Resumo
RESUMO O objetivo deste estudo é estimar a capacidade de recuperação da economia do Rio Grande do Sul pós-crises, verificando quais atividades poderiam ser responsáveis por dinamizar uma retomada da economia gaúcha. A análise é realizada por meio do método do autovetor, uma técnica de análise insumo-produto proposta por Dietzenbacher (1992) que apresenta certas vantagens em comparação a métodos convencionais de ligações setoriais, os quais também são calculados e analisados. A relevância deste estudo diz respeito ao contexto do recente evento climático extremo ocorrido no estado em abril/maio de 2024, bem como à sua capacidade de recuperação econômica. Ainda, o método é aplicado para a economia brasileira buscando cotejar os resultados com aqueles do Rio Grande do Sul. Em geral, os resultados destacam atividades de baixa intensidade tecnológica, com relativa importância na dinâmica produtiva estadual, sendo predominantemente relacionadas à cadeia agroindustrial, com destaque para a fabricação de biocombustíveis, produtos de carnes, outros produtos alimentares, calçados e artefatos de couro, bebidas e produtos de borracha e material plástico. O resultado encontrado para a fabricação de biocombustíveis, em especial, aponta para uma oportunidade de se aprofundar uma transição energética sustentável na economia gaúcha.
PALAVRAS-CHAVE:
Rio Grande do Sul; Matriz de insumo-produto; Autovetor; Índices de ligação; Recuperação econômica
Abstract
ABSTRACT This article aims to estimate the post-crisis recovery capacity of the economy of the state of Rio Grande do Sul, identifying which activities could be responsible for driving the state’s economic recovery. The analysis is conducted by the eigenvector method, an input-output analysis technique proposed by Dietzenbacher (1992) that presents certain advantages compared to conventional sectoral linkage methods, which are also calculated and analyzed here. The relevance of this study is related to the context of the recent extreme weather event in the state in April/May 2024 and its impact on economic recovery. The method is also applied to the Brazilian economy to compare the results with those of Rio Grande do Sul. The results highlight activities that are generally low in technological intensity, relatively important to the state’s production dynamics, being predominantly related to the agro-industrial chain, particularly the biofuels manufacturing, meat products, other food products, footwear and leather goods, beverages, and rubber and plastic products. The results for biofuel manufacturing point to an opportunity to further deeper a sustainable energy transition in the state of Rio Grande do Sul.
KEYWORDS:
Rio Grande do Sul; Input-output matrix; Eigenvector; Linkage indices; Economic recovery
Resumen
RESUMEN El objetivo de este estudio es estimar la capacidad de recuperación de la economía de Rio Grande do Sul poscrisis, verificando qué actividades podrían ser responsables de dinamizar una reactivación de la economía estatal. El análisis se realiza mediante el método del autovector, una técnica de análisis insumo-producto propuesta por Dietzenbacher (1992) que presenta ciertas ventajas en comparación con los métodos convencionales de encadenamientos sectoriales, los cuales también son calculados y analizados. La relevancia de este estudio se refiere al contexto del reciente evento climático extremo ocurrido en el estado en abril/mayo de 2024, así como a su capacidad de recuperación económica. Además, el método se aplica a la economía brasileña con el fin de cotejar los resultados con los de Rio Grande do Sul. En general, los resultados destacan actividades de baja intensidad tecnológica con relativa importancia en la dinámica productiva del estado, estando predominantemente relacionadas con la cadena agroindustrial, con énfasis en la fabricación de biocombustibles, productos cárnicos, otros productos alimenticios, calzado y manufacturas de cuero, bebidas y productos de caucho y plástico. El resultado encontrado para la fabricación de biocombustibles, en particular, señala una oportunidad para profundizar una transición energética sostenible en la economía de Rio Grande do Sul.
Palabras clave:
Rio Grande do Sul; Matriz de insumo-producto; Autovector; Índices de encadenamiento; Recuperación económica
1. INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, o Brasil e o estado do Rio Grande do Sul vêm apresentando fracos desempenhos econômicos, sendo incapazes de atingir e sustentar taxas elevadas de crescimento do produto interno bruto. No período entre 2002 e 2022 –recorte disponível no Sistema de Contas Regionais1 –, a taxa média anual de crescimento foi de 2,2% no Brasil e de 1,4% no estado gaúcho. Já a partir de 2014, o Brasil cresceu, em média, apenas 0,2% ao ano, enquanto a economia gaúcha retraiu 0,5% a.a. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024). Assim, uma quase-estagnação é preponderante nessas economias devido às dificuldades de se atingir um crescimento robusto.
Ambas as economias encolheram em 2009 (crise financeira internacional), no biênio 2015-2016 (crise institucional que culminou no impeachment da Presidente Dilma Roussef) e em 2020 (pandemia de covid-19). Entretanto, em particular, o Rio Grande do Sul sofre com episódios cada vez mais recorrentes e severos de estiagens que afetam sobremaneira sua economia (contribuindo decisivamente para as quedas do PIB nos anos de 2005, 2012, 2020 e 2022) pelo fato de a agropecuária ter um peso maior na economia gaúcha do que no Brasil como um todo (quase o dobro da média nacional, sendo o estado com o maior peso na agropecuária brasileira em 20192), além de sua forte conexão com as demais atividades econômicas no estado, incluindo a fabricação de insumos, máquinas e implementos, sistema de financiamento, distribuição e comercialização da produção, bem como os efeitos sobre a renda da população. Ademais, o estado gaúcho passou recentemente por um evento meteorológico extremo entre o final de abril e o início de maio de 2024, com inundações em grande parte de seu território que resultaram em perdas de vidas e destruição de capital. Adicionalmente, o Rio Grande do Sul vem enfrentando nos últimos anos dificuldades financeiras relacionadas à sua dívida com a União, o que também prejudica sua capacidade de investimentos. Nesse sentido, a reconstrução do Rio Grande do Sul3, após os recentes eventos climáticos extremos, impõe a necessidade de um plano estratégico de recuperação baseado em dados concretos e modelos econômicos robustos.
