RESUMO
Objetivos: avaliar o efeito de um recurso audiovisual na aquisição de conhecimento e no nível de ansiedade no pré-operatório de revascularização do miocárdio.
Métodos: ensaio clínico randomizado, duplo-cego, realizado com 44 participantes em hospital de grande porte do Nordeste brasileiro. O grupo-controle (n=22) recebeu orientações verbais; e o grupo experimental (n=22), orientações e intervenção audiovisual. Coletaram-se os dados mediante questionário de conhecimento e Inventário de Ansiedade Traço-Estado. Analisou-se a estatística pelos testes t de Student, qui-quadrado e exato de Fisher.
Resultados: no grupo experimental, os sentimentos positivos aumentaram, houve diferença significante na redução da ansiedade, o conhecimento sobre a cirurgia aumentou com o recurso audiovisual (p<0,005), e a ansiedade-estado diminuiu mais comparativamente ao controle (p=0,001).
Conclusões: tecnologias educativas, como recursos audiovisuais, melhoram a orientação pré-operatória, reduzem a ansiedade e aumentam o conhecimento do paciente.
Descritores:
Educação em Saúde; Período Pré-Operatório; Enfermagem; Recursos Audiovisuais. Revascularização Miocárdica
ABSTRACT
Objectives: to evaluate the effect of an audiovisual aid on knowledge acquisition and anxiety levels during the preoperative period of coronary revascularization.
Methods: we conducted a randomized, double-blind clinical trial with 44 participants at a large tertiary hospital in northeastern Brazil. The control group (n = 22) received verbal instructions alone, while the experimental group (n = 22) received verbal instructions and an audiovisual intervention. Data were collected using a knowledge questionnaire and the State-Trait Anxiety Inventory. Statistical analysis included Student’s t-test, the chi-square test, and Fisher’s exact test.
Results: in the experimental group, positive affect increased and anxiety decreased significantly. Knowledge about the procedure improved with the audiovisual aid (p < 0.005), and state anxiety declined more in the experimental group than in the control group (p = 0.001).
Conclusions: educational technologies such as audiovisual aids enhance preoperative education, reduce anxiety, and increase patient knowledge.
Descriptors:
Health Education; Preoperative Period; Nursing; Audiovisual Aids; Myocardial Revascularization
RESUMEN
Objetivos: evaluar el efecto de un recurso audiovisual en el conocimiento y la ansiedad en el preoperatorio de revascularización miocárdica.
Métodos: ensayo clínico aleatorizado, doble ciego, con 44 pacientes en un hospital de referencia del Nordeste de Brasil. El grupo control (n = 22) recibió solo orientaciones verbales; el experimental (n = 22), además, la intervención audiovisual. Los datos se obtuvieron con un cuestionario de conocimiento y el Inventario de Ansiedad Estado-Rasgo. Se usaron las pruebas t de Student, chi-cuadrado y la prueba exacta de Fisher.
Resultados: en el experimental aumentaron las respuestas positivas y hubo reducción significativa de la ansiedad; el conocimiento sobre la cirugía mejoró con el recurso audiovisual (p < 0,005) y la ansiedad-estado disminuyó más que en el control (p = 0,001).
Conclusiones: las tecnologías educativas, como los recursos audiovisuales, mejoran la orientación preoperatoria, reducen la ansiedad y aumentan el conocimiento del paciente.
Descriptores:
Educación en Salud; Periodo Preoperatorio; Enfermería; Recursos Audiovisuales; Revascularización Miocárdica
INTRODUÇÃO
A cirurgia de revascularização do miocárdio (RM) é considerada uma escolha terapêutica para melhorar a sobrevida em pacientes com infarto agudo do miocárdio ou que apresentam doença arterial coronariana (DAC) grave(1). Porém, o período pré-operatório de RM ocasiona instabilidades hemodinâmicas, às quais se somam sentimentos de ansiedade e depressão(1-3). Para isso, intervenções educativas tornam-se opções eficazes para aumentar o nível de conhecimento dos pacientes sobre a cirurgia e, consequentemente, manejar esses sentimentos negativos(4).
