Open-access Inserção da competência em informação no currículo dos cursos de graduação de Biblioteconomia em Moçambique

RESUMO

Introdução:  A competência em informação constitui um conjunto de processos, conhecimentos, habilidades e aprendizagens essenciais na sociedade contemporânea, pois habilita as pessoas a serem conscientes e críticas na produção, uso e compartilhamento da informação.

Objetivo:  investigar a inserção da temática competência em informação no currículo dos cursos de formação de bibliotecários em Moçambique.

Metodologia:  A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas: pesquisa documental que consistiu na análise dos planos curriculares da Escola Superior de Jornalismo (ESJ) e da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, situados em Moçambique. Realizou-se também entrevistas com 22 estudantes do terceiro e quarto anos destes cursos.

Resultados:  Os resultados apontaram a ausência de disciplinas e conteúdos específicos que utilizem a nomenclatura de competência em informação. Foram identificados elementos implícitos em disciplinas dos cursos que abarcam conteúdos que, potencialmente, podem desenvolver aspectos da competência em informação.

Conclusão:  É fundamental a explicitação da competência em informação nos cursos de Biblioteconomia moçambicanos, na forma de disciplinas e outras atividades específicas, visto que esses cursos são responsáveis por qualificar pessoas com habilidades e conhecimentos para o planejamento e implementação de programas educacionais nas bibliotecas e outros ambientes formais e informais.

PALAVRAS-CHAVE:
Competência em informação; Biblioteconomia; Educação; Moçambique

ABSTRACT

Introduction:  Information literacy is a set of processes, knowledge, skills and learning that are essential in contemporary society, as it enables people to be aware and critical in the production, use and sharing of information.

Aim:  The objective of this research was to investigate the inclusion of the topic of information literacy in the curriculum of librarianship courses located in Mozambique.

Methodology:  The research was developed in two stages: documentary research that consisted of the analysis of the curricula of the Escola Superior de Jornalismo (ESJ) and the Escola de Comunicação e Artes of the Universidade Eduardo Mondlane, Mozambique. Interviews were also conducted with 22 students in the third and fourth years of these courses.

Results:  The results indicated the absence of specific subjects and contents that use the nomenclature of information literacy. Implicit elements were identified in subjects of the courses that cover contents that can potentially develop aspects of information literacy.

Conclusion:  It is essential to make information literacy explicit in Mozambican librarianship courses, in the form of disciplines and other specific activities, since these courses are responsible for qualifying people with skills and knowledge for planning and implementing educational programs in libraries and other formal and informal environments.

KEYWORDS:
Information literacy; Librarianship; Education; Mozambique

1 INTRODUÇÃO

Viver na "Era da Informação" significa confrontar-se com as mudanças que se operam em todos os aspectos das nossas vidas e muitos deles envolvem a informação, a literacia e a aprendizagem permanente. Tradicionalmente, a literacia era definida como a habilidade de ler e escrever, mas na atualidade, abarca habilidades e capacidades de aprender continuamente em uma sociedade que se tornou cada vez mais complexa, em parte, devido ao excesso informacional e à proliferação das possibilidades de acesso a um universo, quase, ilimitado dos registros do conhecimento.

A competência em informação, que foi proposta nos Estados Unidos na década de 1970, ao longo dos anos foi incorporada pelos bibliotecários e tornou-se praticamente assunto exclusivo de bibliotecas e dos bibliotecários, devido a sua relação direta entre esta prática informacional e a educação de usuários. Algumas pesquisas na área (Caregnato, 2000; Campello, 2003; Mata, Casarin, Marzal, 2016) apontam a educação de usuários como uma antecessora da competência em informação, que veio ressignificar as práticas educacionais e instrucionais da área ampliando seu escopo para além dos recursos informacionais disponíveis nas bibliotecas.

No entanto, a proliferação das tecnologias de informação e comunicação tornou o ambiente informacional cada vez mais complexo, exigindo novos conhecimentos, habilidades e atitudes reflexivas e críticas para a verificação da qualidade e veracidade das informações a que se tem acesso e muitas vezes se compartilha diariamente através de diferentes canais e mídias, habilidades para acessar e utilizar serviços digitais privados e governamentais e uma relação saudável com o ambiente informacional, entre outras. O uso, a criação e o compartilhamento de informações devem ser realizados de forma crítica, ética e responsável, visando a construção do conhecimento, a resolução de problemas.

