RESUMO
Introdução: a gestão e editoração dos periódicos científicos, assim como de qualquer área que lida com informação, está passando por transformações e inovações devido à adesão constante de novas tecnologias como ferramentas de otimização e automação de trabalhos humanos.
Objetivo: este artigo analisa o uso da inteligência artificial (IA) na gestão editorial da Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA), com ênfase em suas potencialidades, limitações e implicações éticas.
Metodologia: adota-se uma abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica, estudo de caso e análise documental de interações com ferramentas de IA (ChatPDF).
Resultados: os resultados indicam que a IA pode apoiar etapas como triagem temática de manuscritos, indicação de pareceristas e detecção de plágio, contribuindo para a eficiência editorial. Contudo, observamse variações nas respostas automatizadas e desafios quanto à transparência algorítmica, à supervisão humana e à conformidade com princípios ético-jurídicos.
Conclusão: conclui-se que a adoção responsável da IA, aliada à regulamentação adequada e à capacitação das equipes editoriais, pode fortalecer a governança científica e a qualidade das publicações jurídicas.
PALAVRAS-CHAVE:
Inteligência artificial; Gestão editorial; Periódicos científicos; Direito Administrativo; Ética na ciência
ABSTRACT
Introduction: the management and publishing of scientific journals, as well as any area that deals with information, is undergoing transformations and innovations due to the constant adoption of new technologies as tools for optimizing and automating human work.
Objective: this article analyzes the use of artificial intelligence (AI) in the editorial management of the Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA), with an emphasis on its potential, limitations, and ethical implications.
Methodology: a qualitative and exploratory approach is adopted, based on a literature review, case study, and documentary analysis of interactions with AI tools (ChatPDF).
Results: the results indicate that AI can support stages such as manuscript thematic screening, reviewer assignment, and plagiarism detection, contributing to editorial efficiency. However, variations in automated responses and challenges related to algorithmic transparency, human oversight, and compliance with ethical-legal principles were observed.
Conclusion: it is concluded that the responsible adoption of AI, combined with appropriate regulation and editorial team training, can strengthen scientific governance and improve the quality of legal publications.
KEYWORDS:
Artificial intelligence; Editorial management; Scientific journals; Administrative law; Research ethics
1 INTRODUÇÃO
O avanço das tecnologias de inteligência artificial (IA) tem provocado transformações significativas nos mais diversos setores da sociedade, incluindo a ciência da informação e a editoração acadêmica. No contexto dos periódicos científicos, a aplicação de modelos de linguagem natural, como os desenvolvidos a partir da arquitetura GPT (Generative Pre-trained Transformer), tem sido explorada como forma de automatizar e otimizar diferentes etapas do fluxo editorial. Entre essas etapas, destacam-se a triagem temática inicial, a atribuição de pareceristas, a checagem de conformidade com normas editoriais e a detecção de plágio.
Todos os ambientes informacionais e áreas que lidam com informação estão sendo transformados pela adesão da inteligência artificial (IA) no cotidiano. Seja na produção, divulgação ou organização de informações, essa ferramenta tecnológica está gerando um novo modo de encarar o meio informacional, inclusive no contexto acadêmico. Para o mercado de editoração científica não foi diferente, as mudanças e as oportunidades de otimização e automação abriram novos horizontes e consolidaram a IA como uma aliada quando utilizada sob regimento de princípios éticos e de forma supervisionada.
No campo jurídico, em particular, observa-se um crescente interesse pelo uso de tecnologias inteligentes para dar maior eficiência, transparência e integridade aos processos editoriais. Entretanto, a adoção de IA em periódicos científicos especializados em Direito ainda apresenta desafios específicos, dado o rigor conceitual e a necessidade de análise contextual e normativa própria da área. Nesse sentido, torna-se relevante compreender de que modo ferramentas de IA podem ser incorporadas de forma ética, regulada e eficaz nos periódicos jurídicos, contribuindo para a qualificação da produção científica.
Este artigo tem como objetivo analisar o uso da inteligência artificial no processo editorial da Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA), a partir de um estudo de caso que envolve a aplicação da ferramenta ChatPDF para triagem temática de manuscritos. Buscase, com isso, identificar as potencialidades e limitações da tecnologia no apoio à gestão editorial, bem como discutir os impactos éticos e regulatórios decorrentes de sua adoção. A pesquisa se justifica pela crescente demanda por inovação nos periódicos jurídicos e pela necessidade de reflexão crítica sobre o papel da IA na curadoria e avaliação da produção acadêmica.
A investigação adota uma abordagem qualitativa e exploratória, com base em revisão bibliográfica, análise documental e estudo empírico aplicado à RDDA. Com isso, pretende-se contribuir para o debate sobre a governança editorial em tempos de inteligência artificial e propor diretrizes para o uso responsável dessa tecnologia no campo do Direito Administrativo.
Tendo em vista as variadas aplicações e os processos de automação que se realizam graças à IA, também é válido destacar a promoção de maior interoperabilidade, ou seja, habilidade de interação entre sistemas distintos, elevando o potencial de troca de informações e facilitando a manutenção do trabalho coletivo (Brasil, 2020). A revista Múltiplos Olhares em Ciência da Informação (2024) relata, em seu editorial, o uso de inteligência artificial para realizar formatação documentária padronizada, transformando todos os arquivos em PDF/A, o qual mantém as publicações disponíveis por um período prolongado. Portanto, esclarecer esse tipo de uso da IA favorece o processo de comunicação editorial, além dessa utilização em específico garantir acesso à informação durante um tempo maior. Adjacente a esses aspectos, o uso de IA alinhado a um viés ideológico da promoção da Ciência Aberta, traz uma utilização voltada para maior divulgação científica através de recomendações feitas por inteligência artificial de publicações acadêmicas (Silva; Lima, 2024).
