RESUMO
O presente artigo revisita o texto do autor, “Research directions in accounting history” (“Direções de pesquisa na história da contabilidade”, em tradução livre) (Napier, 1989), uma das primeiras contribuições para o estudo historiográfico da contabilidade. Nele, são identificadas três abordagens principais para a história da contabilidade: "compreender o passado", "contextualizar a contabilidade" e "o novo positivismo". Além disso, antecipa-se, em certa medida, o conflito intelectual entre a história da contabilidade tradicional e a nova história da contabilidade, surgida na década de 1990 e que persiste até hoje. Esse conflito frequentemente enfatizava diferentes visões sobre o papel da teoria na pesquisa histórica da contabilidade, diferentes noções de fontes e métodos, e até mesmo diferentes visões sobre os limites e as fronteiras da própria contabilidade. Os historiadores da contabilidade ainda têm um amplo espaço para inovar, e muitas lacunas permanecem a serem preenchidas. Períodos, lugares, pessoas, práticas, propagação, produtos e profissões são algumas das dimensões que os pesquisadores da história da contabilidade podem considerar. Os pesquisadores mais novos podem colaborar de forma frutífera com os historiadores mais experientes para ampliarmos nosso conhecimento sobre o passado da contabilidade.
Palavras-chave:
história da contabilidade; contextos; níveis de teoria; fontes e métodos; colaboração internacional
ABSTRACT
This article revisits the author’s “Research directions in accounting history” (1989), an early contribution to the historiographical study of accounting. That article identified three key approaches to accounting history: “understanding the past,” “contextualizing accounting,” and “the new positivism,” and anticipated to some degree the intellectual conflict between so-called traditional accounting history and new accounting history, which arose in the 1990s and persists to some extent. This conflict often stressed different views of the role of theory in historical accounting research, different notions of sources and methods, and even different views about the limits and boundaries of accounting itself. Accounting historians still have significant scope for innovation, and many gaps remain to be researched. Some dimensions that historical accounting researchers can consider are periods, places, people, practices, propagation, products, and professions, where newer researchers can collaborate fruitfully with more established accounting historians to expand our knowledge of accounting’s past.
Keywords:
accounting history; contexts; levels of theory; sources and methods; international collaboration
1. INTRODUÇÃO
Em 1989, a British Accounting Review publicou meu artigo “Research directions in accounting history” (“Direções de pesquisa na história da contabilidade”, em tradução livre) (Napier, 1989), que é referido como "Research directions" no que se segue. Ele examinou as mudanças nas abordagens de pesquisa que surgiam na década de 1980, à medida que os pesquisadores respondiam ao apelo de Anthony Hopwood para tentar "estudar a contabilidade nos contextos em que ela opera" (Hopwood, 1983, p. 287). O artigo teve origem em uma apresentação para a qual fui convidado para falar na Portsmouth Polytechnic (atual Universidade de Portsmouth), em 1987. Eu era membro do corpo docente de contabilidade da London School of Economics and Political Science (LSE) desde 1979, mas meu interesse pela história da contabilidade havia sido estimulado vários anos antes, quando eu estava realizando minha formação profissional na área. Foi então que encontrei o livro Studies in the History of Accounting (Littleton & Yamey, 1956), cujas diversas narrativas sobre o passado da contabilidade me fascinaram. Tive a oportunidade de estudar história da contabilidade com o próprio Basil Yamey na LSE, e quando ele se aposentou, assumi suas aulas de história da contabilidade.
O curso de história da contabilidade de Yamey, sem surpresa, focava em seus próprios interesses de pesquisa na área (para discussões sobre isso, consulte Macve [2021], Napier [2021] e Sangster [2021]). Eles enfatizavam o surgimento e o desenvolvimento da contabilidade por partidas dobradas, os primeiros escritos sobre contabilidade e a contribuição da contabilidade por partidas dobradas para o desenvolvimento do capitalismo, se é que houve alguma. Yamey era um economista com visões convencionais sobre a racionalidade econômica, e concluiu que, apesar dos argumentos contrários, a contabilidade por partidas dobradas não teve um papel central no advento do capitalismo moderno (ver, por exemplo, Yamey [1949, 1964]). Segundo Yamey, a contabilidade por partidas dobradas fornecia informações sobre o passado, em grande parte irrelevantes para a necessidade do capitalista de prever o futuro: "A contabilidade servia a objetivos limitados, e o fechamento dos balanços era realizado principalmente para fins contábeis restritos" (Yamey, 1949, p. 113).
No entanto, o ensino e a pesquisa em contabilidade na LSE estavam prestes a passar por uma mudança dramática com a nomeação, em 1985, de Anthony Hopwood como Professor Ernst & Young de Contabilidade Internacional e Gestão Financeira. Hopwood fundou a revista Accounting, Organizations and Society (AOS) em 1976. Uma das primeiras conversas que tive com ele foi sobre um artigo recente de Roger Lister (1983), que tinha como objetivo apresentar o estudo da história da contabilidade como uma atividade acadêmica "ilegítima". Hopwood estava trabalhando em uma refutação desse artigo com o historiador norte-americano de contabilidade H. T. Johnson (a ser publicada como Hopwood e Johnson [1986]) e pediu meus comentários. Hopwood já havia publicado vários artigos históricos na AOS, incluindo o próprio estudo de Johnson sobre os sistemas de contabilidade gerencial nos Estados Unidos (Johnson, 1983). Johnson utilizou uma análise econômica baseada na teoria dos custos de transação para analisar os custos e a contabilidade gerencial em organizações empresariais cada vez mais complexas. No entanto, Hopwood também publicou estudos históricos que adotavam perspectivas teóricas diferentes.
Ao ser convidado para apresentar a primeira versão de “Research directions”, eu já sabia que a pesquisa histórica em contabilidade estava se afastando do interesse tradicional pelo surgimento e desenvolvimento de métodos contábeis, passando a estudar como a contabilidade era utilizada dentro das organizações e, de maneira mais ampla, na sociedade. Eu queria documentar esse movimento e sinalizar algumas possíveis direções futuras para o desenvolvimento da pesquisa histórica na área.
Na próxima seção, com o benefício de quase 40 anos de retrospectiva, reflito sobre a minha discussão da história da contabilidade em “Research directions”. Em seguida, apresento algumas das contribuições importantes posteriores para a historiografia contábil. Na seção final, menciono lacunas contínuas em nosso conhecimento histórico da contabilidade.