Dessa perspectiva, é essencial que o paciente compreenda todo o processo cirúrgico a ser realizado, a fim de reduzir sentimentos negativos gerados pelo desconhecido(5,6). Sendo assim, a avaliação pré-operatória do paciente precisa ir além do exame físico e dos testes laboratoriais, trabalhando a confiança do paciente, uma vez que a insegurança e a ansiedade podem aumentar o risco de complicações no pós-operatório(7). Essa abordagem holística é importante para reduzir os sentimentos negativos, conscientizar sobre os procedimentos que serão realizados e, por sua vez, proporcionar uma recuperação mais eficaz e segura(8).
Diante do cenário atual, a faixa etária que mais realiza a RM são os adultos jovens portadores de DAC, cuja taxa de mortalidade é de 8% no público masculino e 6% no feminino, intensificando os sinais de ansiedade e medo no pré-operatório entre aqueles pacientes não familiarizados com o procedimento(5,9,10).
Essa problemática pode ser trabalhada por meio de tecnologias educacionais, como recursos audiovisuais (RA) em forma de vídeo, comprovadamente eficazes com esse público. O vídeo tem por finalidade diminuir os níveis de ansiedade e melhorar o conhecimento do paciente, auxiliando ainda o enfermeiro e a equipe de saúde nas orientações pré-operatórias e contribuindo com a sistematização do cuidado(9,11).
A Diretriz Europeia para Revascularização do Miocárdio reforça esse uso de tecnologias educacionais dentro do cenário de orientação ao paciente. Ela recomenda a pesquisas e o desenvolvimento de ferramentas e programas educacionais para implementar essas orientações e, assim, proporcionar integração dos dados gerados com a prática clínica no pré-operatório de RM(12).
Considerando tal contexto, este estudo visa contribuir com o processo de trabalho da enfermagem por meio da integração de uma ferramenta educativa na prática assistencial do enfermeiro durante a visita pré-operatória, atribuindo maior qualidade e sistematização ao cuidado. Acredita-se que essa estratégia pode auxiliar o paciente a compreender todo o processo que será realizado, para reduzir a ansiedade no pré-operatório e proporcionar uma recuperação mais rápida e com menos complicações. No âmbito da ciência, este estudo pode fornecer resultados que subsidiem a implementação de práticas baseadas em evidências, incentivando a adoção de tecnologias educacionais inovadoras em diversos contextos clínicos.
Assim, a hipótese do estudo foi que o recurso audiovisual pode aumentar o conhecimento e melhorar o manejo de ansiedade em pacientes durante o pré-operatório de RM.
OBJETIVOS
Avaliar o efeito de um recurso audiovisual na aquisição de conhecimento e no nível de ansiedade durante o pré-operatório de revascularização do miocárdio.
MÉTODOS
Aspectos éticos
O estudo foi registrado na plataforma de Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (REBEC) - RBR-24c5qwm (27/05/2021) e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado por todos os indivíduos envolvidos no estudo.
Desenho, período e local de estudo
Este estudo é um ensaio clínico randomizado controlado (ECR) e duplo-cego. Foi realizado com pacientes de RM, durante o período pré-operatório, em uma enfermaria cardiológica de um hospital do Nordeste brasileiro, seguindo os passos do CONSORT 2010(13). O estudo é fruto de uma dissertação de mestrado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte(14).
População ou amostra; critérios de inclusão e exclusão
A amostra randomizada continha 44 participantes, divididos em dois grupos de mesmo tamanho. O cálculo da amostra foi realizado com efeito de Cohen de 0,80, poder do teste de 0,80 e nível de significância de 5%.
Foram incluídos os pacientes internados na enfermaria de cardiologia para realização de RM exclusiva, de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos os pacientes com cirurgia cardíaca prévia, aqueles com cirurgias associadas durante a internação, pacientes que eram profissionais da área da saúde e aqueles com qualquer transtorno emocional/mental ou distúrbios de aprendizagem que alterassem a compreensão das orientações.
