Open-access Tecnologia Social na Prevenção da Violência na Adolescência: produção de um documentário

RESUMO

Objetivo:  Relatar o desenvolvimento de uma inovação tecnológica em formato de documentário para divulgar ações de prevenção à violência contra adolescentes no cenário da Atenção Primária à Saúde.

Métodos:  Desenvolvimento de um documentário por meio de pesquisa-ação e intervenções com adolescentes de um território de uma Unidade de Saúde, realizado entre 2020 e 2022, utilizando a Tecnologia Social como estratégia de ação e referencial conceitual.

Resultados:  A proposta de Tecnologia Social, construída em oficinas de trabalho e seminários, resultou em um documentário sobre a prevenção da violência, envolvendo 48 adolescentes. O roteiro do documentário, desenvolvido coletivamente, retrata um jogo de futebol entre os times da paz e da violência, onde a paz prevalece. O documentário tem a duração de seis minutos.

Considerações Finais:  O documentário revelou-se uma ferramenta potente de Tecnologia Social entre os adolescentes, pois incentiva o pensamento crítico, é acessível, tem potencial de divulgação nos meios digitais e é atrativo ao público-alvo.

Descritores:
Violência; Adolescente; Saúde do Adolescente; Atenção Primária à; Saúde; Tecnologia Social

ABSTRACT

Objective:  To report the development of a technological innovation in the form of a documentary, aimed at disseminating actions for preventing violence against adolescents within the context of Primary Health Care.

Methods:  The documentary was developed through action research and interventions with adolescents in the territory of a Health Unit, conducted between 2020 and 2022, using Social Technology as both an action strategy and a conceptual reference.

Results:  The Social Technology proposal, created through workshops and seminars, resulted in a documentary focusing on violence prevention, involving 48 adolescents. The documentary’s script, collectively developed, portrays a soccer match between teams symbolizing peace and violence, with peace ultimately prevailing. The documentary is six minutes long.

Final Considerations:  The documentary has proven to be an effective Social Technology tool among adolescents, as it fosters critical thinking, is accessible, has potential for digital dissemination, and appeals to the target audience.

Descriptors:
Violence; Adolescent; Adolescent Health; Primary Health Care; Social Technology

RESUMEN

Objetivo:  Relatar el desarrollo de una innovación tecnológica en formato de documental para divulgar acciones de prevención de la violencia contra adolescentes en el escenario de la Atención Primaria de Salud.

Métodos:  Desarrollo de un documental mediante investigación-acción e intervenciones con adolescentes de un territorio de una Unidad de Salud, realizado entre 2020 y 2022, utilizando la Tecnología Social como estrategia de acción y marco conceptual.

Resultados:  La propuesta de Tecnología Social, construida en talleres de trabajo y seminarios, resultó en un documental sobre la prevención de la violencia, involucrando a 48 adolescentes. El guion del documental, desarrollado colectivamente, retrata un partido de fútbol entre los equipos de la paz y la violencia, donde prevalece la paz. El documental tiene una duración de seis minutos.

Consideraciones Finales:  El documental se reveló como una herramienta potente de Tecnología Social entre los adolescentes, ya que fomenta el pensamiento crítico, es accesible, tiene potencial de difusión en medios digitales y es atractivo para el público objetivo.

Descriptores:
Violencia; Adolescente; Atención Primaria de Salud; Salud del Adolescente; Tecnología Social

INTRODUÇÃO

Cerca de um bilhão de crianças e adolescentes são acometidos por algum tipo de violência psicológica, sexual ou física anualmente no mundo. Estima-se que uma em cada duas pessoas na faixa etária dos 2 aos 17 anos sofra algum tipo de violência, podendo levar a lesões incapacitantes ou estar exposta ao risco de morte (1). Desde a introdução da problemática da violência no Sistema Único de Saúde (SUS) com a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência (PNRMAV) em 2001, a Rede de Assistência à Saúde (RAS) tem passado por reestruturações para atender e recuperar vítimas de violência.