2. O “RESEARCH DIRECTIONS” ORIGINAL
Para estruturar minha discussão em “Research directions”, identifiquei três "abordagens-chave, que estão inter-relacionadas, mas não pretendem ser exaustivas" (Napier, 1989, p. 239). Essa qualificação é importante, pois existe o risco de se ver tal categorização como uma taxonomia rígida. Deve-se observar que existem três abordagens, enquanto grande parte do debate subsequente na historiografia contábil identificou apenas duas, denominadas "história contábil tradicional" (HCT) e "nova história contábil" (NHC), tentando mapear a HCT na primeira abordagem ("compreender o passado") e a NHC na segunda ("contextualizar a contabilidade"). A terceira abordagem sugerida por mim, "o novo positivismo", foi amplamente ignorada na literatura subsequente (ver, por exemplo, Carnegie [2014] para uma revisão da historiografia contábil de 1983 a 2012, e Napier [2020] para desenvolvimentos mais recentes).
2.1 Compreender o Passado
Essa abordagem foi motivada pelo importante relatório do Comitê de História Contábil da American Accounting Association (1970), que justificou o estudo da história da contabilidade com base em fundamentos "intelectuais" e "utilitários". Compreender como a contabilidade mudou no passado e os vários fatores que auxiliaram ou dificultaram tais mudanças ajuda os contadores a se tornarem mais conscientes da probabilidade de possíveis mudanças futuras nas ideias e práticas contábeis. Além disso, o conhecimento da contabilidade no passado pode ajudar a fornecer respostas para os desafios do presente ou mostrar que soluções propostas provavelmente não funcionariam, pois já foram tentadas e fracassaram anteriormente.
Essa seção de “Research directions” destacou a importância de consultar fontes para obter conhecimento sobre a contabilidade do passado. Isso não significava que o historiador da contabilidade deveria apenas coletar e resumir documentos contábeis antigos. A especificidade histórica era vista como estando em tensão com as exigências de generalização. Yamey (1981) alertou sobre os perigos da generalização prematura, quando um pequeno número de casos é usado para justificar afirmações generalizadas sobre as práticas contábeis no passado. No entanto, compreender o passado não se resume a transcrever e relatar registros contábeis antigos; é necessário um certo grau de interpretação para "dar sentido" às evidências arquivísticas. As interpretações não têm todas o mesmo valor. "É sinal de um bom historiador [...] que as explicações e interpretações que ele ou ela oferece tenham um grau de coerência - elas contam uma boa história" (Napier, 1989, p. 241).
Mais tarde, expliquei o que queria dizer com "contar uma boa história". Uma história pode ser "boa" em vários sentidos: "porque é fiel às fontes, porque é escrita com elegância ou porque incute crenças e práticas desejáveis" (Napier, 2017, p. 46). Isso enfatiza a redação de pesquisas históricas contábeis como uma forma de narrativa, com forte atenção dedicada ao comportamento dos indivíduos, vistos como possuidores de agência pessoal. O foco nas pessoas - como preparadores, usuários e sujeitos das contas - incentiva a pesquisa biográfica em contabilidade (um dos primeiros apelos para essa pesquisa veio de Cowton [1985]). Essa pesquisa inclui biografias coletivas de grupos específicos, como os primeiros membros de um órgão profissional de contabilidade (Carnegie et al. [2003], por exemplo, estudaram as características comuns dos primeiros membros de uma organização profissional australiana). Essa abordagem é conhecida como "prosopografia". O foco em indivíduos, organizações ou eventos específicos também pode ser classificado como "micro-história" (Carnegie & McBride, 2023).
Os exemplos de pesquisa histórica em contabilidade que discuti na seção “Understanding the past” (“Compreendendo o passado”, em tradução livre) de “Research directions” estavam geralmente embutidos em evidências arquivísticas amplamente definidas. No entanto, mesmo nessa seção, eu estava ciente dos desenvolvimentos da pesquisa histórica da contabilidade durante a década de 1980, quando observei que "o exame de documentos contábeis originais é crucial para dar às nossas teorias e generalizações algum conteúdo empírico" (Napier, 1989, p. 240). A maioria dos primeiros historiadores da contabilidade, pelo menos os que escreviam em inglês, não fazia alarde de quaisquer predisposições teóricas em seus trabalhos. Eles geralmente adotavam pontos de vista econômicos convencionais para entender como indivíduos e organizações agiam. Esse silêncio em relação aos compromissos teóricos levou Hopwood (1983, p. 289) a sugerir que, "até recentemente, tanto as análises históricas quanto as comparativas do fenômeno contábil adotavam uma postura bastante ateórica". A observação de Hopwood sugere que as coisas estavam começando a mudar, e em “Research directions” abordei o assunto sob o título "Contextualizando a contabilidade".
2.2 Contextualizando a Contabilidade
Em retrospecto, a seção sobre pesquisa histórica em contabilidade que visava estudar a contabilidade em seus contextos subestimou a grande variedade de trabalhos que surgiram na década de 1980, enfatizando a importância de Michel Foucault (Napier, 1989, p. 245). Tal foco minimizou as contribuições de Tony Tinker e seus colaboradores, que escreveram alguns dos primeiros artigos do que mais tarde seria chamado de linha de pesquisa NHC (Bertalan e Napier, 2016). Tinker (1980) já havia contribuído para a AOS, em 1980, com um artigo que utilizava ideias da economia política para examinar as contas de uma empresa extratora de minério de ferro em Serra Leoa ao longo de 46 anos. Mais tarde, Neimark e Tinker (1986, p. 375) criticariam pesquisas anteriores no campo da contabilidade e do controle gerencial por uma "ausência de perspectiva sociohistórica".
Um aspecto do trabalho de Foucault enfatizado nessa seção de “Research directions” são as relações entre poder e conhecimento, exemplificadas pela discussão de Hopwood sobre as tentativas do ceramista inglês do século XVIII, Josiah Wedgwood, de desenvolver medidas práticas do custo de seus produtos (Hopwood, 1987). No entanto, talvez tenha sido dado mais peso às contribuições metodológicas de Foucault sobre "genealogia" e "arqueologia". A genealogia é vista como uma forma de estudar a contabilidade em seus contextos, "tais como condições nacionais específicas, objetivos políticos dos estados, o desenvolvimento de disciplinas relacionadas e o acaso histórico" (Napier, 1989, p. 246). A arqueologia tenta identificar as "condições de possibilidade" das práticas e dos discursos; portanto, é provável que tente situar a contabilidade em contextos mais amplos.