Protocolo do estudo
Os participantes foram recrutados entre 28 de maio e 28 de novembro de 2021, após aprovação do estudo pelo comitê de ética e REBEC. A randomização simples dos participantes foi realizada utilizando-se o site www.randomizer.org. Ele gerou uma lista de randomização, que foi seguida para alocar os participantes após a avaliação dos critérios de elegibilidade, conhecida apenas pelo pesquisador principal.
Para a alocação, foram realizadas visitas semanais à enfermaria a fim de acessar a lista de pacientes em pré-operatórios de RM. Fez-se o cegamento apenas da equipe assistencial, a qual desconhecia a alocação dos pacientes, sendo que todas as intervenções foram aplicadas pela pesquisadora principal. A aplicação da intervenção foi realizada no leito com cortinas fechadas e sem participação da equipe do setor. A avaliação e aplicação dos instrumentos foram realizadas por um segundo pesquisador, que desconhecia a alocação dos pacientes.
Conseguiu-se evitar a interação entre os participantes da pesquisa nos três momentos da intervenção. As estatísticas da pesquisa foram calculadas por um estatístico profissional que não conhecia os grupos do estudo.
A alocação dos grupos foi realizada conforme fluxograma do CONSORT(13) (Figura 1). Os pacientes elegíveis para o estudo foram abordados na enfermaria. Receberam explicação sobre o estudo e intervenção, bem como tiveram tempo para leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo assinado por quem aceitou participar. Assim, a pesquisa foi composta por dois grupos, descritos a seguir.
Fluxograma de inclusão, randomização e análise dos grupos de pesquisa, adaptado do Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT), Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2024
O grupo-controle (GC) compreendia 22 pacientes que receberam apenas instruções pré-operatórias verbais, denominadas neste estudo de “instruções-padrão”. Já o grupo experimental (GE) consistia de 22 pacientes que receberam orientações padronizadas e a aplicação de RA (vídeo) no leito do paciente. Adquiriu-se a licença para usar esse recurso audiovisual durante o período do estudo. O material continha informações sobre a cirurgia RM e informações acerca do período cirúrgico. Foi desenvolvido por uma empresa americana, criadora de ilustrações e animações em 3D para os mercados farmacêutico, biotecnológico, médico (dispositivos) e educacional.
Um segundo pesquisador, que não participou da intervenção avaliou o nível de ansiedade de todos os participantes antes e depois das intervenções. Após as intervenções, esse pesquisador também avaliou o nível de conhecimento do participante sobre o procedimento ao qual seria submetido.
Cegamento
Trata-se de um estudo duplo-cego, pois houve o cegamento do pesquisador que aplicou os instrumentos de avaliação e do estatístico que realizou a análise dos dados.
Análise dos resultados e estatística
O desfecho primário foi o conhecimento do paciente sobre o processo cirúrgico, avaliado por meio do instrumento de avaliação de conhecimento (IAC)(15), que contém as seguintes questões sobre RM: Q1 – Conhecimento sobre cirurgia de revascularização do miocárdio; Q2 – Preparo pré-operatório; Q3 – Cuidados intraoperatórios; Q4 – Cuidados e intervenção respiratória no intraoperatório; Q5 – Pós-operatório imediato; Q6 – Rotina institucional no período de pós-operatório imediato; Q7 – Recuperação pós procedimento; Q8 – Cuidados pós-operatórios; Q9 – Reabilitação pós-cirurgia. Ao final, a pontuação do paciente pode atingir até nove pontos, sendo feita uma comparação entre os grupos para avaliar o percentual e média de acertos.
O desfecho secundário foi o manejo da ansiedade, com aplicação do instrumento avaliativo Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE)(16). É uma ferramenta que mede a ansiedade como estado (IDATE-E) e como traço (IDATE-T). A pontuação é distribuída da seguinte forma: 20 a 40 pontos, nível baixo; 41 a 60 pontos, média; 61 a 80 pontos, alto. Foi calculada a somatória de cada paciente, comparando a média entre os grupos e os níveis de ansiedade antes e depois de cada intervenção.
