Open-access Gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025): síntese, evidências e agenda de pesquisa

RESUMO

O objetivo deste artigo é oferecer uma revisão sistemática analítico-narrativa da pesquisa sobre gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025), integrando métodos, achados e mecanismos, com ênfase no papel editorial da Revista Contabilidade & Finanças (RC&F) e na formulação de uma agenda 2026-2030 orientada por identificação crível, replicabilidade e utilidade regulatória. A metodologia utilizada foi a busca em SciELO, SPELL, Google Scholar e no Portal CAPES (PT/EN), com critérios de elegibilidade para estudos empíricos focados no Brasil e uso de proxies quantitativas (accruals, atividades reais, qualidade dos lucros, distribuição de resultados). Foram realizadas triagem em duas etapas e codificação por eixos temáticos [International Financial Reporting Standards (IFRS), governança/auditoria, contábil-fiscal, setorial/propriedade] e famílias de proxies (Jones/Kothari; Dechow-Dichev/McNichols; Roychowdhury; híbridas/IA), assim como síntese narrativa apoiada por linha do tempo e tabelas. Como lacuna de pesquisa, têm-se: evidência causal norma-específica (IFRS 15/16/17) ainda restrita; compreensão incompleta de mecanismos de governança/auditoria [comitês, especialização setorial, American depositary receipts (ADRs)]; integração texto + números com interpretabilidade; impactos micro da transformação digital [enterprise resource planning (ERP), auditoria contínua, smart contracts]; e efeitos de base erosion and profit shifting (BEPS) sobre o elo contábil-fiscal. Os resultados indicam que uma convergência às IFRS se associa, em média, à redução moderada do gerenciamento por accruals, condicionada à governança, auditoria (Big Four) e enforcement; há indícios de substituição para atividades reais sob maior escrutínio contábil. Book-tax differences (BTDs) anormais e baixa conformidade fiscal-contábil relacionam-se a menor persistência dos lucros e maior risco informacional. A RC&F padronizou protocolos, alinhou desenhos às especificidades brasileiras e conectou resultados a problemas regulatórios. O artigo consolida boas práticas (benchmarks setoriais, efeitos fixos, clustering, testes de sensibilidade) e propõe agenda 2026-2030 em cinco frentes: trade-off accruals-real; IFRS específicas; mecanismos de governança/auditoria; integração texto + números; e transformação digital. A relevância do tema está na síntese útil a pesquisadores (mapa de validade e lacunas), reguladores e auditores (priorização de fiscalização) e usuários da informação (sinais de alerta). Ao integrar 25 anos de evidência em um quadro explicativo unificado, o estudo reorganiza o campo (canais, condições e limites do gerenciamento), normaliza protocolos para o contexto brasileiro e delimita prioridades de alto retorno para 2026-2030, reforçando a cumulatividade da literatura e aproximando o debate nacional dos padrões internacionais.

Palavras-chave:
gerenciamento de resultados; qualidade dos lucros; IFRS; governança corporativa; auditoria; Brasil

ABSTRACT

This article offers a systematic, analytical, and narrative review of earnings management research in Brazil from 2000 to 2025. It integrates methods, findings, and mechanisms with an emphasis on the role of the Accounting & Finance Review (A&FR) and the formulation of a 2026-2030 agenda guided by credible identification, replicability, and regulatory utility. The methodology involved searching SciELO, SPELL, Google Scholar, and the CAPES Portal (PT/EN) for empirical studies focused on Brazil that used quantitative proxies (e.g., accruals, real activities, earnings quality, and earnings distribution). Screening was performed in two stages, with coding by thematic axes [International Financial Reporting Standards (IFRS), governance/auditing, accounting-tax, and sectoral/ownership] and proxy families (Jones/Kothari, Dechow-Dichev/McNichols, Roychowdhury, and hybrid/AI). A narrative summary was supported by a timeline and tables. Research gaps include limited causal evidence specific to norms (IFRS 15/16/17), an incomplete understanding of governance and audit mechanisms [committees, sector specialization, and American depositary receipts (ADRs)], the integration of text and numbers with interpretability, the micro-impacts of digital transformation [enterprise resource planning (ERP), continuous auditing, and smart contracts], and the effects of base erosion and profit shifting (BEPS) on the accounting and tax link. The results indicate that, on average, convergence with IFRS is associated with a moderate reduction in accruals-based management conditioned by governance, auditing (Big Four), and enforcement. There are also signs of substitution for real activities under greater accounting scrutiny. Abnormal book-tax differences (BTDs) and low tax-accounting compliance are related to lower earnings persistence and higher informational risk. The A&FR standardized protocols, aligned designs with Brazilian specifics, and connected results to regulatory issues. The article consolidates best practices, such as sector benchmarks, fixed effects, clustering, and sensitivity tests, and proposes a 2026-2030 agenda with five focus areas: accruals-real trade-offs, specific IFRS, governance and audit mechanisms, text and numbers integration, and digital transformation. The relevance of the topic lies in its useful synthesis for researchers (a map of validity and gaps), regulators and auditors (prioritization of oversight), and information users (warning signs). By integrating 25 years of evidence into a unified explanatory framework, the study reorganizes the field by clarifying the channels, conditions, and limits of management, standardizes protocols for the Brazilian context, and defines high-return priorities for 2026-2030. This reinforces the cumulative nature of the literature and brings the national debate closer to international standards.