De forma bastante prudente, encerrei a seção “Contextualizing accounting” (“Contextualizando a contabilidade”, em tradução livre) com a seguinte sugestão: "Ainda está por ver se o programa foucaultiano será bem-sucedido em ampliar nossa compreensão da história da contabilidade" (Napier, 1989, p. 246). Sugeri que essa abordagem seria útil no estudo da contabilidade gerencial e na análise do desenvolvimento da contabilidade como profissão. Por fim, alertei que "alguns acadêmicos da contabilidade consideram a abordagem [foucaultiana] obscura, se não obscurantista" (Napier, 1989, p. 247). Como alternativa, apresentei uma terceira via para a pesquisa da história da contabilidade: "o novo positivismo".
2.3 O Novo Positivismo
Essa abordagem se baseou em duas tendências que se desenvolveram nas décadas de 1970 e 1980. A primeira foi o surgimento da teoria contábil positiva (TCP), associada a Ross Watts e Jerold Zimmerman (1986). Ela enfatizava o uso de análises estatísticas sofisticadas para examinar grandes conjuntos de dados dentro de uma estrutura econômica neoclássica explícita e estava comprometida com uma metodologia de pesquisa hipotético-dedutiva. Embora tal abordagem tenha surgido como pesquisa contábil baseada no mercado (PCBM) na década de 1960, Watts e Zimmerman argumentaram que a PCBM era uma pesquisa financeira, não contábil, pois utilizava números contábeis, como receita corporativa e medidas de ativos, para explicar, em sentido estatístico, fenômenos relacionados aos preços de títulos. Eles argumentaram que, na pesquisa contábil, deveríamos explicar fenômenos contábeis, como números contábeis e escolhas de políticas contábeis, com referência a variáveis não contábeis.
A segunda tendência foi a "cliometria", também conhecida como "história econométrica" (McCloskey, 1987). Ela envolvia uma abordagem hipotético-dedutiva para testar hipóteses extraídas da aplicação da teoria econômica neoclássica a conjuntos de dados históricos, muitas vezes utilizando abordagens "contrafactuais" para investigar a importância de contingências externas nos desenvolvimentos históricos. Há ressonâncias interessantes entre a identificação das "condições de possibilidade" implícitas na arqueologia foucaultiana e a postulação de contrafactuais, que argumentam que os eventos teriam se desenvolvido de maneira diferente se certas condições estivessem ausentes.
Embora eu quisesse incentivar mais pesquisas históricas contábeis que analisassem grandes conjuntos de dados de maneira sistemática, eu sabia que barreiras severas inibiam tais pesquisas. Um problema evidente era a escassez de conjuntos de dados relevantes, o que significava que os pesquisadores precisariam coletar os dados manualmente em muitos casos. Além disso, mesmo que os dados estivessem disponíveis, eles poderiam ser imprecisos ou enganosos, e os pesquisadores enfrentariam dilemas sobre até que ponto poderiam aceitá-los pelo valor nominal. Um dos primeiros estudos que identifiquei como exemplo de aplicação da TCP à história da contabilidade foi a investigação de Chee Chow (1983) , que analisou como a regulamentação do mercado de ações nos Estados Unidos na década de 1930 afetou a riqueza dos detentores de títulos. No entanto, esse estudo foi criticado por Merino et al. (1987) como "ahistórico" e "asocial", sugerindo que os desafios para uma história contábil positiva são conceituais além de práticos.
3. REFLEXÕES SOBRE AS DIREÇÕES DA HISTÓRIA CONTÁBIL
3.1 O Surgimento da NHC
Meu artigo “Research directions” não foi a única contribuição para a historiografia contábil no final da década de 1980. Dois artigos relacionados, publicados na importante revista australiana de contabilidade Abacus (Previts et al., 1990 a , 1990b) e destinados principalmente a historiadores da contabilidade mais tradicionais, tentaram incentivar a pesquisa histórica contábil em áreas, períodos e locais mais amplos, além de discutir como os métodos de pesquisa das ciências sociais poderiam ser conciliados com aqueles mais associados à história tradicional. No entanto, à medida que a pesquisa histórica em contabilidade se tornava cada vez mais atraente para muitos dos que formavam a primeira geração do que Jane Broadbent e Richard Laughlin (2013) chamaram de "projeto de pesquisa interdisciplinar e crítica", estudos baseados em teorias mais amplas do que a economia neoclássica predominante até então começaram a aparecer com mais frequência na área.
Um fórum importante para esses estudos foi a Conferência Interdisciplinar sobre Perspectivas Contábeis (IPA), lançada em 1985 e realizada a cada três anos. Os pesquisadores que apresentavam trabalhos na Conferência IPA frequentemente os submetiam à AOS para publicação, e até 1990 a AOS havia publicado cerca de 20 artigos históricos que poderiam ser classificados como pertencentes ao que eu chamei de "contabilidade contextualizante" (Bertalan & Napier, 2016). Em 1990, a AOS colaborou com a Academia de Historiadores Contábeis - organização norte-americana criada para apoiar pesquisas históricas contábeis - em uma conferência na Universidade do Norte do Texas, em Denton. Anthony Hopwood me convidou para colaborar com Peter Miller, importante colaborador dos estudos de história da contabilidade influenciados por Foucault, na apresentação introdutória da conferência, intitulada "Como e por que devemos fazer a história da contabilidade?". Essa conferência sintetizou as crescentes tensões entre diferentes grupos de historiadores da contabilidade, mas os grupos precisavam de nomes.
Vários artigos apresentados na Conferência IPA de 1988, enquadrados no campo da história da contabilidade, estavam prestes a ser publicados na AOS. Como editor da revista, Hopwood decidiu que os artigos de história teriam mais impacto se fossem reunidos e publicados em uma "edição especial". Os organizadores da Conferência IPA de 1988, Miller et al. (1991) , foram convidados a escrever uma introdução para a edição, intitulada "A nova história da contabilidade: uma introdução". Aparentemente, Hopwood sugeriu o título, embora, como observaram Bertalan e Napier (2016) , essa não tenha sido a primeira vez que o termo "nova história da contabilidade" foi utilizado na literatura. O termo "história da contabilidade tradicional" parece ter sido introduzido posteriormente por Ross Stewart (1992) .