Diversos estudos de diferentes vertentes teóricas (Bresser-Pereira, 2011; Bastos, 2012; Oreiro, 2012; Bonelli, 2016; Marquetti et al., 2020) propõem interpretações e medidas para estimular a economia brasileira, sem, contudo, se debruçarem profundamente em seus aspectos setoriais. É indiscutível que um conhecimento profundo sobre a estrutura produtiva ajuda a desvendar quais atividades poderiam impulsionar a economia. No entanto, a maioria dos pesquisadores tem concentrado suas análises em questões macroeconômicas, deixando a mesoeconomia em segundo plano. Nesse sentido, uma questão importante em economia é averiguar quais atividades seriam capazes de estimular as economias de forma mais rápida e robusta, retirando-as de cenários recessivos. Trata-se de uma questão empírica e específica para determinadas economias e regiões.
Nesse contexto, este artigo tem como objetivo identificar quais atividades poderiam ser responsáveis por uma rápida e robusta retomada da economia gaúcha. Para tanto, emprega-se o método do autovetor, uma técnica no âmbito da análise de insumo-produto desenvolvida por Dietzenbacher (1992), a fim de verificar as principais atividades que, ao serem estimuladas, apresentam maior potencial de contribuir para uma retomada da atividade econômica. A principal contribuição do artigo para a literatura reside na aplicação do método do autovetor em uma análise subnacional da economia brasileira, algo que ainda não foi realizado. O método do autovetor apresenta algumas vantagens em comparação com métodos convencionais, como os indicadores de ligação de Chenery e Watanabe e de Rasmussen, incluindo a sua sensibilidade à transformação estrutural, capacidade de encontrar clusters de atividades e a sua medida poderosa de ligações iterativas. Especificamente nesse aspecto, esse método dá maior peso aos insumos de uma atividade com alta ligação para trás do que de outra forma, representando um procedimento de maior eficiência para medir ligações intersetoriais. De todo o modo, também foram calculados e analisados os referidos índices de ligação tradicionais, a fim de cotejar seus resultados com os do autovetor.
Para tanto, este trabalho utiliza a matriz de insumo-produto (MIP) do Rio Grande do Sul para o ano de 2019 estimada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2024) – a mais recente disponível –, aplicando a metodologia do autovetor de Dietzenbacher (1992) para classificar as atividades em termos de seu “poder de puxar” (ou encadeamentos para trás) a economia de uma recessão. Embora a MIP-RS 2019 seja a mais recente, é possível que a economia gaúcha tenha sofrido transformações estruturais a partir de então, decorrentes de choques como os da pandemia de covid-19, em 2020, e das enchentes de 2024. Assim, os resultados das estimações servem como uma ferramenta importante para análises contrafactuais do tipo “what if” para que determinadas atividades fossem estimuladas durante a crise.
De modo a verificar possíveis efeitos de transbordamento do crescimento do país para o estado, provenientes de aumentos na demanda final nacional pelas atividades com elevadas ligações para trás, além de que parte relevante da dinâmica da economia gaúcha se conecta ao desempenho das demais unidades da Federação (parte importante da produção gaúcha é destinada ao restante do Brasil), também emprega-se o método do autovetor para a economia brasileira a partir da MIP estimada por Alves-Passoni e Freitas (2023) para o ano de 2019. Assim, são estimadas as ligações intersetoriais do Rio Grande do Sul e do Brasil, fornecendo mais informações sobre o poder das atividades de puxar a economia para fora de uma recessão. Seguindo Luo (2013), define-se o poder de arraste como a capacidade das atividades de mobilizar as demais por meio de suas redes. O tamanho das atividades e suas redes são importantes para se determinar o efeito de uma atividade sobre o restante da economia. Os indicadores de ligação fornecem uma medida da quantidade total de insumos necessários das atividades para se produzir uma unidade adicional de demanda final, incluindo o efeito de rede.
Além desta introdução, a seguir é apresentada a estrutura deste artigo. A seção 2, de cunho metodológico, apresenta de forma suscinta as técnicas para se medirem os índices de encadeamento para trás. Já a seção 3, de revisão da literatura empírica, aborda tantos os trabalhos que utilizaram o método do autovetor quanto aqueles voltados à análise da economia do Rio Grande do Sul utilizando técnicas de insumo-produto. Por sua vez, a seção 4 identifica a base de dados utilizada neste trabalho, enquanto a seção 5 apresenta, de forma panorâmica, dados agregados e setoriais da economia do Rio Grande do Sul nos últimos anos. Finalmente, a seção 6 exibe e discute os resultados estimados, enquanto a última seção se refere às considerações finais.
2. LIGAÇÃO PRODUTIVA SETORIAL: METODOLOGIA
Esta seção discorre, de forma resumida, sobre os três métodos de ligações para trás utilizados neste trabalho: na primeira subseção, apresentam-se as características básicas dos métodos de Chenery e Watanabe (1958) e de Rasmussen (1956), enquanto na subseção 1.2 expõe-se o método do autovetor de Dietzenbacher (1992)4. Ressalta-se que o foco este artigo reside apenas no poder de puxar, ou, mais precisamente, como as atividades contribuíram para tirar a economia de uma recessão. Portanto, serão analisados apenas os encadeamentos para trás.
