1. CONTEXTUALIZAÇÃO E UM POUCO DE HISTÓRIA
A Revista Contabilidade & Finanças (RC&F), ao longo de sua trajetória, viveu outros momentos marcantes de celebração, com os seus aniversários, como o de 30 anos da revista, comemorado em 2019 (Martins & Iudícibus, 2019; Queiroz, 2019). Essas ocasiões são especialmente significativas, pois, ao mesmo tempo em que celebram o pioneirismo e o protagonismo da RC&F na disseminação de resultados de pesquisas científicas nas áreas de Contabilidade, Finanças, Atuária e áreas afins, também nos convidam a refletir sobre o caminho já percorrido, sobre o presente e sobre o futuro que desejamos construir - sem perder de vista, é claro, os desafios que se impõem.
É esse mesmo sentimento que inspira esta Edição Comemorativa de número 100 da RC&F. O simbolismo desse marco reflete o avanço do campo científico, consolidado ao longo do tempo pela acumulação de conhecimento desde o primeiro número da revista. Como relataram os professores Eliseu Martins e Sérgio de Iudícibus, o então denominado Caderno de Estudos do Departamento de Contabilidade e Atuária, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária, da Universidade de São Paulo (FEA/USP), surgiu da necessidade imposta pelo crescimento da pós-graduação stricto sensu em contabilidade no Brasil (Martins & Iudícibus, 2019). Ao longo de mais de 35 anos, os “quase” 100 números da revista influenciaram o pensar contábil e a trajetória da contabilidade no Brasil, como ciência, assim como das áreas das finanças, atuária e afins. Martins e Iudícibus (2019) apresentam os artigos que compõem a primeira edição, os quais discutiram temas como o crepúsculo ou ressurgimento da contabilidade, a importância da gestão financeira, os efeitos de alterações regulatórias, como contribuições sociais e previdenciárias, bem como a relação entre o direito e a contabilidade. Discussões que até hoje, mais de 35 anos depois, continuam relevantes.
Desde a sua fundação, a RC&F consolidou-se como o principal veículo de comunicação científica da pesquisa em contabilidade e áreas afins no Brasil. Ao longo do tempo, a revista foi conduzida por cinco editores-chefe - Jacira Tudora Carastan, Lázaro Plácido Lisboa, Gilberto de Andrade Martins, Fábio Frezatti e Andson Braga de Aguiar, este último seu editor atual.
Um levantamento elaborado pelo professor Fábio Frezatti resgata informações importantes sobre a evolução da RC&F, abrangendo aspectos como os períodos de gestão de cada editor-chefe, a periodicidade e os idiomas de publicação, as linhas editoriais e outras características marcantes (Tabela 1). Chama a atenção o fato de que, desde sua origem, a revista publica artigos em três idiomas (português, inglês e espanhol), reforçando seu caráter internacional. A segmentação em linhas de pesquisa foi introduzida a partir de 2000 e, nos últimos 15 anos, a RC&F passou a adotar uma estrutura editorial mais descentralizada, com a definição dos papéis de editor-chefe geral, editores-chefes acadêmicos, editores associados e editores associados ad-hoc.
A longevidade e a relevância da RC&F também são fruto do trabalho contínuo de diversos atores que fazem sua engrenagem funcionar - pareceristas, autores, leitores e o apoio institucional do Departamento de Contabilidade e Atuária da FEA/USP e da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI), sua principal patrocinadora. Para um resgate mais detalhado da trajetória da RC&F, recomendamos a leitura do editorial de Martins e Iudícibus (2019).
2. EDIÇÃO COMEMORATIVA DE NÚMERO 100: O REGISTRO DE UM LEGADO
Passando agora à proposta da Edição Comemorativa de número 100, é com grande satisfação que, como autores, leitores, revisores e editores - passados e atuais - da RC&F, nos sentimos honrados por atuar como editores convidados desta especial edição. Essa satisfação é igualmente compartilhada pelos autores dos artigos convidados, com quem interagimos desde o início de 2025 e que, do mesmo modo, também expressaram o entusiasmo e sentimento de reconhecimento ao receberem o convite para colaborarem com esta edição.
