Open-access Estilo de tomada de decisão dos enfermeiros no ambiente hospitalar

RESUMO

Objetivos:  analisar o estilo de tomada de decisão dos enfermeiros no ambiente hospitalar e associar o perfil sociodemográfico e ocupacional dos enfermeiros ao estilo de tomada de decisão.

Métodos:  estudo quantitativo, analítico, realizado com 181 enfermeiros de um hospital público universitário do sul do Brasil. Utilizaram-se um instrumento para coleta de dados sociodemográficos e ocupacionais e o Melbourne Decision Making Questionnaire.

Resultados:  o estilo de tomada de decisão vigilante foi amplamente praticado, enquanto hipervigilante, procrastinador e buck passingbuck-passing foram menos frequentes. Enfermeiros autodeclarados pretos, pardos e amarelos apresentaram maior chance de adotar o estilo vigilante. O turno vespertino apresentou maior chance de associação com o estilo procrastinador.

Conclusões:  o processo decisório pode ser afetado por variáveis pessoais e ocupacionais dos participantes, bem como por aspectos situacionais em que os enfermeiros estão inseridos, tanto no ambiente de trabalho quanto no social.

Descritores:
Tomada de Decisões; Enfermeiras e Enfermeiros; Hospitais; Enfermagem; Competência Profissional

ABSTRACT

Objectives:  to analyze nurses’ decision-making styles in hospital settings and to associate their sociodemographic and occupational profiles with their decision-making styles.

Methods:  this is a quantitative, analytical study conducted with 181 nurses from a public university hospital in southern Brazil. A sociodemographic and occupational data collection instrument and the Melbourne Decision-Making Questionnaire were used.

Results:  the vigilant decision-making style was widely practiced, while hypervigilant, procrastinating, and buck-passing were less frequent. Nurses who self-identified as black, brown, and yellow were more likely to adopt the vigilance style. Working the afternoon shift was more likely to be associated with the procrastination style.

Conclusions:  the decision-making process can be affected by participants’ personal and occupational variables, as well as by situational aspects in which nurses are inserted, both in the work and social environments.

Descriptors:
Decision Making; Nurses; Hospitals; Nursing; Professional Competence

RESUMEN

Objetivos:  analizar los estilos de toma de decisiones de enfermeras en entornos hospitalarios y relacionar sus perfiles sociodemográficos y ocupacionales con dichos estilos.

Métodos:  estudio cuantitativo y analítico realizado con 181 enfermeras de un hospital universitario público del sur de Brasil. Se utilizó un instrumento de recolección de datos sociodemográficos y ocupacionales y el Melbourne Decision-Making Questionnaire.

Resultados:  el estilo de toma de decisiones vigilante fue ampliamente practicado, mientras que el hipervigilante, la procrastinación y la elusión de responsabilidades fueron menos frecuentes. Las enfermeras que se autoidentificaron como negras, morenas y asiáticas mostraron mayor probabilidad de adoptar el estilo vigilante. Trabajar en el turno de tarde mostró mayor probabilidad de estar asociado con el estilo procrastinador.

Conclusiones:  el proceso de toma de decisiones puede verse afectado por variables personales y ocupacionales de los participantes, así como por aspectos situacionales en los que se desenvuelven las enfermeras, tanto en el entorno laboral como en el social.

Descriptores:
Toma de Decisiones; Enfermeras y Enfermeros; Hospitales; Enfermería; Competencia Profesional

INTRODUÇÃO

As competências profissionais são ferramentas que emergem da aplicação de conhecimentos, habilidades e atitudes(1). De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem, fica estabelecido que a formação dos enfermeiros deve ser pautada no alcance de diversas competências, como atenção à saúde, tomada de decisão (TD), comunicação, liderança, administração e gerenciamento, e educação permanente(2). Quando associadas, essas competências servem como subsídio para a formação de profissionais qualificados, éticos e críticos-reflexivos(1).