Keywords:
earnings management; earnings quality; IFRS; corporate governance; auditing; Brazil

1. INTRODUÇÃO

O gerenciamento de resultados (GR) - práticas gerenciais que moldam deliberadamente o lucro reportado, em regra dentro dos limites normativos, para atingir metas como evitar prejuízos ou cumprir projeções (Healy & Wahlen, 1999) - consolidou-se como tema central da pesquisa contábil. No Brasil, a pauta ganhou densidade a partir dos anos 2000, impulsionada pela internacionalização do mercado de capitais e, sobretudo, pela convergência às International Financial Reporting Standards (IFRS) no fim da década. Nesse percurso, Martinez (2008) serviu de marco doméstico ao adaptar e aplicar, em escala, modelos de accruals discricionários, oferecendo evidência sistemática do fenômeno em companhias abertas e estabelecendo um protocolo de estimação (por setor-ano, com controle por desempenho) que se tornou referência. Passados 25 anos, o campo reúne novos métodos, perguntas mais exigentes de identificação causal e um ambiente institucional distinto do dos primeiros estudos, o que justifica uma revisão abrangente e atualizada.

Esta revisão sistemática analítico-narrativa cobre a literatura brasileira no período de 2000 a setembro de 2025, com três objetivos. Primeiro, sistematizar o repertório de modelos e proxies - accruals discricionários (Jones e variantes, inclusive o ajuste de Kothari), qualidade dos lucros (Dechow-Dichev e extensões), atividades reais (Roychowdhury) e abordagens integradas que combinam sinais contábeis, operacionais e textuais - explicitando premissas, fronteiras de validade e boas práticas de estimação no contexto nacional. Segundo, integrar a evidência empírica sobre níveis, determinantes e consequências do gerenciamento, com atenção a contingências institucionais brasileiras: o papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do enforcement, a evolução de governança e auditoria [incluindo Big Four e American depositary receipts (ADRs)], a estrutura de propriedade (familiares e estatais), as diferenças setoriais e a interface contábil-fiscal capturada por book-tax differences (BTDs) e conformidade fiscal-contábil. Terceiro, situar a Revista de Contabilidade & Finanças (RC&F), Universidade de São Paulo, como foro central no amadurecimento metodológico do tema, conectando métodos a problemas de utilidade regulatória e prática profissional.

O recorte temporal evidencia três movimentos estruturantes. Na primeira metade dos anos 2000, consolidam-se as proxies de accruals, com padronização de escolhas (estimação por setor-ano, winsorization, erros-padrão clusterizados). O corte IFRS em 2010/2011 rearranja incentivos e amplia o escrutínio sobre escolhas contábeis, estimulando, na década seguinte, a expansão para decisões operacionais: descontos para inflar vendas no fechamento, superprodução para diluir custos fixos e cortes discricionários de despesas para elevar o lucro corrente. Em paralelo, ganham espaço as métricas de qualidade dos lucros (coerência lucro-caixa) e desenhos com efeitos fixos e generalized method of moments (GMM) para tratar endogeneidade e heterogeneidade. Nos anos 2020, surgem sinais textuais/inteligência artificial (IA) e análises ancoradas em enforcement. A literatura migra de “detectar sinais” para avaliar mecanismos e canais: quando as IFRS reduzem accruals; em que condições emerge a substituição por atividades reais; quanto governança e auditoria comprimem margens discricionárias; e como BTDs anormais sinalizam risco informacional e tributário.

A contribuição aqui é sintética e crítica, não bibliométrica. Em vez de “contar artigos”, discutimos condições de validade dos resultados, coerência entre proxies e perguntas de pesquisa e implicações para desenho de políticas e práticas de auditoria e reporte. Para pesquisadores, oferecemos um mapa de escolhas metodológicas que tendem a produzir inferências mais críveis no Brasil e destacamos lacunas que sustentam a agenda 2026-2030 (efeitos norma-específicos das IFRS, mecanismos de governança/auditoria, integração texto + números, efeitos micro da transformação digital). Para reguladores e normatizadores, organizamos evidências sobre o que funciona e sob quais condições - por exemplo, a combinação de IFRS com comitês de auditoria atuantes e Big Four; o monitoramento de BTDs e reconciliações como filtros de risco; e o papel disciplinar de mídia e analistas. Para usuários da informação, apontamos sinais de alerta operacionais e contábeis que devem informar diligência e precificação de risco.