Foram empregadas estatísticas descritivas para caracterizar as variáveis independentes e dependentes (sexo, idade, escolaridade, frequência de acertos e nível de ansiedade). A fim de comparar os desfechos primários e secundários, foram aplicados o teste t de Student e o teste exato de Fisher. Para comparar a classificação IAC e IDATE, bem como esses valores com a escolaridade entre os grupos experimental e controle, foram aplicados o teste qui-quadrado (χ²) e o teste de McNemar, além dos demais citados. Foi adotado o nível de significância de 5% ao longo do estudo (p < 0,050). Foi utilizado o software SPSS, versão 26.
RESULTADOS
Caracterização dos participantes
A amostra total contabilizou 44 pacientes, divididos igualmente entre o GC e o GE. Ressalta-se que não houve perdas durante as intervenções. O fluxograma dos participantes está ilustrado na Figura 1, e as características sociodemográficas e clínicas comparadas com os grupos da linha de base do estudo estão apresentadas na Tabela 1.
Tabela da linha de base com dados demográficos e variáveis clínicas da amostra total (N = 44), Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2024
Nível de conhecimento dos pacientes
O nível de conhecimento variou de forma estatisticamente significante: a média de acertos para o GE foi maior (7,77; DP 1,45; p < 0,050). Ao avaliar as questões do questionário separadamente, observam-se diferenças estatísticas nos acertos da Questão 2 (Q2 - “Nas horas que antecedem a cirurgia, o que você poderá fazer?”), em que o GE apresentou maior percentual de acertos (95,4%; p < 0,050) (Tabela 2). Além disso, a chance de os participantes do GC responderem corretamente a Q2 é reduzida em 90,0% em comparação ao GE.
Avaliação de acertos e erros para cada questão do instrumento de avaliação de conhecimento, aplicado em cada grupo após a intervenção, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2024
Além disso, questões como Q3, Q4 e Q8, relacionadas aos períodos intraoperatório e pós-operatório, obtiveram índice de acertos diferentes entre os grupos, em que a maior pontuação foi do GE (Tabela 2), embora sem valores de p < 0,050. Em ambos os grupos, a Questão 6 obteve o mesmo índice de acertos (72,7%) e erros (27,2%) em ambos os grupos.
Quanto à orientação antes da cirurgia e da intervenção, grande parte da amostra total não recebeu nenhuma orientação sobre como seria a cirurgia ou sobre os procedimentos no período pré-operatório (GE 60,0% versus GC 40,0%). Entretanto, os participantes de ambos os grupos que tiveram orientação prévia apresentaram nível de ansiedade-estado (IDATE-E) 6,71 vezes menor e de ansiedade-traço (IDATE-T) 8,15 vezes menor.
Após a intervenção, quando questionados sobre se a intervenção retirou todas as dúvidas, 64,0% (28) não souberam ou não quiseram responder, 29,0% (13) relataram que a intervenção esclareceu as dúvidas, e 7,0% (3) ainda continuaram com dúvidas. Todavia, quando questionados sobre a preparação do paciente para realizar a cirurgia e acerca de quais eram seus sentimentos sobre o assunto, 77,0% relataram estar preparados e confiantes.
No que concerne à análise por grupos depois da intervenção, o GE apresentou diferença significante em relação ao GC, com 86,3% (19) sentindo-se preparados e confiantes para a cirurgia após a intervenção com RA, enquanto no GC, 68,1% (15) relataram o mesmo sentimento de confiança.
Nível de ansiedade antes e depois da intervenção
Analisando os dois grupos quanto à variável “sexo”, as mulheres tiveram níveis médios de ansiedade maiores que os homens em ambos os grupos (21,4% versus 6,6%).
