Open-access Relação entre sintomas de ansiedade, depressão e apoio social em pacientes com fibrilação atrial

RESUMO

Objetivos:  analisar a relação entre sintomas de ansiedade e depressão e apoio social em pacientes com fibrilação atrial.

Métodos:  estudo descritivo, transversal e correlacional, realizado com 102 participantes. Coletaram-se os dados usando os instrumentos Hospital Anxiety and Depression Scale e Escala de Apoio Social. Utilizou-se estatística descritiva e correlação de Spearman na análise dos dados.

Resultados:  a mediana dos escores de ansiedade foi de 8,0 (IIQ: 7-11); e a de depressão, 6,0 (IIQ: 3-10). Sintomas de ansiedade foram identificados em 60,8% dos participantes; e sintomas de depressão, em 38,2%. Observou-se correlação inversa entre apoio afetivo, apoio emocional/informacional e interação social positiva com os sintomas depressivos. Não houve associações entre os sintomas de ansiedade e o apoio social.

Conclusões:  níveis mais elevados de apoios afetivo e emocional e de interação social associam-se a menores escores de sintomas depressivos.

Descritores:
Fibrilação Atrial; Arritmia Cardíaca; Ansiedade; Depressão; Apoio Social.

ABSTRACT

Objectives:  to analyze the relationship between anxiety and depressive symptoms and social support in patients with atrial fibrillation.

Methods:  a descriptive, cross-sectional, correlational study was conducted with 102 participants. Data were collected using the Hospital Anxiety and Depression Scale and the Medical Outcomes Study Social Support Survey. Descriptive statistics and Spearman’s rank correlation were used to analyze the data.

Results:  the median anxiety score was 8.0 (interquartile range [IQR] 7-11), and the median depression score was 6.0 (IQR 3-10). Anxiety symptoms were identified in 60.8% of participants and depressive symptoms in 38.2%. Inverse correlations were observed between depressive symptoms and affectionate support, emotional/informational support, and positive social interaction. No associations were found between anxiety symptoms and social support.

Conclusions:  higher levels of affectionate and emotional/informational support and positive social interaction were associated with lower depressive symptom scores.

Descriptors:
Atrial Fibrillation; Arrhythmias; Anxiety; Depression; Social Support.

RESUMEN

Objetivos:  analizar la relación entre síntomas de ansiedad y depresión y apoyo social en pacientes con fibrilación auricular.

Métodos:  estudio descriptivo, transversal y correlacional con 102 participantes. Los datos se recogieron con la Escala de Ansiedad y Depresión Hospitalaria y la Escala de Apoyo Social. Se utilizaron estadística descriptiva y correlación de Spearman para el análisis de los datos.

Resultados:  la mediana de ansiedad fue 8,0 (RIC 7-11) y la de depresión 6,0 (RIC 3-10). Se identificaron síntomas de ansiedad en 60,8% y de depresión en 38,2% de los participantes. Se observó correlación inversa entre apoyo afectivo, apoyo emocional/informacional e interacción social positiva y síntomas depresivos. No se hallaron asociaciones entre síntomas de ansiedad y apoyo social.

Conclusiones:  niveles más altos de apoyo afectivo, emocional/informacional e interacción social positiva se asocian con puntuaciones más bajas de síntomas depresivos.

Descriptores:
Fibrilación Atrial; Arritmias Cardíacas; Ansiedad; Depresión; Apoyo Social.

INTRODUÇÃO

A fibrilação atrial (FA) é a taquiarritmia supraventricular mais frequente na prática clínica. Caracteriza-se por uma desorganização da atividade elétrica dos átrios, com descoordenação dos impulsos elétricos e perda da contração atrial eficaz(1).

A incidência de casos de FA cresceu 13% nos últimos 20 anos, com 5 milhões de novos casos anuais em decorrência do envelhecimento populacional, avanços terapêuticos e maior sobrevida de pessoas com doenças crônicas(2,3). Estima-se que cerca de 59 milhões de pessoas no mundo vivem com FA(4). No Brasil, as estatísticas do Primeiro Registro Cardiovascular Brasileiro de Fibrilação Atrial (RECALL) apontam que a doença afeta cerca de 1,5 milhão de indivíduos(5), com maior prevalência em idosos(1), sendo considerada um problema de saúde pública.