Sendo assim, a utilização da IA como ferramenta de editoração colabora para manter consistência editorial, e seu potencial de uso pode ser aplicado nos processos de submissão, revisão e publicação, garantindo que grandes demandas possam ser recebidas, avaliadas e selecionadas para publicação em revistas científicas, especialmente em situações nas quais a equipe de editoração é pequena, como é o caso da RDDA. Nesse sentido, a sobrecarga de trabalho editorial pode levar à erros e equívocos, enquanto, ao contar com a ajuda da inteligência artificial, é possível prevenir esse comportamento e fazer uma gestão de conteúdos mais ágil e eficiente.
2 INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E GESTÃO EDITORIAL: POTENCIALIDADES, LIMITES E IMPLICAÇÕES ÉTICAS
A Inteligência Artificial (IA) tem se consolidado como uma ferramenta estratégica em múltiplos campos, incluindo a Ciência da Informação, a gestão documental e os sistemas de justiça, sendo capaz de otimizar tarefas antes exclusivamente humanas, como a organização do conhecimento, a recuperação de informações e a tomada de decisões. Sua aplicação em ambientes editoriais, como revistas científicas, abre novas possibilidades para automação de processos, ao mesmo tempo em que levanta questões éticas e técnicas importantes.
Segundo Alves (2020), a IA pode ser compreendida sob dois enfoques principais: empírico e teórico. No primeiro, os sistemas buscam simular o pensamento humano, aprendendo com experiências; no segundo, prioriza-se a execução de ações lógicas baseadas em dedução e inferência. Esses fundamentos sustentam o desenvolvimento de aplicações como o machine learning, usado em recomendações de conteúdo e detecção de padrões, e o deep learning, tecnologia presente em assistentes como Siri®, Google Now e Google Translate (Alves, 2020).
O estudo de Fontoura e Villalobos (2022) evidenciou o uso da inteligência artificial na automação de tarefas vinculadas à curadoria de conteúdo, por meio da análise de um chatbot desenvolvido para intermediar o acesso de usuários a informações processuais. Os autores destacam que a experiência priorizou não apenas o aprimoramento técnico da solução, mas também as demandas dos usuários e a qualidade de suas interações, ressaltando a relevância de integrar aspectos humanos no desenvolvimento e na aplicação de sistemas inteligentes.
Apesar dos avanços recentes, o uso da inteligência artificial em ambientes informacionais permanece limitado em diversos contextos. Ao examinarem vinte anos da produção científica brasileira sobre o tema na área da Ciência da Informação, Pinheiro e Oliveira (2022) observam que ainda há um volume reduzido de pesquisas dedicadas às aplicações da IA nesse campo. Os autores enfatizam a necessidade de intensificar os estudos voltados à organização da informação e ao uso de machine learning, a fim de promover o desenvolvimento técnico e científico de práticas como a gestão editorial.
Complementarmente, Dorneles (2022) investigou o uso de IA na gestão documental e observou que, embora tecnologias como natural language processing e deep learning tenham sido aplicadas com sucesso em áreas como saúde e educação, ainda há escassez de estudos sobre sua aplicação em atividades fundamentais como classificação, tramitação e arquivamento de documentos. Esse dado é relevante para o ambiente editorial, que depende da correta organização e rastreabilidade dos registros acadêmicos.
Em ambientes mais estruturados como os sistemas de justiça, Bermejo (2021) relatou a aplicação da IA em tarefas como distribuição automática de processos e resolução de conflitos, ressaltando que essas tecnologias exigem que profissionais da informação adquiram conhecimentos interdisciplinares em tecnologia e gestão. A experiência evidencia que, mesmo em instituições altamente reguladas, a IA pode contribuir significativamente para a eficiência e transparência dos fluxos de trabalho.
A gestão editorial abrange não apenas a sistematização e disseminação de conteúdo, mas também o compromisso com a integridade científica das publicações. Nesse contexto, Jesus (2022) ressalta que as tecnologias não são isentas de valores, pois refletem influências culturais e sociais, o que exige cautela na incorporação de sistemas automatizados em práticas sensíveis, como a avaliação por pares e a detecção de plágio. De forma complementar, Kaufman (2022) destaca que, embora a interação entre humanos e máquinas possa promover inclusão, na prática ainda há ocorrências de discriminação, evidenciando a necessidade de acompanhamento ético e técnico contínuo. A esse respeito, a IFLA (2020) reforça que o uso da inteligência artificial em ambientes informacionais deve estar ancorado em normas éticas bem definidas - princípio que também se aplica ao contexto editorial, exigindo transparência nos algoritmos e respeito aos direitos autorais e à autonomia intelectual dos envolvidos.
Em análise sobre as perspectivas da gestão em unidades de informação, Neves (2023) destaca que o uso estratégico da inteligência artificial será um elemento central nesse processo, sendo imprescindível investir na formação e capacitação dos profissionais da informação para que possam lidar com tais transformações. Em contribuição anterior, Neves (2020) observa que os sistemas especialistas representam as primeiras aplicações eficazes da IA, demonstrando que algoritmos bem treinados podem desempenhar papéis relevantes em atividades como a triagem de manuscritos e a recomendação de pareceristas. No plano técnico e de inovação, Morandin e Moura (2024) identificaram, a partir de um estudo patentométrico, um aumento significativo do interesse por tecnologias baseadas em IA no Brasil, com destaque para os setores da saúde e do agronegócio. As autoras apontam ainda que os depósitos de patentes são majoritariamente realizados por indivíduos, frequentemente em regime de colaboração, o que revela um ambiente inovador ativo e diversificado em torno do desenvolvimento da inteligência artificial.