Esse cenário ampliou os debates sobre a importância da competência em informação alcançar outros universos educacionais além do sistema formal de ensino e camadas e grupos sociais diversos. As propostas mais conhecidas são as que defendem que a competência em informação seja tratada como um conjunto de habilidades e conhecimentos transversais a todos os setores sociais e educacionais e indispensável para todos os indivíduos.

No âmbito acadêmico, diversos autores (Kuhlthau, 1987, 1991; Johnston; Webber, 2007; Mata, 2012, 2014, Miranda; Alcará, 2019, Moraes; Doyle; Reyes, 2021, Machado; Borges, 2024) têm defendido que a competência em informação deva ser um componente curricular dos cursos de Biblioteconomia para que os alunos dominem seus conteúdos e saibam aplicá-los adequadamente em atividades de formação de usuários, atuando como agentes promotores da competência em informação em diferentes setores e contextos da sociedade. Assim, a criação de formas efetivas de assegurar o ensino-aprendizagem da competência em informação tem sido um desafio às instituições de ensino superior.

Partindo desses pressupostos, a pesquisa aqui relatada tem como objetivo investigar a inserção da competência em informação no currículo dos cursos de Biblioteconomia e Documentação de Moçambique, identificando os aspectos explícitos e implícitos associados a esse tópico, concretamente, na Escola Superior de Jornalismo e da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM), que são as únicas instituições de ensino superior que lecionam esses cursos no país.

Considera-se que seja necessário compreender a inserção deste conteúdo nos currículos dos cursos de Biblioteconomia, visto que neles são formados os futuros bibliotecários, que terão responsabilidades de conceber, implementar e avaliar programas educacionais nas bibliotecas e em outros ambientes informacionais. Esse debate é ainda fundamental, sobretudo, porque Moçambique é um país em que os cursos relacionados à Biblioteconomia e Ciência da Informação surgiram há pouco mais de duas décadas e seus currículos ainda estão em processo de reestruturação e consolidação

2 REVISÃO DE LITERATURA

A competência em informação é abordada na Ciência da Informação de diferentes formas, sendo que alguns autores destacam a relação intrínseca com a função educacional das bibliotecas, outros como parte de uma aprendizagem maior no contexto da sociedade da informação. Desse modo, a sua promoção no universo educacional depende das lentes teóricas pelas quais cada ator enxerga a competência em informação.

Kuhlthau (1987) postula que a competência em informação está vinculada diretamente à alfabetização funcional. Ela envolve a capacidade de ler e usar a informação essencial para todos os aspectos da vida dos indivíduos; bem como “[…] reconhecer a necessidade de informação e buscar informações para a tomada de decisões informadas […] (Kuhlthau, 1987, p. 7), o que demanda habilidades para lidar com massas complexas de informação disponíveis nos vários formatos e suportes.

Esta definição coloca em evidência a necessidade de que se compreenda a competência em informação para além do ambiente das bibliotecas, havendo necessidade de sua infusão nos currículos, visto que o processo de desenvolvimento de habilidades informacionais não pode ser entendido como atribuição exclusiva dos bibliotecários, havendo mútua responsabilidade dos professores e outros agentes educacionais.

A abordagem curricular da competência em informação foi introduzida na década de 1980, nos Estados Unidos, por Carol Kuhlthau, na sua monografia intitulada Information skills for an information society: A review of research, que lançou as bases para o ensino da competência da informacional. Na sua abordagem, defendia a integração da competência em informação ao currículo, com ênfase nos processos de construção de significados por meio da busca e uso da informação. Numa sociedade que já dava indícios de dependência da tecnologia em que os processos cognitivos eram colocados em segundo plano, a autora propôs um modelo alternativo centrado no usuário e no aprendizado, tendo como foco a integração da competência em informação no currículo e/ou no plano de estudos das instituições de ensino.

Esse trabalho de Carol Kuhlthau influenciou vários programas educacionais na década de 1980, em particular a sua proposta de que o desenvolvimento de habilidades informacionais deveria ser tratado como matéria transversal em várias disciplinas do currículo escolar, enfatizando o aprender a aprender para reconhecer a necessidade de informação, localizar, selecionar, recuperar e usar a informação para a resolução de problemas.

