Open-access Uso de dispositivos intrauterinos de cobre no pós-parto imediato: estudo longitudinal prospectivo

RESUMO

Objetivos:  avaliar a inserção do dispositivo intrauterino de cobre no pós-parto imediato, considerando efeitos colaterais, intensidade da dor, informações recebidas, participação do acompanhante, satisfação, taxa de expulsão e continuidade do uso.

Métodos:  estudo longitudinal-prospectivo com 117 mulheres que inseriram o dispositivo intrauterino de cobre no pós-parto imediato em uma maternidade pública de São Paulo, Brasil. Os dados foram coletados no alojamento conjunto por questionário online.

Resultados:  uma parcela significativa das mulheres não recebeu informações sobre vantagens (31,8%) e efeitos colaterais (42,4%). Após seis meses, 37,5% haviam interrompido o uso, por expulsão (9,4%) ou remoção (28,1%). Efeitos colaterais foram relatados por 60% das mulheres. Apesar da satisfação elevada (85,3% na inserção e 75,0% aos seis meses), a maioria das mulheres (60%) desejava outro método contraceptivo.

Conclusões:  a falta de aconselhamento reprodutivo adequado pode impactar a continuidade do uso do dispositivo intrauterino e influenciar a escolha contraceptiva no pós-parto.

Descritores:
Dispositivos Intrauterinos; Planejamento Familiar; Anticoncepção; Educação Sexual; Período Pós-Parto.

ABSTRACT

Objectives:  to evaluate the insertion of the copper Intrauterine Device in the immediate postpartum period, considering side effects, pain intensity, information received, partner involvement, satisfaction, expulsion rate, and continued use.

Methods:  a prospective longitudinal study involving 117 women who had a copper Intrauterine Device inserted in the immediate postpartum period at a public maternity hospital in São Paulo, Brazil. Data were collected in the rooming-in unit through an online questionnaire.

Results:  a significant portion of the women did not receive information about advantages (31.8%) or side effects (42.4%). After six months, 37.5% had discontinued use due to expulsion (9.4%) or removal (28.1%). Side effects were reported by 60% of the women. Despite high satisfaction rates (85.3% at insertion and 75.0% at six months), the majority (60%) expressed a desire for a different contraceptive method.

Conclusions:  inadequate reproductive counseling may affect the continued use of intrauterine devices and influence contraceptive choices in the postpartum period.

Descriptors:
Intrauterine Devices; Family Planning Policy; Contraception; Sex Education; Postpartum Period.

RESUMEN

Objetivos:  evaluar la inserción del Dispositivo Intrauterino de cobre en el posparto inmediato, considerando los efectos secundarios, la intensidad del dolor, la información recibida, la participación del acompañante, la satisfacción, la tasa de expulsión y la continuidad del uso.

Métodos:  Estudio longitudinal prospectivo con 117 mujeres que se colocaron el Dispositivo Intrauterino de cobre en el posparto inmediato en una maternidad pública de São Paulo, Brasil. Los datos se recopilaron en el alojamiento conjunto mediante un cuestionario en línea.

Resultados:  Una proporción significativa de mujeres no recibió información sobre las ventajas (31,8%) ni sobre los efectos secundarios (42,4%). A los seis meses, el 37,5% había interrumpido el uso, ya sea por expulsión (9,4%) o por retiro voluntario (28,1%). El 60% de las mujeres reportó efectos secundarios. A pesar de la alta satisfacción (85,3% en el momento de la inserción y 75,0% a los seis meses), la mayoría (60%) deseaba otro método anticonceptivo.

Conclusión:  La falta de asesoramiento reproductivo adecuado puede afectar la continuidad del uso del DIU e influir en la elección del método anticonceptivo en el posparto.

Descriptores:
Dispositivos Intrauterinos; Planificación Familiar; Anticoncepción; Educación Sexual; Periodo Posparto.

INTRODUÇÃO

O Ministério da Saúde (MS), em 2012, reconheceu a importância das ações voltadas para a saúde da mulher durante o pós-parto, destacando a necessidade de orientações sobre contracepção neste período e o acesso irrestrito aos métodos como elementos fundamentais para a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos(1). Diante dessa necessidade, destaca-se a iniciativa do MS em 2017, por meio do Projeto Apice On, que teve como um dos pilares a oferta do Dispositivo Intrauterino (DIU) de cobre no puerpério imediato e no pós-abortamento em maternidades públicas do Brasil(2).

