trajetória distinta, frequentemente descrita como um processo de especialização regressiva. Estudos como Castilho, Costa e Torracca (2019), Passoni (2019) e Nassif e Castilho (2020) mostram que, desde os anos 2000, a pauta exportadora passou a se concentrar cada vez mais em commodities agrícolas e minerais, sobretudo destinadas ao mercado chinês. O aumento da demanda por soja e minério de ferro ampliou a dependência brasileira desses produtos, ao mesmo tempo em que caiu a participação das indústrias, especialmente no comércio regional com Mercosul e Aladi. Esse movimento reduziu a densidade tecnológica do comércio exterior e deslocou a indústria transformadora da centralidade das exportações. Sob a ótica estruturalista, trata-se de um padrão preocupante, pois reforça a especialização em bens de baixa elasticidade-renda, ainda que recentemente tenham sido favorecidos por ciclos de preços elevados, limitando o dinamismo das exportações no longo prazo e agravando a restrição externa.

Em termos de importações, tanto Brasil quanto México reforçam a dependência estrutural de bens intermediários e de capital, em grande parte de média-alta e alta intensidade tecnológica. No México, essa dependência está diretamente ligada à própria pauta exportadora, e como mostra Passoni e Blancas (2021), mais da metade das importações intermediárias mexicanas em 2018 foi incorporada à produção de bens destinados à exportação, especialmente automóveis e autopeças. Já no Brasil, a estrutura de importações é mais vinculada ao mercado interno. Em 2014, aproximadamente 19% das importações foram destinadas ao consumo final e 27% ao investimento, com peso expressivo de bens de capital e insumos químicos (Passoni, 2019). Esse cenário revela a fragilidade tecnológica doméstica, especialmente em setores voltados à produção agrícola e industrial, em que a formação bruta de capital fixo depende de forma sistemática de importações.

Apesar dos avanços da literatura comparativa, persiste uma lacuna importante: a análise conjunta e detalhada das importações brasileiras e mexicanas. Em geral, os estudos dão maior ênfase às exportações e à especialização associada às vendas externas, enquanto as importações aparecem em segundo plano. No entanto, à luz do estruturalismo, ambas são centrais para se compreender a restrição externa. Exportar bens de baixa elasticidade-renda e importar bens de alta elasticidade-renda intensifica a vulnerabilidade externa e limita o crescimento sustentado. Assim, investigar não apenas a pauta exportadora, mas também a estrutura das importações, é essencial para se avaliar em que medida Brasil e México permanecem presos a padrões de especialização regressiva e a trajetórias de desenvolvimento condicionadas pela dependência tecnológica.

2.3. MUDANÇAS INTERNACIONAIS DOS PREÇOS RELATIVOS

As mudanças nos preços relativos em nível internacional alteram de forma decisiva a leitura da composição das exportações e importações. Quando analisadas apenas em valores nominais, as pautas comerciais podem refletir mais os efeitos conjunturais de variações de preços do que transformações estruturais na especialização produtiva. Observar as oscilações nos preços das commodities e dos bens industriais, portanto, é fundamental para distinguir o que decorre de ganhos de volume em setores específicos daquilo que resulta apenas de choques de preços. Essa perspectiva permite compreender com maior precisão os padrões de especialização de países como Brasil e México, assim como os limites impostos por sua inserção no comércio internacional.

Um dos principais fatores que reconfiguraram os preços relativos no início do século XXI foi o aumento expressivo dos preços das commodities agrícolas (alimentos) e minerais (metais e energia), que constituem uma fração significativa das exportações da região. Esse movimento se concentrou entre 2000 e 2011, impulsionado pela crescente demanda global, especialmente dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), com destaque para a China (Aslam et al., 2016; Erten; Ocampo, 2013; Cypher, 2014).

A partir de 2011, entretanto, houve uma divergência nos movimentos dessas commodities. Os preços da indústria extrativa caíram entre 2011 e 2015, devido tanto ao declínio da economia chinesa quanto ao aumento da oferta, estimulada pelos altos preços anteriores. Michalczewsky (2018) observa que essa queda não foi uniforme, com a substituição de metais menos nobres, como cobre e ferro, por outros, como alumínio e zinco. Por outro lado, os preços das commodities relacionadas à energia se mantiveram relativamente estáveis entre 2011 e 2014, até caírem drasticamente em 2016. A partir de 2017, os preços das commodities retomaram uma trajetória de alta, impulsionados pelos estímulos econômicos da China e pelo aumento dos investimentos nos EUA. No entanto, esse aumento não atingiu os níveis observados no início dos anos 2000.

Enquanto isso, no caso dos bens industriais, observa-se desde a década de 1990 uma redução nos seus preços relativos. Hiratuka e Sarti (2017) e a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (2017) destacam que a principal razão para essa queda foi o aumento da produção industrial em países asiáticos superpopulosos, como a China. Além disso, o aumento dos preços das commodities contribuiu para que o deflator do total da economia subisse a um ritmo superior ao da indústria, o que resultou na queda dos preços relativos dos bens industriais. Rowthorn e Coutts (2004) argumentam que o baixo custo dos insumos importados de países em desenvolvimento, somado à intensificação da concorrência enfrentada pelas empresas dos países desenvolvidos, pressionou ainda mais essa redução.

Os efeitos dessa tendência, contudo, não se aplicam de maneira uniforme. Duarte (2020) mostra que para 155 países, alguns bens de uso específico, como transporte, produtos domésticos e bebidas alcoólicas, apresentaram forte redução nos preços relativos, enquanto outros segmentos foram menos afetados. Cagliarini e McKibbin (2009) identificam padrão semelhante, com queda maior em bens duráveis e menor em bens não duráveis. Para o Brasil, Passoni (2019) documenta reduções tanto na indústria inovativa quanto na tradicional, indicando que a pressão competitiva afetou diferentes perfis tecnológicos.

Mesmo que as recentes flutuações de preços das commodities e industriais não configurem uma reversão definitiva dos padrões históricos, seus efeitos são suficientes para suscitar questionamentos relevantes. Mais do que impactar momentaneamente os saldos comerciais, essas variações afetam a interpretação da especialização produtiva, uma vez que mudanças de preços relativos podem inflar ou reduzir artificialmente a participação setorial na pauta comercial. Assim, ao se analisar o comércio exterior apenas em valores nominais, corre-se o risco de se superestimar ou subestimar o peso de determinados setores, obscurecendo os condicionantes estruturais de longo prazo.