Hicks et al (2022) destacam que apesar de a competência em informação ser um objeto de estudo centrado na Ciência da Informação, a sua abrangência alcançou dimensões multidisciplinares. Em seu estudo sobre a inserção da competência em informação em disciplinas que não sejam da Ciência da Informação, constataram que campos como Educação, Administração, Saúde Pública e Psicologia demonstram que o conceito de competência em informação tem uma recepção muito variada em disciplinas fora da CI. Apesar de as ideias e os temas abordados estejam relacionados com o macro-conceito de competência em informação, o estudo demonstrou que as referências para as definições, modelos e teorias da CI estão ausentes ou não suficientemente explicitados. Isso revela um dos tradicionais desafios da Ciência da Informação, que se constituiu como campo em busca de teorias, modelos e variáveis de análise de outras áreas, mas com dificuldades de transportar os seus modelos para outras áreas. Essa é uma das críticas de Smit (2002), que revela que a interdisciplinaridade da CI peca por não conseguir se impor no funcionamento das disciplinas com as quais dialoga, interconecta e interage. Rockman (2003) também reconhece que a competência em informação deixou de ser um assunto exclusivo dos bibliotecários e tornou-se uma forma de promoção de uma aprendizagem imprescindível no século XXI. Por isso, as práticas informacionais voltadas a essa aprendizagem devem estar integradas de forma efetiva nos currículos educacionais de maneiras distintas.

Embora idealmente os conteúdos da competência em informação devam ser inseridos nos currículos escolares, é importante que ela seja abordada também em outros níveis de ensino como a graduação, adequando o conteúdo e formas de ensino a este nível de formação. Cavalcante (2006) também chama atenção para o fato de que os alunos ao ingressarem no ensino superior não possuem as competências necessárias para o uso adequado da informação para produção do conhecimento, realização de pesquisas e também para o posterior exercício profissional, visto que provavelmente não tiveram este conteúdo ao longo da formação anterior ao ensino superior. Area Moreira (2007) entende que o ensino da competência em informação no nível superior é uma necessidade para todo graduando do século XXI. O autor ressalta a importância da inclusão da competência em informação em currículos de graduação de forma a melhor preparar o estudante para “[...] enfrentarse con mayores garantías de éxito a la innovación de los campos científicos y profesionales en los que desarrollen su actividad laboral futura. Les ayudan, también, a resolver problemas de todo tipo y a comprender mejor el entorno en el que viven”, (p. 1). Daí a importância da inserção desse componente no currículo dos cursos de graduação.

Para Rockman (2003), a forma mais eficaz de integrar a competência em informação nos currículos acadêmicos consiste em colocar o tópico como parte dos resultados de aprendizagem dos alunos, com o tema bem explicitado nos cursos, utilizando os parâmetros e alguns padrões internacionais para a facilitar a sua avaliação. Area Moreira (2007) aponta que a inserção da competência em informação nos currículos de graduação pode ocorrer através da inclusão de uma disciplina específica oferecida a todos os cursos, o que garantiria uma formação sólida e homogênea a todos os alunos ou ainda como um modelo misto, que são oferecidas diversas formas, tais como: cursos avulsos dirigidos a diferentes públicos da comunidade acadêmica, conteúdos incorporados em uma ou mais disciplinas do currículo dos cursos.

Perspectiva similar é abraçada por Uribe Tirado (2010), para quem as universidades comprometidas com a competência em informação são aquelas que reconhecem a importância da colaboração entre diferentes segmentos envolvidos com a aprendizagem na instituição (bibliotecários, professores, investigadores, estudantes). Esse autor pontua que a promoção da competência em informação deve ser feita a partir da sua inserção transversal nos distintos programas acadêmicos em forma de conteúdos programáticos, cursos ou módulos oficialmente imersos nos currículos.

Para Bruce (2004), um programa de formação em competência em informação deve conter os seguintes aspectos essenciais:

  • Existência de infraestrutura para facilitar a aprendizagem de habilidades específicas, tais como as buscas de informação na internet;

  • Um currículo que fornece oportunidades de habilidades específicas quer no início da formação, quer relativas à satisfação das suas necessidades;

  • Um currículo que demanda o envolvimento em atividades de aprendizagem que requerem interação com o ambiente informacional e;

  • Um currículo que fornece oportunidades de reflexão e documentação das experiências de aprendizagem através das práticas afetivas de informação.

Os aspectos acima mencionados demonstram que a competência em informação ocorre em diferentes estágios do processo educacional, havendo necessidade de diferenciá-la dos treinamentos para enfoque no uso das ferramentas tecnológicas, como acontece em vários programas educacionais, inclusive em documentos governamentais sobre a sociedade da informação. Essa distinção ocorre no sentido de sustentar a ideia de que a provisão de recursos tecnológicos e treinamentos associados ao uso de hardware e software, foco de alguns governos e programas educacionais, é apenas o ponto de partida para o alcance das reformas educacionais desejadas na "Era da Informação" (Bruce, 2004).