2.1 Contextualização sobre histórico da editoração científica com avanços tecnológicos
Pinheiro e Oliveira (2022) realizaram um estudo sobre o uso e os estudos de Inteligência Artificial (IA) no âmbito da Ciência da Informação, analisando a produção científica brasileira nas últimas duas décadas. Os autores observaram que, embora tenha havido um crescimento no número de publicações nos últimos três anos do período analisado, a produção científica sobre aplicações da IA na área ainda é incipiente. Destacam, ainda, a necessidade de aprofundamento em temas como organização e representação da informação, além da aplicação de técnicas de machine learning. Vizoso (2022) também aborda, de forma sintética, os avanços da IA na Ciência da Informação e aponta desafios relacionados ao seu uso, como a ocorrência de vieses e a falta de transparência nos sistemas. Tais limitações suscitam reflexões importantes sobre a ética da informação, o acesso e desenvolvimento de softwares livres, bem como as implicações para a pesquisa acadêmica, especialmente no que se refere à explicabilidade dos modelos utilizados.
Nesse cenário, torna-se evidente que a inserção da IA na Ciência da Informação ainda se apresenta de forma pouco consolidada e carente de investigações mais profundas. Apesar disso, a IA tem se mostrado uma ferramenta com grande potencial de disseminação da informação e vem transformando significativamente as formas de produção, organização e acesso ao conhecimento. Diante desse panorama, impõe-se a necessidade de que os profissionais da informação atuem como agentes de pesquisa e adaptação, desenvolvendo habilidades para incorporar e experimentar novas tecnologias de forma crítica e estratégica.
No contexto brasileiro, o desenvolvimento da editoração científica foi historicamente lento, sobretudo quando comparado à trajetória europeia. Rosa (2009) destaca que, durante o período colonial, a escassa presença da imprensa foi resultado de uma estratégia da Coroa Portuguesa para manter o controle sobre a população da colônia, limitando o acesso à informação. Apenas com a chegada da família real ao Brasil, no início do século XIX, houve maior estímulo à produção editorial. Mesmo assim, o fortalecimento do mercado editorial só se consolidou mais adiante, impulsionado principalmente pela iniciativa privada.
Diferentemente do modelo europeu, no qual a editoração universitária esteve na origem da indústria editorial, o Brasil não seguiu esse caminho. Segundo Rosa (2009), “a indústria editorial brasileira não surgiu a partir das universidades, nem tão pouco foi uma tradição destas instituições possuírem suas próprias editoras”. Foi a atuação de imigrantes europeus - sobretudo franceses e portugueses - estabelecidos em São Paulo e no Rio de Janeiro, que impulsionou esse setor no final do século XIX e início do século XX. A criação da primeira editora universitária brasileira, vinculada à Universidade Federal de Pernambuco, ocorreu apenas em 1955.
Esse marco representou um passo fundamental para a institucionalização da editoração científica no país, após um processo histórico de consolidação do mercado editorial. Tal desenvolvimento permitiu a ampliação da produção acadêmica e o fortalecimento da comunicação científica formal no Brasil.
Ainda segundo Rosa (2009), diversas editoras voltadas ao público do ensino superior desenvolveram coleções especializadas. A Editora Nacional, por exemplo, foi responsável pela publicação de séries como a Brasiliana, a Biblioteca Médica Brasileira e a Biblioteca Pedagógica Brasileira. Já a Livraria Martins, criada em 1937, surgiu no contexto de renovação cultural de São Paulo impulsionada pela fundação da Universidade de São Paulo (USP), voltando-se inicialmente à publicação de obras jurídicas. Com o tempo, passou a desenvolver coleções acadêmicas relevantes, como a Biblioteca Histórica Brasileira, a Biblioteca de Literatura Brasileira e a Biblioteca do Pensamento Vivo.
Esse processo de expansão editorial pavimentou o caminho para a consolidação da editoração científica no Brasil, possibilitando o crescimento da pesquisa, da formação acadêmica e da circulação qualificada do conhecimento. A modernidade e os avanços tecnológicos inerentes à sociedade também atingiram e transformaram o ambiente editorial. De acordo com Santana e Francelin (2016), uma das grandes mudanças para os periódicos científicos foi transição do tipo de suporte que ocorreu nas últimas décadas, de modo que cunhou a popularização das revistas digitais e facilitou o modo de acesso à produção acadêmica, nesse sentido: “o periódico científico eletrônico, por sua natureza, modifica aspectos de forma, potencializa a divulgação de conteúdos e renova questões editoriais" (Santana; Francelin, 2016, p. 7).
Essas reflexões são pautadas na realidade editorial que se estabeleceu durante o início dos anos 2000, com o advento e popularização do meio digital. O Instituto Brasileiro de Tecnologia e Informação (IBICT) começou a fornecer à comunidade acadêmica acesso a tecnologias de preservação de publicações periódicas eletrônicas (BDTD) e ao Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER) (Freire; Freire, 2013).
No entanto, com o desenvolvimento intensificado e acessibilidade ampla às tecnologias de inteligência artificial, em meados de 2020, atualmente o meio da editoração científica passa a ter preocupações e novas possibilidades de melhorar sua atuação de forma ainda mais inovadora.
A inteligência artificial utiliza o sistema Big Data em seu funcionamento. Trata-se de uma ferramenta tecnológica que possibilita a análise de uma quantidade muito grande de dados de forma ágil e opera oferecendo diversos serviços com o conteúdo extraído dos dados, como o auxílio na tomada de decisões mais eficazes, gerenciamento de informações e personalização das devolutivas (Silva, 2024). Essa habilidade de personalização de respostas conforme o perfil do usuário é uma vantagem no caso da editoração da RDDA, a qual utiliza a inteligência artificial para analisar se o conteúdo dos artigos dialoga com o escopo da revista. Como a IA aprende de modo iterativo a partir de padrões de personalização, ela identifica progressivamente os tipos de artigos mais alinhados ao perfil editorial da RDDA, o que favorece a consistência temática e otimiza o tempo dos editores.