A abordagem terapêutica de uma pessoa com diagnóstico de FA envolve mudanças no estilo de vida, reconhecimento de sintomas, manejo de comorbidades e adesão à terapêutica medicamentosa, visando mitigar eventos adversos, como acidente vascular encefálico (AVE), insuficiência cardíaca (IC), depressão e custos econômicos para os serviços de saúde(3).

Os sintomas de ansiedade e depressão são observados em pessoas com FA(1,3). Essas condições psicológicas provocam pior percepção da qualidade de vida (QV) e podem influenciar os desfechos clínicos, gerando um ciclo vicioso que frequentemente culmina em sofrimento diante de limitações de atividades de vida diária, má adesão terapêutica e aumento de hospitalizações evitáveis(6,7). Nesse contexto, o apoio social constitui uma estratégia fundamental no manejo desses indivíduos, pois contribui para o enfrentamento emocional da doença, favorece a adesão ao tratamento e promove maior bem-estar físico e psicológico(1).

O apoio social é conceituado como a disponibilidade de recursos oferecidos por outras pessoas, especialmente familiares, amigos e profissionais de saúde(8). Esse conceito abrange o quanto o indivíduo está integrado socialmente, bem como o grau em que os relacionamentos interpessoais podem ajudar os indivíduos em situações críticas ou de readaptação. Logo, o apoio social atua como um fator positivo no enfrentamento da FA, favorecendo a adoção e manutenção de comportamentos saudáveis de estilo de vida(3).

Diretrizes recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia recomendam que a avaliação de sintomas relacionados à FA, como ansiedade e depressão, seja incorporada à prática clínica na oferta de um cuidado abrangente(2,6). Portanto, investigar a relação entre ansiedade, depressão e apoio social em pacientes com FA mostra-se relevante para o aprimoramento da prática clínica dos enfermeiros, uma vez que esses profissionais são responsáveis pelo acompanhamento e implementação de ações de cuidado longitudinal. Além disso, necessitam desenvolver competências para identificar e manejar fatores de risco que possam contribuir para a progressão da FA.

Na América Latina, as pesquisas sobre a temática são incipientes. Até o momento, nenhum estudo foi encontrado na Região do Nordeste do Brasil, o que justifica a realização desta pesquisa e de outras futuras. Diante disso, questiona-se: Qual é a relação entre sintomas de ansiedade e depressão e apoio social em pacientes com FA?

OBJETIVOS

Analisar a relação entre sintomas de ansiedade e depressão e apoio social em pacientes com fibrilação atrial.

MÉTODOS

Aspectos éticos

Esta pesquisa atendeu aos preceitos éticos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil e obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. Os participantes formalizaram o consentimento por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), em duas vias.

Desenho, período e local do estudo

Estudo descritivo, transversal e correlacional. As recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) foram seguidas. A pesquisa foi desenvolvida no ambulatório de cardiologia do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), localizado no município de João Pessoa/PB, Brasil, entre setembro de 2023 e junho de 2024. Trata se de um hospital de ensino, de grande porte, vinculado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ao Sistema Único de Saúde (SUS) e gerenciado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH).

População e amostra; critérios de inclusão e exclusão

A população considerada foi de 135 pacientes com FA em follow-up na instituição. O cálculo do tamanho amostral foi realizado por meio do software OpenEpi (versão 3.01), baseado em dados de estudo prévio(9). Identificou-se prevalência de 34,9% de sintomas de ansiedade, com nível de confiança de 95% e erro amostral de 5%. Dessa forma, foi determinada uma amostra mínima de 98 participantes.

Inicialmente, realizaram-se consultas prévias aos prontuários dos pacientes em follow-up para triagem dos participantes potencialmente elegíveis, de acordo com os critérios de inclusão. Após isso, os pacientes foram convidados a participar da pesquisa.

Foram incluídas pessoas com diagnóstico clínico de FA, com idade ≥ 18 anos e em uso de anticoagulação oral crônica. Excluíram-se pacientes em tratamento de ansiedade e depressão ou em uso de medicamentos ansiolíticos e/ou antidepressivos, bem como aqueles com déficit cognitivo confirmados em prontuário.

Protocolo do estudo

Dois graduandos de Enfermagem devidamente capacitados coletaram os dados por meio de entrevistas individuais realizadas em ambiente reservado, com duração média de 40 minutos, utilizando-se os três instrumentos descritos a seguir.