Essa proposição se assemelha a de outros autores (ACRL, 2000, Lupton, 2004, Dudziak, 2003, Johnston; Webber, 2007, Miranda; Alcará, 2019), para quem a melhor forma de tornar a competência em informação como um amplo conceito educacional, consiste na sua integração no currículo, incluindo na fundamentação político-pedagógica de todo o programa de ensino.

Lupton (2004) aponta que para que esse objetivo seja alcançado, é necessário que sejam observados alguns aspectos, tais como: a) que os objetivos da competência em informação apareçam explicitamente nas disciplinas e nos resultados de aprendizagem do curso; b) que os resultados de aprendizagem em competência em informação sejam utilizados como critérios de avaliação dos programas de formação; c) que exista uma sequência de atividades de desenvolvimento de aprendizagem que ocorre através de um programa de estudo.

Isso está associado à linha de pensamento de Johnston e Webber (2007) que defendem que as instituições de ensino devem instituir a competência em informação como disciplina aplicada, mais do que um simples conjunto de habilidades individuais, por isso argumentam que a sua relevância social vai para além das preocupações bibliotecárias e acadêmicas.

Como disciplina emergente e fundamental na sociedade da informação, "[...] a competência em informação consiste na adoção de um comportamento informativo apropriado para a identificação, através de qualquer canal ou meio, de informação adequada para as necessidades que permitem alcançar um uso inteligente e ético da informação na sociedade". (Johnston; Webber, 2007, p. 495, tradução nossa). Essa proposta já denota certo distanciamento com os padrões da ACRL e da Austrália e Nova Zelândia, que propunham um conjunto de habilidades sequenciais e conhecimentos que definem uma pessoa competente em informação.

Os autores ressaltam que a temática deva fazer parte do currículo dos cursos, entendendo-o de uma forma ampliada, que pode abarcar vários aspectos do processo educativo incluindo disciplinas específicas, outras atividades de ensino como monitoria e experiência do estudante. Para os autores, a Competência em informação possui uma perspectiva interdisciplinar, e sua teoria e perspectivas de investigação são embasadas nas áreas de: “sociologia, psicologia, estudos de gestão e estudos de comunicação para descobrir as necessidades e contextos e comportamentos”. (Johnston; Webber, 2007, p. 498). Ainda conforme os autores, “[...]uma disciplina específica [sobre competência em informação] deve incluir um plano educacional, que os alunos devem vivenciar, e diretrizes pedagógicas para execução do plano, bem como seus próprios objetivos. (Johnston; Webber, 2007, p. 498, tradução nossa). A declaração de Havana (Alfin, 2006) também ressalta a importância de conteúdos de cunho pedagógico nas disciplinas que tratam do tema.

Para Moraes et al (2022), a inserção de conteúdos e/ou disciplinas específicas sobre competência em informação em uma perspectiva crítica no curso de Biblioteconomia é fundamental para que o bibliotecário possa contribuir para que usuários não apenas consumidores, mas também sejam críticos em relação à informação e saibam utilizá-la de forma efetiva.

Além dos aspectos acima mencionados, os cursos podem abordar conteúdos de competência em informação na introdução de disciplinas específicas ou como tópico em disciplinas já existentes, além de atividades ou projetos de extensão e de pesquisa sobre o tema. No caso do Brasil, a pesquisa de Mata e Casarin (2018) constatou que em algumas universidades a competência em informação constitui disciplina obrigatória dos cursos de Biblioteconomia. Além disso, as autoras trazem uma contribuição adicional ao considerar que a ausência de uma disciplina com nomenclatura específica de competência em informação não é suficiente para avaliar os níveis de inserção deste tópico nos currículos, uma vez que os cursos de Biblioteconomia possuem disciplinas que, tradicionalmente, têm a missão de promover as habilidades informacionais. Essas disciplinas em geral são:

  • Educação de Usuários - que é uma disciplina que, tradicionalmente, promove práticas de uso da biblioteca e seus recursos informacionais. Como prática é considerada um dos antecedentes da competência em informação

  • Estudo de Usuários - disciplina que deu origem às formulações teóricas do comportamento informacional, e o foco é conhecer os usuários e sua atitude perante as fontes e canais de informação;

  • Fontes de Informação - disciplina que lida com tipologia e classificação das fontes de informação, bem como a estruturação de um processo de busca de informação em vários tipos de fontes de informação, sejam, impressas, digitais, bases de dados, etc.