O artigo organiza-se em oito seções: seção 2 (metodologia); seção 3 (linha do tempo metodológica-regulatória, 2000-2025); seção 4 (modelos e proxies); seção 5 (evidência brasileira sobre IFRS, governança/auditoria, tributação e contexto setorial); seção 6 (contribuição da RC&F); seção 7 (agenda 2026-2030 orientada por identificação crível, replicabilidade e utilidade institucional); e seção 8 (conclusões e implicações para pesquisadores, reguladores, auditores e investidores).

2. METODOLOGIA DA REVISÃO

Realizamos uma revisão sistemática analítico-narrativa (de 2000 a setembro de 2025) em SciELO, SPELL, Google Scholar e no Portal CAPES, combinando, em português e inglês, os seguintes conjuntos de termos com operadores booleanos (AND/OR):

  1. tema: “gerenciamento de resultados” OR earnings management OR “gestão de resultados” OR “qualidade dos lucros”;

  2. proxies/métodos: “accruals discricionários” OR discretionary accruals OR “Jones modificado” OR Kothari OR Dechow-Dichev OR McNichols OR Roychowdhury OR “atividades reais” OR “distribuição de resultados” OR classification shifting OR “medidas não-GAAP” OR textual/NLP/ML;

  3. contexto institucional: “IFRS” OR “CPC” OR “CVM” OR “governança corporativa” OR “comitê de auditoria” OR “auditoria Big Four” OR “ADRs” OR “diferenças livro-fisco/BTD/ABTD”.

Os filtros de elegibilidade, etapas de triagem e codificação permanecem como descritos adiante. Incluímos artigos em periódicos (nacionais e internacionais) com evidência empírica para o contexto brasileiro. Excluímos trabalhos puramente conceituais. Quanto a teses, dissertações e anais, optamos por não os integrar ao corpo principal da evidência por não passarem, em regra, por revisão por pares equivalente à de periódicos; usamos-nos apenas de forma complementar para contextualização histórica ou técnica. A exceção é a tese pioneira de 2001, referida como marco histórico e metodológico do campo no Brasil.

A seleção ocorreu em duas etapas (títulos/resumos e leitura integral) com critérios de elegibilidade pré-definidos: foco em empresas brasileiras (ou amostras que permitissem isolá-las); uso de proxies quantitativas de GR (modelos de accruals, atividades reais, qualidade dos accruals ou distribuição de resultados); e desenho empírico transparente (definição de amostra, período, variáveis e estratégia de estimação). Compusemos um corpo principal de ~ 30 estudos publicados em periódicos, complementado por referências internacionais de base. As amostras incluem companhias abertas não financeiras e, em alguns casos, financeiras; há recortes por setores regulados e por estrutura de propriedade (familiares, estatais).

Na extração e codificação, registramos para cada estudo: período e universo amostral; fontes de dados; proxies/especificações (Jones/Jones modificado; ajuste de Kothari; Dechow-Dichev/McNichols; Roychowdhury); estratégia econométrica (efeitos fixos, GMM, regressão quantílica, erros-padrão clusterizados); controles e dummies institucionais (pós-IFRS, Big Four, ADRs, níveis de governança); e achados principais. Classificamos os trabalhos por eixo temático (IFRS e qualidade; governança/auditoria; contábil-fiscal/BTDs; contexto setorial e propriedade) e por família de proxies, permitindo comparações internas e entre métodos.

Mapeamos especificamente a RC&F: revisamos índices e arquivos (2000-2025) para identificar estudos que tratassem direta ou indiretamente de GR (qualidade dos lucros, suavização, impactos normativos). Catalogamos por quinquênio os artigos relevantes (tema, método, contribuição) para embasar a discussão da seção 6 sobre o papel editorial da RC&F. Não realizamos bibliometria; priorizamos síntese qualitativa e coerência metodológica.

3. LINHA DO TEMPO METODOLÓGICA E REGULATÓRIA (2000-2025)

Marco inaugural (2001) - A tese de doutorado de Antonio Lopo Martinez (2001) foi pioneira ao introduzir e definir “gerenciamento de resultados” no contexto brasileiro e ao estabelecer a base metodológica para mensuração por accruals em amostras nacionais. Esse trabalho antecede e prepara o terreno para a consolidação posterior em periódicos, notadamente o artigo de Martinez (2008), que se tornaria a referência empírica doméstica.