1. Formulário de caracterização sociodemográfica e clínica dos participantes

Trata-se de um instrumento elaborado pelos autores. Contém as seguintes variáveis: sexo (masculino ou feminino), idade (anos completos), procedência (João Pessoa/PB ou outros municípios), cor da pele (branca, parda, negra ou indígena), escolaridade (anos de estudo completos), situação de trabalho (ativo ou inativo), renda familiar (em reais), situação conjugal (solteiro, união estável/casado, viúvo, divorciado/separado), comorbidades associadas à FA, terapêutica medicamentosa em uso, dose semanal de anticoagulante (em mg), tempo de tratamento (em anos), último resultado da International Normalized Ratio (INR), faixa terapêutica ideal e reações adversas e/ou efeitos colaterais associados ao uso de anticoagulante (sangramentos, hematomas, evento tromboembólico etc.).

2. Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS)

Esta é uma escala de triagem de autorrelato, traduzida e adaptada para o português. É composta por 14 questões (7 para ansiedade e 7 para depressão), que abordam sintomas psicológicos. Tem opções de resposta de quatro pontos que apresentam valores de 0 a 3, cuja soma pode variar de 0 a 21 pontos para cada um dos transtornos psicológicos avaliados(10). As pontuações foram categorizadas da seguinte forma: 0 a 7 - sem sintomas; 8 a 10 - sintomas moderados; 11 a 21 - sintomas significativos(3,11). Na versão brasileira, as subescalas de ansiedade e de depressão apresentaram coeficientes de consistência interna de 0,68 e 0,77, respectivamente(10).

3. Escala de Apoio Social do Medical Outcomes Study (MOS-SSS):

É um questionário composto por 19 itens, desenvolvido por Sherbourne e Stewart(8), para analisar em que medida o indivíduo possui o apoio de outras pessoas para enfrentar situações da vida. Originalmente, o instrumento engloba cinco dimensões(8); contudo, investigações sugeriram que as subescalas de apoio emocional e informacional deveriam ser agrupadas em uma mesma dimensão(12,13).

Nesse sentido, foram analisadas quatro dimensões: apoio emocional/informacional (8 itens) - habilidade da rede social em satisfazer as necessidades individuais em relação a problemas emocionais, como situações que exijam sigilo, encorajamento em momentos difíceis e presença de pessoas que aconselhem, informem e orientem; apoio material (4 itens) - provisão de recursos práticos e ajuda material; apoio afetivo (3 itens) - demonstrações físicas de amor e afeto; interação social positiva (4 itens) - contar com pessoas com quem se possa relaxar e divertir.

Os participantes indicaram as respostas em uma escala do tipo Likert de cinco pontos: 1 (Nunca); 2 (Raramente); 3 (Às vezes); 4 (Quase sempre); e 5 (Sempre). Os autores recomendam o cálculo da pontuação média dos itens para cada subescala(8). Pontuações mais altas indicam melhor percepção de apoio(12,13). A validação para o português brasileiro apresentou coeficiente alfa de Cronbach igual ou superior a 0,83 em todas as dimensões investigadas(13).

Neste estudo, a categorização dos escores do apoio social na MOS-SSS foi realizada da seguinte forma: apoio material: ≤ 6 pontos - baixa percepção; 7 a 13 pontos - média percepção; ≥ 14 pontos - alta percepção; apoio afetivo: ≤ 4 pontos - baixa percepção; 5 a 10 pontos - média percepção; ≥ 11 pontos - alta percepção; apoio emocional/informacional: ≤ 12 pontos - baixa percepção; 13 a 28 pontos - média percepção; ≥ 29 pontos - alta percepção; e interação social positiva: ≤ 6 pontos - baixa percepção; 7 a 13 pontos - média percepção; ≥ 14 pontos - alta percepção(14).

Análise dos resultados e estatística

Os dados foram organizados em planilha Excel® e transportados para o software estatístico Jamovi® (versão 2.6). A análise ocorreu por meio de estatística descritiva e inferencial. Para variáveis categóricas, foram utilizadas frequências absolutas e percentuais. As variáveis numéricas foram descritas usando-se medidas de posição e dispersão (média, desvio-padrão, mediana e intervalo interquartil). A normalidade dos dados foi avaliada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, que evidenciou distribuição de dados não paramétrica.