A proposta idealizada pelo editor-chefe geral, Andson Braga de Aguiar, e acolhida por nós quatro como editores convidados, foi a de que esta Edição Comemorativa reconhecesse a relevância das áreas de pesquisa da RC&F, bem como sua evolução ao longo do tempo. Portanto, o objetivo da Edição Comemorativa de número 100 é oferecer uma perspectiva que dialogue, em maior ou menor grau, com o passado, o presente e o futuro de cada uma das áreas. Assim, cada seção desta edição especial reúne artigos de destaque na respectiva área na trajetória da revista, acompanhados de reflexões críticas sobre as oportunidades de pesquisas futuras, conectadas aos problemas reais enfrentados pelo campo.
Embora representativas de grande contribuição e aplicação no mercado e nas organizações, além de apresentarem expressivo crescimento nas pesquisas acadêmicas, as áreas de Auditoria e Tributos (criada em setembro de 2025) e Contabilidade, Finanças e Auditoria Pública (criada em junho de 2024) não foram contempladas nesta edição. Isso se deve ao fato de terem sido recentemente incorporadas ao escopo da revista e, por essa razão, ainda não contam com um acervo editorial que se alinhe à perspectiva histórica desta Edição Comemorativa.
Além dos artigos que representam as áreas de pesquisa mais consolidadas, a Edição Comemorativa da RC&F também conta com outros dois artigos. Um deles busca realizar uma análise das temáticas que estão sendo publicadas na RC&F em comparação a journals internacionais, fornecendo uma visão abrangente de quais são as similaridades de temáticas abordadas na RC&F e journals internacionais e identificar oportunidades de temas que a comunidade científica brasileira pode explorar. O outro artigo é uma replicação de um dos trabalhos mais citados na história da RC&F, revisitando a literatura e os resultados empíricos em um contexto contemporâneo. Assim, a Edição Comemorativa da RC&F é composta por nove artigos convidados: sete dedicados à discussão de áreas temáticas da revista, um voltado à análise comparativa entre essas áreas e revistas internacionais, e um artigo de replicação. A Tabela 2 apresenta a lista dos nove artigos selecionados, bem como a lista de autores convidados.
A partir dessa abertura, convidamos você leitor a seguir conosco na apresentação dos artigos que compõem a Edição Comemorativa de número 100 da RC&F!
Fábio Frezatti, Ilse Beuren e Claudio Wanderley realizam um diagnóstico dos artigos da área de “Contabilidade gerencial e controladoria” publicados na RC&F. O estudo considera 153 artigos claramente identificados como pertencentes à área (da “porta para dentro”) bem como outros que dialogam com a perspectiva interna das organizações. Os autores estruturam o diagnóstico a partir do conceito de contabilidade gerencial, abordando os temas investigados, as abordagens teóricas dos construtos e os métodos empregados, proporcionando um olhar evolutivo. De forma crítica, Frezatti et al. (2026) discutem as tendências recentes da área, sintetizadas em “da técnica à estratégia” e “teoria e contexto como catalisadores”, bem como a interlocução da área com temas emergentes como governança, comportamento organizacional, ESG (Environmental, Social, and Governance) e justiça organizacional. Por fim, projetam o futuro, sugerindo a ampliação de temáticas (especialmente a digitalização e a sustentabilidade), a adoção de abordagens e construtos multiparadigmáticos e a valorização de diversas perspectivas metodológicas.
Um dos temas recorrentes na área de “Contabilidade financeira” da RC&F foi explorado por Antônio Lopo Martinez. O autor oferece uma revisão sistemática analítico-narrativa da pesquisa sobre gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025), integrando métodos, achados e mecanismos, com ênfase no papel editorial da RC&F. O artigo consolida boas práticas (benchmarks setoriais, efeitos fixos, clustering, testes de sensibilidade) e propõe uma agenda 2026-2030 orientada por identificação crível, replicabilidade e utilidade regulatória, em cinco frentes: trade-off accruals-real; normas específicas de International Financial Reporting Standards (IFRS); mecanismos de governança/auditoria; integração texto e números; e transformação digital. Martinez (2026) apresenta uma síntese útil a pesquisadores (mapa de validade e lacunas), reguladores e auditores (priorização de fiscalização) e usuários da informação (sinais de alerta), reorganiza o campo (canais, condições e limites do gerenciamento de resultados), normaliza protocolos para o contexto brasileiro, reforçando a cumulatividade da literatura e aproximando o debate nacional dos padrões internacionais.