2.2 Aplicações e desafios da inteligência artificial na gestão editorial científica
O uso da IA tem se expandido nos fluxos editoriais de periódicos científicos, abrangendo desde a preparação e revisão de manuscritos até a curadoria e avaliação de conteúdos. Entre as aplicações mais frequentes estão o suporte à redação, a automação do fluxo editorial, a detecção de plágio, a verificação de autoria e a análise de tendências de publicação (Lima, 2024).
Ferramentas baseadas em IA têm contribuído para a melhoria da redação científica, especialmente por meio de correções gramaticais, aprimoramento de vocabulário e tradução automática. Essas tecnologias favorecem autores que enfrentam barreiras linguísticas, como é o caso da redação em inglês por falantes não nativos (Lima, 2024; Oliveira; Braida, 2024). Além disso, a automação de tarefas repetitivas - como a formatação de artigos e a verificação de referências - tem acelerado o fluxo editorial e contribuído para a eficiência das publicações (Lima, 2024).
No estudo “AI‑assisted peer review”, Checco et al. (2021) desenvolveram e testaram um modelo de aprendizagem de máquina treinado com cerca de 3 300 manuscritos e suas respectivas avaliações, extraindo apenas informações textuais, métricas de legibilidade e formatação para prever a pontuação da revisão por pares. Os resultados demonstraram que o sistema pode reproduzir com sucesso decisões humanas, revelando fortes correlações entre características superficiais do texto e a decisão editorial, e destacando como o uso dessa IA pode economizar tempo no processo - por exemplo, auxiliando na triagem inicial e detectando problemas de formatação ou legibilidade antes da revisão completa.
No artigo “AI in peer review: a recipe for disaster or success?” (Chaturvedi, 2024) publicado pela American Society for Microbiology (ASM), analisou-se de forma crítica o papel da inteligência artificial como ferramenta de apoio no processo de revisão por pares. A IA tem sido utilizada principalmente para triagem inicial de manuscritos, verificação de conformidade com diretrizes editoriais, detecção de inconsistências em dados e geração de resumos automáticos para facilitar o trabalho dos editores e revisores. Contudo, a ASM enfatiza que essas aplicações devem ser complementares, e não substitutivas, ao julgamento humano. A organização também alerta para riscos éticos e práticos, como violações de confidencialidade ao inserir manuscritos em plataformas externas, limitações na interpretação contextual dos textos científicos e a possibilidade de reprodução de vieses algorítmicos.
A etapa de indicação de pareceristas revelou potencial de aprimoramento mediante o uso de IA. Kreutz e Schenkel (2021) apresentam um sistema inteligente desenvolvido para melhorar a seleção de pareceristas para artigos científicos a partir de um conjunto fixo de candidatos. Diferentemente dos métodos tradicionais que dependem de perfis manuais ou recomendações básicas, o RevASIDE utiliza técnicas de análise semântica para compreender o conteúdo dos manuscritos e cruzá-lo com dados dos revisores cadastrados, considerando suas áreas de especialização, experiência e interesses. O sistema também busca garantir diversidade e complementaridade entre os pareceristas selecionados, promovendo uma avaliação mais completa e qualificada. Os autores demonstram que essa abordagem tem potencial para aumentar a eficiência e a precisão na indicação de revisores, reduzindo o esforço manual dos editores e aprimorando a qualidade do processo de revisão por pares.
Sistemas dessa natureza já são utilizados por periódicos internacionais e poderiam ser adaptados à realidade da RDDA, respeitando as especificidades epistemológicas e terminológicas do campo jurídico-administrativo.
Do ponto de vista ético, entretanto, surgem desafios significativos. A ausência de diretrizes claras sobre o uso da IA na maioria dos periódicos científicos brasileiros ainda é um entrave. Pesquisa de Oliveira e Braida (2024), com 84 revistas da área da Comunicação, revela que apenas quatro periódicos dispunham de orientações formais sobre o uso da IA. As principais preocupações concentram-se na autoria, no risco de plágio e na transparência no uso das ferramentas, elementos essenciais para a integridade científica.
Nesse sentido, o Comitê de Ética em Publicações (COPE) esclarece que ferramentas de IA não podem ser consideradas autoras, uma vez que não possuem capacidade de assumir responsabilidade intelectual sobre o conteúdo gerado. Desse modo, o COPE (2023) recomenda que o uso de ferramentas de IA seja explicitado nos manuscritos, permanecendo o autor humano integralmente responsável pelo conteúdo produzido.
A discussão sobre o uso ético da IA também foi abordada por Lima (2024), ao enfatizar a necessidade de garantir a interpretação dos resultados automatizados, a privacidade dos dados envolvidos e a mitigação de vieses algorítmicos. A autora destaca que a ausência de regulamentações consistentes pode expor a comunidade científica a práticas indevidas ou incoerentes.
Além disso, instituições como a UNESCO (2024) e o SciELO (2023) têm proposto recomendações para o uso responsável dessas tecnologias. O guia do SciELO, por exemplo, estabelece que a autoria deve ser restrita a humanos, que editores e pareceristas devem evitar o uso de IA na análise de manuscritos e que a omissão do uso dessas ferramentas configura falha ética.