Entre as competências esperadas para o gerenciamento do cuidado, a TD destaca-se como uma das mais relevantes(3). Isso ocorre, entre outros fatores, pela aptidão e responsabilidade que os enfermeiros têm de ocupar posições de liderança nas equipes(2,3), atrelado ao fato de se tratar de uma competência reconhecida mundialmente como imprescindível para a enfermagem(4).

Assim, a TD é definida no contexto administrativo como um processo que visa analisar e escolher algo dentre as alternativas dispostas, a fim de estabelecer o percurso a ser seguido(5). Para a enfermagem, de modo mais específico, o processo de TD pode ser descrito como “arte de fazer escolhas e de elaborar planos para favorecer um processo de mudança”(6).

Enquanto competência, a TD é vista como uma habilidade adquirida(7), que pode ser aprimorada no decurso das experiências acadêmicas e profissionais dos enfermeiros(8) e que, ao ser praticada, favorece habilidades vinculadas ao raciocínio crítico, abordagem dos problemas, seleção de prioridades e comunicação(9). Para o enfermeiro, ainda, é fundamental salientar que tomar decisões faz parte da rotina do processo de trabalho, devido aos contextos gerenciais e assistenciais do cuidado(10).

Dentro dos hospitais, a depender da complexidade de cuidados requeridos pelos pacientes, o processo de trabalho do enfermeiro exige TD imediata e em curto período(10). Ademais, é também responsabilidade do enfermeiro assumir o papel de profissional articulador junto à equipe, baseando o cuidar em informações científicas que fundamentem processos decisórios assertivos(11).

Para compreensão desta problemática, destaca-se a Teoria do Conflito Decisional, que estabelece a TD como uma situação que advém de eventos estressantes que provocam conflitos em cada indivíduo. Desse modo, a TD sofre influência de três fatores, sendo eles: conhecimento dos riscos de cada alternativa; esperança de optar pela alternativa mais adequada; e noção de tempo hábil para avaliar e selecionar a opção que melhor atende aos fatos(12).

A Teoria do Conflito Decisional descreve a TD sob a ótica de enfrentamento (coping), que diz respeito às estratégias empregadas para lidar com o estresse gerado em situações de incerteza. Essa teoria foi descrita como adequada para ser empregada na gestão de empresas, políticas governamentais e inúmeros outros contextos que requerem TD(12). Diante desse cenário, justifica-se, no contexto da enfermagem brasileira, a aplicação do instrumento Melbourne Decision Making Questionnaire (MDMQ), cuja elaboração é fundamentada na Teoria do Conflito Decisional supracitada(12).

O MDMQ tem sido amplamente utilizado em diferentes áreas do conhecimento, incluindo psicologia, administração e saúde(13). Adaptado para idiomas como francês(14), italiano(15), espanhol(16), sueco(17) e turco(18), o instrumento mostra-se amplamente assertivo para o fim proposto(13). Entretanto, observa-se uma lacuna na literatura nacional quanto à aplicação do instrumento especificamente com enfermeiros brasileiros, o que reforça a relevância da presente investigação.

Em face do disposto, e com vistas a contribuir para melhoria das práticas clínicas e gerenciais no campo da enfermagem, o presente estudo advém da relevância do assunto para os profissionais da área, e pretende responder às seguintes perguntas de pesquisa: qual o estilo de TD dos enfermeiros atuantes no ambiente hospitalar? O perfil sociodemográfico e ocupacional se associa ao estilo de TD dos enfermeiros?

OBJETIVOS

Analisar o estilo de TD dos enfermeiros no ambiente hospitalar, e o objetivo específico é associar o perfil sociodemográfico e ocupacional dos enfermeiros com o estilo de TD.

MÉTODOS

Aspectos éticos

A pesquisa atendeu às normas da Resolução brasileira nº 466/2012, sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os participantes foram esclarecidos dos detalhes da pesquisa e consentiram em participar voluntariamente, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, respeitando a resolução do Conselho Nacional de Saúde supracitada.