2.1. OS MÉTODOS DE CHENERY E WATANABE (1958) E DE RASMUSSEN (1956)
Na literatura de insumo-produto, são definidos como setores-chave aqueles que apresentam ligações produtivas para trás e para frente altas e acima da média. Vários critérios foram desenvolvidos para se investigar a importância das atividades para promover a expansão econômica. Primeiramente, o método mais simples — baseado na contribuição de Leontief — envolve a soma das linhas da matriz de coeficientes técnicos para avaliar as ligações para trás (diretas). Isso representa uma medida do total de insumos requeridos diretamente para produzir uma unidade de produto. Extensões adicionais utilizaram a matriz inversa de Leontief para fornecer o efeito total. A soma das linhas dessa matriz indica os insumos diretos e indiretos (totais) necessários em consequência do aumento de uma unidade na demanda final. Posteriormente, tem-se o desenvolvimento de métodos mais sofisticados: campos de influência (Hewings et al., 1989), triangulação (Korte; Oberhofer, 1971), extração hipotética (Schultz, 1977) e o método do autovetor (Dietzenbacher, 1992). Este último apresenta uma vantagem em relação aos demais, pois confere um peso maior aos insumos de atividades com altos indicadores de encadeamentos produtivos para trás.
Chenery e Watanabe (1958) desenvolveram um método importante e bem estabelecido para se encontrarem indicadores diretos de ligação para trás. Os autores trabalharam com a matriz de coeficientes técnicos diretos . Conforme apresentado anteriormente, as somas das linhas indicam a quantidade total de insumos diretamente requeridos para se produzir uma unidade adicional de produto, sendo matematicamente representado pela pré-multiplicação da matriz por um vetor unitário. O índice de ligação para trás direta ponderado () de Chenery e Watanabe (1958) pode ser expresso como:
em que é o número de atividades da economia; é um vetor soma de linhas ( para todo ); é a matriz de coeficientes técnicos; e é um vetor soma de colunas ( para todo ).
Rasmussen (1956) trabalhou com a matriz de Leontief para desenvolver um índice de ligações para trás. Esse índice mostra quanto a produção da economia deve crescer para atender a um aumento na demanda em uma atividade específica. Ele é representado pelas somas das linhas da matriz de Leontief. O indicador total de ligações para trás de Rasmussen, (que considera tanto as ligações diretas quanto as indiretas), pode ser expresso da seguinte forma:
em que é a matriz inversa de Leontief.
Por outro lado, os indicadores de ligação para frente são calculados como a soma de cada coluna na matriz de Leontief, mostrando quanto uma atividade produzirá (direta e indiretamente) quando a demanda de todas as atividades aumenta em uma unidade. As atividades são consideradas setores-chave ao apresentarem altas ligações para trás e para frente (acima da média).
2.2. O MÉTODO DO AUTOVETOR
O método de Dietzenbacher (1992) representa um procedimento iterativo infinito para se medirem e classificarem os indicadores de ligação para trás e para frente entre setores. O método aborda o processo iterativo infinito do poder dos nós em redes (Luo, 2013).
Utilizando a notação de Luo (2013), o procedimento pode ser apresentado da seguinte forma. Primeiramente, suponha que represente o vetor de índices de ligação para trás das atividades da economia. Em seguida, o vetor é atualizado por meio de um procedimento iterativo, como a soma das ligações (colunas da matriz de coeficientes técnicos ), sendo ponderado pelo vetor normalizado da iteração anterior. Faz sentido atribuir um peso maior aos insumos das atividades com altas ligações para trás do que aos insumos de um setor com ligações menores. Os indicadores são normalizados e podem ser expressos como:
em que representa o número total de atividades e é o vetor soma de colunas ( para todo ). A estimativa dos indicadores de poder é aprimorada por meio de iterações até o infinito ().
Generalizando as Equações (3) e (4) por meio de uma sequência de iterações ( passos à frente), obtém-se a Equação (5):
Dietzenbacher (1992) demonstrou que o resultado do procedimento converge para o autovetor da esquerda normalizado que corresponde ao autovalor dominante (o vetor de Perron) da matriz . O vetor de ponderação é estimado como , com , em que representa o autovalor dominante de . Em conclusão, os elementos de revelam o poder das atividades de impulsionar as atividades de toda a economia.
Note-se que o poder de atração () é independente do vetor de ponderação original empregado. Isso significa que o vetor de ponderação pode ser escolhido de forma arbitrária na primeira iteração. Além disso, ao se introduzir o vetor de ponderação final nas Equações (1) e (2), tem-se que o índice de Chenery-Watanabe (C-W) e o índice de Rasmussen são idênticos. Sumariamente, o método do autovetor considera tanto a ponderação das ligações intersetoriais quanto o processo iterativo infinito para se capturarem as influências sobre toda a economia5.
3. LIGAÇÃO PRODUTIVA SETORIAL: REVISÃO DA LITERATURA EMPÍRICA
Após o esboço das características básicas das ligações para trás, prossegue-se com a revisão de alguns estudos que aplicaram o método do autovetor (subseção 3.1), bem como alguns trabalhos que utilizaram índices de ligação para analisar a estrutura produtiva do Rio Grande do Sul (subseção 3.2).
3.1. APLICAÇÕES DO MÉTODO DO AUTOVETOR
Dietzenbacher (1992) mediu as ligações interindustriais para os Países Baixos de 1948 a 1984 para classificar as atividades econômicas. O autor demonstra que, ao usar o procedimento do autovetor, pesquisadores podem encontrar estimativas robustas de ligações para trás e para frente. Além disso, esse método é capaz de detectar mudanças estruturais e encontrar clusters de produção. Dietzenbacher (1992) demonstra a superioridade do método em comparação a procedimentos bem estabelecidos, como os de Chenery e Watanabe (1958) e o de Rasmussen (1956).
