RESUMO
Objetivos: avaliar as evidências sobre o uso do plano de parto por gestantes.
Métodos: revisão integrativa, realizada em sete bases de dados sem delimitação temporal e de idioma. A análise foi realizada de maneira qualitativa e descritiva.
Resultados: foram incluídos 41 estudos. O uso do PP: facilita a comunicação entre gestantes e profissionais de saúde; promove a participação ativa da mulher; fortalece a autonomia; favorece a tomada de decisão compartilhada; e aumenta satisfação com o processo de parto. Verificou-se associação com redução de cesarianas, aumento de partos vaginais, aumento da pontuação de Apgar e maior probabilidade de início da amamentação. Os itens mais frequentes foram contato pele a pele, presença do acompanhante, métodos para alívio da dor, posição expulsiva, informação sobre intervenções médicas, ingestão hídrica e deambulação.Conclusões: o plano de parto é ferramenta essencial para humanizar a assistência obstétrica, devendo ser apresentado e discutido ainda no pré-natal.
Descritores:
Plano de Parto; Gestantes; Tomada de Decisão Compartilhada; Parto Humanizado; Promoção da Saúde.
ABSTRACT
Objectives: to assess evidence on the use of birth plans by pregnant women.
Methods: an integrative review, conducted in seven databases without time or language restrictions. The analysis was performed qualitatively and descriptively.
Results: forty-one studies were included. The use of an birth plan: facilitates communication between pregnant women and healthcare professionals; promotes active participation of women; strengthens autonomy; favors shared decision-making; and increases satisfaction with the childbirth process. An association was found with a reduction in cesarean sections, an increase in vaginal deliveries, an increase in Apgar scores, and a greater likelihood of initiating breastfeeding. The most frequent items included skin-to-skin contact, presence of a support person, pain relief methods, expulsive position, information about medical interventions, fluid intake, and ambulation.
Conclusions: the birth plan is an essential tool for humanizing obstetric care and should be presented and discussed during prenatal care.
Descriptors:
Obstetric Delivery Planning; Pregnant People; Decision Making; Shared; Humanizing Delivery; Health Promotion.
RESUMEN
Objetivos: evaluar la evidencia sobre el uso de planes de parto por parte de embarazadas.
Métodos: se realizó una revisión integrativa en siete bases de datos, sin limitaciones de tiempo ni idioma. El análisis fue cualitativo y descriptivo.
Resultados: se incluyeron 41 estudios. El uso del plan de parto facilita la comunicación entre las embarazadas y los profesionales sanitarios; promueve la participación activa de las mujeres; fortalece la autonomía; favorece la toma de decisiones compartida; y aumenta la satisfacción con el parto. Se observó una asociación con una reducción de las cesáreas, un aumento de los partos vaginales, un aumento de las puntuaciones de Apgar y una mayor probabilidad de iniciar la lactancia materna. Los ítems más frecuentes fueron el contacto piel con piel, la presencia de un acompañante, los métodos para aliviar el dolor, la posición para el parto, la información sobre intervenciones médicas, la ingesta de líquidos y la deambulación.
Conclusiones: el plan de parto es una herramienta esencial para humanizar la atención obstétrica y debe presentarse y discutirse durante el período prenatal.
Descriptores:
Plan de Parto; Personas Embarazadas; Toma de Decisiones Conjunta; Parto Humanizado; Promoción de la Salud.
INTRODUÇÃO
O uso do plano de parto (PP) é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)(1), e no Brasil, pelo Ministério da Saúde, após a implantação do Programa Rede Cegonha, em 2011(2). O PP viabiliza a apropriação de informações que promovem benefícios à autonomia e protagonismo das mulheres quanto à sensibilização dos profissionais de saúde que assistem-nas(3,4). No PP, as gestantes expressam suas vontades e desejos durante o seu trabalho de parto (TP), parto e pós-parto, que incluem desde a ingesta alimentar e hídrica até a posição na hora de parir, uso de medicamentos e procedimentos sem real necessidade, orientações sobre tudo que irá ser realizado(4).
Apesar dos benefícios da construção do PP e da sua comprovada eficácia, o desconhecimento quanto à sua existência e ao descumprimento dos desejos comunicados pelas das gestantes ainda é predominante. Enfermeiros e médicos devem incorporar o uso do PP em suas consultas, especialmente no pré-natal realizado na Atenção Primária à Saúde (APS), com o intuito de qualificar a assistência e fortalecer a comunicação entre a gestante e a equipe de saúde no ambiente hospitalar. Ademais, essa estratégia favorece o acesso à informação, a tomada de decisão informada e a construção de uma responsabilidade compartilhada entre o profissional de saúde e a mulher(3).