Início dos anos 2000 (2000-2004) - A produção empírica ainda é parcimoniosa, adotando o modelo de Jones (1991) e variações em recortes setoriais com janelas curtas sob o regime Brazilian Generally Accepted Accounting Principles (BR GAAP). O foco é comprovar a ocorrência do fenômeno em companhias brasileiras, em um ambiente de menor padronização informacional e de práticas de divulgação menos exigentes. A criação do Novo Mercado/Níveis 1-2 (a partir de 2000) adiciona incentivos reputacionais e contratuais à transparência, mas a agenda acadêmica segue prioritariamente detectiva (mostrar que há gerenciamento) antes de avançar para mecanismos de contenção.

Meados da década (2005-2009) - Consolida-se o uso de modelos por accruals. O modelo Jones modificado (Dechow et al., 1995) e o ajuste por desempenho (Kothari et al., 2005) passam a ser padrão para reduzir vieses em firmas com resultados extremos. O marco empírico é Martinez (2008), que estima accruals discricionários em larga escala (com estimação por setor-ano) e estabelece um protocolo doméstico de referência. Em paralelo, a Lei n. 11.638, de 28 de dezembro de 2007, inicia a convergência às IFRS; pronunciamentos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) alinham gradualmente a contabilidade societária ao padrão internacional. No fim do quinquênio, ganham tração sinais complementares, como descontinuidades à la Burgstahler e Dichev (1997), sugerindo gestão para evitar pequenas perdas.

Transição IFRS (2010-2011) - A adoção obrigatória das IFRS (consolidadas em 2010; individuais em 2011) cria um corte pré- e pós-IFRS explorado por estudos que comparam níveis de gerenciamento antes e depois do novo regime. Além dos modelos de accruals, cresce a avaliação da qualidade dos lucros via Dechow e Dichev (2002) e McNichols (2002), deslocando parte do foco da “métrica-sinal” para a fidedignidade intertemporal (coerência lucro-caixa). A agenda dialoga com o contexto pós-crise de 2008 (estresse financeiro, covenants), e as bases públicas da CVM tornam-se mais utilizáveis; os desenhos empíricos evoluem de cortes transversais para painéis com efeitos fixos e controles setoriais.

Primeira metade dos anos 2010 (2010-2014) - Com a convergência consolidada, a literatura nacional incorpora as proxies de atividades reais de Roychowdhury (2006) para investigar substituição de canal (aperto contábil → decisões operacionais). Estudos reportam recuo moderado de accruals no pós-IFRS e maior uso oportunista de descontos, superprodução e cortes discricionários em janelas de meta. Do lado institucional, intensifica-se o enforcement da CVM, e boas práticas de governança (comitês de auditoria; maior independência do conselho) surgem como moderadores. Em perspectiva contingencial, Joia e Nakao (2014) mostram que o efeito líquido IFRS depende de porte e endividamento, relativizando a expectativa de um impacto uniforme das normas.

Segunda metade dos anos 2010 (2015-2019) - Avança a sofisticação metodológica (efeitos fixos firma-ano, GMM, regressão quantílica) para lidar com endogeneidade e heterogeneidade. A literatura passa a tratar explicitamente o trade-off accruals↔real, ancorado em Zang (2012) (sequência: primeiro a intervenção operacional, depois o ajuste via accruals). Na RC&F, Reis e Costa (2015) documentam decisões operacionais para evitar prejuízos; Boina e Macedo (2018) mostram maior poder preditivo dos accruals sobre fluxos no pós-IFRS, sugerindo redução de ruído informacional. A entrada das IFRS 15/16 motiva testes específicos; resultados iniciais não apontam mudanças agregadas, mas revelam oportunidades pontuais de escolhas em receita e arrendamentos.

Anos recentes (2020-2025) - A fronteira migra para análise textual (tom, complexidade, coerência narrativa) e modelos de machine learning (ML) para triagem de anomalias, enquanto crescem estudos ancorados em processos/sanções da CVM e em monitoramento externo (mídia; analistas). O debate regulatório incorpora ações base erosion and profit shifting (BEPS) (transparência fiscal) e o environmental, social and governance (ESG) passa a interagir com incentivos de reporte, ora como freio reputacional, ora como nova arena de window dressing. Em governança-auditoria, a evidência refina papéis: Prata e Flach (2021) associam comitê de auditoria (CA) efetivo a menores accruals no pós-IFRS; Marques e Ramos (2022) relacionam Big Four e ADRs à redução do gerenciamento por accruals, com indícios de substituição para atividades reais em alguns contextos. Trabalhos recentes sugerem efeito disciplinador da cobertura midiática sobre práticas oportunistas. Na década de 2020, além do avanço em texto/natural language processing (NLP) e ML, proliferam estudos ancorados em enforcement (CVM) e governança externa (mídia, analistas), ambiente no qual a hipótese de substituição de canais ganha tração empírica.