A Atenção Primária à Saúde (APS) é a principal porta de entrada para a RAS, mas enfrenta desafios no acesso para a população adolescente, devido a barreiras geográficas e organizacionais. É fundamental fortalecer políticas públicas e repensar as práticas das equipes de saúde para oferecer uma atenção acolhedora e de qualidade, priorizando ações de promoção e prevenção para os adolescentes, visando melhores condições de vida e saúde na idade adulta (2).

Profissionais que compõem a RAS precisam se atentar às mudanças na prestação de serviços de saúde de modo a adequar às necessidades e exigências das comunidades, oferecendo uma assistência cada vez mais qualificada. Para responder de forma satisfatória às demandas e fragilidades da população, bem como às políticas de qualificação dos serviços prestados pelo SUS, é essencial que os trabalhadores ampliem o campo de visão para a compreensão de novos produtos, tecnologias e metodologias de qualificação do cuidado prestado, em busca de perspectivas que oportunizem a oferta de melhores e boas práticas em saúde (2).

No município de Colombo-PR, cenário deste estudo, a violência contra adolescentes apresenta elevada incidência, o que aponta a necessidade de proposição de ações sobre a situação da violência perpetrada nesta faixa etária da população. As ações precisam considerar as percepções e perspectivas do próprio público adolescente acerca da violência. Nessa perspectiva, a Tecnologia Social (TS) é uma categoria que engloba produtos, técnicas e metodologias criados em colaboração com comunidades e que oferecem soluções práticas para causar transformações sociais significativas (3).

A criação de uma TS pode se mostrar como uma boa prática na APS, uma vez que visa estimular o enfrentamento às violências contra adolescentes, por meio da aproximação dessa população com o serviço de saúde, seu engajamento no processo de reconhecimento das situações cotidianas violentas e fomento à cultura de não violência. Em busca de tal vinculação, a questão norteadora desta pesquisa foi: Qual a melhor tecnologia social a ser desenvolvida na APS, e utilizada junto aos adolescentes, como ferramenta para incentivo à prevenção de violência?

OBJETIVO

Relatar o desenvolvimento de uma inovação tecnológica em formato de documentário para divulgar ações de prevenção à violência contra adolescentes no cenário da Atenção Primária à Saúde.

MÉTODOS

Aspectos Éticos

O estudo integra a dissertação de mestrado intitulada “Tecnologia Social e a Promoção de Práticas de Prevenção da Violência na Adolescência na Atenção Primária”(4), desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Práticas do Cuidado em Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Foi realizado de acordo com a Resolução nº 466 de 2012 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor Ciências da Saúde da UFPR. Obteve-se o Consentimento Livre e Esclarecido dos participantes maiores de 18 anos e dos pais ou responsáveis pelos adolescentes participantes. Os adolescentes assinaram o Termo de Assentimento. Para manter o anonimato, os adolescentes foram identificados por nomes de jogadores de futebol escolhidos por eles, e os trabalhadores da organização social, por nomes de técnicos de futebol.

Tipo de Estudo

Este é um relato de inovação tecnológica sobre o desenvolvimento de uma ação promotora de prevenção da violência contra adolescentes no cenário da APS. A inovação consistiu no desenvolvimento de um documentário, elaborado a partir de intervenções com adolescentes residentes em um território vinculado a uma Unidade de Saúde, realizadas entre novembro de 2020 e julho de 2022. Observaram-se os critérios estabelecidos para o Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) (5) na elaboração e no desenvolvimento da pesquisa.

Procedimentos Metodológicos

A pesquisa, de caráter qualitativo participativo, adotou o conceito de Tecnologia Social (TS) como estratégia de ação e referencial conceitual, considerando-o um método desenvolvido em interação com a sociedade, passível de reaplicação e que resulta em transformação social (3). O documentário foi elaborado por meio de oficinas de discussão e seminários propostos na pesquisa-ação, uma abordagem social baseada em uma fundamentação empírica, onde os pesquisadores buscam a solução de um problema coletivo de maneira cooperativa e participativa (4).