O PP está dentro do passo um entre os “10 passos do Cuidado Obstétrico para Redução da Morbimortalidade Materna”, que aborda os encontros de qualidade centrados nas necessidades de cada mulher durante todos os contatos com os serviços de saúde, estimulando a discussão e elaboração conjunta do PP(5). É por meio do PP que a equipe conhecerá os desejos e preferências das gestantes, contribuindo para que estes sejam alcançados e respeitados(6).
Nesse sentido, o PP viabiliza para as mulheres a oportunidade de escolhas, que valorizam o respeito, a garantia de direitos, as relações humanizadas e as práticas baseadas em evidências científicas(7). Envolver as mulheres no processo de tomada de decisão em seu TP por meio do PP pode ser considerado uma intervenção estratégica, que pode melhorar os resultados maternos e neonatais, além de oportunizar maior empoderamento(8,9).
Este estudo surge com o propósito claro de aproximar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (saúde e bem-estar) à promoção do uso do PP, incentivando sua construção e utilização pelas mulheres para participação ativa no parto. Diante disso, o estudo se justifica para a prática da enfermagem, ao apresentar uma ferramenta voltada ao empoderamento e à autonomia feminina, além de contribuir para a divulgação do PP como um meio para favorecer o alcance das seguintes metas: meta 3.1: até 2030, reduzir a taxa de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100.000 nascidos vivos; meta 3.7: assegurar o acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o planejamento familiar, informação e educação, bem como a integração da saúde reprodutiva em estratégias e programas nacionais; e meta 5.6: assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e aos direitos reprodutivos(10).
Revisões anteriores abordam o PP em aspectos como seu propósito, processo, impacto(11), definições, conteúdo, efeitos e melhores práticas(12), e seu papel na tomada de decisão compartilhada(13). Não foi identificada revisão específica que sintetize as evidências sobre o uso do PP pelas gestantes e seus impactos no processo de parto. Diante dessa lacuna, este estudo tem como objetivo avaliar as evidências sobre o uso do PP por gestantes. Como objetivo secundário, busca-se analisar os impactos dessa utilização sobre o processo assistencial, a experiência materna e os desfechos do parto.
OBJETIVOS
Avaliar as evidências sobre o uso do PP por gestantes.
MÉTODOS
Aspectos éticos
Este estudo foi baseado em dados que foram publicados e estão disponíveis publicamente; portanto, não requer submissão ou aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. Vale destacar que foram seguidos os princípios éticos fundamentais da pesquisa científica, incluindo a transparência metodológica, a integridade acadêmica e o respeito aos direitos autorais.
Desenho do estudo
Trata-se de revisão integrativa da literatura, fundamentada no referencial teórico proposto por Whittemore e Knafl, realizada em cinco estágios: elaboração da questão norteadora; busca e seleção dos estudos primários; avaliação dos estudos primários; análise dos dados; e apresentação da revisão(14). Esta estrutura metodológica foi adotada com o objetivo de assegurar uma abordagem sistemática na síntese das evidências. Pretendeu-se, com isso, obter uma compreensão abrangente sobre o uso do PP por gestantes, bem como identificar lacunas a serem exploradas em estudos futuros(14). A redação do estudo seguiu as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)(15).
Questão norteadora
A questão norteadora definida para conduzir esta revisão integrativa foi: o que revelam as evidências científicas sobre a utilização do PP por gestantes? Para elaboração dessa questão, foi adotado o acrônimo PICo (População, Interesse e Contexto), sendo P =população (gestantes), I =interesse (PP) e Co =contexto (serviços de saúde).
Critérios de elegibilidade
Foram incluídos estudos primários relacionados à temática, realizados com gestantes, sem restrição de idioma ou período de publicação. Optou-se por não estabelecer recorte temporal, pois o objetivo deste estudo foi reunir toda a literatura disponível sobre o uso do PP por gestantes. Tal decisão se justifica por se tratar da primeira revisão integrativa a sintetizar as evidências acerca do tema, contemplando desde as primeiras publicações até o período final da coleta. Foram excluídos trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, anais de eventos e editoriais.
