Open-access Além dos números: por uma abordagem crítica e cultural em contabilidade, finanças e atuária

1 INTRODUÇÃO

A literatura dominante em Contabilidade, Finanças e Atuária tradicionalmente apresenta essas disciplinas como domínios essencialmente técnicos, caracterizados por modelagens matemáticas e práticas supostamente objetivas que apenas refletiriam a realidade econômica (Ball & Brown, 1968; Watts & Zimmerman, 1978). No entanto, como Hopwood (1976) argumentou no editorial inaugural da Accounting, Organizations and Society, essa perspectiva representa uma simplificação significativa da complexidade inerente a esses campos. Para o autor, "as distinções econômicas estabelecidas pelos contadores e suas metodologias constituem construções do intelecto humano, incorporando avaliações tanto sociais quanto econômicas" (p.1). Esta publicação inaugurou uma nova vertente na pesquisa contábil, questionando a presumida neutralidade técnica e explorando as dimensões sociais, políticas e culturais intrínsecas à Contabilidade (Sauerbronn et al., 2023).

A partir desse marco, desenvolveu-se uma robusta tradição de pesquisa demonstrando que a aparente neutralidade técnica obscurece uma realidade substancialmente mais complexa. Tinker et al. (1978) evidenciaram os fundamentos normativos subjacentes a teorias aparentemente "positivas", e investigações subsequentes consolidaram esta perspectiva crítica. Tais estudos estabeleceram que a Contabilidade transcende sua dimensão técnica, constituindo-se como um instrumento de construção social que simultaneamente reflete e molda a realidade que pretende meramente descrever (Burchell et al., 1980; Tinker, 1980; Hopwood, 1983). Entretanto, Hines (1988) vai além dessa concepção, ao demonstrar que as práticas contábeis não apenas refletem ou moldam a realidade, mas também constroem os próprios fenômenos que reportam. Essa perspectiva evidencia as limitações ontológicas e epistemológicas das abordagens hegemônicas, que pressupõem uma realidade objetiva e independente a ser meramente capturada pela Contabilidade.

O reconhecimento dessas complexidades epistemológicas constituiu um elemento fundamental para a institucionalização da área de Assuntos Emergentes em Contabilidade, Finanças e Atuária (doravante, Assuntos Emergentes) na Revista de Contabilidade e Finanças (RC&F). Esta seção emergiu profundamente influenciada pela tradição crítica, estabelecendo-se como resposta aos desafios impostos pela predominância de perspectivas teóricas focadas na resolução de problemas específicos e na investigação de relações entre variáveis objetivamente mensuráveis. Publicada sob a égide do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), a revista reflete as transformações institucionais ocorridas no departamento e na FEA/USP ao longo das últimas décadas. A internacionalização do Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Contabilidade (PPGCC/FEA/USP), iniciada em 2002, desempenhou papel fundamental nesse processo, ao promover diversidade epistemológica e inovação metodológica (Nova, 2014).

O ano de 2012 constituiu um marco significativo na consolidação da área de Assuntos Emergentes, com a incorporação de professores visitantes ao PPGCC/FEA/USP que desempenharam papéis seminais nesse processo. Destacam-se as contribuições do Professor Alan Sangster (então vinculado à Griffith University), responsável pela disciplina "História da Contabilidade", e do Professor David Carter (University of Canberra), que introduziu "Teoria Crítica e Interpretativa em Contabilidade". Essas iniciativas pioneiras estabeleceram as bases para abordagens interpretativas e críticas, até então pouco exploradas no programa. Colaborações subsequentes, como a da Professora Rebecca Ropers-Huilman (University of Minnesota) em 2013, e os retornos do Professor David Carter em 2014 e 2016, ampliaram significativamente o alcance dessas perspectivas (Nova, 2014), culminando na institucionalização de um espaço editorial dedicado a abordagens críticas e inovadoras.

