RESUMO
Objetivos: analisar a associação entre fatores sociodemográficos, perspectiva de futuro profissional, rendimento acadêmico, sobrecarga da rotina, autolesão não suicida, depressão, estratégias de enfrentamento e ideação suicida pós-pandemia de COVID-19 em estudantes de enfermagem.
Métodos: estudo transversal realizado com 120 estudantes de enfermagem de universidade pública brasileira. Empregou-se a regressão de Poisson com variância robusta e ajustada.
Resultados: estudantes LGBTQIAPN+ apresentaram três vezes mais chance (OR=2,98) de ter ideação suicida; estudantes que não perceberam mudanças do rendimento escolar após a pandemia apresentaram 16 vezes mais chance (OR=15,68) de ter ideação suicida; e estudantes que não tinham autolesão não suicida apresentaram cinco vezes mais chance (OR=5,31) de ter ideação suicida.
Conclusões: os estudantes de enfermagem LGBTQIAPN+ que não perceberam o impacto da pandemia no rendimento escolar e não tiveram autolesão não suicida apresentaram maior vulnerabilidade para a presença de ideação suicida.
Descritores:
Saúde Mental; Estudantes de Enfermagem; COVID-19; Ideação Suicida; Estratégias de Coping
ABSTRACT
Objectives: to analyze the association between sociodemographic factors, professional future prospects, academic performance, workload overload, non-suicidal self-harm, depression, coping strategies, and suicidal ideation post-COVID-19 pandemic among nursing students.
Methods: a cross-sectional study conducted with 120 nursing students from a Brazilian public university. Poisson regression with robust and adjusted variance was used.
Results: LGBTQIAPN+ students were three times more likely (OR=2.98) to have suicidal ideation; students who did not perceive changes in academic performance after the pandemic were 16 times more likely (OR=15.68) to have suicidal ideation; and students who did not experience non-suicidal self-harm were five times more likely (OR=5.31) to have suicidal ideation.
Conclusions: LGBTQIAPN+ nursing students who did not perceive the impact of the pandemic on academic performance and did not experience non-suicidal self-harm were more vulnerable to suicidal ideation.
Descriptors:
Mental Health; Nursing Students; COVID-19; Suicidal Ideation; Coping Strategies
RESUMEN
Objetivos: analizar la asociación entre factores sociodemográficos, perspectivas profesionales futuras, rendimiento académico, sobrecarga de trabajo, autolesiones no suicidas, depresión, estrategias de afrontamiento e ideación suicida tras la pandemia de COVID-19 en estudiantes de enfermería.
Métodos: estudio transversal realizado con 120 estudiantes de enfermería de una universidad pública brasileña. Se utilizó una regresión de Poisson con varianza robusta y ajustada.
Resultados: el alumnado LGBTQIAPN+ tuvo tres veces más probabilidades (OR=2,98) de tener ideación suicida; el alumnado que no percibió cambios en su rendimiento académico tras la pandemia tuvo 16 veces más probabilidades (OR=15,68) de tener ideación suicida; y el alumnado que no experimentó autolesiones no suicidas tuvo cinco veces más probabilidades (OR=5,31) de tener ideación suicida.
Conclusiones: el alumnado de enfermería LGBTQIAPN+ que no percibió el impacto de la pandemia en su rendimiento académico ni experimentó autolesiones no suicidas fue más vulnerable a la ideación suicida.
Descriptores:
Salud Mental; Estudiantes de Enfermería; COVID-19; Ideación Suicida; Estrategias de Afrontamiento
INTRODUÇÃO
Após a pandemia de COVID-19, provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, houve desafios globais de saúde pública, o que inclui a saúde mental, com ênfase nos impactos psicossociais vivenciados por diferentes grupos populacionais(1). Este estudo enfoca a saúde mental de estudantes de enfermagem, com ênfase na ideação suicida e nas possíveis repercussões após dois anos de maior restrição social da pandemia, devido ao fato de se constituírem como população de risco para o comportamento suicida(2,3). Nesse sentido, as estratégias de enfrentamento se tornam essenciais para adaptação dos estudantes de enfermagem às transformações acadêmicas, sociais e emocionais intensificadas pela pandemia.