Para o desenvolvimento da pesquisa-ação, seguiu-se o referencial metodológico de Thiollent(6), com 12 etapas articuladas: Fase exploratória; Tema da Pesquisa; Colocação dos problemas; O lugar da teoria; Hipóteses; Seminário; Campo de observação, amostragem e representatividade; Coleta de dados; Aprendizagem; Saber formal/Saber informal; Plano de ação; Divulgação Externa. Todas essas etapas foram integralmente cumpridas durante a pesquisa. Nos seminários, realizaram-se 10 encontros com a participação de responsáveis pela organização, execução e desenvolvimento do projeto social, orientando a construção do documentário (Quadro 1).

Quadro 1
Seminários, Colombo, Paraná, Brasil, 2023

Cenário do estudo

O cenário do estudo foi uma organização do terceiro setor, que promove um projeto social voluntário com aulas de futebol para crianças e adolescentes de uma comunidade no município de Colombo-PR.

Fonte de Dados

Participaram da pesquisa dois grupos de indivíduos: cinco trabalhadores da organização social e 11 adolescentes envolvidos nas atividades da escola de futebol do projeto social. Os participantes foram intencionalmente escolhidos devido à sua representatividade social no projeto e ao interesse e disponibilidade para participar.

Coleta e Organização dos Dados

A coleta de dados envolveu o uso de diários de observação em campo das pesquisadoras, um questionário semiestruturado para caracterização dos participantes e a realização de uma entrevista coletiva, chamada oficina de trabalho, onde se discutiu o tema e definiu-se a forma de apresentação do material para divulgação.

No questionário semiestruturado, desenvolvido pelas pesquisadoras, foi possível caracterizar o grupo de adolescentes quanto a sexo, idade, raça, escolaridade, número de pessoas e de cômodos na residência, e a relação de parentalidade entre os moradores. Além disso, aplicou-se um questionário com 25 questões, incluindo sete da escala CADRI (Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory) (7), com o objetivo de identificar a percepção do grupo sobre violência.

As oficinas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra. A partir das discussões, decidiu-se que o material seria desenvolvido em formato de mídia digital. Para a captação das imagens, seguindo o roteiro semiestruturado, utilizou-se a quadra de futebol onde ocorrem os treinos. A equipe de voluntários selecionou os adolescentes que formariam os times e a torcida.

Os adolescentes prepararam cartazes e ensaiaram gritos de torcida para usar durante a partida. A gravação foi feita por um cinegrafista experiente em vídeos institucionais e de propaganda, com equipamentos como câmera Sony A7III, lentes, estabilizador de imagem DJI Ronin SC standard (China), drone DJI Mini 2 versão SE (China) microfone de lapela. As imagens foram editadas no Adobe Premiere Pro versão 22.2 (Brasil).

Análise dos Dados

Os dados foram analisados conforme a metodologia de análise de conteúdo temática de Bardin(8), que inclui três fases: pré-análise, exploração do material, e tratamento dos resultados e interpretação. A pré-análise envolveu a transcrição integral dos discursos e leitura flutuante do documento. Na segunda fase, realizou-se a leitura exaustiva e codificação baseada na frequência e intensidade dos discursos. Finalmente, procedeu-se à categorização semântica e léxica, levando em conta os significados e sentidos dos discursos, resultando na emergência da categoria empírica: “Tecnologia social do tipo documentário como ferramenta para o enfrentamento da violência”.

RESULTADOS

Em relação aos trabalhadores da organização social, participaram do estudo três homens e duas mulheres, com idades entre 28 e 35 anos. Um profissional tinha o ensino médio completo, dois possuíam ensino superior incompleto e dois tinham ensino superior completo, com formações nas áreas de saúde e ciências humanas. Quanto aos adolescentes participantes, foram seis meninas e cinco meninos, com idades variando entre 10 e 15 anos. Em termos de autodeclaração étnica, dois se identificaram como pretos, cinco como pardos e quatro como brancos. O nível de escolaridade dos adolescentes variou do 5º ano do ensino fundamental ao 1º ano do ensino médio. Eles relataram viver em residências com, em média, quatro cômodos, compartilhando o espaço com duas crianças. Todos moravam com parentes consanguíneos e tinham aspirações profissionais diversas, incluindo quatro que sonhavam com uma carreira no futebol profissional.