  • Serviço de Referência e Informação - que é uma disciplina que lida com o planejamento das atividades de formação de usuários, assim como as ações de mediação desenvolvidas pelos bibliotecários e outros profissionais de informação para satisfazer as necessidades informacionais dos usuários. (Manhique, 2021)

Johnston; Webber (2007), no entanto, ressaltam que a competência em informação se distingue das atividades de formação tradicionais da Biblioteconomia por sua estreita relação com teorias educativas e perspectivas de investigação.

O estudo de Mendes; Alcará (2019) investigou a inserção de disciplinas sobre tema no currículo de cinco cursos de universidades localizadas na região sul do Brasil. As autoras não apenas verificaram a grade curricular dos cursos, como também complementaram a coleta com um questionário dirigido aos professores responsáveis pelas referidas disciplinas. As autoras dividiram seus resultados em três categorias de disciplinas: as que são específicas de competência em informação e educação de usuários, disciplinas que colaboram para o desenvolvimento das habilidades informacionais do bibliotecário ao abordarem as fontes de informação, as formas de busca e manuseio das mesmas, assim como seu contexto de produção e um terceiro grupo que inclui as disciplinas voltadas para o estudo de usuário e para a mediação da informação. Com exceção desta última, cujo professor responsável salientou “[...] o papel mediador do bibliotecário no desenvolvimento de competências de sua comunidade interagente” (p.16), as autoras concluem que as disciplinas desta categoria pouco contribuem para o desenvolvimento das habilidades informacionais ou didáticas do bibliotecário. São citadas ainda pelos professores entrevistados, disciplinas como normalização e serviço de informação e referência.

O estudo de Moraes et al (2022), por sua vez, analisou programas de disciplinas sobre Competência em informação em currículos dos cursos de Biblioteconomia oferecidos por instituições brasileiras e mexicanas. Os resultados mostraram dois tipos de inserção de conteúdos relacionados à temática nos cursos mexicanos: oferecimento de disciplinas específicas de Competência em Informação e a inclusão de conteúdos sobre o tema em disciplinas como Usuários da Informação, Programas educativos e Serviços, usuários e tecnologias. No caso brasileiro, a situação se repetiu. Há cursos que possuem disciplinas específicas sobre o tema, mas a inserção do conteúdo em disciplinas obrigatórias do curso é o mais comum aos cursos brasileiros, tanto do formato presencial como à distância.

O estudo mais recente encontrado é o de Machado; Borges (2024) . No estudo os autores buscaram verificar como a competência em informação “é abordada nas ementas dos cursos superiores em Biblioteconomia no Brasil” (p. 17).

Como se pode depreender, nesta breve revisão da literatura da Ciência da Informação, as discussões em torno da inserção de conteúdos de competência em informação na formação de bibliotecários não é linear, uma vez que existem várias formas pelas quais as instituições incluem esse tema, desde a inclusão de disciplina específica ou mesmo como tópico a ser abordado em várias disciplinas do curso, ao que pode-se acrescentar atividades de extensão e projetos de pesquisa uma vez que estas atividades também podem integrar o currículo dos cursos.

Apesar da variedade teórica sobre a importância e a forma de inserção deste conteúdo nos cursos, existe o consenso de que a formação de bibliotecários deve assumir a vanguarda no ensino da competência em informação, visto que esses futuros bibliotecários terão a missão de estruturar e implementar programas de desenvolvimento de habilidades informacionais em diferentes ambientes de informação

3 METODOLOGIA

O objetivo da pesquisa foi investigar a inserção da competência em informação nos currículos dos dois cursos de Biblioteconomia de Moçambique, a saber: o curso de Biblioteconomia e Documentação da Escola Superior de Jornalismo - EJS e o curso de Biblioteconomia da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane - ECA-UEM, identificando os aspectos explícitos e implícitos associados a esse tópico.

A primeira fase da pesquisa consistiu na identificação do problema e, posterior, construção do arcabouço teórico-conceitual, discutindo as diferentes formas de integração da competência em informação nos currículos. O segundo momento da pesquisa consistiu na coleta de dados, que foi executada por meio de duas técnicas, nomeadamente: a)a pesquisa documental através da análise dos planos de ensino do currículo dos cursos e b)a realização de entrevistas em profundidade com os graduandos, que foram instigados a indicar as disciplinas cursadas por eles em que o tema competência em informação havia sido abordado, bem como o enfoque dado em cada uma delas.