Fernanda Finotti Cordeiro proporciona uma análise aprofundada sobre o surgimento, desenvolvimento e perspectivas futuras para a área “Mercado financeiro e integração empresas/stakeholders”. A autora começa a discussão discorrendo sobre os trabalhos clássicos da Moderna Teoria de Finanças e os Modelos de Finanças Corporativas, como Markowitz (1952), Tobin (1958), Modigliani e Miller (1958), Black e Scholes (1973) e os modelos de fatores de Fama e French (1992). Na sequência, pesquisas na área se desenvolveram ao analisar os efeitos das imperfeições de mercado, como a existência de restrições financeiras, conflitos de agência e questões relacionadas com a governança corporativa das empresas. Entre os temas emergentes, Finotti (2026) destaca a racionalidade limitada dos agentes e as finanças comportamentais, que buscam entender as razões pelas quais as pessoas frequentemente tomam decisões não-ótimas do ponto de vista de um modelo racional. A autora finaliza o trabalho fornecendo evidências de como a RC&F contribuiu (e continua contribuindo) para o desenvolvimento das pesquisas na área.
Considerando a relevância da informação financeira para o mercado de capitais, Tatiana Albanez revisitou a literatura da área e atualizou um dos trabalhos de destaque publicados na RC&F, em 2009, com o objetivo de investigar se os resultados se manteriam inalterados ou se novas evidências surgiriam a partir da atualização dos dados e utilização de diferentes proxies e modelos. Assim, levando em conta a evolução do mercado de crédito e de capitais brasileiro na última década, a autora investiga os impactos da assimetria informacional sobre as decisões de financiamento de companhias listadas no mercado brasileiro, no período 2010-2023, analisando a aderência dos resultados à teoria de pecking order. As evidências obtidas por Albanez (2026), que utilizou modelos de dados em painel em que a alavancagem das firmas é explicada por diferentes proxies para assimetria informacional (com destaque para o bid-ask spread) e variáveis de controle, fornecem um novo panorama dos impactos da assimetria informacional sobre as decisões de financiamento das empresas, refletindo as mudanças e evolução do mercado de crédito e de capitais brasileiro.
Samuel Durso desenvolve um ensaio teórico no qual analisa criticamente o panorama histórico da área de “Educação e pesquisa em contabilidade” no mundo, no Brasil e, em particular, na RC&F. O autor projeta os recentes movimentos institucionais, tecnológicos e acadêmicos que têm impactado as pesquisas da área. Como destacado pelo autor, as pesquisas costumam convergir para as temáticas de “Currículo & Instrução” e “Estudantes”, com predominância de abordagens quantitativas. Durso (2026) destaca tendências emergentes no contexto brasileiro que abrem novas oportunidades de pesquisa, como as recentes Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do curso de Ciências Contábeis, a exigência de formação extensionista no ensino superior e as mudanças nos critérios de avaliação da produção científica nacional (Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Soma-se a isso o impacto dos avanços tecnológicos, especialmente da Inteligência Artificial, e de questões sociopolíticas e geracionais que influenciam o perfil dos estudantes e desafiam as práticas pedagógicas.
João Vinícius de França Carvalho examina a evolução histórica da pesquisa em “Atuária” publicada na RC&F, no período de 2006 a 2025. O artigo destaca a crescente sofisticação metodológica dos estudos atuariais e identifica temas emergentes, que conectam a pesquisa brasileira às tendências internacionais sobre estabilidade e sustentabilidade financeira. Os resultados desse mapeamento histórico evidenciam um foco consistente na sustentabilidade da previdência social e dos planos de pensões, em um cenário de diversificação de riscos financeiros e de seguros, de solvência e de regulação. Carvalho (2026) discute ainda, como a pesquisa na área pode abordar novos desafios sociais e regulatórios, demonstrando o seu potencial para fortalecer políticas públicas, aumentar a resiliência financeira e apoiar a regulação baseada em evidências.