Busca e seleção dos estudos
A busca dos estudos primários foi realizada em 17 de setembro de 2024 nas bases de dados MEDical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE)/PubMed (via National Library of Medicine), Web of Science, Scopus, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL da EBSCO), Cochrane, EMBASE (Elsevier) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) via Biblioteca Virtual em Saúde. As bases de dados foram acessadas gratuitamente por meio do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
Os termos de busca selecionados no Medical Subject Headings foram aplicados na MEDLINE, Web of Science, Scopus, CINAHL, Cochrane, LILACS, e nos Emtree Terms, na Excerpta Medica dataBASE (EMBASE). As estratégias de busca foram elaboradas por meio da combinação de descritores e palavras-chave, a partir dos operadores booleanos OR e AND, de acordo com o Quadro 1.
Os resultados identificados nas bases de dados foram exportados para o software Rayyan(16). A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores, de forma independente, em duas etapas, e seguiu as recomendações (identificação, triagem e inclusão) do fluxograma PRISMA(15). Na primeira etapa, houve a leitura dos títulos e resumos e a aplicação dos critérios de elegibilidade. Posteriormente, os revisores se reuniram para discutir as disparidades na seleção e chegar a um consenso. Na etapa seguinte, realizou-se a leitura dos textos na íntegra, e foram aplicados, novamente, os critérios de elegibilidade. Situações de discordância, ao final da etapa, foram resolvidas com o parecer de um terceiro revisor. Ressalta-se que a busca manual na lista de referências dos estudos primários incluídos foi realizada com a finalidade de identificar evidências adicionais relacionadas à temática de interesse.
Coleta de dados
A coleta de dados correspondente à caracterização dos estudos ocorreu mediante o desenvolvimento e utilização de formulário de extração de dados, sendo extraídas as seguintes variáveis: autoria; ano de publicação; país; objetivo do estudo; desenho do estudo; e principais resultados. A referida etapa foi realizada por dois revisores, de forma independente. Nos casos em que ocorreram divergências, foi realizada reunião para discussão até que ocorresse um consenso.
Tratamento e análise de dados
Os resultados foram analisados e sintetizados de forma descritiva, utilizando uma abordagem de síntese narrativa. Primeiramente, os estudos foram agrupados para oferecer uma visão geral abrangente do escopo, da natureza e da distribuição dos estudos incluídos na revisão, apresentados em um quadro de caracterização. Para a classificação do nível de evidência (NE) dos estudos, foi utilizado modelo proposto por Melnyk e Fineout Overholt(17), o qual é dividido nos seguintes níveis: nível I - evidências oriundas de revisão sistemática ou metanálise de todos ensaios clínicos relevantes randomizados controlados ou provenientes de diretrizes clínicas baseadas em revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados controlados; nível II - evidências derivadas de, pelo menos, um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado; nível III - evidências obtidas de ensaios clínicos bem delineados sem randomização; nível IV - evidências provenientes de estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; nível V - evidências originárias de revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; nível VI - evidências derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo; e nível VII - evidências oriundas de opinião de autoridades e/ou relatórios de comitês de especialistas. Em seguida, os resultados foram discutidos com base em categorias temáticas identificadas pelos autores após a leitura dos estudos incluídos.
RESULTADOS
No total, foram identificados 1.015 registros. Depois de remover as duplicatas, 369 foram deixados para triagem. Após triagem de títulos e resumos, 316 registros foram excluídos por não responderem aos critérios de inclusão, e cinco registros não foram recuperados, deixando 48 estudos potencialmente relevantes. Após leitura na íntegra, sete não atendiam aos critérios, restando 41 estudos (Figura 1).
Fluxograma Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: busca e seleção dos artigos incluídos, São Luís, Maranhão, Brasil, 2024
Caracterização dos estudos incluídos
A síntese descritiva dos estudos primários conforme autoria, ano de publicação, país do estudo, tipo de estudo, amostra, cenário e NE é apresentada no Quadro 2.
Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa (N=41), São Luís, Maranhão, Brasil, 2024
No que se refere ao recorte temporal, as publicações incluídas datam do período de 1992 a 2024. O ano de 2017 (n=5) concentrou a maior parte das produções analisadas. A maioria dos estudos foi conduzida na Espanha(19,23,25-27,29,32,38,39,41) e nos Estados Unidos(30,35,37,44,49). Em relação à abordagem metodológica, os estudos se caracterizaram em sua maioria como qualitativos(6,7,18,23,31,33,40), seguidos de ensaios clínicos(8,22,24,25,42,47). A amostra dos estudos variou entre 247(19) e 14.630 mulheres(35). Os cenários de realização foram diversos, incluindo o ambiente hospitalar(8,18,20-22,24,26,28,30,32,35,37,38,41,43-45,47-49,51-54), atenção básica(25,27,29,39,42), ambulatório(6,7,19,23,34,46), casa de parto(7,36) e online(31,33). Quanto ao NE, a maioria dos estudos foi classificada como nível VI(6,7,18-21,23,27-29,31-36,39,40,43,45,46,48-55).