No período de 2000 a 2025 (Figura 1), o Brasil transita de um foco quase exclusivo em accruals para um portfólio integrado (accruals, atividades reais, qualidade dos lucros e, mais recentemente, textual/IA) sob um regime IFRS maduro e um ecossistema de governança e fiscalização mais denso. A evidência indica redução moderada do espaço para accruals oportunistas após a convergência, avanço dos desenhos empíricos e maior ênfase em mecanismos institucionais (CVM, auditoria, mídia), sem eliminar estratégias substitutas no plano operacional.

Figura 1
Linha do tempo metodológica-regulatória do gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025)

4. PROXIES E MÉTODOS: MODELOS PRINCIPAIS E COMPARAÇÃO

A literatura brasileira consolidou quatro famílias de medidas para detectar GR, utilizadas isoladamente ou em combinação: (i) accruals discricionários (modelo de Jones e variantes, como Jones modificado e o ajuste por desempenho de Kothari); (ii) qualidade dos accruals (Dechow-Dichev e extensões); (iii) atividades reais (Roychowdhury); e (iv) abordagens híbridas/alternativas (combinações de sinais, distribuição de resultados e, mais recentemente, técnicas textuais/IA).

4.1 Accruals Discricionários (Jones, Jones Modificado, Kothari)

A intuição é que gestores ajustam estimativas contábeis (sem efeito imediato no caixa) para moldar o lucro. O modelo Jones (1991) estima accruals não discricionários com base em Δvendas e property, plant and equipment (PPE); o Jones modificado (Dechow et al., 1995) separa Δcontas a receber para mitigar reconhecimento prematuro de receita; o Kothari et al. (2005) adicionam ROA para controlar desempenho.

No contexto brasileiro, Martinez (2008) ancorou o uso do Jones modificado com estimação por setor-ano, prática que melhora a especificação ao respeitar heterogeneidades setoriais. Forças: aplicável com dados públicos padronizados; favorece análises de incidência e séries longas. Limites: risco de especificação (falsos positivos/negativos se variáveis relevantes forem omitidas), sensibilidade a outliers e necessidade de amostras mínimas por setor-ano para estabilidade. Mesmo com Kothari, choques operacionais legítimos podem ser confundidos com discricionariedade, recomendando robustez (winsorização, efeitos fixos e erros clusterizados). A mistura de regimes contábeis sem controles também é um risco: Cardoso et al. (2015) alertam para vieses ao combinar pré- e pós-IFRS sem separar os regimes.

4.2 Modelos de Qualidade dos Accruals (Dechow-Dichev e Extensões)

Aqui, a ênfase está na fidedignidade intertemporal do lucro: Dechow e Dichev (2002) modelam o capital de giro em função de cash flow from operations (CFO) t−1, t, t+1; quanto maior a variância dos resíduos (σ), pior a qualidade (maior ruído). McNichols (2002) agrega ΔReceita e PPE para refinar a decomposição normal/anormal.

No Brasil, essa família é usada principalmente para qualificar a informação e para estudos de consequências (persistência, custo de capital), mais do que para “flagrar” episódios específicos. Evidência pós-IFRS sugere melhora informacional: Boina e Macedo (2018) mostram que os accruals tornaram-se mais preditivos de fluxos de caixa futuros, compatível com menor ruído. Vantagem: capta desalinhamentos lucro-caixa de múltiplas fontes; limite: não distingue erro honesto, incerteza e manipulação deliberada, nem indica direção da intervenção, recomendando uso complementar às demais proxies.

4.3 Atividades Reais (Roychowdhury)

Roychowdhury (2006) identifica decisões operacionais anormais (dadas as vendas) por três vias: CFO anormal (descontos/prazos elevam vendas, mas deprimem caixa), produção anormal (superprodução dilui custo fixo) e despesas discricionárias anormalmente baixas [cortes oportunistas em marketing/Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)].

A literatura internacional documenta que choques de governança e enforcement podem reduzir accruals e, simultaneamente, deslocar a discricionariedade para canais alternativos, como atividades reais e medidas não-GAAP. Um marco é Cohen et al. (2008) (The Accounting Review), que mostram queda do gerenciamento por accruals após o Sarbanes-Oxley (SOX) e aumento do real earnings management e do uso de non-GAAP. Esse achado dialoga com resultados brasileiros que sugerem substituição de canal sob maior escrutínio (auditoria Big Four, ADRs, comitês de auditoria), reforçando a conveniência de avaliar conjuntamente proxies de accruals, atividades reais e divulgações alternativas.