A designação em 2015 de David Carter como editor associado inaugural da área de Assuntos Emergentes na RC&F representou um marco institucional significativo, refletindo o compromisso da revista em transcender as fronteiras disciplinares convencionais e elucidar as dimensões sociais, políticas e históricas das práticas contábeis. Esse compromisso mantém-se sob minha gestão, como egressa do PPGCC/FEA/USP desde outubro de 2024, reafirmando o propósito de promover uma política editorial que não apenas valoriza a pluralidade epistemológica, mas também trabalha ativamente para superar as barreiras identificadas por Baker e Bettner (1997) na disseminação da pesquisa contábil crítica.

A área de Assuntos Emergentes constitui um espaço interdisciplinar que estabelece diálogos profícuos entre a Contabilidade e as Ciências Humanas, particularmente com a Sociologia, a Antropologia e a História. Esta interface propicia uma abordagem analítica crítica que contempla as múltiplas dimensões espaciais e temporalidades dos fenômenos sociais, utilizando a Contabilidade como lente epistemológica para investigações e reflexões teóricas. O escopo desta área apresenta um potencial significativo de expansão, permitindo que abordagens críticas também sejam aplicadas a campos como Finanças e Atuária. A pertinência dessa ampliação torna-se evidente quando observamos que questionamentos fundamentais sobre as premissas do mercado antecedem em muito a emergência dos estudos críticos. Um exemplo marcante é a obra seminal de Polanyi (1944), que já desafiava a concepção dominante do mercado como uma entidade igualitária e autônoma. Contrariando a literatura tradicional de finanças, o autor argumentava que os mercados financeiros não funcionam como sistemas autorregulados, mas estão profundamente imbricados nas estruturas sociais, políticas e culturais de seus contextos históricos específicos.

Este editorial propõe-se a problematizar estas questões e a delinear diretrizes para investigações futuras, reafirmando o compromisso da RC&F com uma perspectiva crítica das áreas de Contabilidade, Finanças e Atuária. Defendemos uma abordagem que transcenda a mera descrição da realidade, seja ela contemporânea ou histórica, promovendo reflexões que questionem ativamente as estruturas estabelecidas e contribuam para a construção de uma sociedade mais equitativa e inclusiva. Nesse sentido, a abordagem crítica constitui um instrumento fundamental, permitindo reavaliar, por exemplo, legados históricos que configuram o presente e emancipar-nos de interpretações superficiais e pressupostos herdados (Martins, 2007).

Em virtude de sua natureza interdisciplinar, o espectro de temas passíveis de investigação pelos estudos críticos é extenso, possibilitando tanto a compreensão quanto a intervenção nos processos de alienação social. Entre as temáticas exploradas, destacam-se análises críticas do capitalismo, questões ambientais, diversidade, políticas identitárias e sistemas de opressão (Fleischman et al., 2012). Ademais, os estudos críticos têm investigado questões como o impacto do neoliberalismo (Lehman et al., 2016), os processos de marginalização e exclusão (Agyemang et al., 2024) e os desafios de construir um pensamento que transcenda os vieses eurocêntricos (Sauerbronn et al., 2024). Esta diversidade temática evidencia não apenas a amplitude e profundidade das questões abordadas, mas também o potencial transformador dos estudos críticos.