Visando assegurar a confiabilidade e sigilo das informações e facilitar a tabulação dos dados, os participantes foram identificados por algarismos arábicos de acordo com sua entrada na pesquisa.

Desenho, período e local do estudo

Trata-se de estudo de abordagem quantitativa, com delineamento analítico, realizado em um hospital público universitário e de nível terciário. Localizado no sul do Brasil, o serviço caracteriza-se como referência para um contingente aproximado de dois milhões de indivíduos no que diz respeito à alta complexidade.

A coleta de dados ocorreu na modalidade autoaplicável no período de fevereiro a junho de 2024. As recomendações da diretriz Strengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology(19) nortearam o desenho do estudo.

Amostra, critérios de inclusão e exclusão

Na instituição pesquisada, os profissionais de enfermagem atuam em turnos diurnos de seis ou 12 horas, enquanto o turno noturno é realizado exclusivamente em escala de 12x36 horas. Ressalta-se, ainda, que, no contexto local, enfermeiros denominados “credenciados” são profissionais com vínculo via contrato temporário de prestação de serviço, diferentemente de enfermeiros que possuem vínculo estável ou cargo efetivo público.

Para identificar a população, utilizou-se uma lista em Microsoft Excel® disponibilizada pela instituição com o nome de todos os enfermeiros dos três turnos de trabalho, totalizando 466 profissionais. Ao realizar a verificação inicial da lista divulgada, observou-se que 58 enfermeiros foram desligados ou removidos para outros serviços, totalizando uma população de 408 profissionais elegíveis para a pesquisa.

A partir deste quantitativo, realizou-se o cálculo amostral para estimar o número mínimo de indivíduos a serem entrevistados. Para isso, adotaram-se Intervalo de Confiança de 95% e erro máximo de 5% (p < 0,05), obtendo uma amostra de 181 enfermeiros.

Incluíram-se participantes que atuavam tanto na gestão do setor quanto na gestão do cuidado ao paciente e que desempenhavam a função há mais de seis meses. Não participaram do estudo enfermeiros que se encontravam em férias ou afastados por qualquer motivo no período da coleta de dados, bem como os enfermeiros assistenciais, que atuam exclusivamente nos cuidados diretos ao paciente(20).

A determinação da amostra caracterizou-se como probabilística do tipo aleatória simples. Para a seleção dos participantes, foram realizados sorteios digitais na plataforma online “Sorteador”. Nos casos de recusa, foram sorteados novos participantes.

Protocolo de estudo

Para essa etapa da pesquisa, foram utilizados dois questionários. O primeiro contemplou dados sociodemográficos, ocupacionais e relacionados à formação profissional. Elaborado pelos autores, o questionário foi submetido à avaliação por três enfermeiros doutores com expertise na área de validação de instrumentos e/ou gestão. Como contribuição, os enfermeiros sugeriram modificações quanto à escrita de três questões. Todas as considerações foram ponderadas pelos autores e avaliadas para elaboração da versão final do instrumento.

O segundo questionário foi utilizado para verificar o estilo de . Trata-se da escala tipo Likert denominada MDMQ, que foi adaptada e validada para a língua portuguesa em 2018(13). O MDMQ possui 18 questões e distingue os resultados obtidos entre quatro estilos de TD, sendo eles: vigilante, caracterizado por um processo sistemático e analítico de busca de informações, visando uma decisão racional e bem fundamentada; hipervigilante, associado a elevados níveis de ansiedade e urgência, resultando em decisões precipitadas; procrastinador, definido pela tendência ao adiamento e indecisão, frequentemente relacionado à insegurança e evitação de erros; e buck-passing, que, na língua portuguesa, pode ser compreendido como “passar o bastão”, no qual o indivíduo evita assumir a responsabilidade pela decisão, transferindo-a para terceiros(12,13).

O contato com os enfermeiros elegíveis para participação na pesquisa foi realizado presencialmente, mediante abordagem no turno de trabalho. Aos que manifestaram interesse, foi facultada a possibilidade de responder ao instrumento na presença do pesquisador ou em momento posterior.