Apesar dos desafios, autores como Sampaio, Sabbatini e Limongi (2024) destacam que a IA oferece oportunidades valiosas para o avanço da comunicação científica, desde que acompanhada de capacitação adequada dos agentes editoriais, regulamentações transparentes e práticas baseadas em responsabilidade e integridade.
3 METODOLOGIA
Adota-se uma abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica e análise documental, para compreender o uso da IA na gestão editorial da RDDA e suas implicações para periódicos científicos. Segundo Gil (2008), a pesquisa exploratória é indicada para proporcionar maior familiaridade com um problema ainda pouco estudado, permitindo a formulação de hipóteses e diretrizes preliminares para futuras investigações.
3.1 Revisão Bibliográfica
A primeira etapa metodológica consiste na revisão de literatura, na qual foram selecionados estudos nacionais e internacionais que abordam o emprego da IA no ambiente editorial acadêmico. A busca foi conduzida nas bases Scopus, SciELO e Google Scholar, contemplando publicações entre 2018 e 2024. A revisão buscou identificar as principais ferramentas utilizadas na automação do fluxo editorial, bem como discutir os desafios éticos, regulatórios e operacionais inerentes à adoção dessa tecnologia. Conforme Bardin (2011), a análise documental permite explorar conteúdos escritos que fornecem informações valiosas sobre o fenômeno estudado, especialmente em um campo emergente como o da IA aplicada à editoração científica.
3.2 Estudo de caso Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA)
Na segunda etapa, foi realizado um estudo de caso da RDDA, com o objetivo de mapear potenciais aplicações da IA no seu processo editorial. A RDDA é uma revista científica criada em 2013, de periodicidade semestral, vinculada a Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FDRP-USP). Tem como objetivo divulgar a pesquisa científica na área de Direito Administrativo e seus ramos, com especial enfoque em estudos que demonstrem a relação entre Direito, Administração Pública e Desenvolvimento. São publicadas pesquisas da área de Direito Administrativo e processo administrativo, bem como áreas relacionadas, como o Direito Administrativo ambiental, urbanístico, sanitário, concorrencial etc. (RDDA, [s.d.]).
Nessa fase, foram analisados os diferentes estágios do fluxo editorial da revista, como a triagem inicial, que identifica se os artigos estão dentro do escopo exigido pela revista. Além disso, foram comparadas as práticas adotadas por periódicos acadêmicos que já implementaram soluções baseadas em IA, a fim de identificar padrões, desafios e boas práticas (Lopezosa, 2023). Essa estratégia metodológica, de caráter comparativo, é fundamental para avaliar a viabilidade da implementação da IA na RDDA e propor soluções adequadas ao contexto da revista.
3.3 Análise das respostas do ChatPDF
Por fim, a terceira etapa envolve uma análise crítica e propositiva, na qual são discutidos os impactos da IA na governança editorial da RDDA, considerando aspectos como transparência, imparcialidade e confiabilidade dos processos de avaliação científica. Além disso, são abordadas questões normativas relacionadas ao uso da IA na editoração jurídica, tendo em vista a necessidade de conformidade com diretrizes acadêmicas e princípios éticos. Conforme Flick (2009), a análise qualitativa permite interpretar as implicações sociais e institucionais de fenômenos complexos, como a introdução de IA em processos editoriais.
Dessa forma, a pesquisa se estrutura em torno de três eixos principais: (i) revisão bibliográfica sobre IA no contexto editorial, (ii) estudo de caso aplicado à RDDA e (iii) análise crítica sobre os desafios e benefícios da adoção da IA no campo da editoração jurídica. A combinação dessas abordagens permite um exame aprofundado do tema, contribuindo para o debate sobre inovação tecnológica e suas repercussões no Direito Administrativo.
3.4 Nota de transparência ética e de acesso aos dados
Uma das autoras deste estudo integra a equipe editorial da Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA), atuando na coordenação e acompanhamento do processo editorial. Essa condição é explicitada com o objetivo de garantir a transparência e afastar possíveis interpretações de conflito de interesse.
As demais autoras não possuem vínculo formal com a revista e participaram apenas da pesquisa acadêmica. O acesso aos dados ocorreu exclusivamente a partir de artigos publicados e de domínio público, não havendo consulta a manuscritos inéditos, pareceres, nem documentos internos do sistema Open Journal Systems (OJS).
As interações com a ferramenta ChatPDF foram realizadas com base em arquivos abertos e publicamente disponíveis, respeitando os princípios da integridade científica, confidencialidade e ética na pesquisa. Nenhuma informação sensível, não publicada ou identificável foi utilizada.
O estudo segue as recomendações do Comitê de Ética em Publicações (COPE, 2023) e das Diretrizes da UNESCO (2024), assegurando transparência, responsabilidade e supervisão humana no uso de ferramentas de inteligência artificial aplicadas à editoração científica.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Apresentam-se a seguir os principais achados da pesquisa empírica sobre o uso da inteligência artificial (IA) no fluxo editorial da RDDA, com ênfase em suas aplicações práticas e implicações éticas e regulatórias. Os resultados foram organizados em duas seções complementares. A primeira (4.1) discute as aplicações práticas da IA na RDDA, a partir de exemplos concretos de respostas fornecidas pela ferramenta em relação à adequação temática de manuscritos. Essa etapa buscou verificar o potencial da IA como apoio à equipe editorial, sobretudo na análise preliminar de conformidade com o escopo da revista. A segunda seção (4.2) aborda as implicações éticas e regulatórias identificadas ao longo do processo, com especial atenção às exigências de transparência, supervisão humana e conformidade normativa no uso de tecnologias automatizadas no contexto da publicação científica. A discussão dos resultados revela tanto o potencial de inovação da IA na modernização da gestão editorial quanto os limites técnicos e normativos que ainda precisam ser enfrentados para garantir seu uso responsável.