No Brasil, o uso das proxies se intensificou no pós-IFRS, quando o aperto contábil pode induzir substituição de canal. Dois achados recorrentes: (i) empresas evitam prejuízos via decisões operacionais (Reis & Costa, 2015); (ii) GR operacional reduz a rentabilidade futura (Cupertino et al., 2016), evidenciando que o ganho de curto prazo cobra um preço em desempenho. Além disso, há indícios de que maior escrutínio (auditoria Big Four e ADRs) reduz o canal contábil, com migração para o operacional em parte das firmas (Marques & Ramos, 2022). Força: revela o que não aparece nos lançamentos. Limites: dependência de funções “normais” bem especificadas por setor-ano e risco de classificar estratégias legítimas como “anormais” se o benchmark for frágil - motivo pelo qual a combinação de sinais (CFO↓, PROD↑, DESP↓) e o foco em janelas de incentivo (ofertas, metas, covenants) são recomendados.

Para um panorama atualizado e internacional do real earnings management, ver Habib et al. (2022) (Accounting & Finance), cuja revisão sistematiza escolhas empíricas, vieses de mensuração e prioridades de pesquisa, insumos que ajudam a calibrar as especificações usadas no contexto brasileiro.

4.4 Abordagens Híbridas e Técnicas Emergentes

Combinar sinais aumenta a robustez e reduz o viés de proxy única. Duas linhas clássicas: distribuição de resultados [à laBurgstahler e Dichev (1997)], que detecta quebras em torno de marcos (zero/variação mínima), útil como triagem macro, e índices compostos.

Três recomendações emergem da evidência brasileira. 1) Use múltiplas proxies: accruals e atividades reais capturam margens distintas de intervenção e respondem de maneira diferente às IFRS, à auditoria e à governança; métricas de qualidade e distribuição ajudam a qualificar o panorama. 2) Calibre por setor-ano e por regime: estimar por setor-ano, winsorizar (1%/99%), incluir efeitos fixos (firma/ano) e erros clusterizados tornou-se baseline no país; respeitar pré- e pós-IFRS evita vieses de regime [cf. Cardoso et al. (2015)]. 3) Alinhe a proxy à pergunta: incidência e séries longas favorecem accruals (com Kothari); testes de metas, janelas e sazonalidades operacionais pedem atividades reais; consequências econômicas (persistência, custo de capital, risco) combinam-se melhor com qualidade dos accruals.

A Tabela 1 resume as principais proxies de detecção usadas no Brasil, suas premissas e cautelas e as boas práticas consolidadas na RC&F.

Tabela 1
Proxies e modelos de detecção no Brasil (2000-2025)

5. EVIDÊNCIA BRASILEIRA: IFRS, GOVERNANÇA, AUDITORIA, TRIBUTAÇÃO E CONTEXTO SETORIAL

Esta seção integra a evidência empírica produzida no Brasil sobre GR em cinco frentes: (i) efeitos da convergência às IFRS; (ii) papel da governança e da auditoria; (iii) sinalização contábil-fiscal [BTDs/abnormal (ABTD)]; (iv) heterogeneidade setorial e de estruturas de propriedade; e (v) condicionantes institucionais (CVM, mídia, analistas). O objetivo é destacar convergências, tensões e condições de validade à luz de estudos publicados em periódicos nacionais (com destaque para a RC&F) e internacionais.

5.1 IFRS e Qualidade dos Resultados

A convergência às IFRS (2010/2011) é o principal choque regulatório do período. A evidência brasileira aponta, em média, redução moderada do GR por accruals no pós-IFRS, condicionada à presença de mecanismos de controle. Em governança, Prata e Flach (2021) documentam menores discretionary accruals quando há CA efetivo, indicando que a norma “funciona melhor” acoplada à boa governança. Sob a ótica da qualidade dos accruals, Boina e Macedo (2018) mostram maior poder preditivo dos accruals sobre CFO após a convergência, sugerindo menos ruído informacional. A literatura, contudo, não é monolítica: Joia e Nakao (2014) relativizam um efeito uniforme ao mostrar que controles por porte e endividamento podem anular diferenças médias; e estudos norma-específicos (IFRS 15/16) não encontram mudanças agregadas sistemáticas, ainda que apontem oportunidades pontuais de escolhas (receitas/arrendamentos). Metodologicamente, Cardoso et al. (2015) alertam para vieses ao misturar pré- e pós-IFRS sem controles de regime; estimações setoriais e separação de períodos tendem a produzir resultados mais consistentes.

O efeito IFRS é condicional: eleva o padrão de reporte, mas sua efetividade depende de governança interna, auditoria e fiscalização. Onde esses pilares estão presentes, o recuo nos accruals oportunistas é mais nítido; sem eles, os ganhos são tênues.

5.2 Governança e Auditoria: Freios e Substituições

A governança mitiga o GR quando existe e funciona. Em auditoria, Pelucio-Grecco et al. (2014) associam Big Four a menores accruals em cenários de incentivo a inflar lucros (resultado robusto em especificações alternativas). Em governança interna, evidências como Silva et al. (2021) (conselhos mais independentes; comitês atuantes) reforçam o efeito disciplinador dos mecanismos internos. Em contraste, Erfurth e Bezerra (2013) não detectam efeito do selo de listagem diferenciada (Novo Mercado/Níveis 1-2) sobre o nível de GR, sugerindo que credenciais formais, sem tradução em práticas concretas de controle, têm impacto limitado.