Para os países latino-americanos, esse aspecto é particularmente relevante, dado que a volatilidade dos preços relativos afeta diretamente a leitura das restrições externas ao crescimento. Mesmo em períodos de curta duração, mudanças nos preços podem modificar a trajetória de especialização e a dependência de importações, impactando tanto a dinâmica de crescimento econômico quanto a vulnerabilidade externa. Inclusive, alguns estudos sobre elasticidades comerciais em economias latino-americanas indicam que os fluxos de exportação e importação respondem não só a mudanças de renda, mas também à variação dos preços relativos (Fullerton; Sawyer; Sprinkle, 1999). Dessa forma, a análise dos preços relativos não deve ser vista como mera questão conjuntural, mas como parte integrante da avaliação da inserção internacional e da sustentabilidade do crescimento.

3. METODOLOGIA

A seguir, apresentaremos a metodologia do trabalho em três frentes: na primeira, demonstra-se a metodologia utilizada para calcular a pauta de exportações e importações, controlando o efeito dos preços relativos. Já na segunda, apresenta-se a metodologia utilizada para construir os índices de preço. Por sua vez, na terceira, detalha-se a base de dados e, por último, a classificação setorial empregada.

3.1. PREÇOS RELATIVOS E PAUTA DE EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES

Ao observar se a forma tradicional de cálculo da pauta de exportações e importações (αj,βj), tem-se que a participação de cada setor no total desses fluxos é calculada como a divisão entre as exportações/importações de cada setor (ej, mj) em relação às exportações/importações totais (e, m) (Equações 1 e 2):

α j = e j e (1)
β j = m j m (2)

É comum que o cálculo dessas razões seja realizado a preços correntes, já que por se tratar de uma proporção, os preços presentes no numerador e o denominador anulariam o efeito da inflação. Porém, o que não se dá ênfase na literatura é à presença da variação de preços relativos nessa fração.

Para se observar esse feito, define-se o valor a preços correntes das exportações setoriais (Equação 3) e importações (Equação 4) como sendo formado a partir do preço e do volume (ou quantidade2), inspirado em Passoni (2019), Balk e Reich (2008), Reich (2008) e Hillinger (2002):

e j = e j p × e j v (3)
m j = m j p × m j v (4)

em que ejp e mjp representam os índices de preço e ejv e mjv representam o volume dos bens exportados/ importados por categoria de produto. As exportações/importações (Equações 5 e 6) totais da economia também podem ser definidas a partir do mesmo conceito, e seriam equivalentes a:

e = e p × e v (5)
m = m p × m v (6)

sendo que ep e mp representam os índices de preços e ev e mv o volume das exportações/importações totais.

Como mencionam Balk e Reich (2008), o dinheiro por si só não é uma unidade invariante em termos de poder de compra. A capacidade de compra de cada produto (ou cesta) varia de acordo com uma medida relativa, conhecida como preço relativo. Este é calculado como sendo a razão do preço nominal de um produto em relação a uma cesta de produtos. Logo, se há um aumento/redução no preço relativo de uma categoria de produtos, é então necessário menos/mais quantidade desse produto para se consumir a mesma fração de uma cesta de produtos. O preço relativo daria o “preço real” dos bens de uma categoria, em analogia à nomenclatura macroeconômica de taxa de juros “real” ou salário “real”.

Ao se substituírem as Equações 3, 4, 5 e 6 na Equação 1, tem-se a pauta de exportações (Equação 7) e importações (Equação 8) expressas a partir da variação dos preços relativos e do volume:

α j = e j e = e j p e p × e j v e v (7)
β j = m j m = m j p m p × m j v m v (8)

Com o objetivo de se observarem as diferenças entre as participações em volume (ou deflacionada) e a preços correntes, define-se αjv e βjv como as participações em volume do setor j no total das exportações deflacionadas, tal como nas Equações 9 e 10:

α j v = e j v e v (9)
β j v = m j v m v (10)

A partir das Equações 7 e 8, observa-se que a participação setorial na pauta de exportações/importações a preços correntes consiste na razão do preço setorial das exportações/importações do setor j em relação ao deflator do total das exportações (ejp/ep e mjp/mp), multiplicada pela razão das exportações/importações setoriais em volume pelo total das exportações/importações em unidades de volume (αjv e βjv). Assim sendo, a diferença entre a participação a preços correntes em volume consiste na relação de preços relativos do setor j e o total da economia.

Os preços relativos tendem a variar ao longo do tempo, em decorrência de mudanças estruturais, progresso tecnológico, produtividade e alterações no nível de renda, como argumentam Balk e Reich (2008) e Organização das Nacões Unidas (2009). Dessa forma, adicionam-se elementos para a análise estrutural ao se analisar a composição da pauta dos fluxos comerciais considerando os preços relativos das exportações (ejp/ep) e importações (mjp/mp). Além do mais, apesar de não ser tema de estudo neste trabalho, a variação dos preços relativos tende a ter efeitos reais para o direcionamento da produção para bens que são transacionados no mercado internacional com maior preço.

3.2. DEFLAÇÃO DOS DADOS

Como mencionado na seção 2.1, um dos elementos fundamentais da análise estruturalista cepalina é a importância dos preços relativos das importações e exportações, expressos a partir dos termos de troca. Para capturar o efeito da variação das pautas de exportações e importações em termos de volume (isolando o efeito dos preços relativos), são calculados neste estudo índices de preços do tipo Fisher para as cestas dos produtos.

O índice de Fisher é derivado da média geométrica dos índices de Paasche e Laspeyeres. Enquanto no primeiro as quantidades são mantidas fixas no período mais recente (de referência), no segundo se mantém fixa a cesta do período anterior. Esse tipo de índice possui propriedades ideais importantes, tais como reversibilidade temporal, reversibilidade de fatores, circularidade, determinação e consistência na agregação, como argumentam a Organização das Nacões Unidas (2009), Silva, Prado e Torracca (2016) e Gameiro e Caixeta-Filho (2010).

O índice de Fisher (fi,j,ht,t+1) para um par de anos (t e t+1) pode ser expresso como (Equação 11):

f i , j , h t , t + 1 = i = 1 n p i , j , h t + 1 q i , j , h t i = 1 n p i , j , h t q i , j , h t × i = 1 n p i , j , h t + 1 x i , j , h t + 1 i = 1 n p i , j , h t x i , j , h t + 1 (11)

em que pi,j,h expressa o preço unitário e qi,j,h a quantidade para os i produtos, os j países (Brasil e México) e para h fluxo de comércio (exportações e importações). Note que cada índice de preço é calculado para um par de anos, sendo que se para obter uma série para um período longo de anos, é necessário o encadeamento dos índices de preços por meio da multiplicação dos índices anuais, como descrito a seguir (Equação 12):

F i , j , q t * , τ = t = t * T f i , j , q t , t + 1 (12)

em que t é o ano inicial da série, T o ano final, τ representa o índice de preço acumulado, e t* o ano base (referência). Um índice de Fisher encadeado gera índices transitivos (Organização das Nacões Unidas, 2009), o que amplia sua cobertura e reduz o viés da comparação sequencial pela mudança da composição das cestas (período de referência em relação os outros períodos). Os índices Fi,j,qt*,τ serão equivalentes a ep e mp da seção 3.1, porém considerando as variações até o ano acumulado τ.