Luo (2013) também conduziu um estudo empírico empregando o procedimento, em que analisa os dados de insumo-produto dos Estados Unidos da América (EUA) durante o período de 1998 a 2010. O objetivo foi classificar as atividades que deveriam ser as primeiras a receber ajuda na economia dos EUA. O autor também aplicou uma análise contrafactual para verificar se o governo estimulou as atividades certas durante a recessão de 2008/2009. Seus resultados destacam a necessidade de socorrer o setor automobilístico, mas não apoiam o socorro à infraestrutura pública, saúde, tecnologia da informação, tampouco os setores de serviços.
Outros estudos concentraram suas análises nas ligações interindustriais em MIPs regionais. Em particular, Midmore, Munday e Roberts (2006) avaliam as ligações da indústria por meio de uma MIP para o País de Gales. O artigo emprega métodos alternativos de avaliação de ligações intersetoriais, em particular o método de Dietzenbacher (1992), encontrando diferentes classificações para as atividades de acordo com cada método aplicado. Seus resultados ressaltam a importância de se empregarem técnicas eficientes para capturar vínculos intersetoriais, apoiando o planejamento regional.
No que se refere à economia brasileira, Morrone (2017) aplicou o método do autovetor de Dietzenbacher (1992) para classificar as atividades com maior potencial de contribuir para a retomada econômica brasileira pós-recessão de 2015-16. Por meio da metodologia proposta por Guilhoto e Sesso Filho (2005), o autor constrói uma MIP para investigar as transformações estruturais da economia brasileira de 2010 a 2013 e, por meio do autovetor, analisa as atividades que podem impulsionar a economia. Suas estimativas sugerem que as indústrias química e petroquímica representam um importante cluster na estrutura produtiva brasileira.
3.2. RIO GRANDE DO SUL
Até onde se sabe, ainda não existem aplicações do método do autovetor em análises subnacionais da economia brasileira. Assim, apresenta-se a seguir uma breve sumarização de alguns resultados encontrados na literatura sobre a economia do Rio Grande do Sul para diferentes pontos no tempo utilizando índices de ligação para analisar os principais encadeamentos de sua estrutura produtiva.
Tomando como ano base 1998, Porsse, Haddad e Pontual (2003) construíram uma MIP inter-regional Rio Grande do Sul–restante do Brasil. Ao analisarem os índices de ligações Rasmumussen-Hirschman e a matriz de produto dos multiplicadores (MPM) desenvolvida por Sonis, Hewings e Guo (1996), os resultados revelaram importantes diferenciais entre a dinâmica estadual e aquela do resto do país. No Rio Grande do Sul, observou-se uma estrutura econômica cujos impactos de variações na demanda final sobre a produção interna estão associados fortemente às atividades agroindustriais, porém com menor grau de integração na economia que no restante do país. Ademais, na decomposição regional do multiplicador da produção, identificou-se que a organização produtiva do Rio Grande do Sul favorece a existência de vazamentos inter-regionais relativamente menores nas atividades agroindustriais. Em contrapartida, nas atividades de maior conteúdo tecnológico, como no complexo metalmecânico, mais de 50% do efeito líquido é transmitido para o restante do país.
Ao empregar uma abordagem qualitativa de insumo-produto aos dados da MIP estadual da Fundação de Economia e Estatística (FEE-RS) para o ano de 2008, Morrone (2016) aponta um número modesto de relações intra e intersetoriais da economia gaúcha, de modo que seus resultados denotam um reduzido grau de relação intersetorial na dinâmica estadual, além de, dado o resultado de relações modestas entre as atividades, possíveis fontes de restrição ao crescimento sustentável da economia do estado.
Com o objetivo de estimar MIPs para as mesorregiões gaúchas no ano de 2011, bem como analisar os indicadores de impacto (multiplicadores e índice de ligação) de cada mesorregião, Gonçalves, Moraes e Braatz (2021) ressaltam que as principais atividades econômicas do estado estão relacionadas a atividades primárias e de transformação, que, em geral, dependem fortemente de setores de transporte no processo de compras intermediárias e vendas finais. Ademais, ao compararem os resultados para cada mesorregião, os autores salientam que atividades com grande participação em uma mesorregião não possuem os maiores multiplicadores, tais como fabricação de calçados e couro (Região Metropolitana de Porto Alegre), agricultura (Nordeste e Noroeste), outros equipamentos para transporte (Sudeste) e pecuária (Sudoeste).
Também com informações para o ano de 2011, em análise para o conjunto das unidades da federação, Haddad, Gonçalves Júnior e Nascimento (2017) apontam que 76,7% do efeito multiplicador da produção total das atividades do etado e cerca de 47,9% do efeito líquido permanecem dentro do território gaúcho, de modo que se verificam vazamentos de renda das atividades locais para outros territórios. A esse aspecto, tem-se que 49,7% da produção do Rio Grande do Sul é gerada para atender a demanda final do próprio estado, 37,9% para atender a demanda final dos demais entes da Federação e 12,4% para a demanda final do resto do mundo.
4. BASE DE DADOS
Para os cálculos dos índices de encadeamento para trás, foi utilizada a mais recente matriz de insumo-produto do Rio Grande do Sul, estimada para o ano de 2019 (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2024). A referida MIP possui 117 produtos e 52 atividades. Ainda, foi empregado o método do autovetor para a economia brasileira, de forma a se cotejarem os resultados do Rio Grande do Sul e do Brasil. Para o Brasil, foi utilizada a MIP, também com ano referência de 2019, estimada por Alves-Passoni e Freitas (2023), com 126 produtos e 67 atividades. A MIP do Brasil foi redimensionada para as mesmas 52 atividades da MIP do Rio Grande do Sul a fim de permitir a comparação setorial dos resultados6.
5. PANORAMA DA ECONOMIA GAÚCHA
O Rio Grande do Sul é uma das maiores economias do país. Tomando 2019 como referência7, o estado gaúcho representou 6,5% do PIB brasileiro (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024), atrás apenas de São Paulo (31,8%), Rio de Janeiro (10,6%) e Minas Gerais (8,8%), e à frente do Paraná (6,3%), Bahia (4,0%) e Distrito Federal (3,7%), bem como da região Norte (5,7%).