Na pesquisa documental, foram analisados os projetos político-pedagógicos, os planos curriculares e os planos de ensino de todas as disciplinas dos dois cursos que são objeto de estudo. Para a localização dos documentos necessários para a pesquisa, fez-se uma busca nos websites das duas instituições. Na ECA-UEM não foram localizadas informações relacionadas à composição e estrutura curricular do curso. No caso da ESJ, as informações sobre o currículo que constam do website estavam desatualizadas, uma vez que faziam parte do currículo que foi objeto de revisão no ano de 2016. Diante deste cenário, os projetos político-pedagógicos e planos curriculares de ambas as instituições foram obtidos através de contato com as coordenações pedagógicas dessas instituições. A análise destes documentos, buscou-se a existência de disciplinas com a nomenclatura “competência em informação” ou variantes que têm sido utilizadas na Ciência da Informação, como por exemplo: letramento informacional, alfabetização informacional, competência informacional, literacia da informação.

De forma complementar, foram aplicadas entrevistas em profundidade aos alunos dos cursos de Biblioteconomia de Moçambique da ESJ e da ECA-UEM. A seleção dos participantes foi intencional, tomando como pressuposto os princípios defendidos por Åkerlind (2005), segundo os quais os participantes devem ser conhecedores do fenômeno em estudo, contemplando variações de sexo e faixa etária dos participantes. Além disso, a participação dos atores deve ser voluntária. Esses critérios contribuíram para que fosse obtida a máxima variação do perfil dos participantes.

Os participantes do estudo eram estudantes dos dois últimos anos dos cursos, uma vez que, após a realização do pré-teste, constatou-se que os estudantes dos primeiros dois anos não detinham conhecimentos e/ou noções sobre o fenômeno em estudo. As suas concepções eram incompatíveis com a teoria e prática da competência em informacional.

A aplicação das entrevistas foi interrompida quando se observou a saturação teórica de dados, que é o momento a partir do qual a coleta de dados não traz novas contribuições que permitam ampliar a compreensão do fenômeno (Trigwell, 2000; Åkerlind, 2005).

Desse modo, a saturação de dados ocorreu na entrevista número 22, de uma amostra intencionalmente selecionada, com alunos regularmente matriculados de ambas as instituições. Essa amostra teve a seguinte composição demográfica (Quadro 1):

Quadro 1
Descrição da composição demográfica da amostra

Os dados das entrevistas foram transcritos e analisados por meio da análise categorial de Bardin (2010). As subcategorias consideradas neste artigo enfocaram seguintes aspectos: identificação de disciplinas de com nomenclatura “competência em informação” ou outras derivações de information literacy, bem como a busca de evidência implícita de ensino dessa temática nos planos curriculares e nas entrevistas com os participantes.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na pesquisa documental, constatou-se que não constam disciplinas específicas com a nomenclatura “competência em informação” e suas variações nos cursos de Biblioteconomia das instituições analisadas, apesar de as duas instituições terem reformulado os seus currículos nos últimos quatro anos. Esse resultado não está alinhado com a tendência contemporânea dos cursos de formação em Biblioteconomia e da Ciência da Informação, que consideram a competência em informação como um de seus principais tópicos. Considerando que a produção e disponibilização exponencial de dados e de informações na atualidade requerem uma análise crítica e cuidadosa, a atuação do profissional da informação que possa contribuir para que as pessoas estejam sensibilizadas e instrumentalizadas para lidarem informação no contexto digital, físico e analógico é muito importante.

No contexto anglo-saxônico, há anos os autores defendem a integração da competência em informação nos currículos acadêmicos (Kuhlthau, 1987; Lloyd, 2007; Johnston; Webber, 2007). Entidades associativas da área, como a Association of College and Research Libraries (ACRL), a American Library Association e a Society of College, National and University Libraries (SCONUL), também contribuído para a promoção da competência em informação ao elaborarem padrões e frameworks e que propõem que este tópico seja uma metaliteracia imprescindível ao ensino superior e para a aprendizagem permanente dos estudantes.

No contexto brasileiro, destacam-se as contribuições de Mata (2014) e Mata e Casarin (2018), que constataram, em suas pesquisas que a inserção da competência em informação no Brasil estava em processo de consolidação, uma vez que os vários cursos de graduação em Biblioteconomia contemplavam a temática da competência em informação em disciplinas específicas ou como conteúdo programático de outras disciplinas dos cursos.

Estas constatações levam-nos a inferir que as matizes históricas de ensino da Biblioteconomia e Ciência da Informação nos vários contextos geográficos e socioculturais são determinantes no processo de formulação curricular. Por exemplo, o contexto dos países anglo-saxônicos e o brasileiro têm uma longa tradição de ensino nesta área, tanto nos cursos de graduação, quanto de pós-graduação, o que contrasta com o que foi verificado nos cursos oferecidos em Moçambique, em que a Biblioteconomia e a própria área de Ciência da Informação, estão se estruturando e estão passando por um processo de institucionalização, visto que o primeiro curso de graduação em Biblioteconomia foi criado apenas em 2010 na ESJ.