3.2 Contribuições Metodológicas
Embora a introdução de Miller et al. (1991) tenha sido bastante enfática sobre o que a NHC "não era", ela sugeriu que os estudos históricos contábeis poderiam se basear em uma ampla gama de análises teóricas. De fato, alguns historiadores contábeis mais tradicionais temiam que o desenvolvimento da teoria estivesse substituindo o uso de evidências arquivísticas na pesquisa histórica contábil (Fleischman e Tyson, 1997). Talvez esse receio tenha sido exacerbado pela introdução da próxima "edição especial" da AOS sobre história da contabilidade, “Genealogies of calculation” ("Genealogias do cálculo", em tradução livre) (Miller & Napier, 1993). Esse artigo foi desenvolvido a partir da nossa apresentação na conferência de Denton, em 1990, e, além de fornecer uma crítica a mais pesquisas da HCT, também defendia o uso de abordagens de pesquisa foucaultianas, como a genealogia (embora Foucault não tenha sido citado diretamente nele). Com base nas citações do Google Scholar, esse artigo se tornou uma das contribuições mais influentes para a metodologia da história da contabilidade.
Tive a sorte de ser convidado por Lee Parker, um dos editores fundadores da revista Accounting, Auditing & Accountability Journal (AAAJ), para colaborar com Garry Carnegie na edição de uma edição especial da AAAJ dedicada à pesquisa histórica em contabilidade. Essa edição foi publicada em 1996 e, além de uma breve introdução editorial, apresentamos um artigo que estabeleceu a agenda, intitulado “Critical and interpretive histories: Insights into accounting’s present and future through its past” (“Histórias críticas e interpretativas: perspectivas sobre o presente e o futuro da contabilidade por meio de seu passado”, em tradução livre) (Carnegie e Napier, 1996). Um dos objetivos do artigo era incentivar uma "aproximação" entre a NHC e a HCT. Argumentamos que a pesquisa histórica em contabilidade deveria estar "firmemente fundamentada nos arquivos, ao mesmo tempo em que fosse elucidada por perspectivas teóricas" (Carnegie e Napier, 1996, p. 31). Também identificamos oito áreas ou abordagens que consideramos frutíferas para a pesquisa em história da contabilidade:
-
Estudos de registros comerciais sobreviventes de empresas;
-
Uso de registros contábeis na história empresarial;
-
Biografia;
-
Prosopografia;
-
História institucional;
-
Contabilidade do setor publico;
-
História comparativa da contabilidade internacional;
-
Métodos de pesquisa inovadores (especificamente história oral).
Essa lista não teve o objetivo de fornecer uma taxonomia de pesquisas potenciais sobre a história da contabilidade, mas sim de estabelecer uma agenda de trabalhos potencialmente interessantes e empolgantes. É gratificante observar que houve pesquisas substanciais subsequentes em todas as oito áreas, mas a história da contabilidade não se limitou a essas abordagens.
Desde os artigos “Research directions”, “Genealogies of calculation” e “Critical and interpretive histories”, fiz várias outras contribuições para os escritos historiográficos sobre o tema. De fato, em sua revisão da historiografia contábil de 1983 a 2012, Carnegie (2014) me identifica como contribuinte em 11 dos 62 itens analisados por ele. Mais recentemente, tenho me preocupado com os papéis potenciais da teoria na pesquisa histórica contábil, tema que será abordado na próxima subseção.
3.3 Teoria na História da Contabilidade
Em um artigo que revisa e analisa os artigos de pesquisa histórica contábil publicados nos primeiros 30 anos da AOS, observei que "os pesquisadores contábeis normalmente não são treinados como historiadores" (Napier, 2006, p. 455) e que "aqueles de nós criados na tradição das ciências sociais muitas vezes se sentem desconfortáveis com pesquisas que negam explicitamente sua generalização" (Napier, 2006, p. 467). Como Michael Doron (2025, p. 393) observou em uma crítica ao uso da teoria na pesquisa histórica contábil, "as ciências sociais são essencialmente dedutivas, ou seja, partem de teorias generalizáveis e, em seguida, tentam prová-las (ou esperam que outros, por exemplo, historiadores, as provem)". Por outro lado, a pesquisa histórica tradicional normalmente parte de uma questão específica, pesquisada com base em um conjunto identificável de evidências (geralmente, mas não necessariamente, na forma de documentos), sem que se espere que o historiador tente explicar os eventos examinados aplicando ideias, princípios ou mesmo "leis da história" mais gerais. Isso pode criar problemas práticos para os acadêmicos que desejam publicar trabalhos históricos em revistas contábeis generalistas de prestígio, pois os editores muitas vezes parecem preferir trabalhos que afirmam contribuir para a ampliação e o desenvolvimento de ideias teóricas, em vez de abordagens mais narrativas da história (Doron, 2025, p. 397).
Na prática, a palavra "teoria" pode ser mal interpretada com frequência. Recentemente, em colaboração com outros historiadores da contabilidade, tentei desenvolver uma ideia mais clara de como a teoria, em sentido amplo, pode ajudar os historiadores da contabilidade a planejar seu trabalho e aproveitar ao máximo seus dados de origem. Um aspecto disso foi examinar como os historiadores da contabilidade aplicavam diferentes tipos de teoria para compreender o funcionamento das organizações (Carnegie et al., 2020). Neste estudo, utilizamos o modelo de "níveis de teoria" de Sue Llewellyn (2003) para classificar a utilização da teoria por pesquisadores da história da contabilidade que analisam a utilização da contabilidade para o controle organizacional. Esse modelo identifica cinco "níveis", que vão desde a "teoria como metáfora", na qual o pesquisador efetivamente "nomeia" fenômenos de uma forma que pretende ser esclarecedora, até a "grande teoria", na qual a teoria opera em um nível abrangente e afirma explicar todos os fenômenos concebíveis. Constatamos que, na prática, o uso da "grande teoria" era raro, conclusão esta apoiada por Ferri et al. (2021) , que utilizaram um banco de dados mais amplo. Provavelmente, a desconfiança dos historiadores tradicionais em relação à teoria no contexto da pesquisa histórica deriva de uma visão inconsciente de que toda teoria é uma "grande teoria".
Em um artigo recente, que estabeleceu a agenda (Cordery et al., 2023), eu e meus coautores tivemos como objetivo orientar os historiadores da contabilidade sobre como usar a teoria em seu trabalho. Além de resumir a estrutura dos "níveis de teoria" de Llewellyn, também discutimos uma estrutura desenvolvida por Maclean et al. (2016) com a história organizacional em mente. Concluímos que:
A teoria é valiosa na medida em que esclarece, e problemática na medida em que obscurece; uma estrutura teórica simples, que o pesquisador pode desenvolver como produto do estudo histórico, muitas vezes produzirá pesquisas mais inovadoras do que submeter o material de arquivo a uma teoria complexa e confusa, por mais popular que seja (Cordery et al., 2023, p. 375).