A análise do coeficiente de correlação de Spearman foi utilizada para examinar as relações existentes entre as variáveis. Para medir a força dos coeficientes de correlação, considerou-se a seguinte classificação: ≤ 0,30 - fraca magnitude; entre 0,40 e 0,60 - moderada magnitude; > 0,70 - forte magnitude(15). O nível de significância estatística adotado foi de p < 0,05.

RESULTADOS

Participaram do estudo 102 pacientes com FA. Quanto aos dados sociodemográficos (Tabela 1), a idade variou de 32 a 87 anos, com média de 64,53 ± 11,37 anos; 72 (70,6%) pessoas procediam da cidade de João Pessoa/PB; 57 (55,9%) eram do sexo masculino; 87 (85,3%) estavam inativos economicamente; 62 (60,8%) autodeclararam-se pardos; e 58 (56,9%) eram casados ou viviam em união estável. A escolaridade média foi de 6,23 ± 4,59 anos, e 61 (59,8%) possuíam renda de até um salário mínimo.

Tabela 1
Características sociodemográficas de pacientes com fibrilação atrial, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2024 (N = 102)

Quanto aos aspectos clínicos, o tempo de tratamento dos pacientes com FA foi de 6,72 ± 5,98 anos, e o número de comorbidades variou de 0 a 10, com média de 3,76 ± 1,45 associadas à FA; 80 (33,2%) participantes tinham hipertensão arterial sistêmica, 87 (35,7%) faziam uso de betabloqueadores e 41 (40,2%) usavam varfarina como anticoagulante oral. O INR médio foi de 2,43 ± 0,72. No tocante às reações adversas mais frequentes associadas ao uso do anticoagulante, 14 (6,9%) tiveram sangramentos, e 13 (6,4%) apresentaram hematomas. O número de medicamentos utilizados variou de 2 a 11, com média de 6,23 ± 1,99.

A Tabela 2 apresenta os escores dos sintomas de ansiedade e depressão. Dos participantes, 60,8% apresentaram sintomas de ansiedade (grau moderado = 32,4%; nível significativo = 28,4%); e 39 (38,2%) revelaram sintomas de depressão (grau moderado = 17,6%; nível significativo = 20,6%).

Tabela 2
Escores dos sintomas de ansiedade e depressão, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2024 (N = 102)

A Tabela 3 apresenta a categorização das respostas conforme as dimensões. O apoio material e o apoio afetivo mostraram os maiores percentuais de alta percepção em relação às quatro dimensões propostas no instrumento: apoio material (90,2%), apoio afetivo (90,2%), apoio emocional/informacional (76,5%) e interação social positiva (70,6%).

Tabela 3
Frequência de respostas na Escala de Apoio Social do Medical Outcomes Study, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2024 (N = 102)

A Tabela 4 apresenta os resultados dos coeficientes de correlação entre os sintomas de ansiedade e depressão e o apoio social. Houve correlação negativa significante de fraca magnitude entre apoio afetivo, apoio emocional/informacional, interação social positiva e HADS-depressão, ou seja, quanto maiores os níveis de apoio social nessas dimensões, menores os sintomas de depressão. Não foram observadas associações estatisticamente significantes entre o escore HADS-ansiedade e as dimensões de apoio social.

Tabela 4
Correlação entre os sintomas de ansiedade e depressão e o apoio social, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2024 (N = 102)

A Tabela 5 apresenta os coeficientes de correlação entre os sintomas de ansiedade e depressão, o apoio social e as variáveis sociodemográficas e clínicas. Observou-se correlação significante positiva de fraca magnitude entre idade e apoio material, bem como entre escolaridade e a dimensão de interação social positiva. Verificou-se, ainda, correlação significante negativa, também de fraca magnitude, entre o número de comorbidades e a dimensão de apoio emocional/informacional. Além disso, houve correlação significante de fraca magnitude entre renda familiar e sintomas de ansiedade, bem como entre número de comorbidades e sintomas de depressão.

Tabela 5
Correlação entre sintomas de ansiedade, depressão, apoio social e variáveis sociodemográficas e clínicas, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2024 (N = 102)

DISCUSSÃO

Este estudo analisou a relação entre os sintomas de ansiedade e depressão e o apoio social em pacientes com FA. As características sociodemográficas do estudo apontaram a prevalência de idosos, homens, casados ou em união estável, com baixa escolaridade e economicamente inativos. Esses resultados estão em consonância com a literatura, em que a FA está associada ao avanço da idade(1,16), com maior prevalência na faixa etária de 65-74 anos(17), em indivíduos do sexo masculino(18,19) e com baixa escolaridade(20).