Apesar dos incentivos governamentais, da alta eficácia e da boa aceitação - ratificado pela satisfação e baixa descontinuidade do método(3-5) - o DIU permanece subutilizado em algumas regiões, sobretudo na América Latina(6). No Brasil apenas 4,4% das mulheres utilizam o DIU(7), dado muito inferior ao global (16,8%)(8).

No que concerne à inserção do método no pós-parto, esta merece especial destaque, sobretudo em locais onde as mulheres enfrentam limitações sociais, culturais e/ou geográficas para acessar serviços que disponibilizam métodos contraceptivos. Conforme Whitaker e Chen(9), a inserção do DIU no pós-parto imediato garante proteção contraceptiva antes da retomada da fertilidade e supera barreiras de acesso ao evitar a necessidade de retorno ao serviço de saúde. Além disso, o período pós-parto imediato representa uma janela de oportunidade para a anticoncepção, uma vez que muitas mulheres demonstram maior motivação para iniciar um método, a inserção ser logisticamente mais conveniente e haver a garantia de que não estão grávidas(10). Por estes motivos, este período é oportuno para inserção do DIU, sendo uma excelente estratégia para reduzir gravidezes não intencionais, aumentar os intervalos intergestacionais e melhorar os indicadores de mortalidade materna e infantil(11).

Apesar dos inúmeros benefícios do DIU e do fato de não aumentar o risco de complicações no pós-parto, um fator que pode interferir no processo decisório pelo método ainda persiste: a expulsão. Sabe-se que, quando inserido no pós-parto imediato, o DIU possui um índice de expulsão maior (10-40%) em relação à inserção seis semanas após o parto (6%)(12-14). Porém, estudos observaram que, se houver substituição imediata do DIU expelido, a taxa de continuidade e a satisfação com o método são elevadas, tanto seis meses quanto um ano após o parto(15,16). Portanto, os benefícios da efetividade da contracepção imediata após o parto podem compensar a desvantagem do risco de expulsão aumentado.

No entanto, no Brasil, a inserção do DIU no pós-parto imediato ainda é pouco explorada, e a maioria dos estudos concentra-se exclusivamente nas taxas de expulsão, sem abordar outros aspectos relevantes sobre seu uso.

Considerando essa lacuna, este estudo busca ampliar o conhecimento sobre a experiência das mulheres com a inserção do DIU no pós-parto imediato, abordando não apenas aspectos clínicos, mas também fatores relacionados à informação recebida, ao suporte oferecido e à continuidade do uso do método.

OBJETIVOS

Avaliar a inserção do dispositivo intrauterino de cobre no pós-parto imediato, considerando os efeitos colaterais, a intensidade da dor, as informações fornecidas pelos profissionais de saúde e a participação do acompanhante no processo, bem como verificar a satisfação das usuárias, a taxa de expulsão e a continuidade do uso do método após seis meses da inserção.

MÉTODOS

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (CAAE 25484619.7.0000.5390) e do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros (CAAE 25484619.7.3001.0063), e seguiu todos os preceitos éticos estabelecidos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O Consentimento Livre e Esclarecido foi obtido de todos os indivíduos envolvidos no estudo por meio online.

Desenho, período e local do estudo

Trata-se de um estudo longitudinal-prospectivo, conduzido entre junho e novembro de 2021 em uma maternidade pública do município de São Paulo, Brasil. O estudo segue as diretrizes da Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE), recomendada para estudos observacionais em epidemiologia pela rede Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research (EQUATOR).

População ou amostra, critérios de inclusão e exclusão

A amostra foi não probabilística e composta por mulheres com 18 anos ou mais, que tiveram parto vaginal, cesárea ou instrumental (fórceps ou vácuo-extrator) e que realizaram a inserção do dispositivo intrauterino (DIU) de cobre no pós-parto imediato. Foram considerados critérios de inclusão: idade igual ou superior a 18 anos, inserção do DIU de cobre no pós-parto imediato, acesso à internet e disponibilidade de contato telefônico ou endereço eletrônico (e-mail), e compreensão falada da língua portuguesa.