A amostra do presente estudo, a partir dos artigos analisados, está demonstrada de forma sintetizada no material suplementar. Diante disso, a análise crítica e a síntese dos estudos selecionados foram realizadas de forma qualitativa (Quadro 3), emergindo a categorização de sete temas principais: conhecimento do PP; uso do PP; itens do PP; efeito do PP nos resultados maternos; efeito do PP nos resultados neonatais; satisfação e cumprimento do PP; e PP no pré-natal.
Síntese dos proponentes do uso de plano de parto por gestantes, São Luís, Maranhão, Brasil, 2024
DISCUSSÃO
O conjunto de evidências analisadas permitiu compreender os fatores que influenciam o uso do PP por mulheres em diferentes contextos ao redor do mundo. Os estudos destacam achados notáveis sobre sua utilização, como facilitação da comunicação, promoção da participação ativa da mulher durante o parto, fortalecimento da autonomia e do controle sobre o próprio corpo, além de favorecer a tomada de decisão compartilhada e aumentar a satisfação com o processo de parto.
Além disso, o PP está associado à redução do número de cesáreas, ao aumento da taxa de partos vaginais, à diminuição do medo e da ansiedade, ao aumento da pontuação de Apgar no primeiro minuto de vida do recém-nascido (RN) e a uma maior probabilidade de início da amamentação na sala de parto. Outro benefício relevante é a menor propensão do RN à internação neonatal em Unidades de Terapia Intensiva. Entre os itens mais frequentes nos PPs, destacam-se contato pele a pele, presença do acompanhante, adoção de métodos para alívio da dor, escolha da posição expulsiva, obtenção de informação e controle sobre intervenções médicas, assim como possibilidade de ingestão hídrica e deambulação durante o TP.
O PP está entre as técnicas que devem ser estimuladas durante a gestação, de acordo com as normas internacionais preconizadas pela OMS, porém, em alguns serviços de saúde que atendem gestantes e parturientes, o PP ainda é pouco estimulado(36). Apesar de ser um direito das gestantes, PP ainda é pouco conhecido ou compreendido, de forma superficial, por muitas mulheres em diversas regiões, o que impacta negativamente sua utilização. Estudo realizado no Paraná com 13 puérperas apontou que 69% delas não conheciam o que era o PP, sendo que 77% sequer imaginavam se tratar de um direito legal(4). De maneira semelhante, em outro estudo realizado no Rio de Janeiro, apenas uma entre as 11 puérperas entrevistadas relatou conhecer o PP, enquanto todas as demais negaram qualquer familiaridade com o instrumento(36). Da mesma forma, pesquisa conduzida em uma maternidade pública de Curitiba com 19 gestantes constatou que 13 delas desconheciam o PP ou haviam apenas ouvido falar, sem saber exatamente do que se tratava, reafirmando a carência de conhecimento mais aprofundado sobre o tema(6).
Percebe-se que apenas uma pequena parcela das mulheres é informada sobre o PP por profissionais de saúde. Em pesquisa realizada em Curitiba, Paraná, constatou-se que outras fontes, como redes de apoio e a internet, foram os principais meios de acesso a informações sobre o PP e sobre temas relacionados à gestação e ao parto, evidenciando a necessidade de maior engajamento dos profissionais de saúde na divulgação e orientação sobre esse instrumento(6). De forma semelhante, estudo conduzido na Andaluzia, Espanha, revelou que, embora a maioria das mulheres tenha valorizado as aulas de pré-natal, elas relataram a necessidade de que as equipes estejam atualizadas e que as aulas sejam melhor coordenadas. Apesar de terem sido informadas sobre a existência do PP, declararam dificuldades para obter informações detalhadas a respeito, recorrendo a outras fontes, como internet, livros, associações, familiares e amigos para se orientar(23). Esses achados reforçam a importância de que os profissionais de saúde sejam os principais interlocutores na promoção e esclarecimento do PP, garantindo às mulheres acesso qualificado e confiável a essa ferramenta.