As estratégias de enfrentamento atuam como mediadores na relação entre as competências essenciais e frustrações acadêmicas(4). Alunos com estratégias de enfrentamento eficazes experimentam níveis mais baixos de frustração acadêmica. Entretanto, estudantes com estratégias de enfrentamento ineficazes tendem a lidar com seus problemas diminuindo suas expectativas e se autolimitando, e isso enfraquece sua resiliência, aumenta os recursos inadequados para lidar com os fatores de estresse e impacta a saúde mental(4).
Em meta-análise com foco em várias condições de saúde mental em estudantes de enfermagem em nível mundial, observou-se que a depressão foi a mais prevalente condição de saúde mental nesta população(5). Investigação com estudantes universitários chineses identificou que 7,7% apresentaram sofrimento emocional. Embora o letramento sobre suicídio tenha reduzido o estigma do suicídio entre os estudantes universitários dos cursos de ciências da saúde, o mesmo não melhorou os índices de procura por ajuda profissional(6). As atitudes em relação ao suicídio de estudantes coreanos afetaram indiretamente o comportamento de autolesão não suicida (ANS) por meio da depressão(7).
Em geral, a prevalência de ideação suicida entre jovens estudantes universitários varia entre 26% e 72%, com maior associação para a população LGBTQIAPN+ e sexo feminino(2,3,8). Altos níveis de dor psicológica e desesperança estiveram associados ao risco de suicídio em estudantes na Inglaterra(2).
Os resultados deste estudo podem produzir novas informações relevantes para a compreensão do fenômeno da ideação suicida em estudantes universitários na América Latina. O conhecimento produzido pode subsidiar programas de prevenção do suicídio no ambiente educacional universitário, dado que é primordial promover espaços seguros para o cuidado da saúde mental dos estudantes universitários de enfermagem, uma vez que estes se tornarão os futuros enfermeiros e atuarão diretamente na linha de cuidado da população no Brasil, vivenciando situações que podem agravar a saúde mental e aumentar o risco para o suicídio.
Diante do rápido panorama ora apresentado, este estudo tem como hipóteses que: (1) os efeitos dos dois anos após o período de maior restrição social da pandemia incidem na percepção de maior sobrecarga na rotina, percepção de pior rendimento acadêmico e pior perspectiva de futuro profissional, interferindo diretamente na presença de ideação suicida em estudantes de enfermagem; (2) a presença de ANS, depressão e estratégias de enfrentamento focadas na emoção está associada diretamente à presença de ideação suicida em estudantes de enfermagem.
OBJETIVOS
Analisar a associação entre fatores sociodemográficos, perspectiva de futuro profissional, rendimento acadêmico, sobrecarga da rotina, ANS, depressão, estratégias de enfrentamento e ideação suicida pós-pandemia de COVID-19 em estudantes de enfermagem em instituição pública de ensino superior em São Paulo, Brasil.
MÉTODOS
Aspectos éticos
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição de Ensino Superior. Seguiram-se as recomendações e cuidados éticos que constam na Resolução no 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), mediante assinatura digital. Ao final do formulário eletrônico, havia informações sobre buscar ajuda nos serviços de saúde mental com atendimento 24 horas por dia.
Desenho e local de estudo
A Instituição Federal de Ensino Superior escolhida como cenário para este estudo está localizada em São Paulo, Brasil, e oferecia, no período da coleta de dados, de março a maio de 2023, os seguintes cursos da área da saúde: enfermagem, fonoaudiologia, medicina, biomedicina e tecnologia em saúde. A escolha deste local se deve às características históricas, qualidade do ensino e contribuição para a enfermagem brasileira.