No âmbito metodológico, é imperativo superar o falso dualismo que associa automaticamente métodos quantitativos à pesquisa positivista e métodos qualitativos às pesquisas críticas. Uma abordagem crítica na contabilidade refere-se fundamentalmente à perspectiva teórica adotada para compreender e interpretar os fenômenos contábeis, funcionando como paradigma interpretativo dos dados. O foco reside na produção do conhecimento e não na escolha metodológica per se. A metodologia deve estar intrinsecamente relacionada à questão de pesquisa e aos objetivos investigativos. Assim, a adoção de teorias não hegemônicas não implica necessariamente o emprego exclusivo de metodologias qualitativas. Embora a pesquisa crítica em contabilidade tenha historicamente privilegiado métodos qualitativos (Richardson, 2015), existe um potencial significativo e ainda pouco explorado no emprego de métodos quantitativos e mistos, desde que alinhados aos pressupostos filosóficos e objetivos da investigação. Como enfatizado por Topolski (1976), os dados quantitativos, quando utilizados não como fim em si mesmos, mas como instrumentos para responder a questões específicas, podem enriquecer substancialmente a pesquisa crítica. Métodos quantitativos podem, por exemplo, auxiliar na identificação e categorização de problemas críticos ou, ainda, revelar questões subjacentes por meio das variâncias não explicadas nos dados, proporcionando bases para análises críticas mais aprofundadas e reflexivas. Esta compreensão metodológica é fundamental para superar visões reducionistas e ampliar as possibilidades investigativas.

Dessa forma, buscamos expandir tanto os horizontes temáticos quanto as abordagens metodológicas na pesquisa crítica, reconhecendo sua capacidade de compreender e transformar realidades complexas. Nas seções subsequentes, explorarei perspectivas promissoras que podem orientar futuras investigações, ampliando os diálogos dentro e fora das áreas de contabilidade, finanças e atuária, e promovendo uma visão mais abrangente e crítica sobre o papel dessas disciplinas na sociedade contemporânea.

2 A VIRADA CULTURAL NOS ESTUDOS DA CONTABILIDADE

Uma perspectiva promissora que emerge no horizonte da pesquisa contábil contemporânea é a dos Estudos Culturais da Contabilidade, vertente que busca compreender como os conceitos contábeis são construídos, apropriados e disseminados em diferentes contextos históricos e sociais. Essa abordagem estabelece um diálogo profícuo com os Estudos Culturais tradicionais, particularmente com as contribuições de Williams (1976), Burke (2004), Burke e Porter (1987) e Stedman (2013), ao examinar a contabilidade como um espaço de disputas simbólicas e como um fenômeno que se reconfigura por meio de intercâmbios culturais e relações de poder.

A obra de Williams (1976) constitui um fundamento teórico basilar para esta proposta, especialmente sua análise da cultura como um sistema dinâmico e historicamente constituído de significados. Em Keywords: A Vocabulary of Culture and Society, Williams desenvolve uma investigação meticulosa da evolução semântica de conceitos-chave da cultura e da sociedade, demonstrando como estes não são estáticos, mas refletem tensões e transformações sociais. Um aspecto fundamental de sua abordagem reside na necessidade de evidenciar os significados "derrotados" nestas disputas semânticas - aqueles sentidos que foram marginalizados ou suprimidos ao longo do tempo. Transpondo esta perspectiva para a Contabilidade, torna-se possível mapear a trajetória histórica de conceitos fundamentais como "patrimônio", "lucro", "transparência" e "fair value", analisando não apenas como seus significados foram negociados e contestados em diferentes contextos histórico-culturais, mas também quais concepções alternativas foram preteridas neste processo. Esta análise possibilita uma compreensão mais aprofundada dos mecanismos que configuram a linguagem contábil e os processos pelos quais determinadas noções se tornam hegemônicas enquanto outras são silenciadas ou reconfiguradas para atender a específicas lógicas de poder e de mercado.

A investigação das transformações semânticas estende-se às intersecções entre contabilidade e campos correlatos como economia, finanças e atuária. Conceitos como "risco", "valor" e "mercado" permeiam estas disciplinas carregando significados contestados e frequentemente contraditórios. A análise cultural destes termos pode revelar como diferentes comunidades profissionais constroem e legitimam seus próprios entendimentos, frequentemente em disputa por jurisdição e autoridade epistêmica (Abbott, 1988; Burke, 1987).