Conforme mencionado na revisão de literatura, a ausência de disciplinas que incluam o termo Competência em informação ou equivalentes em seus títulos não é suficiente para que se conclua que determinado curso e/ou instituição não aborde a temática. Deve-se verificar outras disciplinas do currículo que, tradicionalmente, têm como objetivo capacitar e qualificar os estudantes para lidarem com fontes e recursos de informação e trabalhar na formação de usuários, dentre as quais se destacam: Educação de Usuários, Estudo de Usuários, Fontes de Informação e Serviço de Referência. Nas duas instituições consideradas neste estudo, verificou-se a inclusão de três destas quatro disciplinas nos respectivos planos curriculares. Foi identificada uma outra disciplina “Ética da Informação”, que em suas ementas, apresenta alguns aspectos implícitos associados à competência em informação. Esse conjunto de disciplinas e as respectivas ementas estão apresentadas no Quadro 2.

Quadro 2
Disciplinas que promovem práticas associadas à competência em informação na ESJ e na ECA-UEM

Como demonstra o Quadro 2, o currículo das duas instituições analisadas não contempla a disciplina de “Educação de usuários” e o conteúdo geralmente abordado nesta disciplina, a saber: os fundamentos e o planejamento para realização de atividades e programas de formação de usuários, não foi encontrado, explicitamente, em nenhuma outra disciplina dos cursos. O Projeto Pedagógico do curso de Biblioteconomia da ESJ, no entanto, inclui a “educação de usuários”, porém com a finalidade de garantir a conservação dos acervos das bibliotecas, conforme se vê no trecho a seguir: “Promover educação de usuários da informação para garantir a integridade dos documentos, implantando políticas de conservação preventiva para acervos históricos, nos diversos suportes, originados no decorrer da história” (ESJ, 2016, p. 10). Ou seja, a educação de usuários abordada neste curso não visa capacitar as pessoas a saberem usar as fontes e recursos informacionais ou ainda fomenta e potencializa a leitura crítica e analítica da informação. Tem como foco a preservação do acervo disponível nas bibliotecas e não o próprio usuário da informação e a otimização da forma como ele lida com o universo informacional.

O plano curricular do curso de Biblioteconomia da ECA, diferentemente da ESJ não inclui a disciplina de “Estudo de Usuários”, que é essencial na formação dos futuros bibliotecários para que eles se sensibilizem e conheçam as principais características de alguns grupos de usuários e também para que eles dominem técnicas para que eles próprios possam realizar estudos sobre usuários potenciais e reais da unidade de informação da qual são responsáveis.

A análise mais detalhada desses planos curriculares revelou a existência de disciplinas com outra nomenclatura que incluem conteúdos que, implicitamente, estão relacionados à competência em informação, em particular ao uso ético da informação.

Apesar da existência de disciplinas que tangenciam o tema, os planos curriculares dos cursos analisados são bastante lacônicos quanto a tópicos específicos e fundamentais da competência em informação. Não foi encontrado, por exemplo, menção à leitura e ao uso crítico de informação, nem sobre a estruturação de programas de capacitação de usuários. As disciplinas sobre "Fontes de Informação", que são oferecidas nos dois cursos, por exemplo, seguem um conteúdo tradicional da área fixado em fontes formais de informação, restringindo a avaliação das fontes de informação e a elaboração de estratégias de busca em bases de dados.

As disciplinas que versam sobre Serviço de Referência não fazem referência à competência em informação. O conteúdo mais próximo diz respeito a “Técnicas de pesquisa, recuperação e disseminação da informação”, atendo-se apenas ao nível básico da competência em informação, relacionado ao acesso à informação.

A disciplina de “Ética e Informação”, encontrada no plano curricular da ECA, enfoca os aspectos filosóficos da ética, bem como as diretrizes normativas e deontológicas ao exercício profissional. Uma das unidades temáticas desta disciplina, porém, se sobressai pois aborda “Questões éticas na produção, gerenciamento e disseminação da informação”. Esse conteúdo é o que mais se aproxima da proposta da competência em informação na atualidade, pois discute aspectos ligados à ética na pesquisa e a responsabilidade que se exige tanto na produção, como no compartilhamento de informações principalmente no meio digital.