Protocolo do estudo
Trata-se de estudo quantitativo, transversal norteado pela ferramenta STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology e pelas orientações contidas na diretriz CHEcklist for Reporting Results of Internet E-Surveys(9). A coleta de dados incluiu um roteiro de caracterização sociodemográfica e a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse-21 (DASS-21), para avaliar os níveis de depressão, ansiedade e estresse dos estudantes. A confiabilidade deste instrumento em estudantes universitários brasileiros foi de α ≥ 0,70(10), e o Inventário de Estratégias de Enfrentamento foi usado para avaliar as estratégias utilizadas pelos participantes. As propriedades psicométricas deste instrumento em estudantes universitários brasileiros são excelentes, com alfa de Cronbach (α= 0,89)(11), utilizando a Escala de Avaliação do Risco de Suicídio de Columbia para avaliar aspectos relacionados ao comportamento suicida. A confiabilidade deste instrumento é alfa de Cronbach (α= 0,81)(12).
A população constou de 282 universitários. Para o cálculo da amostra, estabeleceram-se nível de confiança de 95%, erro máximo de 5% e prevalência presumida de ideação suicida de 9,9%(13), obtendo-se amostra de 120 universitários. O método de seleção foi por conveniência. Os critérios de inclusão foram estar matriculado no curso de enfermagem, ser maior de 18 anos, assinar o TCLE e responder o questionário na íntegra. Os critérios de exclusão foram universitários que estivessem afastados das atividades acadêmicas por motivos familiares/doença ou em intercâmbios institucionais e aqueles que não responderam ao questionário integralmente. Não houve aplicação de pré-teste.
Para convidar os participantes, utilizou-se divulgação nas mídias sociais (WhatsApp® e Instagram®) e e-mails enviados às turmas por meio dos representantes de sala. Além disso, foram afixados cartazes com QR Code nas dependências físicas da universidade para dar acesso ao formulário eletrônico (elaborado na plataforma Google Forms®), garantindo que as atividades acadêmicas não fossem prejudicadas. O tempo médio de preenchimento do formulário foi de dez minutos.
Análise dos resultados e estatística
A análise descritiva foi feita por meio de média e desvio padrão, mediana, contagem e porcentagem. Nas análises bivariadas, foram empregados o teste Exato de Fisher e o teste qui-quadrado para variáveis qualitativas, além do teste t de Student bicaudal não pareado e do teste de Mann-Whitney. Nos casos em que foi observada diferença estatisticamente significante, a análise post-hoc foi realizada com teste z. Foi utilizado o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences, versão 26.0.
A ideação suicida foi considerada a variável dependente. Incluíram-se nas análises brutas as seguintes variáveis independentes: idade; sexo; orientação sexual; identidade de gênero; estado civil; cor; com quem vive; trabalho; assistência estudantil; renda pessoal; renda familiar; religião; diagnóstico de transtorno mental durante a pandemia; perspectiva de futuro profissional; rendimento acadêmico; sobrecarga acadêmica; ANS; itens sintomas depressivos do DASS-21; e estratégias de enfrentamento com valor de P<0,20.
Na análise ajustada 1, foram mantidas as variáveis com p-valor < 0,15 e na análise ajustada 2, foram incluídas apenas aquelas com p-valor < 0,05. O nível de significância adotado foi de 5%. Na análise multivariada, por meio da regressão logística, foi possível analisar simultaneamente as múltiplas variáveis com todas aquelas que apresentaram valores de p<0,05 para elencar quais delas iriam compor o modelo de regressão. Assim, empregou-se a regressão de Poisson com variância robusta e ajustada, sendo estimados o Odds Ratio e seus Intervalos de Confiança de 95%.
Como forma de analisar a qualidade do modelo de regressão, verificaram-se os indicadores de multicolinearidade por meio do procedimento de regressão linear, medida de tolerância e variance inflation factor (VIF), pelos quais não foi registrada multicolinearidade em razão dos valores de tolerância e VIF terem se enquadrado em níveis maiores de 0,1 e menores de 5, respectivamente, indicando a adequação do modelo.