Considerando que, no serviço de saúde onde o estudo foi desenvolvido, ocorrem, em média, 350 nascimentos/mês e 32 inserções de DIU/mês no pós-parto, estimou-se que, em um período de quatro meses, poderiam ser realizadas aproximadamente 130 inserções, resultando em uma amostra esperada de 130 entrevistas. No entanto, durante o período de coleta, a pandemia de COVID-19 impactou significativamente o funcionamento do serviço, com redução na disponibilidade de insumos e no número de profissionais capacitados para a inserção do DIU. Essas limitações resultaram em um número menor de inserções e, consequentemente, na inclusão de 117 mulheres convidadas a participar do estudo, das quais 116 aceitaram, compondo a amostra final.

Protocolo do estudo

O estudo foi conduzido em dois momentos:

1. Coleta inicial

Durante o período de internação pós-parto, no alojamento conjunto, as mulheres elegíveis que realizaram a inserção do DIU foram abordadas individualmente por pesquisadoras graduadas na área da saúde, que explicaram os objetivos do estudo e convidaram as pacientes a participar. As que aceitaram responderam um questionário online, via plataforma Google Forms, acessado por meio de um tablet disponibilizado pelas pesquisadoras.

2. Acompanhamento após seis meses (seguimento via WhatsApp)

Seis meses após a inserção do DIU, as participantes foram convidadas, por meio do aplicativo WhatsApp, a responder um segundo questionário via Google Forms. Na ausência de respostas, foram realizadas três tentativas de contato pelo WhatsApp e, posteriormente, foi realizado contato via e-mail. No total, 32 mulheres completaram a segunda etapa da pesquisa.

Análise dos resultados e estatística

A análise dos dados foi realizada no software Stata 14.2 (https://www.stata.com), em duas etapas:

  1. Análise descritiva, com apresentação das variáveis em números absolutos, proporções, médias e desvio-padrão, abordando o perfil sociodemográfico, comportamento sexual, reprodutivo e contraceptivo, histórico obstétrico, informações recebidas sobre o DIU durante a internação e características específicas da inserção do DIU.

  2. Análise dos desfechos após seis meses, também expressa em números absolutos e proporções, incluindo: comportamento sexual e contraceptivo após a alta hospitalar e atitudes e práticas relacionadas ao DIU seis meses após a inserção.

Os dados ausentes foram tratados por meio da análise de casos completos, sem imputação de valores.

RESULTADOS

A caracterização sociodemográfica das mulheres encontra-se na Tabela 1. As mulheres do estudo tinham, em média, 28 anos de idade (DP = 6,0), variando entre 15 e 43 anos. Em relação à condição socioeconômica, grande parte pertencia às classes C-D/E, segundo o Critério de Classificação Econômica Brasil(17). No que se refere ao comportamento sexual, a idade média de início da relação sexual foi de 16 anos (DP = 1,66), e a maioria das mulheres relatou ter tido entre três e quatro parceiros ao longo da vida (35,3%) (dados não apresentados em tabela). Quanto ao comportamento reprodutivo, a primeira gravidez ocorreu, em média, aos 21 anos (DP = 4,9). A maioria das mulheres era multigesta (três ou mais gestações) (47,4%) e multípara (três ou mais partos) (39,7%) (Tabela 1). Das 116 participantes, a maioria realizou o pré-natal no serviço público (95,7%), e 68,1% não planejaram a gravidez. Em relação ao último parto, a maioria das mulheres teve parto vaginal (62,0%) entre 37 e 39 semanas de gestação (56,9%) (dados não apresentados em tabela).

Tabela 1
Características sociodemográficas e reprodutivas de mulheres que inseriram dispositivo intrauterino no pós-parto imediato em uma maternidade pública, São Paulo, Brasil, 2021

Em relação às informações sobre o DIU fornecidas pelos profissionais de saúde (Tabela 2), a maioria das mulheres já havia ouvido falar sobre o DIU no pós-parto (71,5%). No hospital, a maioria delas obteve informações sobre a possibilidade de inserção do DIU durante o trabalho de parto (56,0%) por meio do médico(a) (50,0%). No entanto, surpreendentemente, 42,4% das mulheres não foram informadas sobre os possíveis efeitos colaterais do método, e mais da metade (52,9%) não recebeu orientações sobre a possibilidade de utilizar outros métodos além do DIU no pós-parto.