De posse dos índices de preço, é possível agora calcular o valor em volume das exportações e importações (Vi,j,qt*,τ) para cada categoria de produto, por meio da divisão do valor nominal (xi,j,qτ) pelo índice de preço de Fisher (Fi,j,qt*,τ) (Equação 13):

V i , j , q t * , τ = x i , j , q τ F i , j , q t * , τ (13)

Observe que xi,j,qτ é o valor (preço unitário multiplicado pela quantidade) a preços correntes das exportações/importações setoriais para cada categoria de produto em cada um dos países, equivalente a ej e mj da seção 2.1.

Quando se deflaciona cada produto ou grupo de produtos pelo seu próprio deflator, a soma das partes pode resultar em um total diferente do todo, ou seja, o total das exportações e importações deflacionadas pelo seu próprio deflator não será igual à soma dos valores individuais (Organização das Nacões Unidas, 2009). Esse fenômeno ocorre devido ao processo de encadeamento de índices e à utilização de uma base móvel, o que é conhecido como não aditividade. Para contornar essa questão e facilitar a comparação com a pauta de exportações e importações a preços correntes — em que a soma total das parcelas é igual a 100% —, optou-se por criar um valor total em volume a partir da soma das categorias deflacionadas.

3.3. BASE DE DADOS E CLASSIFICAÇÃO MULTISSETORIAL

A base de dados utilizada neste estudo é a BACI, que compila informações sobre comércio exterior em nível de produto, publicada pelo CEPII (Centre d’Études Prospectives et d’Informations Internationales), conforme a metodologia apresentada por Gaulier e Zignago (2010). Essa base oferece dados anuais sobre quantidades e valores para cada produto exportado e importado, de acordo com sua origem e destino3.

Para a escolha da periodicidade da análise, foram comparadas as versões do HS 1996 e HS 2002 da BACI. Os ajustes realizados mostraram que a perda de informações foi maior no HS 1996 (40% das exportações e 30% das importações no Brasil, e 25% e 45% para o México) em comparação com o HS 2002 (30% e 25% para o Brasil, e 20% e 30% para o México). Dessa forma, optou-se pela versão do HS 2002, que contém dados publicados entre 2002 e 2019, garantindo a manutenção de pelo menos 70% das informações para cada um dos países. Embora a perda de dados entre 1996 e 2002 exclua transformações importantes ocorridas após a abertura comercial e a assinatura do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, em 1994) pelo México, a análise a partir de 2002 possibilita identificar padrões que se consolidaram após essa primeira transformação.

No que diz respeito à deflação dos dados, utilizou-se a Equação 11 para se calcularem os valores das cestas a preços do ano anterior e a preços correntes, considerando o preço unitário de cada produto. Em seguida, foram estimados os índices anuais de Fisher a partir dos índices de Paasche e Laspeyres. É importante ressaltar que os índices de preços são construídos a partir do valor das cestas, permitindo a agregação das diferentes quantidades presentes em cada conjunto de produtos. Após isso, foram calculados os índices de preços acumulados para a série, considerando 2002 como o ano base. Por fim, estimaram-se os valores deflacionados para cada categoria de produto, obtendo-se, assim, o total das exportações e importações por meio da soma desses produtos.

Para se organizar a apresentação dos dados e se analisarem as estruturas de especialização e diversificação dos produtos importados e exportados, os produtos foram classificados em duas categorias: uma mais desagregada, que agrupa os produtos em grandes grupos de atividades, e outra por intensidade tecnológica. Na primeira categoria, consideraram-se 12 grandes grupos, listados a seguir:

  • A01 – Agropecuária;

  • A02 – Extrativa mineral, exceto petróleo;

  • A03 – Petróleo e gás natural, extração e refino;

  • A04 – Alimentos, bebidas e fumo;

  • A05 – Têxtil, vestuário e calçados;

  • A06 – Siderurgia e metalurgia;

  • A07 – Cimento e outros produtos de minerais não-metálicos;

  • A08 – Complexo químico-farmacêutico;

  • A09 – Outros produtos da indústria;

  • A10 – Equipamentos de transporte, exceto automotivos;

  • A11 – Automotivo;

  • A12 – Bens de capital e TICs (tecnologias da informação e comunicação).

A segunda categoria tem como objetivo classificar os produtos de acordo com sua intensidade tecnológica, com base na classificação da OECD (Galindo-Rueda; Verger, 2016). As categorias são as seguintes:

  • Não industriais;

  • Baixa intensidade tecnológica;

  • Média-baixa intensidade tecnológica;

  • Média-alta intensidade tecnológica;

  • Alta intensidade tecnológica.

Embora as classificações utilizadas neste estudo, especialmente a da OECD por intensidade tecnológica, sejam amplamente reconhecidas e adotadas, é importante reconhecer que cada uma delas possui suas limitações, particularmente no contexto dos países em desenvolvimento. A classificação da OECD pode não refletir adequadamente as particularidades e as dinâmicas econômicas desses países, pois foi elaborada com base em economias mais desenvolvidas e pode não capturar as nuances da produção e da especialização nos mercados emergentes. Apesar dessas restrições, optou-se por se utilizarem essas classificações, uma vez que são as mais amplamente empregadas na literatura e facilitam a comparação dos resultados entre diferentes estudos. Essa escolha busca garantir uma base comum para a análise, permitindo uma melhor interpretação dos padrões de especialização e diversificação dos produtos importados e exportados pelos países em desenvolvimento.

4. RESULTADOS

A principal contribuição deste trabalho é fornecer uma comparação detalhada dos fluxos comerciais entre Brasil e México entre 2002 e 2019, levando em conta o efeito dos preços relativos na composição das exportações e importações. Antes de discutir a composição das exportações e importações a preços constantes e correntes, o Gráfico 1 apresenta a razão dos preços relativos desagregada por intensidade tecnológica (os preços relativos por grandes categorias estão disponíveis no Apêndice A). A principal diferença entre essas duas métricas está no preço relativo da cesta de produtos exportados/importados em relação ao preço médio das exportações/importações de cada país. Setores cujos produtos apresentem variações de preços relativos maiores (ou menores) do que a média estarão posicionados acima (ou abaixo) de 1. Isso significa que as categorias com variações de preços superiores a 1 terão uma participação maior na pauta de exportações/importações a preços correntes em comparação ao volume, isolando assim o efeito dos preços relativos. Vale destacar esse gráfico expressa o preço relativo de cada país, ou seja, os índices de preços em relação ao que cada país exporta ou importa. Esses índices são comparáveis apenas em termos relativos, pois os índices usados no numerador e denominador das equações para Brasil e México são diferentes.