Um achado consistente é o efeito de substituição entre canais de GR. Marques e Ramos (2022) mostram que Big Four e ADRs reduzem o canal contábil, com sinais de migração para decisões operacionais em parte das firmas. Em propriedade, Holanda e Coelho (2016) mostram que controle acionário, composição da base, participação em listagens/níveis de governança e aspectos de negociação estão associados ao nível de GR nas companhias abertas brasileiras. O resultado sugere que características proprietárias e de listagem condicionam os incentivos e as oportunidades de manipulação, reforçando que credenciais formais (p. ex., níveis de governança) só reduzem GR quando se traduzem em práticas efetivas de controle. Do lado da governança externa, a mídia opera como mecanismo disciplinador: Passos e Gonçalves (2024) encontram associação negativa entre cobertura jornalística e GR, indicando que maior visibilidade pública eleva o custo reputacional de práticas oportunistas.

Esse padrão é consistente com a evidência internacional pós-SOX [e.g., Cohen et al. (2008)], que documenta compressão de accruals e maior uso de atividades reais e métricas não-GAAP quando o escrutínio contábil se intensifica.

5.3 Book-Tax Differences e Agressividade Fiscal

Diferenças entre lucro societário e lucro tributável (BTDs) sinalizam desalinhamentos. Em RC&F, Morais e Macedo (2023) mostram que ABTD captura ações discricionárias: ABTD+ tende a refletir lucro contábil artificialmente acima do fiscal (GR “para cima”); ABTD−, o oposto. Na mesma linha, Martinez e Leal (2019) associam baixa conformidade fiscal-contábil (muitas reconciliações entre bases) a maior GR, especialmente em firmas menores/menos rentáveis. Implicação: ABTD/BTDs anormais funcionam como red flags para auditores e reguladores. No plano internacional, a agenda BEPS eleva a transparência e a troca de informações, encarecendo estratégias fiscais agressivas e reduzindo espaço para manipulações contábeis atreladas a objetivos tributários, linha promissora para novos estudos em multinacionais brasileiras.

5.4 Setores, Listagem Internacional e Ciclos

Características setoriais modulam incentivos e oportunidades. Em regulados (energia, concessões), relatos apontam suavização em torno de metas/cronogramas regulatórios, com menor foco em meet-or-beat. Em bancos, provisões regulatórias e supervisão do Banco Central (BC) impõem dinâmica própria (parcialmente não comparável a não financeiras). Listagem internacional adiciona escrutínio: Marques e Ramos (2022) mostram que firmas com ADRs apresentam, em média, menos accruals, mas o ajuste pode migrar para o canal operacional. O ciclo econômico também importa: Paulo e Mota (2019) documentam que, em recessão/contração, há aumento de accruals e/ou GR real, enquanto na recuperação os accruals recuam (ajuste ao ciclo); há ainda registros de big baths em choques adversos (e.g., 2015-2016) e de suavização em bonanças (retenção de ganhos para amortecer quedas). Em força de trabalho, Rocha et al. (2022) encontram GR “para baixo” em setores labor-intensive, consistente com pressão negocial. Em dividendos, Martins et al. (2021) mostram que o GR reduz a persistência dos dividendos em mercados emergentes. Por fim, a fase de ciclo de vida também condiciona escolhas: Ribeiro et al. (2025) indicam GR real no crescimento, corte de despesas na maturidade, e predomínio de accruals no declínio.

Em conjunto, os estudos sugerem que as IFRS reduziram moderadamente o espaço para accruals oportunistas, mas o GR persistiu por substituição em atividades reais e em janelas institucionais menos vigiadas. Governança efetiva (conselhos independentes, comitês de auditoria) e auditoria de alta qualidade atuam como freios consistentes; ABTD/BTDs anormais e baixa conformidade são alertas úteis de baixa qualidade. A atuação da CVM, o escrutínio da mídia e a disciplina do mercado elevam o custo da manipulação visível, enquanto setor, propriedade, ciclos econômicos e ciclo de vida modulam incentivos remanescentes. A Tabela 2 apresenta um resumo sintético da evidência brasileira (2000-2025) por eixo temático.

Tabela 2
Evidência brasileira (2000-2025) por eixo temático

6. CONTRIBUIÇÃO DA REVISTA CONTABILIDADE & FINANÇAS (2000-2025)

A RC&F tem sido, há 25 anos, um laboratório editorial decisivo para a agenda brasileira de GR: traduziu métodos internacionais ao nosso contexto, elevou a barra metodológica (estimação por setor-ano, controle por desempenho, winsorization, erros clusterizados, corte pré- e pós-IFRS) e conectou evidência a problemas de governança, auditoria e supervisão. Para uma visão panorâmica por quinquênios, a Tabela 3 sintetiza artigos da RC&F e seus achados centrais.