Análise dos resultados e estatística

Dos 181 participantes do estudo, dois não preencheram completamente os instrumentos, o que resultou em 179 instrumentos utilizados para as análises. Considerando o exposto, os dados coletados foram compilados em estrutura planilhada no Microsoft Excel®, com posterior transcrição para o software Statistical Package of the Social Sciences (versão 27.0), sendo submetidos a cálculos de estatística descritiva, com uso de medidas de tendência central (média e mediana), medidas de dispersão (desvio padrão) e medidas de localização (percentis).

As variáveis dependentes (estilos de TD) foram dicotomizadas ao nível das medianas, sendo classificadas em: vigilância em menor nível (até 21 pontos) e maior nível (> 21 pontos); hipervigilância em menor nível (até 7 pontos) e maior nível (> 7 pontos); procrastinação em menor nível (até 9 pontos) e maior nível (> 9 pontos); e buck-passing em menor nível (até 8 pontos) e maior nível ( > 8 pontos).

O nível de significância do teste (α) foi definido em p < 0,05. Com a finalidade de avaliar as associações entre as variáveis dependentes e independentes, utilizou-se o teste qui-quadrado de Pearson. Considerando as variáveis independentes que foram significativamente associadas às demais, o sentido da associação foi verificado com o cálculo da Razão de Chances (RC) e o seu respectivo intervalo, com 95% de confiança.

As analises gráficas apresentadas neste estudo foram desenvolvidas no Ambiente Estatístico R e, para tanto, foram utilizados os pacotes ggplot2 e DescTools.

RESULTADOS

Dados relacionados às características sociodemográficas e ocupacionais são apresentados abaixo (Tabela 1).

Tabela 1
Características sociodemográficas e ocupacionais dos enfermeiros, Londrina, Paraná, Brasil, 2024

Observa-se que 40 enfermeiros (22,1%) possuíam outro vínculo de trabalho, totalizando carga horaria semanal média de 74,6 horas (desvio padrão (DP)=11,3) e mediana de 77 horas. Em relação aos 141 enfermeiros com apenas um único vinculo de trabalho (77,9%), observou-se carga horária semanal média de 42,5 horas (DP=5,6) com mediana de 42 horas. Com relação ao tempo de atuação na área da enfermagem, verificou-se média de 12 anos (DP=9,8).

Quanto à análise descritiva dos escores de estilos de TD, avaliados pelo MDMQ, observou-se que o estilo de TD vigilante foi amplamente adotado, apresentando uma média de 21,0 pontos e escores concentrados na faixa moderada a alta, conforme demonstrado a seguir (Tabela 2).

Tabela 2
Descrição dos escores de vigilância, hipervigilância, procrastinação e buck-passing de acordo com o Melbourne Decision Making Questionnaire, Londrina, Paraná, Brasil, 2024

Por outro lado, o estilo de TD hipervigilante se mostrou menos prevalente, com uma média de 7,43 pontos (DP=2,34), sendo que a maioria dos participantes apresentou escores baixos. O estilo procrastinador exibiu uma média de 9,44 pontos (DP=2,87). Esses resultados sugerem uma distribuição relativamente ampla do escore de procrastinação, podendo indicar que parte relevante dos enfermeiros enfrenta dificuldades em tomar decisões.

O último estilo de TD, buck-passing, apresentou uma média de 8,36 pontos (DP=2,80) sendo também observados níveis baixos entre os participantes. Esses dados indicam que esse estilo, embora presente, também tende a se distribuir de forma mais ampla entre os participantes, demostrando níveis mais baixos desta prática (Figura 1).

Figura 1
Curvas de distribuição percentual dos escores dos estilos de tomada de decisão de acordo com o Melbourne Decision Making Questionnaire, Londrina, Paraná, Brasil, 2024

Os enfermeiros demonstraram uma clara preferência pelo estilo de TD vigilante, enquanto estratégias menos adaptativas, como hipervigilância e buck-passing, são menos frequentes. O estilo de TD procrastinador, por outro lado, configurou-se como um desafio para alguns profissionais, com variações significativas nos escores.