Gráfico 1
Preços relativos das exportações/importações de acordo com a intensidade tecnológica em relação aos preços das exportações/importações totais, Brasil e México, 2002/2019

No caso da economia mexicana, as categorias de produtos exportados que apresentaram uma tendência de aumento nos preços relativos foram aquelas dos produtos não industriais, especialmente aqueles associados à extração mineral, petróleo e gás natural, principalmente entre 2005 e 2014. Em contrapartida, os grupos industriais (de baixa, média-baixa, média-alta e alta intensidades tecnológicas) registraram uma queda nos preços relativos. Entre os grandes grupos de atividades econômicas, destacam-se as quedas nos preços relativos do setor automotivo, do complexo químico-farmacêutico e do setor de alimentos e bebidas. Esses resultados corroboram as evidências de estudos globais, como os de Duarte (2020) e Cagliarini e McKibbin (2009).

Uma tendência semelhante foi observada nos produtos importados pelo México, com um aumento nos preços dos produtos não industriais e uma redução nos preços dos bens industriais (baixa, média-baixa e média-alta intensidades tecnológicas). No entanto, a categoria de produtos de alta intensidade tecnológica mostrou um aumento nos preços relativos, especialmente em bens de capital e TICs. Esse comportamento divergente entre os preços dos bens exportados e importados pode estar relacionado à composição das cestas: os produtos de alta intensidade tecnológica exportados provavelmente enfrentam maior concorrência internacional ou incorporaram processos produtivos que contribuem para a redução dos preços.

No caso brasileiro, observa-se uma maior amplitude nas variações dos preços relativos em comparação à economia mexicana. Destacam-se os aumentos nos preços relativos em duas categorias de bens exportados: os produtos não-industriais e as indústrias de média-baixa intensidade tecnológica. Ao se desagregarem os dados, verifica-se que as categorias de produtos não-industriais com maior incremento nos preços relativos são semelhantes às da economia mexicana, especialmente nos setores de extração mineral, petróleo e gás natural. Esse processo foi mais intenso entre 2000 e 2011, com uma recuperação gradual entre 2015 e 2019.

No que se refere às indústrias de média-baixa intensidade tecnológica, houve um aumento significativo até 2008 no grupo de siderurgia e metalurgia, e entre 2015 e 2019, nos produtos dos grupos do complexo químico-farmacêutico, têxteis, vestuário e calçados, com destaque para artigos de couro. Além disso, merece atenção a redução dos preços relativos dos produtos de alta intensidade tecnológica, que, em média, caíram até 40% ao longo do período analisado. Esse movimento foi impulsionado principalmente pelo setor de bens de capital e TICs, como aparelhos de transmissão para rádio, televisão e telefonia.

Observa-se, ainda, um aumento nos preços relativos dos produtos não-industriais importados pelo Brasil, com destaque para itens como petróleo, carvão, cobre e alguns produtos alimentícios, como frutas, peixes e cereais duros. Um resultado interessante é que, ao contrário da economia mexicana, os bens importados de alta intensidade tecnológica no Brasil apresentam uma redução nos seus preços relativos, destacando-se produtos do complexo químico-farmacêutico (vacinas, antibióticos e medicamentos à base de insulina), transporte (aeronaves) e bens de capital e TICs (computadores portáteis, de mesa, e equipamentos de som e gravação). As demais categorias industriais — de média-baixa, média e média-alta intensidades tecnológicas — também registram uma queda nos seus preços relativos, o que contribui para que esses setores representem uma menor parcela na composição das importações brasileiras.

O Gráfico 2 apresenta a média da participação das exportações e importações por grandes atividades econômicas para o Brasil e o México entre 2000 e 2019, tanto em preços correntes (PC) quanto em preços constantes/volume (VL). As informações para anos selecionados (2000, 2007, 2011, 2015 e 2019) são exibidas na Tabela 1 para as grandes categorias e na Tabela 2 por intensidade tecnológica.

Gráfico 2
Composição média das exportações (X) e importações (M) de acordo com a intensidade tecnológica a preços correntes (PC) e volume (VL), México e Brasil, 2002/2019
Tabela 1
Composição das exportações e importações por intensidade tecnológica a preços correntes (PC) e volume (VL), México e Brasil, anos selecionados
Tabela 2
Composição das exportações e importações de acordo com grandes grupos de atividades econômicas a preços correntes (PC) e volume (VL), México e Brasil, anos selecionados

Observa-se no Gráfico 2 que a economia mexicana é menos influenciada pelos preços relativos em comparação à brasileira. Enquanto no México a ordenação das principais atividades na pauta de importações não apresenta mudanças, e apenas duas categorias alteram a ordem na pauta de exportações (petróleo e gás natural, e bens de capital e TICs), o Brasil registra variações significativas na ordenação de quase todos os setores, tanto nas exportações quanto nas importações. Esse resultado pode ser parcialmente explicado pela menor variação dos preços relativos no México em relação ao Brasil, mas principalmente pela diferença no grau de concentração das pautas de exportações e importações.

O México tem uma maior concentração de exportações em comparação ao Brasil. Em termos de volume, 43,4% das exportações mexicanas correspondem ao setor automotivo, uma proporção superior à observada a preços correntes (36,6%), devido à queda dos preços relativos dessa categoria de bens. A concentração da pauta nesses bens é condizente com o que indicam estudos prévios (ver Fujii-Gambero; Cervantes-Martínez, 2013, 2017; Fuentes; Brugués; González, 2020; Castilho; Puchet, 2012), porém, a contribuição deste estudo é demonstrar que a especialização é ainda mais intensa em preços constantes. Do lado das importações, o setor automotivo corresponde a 12,3% a preços correntes e 14% em volume, também impactado pela queda dos preços relativos.

O segundo e o terceiro lugares em termos de participação nas exportações mexicanas pertencem às categorias de bens de capital e TICs e petróleo e gás natural. No entanto, a ordenação difere quando consideramos os dados a preços correntes ou em volume. No caso dos bens de capital e TICs, a participação média em volume (17,5%) é menor do que a preços correntes (19,3%), indicando que o aumento dos preços relativos dessa categoria eleva sua participação a preços correntes. Observa-se também um aumento dos preços relativos para o setor de petróleo e gás natural, em que a participação em volume (13,4%) é significativamente menor do que a preços correntes (20,5%). Quando isolados os efeitos dos preços relativos, fica claro que, em termos de volume, o setor de petróleo e gás vem perdendo participação progressivamente na pauta de exportações mexicanas desde 2002. A alta nos preços dessa categoria entre 2002 e 2008 aumentou sua participação a preços correntes, mas essa participação declinou até atingir seu mínimo em 2019.