No que se refere às condições clínicas, os participantes apresentaram hipertensão arterial e usavam varfarina e betabloqueadores. Investigações anteriores são corroboradas pelos resultados deste estudo quanto às comorbidades mais comuns em pacientes com FA, entre as quais a hipertensão arterial foi a principal(16,19,20). Em uma pesquisa transversal, evidenciou-se que os betabloqueadores foram prescritos para 81% dos participantes para controle da FA(17). No estudo RECALL, 69,5% usavam betabloqueadores, 25,7% faziam uso de bloqueadores de canal de cálcio (BCC) e 15,7% utilizavam digitálicos(5).

Neste estudo, a presença de sintomas de ansiedade e depressão foi semelhante à encontrada em pesquisas anteriores(21-23). Tais achados podem ser explicados pela influência que os sintomas psicológicos exercem sobre o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como a FA, por meio do aumento na liberação de catecolaminas e da hiperatividade simpática, podendo ocasionar variabilidade da frequência cardíaca(24,25).

A FA necessita de controle laboratorial rigoroso e dietético, de modo que favorece a prevalência de sintomas depressivos e de ansiedade. Além disso, o uso de anticoagulantes orais, como a varfarina, requer maior frequência de consultas em saúde e exames laboratoriais para ajustes de doses terapêuticas. Nesta pesquisa, uma parcela considerável dos participantes fazia uso de varfarina, possivelmente em razão do baixo custo e da dispensação gratuita pelo SUS, o que pode justificar os resultados encontrados.

Uma investigação também identificou níveis mais altos de sintomas de ansiedade e depressão em participantes que utilizavam varfarina, em comparação com os anticoagulantes orais diretos (DOACs)(26). O custo dos DOACs - que apresentam maior previsibilidade de resultados, menor necessidade de monitoramento e menor interação medicamentosa e dietética - ainda é um dos fatores limitantes para sua incorporação na prática clínica, e essa barreira precisa ser superada como estratégia para reduzir potenciais complicações e desfechos adversos nessa população(27).

O apoio social percebido pelos participantes evidenciou alta percepção em todas as dimensões. Estudos usando a Escala de Apoio Social em diferentes condições crônicas encontraram resultados similares em idosos com câncer e em pessoas com IC(28,29). Uma revisão identificou que o apoio familiar desempenha papel fundamental no manejo de condições crônicas. Cônjuges e parceiros configuram-se como a principal fonte de suporte diante de dificuldades relacionais, físicas e emocionais(30).

Neste estudo, os sintomas depressivos correlacionaram-se inversamente com o apoio emocional/informacional, apoio afetivo e interação social. Essa descoberta encontra respaldo na literatura(30) e sugere que os suportes emocional e financeiro, bem como o auxílio do núcleo familiar, de amigos ou de profissionais de saúde, são fatores contributivos para promover maior adesão ao tratamento e favorecer a adaptação à complexidade terapêutica envolvida na FA(31). Investigação evidenciou que o afeto negativo esteve associado a uma maior sobrecarga de sintomas de FA, como tontura e palpitações(32). Assim, o apoio social é importante para mitigar eventos estressores e melhorar a saúde cardiovascular em curto e longo prazo(33).

O isolamento e as dificuldades de interação social potencializam a ocorrência de sintomas depressivos, comumente observados em pacientes com doenças crônicas em razão da necessidade de mudanças no estilo de vida(34,35). Um estudo de revisão sobre os fatores associados à ansiedade e depressão em idosos ressalta que, quanto menor a interação social, maior o relato de sintomas depressivos(36). Logo, desenvolver estratégias que favoreçam a interação social é fundamental para estimular o engajamento terapêutico e aumentar a QV.

Nesta pesquisa, os sintomas de ansiedade não apresentaram associação com o apoio social. No entanto, há evidências de que a gravidade dos sintomas ansiosos em indivíduos idosos com FA está relacionada à maior fragilidade nas dimensões física e social(37). Na Polônia, observou-se que os sintomas de ansiedade correlacionam-se significantemente com piores níveis de QV(38). Portanto, novas investigações são necessárias para explorar e aprofundar possíveis relações entre as variáveis.