Tabela 2
Oferta de informações sobre o dispositivo intrauterino às mulheres que inseriram este método em uma maternidade pública, São Paulo, Brasil, 2021

Com relação à inserção do DIU, apenas uma pequena parte das mulheres (34,5%) teve o procedimento realizado por enfermeiras ou obstetrizes. No total, um pouco mais de um quarto das mulheres relataram ter sentido dor após a inserção do método. Dentre estas, a dor foi considerada como moderada pela maioria (71,0%). Embora a maioria das mulheres relatou ter ficado satisfeita quanto à inserção do DIU no pós-parto (85,3%), 61,2% afirmaram que escolheriam outro método ao invés do DIU, sendo a laqueadura a preferência de 59,2% dessas mulheres (Tabela 3).

Tabela 3
Inserção do dispositivo intrauterino no pós-parto imediato em mulheres assistidas em uma maternidade pública, São Paulo, Brasil, 2021

Dentre as mulheres que estavam acompanhadas durante a oferta do DIU no hospital (n = 96), a maioria teve a presença do companheiro(a) (76,0%), mas em 49% dos casos, o acompanhante não participou da decisão sobre a inserção do DIU (Tabela 3)

No acompanhamento realizado aos seis meses, apenas 32 mulheres responderam ao questionário. Embora a taxa de não resposta tenha sido maior do que o esperado (27,6%), a distribuição das perdas foi uniforme, o que sugere que a perda foi aleatória (p = 0,345). Dentre as 32 mulheres que participaram da segunda etapa do estudo, a maioria (62,5%) continuava utilizando o DIU. Entre as mulheres que realizaram a consulta de retorno (n = 29), 89,7% fizeram ultrassonografia para verificar o posicionamento do dispositivo (Tabela 4). Destas, 80,8% realizaram a ultrassonografia nos primeiros 30 dias após a inserção, e 19,2% entre o segundo e o sexto mês após a inserção, sendo que em 34,6% dos casos, o DIU estava fora da posição adequada (dados não apresentados em tabela).

Tabela 4
Acompanhamento da inserção do dispositivo intrauterino aos seis meses de uso do método em mulheres assistidas em uma maternidade pública, São Paulo, Brasil, 2021

Entre as mulheres que não continuaram com o uso do método após seis meses, três tiveram expulsão do DIU. Além disso, nove mulheres optaram ou precisaram retirar o DIU (indicação do profissional de saúde, não adaptação ao método e posicionamento inadequado) (dados não apresentados em tabela).

A maioria das mulheres relatou efeitos colaterais nos primeiros seis meses de uso do DIU (60%) (Tabela 4). Os efeitos mais frequentes (questão que admitiu múltipla resposta) foram aumento do fluxo menstrual (56,3%), intensificação das cólicas menstruais (50,0%), sangramento irregular (37,5%) e aumento de peso (12,5%) (dados não apresentados em tabela). Apesar de 75,0% das mulheres relatarem satisfação moderada ou alta com o DIU, mesmo após seis meses de uso, a maioria (62,5%) preferiria ter escolhido outro método, sendo o método injetável o de preferência para 70,0% delas.

DISCUSSÃO

O estudo revelou achados relevantes sobre a inserção do DIU de cobre no pós-parto imediato. A maioria das inserções ocorreu após parto vaginal e foi realizada por médicos, o que pode estar relacionado à maior proporção de partos vaginais nos meses de coleta de dados, à preferência e maior segurança dos profissionais para o procedimento neste contexto e à possíveis intercorrências pós-cesárea que inviabilizam a inserção. A participação limitada de enfermeiras e obstetrizes no processo pode refletir barreiras organizacionais, como a exclusividade médica para a inserção do DIU e a falta de capacitação de outros profissionais, restringindo o potencial da equipe multiprofissional no planejamento reprodutivo(18,19).

Outro achado crítico foi a deficiência na transmissão de informações sobre o DIU às mulheres. Aproximadamente um terço das participantes não recebeu orientações suficientes sobre as vantagens, desvantagens e efeitos colaterais do método, o que pode ter impactado diretamente na continuidade do seu uso e influenciado a preferência por outros contraceptivos. Observou-se que, para muitas mulheres, o primeiro contato com informações sobre o DIU ocorreu apenas durante o trabalho de parto ou parto - momentos potencialmente inapropriados para decisões reprodutivas informadas. Nesse sentido, é fundamental destacar que o trabalho de parto e o parto não são considerados os momentos mais apropriados para a oferta do DIU, uma vez que estes são eventos potencialmente desorganizadores para as parturientes, que se encontram em estado de vulnerabilidade emocional e física e, portanto, a autonomia reprodutiva pode estar sujeita a diversos mecanismos de coerção contraceptiva(20).