No Brasil, a pauta de exportações é mais impactada pelo processo de deflacionamento, uma vez que, nos últimos anos, o país tem se especializado em setores com maiores variações de preços, como alimentos, bebidas e fumo; agropecuária; extrativa mineral, petróleo e gás; e o complexo químico-farmacêutico. Ao se compararem os setores tradicionalmente associados à especialização produtiva (agropecuária, extrativa mineral, petróleo e gás), a participação média desses setores a preços correntes entre 2002 e 2019 foi de 37%, subindo de 23,8% para 46,1% ao longo do período. Em termos de volume, embora também tenha havido um aumento (de 23,8% para 42%), a média correspondente para esse grupo foi menor, em torno de 31,6%. Assim, embora esse resultado confirme as evidências apresentadas por Castilho e Puchet (2012) e Nassif e Castilho (2020) sobre um processo de especialização regressiva na pauta de exportações, o aumento dos preços relativos sugere uma especialização mais intensa do que aquela que o volume isoladamente indicaria. Esse resultado é semelhante ao encontrado por Passoni (2019) ao analisar a pauta de exportações a partir dos dados das matrizes insumo-produto brasileiras entre 2000 e 2015.

Além disso, ao se isolar o efeito dos preços, percebe-se que a especialização regressiva está mais associada ao setor agropecuário, cuja participação aumentou de 11,6% em 2002 para 25% em 2019, atingindo 30% em 2018. Os produtos das categorias de petróleo e gás, assim como os da extrativa mineral, apresentam variações mais significativas quando comparados a preços correntes (PC) e volume (VL), cujas participações são virtualmente superiores entre 2004 e 2011, devido ao aumento dos preços relativos desses produtos. Por exemplo, no setor de extrativa mineral, a diferença entre as duas métricas chega a quase 14% em 2011, com a participação em volume sendo de 10,5%, enquanto se atinge 24,2% a preços correntes.

Outro aspecto relevante da pauta de exportações brasileira é a participação do setor de alimentos, bebidas e fumo, cuja média entre 2002 e 2019 é seis pontos percentuais a mais em termos de volume (29%) em comparação a preços correntes (22%). A queda nos preços relativos foi mais acentuada entre 2002 e 2011, porém, nos anos subsequentes, o preço relativo desse setor continuou abaixo da média dos produtos exportados.

O Gráfico 2 mostra que no caso do México, os preços relativos têm uma influência menor sobre as importações em comparação às exportações. Isso se deve ao fato de que as categorias com maior demanda por bens importados apresentam menores variações de preço, como o complexo químico-farmacêutico (30,7% em PC e 30,8% em VL), bens de capital (19% em PC e 16% em VL) e siderurgia e metalurgia (14,4% em PC e 15,6% em VL). O grupo de produtos do complexo químico-farmacêutico se concentra majoritariamente em bens de média-alta intensidade tecnológica (70%), com foco em compostos químicos derivados do petróleo, como hidrocarbonetos, polímeros e policarbonatos, além de fragrâncias para a indústria de bebidas e alimentos. No que diz respeito aos bens de alta intensidade tecnológica no setor químico-farmacêutico (30%), quase 70% das importações são medicamentos.

Analisando-se as importações brasileiras, as principais atividades em termos de participação média são: complexo químico-farmacêutico (26% em PC e 29% em VL), petróleo e gás natural (22% em PC e 14% em VL), bens de capital e TICs (16% em PC e 20% em VL) e automóveis (13% em PC e 15% em VL). É importante notar que o ordenamento dessas atividades varia dependendo da forma de precificação, indicando, assim, que a variação dos preços relativos é crucial para se determinar a importância desses setores na pauta de importações. Dentre essas categorias, a única que apresenta uma superestimação em termos de participação é a de petróleo e gás, devido ao aumento dos preços relativos. No caso das demais, há uma subestimação de suas participações a preços correntes, revelando, assim, que esses bens representam uma parcela maior da estrutura de importações quando analisados em volume.

Ao se examinar a taxa de crescimento da participação das importações no Brasil, destaca-se o setor do complexo químico-farmacêutico, especialmente no segmento de média intensidade tecnológica (indústria química tradicional com produtos como fertilizantes, fungicidas e outros compostos químicos orgânicos). A preços correntes, esse setor apresentou um crescimento de 27% para 29% entre 2000 e 2019, enquanto em volume, a proporção atingiu 32%, representando um aumento acumulado de 10%. No caso do setor automotivo, que ocupa o terceiro lugar na proporção dos bens importados, houve crescimento apenas em volume, passando de 12% para 13,2%, enquanto a preços correntes houve uma redução de 7%.

A Tabela 2 mostra que as exportações do México se concentram nos bens de média-alta intensidade tecnológica (MAT), principalmente no setor automotivo. Entre 2000 e 2019, essa categoria aumentou sua participação em volume em 36% (de 50% para 69%), cifra superior à observada a preços correntes, em que o crescimento foi de 28,6% (de 50% para 65%). Por outro lado, a atividade que mais perdeu importância relativa no México foi a do setor de alta intensidade tecnológica, cuja participação caiu de 10% em 2002 para apenas 3,15% em 2019. Ao se desagregarem os dados por produto, nota-se que essa queda se concentrou na exportação de máquinas de processamento de dados, como computadores portáteis e desktops. Outro setor que sofreu uma redução significativa foi o de produtos não industriais, com queda de 22% a preços correntes e 38% em volume, devido, em grande parte, à redução das exportações de petróleo. Conforme a Tabela 2, a atividade de petróleo e gás reduziu sua participação no total das exportações em dez pontos percentuais, passando de 17% para 7% em volume entre 2000 e 2019.

No caso do Brasil, verifica-se uma ampliação do peso dos produtos não industriais na pauta exportadora. Esse movimento, entretanto, é mais expressivo quando medido a preços correntes — a participação sobe de 23,5% para 46% — do que em termos de volume, que cresce de 23,5% para 37%. Essa diferença reflete, em grande medida, a variação dos preços nos setores de extrativa mineral, petróleo e gás, já discutida anteriormente. De forma semelhante ao que se observa no México, a desagregação por produto revela que a principal queda se concentra nas exportações de petróleo. Em contrapartida, nota-se um aumento da participação em volume dos setores de média-baixa intensidade tecnológica, sobretudo ferro, ferroligas, ferronióbio e álcool desnaturalizado. Contudo, esse crescimento ocorreu apenas em volume, uma vez que os preços relativos desses bens apresentaram trajetória de queda no período, como indicado no Gráfico 1.

Semelhantemente ao que se observa no México, o setor de alta intensidade tecnológica foi o que apresentou a maior redução na participação das exportações brasileiras. Em termos de volume, sua participação caiu de 9,22% para apenas 2,15% no período analisado. Entre os produtos que mais contribuíram para essa retração, destacam-se aeronaves e aparelhos de transmissão. Quando analisados a preços correntes, os resultados revelam uma queda ainda mais expressiva, chegando a apenas 1,2% em 2019. Esse movimento está associado, sobretudo, à redução nos preços relativos dos bens dessa categoria, com destaque para os produtos eletrônicos, o que agravou a perda de relevância desse segmento na pauta exportadora brasileira.