4.1 Aplicações práticas da IA na RDDA
A ferramenta vem sendo utilizada pela equipe editorial com o objetivo de analisar a adequação temática dos artigos submetidos às diretrizes da revista. Para isso, insere-se no sistema o arquivo em formato .doc (Word), obtido a partir da plataforma de submissão Open Journal Systems (OJS), correspondente a cada artigo. Utiliza-se como comando para a análise o seguinte texto, adaptado da seção "Sobre" do site da Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA), que apresenta o foco e o escopo da publicação:
Texto usado como comado no ChatPDF:
Indique-me se esse artigo está com a temática adequada para ser publicado na RDDA, levando em conta seu escopo: A RDDA pretende fomentar a publicação de textos que, de modo explícito ou implícito, evidenciem a relação entre Direito, Administração Pública e o processo de desenvolvimento principalmente à luz de uma das seguintes questões centrais: como as deficiências do tratamento jurídico da Administração Pública em geral (em termos organizacionais, procedimentais, contratuais, por exemplo) ou em campos específicos (ambiente, cidades, energia, concorrência etc.) geram impactos negativos para o Estado e a sociedade? Ou, em sentido oposto, como novos institutos e reformas do Direito Administrativo contribuem para o bom funcionamento da Administração Pública e, em última instância, melhoram as condições de vida da sociedade?
A seguir, apresenta-se 8 exemplos de respostas do ChatPDF.
Neste primeiro caso, percebe-se que o ChatPDF classifica que o estudo não se relaciona diretamente com o escopo da RDDA. A inteligência artificial ressalta os requisitos do comando que lhe foi dado e detecta a falta desses requisitos no conteúdo do artigo examinado. A ferramenta também se aprofunda e produz uma análise do diálogo que poderia existir entre o tema proposto e outros tópicos de Administração Pública, abordando a possibilidade de a questão de intervenção estatal ser um ponto em comum. Essa devolutiva da IA expõe uma habilidade de associação e identificação de contextos mais amplos, afinal, apesar de admitir ressalvas sobre a temática e dar uma resposta predominantemente negativa na relação do artigo quando posta sob a perspectiva das diretrizes da revista, ela ainda foi capaz de estabelecer grau de conexão enquanto recomenda a reconsideração e adaptação da proposta.
Em um segundo momento, entretanto, o mesmo texto foi submetido ao ChatPDF e a devolutiva se alterou completamente e estabeleceu que o artigo possuía sim uma temática adequada para o conteúdo da RDDA. O argumento que sustenta essa nova posição que a inteligência artificial assume é embasado em uma parte do comando de atuação que ela recebeu no qual se infere que é de interesse da revista inserir temas que podem impactar a sociedade negativa ou positivamente. O ChatPDF também conclui que aspectos jurídicos sobre intervenção estatal estão presentes no artigo, isso se encaixaria em possíveis melhorias para a sociedade em geral. Sendo assim, essa segunda análise é caracterizada por uma natureza mais ampla e genérica em contraposição à primeira.
A análise do ChatPDF deste artigo é dividida em três tópicos que discorrem motivos pelos quais ele não deve ser admitido na RDDA. Dessa forma, a inteligência artificial denota uma postura detalhista em seguir as exigências do comando inicial, o qual explica o escopo da revista. Nesse sentido, de acordo com o ChatPDF, a temática principal não tem enfoque na área jurídica de interesse da RDDA; a conexão com Administração Pública feita pelo artigo não propõe aspectos positivos ou negativos para a sociedade, se tratando de um ramo mais filosófico; e, enfatiza que as publicações da revista buscam o contexto contemporâneo brasileiro, algo que não está presente no tema do texto. Em suma, a resposta da inteligência artificial coloca em destaque que a linha filosófica adotada pelo artigo não dialoga com as publicações pretendidas pela RDDA.
A ferramenta de IA considera o artigo pertinente à temática da RDDA e o relaciona à questão central da revista, de modo que ele resgata os requisitos que estavam no comando inicial e evidencia que a produção elabora sobre reformas no Direito Administrativo e como seu novo funcionamento impacta a sociedade, principalmente na questão de proteção de dados. Sendo assim, a inteligência artificial produziu uma resposta totalmente favorável e salienta que o artigo acompanha os interesses da RDDA.
O ChatPDF produz uma análise incerta a respeito do artigo, de maneira que ele identifica que o texto apenas parece estar alinhado ao escopo da RDDA, fazendo uma associação com deficiências do tratamento jurídico da Administração Pública, significando que essa temática possivelmente poderia ter a capacidade de transformação da vida e da sociedade, no entanto, a ferramenta não especifica em que contexto essas mudanças ocorreriam ou qual seria sua eficácia. Considerando que o texto apresentado não possui resumo ou palavras-chave, fica claro uma maior dificuldade da inteligência artificial em determinar sua temática e a possibilidade de ser inserida na revista com mais precisão.
Neste caso, o ChatPDF adota uma postura inicialmente incerta, indicando que o artigo “parece se encaixar” nas diretrizes da RDDA e, portanto, pode exigir ressalvas ou ajustes. Contudo, a ferramenta também reconhece que o texto apresenta relevância direta para os temas de Administração Pública e seus impactos sociais, aspectos destacados no comando original como centrais para a adequação ao escopo da revista. Assim, embora a análise comece com hesitação, ela evolui para uma interpretação mais afirmativa, sinalizando que a temática do artigo mantém aderência substancial ao perfil editorial que a RDDA busca preservar.