O PP, embora reconhecido legalmente, ainda apresenta baixa difusão entre profissionais de saúde, hospitais e maternidades, o que compromete sua aplicação prática(36). Poucos serviços conseguem implementá-lo efetivamente, e muitos profissionais sequer conhecem seu significado(3). Entre as barreiras institucionais e socioculturais, destacam-se o desconhecimento e a compreensão inadequada do PP por parte dos profissionais de saúde, a heterogeneidade dos próprios planos, e a falta de comunicação eficaz entre gestantes e equipe assistencial, o que gera percepções distorcidas de escolha e limita a autonomia da mulher(6,11). O desconhecimento das gestantes sobre o processo de parto e sobre o próprio PP também contribui para dúvidas, medos e inseguranças(6). Ademais, planos elaborados sem discussão prévia com os provedores de cuidado podem gerar expectativas irreais e insatisfação, sobretudo em contextos obstétricos altamente medicalizados, refletindo em perda de autonomia durante o parto(11).
Para superar esses desafios, é fundamental que os serviços de saúde adotem estratégias que priorizem a comunicação e tomada de decisão compartilhada. O PP deve ser valorizado como uma ferramenta que facilita o diálogo, fortalece a autonomia da mulher e favorece práticas obstétricas mais humanizadas(11,36). A elaboração colaborativa, com envolvimento ativo dos profissionais de saúde, é crucial para alinhar expectativas, otimizar resultados obstétricos, aumentar a satisfação e ampliar o senso de controle da gestante(11). Nesse sentido, a consulta de enfermagem é configurada como um espaço estratégico para educação em saúde, possibilitando a utilização do PP como recurso educativo eficaz para esclarecer dúvidas, reduzir a ansiedade, promover o empoderamento da gestante e de seu acompanhante, e estabelecer vínculo com a maternidade, além de oferecer orientações claras sobre TP, parto e puerpério(6,36).
Adicionalmente, recomenda-se a adoção de estratégias estruturais e organizacionais, como integração do PP aos protocolos de atenção pré-natal, capacitação multiprofissional voltada à assistência centrada na mulher e uso de ferramentas digitais que facilitem a elaboração, o registro e o compartilhamento do documento entre gestante e equipe de saúde(3,4,6,11,23). Os profissionais de saúde desempenham um papel fundamental na concretização do PP, especialmente os enfermeiros, cuja atuação se inicia no pré-natal, momento em que o PP deve ser apresentado, e sua construção, estimulada. Durante o pré-natal, as gestantes têm a oportunidade de esclarecer dúvidas e contar com o apoio dos enfermeiros na elaboração do documento, fortalecendo a compreensão sobre o parto e o nascimento, e favorecendo a expressão de seus desejos, geralmente voltados à humanização e vivência natural do processo(36). A elaboração do PP é validada como uma importante ferramenta de comunicação entre gestantes e profissionais de saúde, embora ainda seja necessário ampliar o envolvimento e a capacitação das equipes para que estejam mais conscientes das questões relacionadas ao respeito às escolhas das mulheres(23).
Estudo qualitativo realizado no Irã identificou a preparação pré-natal como um fator-chave para uma experiência positiva de parto, destacando que a implementação do PP foi fundamental para aumentar a conscientização das gestantes, promover a prontidão física e mental, e capacitá-las a fazer escolhas informadas sobre métodos seguros de parto(18). Achados semelhantes foram observados em pesquisa realizada no Paraná, em que 13 participantes relataram que as consultas pré-natais reduziram sua ansiedade e medo, proporcionando maior tranquilidade, segurança e confiança para o parto, tanto em relação aos aspectos fisiológicos quanto em relação às rotinas da maternidade(6). Esses resultados reforçam a importância da educação pré-natal e do envolvimento ativo das mulheres no processo de tomada de decisão durante o parto. Aulas educativas e a construção do PP constituem estratégias fundamentais para preparar física e psicologicamente as gestantes, além de oferecer informações e alternativas para o manejo do TP(8).
Em relação aos itens abordados no PP, estudo descritivo realizado na Espanha destacou que a maioria das mulheres considera essencial a presença do parceiro durante o parto, manutenção de um ambiente íntimo, contato contínuo com o bebê desde o nascimento e fornecimento de informações com solicitação de consentimento antes de qualquer intervenção(19). De forma complementar, revisão narrativa apontou que mulheres com PP apresentaram maior probabilidade de iniciar a amamentação ainda na sala de parto. Embora a analgesia epidural tenha sido o método mais utilizado para alívio da dor, essas mulheres demonstraram maior propensão ao uso combinado de métodos não farmacológicos(9).