Minha consideração mais extensa sobre os papéis da teoria está em “How theorising can enhance historical accounting research” (“Como a teorização pode aprimorar a pesquisa histórica contábil”, em tradução livre) (Napier, 2022), na qual forneço orientações não apenas para historiadores contábeis, mas também para pesquisadores qualitativos em geral. Após analisar várias estruturas de teorização desenvolvidas em diferentes contextos orientados para as ciências sociais, apresentei um programa de cinco etapas para o uso proveitoso da teoria na pesquisa histórica contábil (Napier, 2022, p. 148):
-
Fornecer uma estrutura inicial para estimular ideias de pesquisa e auxiliar no seu delineamento;
-
Identificar variáveis, fatores e relações potencialmente importantes que podem ser pesquisados em arquivos ou outros materiais probatórios;
-
Sugerir conceitos existentes que ajudem a identificar evidências (tanto já existentes quanto geradas no processo de pesquisa) que possam ser importantes para a história que o pesquisador deseja contar;
-
Permitir a criatividade no desenvolvimento de novos conceitos, bem como no aprimoramento dos já existentes;
-
Garantir uma narrativa coerente, representativa e sensível ao contexto.
Acredito que até mesmo os historiadores que desconfiam da "teoria" serão capazes de enxergar o valor desses objetivos.
3.4 Método na História da Contabilidade
Minhas primeiras incursões na pesquisa histórica contábil seriam consideradas "ateóricas" pelos padrões atuais, mas foram estimuladas por debates na literatura histórica contábil que, na minha opinião, poderiam ser explorados com o uso de evidências arquivísticas. Um desses debates tratava da depreciação de ativos fixos no século XIX. Em seu artigo “Nineteenth century accounting error” (“Erro contábil do século XIX”, em tradução livre), Richard Brief (1965) sugeriu que as empresas do século XIX não possuíam práticas sistemáticas de depreciação. No entanto, eu não estava convencido de que esse fosse realmente o caso. Ao explorar os arquivos da Peninsular and Oriental Steam Navigation Company (P&O), uma grande empresa de navegação do Reino Unidos, do período de 1840 a 1914, descobri que, embora originalmente não sistemáticas, as práticas de depreciação da empresa gradualmente se tornaram mais formalizadas na última parte do século XIX (Napier, 1990).
O outro debate dizia respeito ao uso, por parte das empresas - particularmente as do setor de transporte marítimo -, de "reservas secretas" (valores controlados pelos diretores que são ocultados no balanço patrimonial por meio da subavaliação de ativos ou superavaliação de passivos). No Reino Unido, o caso clássico de uso de reservas secretas para ocultar a situação financeira de uma empresa envolveu a Royal Mail Steam Packet Company, que faliu em 1930 (Green, 1982). Eu queria investigar se a Royal Mail Company era um caso "único" e, para isso, examinei os arquivos da P&O para o período de 1914 a 1936. Descobri que o uso de reservas secretas pela Royal Mail Company era, na verdade, modesto em comparação com o da P&O. Sem o conhecimento de investidores e clientes, a P&O esteve a poucos dias da falência em 1932 (Napier, 1991).
Para ambos os artigos, meu método de pesquisa consistiu em identificar, no catálogo do arquivo, registros potencialmente úteis, ler e transcrever manualmente o que considerei material arquivístico relevante e, em seguida, organizar as evidências arquivísticas na forma de uma narrativa sistemática. Isso ocorreu muito antes da disponibilidade de câmeras digitais que pudessem ser usadas para fotografar documentos no arquivo para posterior análise, e no início da década de 1990 os pacotes de software para análise de dados qualitativos estavam apenas começando a surgir (Richards, 2002). Atualmente, os pesquisadores de contabilidade histórica dispõem de um conjunto mais amplo de recursos para seu trabalho, graças ao crescimento da digitalização de arquivos, que proporciona novas oportunidades (Cordery et al. [2023]; ver também Sangster [2025]). No entanto, o processo de digitalização, no qual indivíduos e organizações operam, tanto quanto possível, por meio de sistemas baseados em computador, cria desafios para os historiadores da contabilidade que pesquisam épocas mais recentes, pois os registros baseados em computador podem ser praticamente impossíveis de serem acessados por um pesquisador externo.
Cordery et al. (2023) consideram uma série de métodos de pesquisa inovadores para os historiadores da contabilidade, alguns dos quais já estão sendo utilizados com sucesso. A disponibilidade de pacotes de análise bibliométrica possibilitou que os pesquisadores examinassem, de maneira sistemática, conjuntos de literatura sobre a história da contabilidade. Além do estudo sobre o uso da teoria de Ferri et al. (2021) , já mencionado, um excelente exemplo de análise bibliométrica baseada em software é a pesquisa de Bigoni et al. (2024) sobre a influência de Michel Foucault na história da contabilidade. Eles identificaram 117 artigos de história da contabilidade que utilizaram as ideias de Foucault para fornecer uma estrutura teórica e observaram sete "temas foucaultianos fundamentais". Em princípio, esse tipo de pesquisa poderia ter sido realizado manualmente, mas teria demandado um esforço considerável e apresentado um risco maior de omissões e classificações incorretas. Embora a digitalização de um conjunto de registros contábeis possa ser um processo complexo e demorado, o produto final permite análises inovadoras e pode identificar questões potencialmente interessantes que seriam perdidas em uma pesquisa manual. Como Kuter et al. (2025) apontam: "Ao adotar a abordagem digital, pudemos fazer tudo onde queríamos, economizando tempo e despesas com viagens de ida e volta ao arquivo".
Apesar dessas inovações, os métodos históricos mais tradicionais provavelmente continuarão a ser empregados pelos historiadores da contabilidade. Uma característica das publicações recentes é a inclusão de uma seção formal de "fontes e métodos" em muitos artigos, que fornece aos leitores informações para avaliar a confiabilidade e a validade da narrativa e das conclusões mais conceituais do autor. Pesquisadores de contabilidade experientes, com profundo conhecimento do contexto de criação e preservação de suas evidências, provavelmente ainda considerarão a "leitura atenta" (Ohrvik, 2024) das fontes uma estratégia de pesquisa eficaz e frutífera. Para os mais novos, no entanto, a maior estrutura e formalidade dos pacotes de software assistivo podem lhes proporcionar mais confiança em suas narrativas e conclusões.