RESULTADOS
A maioria dos participantes (65,83%) estava na faixa etária entre 21 e 30 anos, do sexo feminino (86,67%), heterossexual (66,67%), solteiro (90%), residindo com a família (76,67%), com renda mensal de dois a quatro salários mínimos (40,83%), não possuindo renda pessoal (41,67%) e com religião (64,17%). Destacam-se os participantes que se identificaram como não-binários (0,9%), cor não branca (30,83%), trabalhavam (25%) e possuíam assistência estudantil (19,17%). Os resultados indicam a necessidade de intervenções em saúde mental voltadas a jovens adultas do sexo feminino, que compõem a maior parte do curso e são reconhecidamente mais vulneráveis à ideação suicida.
Acerca da associação dos fatores sociodemográficos e da ideação suicida entre estudantes de enfermagem, encontrou-se relação significativa para a presença de ideação suicida entre homossexuais e aqueles com religião (Tabela 1).
Diferenças entre associação da ideação suicida e fatores sociodemográficos entre estudantes de enfermagem, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2025
Em relação aos aspectos acadêmicos, observou-se associação significativa entre a percepção de não alteração no rendimento acadêmico e ideação suicida (p=0,039). Tal resultado pode indicar uma percepção pré-existente de baixo desempenho não atribuída à pandemia (Tabela 2).
Diferenças entre associação da ideação suicida e os aspectos acadêmicos após a pandemia de COVID-19, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2025
Estudantes de enfermagem com ANS apresentaram menor associação com ideação suicida, e níveis moderados de depressão estiveram associados à presença de ideação suicida nos últimos 30 dias. No que diz respeito à ANS, o dado contraintuitivo de que estudantes que não apresentaram ANS tinham maior probabilidade de ideação suicida (p < 0,001) sugere que a ausência de comportamentos autolesivos visíveis não implica ausência de sofrimento psíquico (Tabela 3).
Diferenças entre associação da ideação suicida, autolesão não suicida e depressão, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2025
Além disso, estudantes com níveis moderados de depressão apresentaram maior prevalência de ideação suicida (p=0,017). Esses dados reforçam a necessidade de estratégias institucionais com foco na identificação precoce de sintomas depressivos, mesmo em estágios moderados (Tabela 3).
No tocante às estratégias de enfrentamento, domínios como afastamento (p=0,001), aceitação de responsabilidade (p=0,003), fuga/esquiva (p=0,002) e reavaliação positiva (p=0,035) apresentaram associação significativa com ideação suicida. A falta de estratégias adaptativas, como resolução de problemas e busca de suporte social, diminui a capacidade de enfrentamento diante de estressores acadêmicos e pessoais (Tabela 4).
Diferenças entre associação de ideação suicida e estratégias de enfrentamento, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2025
A análise multivariada confirmou a maior chance de ideação suicida entre estudantes LGBTQIAPN+ (OR=2,98), entre aqueles que não perceberam alterações no rendimento acadêmico (OR=15,68) e entre os que não relataram ANS (OR=5,31). Tais evidências reforçam o papel central das universidades na formulação de políticas que contemplem ações afirmativas e estratégias de acolhimento psicossocial, com foco em estratégias de enfrentamento (Tabela 5).
Modelo final ajustado da associação entre ideação suicida e orientação sexual, religião, desempenho acadêmico após a COVID-19, comportamento de autolesão não suicida, nível de depressão e nível de uso de estratégias de enfrentamento do tipo afastamento, aceitação de responsabilidade, fuga/esquiva e reavaliação positiva, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2025
DISCUSSÃO
Estudantes de enfermagem LGBTQIAPN+ não perceberam o impacto da pandemia no rendimento escolar e não apresentaram ANS. A associação entre esse perfil e a ideação suicida foi identificada no presente estudo. Os dados obtidos aprofundam a compreensão sobre os efeitos da pandemia no rendimento escolar e a relação entre a ideação suicida e ausência de ANS em estudantes de enfermagem.