Em termos setoriais, a participação da agropecuária no valor adicionado do Rio Grande do Sul é quase o dobro da média nacional, chegando a ser, em 2019, o estado com o maior peso na agropecuária brasileira (11,7%), à frente de Paraná (11,1%), São Paulo (10,6%), Mato Grosso (8,7%) e Minas Gerais (8,5%). Além do seu tamanho relativo, a agropecuária apresenta fortes encadeamentos para trás e para frente com outras atividades da economia gaúcha, tanto industriais quanto de serviços, além de elevado efeito induzido. O estado é o maior produtor brasileiro de arroz e de trigo, além de um dos maiores produtores de soja e de milho.
Assim como a agropecuária, a indústria tem elevado peso no total do valor adicionado do Rio Grande do Sul (22,5%8), especialmente por conta da indústria de transformação (16,2%9). Esta última representou 8,7% do valor adicionado da indústria de transformação brasileira em 2019, contribuição apenas menor do que as de São Paulo (37,3%) e de Minas Gerais (10,8%). De acordo com informações da Pesquisa Industrial Anual (PIA-Empresa), o Rio Grande do Sul tem grande representatividade nacional na produção de atividades como produtos do fumo, couros e calçados, resina e elastômeros, produtos de metal, tratores e máquinas agrícolas, cabines, carrocerias e reboques para veículos e móveis. Já internamente, a fabricação de produtos alimentícios é a mais representativa na manufatura gaúcha.
Por outro lado, o peso do setor de serviços no valor adicionado total do Rio Grande do Sul (68,8%) é menor que aquele no Brasil como um todo, embora isso não se aplique à atividade de comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas. Nesse sentido, o Gráfico 1 apresenta a composição da agropecuária, da indústria e dos serviços no valor adicionado do Rio Grande do Sul.
Apesar de um peso relativamente elevado da indústria no total do valor adicionado, o setor vem sofrendo nos últimos anos, especialmente após 2013 e fundamentalmente por conta da indústria de transformação, com um desempenho bastante inferior comparado ao da agropecuária e do setor de serviços (Gráfico 2). No acumulado do período 2002-2022, o volume do valor adicionado da indústria cresceu apenas 3,8% (0,2% a.a.), tendo retraído 1,7% a.a. em relação a 2013, maior nível de produção do setor. No caso da indústria de transformação, seu volume de produção retraiu 1,2% a.a. no período 2002-2022, e -3,6% a.a. entre 2014 (maior nível de produção) e 2022. Já o índice de volume do setor de serviços mostrou tendência positiva até 2014, andando de lado a partir de então, mas com uma nova tendência de crescimento a partir de 2020, resultando em um crescimento acumulado no período 2002-2022 de 44,7% (1,9% a.a.). Por sua vez, o crescimento acumulado da agropecuária foi de apenas 10,7% (0,5% a.a.), resultado de reduções significativas da sua produção nos anos de 2005, 2012, 2020 e 2022 decorrentes de estiagens severas.
Índice de volume acumulado do valor adicionado do Rio Grande do Sul no período 2002-2022 (2002=100)
A partir da tabela de recurso e usos (TRU) do Rio Grande do Sul para o ano de 2019 (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2024), é possível verificar a existência de 6,851 milhões de ocupações na economia gaúcha e comparar a composição das atividades em termos de ocupações de valor adicionado. Enquanto foi responsável por apenas 8,6% do valor adicionado do Rio Grande do Sul, a agropecuária representou 19,0% das ocupações. No caso da indústria, sua parcela nas ocupações totais foi de 19,7%, e de 22,5% no valor adicionado. Já no setor de serviços, esses valores foram, respectivamente, de 61,2% e 68,8%. Dessa forma, a produtividade do trabalho da agropecuária foi de R$ 27,8 mil por ocupação, menor do que a dos serviços (R$ 68,9 mil) e da indústria (R$ 70,0 mil).
A TRU-RS também permite verificar que 35% da demanda da produção gaúcha foram provenientes do consumo demandado pelas atividades econômicas em seus processos produtivos, com os outros 65% sendo destinados à demanda final. No que tange à composição da demanda final, a maior parcela foi referente ao consumo final das famílias (42%), seguida das vendas de bens e serviços para o resto do Brasil (22%), consumo da administração pública (15%), formação bruta de capital (11%) e vendas para o resto do mundo (10%). Assim, para além da importância da demanda interna gaúcha, verifica-se que parte relevante da produção do Rio Grande do Sul é destinada às demais unidades da federação, indicando uma forte conexão com a dinâmica econômica brasileira. De fato, a análise das taxas de crescimento do PIB do Rio Grande do Sul e do Brasil permite observar a sincronicidade das dinâmicas de crescimento, com períodos de taxas muito mais negativas do Rio Grande do Sul em anos de estiagem e de taxas muito mais positivas nos anos posteriores aos de estiagem (Gráfico 3).
6. RESULTADOS
Esta seção apresenta os resultados dos indicadores selecionados, os quais se expressam como proxy do poder de atração da economia gaúcha, revelando atividades que devem ser priorizadas para dinamizar a economia. As atividades foram classificadas de acordo com sua capacidade de impulsionar a economia, levando a uma recuperação robusta. Em um primeiro momento, comparam-se os resultados do índice de ligação de Chenery e Watanabe com os do índice de Rasmussen (Tabela 1). Na sequência, os resultados para o Rio Grande do Sul do método do autovetor são analisados (Tabela 2) e comparados com os resultados para o Brasil (Tabela 3).