4. LACUNAS E PERSPECTIVAS
Desde que comecei a me interessar pela história da contabilidade, o campo cresceu dramaticamente, com revistas acadêmicas dedicadas, além de conferências, seminários e workshops nacionais e internacionais regulares. Estudos bibliométricos recentes, como o de Bigoni et al. (2024) , geralmente partem de uma seleção inicial de cerca de mil artigos publicados sobre a história da contabilidade. Isso contrasta com a primeira bibliografia da área, elaborada por Bob Parker (1965) , que identificou apenas 231 publicações (algumas em idiomas diferentes do inglês). Atualmente, é impossível para qualquer pessoa se manter atualizada com a crescente literatura histórica em contabilidade. Portanto, algumas das "lacunas" que identifico podem já estar sendo pesquisadas por historiadores da contabilidade.
Em um estudo comparativo da história da contabilidade (Carnegie e Napier, 2002), Garry Carnegie e eu identificamos sete dimensões que consideramos úteis para comparar a contabilidade em diferentes países. Essas dimensões foram: período, lugar, pessoas, práticas, propagação, produtos e profissão. Em todas essas dimensões, há espaço para ampliar as pesquisas existentes em novas direções. Provavelmente, pesquisas inovadoras sobre a história da contabilidade se estenderão ao longo de várias dessas dimensões. À medida que avançamos no século XXI, os eventos do final do século XX tornam-se "históricos" (quando estudei história da contabilidade com Basil Yamey, sua história terminava por volta de 1900). Muitas pesquisas sobre história da contabilidade examinaram uma gama limitada de localizações geográficas. É encorajador observar como a pesquisa nessa área está começando a explorar regiões até então negligenciadas, como a América do Sul, a África e a China. Equipes de pesquisa são frequentemente formadas com um historiador contábil "ocidental" experiente colaborando com pesquisadores de locais específicos. Exemplos incluem o trabalho de Richard Macve com vários estudiosos chineses (por exemplo, Yuan et al. [2017]) e o de Alan Sangster com estudiosos portugueses e brasileiros na análise das contas de empresas portuguesas patrocinadas pelo estado no século XVIII que operavam no Brasil (Vasconcelos et al., 2022).
Um efeito do interesse pela prosopografia e pela microhistória na pesquisa da história da contabilidade (Carnegie e McBride, 2023) tem sido destacar os papéis das pessoas na contabilidade, seja como preparadores, usuários ou sujeitos. Muitas vezes, os historiadores da contabilidade precisam especular sobre como as contas eram realmente usadas, pois os indivíduos raramente deixam registros específicos sobre como conduziam o processo contábil. Nesse contexto, as abordagens da história oral podem ser valiosas, sendo muitas vezes a única maneira prática de coletar depoimentos que forneçam insights sobre a prática real da contabilidade no passado. Um aspecto importante da NHC tem sido ampliar nossa concepção do que "conta como contabilidade" e "onde a contabilidade pode ser encontrada" (Napier, 2006, pp. 457-459), indo muito além do registro de transações denominadas em termos monetários. Um exemplo disso é a discussão sobre como os auditores estaduais de um estado norte-americano utilizaram a enumeração do censo para categorizar e contabilizar indivíduos como "deficientes". Embora os aspectos financeiros das funções dos auditores fossem relevantes, eles de forma alguma esgotavam a forma de "contabilidade populacional" representada pelo processo do censo (Graham et al., 2023). Portanto, a forma como concebemos as "práticas" contábeis continua se expandindo.
A formação e a disseminação de ideias e práticas contábeis constituem uma área com grande potencial para a pesquisa histórica. Muitas vezes, há uma ligação com o surgimento e o desenvolvimento de órgãos profissionais de contabilidade. No entanto, os historiadores estão cada vez mais conscientes de que o modelo britânico de "profissão erudita" não é, de forma alguma, a única maneira pela qual os indivíduos que realizam atividades associadas à contabilidade podem se organizar. Na verdade, nem todos os que realizam tarefas relacionadas à contabilidade necessitam ou se beneficiam da organização formal. Mais uma vez, a história oral pode ser um método de pesquisa frutífero para descobrir como contadores e outros envolvidos no processo contábil aprenderam sua profissão (a proporção entre instrução formal e aprendizagem no trabalho difere em diferentes lugares e períodos) e como seu trabalho mudou ou permaneceu praticamente o mesmo ao longo de suas carreiras.
A contribuição mais importante da NHC foi focar em como a contabilidade realmente funciona nas instituições, nas organizações e na sociedade. No entanto, talvez a objeção levantada por Watts e Zimmerman (1986) sobre a pesquisa contábil baseada no mercado também se aplique aqui: a pesquisa que examina o impacto da contabilidade é realmente "pesquisa contábil" ou pesquisa organizacional ou social? Minha sugestão de classificar a pesquisa histórica contábil em "história da contabilidade" e "pesquisa contábil sociohistórica" (Napier, 2020, p. 34) tinha como objetivo transcender a categorização "tradicional"/"nova" da história da contabilidade, que eu via mais relacionada à escolha de estruturas conceituais e métodos subjacentes do que a tópicos de pesquisa. Muitos estudos ultrapassam as fronteiras dessas categorizações. São histórias de práticas e ideias contábeis estudadas nos contextos em que essas práticas e ideias surgiram e operaram. Ao mesmo tempo, são estudos sociohistóricos que mostram como essas práticas e ideias fizeram a diferença para indivíduos, organizações e sociedades.
Ao olhar para os quase 50 anos de estudo, pesquisa e escrita sobre a história da contabilidade, fico impressionado com a diversidade de tópicos, períodos, locais, teorias, arquivos, métodos, histórias e narrativas produzidos e que continuarão a ser produzidos pelos historiadores da contabilidade. Há 40 anos, Roger Lister (1983) considerava a pesquisa histórica em contabilidade uma atividade acadêmica "ilegítima". Desde então, no entanto, a crescente literatura sobre a história da contabilidade tem servido para refutar seu argumento, estabelecendo que a história não é apenas uma atividade "legítima" na contabilidade, mas também necessária para a nossa compreensão de como chegamos até aqui e para onde podemos ir no futuro.
Referências bibliográficas
- Bertalan, N.-I., & Napier, C. J. (2016). The emergence of “the new accounting history” Paper presented at the 14th World Congress of Accounting Historians, Pescara, Italy.