A Tabela 3 apresenta o sumário estatístico das variáveis sociodemográficas e ocupacionais com os estilos de TD que apresentaram significância estatística, analisados pelo teste de associação qui-quadrado de Pearson.

Tabela 3
Sumário estatístico do teste de associação qui-quadrado de Pearson entre variáveis sociodemográficas e ocupacionais com os estilos de tomada de decisão dos enfermeiros, Londrina, Paraná, Brasil, 2024

Uma vez que o teste qui-quadrado de Pearson não indica o sentido da associação das variáveis, foram realizados testes de RC (Tabela 4).

Tabela 4
Sumário estatístico da Razão de Chances entre variáveis sociodemográficas e ocupacionais e estilos de tomada decisão dos enfermeiros, Londrina, Paraná, Brasil, 2024

A análise da RC revelou associações significativas entre variáveis sociodemográficas e ocupacionais com os estilos de TD praticados pelos enfermeiros. Em relação ao estilo de TD vigilante, a cor autodeclarada apresentou uma associação significativa (p=0,045). Enfermeiros autodeclarados brancos demonstraram uma menor chance de adotar o estilo de TD vigilante (RC=0,5; IC95%: 0,27–0,99), enquanto os pertencentes a outras cores apresentaram uma probabilidade quase duas vezes maior de adotar esse estilo (RC=1,9; IC95%: 1,01–3,67).

No que se refere ao estilo de TD buck-passing, houve uma associação significativa com o cargo atual (p=0,046). Os participantes que atuam na gestão de equipe apresentaram uma menor chance de adotar este estilo (RC=0,5; IC95%: 0,21–0,99), enquanto os gestores do cuidado apresentaram mais do que o dobro de probabilidade de adotá-lo (RC=2,2; IC95%: 1,01–4,87). Ademais, o tipo de vínculo de trabalho também demonstrou influência significativa no estilo de TD buck-passing (p=0,019), com enfermeiros estatutários apresentando menor chance de adotar este estilo (RC=0,4; IC95%: 0,16–0,85), enquanto os credenciados mostraram uma chance significativamente maior (RC=2,7; IC95%: 1,18–6,27). Contudo, na prática do hospital, onde foi realizado este estudo, enfermeiros credenciados são lotados para cargos referentes à gestão do cuidado, o que pode impactar a apresentação desses resultados. Sugere-se que esse achado seja corroborado com outros estudos que abordem uma amostra homogenia quanto ao vínculo de trabalho dos enfermeiros.

No estilo de TD procrastinador, observou-se uma associação significativa com o turno de trabalho (p=0,044). Enfermeiros que trabalhavam no turno matutino apresentaram uma menor probabilidade de adotar níveis elevados do estilo de TD procrastinador (RC=0,5; IC95%: 0,23–0,93), enquanto os que atuavam no turno vespertino apresentaram mais do que o dobro da chance de adotar este estilo (RC=2,1; IC95%: 1,09–4,18). Não foram encontradas associações significativas para os turnos noturno e integral nesse estilo de TD.

Esses resultados sugerem que variáveis como cor autodeclarada, cargo atual, vínculo de trabalho e turno influenciam os estilos de TD praticados pelos enfermeiros. Nota-se que o estilo de TD hipervigilante não apresentou significância estatística com as variáveis deste estudo.

DISCUSSÃO

O estilo de TD vigilante foi o mais predominante no estudo. Esse estilo configura-se como o único com caráter adaptativo(12), isto é, na vigilância, o tomador de decisão faz sua escolha com base em soluções racionais, buscando tomar a decisão com cautela ao analisar as diferentes alternativas(21).

Considerando isso, convém destacar que a atuação do enfermeiro no ambiente hospitalar abarca diferentes especificidades e articulações que são indissociáveis à sua prática, fazendo com que o manejo das decisões e o aprimoramento científico deem a esse profissional um papel de destacável importância no cuidado(22). No contexto hospitalar, ainda, são requeridas decisões consideravelmente mais assertivas e rápidas(10).