A abordagem cultural-semântica proposta permite, ademais, examinar como a linguagem técnica contábil opera enquanto instrumento de poder e exclusão. A complexificação da terminologia profissional pode ser interpretada não apenas como uma resposta a demandas técnicas, mas também como uma estratégia de demarcação de fronteiras profissionais e manutenção de privilégios epistêmicos (Burke, 1987). Esta dimensão adquire particular relevância ao considerarmos como a construção e a legitimação de um campo profissional estão intrinsecamente vinculadas ao controle do discurso e à regulação do acesso ao conhecimento.

Os Estudos Culturais da Contabilidade também se beneficiam significativamente das reflexões sobre intercâmbio cultural propostas por Stedman (2013). Stedman analisa como elementos culturais são transferidos, adaptados e ressignificados em interações transnacionais, enfatizando o papel das redes, dos agentes e das configurações institucionais nestes processos. No âmbito contábil, esta abordagem possibilita examinar como normas, práticas e conceitos se deslocam entre diferentes sociedades e são apropriados de maneira diferenciada. A adoção das IFRS (International Financial Reporting Standards), por exemplo, pode ser interpretada não apenas como uma evolução técnica, mas como um processo de imposição e adaptação cultural, no qual países periféricos internalizam padrões globais frequentemente sem considerar plenamente suas especificidades locais. Essa adoção implica, ainda, uma significativa perda de autonomia na definição das normas contábeis, considerando que, anteriormente, os contadores brasileiros e suas instituições determinavam os padrões nacionais. Atualmente, ao seguir diretrizes externas, emerge o risco de que questões específicas da realidade brasileira não sejam contempladas, dada a posição periférica do país na agenda internacional de regulamentação contábil.

Nesse contexto, a incorporação da teoria da colonialidade de Quijano (1992, 2005) torna-se fundamental para compreender as assimetrias de poder que caracterizam a circulação de conceitos contábeis. Quijano argumenta que a colonialidade persiste na organização do conhecimento e na subalternização das epistemologias periféricas, mesmo após o fim do colonialismo formal. Este conceito pode ser aplicado ao campo contábil ao analisar como normas e práticas originárias da Europa e dos Estados Unidos são frequentemente consideradas superiores, enquanto contribuições locais são desvalorizadas ou invisibilizadas. A conceituação da Bárbara Pinheiro (2023) sobre colonialidade como um padrão psíquico de rebaixamento existencial oferece uma chave interpretativa valiosa para compreender como esta lógica se manifesta no campo contábil, resultando na internalização da inferioridade e na aceitação acrítica de modelos estrangeiros.

Este cenário evidencia a necessidade de uma abordagem que não apenas documente a circulação de conceitos contábeis, mas que também problematize as relações de poder inerentes a este processo. Os Estudos Culturais da Contabilidade poderiam, assim, investigar questões fundamentais como: quais são os agentes responsáveis pela disseminação de determinados conceitos contábeis? Como as traduções e adaptações destes conceitos refletem disputas e negociações locais? De que maneira certas práticas contábeis foram marginalizadas em função da hegemonia de modelos importados?

Ademais, esta abordagem oferece contribuições significativas para o debate sobre a descolonização do pensamento contábil. Em contraposição à mera replicação de modelos estrangeiros, torna-se possível valorizar práticas e epistemologias locais, desenvolvendo conceitos mais adequados às especificidades econômicas e culturais dos países periféricos. Este movimento pode articular-se com iniciativas existentes em outros campos do conhecimento, que buscam desconstruir a lógica eurocêntrica e promover uma ciência mais plural e inclusiva.

Os Estudos Culturais da Contabilidade estabelecem, ainda, diálogos profícuos com os debates contemporâneos sobre linguagem e performatividade, particularmente as reflexões de Butler (1990) e Bourdieu (1982, 1991). A contabilidade não apenas reflete a realidade, mas a constitui ativamente, moldando e naturalizando determinadas relações de poder. A estruturação dos números, relatórios e balanços influencia a percepção da economia e das organizações, configurando-se como mecanismo de produção de realidade social. Esta dimensão performativa pode ser examinada sob uma perspectiva cultural, investigando como os discursos contábeis legitimam certas práticas em detrimento de outras e como a própria linguagem contábil pode operar como instrumento de dominação ou resistência.