Outro ponto em comum entre Brasil e México é a elevada dependência de bens importados de média-baixa e média-alta intensidades tecnológicas. No primeiro grupo, predominam insumos básicos, como alumínio, aço, ferro, plásticos, borrachas e pneus. No caso brasileiro, sobressaem-se ainda óleos derivados de petróleo ou carvão com alto teor de concentração, além de produtos de cobre. Já no México, as importações estão mais associadas a bases metálicas para a indústria automotiva, reforçando a centralidade das maquilas nesse setor.

No grupo de média-alta intensidade tecnológica, a demanda se concentra, em ambos os países, no complexo químico-farmacêutico. No Brasil, esse padrão está ligado sobretudo à importação de fertilizantes, fungicidas e outros compostos químicos orgânicos, enquanto no México predominam derivados de petróleo, como solventes, polímeros e plásticos. Essa correlação entre as estruturas de exportação e os insumos demandados é bastante clara: a especialização agropecuária no Brasil reforça a dependência de insumos químicos, enquanto a concentração mexicana no setor automotivo está diretamente associada às importações de derivados de petróleo e produtos metálicos. Esse movimento aprofunda fragilidades estruturais, sobretudo a partir de 2011, quando os bens de média-alta intensidade tecnológica ganharam maior espaço em relação a outros setores, como bens de capital e TICs, que tradicionalmente abasteciam parte da oferta interna, mas perderam relevância diante da crescente fragmentação e desverticalização produtiva.

Por fim, no caso dos bens de alta intensidade tecnológica, a participação das importações gira em torno de 8% em ambas as economias, mas com padrões distintos. No Brasil, a redução dos preços relativos faz com que a importância desse grupo seja subestimada, enquanto no México ocorre o oposto, ocorrendo uma superestimação. Essa diferença decorre da composição específica: no México, as importações se concentram em circuitos, máquinas e equipamentos de recepção e transmissão, cujos preços relativos aumentaram; no Brasil, incluem aeronaves, circuitos, instrumentos de controle e calibração, além de computadores, que registraram quedas nos preços relativos ao longo do período.

Em síntese, tanto Brasil quanto México revelam um padrão de dependência externa que reforça suas especializações produtivas: o Brasil, voltado a exportações primárias, apoia-se fortemente em insumos químicos e bens intermediários importados; o México, especializado na indústria automotiva, depende de insumos metálicos e derivados de petróleo para sustentar suas maquilas. Essa interdependência entre exportações e importações reforça a vulnerabilidade estrutural das duas economias, pois limita o espaço para upgrading tecnológico doméstico e amplia a exposição a choques externos. Além disso, a persistente demanda por insumos de média e alta intensidades tecnológicas evidencia que, mesmo em trajetórias setoriais distintas, ambos os países permanecem inseridos em posições subordinadas nas cadeias globais de valor, o que aprofunda o hiato tecnológico e condiciona suas possibilidades de crescimento de longo prazo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo buscou analisar comparativamente a pauta de exportações e importações do Brasil e do México entre 2002 e 2019, depurando os efeitos dos preços relativos para se distinguirem mudanças conjunturais de transformações estruturais. Os resultados confirmam a hipótese inicial: os preços relativos afetam de forma significativa a interpretação da composição comercial dos dois países. Observou-se que a composição das importações é menos sensível a variações de preços do que as exportações, mas ainda assim desempenha papel crucial na definição das restrições externas ao crescimento. Para o Brasil, o impacto é particularmente relevante, já que suas exportações estão concentradas em setores sujeitos a fortes oscilações de preços, como a extrativa mineral e o complexo de petróleo e gás.

Quanto à caracterização setorial, os resultados reforçam a literatura sobre especialização regressiva no caso brasileiro (Castilho; Puchet, 2012; Nassif; Castilho, 2020; Castilho; Costa; Torracca, 2019), ainda que esse processo seja atenuado quando se desconta a valorização de determinados produtos primários, em especial a agropecuária, que supera alimentos, bebidas e fumo como principal grupo exportador a partir de 2017. No México, a concentração no setor automotivo (Gómez; Camacho, 2020; Fujii-Gambero; Cervantes-Martínez, 2013) é ainda mais intensa quando ajustada pelos preços relativos, já que a queda dos preços industriais reduz a participação setorial em valores correntes. Além disso, destacam-se a perda contínua de relevância de petróleo e gás no total exportado e a ascensão de setores de média-alta intensidade tecnológica, como siderurgia e metalurgia.

Do lado das importações, Brasil e México apresentam elevada dependência de bens intermediários e de capital, sobretudo de média-baixa e média-alta intensidades tecnológicas, com destaque para químicos, farmacêuticos e insumos metálicos. Essa estrutura, embora similar nas grandes categorias, revela diferenças relevantes: enquanto no México prevalecem derivados de petróleo e bases metálicas para a indústria automotiva, no Brasil predominam fertilizantes, fungicidas e máquinas ligadas ao setor agrícola. A convergência reside, contudo, em que ambos importam setores dinâmicos e exportam setores de menor elasticidade-renda, aprofundando o hiato tecnológico.

À luz da tradição estruturalista, esse padrão de inserção internacional é preocupante. Ao se exportarem bens de baixa elasticidade-renda e importarem aqueles que concentram os ganhos keynesianos (demanda internacional) e schumpeterianos (inovação tecnológica), tanto Brasil quanto México reforçam sua vulnerabilidade externa e limitam seu potencial de convergência com economias centrais. Trata-se de uma inserção marcada por concorrência via preços nas exportações e via diferenciação tecnológica nas importações, o que gera margens assimétricas de rentabilidade e desarticula cadeias produtivas domésticas.

Por fim, cabe ressaltar que os resultados se referidos ao período analisado em dólares, de modo que apreciações ou desvalorizações cambiais em moeda local poderiam alterar as trajetórias aqui observadas. Como extensão futura, seria relevante se considerar simultaneamente a dimensão geográfica, uma vez que a especialização não se concentra apenas em setores, mas também em destinos comerciais específicos (Castilho; Puchet, 2012). Incluir a interação entre sócios comerciais e padrões setoriais de preços relativos abriria novas possibilidades para se compreenderem com maior profundidade os limites e as alternativas de inserção externa de Brasil e México.