No que tange à relação entre o estilo vigilante de TD e a variável cor autodeclarada, observa-se na literatura que os resultados deste estudo demonstram não apenas um recorte da instituição pesquisada, mas a reflexão de um histórico cultural, político e social permeado por diversas desigualdades(23).

Dados do último censo realizado pelo Conselho Federal de Enfermagem no Brasil demonstraram que os profissionais de enfermagem declarados da cor preta estão em condições menos favoráveis em relação aos brancos. A pesquisa nacional destaca que os enfermeiros autodeclarados pardos e pretos atingiram, na época, 53% do contingente de profissionais do país, configurando-se como a parcela mais expressiva da composição da equipe(24).

Enfermeiros autodeclarados pretos e pardos apresentaram expressivamente maior chance de adotar o estilo vigilante de TD, uma observação que possivelmente pode estar associada às experiências racistas as quais os profissionais são submetidos, permeando desde a formação até o decorrer de toda trajetória profissional. É importante ressaltar, porém, que todo o cenário brevemente descrito se circunscreve em uma perspectiva mais abrangente, na qual os aspectos históricos do país são considerados importantes para compreender os impactos da atualidade observada na enfermagem brasileira(23).

Achados de estudo realizado no Brasil em 2024 corroboram o fenômeno observado. A vivência do racismo institucional, especialmente em contextos de saúde, impõe desafios constantes que exigem desses profissionais uma postura de alerta e cautela acentuada para lidar com situações adversas e potenciais vieses no ambiente de trabalho(25).

Tal exposição contínua a discriminações pode fomentar um padrão decisório caracterizado por uma busca sistemática e cuidadosa por informações(25), o que consoa com o estilo de TD vigilante(12). Assim, a adoção desse estilo pode refletir um mecanismo adaptativo para diminuir riscos e garantir maior segurança na prática clínica.

O estilo de TD procrastinador demonstrou-se um desafio na amostra pesquisada. Na literatura, esse estilo considerado como evitativo corresponde ao padrão de comportamento relacionado ao adiamento de decisões(12-21), fato que pode implicar desdobramentos indesejáveis nas mais diversas funções nas quais há atuação da enfermagem.

Nesse estilo, destaca-se o trabalho em turnos, que se trata da organização na qual várias equipes se revezam objetivando que a assistência ao paciente seja ofertada initerruptamente(26). Desse modo, os profissionais que atuam em turnos são mais expostos a jornadas de trabalho em um ambiente por vezes estressante(27), fato que também impacta a TD.

Estudo observacional realizado em Unidades de Terapia Intensiva de um hospital terciário demonstrou que, entre os turnos de enfermagem, o período da manhã concentra uma maior carga de trabalho direto, período no qual os enfermeiros dedicam a maior parte do tempo a atividades assistenciais(28). Esses achados evidenciam a intensa dinâmica do início do turno matutino, marcada pela necessidade de comunicação frequente, realização de procedimentos e coordenação entre membros da equipe, o que exige dos profissionais TD ágil e eficaz(10).

Quanto ao estilo de TD hipervigilante, observa-se que o tomador de decisão realiza ações impulsivas, rápidas e acríticas, aceitando qualquer alternativa disponível em uma tentativa desesperada e ansiosa de acabar com o estresse oriundo da situação de decidir(12,13). Ressalta-se, porém, que o estudo em questão não apresentou representatividade estatística em relação a esse estilo.

Por fim, o estilo buck-passing de TD desdobra-se nesse contexto sob perspectivas relacionadas ao vínculo de trabalho e cargo atual. Nesse estilo, caracterizado por “passar o bastão”, o profissional atribui a responsabilidade da decisão a terceiros(21). Logo, a transferência de responsabilidade é também descrita pelos teoristas como um estilo evitativo de TD(12,13).