Estudantes de enfermagem de minorias sexuais apresentaram duas vezes mais chances de ter ideação suicida quando comparados aos estudantes de enfermagem heterossexuais. Esses achados corroboram investigação conduzida entre estudantes no Brasil e a população adulta nos Estados Unidos e na Bélgica, em que adultos de minorias sexuais e de gênero que sofreram violência apresentaram três vezes maior probabilidade de relatar tentativa de suicídio ao longo da vida(8,13-15). Estudantes trans apresentaram maiores índices de ideação suicida(8). Sofrer violência, não ter aceitação social e ter consciência do estigma que sofrem na sociedade foram aspectos associados à ideação suicida no último ano e às tentativas de suicídio ao longo da vida(8,14).
Nessa direção, os resultados apontam que as intervenções na prevenção do suicídio devem considerar também os aspectos de níveis estruturais, uma vez que há impacto da discriminação estrutural na saúde mental de estudantes de enfermagem de minorias sexuais. A discriminação estrutural é uma causa fundamental das desigualdades na saúde e ocorre quando sistemas interligados de poder, privilégio e opressão são incorporados em políticas públicas, normas institucionais, práticas culturais e sistemas de crenças(16).
Apesar dos esforços na busca de garantir os direitos para as minorias sexuais, o Brasil é um dos países mais estigmatizantes em relação às identidades de minorias sexuais, com menores recursos de cuidados de saúde a essa população. Embora a ideação suicida tenha sido mais prevalente nesse grupo, isso não implica que todos os estudantes de enfermagem de minorias sexuais terão maior prevalência de ideação suicida.
A hipótese dos autores desta investigação não foi corroborada, pois não houve associação entre o efeito da pandemia na piora do rendimento escolar, sobrecarga de rotina, perspectiva de futuro profissional e presença de ideação suicida. Os achados indicaram que não perceber impacto no rendimento escolar após a pandemia aumentou em 16 vezes o risco para ideação suicida em estudantes de enfermagem. No estudo em tela, infere-se que o rendimento escolar anterior à pandemia pode ser percebido como não satisfatório e interferir direta e indiretamente, na presença da ideação suicida. O desempenho acadêmico é um dos determinantes do sofrimento psíquico dos universitários(16-18). Evidencia-se que é necessário explorar para além do desempenho acadêmico o contexto da soma de atividades acadêmicas curriculares, relacionamentos interpessoais com colegas e professores, e características pessoais de cada estudante de enfermagem.
Adicionalmente, investigações encontraram que, na percepção de estudantes de enfermagem e de profissionais de saúde, os fatores que influenciam o processo de ensino-aprendizagem compreendem as relações estabelecidas com os colegas, a estrutura familiar, as questões socioeconômicas, o processo de formação educacional no ensino básico(17-19) e o papel social de estudante e mulher, juntamente com a perspectiva da transição para a idade adulta.
Programas educacionais específicos têm sido implementados por universidades como estratégias estruturadas de prevenção ao suicídio com foco na promoção da saúde mental dos estudantes. É o caso do programa de prevenção do suicídio intitulado “Talk to me” para estudantes universitários na Austrália, que resultou em maior procura por ajuda profissional de saúde mental, aumento da resiliência e diminuição do estresse acadêmico(20). No Brasil, as ações afirmativas e de permanência estudantil, juntamente com atividades educativas, terapêuticas e de apoio aos estudantes, sendo incluídas também atividades físicas, esportivas e de cultura e lazer, são ações possíveis para o enfrentamento do sofrimento psíquico entre estudantes universitários(17,18).
A ANS não teve associação com a ideação suicida; pelo contrário, estudantes de enfermagem sem ANS apresentaram cinco vezes mais chance de ideação suicida comparado aos que tinham histórico de ANS. Esses resultados são semelhantes ao estudo de coorte na Inglaterra com jovens em que as características de ANS não foram fortes preditores de futuras tentativas de suicídio(21). População inglesa na faixa etária dos 16 aos 24 anos relatou ANS para aliviar sentimentos desagradáveis de raiva, tensão, ansiedade ou depressão(22). Acresce-se que a depressão atua como mediadora na relação entre as necessidades interpessoais não atendidas que despertam a reação emocional de sentir-se um fardo e a ANS(7).