Quanto à percepção das usuárias sobre a inserção do dispositivo, pouco mais de um quarto das mulheres relataram dor moderada, dado semelhante ao observado em outro estudo conduzido com adolescentes brasileiras no pós-parto(21). No entanto, não é possível determinar se a dor referida decorre da inserção ou da involução uterina.

Um aspecto que merece atenção é a satisfação com o DIU: 31,2% das mulheres relataram estar satisfeitas e 43,8% muito satisfeitas, o que contrasta com as limitações no aconselhamento e a ausência de oportunidade para escolha de outros métodos contraceptivos. Muitas participantes expressaram preferência por alternativas, como laqueadura ou contraceptivos injetáveis, em momentos distintos. A escolha inicial pela laqueadura pode estar associada à experiência recente do parto e ao desejo de encerrar a fase reprodutiva após o parto, enquanto a posterior preferência por métodos de curto prazo, como o injetável, sugere uma busca por maior controle e flexibilidade. Esses achados, somados ao fato de que uma parcela significativa das mulheres não recebeu orientações adequadas sobre o DIU, e que mais da metade apresentou efeitos colaterais, reforçam a necessidade de fortalecer o acesso à informações e ao aconselhamento no pós-parto. Estratégias mais qualificadas podem promover confiança, motivação e satisfação das usuárias, favorecendo a continuidade no uso do método(22,23). Nesta perspectiva, embora iniciativas governamentais promovam o DIU de cobre como um método altamente eficaz no pós-parto e pós-abortamento, a oferta restrita a um único método e a persuasão para aceitação - muitas vezes vinculadas ao cumprimento de metas por profissionais de saúde - pode gerar um incentivo maior e focado em apenas um método (no caso, o DIU), restringindo o poder de escolha e limitando a autonomia das mulheres, configurando práticas de coerção contraceptiva(24,25).

Além disso, é importante problematizar o não desejo pelo DIU, uma vez que a preferência pela laqueadura no contexto brasileiro reflete tanto construções sociais sobre maternidade quanto experiências negativas com métodos reversíveis, desinformação, receios sobre efeitos colaterais e ausência de diálogo qualificado com profissionais de saúde. Estudos qualitativos poderiam aprofundar a compreensão dos fatores subjetivos e contextuais que influenciam essas escolhas.

No âmbito da atenção à contracepção, a inclusão do parceiro no processo decisório ainda representa um desafio, como evidenciado neste estudo. Para muitas mulheres, a prática contraceptiva é percebida como uma responsabilidade exclusiva, sem divisão com o parceiro, o que reflete desigualdades de gênero historicamente construídas no campo da reprodução(26-28). Estudos qualitativos em profundidade poderiam contribuir para uma melhor compreensão desse processo decisório, explorando não apenas as razões para a ausência da participação da parceria, mas também os fatores que levam algumas mulheres a preferirem decidir sozinhas sobre o uso de métodos contraceptivos.

No que concerne o acompanhamento aos seis meses, a taxa de expulsão do DIU foi de 9,4%, inferior a outras pesquisas nacionais(21,29), enquanto a taxa de remoção foi mais alta do que a relatada em estudos anteriores(18,30). Tais variações podem ser atribuídas a uma série de fatores, incluindo diferenças no perfil populacional, tamanho amostral, técnicas de inserção e estratégias de acompanhamento. A continuidade do uso do DIU ao final do estudo também foi menor do que em outras investigações(18,29), sugerindo que algumas mulheres podem ter sido coagidas a utilizá-lo, como discutido anteriormente.

Um dado particularmente significativo foi o uso excessivo de ultrassonografias transvaginais para verificação do posicionamento do DIU, prática não preconizada pelas diretrizes do Ministério da Saúde(31). Por fim, a restrição da presença de acompanhantes no pós-parto durante a pandemia evidenciou vulnerabilidades adicionais em relação aos direitos sexuais e reprodutivos e ao acesso a serviços de planejamento reprodutivo.