Também houve influência do nível de escolaridade na resposta à intervenção. Os participantes com ensino superior, médio e educação básica tiveram redução da ansiedade de nível médio no IDATE-T de 27,2%, 50,0% e 12,5% para 9,1%, 12,5% e 12,5%, respectivamente. No IDATE-E, os participantes de nível médio e educação básica reduziram os níveis médios de 22,7% e 37,5% para 9,1% e 12,5%, respectivamente. Os participantes de nível superior reduziram totalmente a ansiedade em níveis médios. Já os participantes sem instrução apresentaram a menor diferença de IDATE-T em níveis médios (33,3% para 16,7%), ao passo que, no IDATE-E, 100,0% dos participantes apresentaram nível baixo sem modificação após a intervenção.
O desfecho secundário mostrou que o nível de ansiedade diminuiu ao comparar os níveis do IDATE antes e depois da intervenção em ambos os grupos (Tabela 3). No GC, IDATE-E (Antes = 34 [DP 7,93] versus Depois = 29 [DP 8,23]; p < 0,050) e IDATE-T (Antes = 36 [DP 9,32] versus Depois = 32 [DP 6,74]; p < 0,050) apresentaram diminuição de valores. No GE, IDATE-E (Antes = 31 [DP 6,72] versus Depois = 26 [DP 5,47]; p < 0,050) apresentou maior diminuição comparado com o GC.
Nível de ansiedade obtido mediante a aplicação da escala de ansiedade antes e depois da intervenção em cada grupo do estudo, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2024
Ambos os grupos apresentaram diminuição do nível de ansiedade, de moderado para baixo (Tabela 3). No GE, houve redução total da ansiedade, do nível moderado para o baixo (p < 0,050). Ressalta-se que nenhum dos grupos obteve pontuação para ser classificado como apresentando níveis altos de ansiedade.
Ao avaliar cada resposta do IDATE, o GE demonstrou diminuição dos sentimentos negativos após as intervenções, registrando “não” como resposta nos seguintes itens: “Estou tenso” (68,1%), “Sinto muito” (100,0%), “Estou preocupado” (68,1%) e “Sinto-me superexcitado e confuso” (86,3%).
Na avaliação das respostas aos itens do IDATE-T, o GE teve melhor desempenho pós-intervenção, com diminuição dos sentimentos negativos de forma global, principalmente nos itens “Perco oportunidades porque não consigo tomar decisões rapidamente” (GE = 68,1% versus GC = 45,4%) e “Não tenho muita confiança em mim mesmo” (EG = 86,3% versus GC = 68,1%).
DISCUSSÃO
O perfil demográfico da amostra, majoritariamente composta por homens (68,1%) com idade superior a 60 anos, alinha-se com o panorama epidemiológico global da doença arterial coronariana(17). Apesar disso, esse dado é heterogêneo na literatura: alguns artigos apontam que o sexo feminino prevalece quando a doença se associa a fatores como idade avançada, diabetes e dislipidemia, pois estes contribuem para o aumento do risco de doenças cardiovasculares nessa população, especialmente após o climatério(18). Sobre a faixa etária, as fontes reiteram que a média de idade dos pacientes submetidos à CRM é elevada, havendo um prolongado atraso entre a indicação e a realização da cirurgia, o que aumenta a taxa de mortalidade em até três vezes(17).
Em relação à escolaridade, predominou o ensino fundamental, o que indica baixo nível educacional e fortalece a necessidade de uma orientação clara e simplificada no período pré-operatório. Esse dado é semelhante aos achados na literatura(19-21). A baixa escolaridade reflete dificuldade de manejo dos níveis de ansiedade e torna-se um obstáculo para o paciente compreender as orientações. Essa associação é encontrada também em outro estudo, relacionando-se a pior prognóstico(22).