Corroborando achados deste estudo, revisão sistemática com meta-análise encontrou associação fraca entre comportamento de fuga e/ou evitação e ANS, e associação de moderada a forte para comportamento suicida(23). As evidências contemporâneas sugerem que a ANS produz uma reação emocional, compreendida como alívio, promovido pela sensação da dor(23).
Os modelos psicológicos de comportamento suicida discorrem sobre a experiência de sentimentos intensos e avassaladores, como sentir-se derrotado e preso por estressores externos e/ou estressores internos, e funcionam como estratégia para escapar das emoções e/ou pensamentos negativos avassaladores que o indivíduo vivencia, dos quais sente que não há esperança para o futuro e nenhuma possibilidade realista de ajuda(23).
Investigação quantitativa encontrou associação entre menor flexibilidade de enfrentamento e risco de suicídio em estudantes chineses com sintomas de depressão(24). Estudo brasileiro com estudantes dos cursos da área da saúde identificou que a gravidade dos sintomas de depressão esteve relacionada à média mais baixa dos escores de qualidade de vida no domínio psicológico(25). Nesta investigação, observou-se que aproximadamente 32,86% dos estudantes de enfermagem apresentaram níveis leves/moderados de depressão. A baixa prevalência da severidade dos sintomas de depressão em estudantes de enfermagem pode explicar os resultados encontrados neste estudo, em que, no modelo final ajustado, não houve associação entre depressão, estratégias de enfrentamento de afastamento, aceitação de responsabilidade, fuga/esquiva e reavaliação positiva com o risco de ideação suicida.
Esses resultados contrastam com as evidências científicas sobre o tema. É o que nos diz estudo quantitativo na Bélgica que encontrou associação entre o enfrentamento de fuga/esquiva e o enfrentamento passivo, além de maior probabilidade de ideação suicida entre jovens adultos de minorias sexuais(14). Estudantes iranianos com atitudes disfuncionais e enfrentamento focado na emoção possuem maior risco significativo para ideação suicida(26). Os estilos de apego inseguro (ambivalente e evitativo) apresentam papel mediador entre as atitudes disfuncionais e o enfrentamento focado na emoção(26).
Enfermeiros que possuem estratégias de enfrentamento focalizadas no problema e na emoção conseguem regular o estresse vivenciado no ambiente de trabalho(27). A resiliência tem um efeito mediador importante entre as situações estressantes e a implementação de estratégias proativas e de regulação emocional(27).
Segundo o Modelo Integrado Motivacional Volitivo do Comportamento Suicida, os processos cognitivos relacionados ao enfrentamento passivo são semelhantes à ruminação, que é um importante contribuinte para a ideação suicida(28). Indivíduos que sofrem regularmente vitimização relacionada a LGBTQIAPN+ podem evitar certas situações ou indivíduos e, como resultado, a curto prazo, sua saúde mental é temporariamente preservada, mas não está claro como isso afeta a saúde mental a longo prazo(8,15). Evitar situações, lugares e/ou pessoas pode limitar a socialização e a possibilidade da consciência do seu eu e da sua própria identidade, o que pode levar a um enfrentamento desadaptativo em resposta ao estresse que sofrem. Revisão de literatura encontrou que alunos que não dispõem de amigos para compartilhar momentos sociais apresentam maior isolamento e sofrimento(17).
Na perspectiva de ter um senso positivo de si, a auto-rotulagem pode informar como os indivíduos lidam com o sofrimento emocional, com potencial para efeitos positivos e negativos em suas vidas(29). Investigação contemporânea com universitários do curso de psicologia nos Estados Unidos da América identificou que a auto-rotulagem (por exemplo: eu estou deprimido) estava associada a níveis baixos de controle percebido sobre a depressão, pensamentos de catastrofização, menor capacidade para percepção de perspectivas, reorientação, reavaliação, planejamento e atitudes de busca de ajuda em relação à medicação, mas não foi observado em relação à terapia(29).