Nos discursos dos adolescentes, identifica-se uma condenação clara à violência de gênero, na qual o homem é o agressor e a mulher a vítima. No entanto, essa desaprovação parece desvanecer ao abordarem a violência física entre homens:

Eu mesmo hoje essa madrugada escutei uma violência lá na rua da minha casa... Quase levantei pra... entendeu? Você já escuta tudo... durante a madrugada... A vontade de ajudar é grande né, mas daí vai saber como que tá. (MBAPPÉ)

É possível identificar nos discursos que os adolescentes condenam a violência de gênero, em que o homem é o agressor e a mulher a vítima. No entanto, essa desaprovação desaparece ao serem questionados a respeito da violência física praticada entre homens, conforme trecho abaixo:

Então você tá querendo dizer que o homem bater em mulher não está certo? (PESQUISADORA)

Claro! (MESSI)

Nunca teve certo! (MBAPPÉ)

E homem bater em homem, tá certo? (PESQUISADORA)

Claro! (MESSI)

Ah, podem se matar no soco, por mim! [faz sinal de desdém com a mão e ri]. (MBAPPÉ)

Apesar de reconhecerem as situações de violência física em seu meio, o grupo não conseguiu apresentar soluções concretas para tais atos. Contudo, enfatizaram a necessidade de investir em prevenção, e concordaram que a melhor forma de disseminar informações seria por meio de vídeos em plataformas online, especialmente redes sociais.

Um vídeo era melhor, porque a maioria não para pra ler um texto. Eu não paro pra ler texto. (MESSI)

Canal no youtube é massa. Hoje em dia a maioria do pessoal tem celular. [...] A maioria das pessoas tão só na rede social. Melhor postar na rede social, todo mundo tá online. (MBAPPÉ)

Dessa forma, o roteiro do documentário foi desenvolvido coletivamente durante as oficinas. Os adolescentes decidiram produzir um material visual inclusivo, com tradução para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), visando atingir o maior número possível de pessoas. Essa escolha foi incentivada pela presença de dois adolescentes que se comunicam por linguagem de sinais no projeto social pesquisado. O conteúdo incluiu gravação de frases curtas ou um poema criado pelo grupo.

[...] frases pequenas, texto, tanto faz. Pode ser um poema, também? Uma poesia. (RENARD)

Além disso, acordou-se que a história do documentário representaria um jogo de futebol entre os times da paz e da violência, com a paz vencendo. A partida seria narrada por uma adolescente, que apresentaria dados sobre a violência no município antes do início do jogo.

[...] podíamos fazer um amistoso, aí a molecada maioria participa. (ABEL FERREIRA)

Boa! E podia fazer da violência x paz. (TITE)

Poderia colocar um deles pra fazer uma fala no começo do vídeo, tipo um apresentador. (GUARDIOLA)

No que se refere aos times que jogaram a partida, os participantes optaram pelo uso de palavras que denotam violência ou paz, em vez dos nomes dos jogadores. Foi estabelecido que os jogadores que representam a paz seriam: amizade, diálogo, solidariedade, apoio, escola, rede de proteção, família, carinho, diversão saudável, esporte e proteção. Já os que representam a violência seriam: abandono, bullying, agressão, drogas, trabalho infantil, xingamentos, exclusão, autoagressão, evasão escolar, fome, desemprego e gravidez na adolescência. Quanto à representação das cores, a equipe optou pelo uso das cores do semáforo, definindo que as palavras positivas estariam em verde e as negativas, em vermelho.

O documentário foi gravado em uma única manhã e contou com a participação de 48 adolescentes. Aqueles que participaram das oficinas de criação do roteiro atuaram como jogadores, totalizando 13 pessoas divididas entre os times e os juízes. Os outros 35 adolescentes, que não estiveram nas oficinas, atuaram como figurantes na torcida.