Um dos achados mais alarmantes, que denota a carência crítica de orientação pré-operatória, é a constatação de que uma parcela expressiva dos pacientes (60,0% do GE e 40,0% do GC) chegou para um procedimento de alta complexidade sem ter recebido nenhuma orientação prévia. Esse vácuo informacional é um fator de risco conhecido para o aumento da ansiedade. Os dados deste estudo confirmam isso de forma contundente, pois pacientes que tiveram qualquer tipo de orientação prévia, independentemente do grupo, apresentaram níveis de ansiedade-estado (IDATE-E) 6,71 vezes menores e de ansiedade-traço (IDATE-T) 8,15 vezes menores. Esses resultados demonstram que a educação em saúde é mais que um complemento: é um componente essencial do cuidado perioperatório(17).
Diante disso, verificou-se que a intervenção com orientações pré-operatórias aliada a uma tecnologia educacional diminuiu os níveis de ansiedade nos pacientes que foram submetidos à RM, observando-se uma redução de moderado para baixo em todos os grupos avaliados (p < 0,050). Estudos reforçam esse achado, destacando que a educação baseada em mídia audiovisual é eficaz em aumentar o nível de atenção e retenção de memória dos pacientes, pois o conteúdo educacional é transmitido simultaneamente por meio de estímulos visuais e auditivos(5,23). Esse meio de informação contrasta com outros, que muitas vezes demandam maior nível de educação e instrução dos indivíduos e, consequentemente, podem ser uma barreira na comunicação, aumentando a ansiedade e o estresse(5,15).
Além disso, o nível de conhecimento dos participantes do GE foi estatisticamente superior ao do GC (média de acertos 7,77; p < 0,050). O impacto é ainda mais claro em questões de relevância prática, como os cuidados pré-operatórios imediatos (Q2), em que os participantes do GC tiveram uma chance 90,0% menor de acertar a resposta em comparação ao GE. Esse dado evidencia que o RA não apenas transmite informação, mas também garante sua assimilação de forma eficaz, superando a comunicação verbal tradicional, que pode ser inconsistente ou insuficiente. Essa apreensão do conteúdo é vital, pois a adesão a cuidados como o jejum está diretamente ligada à segurança do procedimento(24).
Estudos mostram benefícios para o paciente e aumento da sua segurança quando ele aprende sobre o processo cirúrgico, uma vez que os sentimentos negativos estão relacionados com a instabilidade física e emocional(15,23).
Outro dado interessante é não ter havido nenhum participante com nível alto de ansiedade, o que pode ter relação com a predominância do sexo masculino na amostra. Nessa direção, estudos confirmam que participantes femininas têm níveis maiores de ansiedade e depressão(3,25-28).
Além disso, há evidências de redução da ansiedade e melhora de conhecimento nos pacientes quando aplicado o RA. Dessa perspectiva, é válido ressaltar que orientações sobre a anatomia do coração, fisiopatologia da doença, processo cirúrgico, cuidados pós-operatórios e reabilitação são eficazes para a aquisição de conhecimento e redução da ansiedade do paciente(25-27). A literatura é vasta ao correlacionar menores níveis de ansiedade pré-operatória com melhores desfechos, incluindo menor percepção de dor, menor consumo de analgésicos no pós-operatório, maior estabilidade hemodinâmica e uma recuperação mais rápida(7,27-37).
É fundamental ressaltar que a tecnologia educacional não substitui a atuação da enfermagem, e sim a potencializa. O enfermeiro é o profissional central na preparação do paciente para procedimentos de alta complexidade, como a RM. A oferta de orientações claras no pré-operatório é uma intervenção de enfermagem crucial: ela eleva o nível de conhecimento do paciente, aumenta a confiança na equipe e no procedimento e, como demonstrado, reduz a ansiedade. Portanto, o RA funciona como um poderoso instrumento que qualifica a prática educativa do enfermeiro, permitindo que o tempo da consulta seja otimizado para esclarecer dúvidas pontuais e fortalecer o vínculo terapêutico, em vez de apenas transmitir informações básicas(17,21,29-32).
Concernente a isso, a educação em saúde atrelada ao manejo da ansiedade torna-se essencial para o paciente em pré-operatório de cirurgia cardíaca, já que aumenta a sensação de controle e autonomia por compreender o processo cirúrgico e o prognóstico da fisiopatologia. Desse modo, contribui para uma assistência eficaz, auxiliando na redução de complicações pós-operatórias e na melhoria da qualidade de vida(12).