Ruth Alejandra Patiño-Jacinto e Carlos Castaño-Ríos reconhecem o “Ambiente hispânico”, composto por pesquisadores atuantes nos países da América Central e do Sul, onde o espanhol ou o castelhano é a principal língua falada e escrita. A partir da análise de autores proeminentes da região, seja por volume de citações ou por publicações em periódicos de alto impacto, Patiño-Jacinto e Castaño-Ríos (2026) identificam as principais áreas e temáticas da pesquisa contábil na América Latina, com destaque para finanças, sustentabilidade e contabilidade financeira, bem como temas latentes, como tecnologia, gênero e contabilidade pública. Também mapeiam os países de maior protagonismo (Colômbia e Equador) e as redes de colaboração científica formadas na região. Concluem o estudo com um apelo à consolidação e ao fortalecimento da interlocução da comunidade contábil hispano-americana, de modo que esta possa se afirmar como referência no cenário internacional.
Representando a área de “Temas emergentes”, Christopher Napier oferece uma visão crítica da história da contabilidade, como um dos principais protagonistas da consolidação desta área internacionalmente. Ele revisita sua discussão clássica sobre as “direções de pesquisa” e pontua as três principais abordagens na pesquisa em história da contabilidade - compreender o passado (TAH), contextualizar a contabilidade (NAH) e o “novo positivismo” - evidenciando diferentes perspectivas e artigos seminais. O autor destaca a importância, bem como cinco etapas para o uso de teoria na pesquisa em história da contabilidade, como, por exemplo, para estimular a criação e o refinamento de novos conceitos e garantir uma narrativa coerente, fiel às evidências e sensível ao contexto. Napier (2026) também analisa a evolução metodológica, incluindo oportunidades geradas pela digitalização de acervos e pelo maior acesso a fontes históricas. Ressalta também o amadurecimento da pesquisa em diversos países e regiões, destacando sete dimensões comparativas - período, lugares, pessoas, práticas, propagação, produtos e profissão. Por fim, conclui que “a história não é apenas uma atividade legítima na contabilidade, mas necessária para compreendermos como chegamos onde estamos e para onde podemos ir no futuro. (p. e100-8)”
Isabel Lourenço e Dante Viana Junior comparam os estudos publicados na RC&F com os de periódicos internacionais de contabilidade de alto nível, no período de 2015 a 2025. Os periódicos internacionais analisados foram: The Accounting Review (TAR), Accounting, Organizations and Society (AOS), Contemporary Accounting Review (CAR), Journal of Accouting Rechearch (JAR), Journal of Accounting and Economics (JAE) e Review of Accounting Studies (RAST). O artigo destaca as áreas-chave de pesquisa e debates em curso no campo da contabilidade, na RC&F (nove áreas) e nos periódicos internacionais (sete áreas). Lourenço e Viana Junior (2026) apresentam uma análise de cada uma das áreas. Apesar das diferenças de ênfase, ambos os contextos de publicação (RC&F e periódicos internacionais) compartilham duas áreas-chave de pesquisa: Auditoria e Tributação. Os resultados apresentados pelos autores são relevantes na medida em que proporciona uma compreensão estruturada de como a pesquisa contábil é desenvolvida em diferentes veículos de publicação, além de orientar a investigação acadêmica em direção a áreas de potencial impacto.
3. AGRADECIMENTOS E RECONHECIMENTOS
Gostaríamos de encerrar este editorial agradecendo ao editor-chefe geral, Andson Braga de Aguiar, pelo convite, bem como a cada um dos treze autores que contribuíram com a elaboração de artigos que permitem não apenas resgatar a trajetória da RC&F, mas também apontar caminhos e orientar o olhar para o futuro. Estendemos, igualmente, este agradecimento a todos os editores, funcionários, autores, pareceristas, leitores e patrocinadores - enfim, a toda a comunidade acadêmica que tem contribuído para a trajetória longeva e de sucesso da revista.
O simbolismo desta Edição Comemorativa de número 100 da RC&F é, sem dúvida, significativo. Portanto, manifestamos nossos votos de sucesso para que a revista siga exercendo um papel protagonista no pensar e no avanço do conhecimento em contabilidade, finanças, atuária e áreas afins.
Este é um marco que merece ser celebrado por todos nós!
Referências bibliográficas
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Este é um texto bilíngue. Este Editorial também foi traduzido para o idioma inglês, publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x20269052.en
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Este Editorial foi especialmente produzido pelos autores para compor a Edição 100 da Revista Contabilidade & Finanças, a convite do Editor-Chefe Geral.