Os achados referentes ao estilo buck-passing em enfermeiros gestores do cuidado e credenciados demonstraram aspectos já explorados na literatura. Estudo de caso multicêntrico realizado em hospitais do Brasil, Portugal e Espanha apontou que alguns hospitais universitários costumam apresentar mais de um tipo de vínculo trabalhista, como é o caso de estatuários e credenciados. Além disso, o mesmo estudo destaca que o processo decisório do enfermeiro é afetado a depender do vínculo de contratação(29), embora não se relacione aos estilos de TD no presente estudo.

Um estudo realizado com 180 enfermeiros nas Filipinas desvela sobre a temática e aponta que, eventualmente, profissionais credenciados na enfermagem apresentavam alguma ou nenhuma participação no processo decisório(29), dados que corroboram a maior probabilidade de transferir a responsabilidade por parte dos enfermeiros credenciados.

Quanto ao preparo desses profissionais para TD, estudo recente discute o desacordo acerca dessa habilidade em enfermeiros iniciantes e em aqueles mais experientes e especialistas. Para tal referencial, enfermeiros com mais experiência eram capazes de observar o paciente em sua totalidade com maior clareza, uma prática que influencia a TD direta ao paciente segura e eficaz(30).

Limitações do estudo

Os achados deste estudo devem ser interpretados à luz de algumas limitações, destacando, sobretudo, o fato de a amostra pesquisada ser heterogênea. É prudente considerar que, neste estudo, grande parcela dos enfermeiros estatutários se encontra lotada em cargos de gestão de equipes, enquanto os profissionais credenciados ocupam – em sua maioria - cargos voltados diretamente à gestão do cuidado ao paciente. Em suma, a distribuição díspar das funções e dos vínculos de trabalho é caracterizada como fator limitante, promovendo certa tendência a generalizações equivocadas que podem não se aplicar a demais contextos e instituições hospitalares.

Contribuições para a área da enfermagem e saúde

No que diz respeito às contribuições para a enfermagem, este estudo traz avanços ao conhecimento científico, visto que aborda os estilos de TD no ambiente hospitalar, local onde a necessidade de decisões assertivas e rápidas faz parte do processo de trabalho dos enfermeiros.

Os achados aqui explorados poderão oferecer subsídio teórico para elaboração e planejamento de estratégias aplicáveis desde a graduação até o exercício da profissão, estimulando que práticas mais adaptativas de TD sejam exercidas por esses profissionais.

Em suma, fica evidente a escassez de publicações com a presente escala aplicada em enfermeiros. Contudo, percebe-se que, para a prática desse profissional, compreender os estilos de TD configura-se como um diferencial para embasar o aprimoramento das habilidades necessárias no processo de trabalho do enfermeiro hospitalar(10).

CONCLUSÕES

Os resultados indicam que os enfermeiros pesquisados apresentaram preferência em adotar práticas vigilantes quanto ao estilo de TD, com menor prevalência de estilos menos adaptativos, como hipervigilância, procrastinação e buck-passing. Variáveis como cor autodeclarada, cargo atual, vínculo de trabalho e turno influenciaram significativamente os estilos de TD.

O presente estudo indica que o processo decisório pode ser afetado por variáveis pessoais e ocupacionais dos participantes, bem como por aspectos situacionais do ambiente de trabalho e social, no qual os enfermeiros se encontravam inseridos no momento da pesquisa.

Os achados corroboram a produção científica sobre a temática e sugerem, ainda, a realização de estudos futuros que investiguem amostras de caráter mais homogêneos em relação ao vínculo de trabalho e cargo, ao passo que investiguem contextos culturais e institucionais que possam mediar tais associações, preenchendo as lacunas existentes e ampliando o conhecimento sobre a temática.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados de pesquisa estão disponíveis em repositório: https://doi.org/10.48331/scielodata.MRZUKV.

Material Suplementar

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Editado por

  • EDITOR CHEFE
    Dulce Barbosa
  • EDITOR ASSOCIADO
    Alexandre Balsanelli

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2025
  • Aceito
    18 Ago 2025
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