APÊNDICE A – PREÇOS RELATIVOS POR GRANDES CATEGORIAS

Tabela A.1 Preços relativos das exportações de acordo com grandes grupos de atividades econômicas, México e Brasil, 2002-2019 (2002=1,000)
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
México
Agropecuária 1,000 1,155 1,218 1,192 1,048 1,255 1,565 1,336 1,295 1,619 1,396 1,582 1,545 1,269 1,264 1,239 1,197 1,196
Extrativa mineral, exceto petróleo 1,000 0,973 0,823 0,868 1,023 1,217 0,864 0,983 1,056 1,258 1,475 0,990 0,909 0,941 0,973 0,940 1,001 1,020
Petróleo e gás natural, extração e refino 1,000 1,016 1,118 1,067 1,489 1,622 1,946 1,589 1,863 1,878 1,747 1,882 1,690 1,593 1,550 1,722 1,534 1,386
Alimentos, bebidas e fumo 1,000 0,973 0,950 0,963 0,861 0,945 0,945 0,877 0,894 0,935 0,951 0,967 0,955 0,913 0,916 0,916 0,845 0,895
Têxtil, vestuário e calçados 1,000 1,000 0,927 0,956 0,796 0,791 0,783 0,755 0,787 0,878 0,769 0,757 0,752 0,748 0,747 0,744 0,746 0,725
Siderurgia e metalurgia 1,000 0,966 0,983 0,931 1,004 1,081 1,033 0,947 0,948 0,921 0,894 0,821 0,827 0,860 0,842 0,858 0,848 0,865
Cimento e outros produtos de minerais não-metálicos 1,000 1,014 0,939 1,023 1,049 1,030 0,961 0,992 0,946 0,932 0,917 0,944 0,985 1,012 1,127 0,983 0,891 0,930
Complexo químico-farmacêutico 1,000 0,971 0,997 0,988 1,039 1,044 1,040 0,947 0,977 0,998 0,994 0,984 1,024 1,006 0,991 0,993 1,017 0,999
Outros produtos da indústria 1,000 0,954 0,888 0,930 0,892 0,864 0,820 0,888 0,814 0,765 0,798 0,747 0,779 0,802 0,823 0,808 0,826 0,822
Equipamentos de transporte, exceto automotivos 1,000 0,885 0,802 0,811 0,926 0,889 0,864 0,942 0,915 0,793 0,953 0,927 0,930 1,027 1,020 0,994 1,094 1,096
Automotivo 1,000 0,955 0,907 0,931 0,931 0,919 0,886 0,893 0,819 0,740 0,803 0,804 0,791 0,836 0,836 0,893 0,920 0,949
Bens de capital e TICs 1,000 1,113 1,118 1,149 1,132 0,975 0,957 1,275 1,273 1,195 1,241 1,277 1,224 1,296 1,342 1,278 1,286 1,243
Brasil
Agropecuária 1,000 1,087 0,981 0,818 0,865 0,976 1,130 1,002 1,114 1,189 1,069 1,165 1,165 1,099 1,284 1,213 1,130 1,192
Extrativa mineral, exceto petróleo 1,000 1,315 1,765 2,086 2,548 2,912 1,809 2,270 3,092 3,698 2,788 2,284 1,976 1,990 2,003 2,849 2,808 3,196
Petróleo e gás natural, extração e refino 1,000 1,118 1,288 1,523 1,713 1,807 2,000 1,390 1,703 1,870 1,762 1,945 1,886 1,315 1,035 1,240 1,440 1,269
Alimentos, bebidas e fumo 1,000 0,978 0,937 0,867 0,837 0,863 0,903 0,926 0,898 0,911 0,907 0,907 0,942 0,988 1,070 1,050 0,965 0,971
Têxtil, vestuário e calçados 1,000 0,817 0,791 0,755 0,737 0,698 0,660 0,646 0,596 0,575 0,613 0,565 0,636 0,748 0,742 0,662 0,632 0,662
Siderurgia e metalurgia 1,000 1,060 1,183 1,176 1,325 1,292 1,123 1,107 1,171 1,180 1,123 1,024 1,040 1,114 1,164 1,151 1,134 1,136
Cimento e outros produtos de minerais não-metálicos 1,000 0,934 0,853 0,778 0,710 0,679 0,648 0,797 0,658 0,664 0,663 0,673 0,698 0,819 0,904 0,870 0,846 0,820
Complexo químico-farmacêutico 1,000 0,951 0,926 0,891 0,819 0,810 0,835 0,868 0,822 0,834 0,840 0,811 0,793 0,885 0,886 0,854 0,855 0,895
Outros produtos da indústria 1,000 0,963 0,850 0,787 0,767 0,766 0,692 0,856 0,749 0,755 0,745 0,727 0,775 0,913 0,954 0,846 0,847 0,899
Equipamentos de transporte, exceto automotivos 1,000 0,859 0,709 0,619 0,506 0,510 0,559 0,773 0,656 0,580 0,611 0,584 0,576 0,651 0,723 0,637 0,596 0,745
Automotivo 1,000 0,956 0,864 0,839 0,808 0,759 0,705 0,873 0,790 0,709 0,777 0,752 0,781 0,891 0,948 0,870 0,804 0,814
Bens de capital e TICs 1,000 0,958 0,885 0,796 0,733 0,688 0,647 0,779 0,688 0,629 0,670 0,656 0,678 0,791 0,851 0,802 0,759 0,761
  • Fonte: elaborado pelos autores com base na BACI (versão HS-2002), publicado em Gaulier e Zignago (2010) e com classificação disponível em Galindo-Rueda e Verger (2016).
  • Tabela A.2 Preços relativos das importações de acordo com grandes grupos de atividades econômicas, México e Brasil, 2002-2019 (2002=1,000)
    México
    Agropecuária 1 1,290117 1,45381 1,459774 1,314735 1,67611 2,281369 1,818921 1,881492 2,500527 2,129982 2,52903 2,448273 1,851188 1,749971 1,752071 1,778201 1,772619
    Extrativa mineral, exceto petróleo 1 1,086139 0,981604 1,062624 1,282525 1,625374 1,258962 1,338441 1,534662 1,943154 2,250417 1,582119 1,440951 1,372046 1,347945 1,329493 1,486758 1,511792
    Petróleo e gás natural, extração e refino 1 1,134775 1,334488 1,306009 1,867703 2,167295 2,836323 2,162424 2,707945 2,901281 2,664723 3,009271 2,678273 2,323488 2,146481 2,43457 2,278499 2,053946
    Alimentos, bebidas e fumo 1 1,086129 1,133555 1,17946 1,080231 1,262244 1,376713 1,193601 1,298765 1,444819 1,450733 1,546281 1,513022 1,331158 1,268875 1,295097 1,255966 1,326318
    Têxtil, vestuário e calçados 1 1,116531 1,106068 1,171072 0,997881 1,056568 1,140791 1,02744 1,14402 1,356981 1,172941 1,209571 1,19197 1,091029 1,034976 1,051653 1,108545 1,074592
    Siderurgia e metalurgia 1 1,078995 1,17343 1,139955 1,259071 1,444658 1,506034 1,289288 1,377715 1,422299 1,363607 1,313266 1,310419 1,253616 1,165456 1,213351 1,259143 1,281881
    Cimento e outros produtos de minerais não-metálicos 1 1,132561 1,120978 1,252249 1,315986 1,37646 1,401171 1,350909 1,374755 1,439292 1,399471 1,509459 1,561316 1,475343 1,561523 1,390199 1,323939 1,377827
    Complexo químico-farmacêutico 1 1,084638 1,19013 1,209876 1,303482 1,394506 1,515773 1,289179 1,420432 1,542391 1,516497 1,573824 1,623363 1,467196 1,371995 1,404812 1,510175 1,480583