Os resultados destacam que o número de comorbidades teve relação com o apoio emocional/informacional. Esse acúmulo de comorbidades é frequentemente descrito como múltiplas condições crônicas (MCCs), ou multimorbidade, conceito que se refere à coexistência de duas ou mais condições de saúde de longo prazo(39). Dessa forma, a presença de sintomas recorrentes de FA, associados a outras condições crônicas, pode gerar sofrimento psicológico e comprometer o funcionamento social, bem como as atividades cotidianas. Tais efeitos são agravados por redes de apoio fragilizadas, pela sobrecarga de cuidadores no manejo de medicamentos e consultas e por dificuldades em oferecer incentivo e compreensão diante de situações estressora - fatores que, em conjunto, potencializam a baixa adesão à terapêutica instituída(24,25).

Os achados também evidenciaram uma relação entre o número de comorbidades e os sintomas de depressão. A FA é uma doença que aumenta com a idade, e pacientes idosos geralmente apresentam multimorbidade, que está relacionada a piores desfechos clínicos(2). Além disso, o número de comorbidades contribui para amplificar a patogênese da arritmia, incluindo efeitos sobre a hemodinâmica intracardíaca, inflamação, hipóxia cerebral e alterações metabólicas(40).

O convívio com multimorbidades pode causar ansiedade e preocupação constantes sobre a saúde, o que aumenta o estresse associado às demandas de tratamento contínuo, sintomas não controlados, polifarmácia e incertezas sobre o futuro, elevando o risco de depressão(41). Um estudo sobre pessoas com MCC mostrou que o apoio social positivo de cônjuge, filhos, familiares e amigos reduz significativamente o efeito deletério da MCC na depressão(42). Recomenda-se que estudos qualitativos abordem essa relação, incluindo a influência de sintomas depressivos e a contribuição do apoio social nas experiências de pessoas com FA.

Identificou-se que os participantes com mais anos de escolaridade tendem a ter maior interação social positiva. Entende-se que pessoas com maior escolaridade desenvolvem redes neurais mais complexas e resilientes. Tais indivíduos possuem maior senso de controle e melhores habilidades de enfrentamento, o que favorece a mobilização de recursos cognitivos e emocionais para contornar adversidades estressoras(43). Sugere-se que estudos futuros longitudinais examinem essa relação para consolidar as evidências sobre o tema.

Limitações do estudo

As limitações deste estudo incluem o delineamento transversal, que não permite estabelecer relações de causa e efeito. Outro ponto é que o uso de amostra de conveniência e a coleta de dados em um único hospital podem não refletir outros cenários de pesquisa. O autorrelato das variáveis também pode ter sido influenciado pelos vieses de desejabilidade social e de memória, uma vez que o déficit cognitivo foi avaliado com base nos registros dos prontuários clínicos. Além disso, as correlações significantes observadas apresentaram fraca magnitude, o que exige cautela na generalização dos resultados obtidos para a prática clínica. Recomenda-se que pesquisas futuras, com delineamento longitudinal, sejam conduzidas para avaliar a relação entre as variáveis investigadas nos desfechos clínicos de pessoas com FA.

Contribuições para área

Esta pesquisa apresenta evidências relevantes para o avanço do conhecimento científico contemporâneo. No âmbito da prática clínica em saúde, enfermeiros e demais profissionais da equipe multidisciplinar poderão elaborar planos terapêuticos mais assertivos na avaliação de sintomas psicossociais e de apoio social ao longo do processo terapêutico, com o fito de oferecer uma assistência qualificada e holística. Além disso, os resultados oferecem subsídios para a proposição de intervenções e ações de educação em saúde que melhorem indicadores relacionados ao gerenciamento de sintomas, à adesão terapêutica e à QV de indivíduos com FA.

CONCLUSÕES

Os resultados deste estudo sugerem que, quanto maiores os apoios afetivo e emocional bem como a interação social, menores são os níveis de sintomas depressivos em pacientes com FA. Não foram identificadas associações entre os sintomas de ansiedade e o apoio social. Assim, o rastreamento desses sintomas deve constituir um aspecto prioritário e de responsabilidade dos profissionais de saúde, especialmente dos enfermeiros, no cuidado contínuo dessa população.

  • FOMENTO
    Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPESQ), pela bolsa de iniciação científica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

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Editado por

  • EDITOR-CHEFE:
    Dulce Barbosa
  • EDITOR ASSOCIADO:
    Antonio José de Almeida Filho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Abr 2025
  • Aceito
    26 Nov 2025
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