Os resultados obtidos através da análise dos planos curriculares foram complementados através de entrevistas realizadas com discentes dos cursos de Biblioteconomia e Documentação das duas IES incluídas neste estudo. Os alunos entrevistados indicaram que, além das disciplinas identificadas na análise documental (Quadro 1), a competência em informação é abordada de forma implícita em outras disciplinas de seus cursos.

Os participantes deste estudo foram questionados sobre as circunstâncias e/ou o contexto em que aprenderam ou ouviram falar a respeito da competência em informação ou conteúdos equivalentes, derivados do termo information literacy. As respostas obtidas foram incluídas no Quadro 3.

Quadro 3
Disciplinas que abordam competência em informação indicadas pelos participantes

Apesar de não haver disciplinas com designação “competência em informação” ou com outro termo associado, as respostas dos discentes participantes (Quadro 3) revelam que esse conteúdo é ensinado de forma transversal em diversas disciplinas dos cursos, o que está alinhado com o que dizem Lloyd (2007), Bruce (2004), Wang (2007), Mata e Casarin (2018).

A fala dos discentes (Quadro 3) também aponta que a competência em informação tem sido abordada nos cursos de três maneiras: i) como habilidades informacionais imprescindíveis para os bibliotecários e outros profissionais de informação; ii) como programas que potencializam o uso da informação em bibliotecas (escolares) e iii) como processo de pesquisa e uso ético e responsável da informação.

Entretanto, apesar da inclusão do tema como tópico transversal e por vezes esporádicos nos cursos ser um aspecto positivo para sensibilização dos profissionais para o tema, considera-se necessário que a competência em informação seja incluída formalmente, em uma ou mais disciplinas ou como conteúdo explícito a ser lecionado no curso. Desta forma o conteúdo teórico e prático, bem como a compreensão de sua profundidade como habilidades e competências imprescindíveis ao profissional poderá ser abordada adequadamente para que eles possam contribuir para que os indivíduos explorem de forma efetiva, ética e responsável o ambiente informacional digital.

CONCLUSÃO

A pesquisa aqui relatada analisou a inserção de conteúdos sobre a competência em informação nos currículos dos cursos de Biblioteconomia e Documentação de Moçambique, identificando seus aspectos implícitos e explícitos nos planos curriculares. A grande constatação deste estudo diz respeito à ausência de disciplinas com nomenclatura associada à competência em informação ou outros termos que derivam do conceito information literacy.

Apesar dessa constatação foram identificados alguns aspectos implícitos relativos à competência em informação, através da inserção transversal em outras disciplinas curriculares que, historicamente, desenvolvem a função educacional da Biblioteconomia.

No entanto, considera-se que é imprescindível que a abordagem dessa temática seja explícita e sistematizada no currículo dos cursos, a fim de que os discentes sejam conscientizados da relevância do tema na sociedade contemporânea. Sugere-se que esta temática seja incorporada aos planos curriculares como disciplina específica do curso, permitindo que as teorias e metodologias que envolvem os discursos e as práticas da competência em informação sejam abordadas com mais profundidade. Estas disciplinas também poderão estimular os futuros agentes que atuam em ambientes informacionais a promoverem a competência em informação junto a diferentes setores da sociedade.

A inserção da competência em informação como conteúdo programático de disciplinas, acompanhados de estratégias didáticas e pedagógicas permitirão uma avaliação eficaz dos resultados de aprendizagem dos participantes das atividades a serem realizadas, gerando subsídios para o aperfeiçoamento necessário das mesmas. Outro aspecto positivo é que o domínio de conteúdos pedagógicos por parte dos bibliotecários, pode estimular práticas colaborativas entre estes e professores, coordenadores pedagógicos e outros atores envolvidos no processo de ensino aprendizagem nos vários segmentos e ambientes institucionais.

Espera-se que os resultados desta pesquisa possam servir como subsídios para outros estudos sobre os currículos dos cursos de graduação na área, permitindo uma integração sistêmica e multidimensional da competência em informação no currículo desses e outros cursos.

Reconhecimentos:

Não aplicável.

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  • Financiamento:
    Não aplicável.
  • Aprovação ética:
    Não aplicável.
  • Disponibilidade de dados e material:
    Não aplicável.
  • Imagem:
    Extraída da Plataforma Lattes
  • JITA:
    CE. Literacy.
  • ODS:
    4. Educação de qualidade

Editado por

  • Editor:
    Gildenir Carolino Santos

Disponibilidade de dados

Não aplicável.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    02 Jul 2024
  • Aceito
    10 Jan 2025
  • Publicado
    03 Fev 2025
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