-
Bigoni, M., Maran, L., & Occhipinti, Z. (2024). Of power, knowledge and method: The influence of Michel Foucault in accounting history. Accounting History, 29(3): 344-387. https://doi.org/10.1177/10323732241243088
» https://doi.org/10.1177/10323732241243088 -
Brief, R. P. (1965). Nineteenth century accounting error. Journal of Accounting Research, 3(1): 12-31. https://doi.org/10.2307/2490048
» https://doi.org/10.2307/2490048 - Broadbent, J., & Laughlin, R. (2013). Accounting control and controlling accounting: Interdisciplinary and critical perspectives Emerald Group Publishing.
-
Carnegie, G. D. (2014). Historiography for accounting: Methodological contributions, contributors and thought patterns from 1983 to 2012. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 27(4): 715-755. https://doi.org/10.1108/AAAJ-08-2013-1430
» https://doi.org/10.1108/AAAJ-08-2013-1430 - Carnegie, G. D., & McBride, K. M. (2023). Prosopography and microhistory: Illuminating historical actors. In S., Decker, W. M., Foster, & E., Giovannoni (Eds.), Handbook of historical methods for management (pp. 245-263). Edward Elgar.
-
Carnegie, G. D., & Napier, C. J. (1996). Critical and interpretive histories: Insights into accounting’s present and future through its past. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 9(3): 7-39. https://doi.org/10.1108/09513579610121956
» https://doi.org/10.1108/09513579610121956 -
Carnegie, G. D., & Napier, C. J. (2002). Exploring comparative international accounting history. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 15(5): 689-718. https://doi.org/10.1108/09513570210448966
» https://doi.org/10.1108/09513570210448966 -
Carnegie, G. D., Edwards, J. R., & West, B. P. (2003). Understanding the dynamics of the Australian accounting profession: A prosopographical study of the founding members of the Incorporated Institute of Accountants, Victoria, 1886 to 1908. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 16(5): 790-820. https://doi.org/10.1108/09513570310505998
» https://doi.org/10.1108/09513570310505998 -
Carnegie, G., McBride, K., Napier, C., & Parker, L. (2020). Accounting history and theorizing about organizations. British Accounting Review, 52(6): 100932. https://doi.org/10.1016/j.bar.2020.100932
» https://doi.org/10.1016/j.bar.2020.100932 - Chow, C. W. (1983). The impacts of accounting regulation on bondholder and shareholder wealth: The case of the Securities Acts. The Accounting Review, 57(2): 485-520.
- Committee on Accounting History (1970). Report to the Executive Committee of the American Accounting Association. The Accounting Review , 45(Suppl.): 53-64.
-
Cordery, C., Gomes, D., Leoni, G., McBride, K., & Napier, C. (2023). Innovation in accounting historiography: Where to from here? Accounting History , 28(3), 368-389. https://doi.org/10.1177/10323732231168457
» https://doi.org/10.1177/10323732231168457 -
Cowton, C. J. (1985). The hero in accounting history: An assessment of the role of biography. Accounting and Business Research, 16(61): 73-77. https://doi.org/10.1080/00014788.1985.9729298
» https://doi.org/10.1080/00014788.1985.9729298 -
Doron, M. E. (2025). Can we stop calling ‘critical theory’ ‘history’? Accounting History , 30(3): 392-401. https://doi.org/10.1177/10323732251346561
» https://doi.org/10.1177/10323732251346561 -
Ferri, P., Lusiani, M., & Pareschi, L. (2021). Shades of theory: A topic modelling of ways of theorizing in accounting history research. Accounting History , 26(3): 484-519. https://doi.org/10.1177/1032373220964271
» https://doi.org/10.1177/1032373220964271 - Fleischman, R. K., & Tyson, T. N. (1997). Archival researchers: An endangered species? Accounting Historians Journal, 24(2): 91-109.
-
Graham, C., Persson, M. E., Radcliffe, V. S., & Stein, M. J. (2023). The state of Ohio’s auditors, the enumeration of population, and the project of eugenics. Journal of Business Ethics, 187(3): 565-587. https://doi.org/10.1007/s10551-022-05279-8
» https://doi.org/10.1007/s10551-022-05279-8 - Green, E. (1982). A business of national importance: The Royal Mail Shipping Group, 1902-1937 Taylor & Francis.
- Hopwood, A. G. (1983). On trying to study accounting in the contexts in which it operates. Accounting, Organizations and Society, 8(2-3): 287-305.
-
Hopwood, A. G. (1987). The archeology of accounting systems. Accounting, Organizations and Society , 12(3): 207-234. https://doi.org/10.1016/0361-3682(87)90038-9
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(87)90038-9 - Hopwood, A. G. (1988). On origins and development: Some reflections on the 40th anniversary of Pergamon Press and the 65th birthday of its founder, Robert Maxwell. Accounting, Organizations and Society , 13(4): 329-331.
- Hopwood, A. G., & Johnson, H. T. (1986). Accounting history’s claim to legitimacy. International Journal of Accounting, 21(2): 37-46.
-
Johnson, H. T. (1983). The search for gain in markets and firms: A review of the historical emergence of management accounting systems. Accounting, Organizations and Society , 8(2-3): 139-146. https://doi.org/10.1016/0361-3682(83)90021-1
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(83)90021-1 -
Kuter, M., Sangster, A., Gurskaya, M., Lugovsky, D., & Evtykh, S. (2025). Digitalising medieval accounting research: Andrea Barbarigo’s Venetian Cash Account 1430-1434. Accounting History , 30(1): 44-67. https://doi.org/10.1177/10323732241301777
» https://doi.org/10.1177/10323732241301777 - Lister, R. J. (1983). Accounting as history. International Journal of Accounting , 18(2): 49- 68.
- Littleton, A. C., & Yamey, B. S. (1956). Studies in the history of accounting Sweet & Maxwell.
-
Llewellyn, S. (2003). What counts as “theory” in qualitative management and accounting research? Introducing five levels of theory. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 16(4): 662-708. https://doi.org/10.1108/09513570310492344
» https://doi.org/10.1108/09513570310492344 -
Maclean, M., Harvey, C., & Clegg, S. R. (2016). Conceptualizing historical organization studies. Academy of Management Review, 41(4): 609-632. https://doi.org/10.5465/amr.2014.0133
» https://doi.org/10.5465/amr.2014.0133 -
Macve, R. (2021). In memory of Basil Selig Yamey, 1919-2020. Accounting History Review , 31(1): 121-123. https://doi.org/10.1080/21552851.2021.1889625
» https://doi.org/10.1080/21552851.2021.1889625 - McCloskey, D. N. (1987). Econometric history Macmillan.
- Merino, B. D., Koch, B. S., & MacRitchie, K. L. (1987). Historical analysis - A diagnostic tool for “events” studies: The impact of the Securities Act of 1933. The Accounting Review , 62(4): 748-762.