Principais índices de ligação para trás Chenery e Watanabe (C-W) e Rasmussen para o Rio Grande do Sul em 2019
Comparativo dos principais indicadores de autovetor de ligação para trás para o Rio Grande do Sul com o Brasil em 2019
A Tabela 1 exibe os valores e o ordenamento das 15 atividades com maior índice de ligação de Chenery e Watanabe e de Rasmussen para 201910. Os resultados de ambos os indicadores são muito similares, sendo que apenas seis atividades tiveram ordenamento distinto entre os índices, porém com relativa proximidade. Ademais, as sete primeiras atividades são as mesmas em ambos os indicadores. Corrobora essa similaridade o coeficiente de correlação de Pearson de 97,55% para as 15 principais atividades do índice de Chenery e Watanabe e de Rasmussen. Considerando as 52 atividades, a correlação é de 98,92%. Assim, a alta correlação para os índices mostra que não há grande diferença entre os dois métodos. As cinco atividades com os maiores valores em ambos os índices foram as de Fabricação de biocombustíveis, Abate e produtos de carne, inclusive os produtos do laticínio e da pesca11, Fabricação e refino de açúcar e outros produtos alimentares12, fabricação de bebidas e fabricação de produtos do fumo. Após essas cinco atividades da indústria de transformação, aparecem três atividades do setor de serviços relacionadas ao setor de transportes.
No que se refere aos resultados do autovetor (Tabela 2), observa-se uma maior divergência em torno da ordem de importância das atividades em comparação ao observado para os indicadores anteriores13. As maiores divergências se dão na fabricação de calçados e de artefatos de couro (4º maior índice de autovetor de ligação para trás e, respectivamente, 13º e 14º indicador de C-W e de Rasmussen), alimentação (7º maior índice de autovetor de ligação para trás e, respectivamente, 21º e 16º indicador de C-W e de Rasmussen) e pecuária, inclusive o apoio à pecuária (10º maior índice de autovetor de ligação para trás e, respectivamente, 24º e 19º indicador de C-W e de Rasmussen). Contudo, fabricação de biocombustíveis, abate e produtos de carne, inclusive os produtos do laticínio e da pesca e fabricação e refino de açúcar e outros produtos alimentares também se destacam como as três principais atividades para o autovetor de ligação para trás do Rio Grande do Sul em 2019, apresentando-se, então, como aquelas com maior potencial para apoiar a recuperação do estado com base nos indicadores calculados.
Entre as 15 principais atividades dos índices de ligação para trás de Chenery e Watanabe e de Rasmussen, apenas três não pertencem à indústria de transformação (transporte aquaviário, transporte terrestre e transporte aéreo). O método do autovetor também indicou três atividades não pertencentes à indústria de transformação, mas diferentes daquelas indicadas pelos demais indicadores, quais sejam, alimentação, pecuária, inclusive o apoio à pecuária e energia elétrica, gás natural e outras utilidades. Em comum em todos os indicadores calculados, tem-se que grande parte das principais atividades industriais com maiores valores dos indicadores calculados guarda estreita ligação com o setor primário, a partir do processamento e da agregação de valor de produtos da agropecuária, indicando a relevância das cadeias agroindustriais para a economia gaúcha. A relevância desse tipo de atividades também é reportada em outros trabalhos na literatura, os quais enfatizam uma estrutura econômica no Rio Grande do Sul cujos impactos de variações na demanda final sobre a produção interna estão fortemente associados a atividades agroindustriais (Porsse; Haddad; Pontual, 2003; Morrone, 2016; Gonçalves; Moraes; Braatz, 2021).
No tocante à fabricação de biocombustíveis (atividade com maior valor nos três indicadores calculados), destaca-se que o Rio Grande do Sul é o maior produtor de biodiesel do país14, com uma produção de 1,7 bilhão de litros em 2023, o equivalente a 22,6% do total nacional (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, 2024). Ao tomar como base analítica o mesmo ano da MIP-RS, 2019, a produção do estado alcançou o patamar de 1,6 bilhão de litros, com 27,7% de participação na produção nacional. Salienta-se que a produção de biocombustíveis para uso no ciclo diesel em substituição total ou parcial ao óleo diesel fóssil contribui positivamente para uma transição energética sustentável e para a redução15 das emissões de gases causadores do efeito estufa, de modo que a atividade pode combinar, ao ser estimulada, objetivos de crescimento e recuperação da atividade econômica com a sustentabilidade dos processos produtivos (Petry, 2020; Empresa de Pesquisa Energética, 2024).
Ademais, o desenvolvimento da cadeia do biodiesel também pode fortalecer a produção agropecuária e permitir a industrialização da sua principal matéria-prima, a soja em grão, representando uma oportunidade para agregar valor ao produto e gerar emprego e renda localmente. De fato, a soja é a principal cultura do Rio Grande do Sul e representou, de acordo com a MIP-RS 2019, 23,3% das exportações gaúchas de bens e serviços para o resto do mundo. Também podem fomentar a produção da atividade a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024 (Nº 14.993/2024) – que prevê aumentos gradativos da mistura ao biodiesel – e a Nova Política Industrial (Brasil, 2024) – que tem como uma das metas ampliar em 50% a participação de biocombustíveis na matriz energética brasileira de transportes.
Ao se identificarem os resultados setoriais do método do autovetor de ligação para trás pela taxonomia por intensidade tecnológica proposta pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Galindo-Rueda; Verger, 2016), observa-se a concentração dos maiores índices de ligações em atividades que pertencem aos grupos de baixa e média-baixa intensidades16. Esses grupos representam dez das 15 atividades com maior autovetor de ligação para trás da economia gaúcha, ao passo que apenas quatro atividades (fabricação de químicos orgânicos e inorgânicos, resinas e elastômeros, fabricação de outros produtos químicos, fabricação de automóveis, caminhões e ônibus, exceto peças, e fabricação de peças e acessórios para veículos automotores) pertencem ao grupo de média-alta intensidade em P&D. Nesse caso, é muito provável que a importância relativa de atividades de baixa intensidade tecnológica, como as que devem ser priorizadas em uma recuperação econômica no Rio Grande do Sul, reflita as características estruturais dessa economia.