Em síntese, os Estudos Culturais da Contabilidade representam uma proposta teórico-metodológica inovadora e necessária para expandir os horizontes da pesquisa contábil. Ao integrar perspectivas críticas, históricas e culturais, esta abordagem permite compreender a contabilidade não apenas como técnica de mensuração, mas como fenômeno social em constante transformação. A partir desse enquadramento, torna-se possível questionar hegemonias, valorizar saberes locais e contribuir para um pensamento contábil mais reflexivo e emancipatório. Este campo emergente oferece possibilidades significativas para responder aos desafios contemporâneos da contabilidade e sua relação com as dinâmicas de poder globais.

3 PROFISSÃO OU PROJETOS PROFISSIONAIS

A análise da trajetória histórica da profissão contábil configura-se como um campo investigativo de singular relevância epistemológica. A historiografia desse objeto tem passado por uma significativa transição paradigmática, abandonando abordagens predominantemente técnico-celebratórias em favor de análises mais críticas e contextualizadas. Historicamente, a contabilidade ocupou posição periférica nos estudos sobre sociologia das profissões e historiografia ocupacional, sendo frequentemente caracterizada como uma profissão emergente e mimética, em contraposição a campos profissionais mais consolidados, como medicina e direito.

A historiografia contemporânea, contudo, expandiu significativamente seu escopo analítico, examinando as intrincadas relações entre a profissão contábil e as dimensões estatais, culturais e econômicas em múltiplas escalas. Essa renovação metodológica evidencia como diferentes contextos nacionais desenvolveram estratégias específicas de legitimação profissional, desde a ênfase britânica em credenciais e reputação pública até a abordagem norte-americana fundamentada em pressupostos científicos.

Um aspecto particularmente notável neste processo é a plasticidade jurisdicional da profissão contábil, que reflete sua capacidade adaptativa frente a novas demandas mercadológicas, exemplificada pelo expressivo crescimento da auditoria corporativa (Boussebaa, 2015). Essa expansão, contudo, não se manifesta de maneira homogênea, sendo condicionada por fatores contextuais e, ocasionalmente, limitada por insuficiências técnicas, como se observou na contabilidade de custos norte-americana em determinados períodos históricos (Fleischman & Tyson, 1999).

É imperativo, contudo, problematizar a noção de um arquétipo universal de profissionalização bem-sucedida. Walker (1999) argumenta que a consolidação profissional é intrinsecamente dependente da capacidade de um grupo ocupacional em reconhecer e mobilizar estrategicamente as contingências contextuais específicas. Abbott (1988) oferece um marco teórico fundamental para a análise dessa mobilização através do conceito de disputas jurisdicionais, evidenciando a constante renegociação das fronteiras ocupacionais entre profissões correlatas, como contadores, atuários e economistas.

A dimensão geopolítica emerge como elemento crucial na configuração da profissão contábil, particularmente no que concerne às influências do colonialismo e do nacionalismo. Estudos de casos emblemáticos, como Fiji e Trinidade e Tobago, ilustram trajetórias contrastantes de desenvolvimento profissional, revelando tensões significativas entre internacionalização e construção de identidades nacionais (Annisette, 2000; Davie, 2000). Ademais, a historiografia crítica tem iluminado as dimensões de exclusão social na profissão contábil, analisando como marcadores de raça, classe e gênero influenciaram historicamente o acesso e a participação neste campo. As questões de gênero, em particular, evidenciam barreiras estruturais persistentes à participação feminina (Gallhofer, 1998).