Identificou-se ainda que a mediação indireta das estratégias de enfrentamento fuga/esquiva/afastamento, aceitação de responsabilidade e reavaliação positiva, e a ideação suicida apontam para algumas hipóteses: a aceitação de responsabilidade e reavaliação positiva pode levar a auto-rotulagem (por exemplo: eu sou responsável por tudo o que acontece de ruim comigo) e não ser suficiente para produzir respostas cognitivas para uma regulação emocional. No modelo de estresse-diátese do suicídio, os fatores relacionados à diátese podem condicionar ao impedimento de uma resposta emocionalmente regulada e produzir o desejo de suicídio(30).
Limitações do estudo
Uma limitação do estudo é o fato de que não houve a especificação de um evento estressor na aplicação do questionário de enfrentamento. Portanto, os resultados devem ser vistos com cautela, uma vez que, para cada situação estressora, o indivíduo pode usar diferentes estratégias de enfrentamento. Ademais, por se tratar de uma amostra por conveniência, a generalização dos dados para outros contextos deve ser vista com cautela.
Contribuições para as áreas da saúde, enfermagem ou políticas públicas
Os resultados deste estudo apontam sobre as lições aprendidas pela pandemia de COVID-19, as quais podem auxiliar os estudantes em maior vulnerabilidade para a ideação suicida. Em primeiro lugar, fornecer apoio pedagógico a todos os estudantes de enfermagem representa uma estratégia pedagógica para desenvolver competências de gestão do tempo e enfrentamento das exigências acadêmicas. Em segundo lugar, é importante construir intervenções psicossociais para que os estudantes de minorias sexuais possam utilizar estratégias de enfrentamento focalizadas no problema e na emoção em situações estressoras, principalmente situações de discriminação e exclusão social. Deve-se implementar políticas de garantia de direitos humanos e letramento para professores nas universidades para combater o preconceito estrutural que ainda existe com os estudantes de enfermagem de minorias sexuais. Em terceiro lugar, é importante o compartilhamento dos resultados com as instâncias gestoras da rede de assistência à saúde, com destaque à rede de atenção psicossocial, serviços públicos de saúde no município em questão, para que os profissionais de saúde estejam cientes e possam estar preparados para o acolhimento das necessidades em saúde mental da população estudada, o que pode, também, ser extrapolado para a população universitária em geral, considerando a semelhança nos desafios acadêmicos, emocionais e sociais enfrentados por esses grupos. Em quarto lugar, deve haver acolhimento das demandas psicossociais dos estudantes de enfermagem que não se relacionam exclusivamente às demandas acadêmicas. Há necessidade de implementar a escuta empática e o acolhimento para o estudante que implementa majoritariamente estratégias focalizadas na emoção, em que as situações estressantes podem ser percebidas como um fardo e que não possuem solução.
CONCLUSÕES
Estudantes de enfermagem de minorias sexuais que não tiveram percepção de piora no rendimento escolar dois anos após a restrição social da pandemia e não ter ANS se apresentaram como fatores de risco para a ideação suicida. Na análise bivariada, é sugestivo que sintomas severos de depressão e o uso de estratégias de enfrentamento de afastamento, aceitação de responsabilidade, fuga/esquiva e reavaliação positiva podem ter efeitos mediadores indiretos na presença da ideação suicida.
Esses apontamentos podem ajudar a compreender melhor os fatores de risco dessa população no período pós-pandemia e, assim, direcionar enfermeiros e educadores para ações de detecção precoce do risco para o suicídio e ações para promoção do bem-estar nos cursos de graduação em enfermagem nas universidades.
FOMENTO
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Bolsa de Iniciação Científica - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL
Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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EDITOR CHEFE
Dulce Barbosa
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EDITOR ASSOCIADO
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