Nesse caso, é aplicado o mesmo artigo do item anterior, e a resposta do ChatPDF se adapta e renova, demonstrando que há vários motivos pelos quais é válido adicioná-lo ao escopo da RDDA. A ferramenta evidencia as questões de Administração Pública, enquanto salienta a abordagem do Direito Público e Privado; questões de críticas e reflexões, destacando a relação com o impacto social e estatal que é citado no comando dado à IA; questões da contribuição para o debate contemporâneo, sendo possível gerar insights a diversos campos; e alinhado com os três motivos anteriores, o ChaPDF indica a discussão de teorias novas e reflexão crítica aos dogmas já estabelecidos funcionam como uma influência para a Administração Pública em geral.
Nesse caso, o ChatPDF identifica que o artigo não se alinha ao ideal do escopo da RDDA, recomendando a incorporação de uma análise mais ampla para que se encaixe nas diretrizes da revista. Tendo isso em vista, ele apresenta três pontos do comando que lhe foi dado traçando um paralelo com o texto e justificando a razão desses pontos não estarem de acordo com a RDDA. Em conclusão, a ferramenta pontua que há sim temas adequados ao Direito e à Saúde Pública, no entanto, ressalta os motivos pelos quais essa produção não se encaixa com a RDDA, sugerindo a vinculação a uma discussão do tema com a questão da Administração Pública e condições sociais, a fim de demonstrar o que falta para que o artigo se enquadre plenamente no escopo editorial da RDDA. A inteligência artificial, nesse caso, atua não apenas como instrumento de filtragem, mas como mediadora de ajustes conceituais, indicando caminhos para a readequação temática de textos que, embora relevantes, carecem de alinhamento direto com as diretrizes da revista. Essa atuação reforça o potencial da IA como ferramenta de apoio reflexivo, desde que inserida em um processo editorial supervisionado e comprometido com a qualidade e a coerência científica.
A seguir, apresenta-se uma síntese das respostas do ChatPDF:
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Análise Artigo 1, versão 1: NÃO diretamente. O ChatPDF aponta que o artigo não se relaciona diretamente com o escopo da RDDA, mas reconhece possibilidades de aproximação temática, sugerindo adaptação.
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Análise Artigo 1, versão 2: SIM. Reanalisando o mesmo artigo, o ChatPDF altera a resposta e indica adequação temática, destacando a presença de questões sobre intervenção estatal.
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Análise Artigo 2: NÃO. A IA detalha os motivos da rejeição, como ausência de foco jurídico-administrativo, viés filosófico e descontextualização em relação ao Brasil contemporâneo.
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Análise Artigo 3: SIM. A resposta reconhece aderência ao escopo da revista, principalmente quanto a reformas do Direito Administrativo e proteção de dados.
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Análise Artigo 4: PARECE. A IA assume incerteza, indicando possível pertinência temática sem evidências suficientes para confirmação.
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Análise Artigo 5, versão 1: PARECE. Inicialmente incerta, a análise evolui para uma apreciação positiva ao identificar relevância para a Administração Pública.
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Análise Artigo 5, versão 2: SIM. A repetição do texto leva a nova resposta afirmativa, sem o tom de incerteza anterior.
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Análise Artigo 6: NÃO / PRECISA DE AJUSTES: A IA considera que o texto pode ser adequado com adaptações temáticas.
A análise das interações com a ferramenta ChatPDF revelou aspectos significativos sobre o uso da inteligência artificial na etapa inicial da triagem temática dos artigos submetidos à Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA). As respostas da IA, ainda que pertinentes, apresentaram variações significativas, inclusive diante de um mesmo texto submetido em momentos distintos. Esse comportamento aponta tanto para o potencial da tecnologia em apoiar decisões editoriais quanto para a necessidade de interpretação crítica por parte da equipe editorial.
De modo geral, observou-se que a ferramenta é capaz de identificar termos-chave, relações conceituais e alinhamentos gerais com o escopo da revista, contribuindo para a otimização do processo de triagem. No entanto, as inconsistências nas respostas - ora favoráveis, ora negativas para um mesmo conteúdo - demonstram que a IA ainda não substitui o julgamento humano, especialmente quando se exige contextualização aprofundada, análise interdisciplinar e avaliação de relevância científica.
Outro ponto relevante é que a qualidade e completude dos metadados (resumo, palavras-chave e estrutura textual) influenciam diretamente a acurácia da resposta da IA, reforçando a importância de boas práticas na submissão dos manuscritos. As respostas geradas pela ferramenta demonstraram algum raciocínio associativo e argumentativo, porém ainda carecem de critérios objetivos claramente definidos, reforçando a importância da supervisão editorial humana e qualificada.
Conclui-se que a inteligência artificial pode atuar como tecnologia auxiliar na triagem temática e na eficiência do fluxo editorial, desde que associada a critérios humanos e éticos bem definidos, assegurando que as decisões editoriais se mantenham coerentes com os princípios de qualidade, integridade e responsabilidade científica que regem os periódicos acadêmicos. Assim, o uso responsável e crítico da IA pode fortalecer a governança editorial e ampliar o alcance e a relevância social das publicações científicas.
4.2 Implicações éticas e regulatórias
A análise documental e o estudo de caso conduzidos junto à RDDA permitiram identificar tanto potencialidades concretas quanto desafios relevantes para a incorporação de ferramentas de IA ao seu fluxo editorial.
Observou-se que a triagem inicial de manuscritos pode ser significativamente otimizada com o uso de modelos de linguagem treinados para aferir a aderência temática e verificar a conformidade com critérios formais mínimos exigidos para a continuidade do processo avaliativo. A aplicação desses recursos contribuiria para a racionalização do tempo dos editores, além de favorecer a padronização de aspectos objetivos, como extensão, estrutura textual e adequação às normas da revista.