Conforme a revisão de literatura da subseção 2.2, a estrutura produtiva do estado é fortemente relacionada a atividades primárias e de transformação de baixo conteúdo tecnológico, bem como possui um modesto grau de relações intra e intersetoriais, de modo que, ao se analisarem as relações produtivas pelo método do autovetor, atividades menos intensivas em tecnologia, mas com relativa importância na dinâmica estadual, podem contribuir para uma recuperação econômica de curto prazo.
Além da análise dos principais resultados para a economia gaúcha, também é pertinente verificar se existem semelhanças setoriais com os resultados encontrados para a economia brasileira (Tabela 3)17, ou seja, uma vez que o Rio Grande do Sul consiga manter a proporção como participação na demanda nacional, entender se o estado gaúcho poderia se beneficiar caso essas atividades fossem, de alguma forma, estimuladas no restante do país. Em relação às 15 principais atividades gaúchas, o coeficiente de correlação com os valores encontrados para o Brasil é de 73,68%, com nove atividades figurando entre as 15 de maior autovetor em ambas as economias. Destacam-se as atividades de fabricação de biocombustíveis (1º no RS e 4º no Brasil), abate e produtos de carne, inclusive os produtos do laticínio e da pesca (2º no RS e 1° no Brasil), fabricação e refino de açúcar e outros produtos alimentares (3º em ambas as economias) e fabricação de bebidas (6º no RS e 5º no Brasil).
Por outro lado, verificam-se diferenças significativas quando são considerados os resultados do autovetor de ligação para trás das 52 atividades de ambas as economias, embora o coeficiente de correlação seja de 71%, o que indica uma correlação moderada entre os resultados estadual e nacional. Entre as atividades com as maiores diferenças, destacam-se refino de petróleo e coquerias (45º no RS e 2º no Brasil), transporte terrestre (23º no RS e 6º no Brasil), fabricação de calçados e de artefatos de couro (4º no RS e 17º no Brasil), alimentação (7º no RS e 21º no Brasil) e confecção de artefatos do vestuário e acessórios (41º no RS e 26º no Brasil).
Já os maiores índices de autovetor de encadeamento para trás encontrados neste trabalho para a economia brasileira no ano de 2019 (1 em Apêndice) contrastam com os encontrados por Morrone (2017) para o período 2010-2013. A principal exceção é a atividade de refino de petróleo e coquerias, em primeiro lugar no ranking do autor e na segunda posição neste trabalho. As demais principais atividades verificadas por Morrone (2017), quais sejam, metalurgia dos metais não-ferrosos e outras vinculadas à indústria química (produtos químicos, resinas e elastômeros, pesticidas e outros produtos químicos), aparecem apenas em posições intermediárias neste estudo18.
Por fim, cabe ressaltar que os resultados encontrados neste artigo devem ser interpretados com cautela. Este estudo se concentrou nas relações produtivas intersetoriais, não incorporando a estrutura e os determinantes da demanda final. Além disso, adota-se a hipótese, comum na literatura de insumo-produto, de plena resposta da produção aos estímulos de demanda, o que constitui outra limitação. Diante de tais restrições, embora os resultados encontrados sugiram atividades específicas, recomenda-se que formuladores de políticas de estímulo produtivo avaliem o contexto específico da crise e complementem tais evidências com análises adicionais, de modo a sustentar decisões mais abrangentes e robustas.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo aplicou o método do autovetor de Dietzenbacher (1992) para classificar as atividades econômicas de acordo com seu potencial de tirar a economia do Rio Grande do Sul da recessão ou de uma quase-estagnação. Esse método inovador pode trazer insights para as discussões sobre quais atividades devem ser estimuladas durante uma crise. Além da aplicação para o estado gaúcho, também se aplicou o método do autovetor para a economia brasileira, com o intuito de cotejar ambos os resultados, pelo fato de parte relevante da dinâmica econômica gaúcha estar conectada ao desempenho do restante do país. Além do método do autovetor, também foram calculados para o Rio Grande do Sul os índices de ligação para trás de Rasmussen e de Chenery e Watanabe. Foram utilizadas as matrizes de insumo-produto do Rio Grande do Sul e do Brasil estimadas para o ano de 2019 (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2024; Alves-Passoni; Freitas, 2023).
Os resultados para o Rio Grande do Sul indicaram destaque para atividades, em geral, de baixa intensidade tecnológica e relacionadas à cadeia agroindustrial, mais precisamente na seguinte ordem: fabricação de biocombustíveis; abate e produtos de carne, inclusive os produtos do laticínio e da pesca; fabricação e refino de açúcar e outros produtos alimentares; fabricação de calçados e de artefatos de couro; fabricação de bebidas; fabricação de produtos de borracha e de material plástico; alimentação; fabricação de químicos orgânicos e inorgânicos, resinas e elastômeros e fabricação de outros produtos químicos. Essas seriam as atividades centrais, segundo o método do autovetor de ligação para trás, para impulsionar a economia gaúcha, superando situações de quase estagnação e crise. Algumas das principais atividades indicadas pelo método do autovetor para o Rio Grande do Sul também são as mesmas encontradas para o Brasil (mais precisamente biocombustíveis, abate e produtos de carne, outros produtos alimentares e bebidas), fazendo com que o estado gaúcho pudesse se beneficiar caso essas atividades fossem estimuladas no restante do país.