-
Miller, P., & Napier, C. (1993). Genealogies of calculation. Accounting, Organizations and Society , 18(7-8): 631-647. https://doi.org/10.1016/0361-3682(93)90047-A
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(93)90047-A -
Miller, P., Hopper, T., & Laughlin, R. (1991). The new accounting history: An introduction. Accounting, Organizations and Society , 16(5-6): 395-403. https://doi.org/10.1016/0361-3682(91)90036-E
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(91)90036-E -
Napier, C. J. (1989). Research directions in accounting history. British Accounting Review , 21(3): 237-254. https://doi.org/10.1016/0890-8389(89)90095-4
» https://doi.org/10.1016/0890-8389(89)90095-4 -
Napier, C. J. (1990). Fixed asset accounting in the shipping industry: P&O 1840-1914. Accounting, Business & Financial History, 1(1): 23-50. https://doi.org/10.1080/09585209000000013
» https://doi.org/10.1080/09585209000000013 -
Napier, C. J. (1991). Secret accounting: the P&O Group in the inter-war years. Accounting, Business & Financial History , 1(3): 303-333. https://doi.org/10.1080/09585209100000040
» https://doi.org/10.1080/09585209100000040 -
Napier, C. J. (2006). Accounts of change: 30 years of historical accounting research. Accounting, Organizations and Society , 31(4-5): 445-507. https://doi.org/10.1016/j.aos.2005.12.004
» https://doi.org/10.1016/j.aos.2005.12.004 - Napier, C. J. (2017). The good fraud: Accounting, finance and banking in a 1930s English novel. Accounting and Cultures - Contabilità e Cultura Aziendale, 17(2): 43-70.
- Napier, C. J. (2020). Historiography. In J. R., Edwards, & S. P., Walker (Eds.), The Routledge companion to accounting history (2nd ed., pp. 32-53). Routledge.
-
Napier, C. J. (2021). Vale Basil S. Yamey. Accounting History , 26(2): 332-335. https://doi.org/10.1177/10323732211009907
» https://doi.org/10.1177/10323732211009907 -
Napier, C. J. (2022). How theorising can enhance historical accounting research. Accounting and Management Review - Revista de Contabilidade e Gestão, 26(special issue): 133-153. https://doi.org/10.55486/amrrcg.v26i.6a
» https://doi.org/10.55486/amrrcg.v26i.6a -
Neimark, M., & Tinker, T. (1986). The social construction of management control systems. Accounting, Organizations and Society , 11(4-5): 369-395. https://doi.org/10.1016/0361-3682(86)90008-5
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(86)90008-5 -
Ohrvik, A. (2024). What is close reading? An exploration of a methodology. Rethinking History, 28(2): 238-260. https://doi.org/10.1080/13642529.2024.2345001
» https://doi.org/10.1080/13642529.2024.2345001 -
Parker, R. H. (1965). Accounting history: A select bibliography. Abacus, 1(1): 62-84. https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1965.tb00312.x
» https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1965.tb00312.x -
Previts, G. J., Parker, L. D., & Coffman, E. N. (1990a). Accounting history: Definition and Relevance. Abacus , 26(1): 1-16. https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1990.tb00229.x
» https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1990.tb00229.x -
Previts, G. J., Parker, L. D., & Coffman, E. N. (1990b). An accounting historiography: Subject matter and methodology. Abacus , 26(2): 136-158. https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1990.tb00250.x
» https://doi.org/10.1111/j.1467-6281.1990.tb00250.x -
Richards, T. (2002). An intellectual history of NUD*IST and NVivo. International Journal of Social Research Methodology, 5(3), 199-214. https://doi.org/10.1080/13645570210146267
» https://doi.org/10.1080/13645570210146267 -
Sangster, A. (2021). Basil Yamey (1919-2020): A reflection on his contribution to accounting history. Accounting Historians Journal , 48(1): 67-70. https://doi.org/10.2308/AAHJ-2020-024
» https://doi.org/10.2308/AAHJ-2020-024 -
Sangster, A. (2025). ‘Going digital’ - Its place in research into the history of modern accounting. Accounting History , 30(1): 7-22. https://doi.org/10.1177/10323732231196256
» https://doi.org/10.1177/10323732231196256 -
Stewart, R. E. (1992). Pluralizing our past: Foucault in accounting history. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 5(2). https://doi.org/10.1108/09513579210011862
» https://doi.org/10.1108/09513579210011862 -
Tinker, A. M. (1980). Towards a political economy of accounting: An empirical illustration of the Cambridge controversies. Accounting, Organizations and Society , 5(1): 147-160. https://doi.org/10.1016/0361-3682(80)90031-8
» https://doi.org/10.1016/0361-3682(80)90031-8 -
Vasconcelos, A., Sangster, A., & Rodrigues, L. L. (2022). Avoiding Whig interpretations in historical research: An illustrative case study. Accounting, Auditing & Accountability Journal , 35(6): 1402-1430. https://doi.org/10.1108/AAAJ-10-2020-4977
» https://doi.org/10.1108/AAAJ-10-2020-4977 - Watts, R. L., & Zimmerman, J. (1986). Positive accounting theory Prentice-Hall.
-
Yamey, B. S. (1949). Scientific bookkeeping and the rise of capitalism. Economic History Review New Series, 1(2-3): 99-113. https://doi.org/10.2307/2589824
» https://doi.org/10.2307/2589824 -
Yamey, B. S. (1964). Accounting and the rise of capitalism: Further notes on a theme by Sombart. Journal of Accounting Research , 2(2): 117-136. https://doi.org/10.2307/2489995
» https://doi.org/10.2307/2489995 -
Yamey, B. S. (1981). Some reflections on the writing of a general history of accounting. Accounting and Business Research, 11(42): 127-135. https://doi.org/10.1080/00014788.1981.9729690
» https://doi.org/10.1080/00014788.1981.9729690 -
Yuan, W., Macve, R., & Ma, D. (2017). The development of Chinese accounting and bookkeeping before 1850: Insights from the Tŏng Tài Shēng business account books (1798-1850). Accounting and Business Research, 47(4): 401-430. https://doi.org/10.1080/00014788.2016.1263182
» https://doi.org/10.1080/00014788.2016.1263182
-
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Não aplicável.
-
Este é um texto bilíngue. Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x2026100-8.en.
-
Este artigo foi especialmente produzido pelo autor para compor a Edição 100 da Revista Contabilidade & Finanças, a convite do Editor-Chefe Geral.
Não aplicável.