A pesquisas nacionais e internacionais (Prudencio, 2024, Felix et al., 2024; Quintino et al., 2024; Checco et al., 2021; Chaturvedi, 2024; Pearson, 2024, Schintler; Mcneely; Witte, 2023) alertam para desafios éticos, especialmente vieses algorítmicos e discutem a necessidade de supervisão humana contínua para evitar consequências negativas. Evidenciam o potencial e os riscos da adoção de IA em todas as etapas da editoração científica, reforçando a importância de uma abordagem que combine a eficiência computacional com o critério humano especializado. E defendem também o uso responsável e transparente da IA, com políticas claras de divulgação e supervisão humana contínua, reforçando que o valor do processo de revisão por pares reside, sobretudo, na avaliação crítica feita por especialistas humanos.
No que se refere à detecção de plágio, constatou-se que existem ferramentas amplamente difundidas, e sua integração de forma automatizada e sistemática no fluxo editorial pode ampliar a segurança e a confiabilidade dos processos de avaliação, sobretudo ao mitigar riscos de duplicidade textual e más práticas acadêmicas (Campos; Vilas Boas; Amaro, 2022; Hesselmann, 2022).
Entretanto, Wang (2022) discute como o conceito de plágio está sendo desafiado pelo avanço de ferramentas de geração de texto com inteligência artificial, como o GPT-3. O autor argumenta que, embora esses sistemas não copiem diretamente trechos de outros autores, eles ainda podem violar princípios fundamentais de autoria e originalidade, uma vez que geram conteúdo com base em dados alheios. Diretor da IA do software Turnitin, Wang identifica que o plágio alimentado por IA é mais difícil de detectar, pois os textos produzidos são únicos, embora construídos sobre padrões existentes. Ele alerta que o uso não transparente dessas ferramentas pode prejudicar a integridade acadêmica e que é preciso redefinir o que constitui plágio em um contexto em que estudantes e pesquisadores têm acesso a tecnologias capazes de gerar textos coesos e convincentes em segundos.
Sob a perspectiva ética e normativa, a adoção da IA deve estar ancorada em princípios como transparência, equidade, explicabilidade e supervisão humana contínua. Essa exigência torna-se particularmente sensível em revistas jurídicas, nas quais o rigor argumentativo, a responsabilidade autoral e a integridade editorial são condições indispensáveis. A pesquisa destaca que o uso indiscriminado de ferramentas de IA, sem o respaldo de diretrizes normativas claras, pode comprometer a imparcialidade, a qualidade científica e a credibilidade institucional da revista.
Portanto, que embora o uso de IA na RDDA ainda esteja em estágio inicial, sua implementação gradual, crítica e regulada pode representar um avanço significativo para a modernização da gestão editorial. Tal processo tende a fortalecer a governança científica da publicação e, de modo mais amplo, contribuir para o aprimoramento da produção acadêmica no campo do Direito Administrativo.
5 CONCLUSÃO
A IA vem se consolidando como um recurso promissor no campo da editoração científica, oferecendo soluções tecnológicas para otimizar etapas como triagem de manuscritos, sugestão de pareceristas e detecção de plágio. No entanto, conforme apontado por Schmidt (2025), para a maioria dos profissionais da área, as tarefas que exigem julgamento crítico, sensibilidade contextual e tomada de decisão estratégica - como prever tendências, selecionar revistas para publicação, escolher revisores, gerenciar processos editoriais e buscar oportunidades de financiamento - continuam sendo percebidas como competências essencialmente humanas.
O presente estudo teve como objetivo investigar os impactos do uso da IA no processo editorial da RDDA, com foco nas aplicações práticas, limitações operacionais e implicações éticas associadas à sua adoção. A partir de uma abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica, análise documental e estudo de caso, foi possível mapear pontos-chave do fluxo editorial passíveis de automação e aperfeiçoamento tecnológico.
Os resultados evidenciam que a utilização de ferramentas baseadas em IA pode qualificar significativamente a triagem temática inicial de manuscritos, conferir maior padronização às etapas de verificação formal e ampliar a eficiência do processo avaliativo. Contudo, esses benefícios só se concretizam se acompanhados por supervisão humana contínua, critérios éticos bem definidos e políticas de transparência quanto ao uso dessas tecnologias.
Embora a discussão sobre o papel da IA no campo editorial de periódicos jurídicos ainda esteja em fase incipiente, este estudo indica que sua adoção estratégica pode fortalecer o posicionamento da RDDA como periódico comprometido com a qualidade científica, a inovação metodológica e a contribuição efetiva para o debate sobre a Administração Pública e o Direito Administrativo. Ao aprimorar os processos internos da revista, cria-se também a possibilidade de maior impacto institucional e social, por meio da difusão de conhecimento fundamentado em evidências.
Reconhece-se, entretanto, que a incorporação responsável da IA requer investimentos em infraestrutura digital, capacitação das equipes editoriais e o estabelecimento de diretrizes normativas claras, de modo a mitigar riscos relacionados à opacidade algorítmica, à reprodução de vieses e à perda de controle humano sobre decisões sensíveis. Nesse sentido, esta pesquisa contribui para o debate emergente sobre inovação tecnológica na comunicação científica, oferecendo subsídios teóricos e práticos para que periódicos jurídicos - como a RDDA - possam integrar a inteligência artificial de forma ética, eficaz e alinhada aos valores fundamentais da ciência aberta, da integridade acadêmica e da responsabilidade social.
Reconhecimentos:
Agradecemos a colaboração da estagiária de Biblioteconomia Laura Cruz Galdiano.
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Editado por
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Editor:
Gildenir Carolino Santos https://orcid.org/0000-0002-4375-6815
Não aplicável.











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