Esses achados devem ser interpretados considerando o modelo assistencial vigente no serviço de saúde investigado, que ainda prioriza intervenções centradas no parto em detrimento de ações contínuas de planejamento reprodutivo. A fragilidade das estratégias de aconselhamento, a carência de protocolos que articulem o cuidado no pós-parto imediato e a limitada atuação multiprofissional podem ter influenciado tanto a adesão inicial ao DIU quanto a sua descontinuidade. Fortalecer o papel educador e promotor da saúde da Enfermagem e de outros profissionais é essencial para garantir um cuidado centrado na mulher, com informações completas e livres de vieses.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta limitações, como a amostra restrita a um único local de investigação e o número reduzido de participantes, reflexo das dificuldades na coleta de dados durante a pandemia de COVID-19. A escassez de insumos e a redução de profissionais qualificados para a inserção do DIU durante esse período podem ter restringido o acesso ao método a um subgrupo específico de mulheres, potencialmente introduzindo viés de seleção e impactando a generalização dos resultados. Ainda assim, a população analisada abrangeu todas as puérperas que inseriram o DIU no hospital, conferindo relevância aos resultados.

Outra limitação relevante do estudo refere-se à elevada perda de seguimento em seis meses (72%), com apenas 32 mulheres completando a segunda etapa. Apesar de terem sido empregadas estratégias para minimizar essas perdas, como múltiplos canais de contato e lembretes periódicos, elas podem ter influenciado a análise dos desfechos. Existe a possibilidade de que parte das perdas esteja associada à descontinuidade do uso ou à insatisfação com o método, o que poderia introduzir viés e superestimar a taxa de continuidade. Embora os dados sugiram que as perdas foram uniformes em relação às características sociodemográficas avaliadas, não se pode excluir a influência de fatores não mensurados. Além disso, o uso de uma amostra não probabilística limita a generalização dos resultados. Por fim, o caráter descritivo da análise não permite inferir associações estatisticamente significativas entre as variáveis avaliadas. Apesar das limitações, o estudo é inovador e evidencia lacunas importantes, como a insuficiência de informações e os aconselhamentos enviesados sobre o DIU no pós-parto imediato por parte dos profissionais de saúde.

Contribuições para a área da Enfermagem, Saúde ou Política Pública

Os resultados deste estudo podem subsidiar a elaboração e implementação de políticas públicas voltadas à saúde sexual e reprodutiva no pós-parto, com ênfase na oferta de informações adequadas. A disponibilização gratuita de métodos pelo SUS, sem o devido aconselhamento, limita o acesso pleno aos direitos reprodutivos. Além disso, a ínfima participação de profissionais de Enfermagem no cenário estudado evidencia a necessidade de revisitar suas práticas no âmbito do planejamento reprodutivo. É fundamental fortalecer o papel da Enfermagem como educadora e promotora da saúde, com abordagem centrada na mulher e no casal, garantindo orientação qualificada e apoio à tomada de decisão informada.

CONCLUSÕES

O estudo evidenciou fragilidades nas estratégias institucionais de planejamento e aconselhamento reprodutivo no pós-parto, com aproximadamente metade das mulheres relatando que optaria por outro método em vez do DIU. Muitas não receberam informações suficientes sobre os efeitos colaterais, benefícios, desvantagens e outras opções contraceptivas disponíveis. Notavelmente, para mais da metade das mulheres, o primeiro contato com informações sobre o DIU ocorreu apenas durante o trabalho de parto ou parto, momentos em que a autonomia reprodutiva pode estar comprometida. Fica evidente, portanto, a necessidade de políticas e práticas que ampliem e qualifiquem o aconselhamento contraceptivo no período pós-parto, promovendo escolhas informadas e respeitando as especificidades de cada mulher, com vistas à redução de iniquidades em saúde e desigualdades sociais.

  • FOMENTO
    Este projeto de pesquisa foi financiado pela Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo (PRP/USP) (Processo número: 18.1.2338.86.5) e contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

AGRADECIMENTO

As autoras agradecem, em primeiro lugar, a todas as mulheres voluntárias que participaram desta pesquisa, cuja contribuição foi fundamental para a realização deste estudo. Agradecemos também à equipe do hospital onde a pesquisa foi conduzida pelo apoio, suporte e pela disponibilização de seus espaços como campo de coleta de dados. Por fim, agradecemos a Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo (PRP/USP) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) pelo apoio e financiamento do estudo.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

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Editado por

  • EDITOR-CHEFE:
    Antonio José de Almeida Filho
  • EDITOR ASSOCIADO:
    Hugo Fernandes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Maio 2025
  • Aceito
    02 Set 2025
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