A discussão sobre inclusão e diversidade na Contabilidade tem sido amplamente abordada no contexto internacional, especialmente em países anglo-saxônicos (Kornberger et al., 2010; McNicholas et al., 2004). O fato de esse debate estar consolidado em outras regiões evidencia sua relevância e reforça a necessidade de considerá-lo também em outros contextos. No entanto, isso não implica que possamos simplesmente transpor as conclusões desses estudos para a realidade brasileira de forma direta e irrestrita. Uma das limitações recorrentes dessa produção acadêmica é a tendência ao universalismo, ou seja, a adoção de modelos desenvolvidos em contextos específicos sem a devida consideração das particularidades históricas e socioculturais de outras regiões. O caso brasileiro, por exemplo, demanda uma abordagem que reconheça como desigualdades raciais e de classe estão enraizadas na estruturação da profissão, influenciando o acesso e a progressão na carreira contábil.

No contexto brasileiro, a análise da profissionalização contábil demanda investigações que transcendam a tendência reducionista de adotar modelos exógenos, particularmente o anglo-saxônico, como paradigmas normativos superiores. Ademais, é fundamental evitar generalizações que extrapolem análises circunscritas a determinadas regiões, como São Paulo, tratando-as como representativas da totalidade da realidade nacional. A historiografia da profissão contábil deve incorporar uma abordagem multiescalar, contemplando as dimensões local, regional e nacional, reconhecendo a heterogeneidade e as especificidades socioculturais que moldaram suas distintas trajetórias de institucionalização. Essa abordagem deve transcender a mera identificação dessas diferenças, buscando historicizar os achados em uma perspectiva comparativa. Tal procedimento implica compreender como a profissão contábil se desenvolveu em diferentes localidades do Brasil e como essas variações dialogam com tendências globais, permitindo a construção de análises que evidenciem não apenas as particularidades locais, mas também sua inserção em redes e dinâmicas transnacionais.

A articulação entre a história da contabilidade e debates mais amplos sobre profissões e transformações sociais aprimora a compreensão das interações entre a contabilidade, a sociedade e as estruturas de poder. Esta perspectiva amplia a aplicabilidade da pesquisa histórica para além dos limites disciplinares da contabilidade, permitindo sua articulação com campos correlatos como finanças e atuária. O aprofundamento do exame dessas dinâmicas contribui para o desenvolvimento de marcos teóricos explicativos que transcendem abordagens meramente descritivas, oferecendo uma compreensão mais substantiva sobre as transformações e disputas que permeiam as profissões ao longo do tempo.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este editorial buscou delinear perspectivas promissoras para o desenvolvimento da pesquisa crítica em contabilidade, finanças e atuária, com particular ênfase em duas vertentes fundamentais: os Estudos Culturais da Contabilidade e a Análise da Profissão e de seus Projetos Profissionais. A área de Assuntos Emergentes da Revista de Contabilidade e Finanças configura-se como um espaço privilegiado para o desenvolvimento dessas abordagens, consolidando-se como lócus de produção e disseminação de conhecimento crítico e reflexivo.

As perspectivas apresentadas evidenciam a necessidade de transcender visões puramente técnicas, reconhecendo as dimensões sociais, culturais e políticas intrínsecas a estas áreas do conhecimento. A abordagem cultural-semântica permite examinar como conceitos e práticas são construídos e disputados em diferentes contextos, enquanto a análise dos projetos profissionais revela as complexas dinâmicas de poder que moldam a institucionalização das profissões.

O compromisso com uma perspectiva crítica e descolonial configura-se como imperativo para o desenvolvimento futuro dessas áreas, especialmente no contexto brasileiro e latino-americano. Este posicionamento implica não apenas questionar hegemonias estabelecidas, mas também valorizar epistemologias e práticas locais, contribuindo para a construção de um conhecimento mais plural e emancipatório.

Convidamos a comunidade acadêmica a explorar essas vertentes investigativas, desenvolvendo pesquisas que contribuam para uma compreensão mais aprofundada e crítica dos fenômenos contábeis, financeiros e atuariais. A consolidação destes campos de estudo representa não apenas um avanço teórico-metodológico, mas também um compromisso com a transformação social e a construção de uma ciência mais reflexiva e socialmente responsável.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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