Por um lado, a atividade relacionada aos biocombustíveis foi a que apresentou marcadamente o maior indicador de autovetor (bem como nos demais índices e ligação para trás calculados), o que aponta para uma oportunidade de se aprofundar uma transição energética sustentável, dado que o Rio Grande do Sul já é o maior produtor de biodiesel do país, bem como pode proporcionar maior sustentabilidade dos processos produtivos no estado. Entretanto, por outro lado, grande parte das demais atividades elencadas, apesar de pertencerem à indústria de transformação, se caracteriza por serem atividades ditas tradicionais, com baixa diversificação produtiva, com relativamente menor agregação de valor e menos intensivos em tecnologia. Um dos fatores que podem ajudar nessa compreensão seria a própria característica estrutural da consolidação desse tipo de atividades na estrutura produtiva do Rio Grande do Sul e do Brasil, de forma geral nas últimas décadas. Nesse sentido, entendem-se como prioritários os investimentos iniciais nessas atividades visando à rápida recuperação econômica da economia gaúcha.
Os resultados indicam para a necessidade de se adotar como ponto central das políticas públicas uma perspectiva mesoeconômica, e não apenas focar em questões macroeconômicas, pois cada atividade possui distintas capacidades de impulsionar a economia em termos agregados, perspectiva a partir da qual este artigo contribui para a literatura.
Por fim, aponta-se para a importância de trabalhos futuros avançarem na investigação de outros temas relevantes, tais como geração de empregos, dinâmica da produtividade, emissões de gases causadores de efeito estufa etc., a fim de contribuir para o panorama mais preciso e amplo da estrutura econômica do Rio Grande do Sul e, consequentemente, para servir como subsídio para o desenvolvimento de políticas públicas que direcionem corretamente os investimentos posteriores em atividades que promovam o crescimento do estado em consonância com os objetivos de desenvolvimento sustentável.
APÊNDICE
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1
O Sistema de Contas Regionais do IBGE divulga, em parceria com os órgãos estaduais de estatística, secretarias de governo e Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), os resultados anuais do PIB das Unidades da Federação com dois anos de defasagem.
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2
Maiores informações serão apresentadas na seção 4.
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3
Nesse contexto, o governo do estado criou a Secretaria de Reconstrução Gaúcha (SERG), em junho de 2024, cujas competências incluem atuar na coordenação do planejamento, da formulação e da execução de ações, projetos ou programas voltados à implantação da resiliência climática, bem como ao enfrentamento das consequências sociais, econômicas e ambientais decorrentes dos eventos climáticos que atingiram o estado. Ainda, foi criado o Plano Rio Grande (Lei 16.134, de 24 de maio de 2024), com ações focadas nos curto, médio e longo prazos, incluindo a recuperação e diversificação econômica do estado.
-
4
A literatura de insumo-produto compreende uma ampla gama de métodos para testar a importância das diferentes atividades na estrutura produtiva das economias, tais como o método GHS (Guilhoto; Hewings; Sonis, 1997), o método das elasticidades (Maaβ, 1980), a técnica dos coeficientes importantes (Schintke; Stäglin, 1988), entre outros. Os resultados desses métodos podem divergir quanto à relevância atribuída às atividades na economia. Apesar de pertinente, essa discussão teórica foge ao escopo deste estudo.
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5
Para mais informações sobre esse método, sua superioridade e derivação matemática, ver Dietzenbacher (1992).
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7
Ano referência da MIP utilizada neste trabalho. Em 2020 e 2022, o Rio Grande do Sul foi superado pelo Paraná por conta dos efeitos adversos das estiagens que o estado gaúcho enfrentou.
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8
Em 2022, esse valor atingiu 26,7%.
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9
20,5% em 2022.
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11
Atividade fundamentalmente explicada pelo abate e produtos de carne.
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12
Referente a óleos e gorduras vegetais e animais, arroz beneficiado e produtos derivados do arroz, rações balanceadas para animais e outros produtos alimentares. A fabricação e o refino de açúcar praticamente inexistem no estado.
- 13
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14
Além do biodiesel feito de soja, a produção de etanol tem ganhado maior destaque nos últimos anos no Rio Grande do Sul como alternativa rentável para as safras de inverno, a partir, sobretudo, da cultura de trigo.
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15
O biodiesel, embora não seja uma solução disruptiva para descarbonização dos transportes, é utilizado como substituto parcial do diesel em motores a combustão interna e emite menos gases causadores do efeito estufa em comparação ao seu equivalente fóssil (Petry, 2020).
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16
A taxonomia se baseia no nível médio de intensidade em pesquisa e desenvolvimento (razão entre as despesas com P&D e o valor adicionado por atividade), com as atividades sendo classificadas em cinco grupos (alta, média-alta, média, média-baixa e baixa intensidades tecnológicas). Os resultados das 52 atividades econômicas com a identificação de cada uma delas pela referida taxonomia se encontram na Tabela A1 em Apêndice.
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17
Os resultados para todas as atividades econômicas do Brasil e Rio Grande do Sul se encontram na Tabela A1 em Apêndice. Contudo, embora a TRU-RS tenha sido construída no âmbito do SCR, ela não é 100% compatível com a TRU do Brasil, elaborada pelo IBGE. Para maiores informações sobre a metodologia de construção dos dados do Rio Grande do Sul, ver Freitas et al. (2024).
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18
É importante ressaltar que as diferenças dos resultados entre os trabalhos podem ser explicadas também por serem comparados períodos diferentes, diferenças metodológicas na construção das MIPs e de agregações setoriais, e não apenas pela própria alteração nas relações produtivas das atividades ao longo do tempo.
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Financiamento:
Não se aplica.
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Disponibilidade de dados:
O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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CLASSIFICAÇÃO JEL:
R11; R15; C67; O47.
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Marta dos Reis Castilho https://orcid.org/0000-0002-1483-4597, Carolina GS Dias https://orcid.org/0000-0002-0478-8777
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