    Outros produtos da indústria 1 1,065468 1,059908 1,138922 1,11883 1,153646 1,195432 1,208372 1,182554 1,18224 1,218058 1,194103 1,234776 1,169585 1,139673 1,142237 1,22678 1,217609
    Equipamentos de transporte, exceto automotivos 1 0,9878 0,95743 0,993105 1,160861 1,187826 1,258834 1,282214 1,330144 1,224725 1,453122 1,481621 1,473837 1,498329 1,412585 1,405405 1,625501 1,624448
    Automotivo 1 1,066139 1,082104 1,139801 1,167511 1,227624 1,290847 1,215474 1,19081 1,143278 1,225346 1,284892 1,253154 1,219295 1,158319 1,263492 1,366446 1,405824
    Bens de capital e TICs 1 1,242662 1,334298 1,406926 1,420056 1,302509 1,394958 1,735359 1,850376 1,845608 1,893381 2,04186 1,94051 1,890578 1,858809 1,80769 1,910111 1,842213
    Brasil
    Agropecuária 1 1,189791 1,213153 1,158275 1,371987 1,763945 2,433825 1,846732 2,261153 2,728393 2,409985 2,701874 2,693643 2,140777 2,187782 2,220617 2,23505 2,216503
    Extrativa mineral, exceto petróleo 1 1,439772 2,182605 2,955166 4,038752 5,263086 3,896894 4,185843 6,275488 8,487657 6,283723 5,299921 4,567266 3,876295 3,412472 5,214109 5,555449 5,943886
    Petróleo e gás natural, extração e refino 1 1,224255 1,593098 2,158105 2,71542 3,264966 4,307248 2,563854 3,455797 4,292479 3,97186 4,513739 4,360294 2,561168 1,764071 2,269616 2,849461 2,36051
    Alimentos, bebidas e fumo 1 1,071003 1,158664 1,228757 1,327666 1,55871 1,945083 1,706776 1,823219 2,09179 2,043599 2,104586 2,176673 1,924703 1,822458 1,921709 1,909063 1,805829
    Têxtil, vestuário e calçados 1 0,894693 0,97826 1,069408 1,16881 1,262035 1,420394 1,19025 1,209883 1,318639 1,38101 1,309752 1,469511 1,457566 1,264578 1,211745 1,250795 1,231055
    Siderurgia e metalurgia 1 1,160712 1,462511 1,666345 2,100104 2,335464 2,419077 2,040458 2,3771 2,707269 2,531598 2,37659 2,404066 2,170734 1,983733 2,106019 2,243787 2,113597
    Cimento e outros produtos de minerais não-metálicos 1 1,022554 1,054787 1,102774 1,125357 1,227684 1,395369 1,468913 1,335288 1,524484 1,494606 1,561514 1,613239 1,594632 1,540786 1,593168 1,673766 1,526012
    Complexo químico-farmacêutico 1 1,040915 1,145121 1,261922 1,297912 1,463862 1,798357 1,601192 1,66857 1,914218 1,892509 1,882511 1,832302 1,724446 1,509261 1,562417 1,69129 1,664595
    Outros produtos da indústria 1 1,053949 1,050692 1,115148 1,215557 1,384901 1,489941 1,57748 1,519692 1,731854 1,67919 1,687778 1,791483 1,778169 1,625147 1,547706 1,676588 1,672896
    Equipamentos de transporte, exceto automotivos 1 0,941092 0,87642 0,877367 0,801366 0,921877 1,204043 1,425948 1,330793 1,331144 1,376715 1,354158 1,331467 1,26875 1,232529 1,166723 1,179738 1,386388
    Automotivo 1 1,046725 1,068511 1,189052 1,280742 1,372321 1,519277 1,609278 1,602733 1,626975 1,750982 1,745443 1,80542 1,735241 1,615642 1,591831 1,589848 1,514246
    Bens de capital e TICs 1 1,049491 1,094783 1,127807 1,161837 1,243382 1,39437 1,437066 1,396693 1,44304 1,51055 1,52143 1,568348 1,541518 1,449698 1,468685 1,500926 1,415744
  • Fonte: elaborado pelos autores com base na BACI (versão HS-2002), publicado em Gaulier e Zignago (2010) e com classificação disponível em Galindo-Rueda e Verger (2016).
    • #
      Este artigo é baseado em pesquisa realizada no âmbito do programa de bolsas de pós-doutorado do Escritório de Coordenação de Humanidades do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) em 2021-2022, sob a supervisão da Dra. Monika Meireles.
    • 1
      Diversos estudos têm testado empiricamente a Lei de Thirlwall para países latino-americanos. Para o Brasil, Teixeira e Missio (2021) encontram evidências de que a restrição externa ao crescimento está fortemente relacionada ao nível de intensidade tecnológica das exportações, corroborando o caráter estrutural do problema. Resultados semelhantes foram obtidos por Esteves e Correia (2012) para um conjunto de economias latino-americanas, incluindo o México, indicando que a elasticidade-renda das exportações é determinante para explicar a trajetória de crescimento de longo prazo. Mais recentemente, Koga e Araujo (2023) revisitaram a lei comparando países da América Latina e do leste asiático, reforçando que a posição dos países no comércio internacional condiciona suas taxas de crescimento compatíveis com o equilíbrio externo.
    • 2
      No caso de se referir a produtos específicos, é possível usar o termo ‘quantidade física’ desses bens. No entanto, ao se tratar de uma cesta de bens que possuem naturezas físicas diferentes (quilos, unidades, litros etc.), o volume representaria uma média das “quantidades”, mas que seria agregada a partir dos índices de preço respectivo da cesta. Ver a seção de metodologia para maiores detalhes.
    • 3
    • Financiamento:
      Este artigo foi realizado no âmbito do programa de bolsas de pós-doutorado da Coordenação de Humanidades do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) em 2021-2022.
    • Disponibilidade de dados:
      Declaramos que os dados contidos nesta pesquisa estão disponíveis nas referências citadas ao longo do texto e que as análises realizadas pela autora podem ser disponibilizadas mediante solicitação.
    • CLASSIFICAÇÃO JEL:
      F14; O54; F41.

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    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      27 Fev 2026
    • Data do Fascículo
      2026

    Histórico

    • Recebido
      17 Out 2024
    • Aceito
      07 Out 2025
    Creative Common - by 4.0
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