O roteiro foi adaptado de acordo com o andamento da gravação, com base nas sugestões e atitudes dos organizadores do projeto, do grupo de adolescentes e do profissional responsável pela gravação. A mudança mais significativa ocorreu durante a seleção dos jogadores. Um integrante do time da violência questionou se eles representariam “o mal” até o final do jogo. Surgiu a proposta de que os jogadores do time da violência fossem expulsos um a um e, ao serem expulsos, assumissem o papel de outro jogador do time da paz, até que todos migrassem para o time da paz.

Após a conclusão da gravação, realizou-se um seminário de avaliação, que também resultou na escolha do rap “Canção Infantil”, que aborda a violência urbana, interpretado por César MC e Cristal, como trilha sonora do documentário. A última etapa foi a decisão do título “NUNCA SERÁ SÓ FUTEBOL: ADOLESCENTES EM BUSCA DA PAZ”. O documentário, após o processo de edição e inclusão dos créditos, tem seis minutos e um segundo de duração.

DISCUSSÃO

Neste estudo, foram evidenciados a identificação e a naturalização da violência no cotidiano do grupo de adolescentes, assim como a adaptação de comportamentos em busca de inclusão em grupos sociais. A percepção da violência como fenômeno natural pode ser compreendida a partir da ideia de que a neutralidade é mais confortável do que reconhecer como injusto o que está acontecendo(9).

Nos discursos dos adolescentes, nota-se uma clara reprovação à violência de gênero, onde o homem é o agressor e a mulher, a vítima. Contudo, essa reprovação se atenua ao discutirem sobre a violência física entre homens. Isso revela como a ideologia da masculinidade hegemônica, ancorada em um modelo de masculinidade associado a poder, virilidade e agressividade, influencia significativamente na construção da identidade desses jovens. Assim, para superar esse cenário, é essencial a desconstrução social de gênero, crucial para a transformação da realidade (9).

Nesse contexto, o terceiro setor desempenha um papel vital na articulação e nas parcerias com o setor de saúde, criando um ambiente favorável para a implementação de ações voltadas à transformação social, especialmente na prevenção da violência entre adolescentes. A atuação em rede e a abordagem intersetorial estão em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde, promovendo interações pessoais, institucionais e sociais que podem impactar positivamente no trabalho das instituições e das comunidades (10).

Portanto, o desenvolvimento do documentário deu visibilidade às necessidades do grupo participante do estudo. A associação da construção de uma Tecnologia Social (TS) com o método de pesquisa adotado possibilitou a criação de um material visual permanente, atual e com participação democrática e ativa da população adolescente, considerando que o objetivo principal da TS é desenvolver métodos interativos com a sociedade, que sejam replicáveis e resultem em transformação social (3).

Quanto à divulgação online do documentário, compreende-se que as mídias sociais desempenham um papel significativo na construção de identidades, especialmente entre os adolescentes. Estas mídias atuam como plataformas de interação entre indivíduos com interesses similares, influenciando a aquisição de conhecimento, a expressão de sentimentos e a formação cultural. Além disso, os jovens constituem a maioria dos usuários de redes sociais, uma tendência que se intensificou com o advento dos dispositivos móveis (11).

As mídias sociais representam ferramentas potentes para a educação em saúde, oferecendo rapidez e amplitude na disseminação de informações. O uso do Instagram® para divulgar conteúdo científico conecta o virtual à busca por informações adicionais, diminuindo a distância entre a população e os serviços de saúde. Para os adolescentes, as redes sociais reforçam o empoderamento individual e coletivo, incentivam o pensamento crítico e fomentam mudanças comportamentais que visam à melhoria da qualidade de vida.

Vídeos e músicas, especialmente Hip Hop e rap, foram os formatos preferidos pelos jovens no desenvolvimento do estudo, pois tocam suas emoções e criatividade, além de promover reflexões sobre desigualdades sociais e a transformação da sociedade. Destaca-se a importância da Atenção Primária à Saúde (APS) como cenário para identificar vulnerabilidades e promover saúde, ressaltando o papel das equipes de saúde como facilitadoras de práticas saudáveis nas comunidades e promotoras de transformações no cotidiano (11). Por isso, é essencial que as necessidades dos adolescentes sejam reconhecidas pelas equipes de saúde, e que eles sejam estimulados a perceber suas potencialidades. Um estudo realizado em Recife - PE mostrou que os adolescentes querem contribuir para a melhoria de suas condições de vida, mas precisam de suporte institucional para desenvolver cidadania e enfrentar vulnerabilidades sociais e de saúde (12).