Outro fator determinante para o desejo de elaboração e uso do PP é o grau de cumprimento de suas diretrizes. Estudo realizado com 178 mulheres na Andaluzia, Espanha, revelou que apenas 37% das gestantes que apresentaram o PP tiveram suas preferências majoritariamente respeitadas. Além disso, observou-se que quanto maior o nível de cumprimento do plano, melhores foram os desfechos maternos e neonatais(32). Entre os principais motivos para o não cumprimento do PP, destaca-se a imprevisibilidade do processo de parto, como a ocorrência de distócias ou eventos inesperados que exigem mudanças nas condutas inicialmente planejadas(32).
Embora o PP represente uma importante ferramenta de planejamento e comunicação, ele não garante que o TP e o nascimento ocorrerão conforme o desejado. Isso reforça a importância de gerenciar expectativas e promover uma comunicação clara entre profissionais de saúde e gestantes sobre as possíveis variações do processo(18).
Para que o PP se consolide como uma ferramenta efetiva de cuidado, é necessário que sua implementação seja discutida com a gestão dos serviços de saúde e construída com o envolvimento ativo dos profissionais que atuam nesses contextos. O documento deve ser adaptado à realidade local, amplamente discutido com gestantes e acompanhantes e atualizado continuamente, garantindo que reflita as necessidades individuais, e ofereça experiências de parto mais positivas e seguras para todos os envolvidos(6).
Limitações do estudo
As limitações deste estudo estão relacionadas ao fato de que alguns estudos incluídos apresentaram fragilidades na descrição metodológica, como a ausência de especificação do tipo de estudo, ano de realização e tamanho da amostra. Observou-se ainda a predominância de pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e na Espanha, com escassa produção nacional sobre o PP. Ademais, a maioria dos estudos incluídos corresponde ao nível VI de evidência, predominantemente qualitativos e descritivos, o que implica menor robustez metodológica, restringindo a generalização dos achados para diferentes contextos. Apesar dessas limitações, buscou-se seguir criteriosamente as recomendações para o desenvolvimento de revisões integrativas. Já os pontos fortes da pesquisa são que se trata de pesquisa nova, que fornece informações sobre o uso PP, com facilidade na busca e análise de conteúdos em estudos de vários países, por meio de livre acesso em plataformas didáticas com dados concretos para sua elaboração, sem custo financeiro ou necessidade de autorização do comitê de ética e pesquisa.
Contribuições para as áreas da enfermagem, saúde ou políticas públicas
Os achados desta revisão ampliam o conhecimento sobre a utilização do PP em diversas regiões do mundo, oferecendo suporte para criação de materiais educativos que podem ser utilizados na prática clínica e em estudos futuros. Além disso, os resultados contribuem para disseminação do conhecimento entre profissionais, promovendo a valorização do PP como ferramenta para o cuidado centrado na gestante e tomada de decisão. Essa abordagem também estimula a pesquisa contínua sobre o tema, fortalecendo as práticas baseadas em evidências na área da saúde materna.
CONCLUSÕES
Os estudos analisados indicam que o uso do PP facilita a comunicação entre gestantes e profissionais de saúde, promove a participação ativa da mulher, fortalece sua autonomia, e favorece a tomada de decisão compartilhada, resultando em maior satisfação com o processo de parto. Além disso, o PP se associa a melhores desfechos maternos e neonatais. Entre os itens mais recorrentes relatados pelas gestantes, destacam-se contato pele a pele, presença do acompanhante, métodos de alívio da dor, escolha da posição expulsiva, informações sobre intervenções médicas, ingestão hídrica e deambulação durante o TP.
Os resultados desta revisão reforçam que o PP é uma ferramenta fundamental para promoção de uma assistência obstétrica mais humanizada e centrada nas necessidades da mulher. Sua apresentação e incentivo durante o pré-natal são estratégicos para fortalecer a autonomia das gestantes, qualificar o cuidado prestado e aprimorar a experiência do parto. Esta revisão contribui para o aprofundamento do conhecimento sobre o uso do PP no contexto mundial. Sugere-se a realização de novas investigações que explorem o conhecimento e a utilização do PP no cenário brasileiro, especialmente na APS, onde se desenvolve o pré-natal e ocorre o primeiro contato da gestante com os serviços de saúde.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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EDITOR-CHEFE:
Antonio José de Almeida Filho
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EDITOR ASSOCIADO:
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