A intervenção deste estudo mostrou-se eficaz em aumentar o sentimento de confiança para realizar a cirurgia, com 64,0% da amostra total incapaz de afirmar se sentia confiança. Após a intervenção, 86,3% do GE sentiu-se preparado e confiante, um percentual consideravelmente maior que os 68,1% do GC. Além disso, o recurso audiovisual também promoveu conhecimentos sobre a fase pós-operatória e recuperação cirúrgica. Pesquisas comprovam que fornecer conhecimento ao paciente faz com que ele se torne um agente ativo em seu autocuidado, o que é essencial para melhorar a qualidade de vida e os resultados no longo prazo(32-37).
Em suma, este estudo evidencia que implementar tecnologias educacionais audiovisuais, como o RA, é uma estratégia eficaz e bem-aceita para preparar pacientes para a cirurgia de revascularização do miocárdio. A intervenção demonstrou ser particularmente adequada para uma população com baixo nível de escolaridade, superando barreiras de comunicação e contribuindo para a redução da ansiedade. Esses resultados reforçam o papel indispensável da educação em saúde no período pré-operatório e destacam a importância de equipar os profissionais de enfermagem com ferramentas inovadoras para qualificar a assistência e melhorar a segurança e o bem-estar do paciente cirúrgico.
Limitações do estudo
Uma limitação importante deste estudo é que ele foi realizado em apenas um hospital, o que reforça a necessidade de replicá-lo em diferentes contextos, tanto locais quanto internacionais. Para obter evidências mais robustas e desenvolver intervenções eficazes para os pacientes durante a cirurgia, recomenda-se a realização de novos estudos em formato multicêntrico, com amostras maiores e populações diversas.
Contribuições para a Área da Enfermagem
Recursos audiovisuais podem complementar as orientações verbais, tornando a comunicação mais clara e acessível, especialmente para pacientes com diferentes níveis de alfabetização ou dificuldades de compreensão. O estudo contribui para a formação contínua dos enfermeiros, incentivando-os a integrar tecnologias educativas em sua prática, a fim de aprimorar suas habilidades de comunicação e ensino. Os resultados fornecem uma base sólida para futuras investigações sobre outras ferramentas tecnológicas que podem melhorar a prática de enfermagem, oferecendo uma abordagem baseada em evidências.
Ao comprovar os benefícios dos recursos audiovisuais, o estudo pode influenciar políticas institucionais e de saúde pública, promovendo a incorporação dessas tecnologias no ambiente hospitalar. Por fim, a implementação de recursos audiovisuais pode aumentar a satisfação do paciente com o atendimento recebido, o que se reflete positivamente na imagem e na qualidade do serviço de enfermagem.
CONCLUSÕES
O estudo avaliou o efeito de um recurso audiovisual na orientação durante o período pré-operatório de RM. O vídeo, enquanto RA, teve efeito positivo no aumento do conhecimento e na redução do nível de ansiedade dos pacientes no pré-operatório de RM. O uso dessa estratégia aprimora o processo de assistência de enfermagem por meio da inserção de tecnologias educativas durante o pré-operatório, sem causar complicações ao paciente. Além disso, é um método de fácil implementação nos serviços de saúde e bem-aceito pelos pacientes.
Vale destacar que este estudo reforça indiretamente a importância de intervenções não farmacológicas no manejo da ansiedade e sugere que abordagens educativas podem ser coadjuvantes aos métodos tradicionais. Nessa seara, a facilidade de implementação de tal estratégia viabiliza sua inclusão nas rotinas de cuidado de enfermagem, de modo que o enfermeiro se torna um protagonista nessa abordagem, com potencial de transformar a experiência dos pacientes.
FOMENTO
-
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiou esta pesquisa, que se vincula ao projeto de pesquisa de número 403907/2023-3.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL
Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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