No contexto da violência, as Tecnologias Sociais (TS) mostram resultados positivos. Um projeto na Bahia com homens que perpetraram violência doméstica os levou a refletir sobre seus atos e promover mudanças de comportamento (9). Internacionalmente, destaca-se uma TS desenvolvida por educadores canadenses durante o isolamento social na pandemia de COVID-19, que incluiu práticas educativas comunitárias e a construção de relações com organizações sociais. Essas ações visavam prevenir a violência doméstica e de gênero, aumentando a segurança das mulheres no território, por exemplo, através da criação de palavras-código para pedidos de socorro em situações de violência e da garantia de um ponto de apoio presencial (13).

Limitações do Estudo

Este estudo apresenta limitações. A principal delas refere-se à generalização dos resultados para contextos mais amplos ou diferentes, o que não é possível utilizando o método adotado. Outra limitação é a dependência de tecnologias digitais e mídias sociais para a disseminação do documentário, restringindo o alcance a segmentos da população sem acesso regular à internet ou redes sociais. Além disso, destaca-se que o documentário finalizado não foi apresentado aos participantes da pesquisa, o que poderia ter gerado modificações e novas discussões. Por fim, a intervenção, embora inovadora, poderia se beneficiar de um acompanhamento longitudinal para avaliar e definir seu impacto real e sustentado.

Contribuições para a Área da Enfermagem

Este estudo é pioneiro no desenvolvimento de Tecnologias Sociais (TS) voltadas à prevenção da violência entre adolescentes. Ao integrar a tecnologia social e o uso de mídias digitais na educação em saúde, o estudo expande o escopo de atuação dos enfermeiros, ressaltando a importância de abordagens inovadoras e interativas no engajamento juvenil. Ademais, a TS em questão pode servir como modelo para o desenvolvimento de ações intersetoriais entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e organizações do terceiro setor voltadas ao público adolescente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio do desenvolvimento de um documentário para divulgar ações de prevenção de violência contra adolescentes no cenário da APS, foi possível elaborar uma TS capaz de incentivar o pensamento crítico sobre o tema, acessível e com possibilidade de divulgação nos meios digitais, ampliando assim seu alcance entre o público adolescente. O documentário, inspirado na linguagem dos adolescentes e construído de forma participativa, insere o recurso desenvolvido num conjunto de ações com potencial de aproximar a população adolescente e os serviços de saúde. Trata-se de uma abordagem promissora para promover o trabalho em rede, sobretudo o desenvolvido em parceria com instituições do terceiro setor.

A participação do terceiro setor na comunidade pode favorecer a realização de ações de prevenção à violência, especialmente entre os adolescentes, pois projetos sociais liderados por organizações da sociedade civil, enraizadas nas próprias comunidades, podem ser inspiradores para promover mudanças culturais e incentivar a participação social. A vulnerabilidade dos adolescentes e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde confirmam a necessidade de abordagens alternativas na APS.

Com o objetivo de fomentar a articulação da rede intersetorial em busca de práticas participativas de prevenção da violência na adolescência e para promover uma cultura de paz, a tecnologia inovadora do tipo documentário retratada neste estudo foi exibida nos Conselhos Municipais de Saúde, no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e no Polo de Evolução de Medidas Socioeducativas do município em que o estudo foi realizado.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

O documentário “Nunca será só futebol: adolescentes em busca da paz” está registrado na Agência Nacional do Cinema (ANCINE) sob o certificado de produto nº B22-003555-00000 e disponível para acesso online na plataforma Youtube(14).

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Editado por

  • EDITOR CHEFE:
    Antonio José de Almeida Filho
  • EDITOR ASSOCIADO:
    Rosane Cardoso

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    29 Ago 2023
  • Aceito
    08 Dez 2023
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