Tabela 3
RC&F (200-2025) por quinquênios: artigos de GR

A virada empírica consolida-se com Martinez (2008), que aplica o Jones modificado em estimações por setor-ano, estabelecendo um protocolo doméstico e demonstrando, com base ampla, a incidência de accruals discricionários em companhias brasileiras. Em seguida, Nardi e Nakao (2009) documentam que maior GR se associa a maior custo da dívida, evidenciando consequências econômicas do oportunismo contábil e sinalizando que credores precificam lucros “embelezados”.

Com a adoção obrigatória das IFRS (2010/2011), a RC&F passa a acolher estudos que respeitam o corte pré- e pós-IFRS e operam com controles de desempenho. Em bancos, Dantas et al. (2013) validam um modelo de dois estágios para detectar alisamento via títulos e valores mobiliários (ganhos não realizados), mais prevalente em instituições pequenas/privadas, ilustrando como as margens discricionárias variam com o arcabouço regulatório setorial. Essa etapa abre caminho para a incorporação sistemática, na própria RC&F, das proxies de atividades reais no quinquênio seguinte.

De 2015 a 2019, a revista amplia o uso de painéis com efeitos fixos, robustez a outliers e inferência com erros clusterizados. Quatro resultados se destacam: Cupertino et al. (2016) mostram que GR operacional reduz a rentabilidade futura [return on assets (ROA)], advertindo para a perda de qualidade informacional quando gestores “puxam” o resultado com decisões subótimas; Sincerre et al. (2016) evidenciam inflação de lucros no período pré-emissão de dívida, explicitando janelas de incentivo que antecedem captação; Cunha e Piccoli (2017) mostram que board interlocking difunde práticas oportunistas entre firmas; e Consoni et al. (2017) indicam que divulgação voluntária, isoladamente, não reduz o GR, relativizando a crença de que “mais disclosure” bastaria para disciplinar. Também na RC&F, Paulo e Mota (2019) documentam que ciclos econômicos modulam accruals e GR real (recessão/contração ↑; recuperação ↓), reforçando a necessidade de calibrar testes à fase do ciclo.

No período de 2020 a 2025, a RC&F acompanha a fronteira temática. Santana et al. (2020) mostram que o sentimento do investidor se associa a accruals (otimismo ↑; pessimismo ↓), conectando finanças comportamentais a escolhas contábeis; Martins et al. (2021) evidenciam que o GR reduz a persistência dos dividendos em mercados emergentes, aproximando a qualidade do lucro de métricas de payout; Rocha et al. (2022) associam setores labor-intensive a GR “para baixo” (suavização sob pressão laboral); Morais e Macedo (2023) validam o ABTD como sinal de GR (ABTD+/− conforme a direção da manipulação), oferecendo um atalho prático para triagem contábil-fiscal; Passos e Gonçalves (2024) mostram que maior cobertura de mídia → menos GR, confirmando o papel disciplinador da visibilidade pública; e Ribeiro et al. (2025) indicam que o ciclo de vida condiciona o canal (crescimento: GR real; maturidade: corte de despesas; declínio: accruals), sugerindo que auditores e analistas devem levar a fase da firma em conta ao avaliar riscos.

Lida como conjunto, a contribuição da RC&F se organiza em três planos. No metodológico, de Martinez (2008) em diante, consolidou-se um padrão nacional de estimação (setor-ano, desempenho/Kothari, winsorization, erros clusterizados, pré- e pós-IFRS), e a revista acolheu avanços quando o mapeamento proxy ↔ pergunta era claro (metas/evitar perdas → atividades reais; consequências econômicas → qualidade dos accruals). No institucional, a RC&F ancorou o tema no Brasil: IFRS como corte; CVM como mecanismo de disciplina; níveis de governança como sinal imperfeito; Big Four como filtro de qualidade; e estatais/familiares como laboratórios de incentivos específicos. No editorial, ajudou a deslocar a agenda de “detectar sinais” para “avaliar mecanismos e consequências”: quando as IFRS reduzem espaço discricionário; como conselhos e comitês limitam escolhas; quando a mídia eleva o custo reputacional; e para onde o GR se realoca quando a margem contábil se estreita.

Persistem lacunas que a RC&F pode liderar: estudos qualitativos/de processo (entrevistas e estudos de caso em estatais/familiares, ou sob forte pressão regulatória) que expliquem o “como” e o “porquê” das decisões de reporte; comparações internacionais controladas (Brasil vs. pares latino-americanos, isolando enforcement, propriedade e profundidade de mercado); quase-experimentos refinados para IFRS 15/16/17 (descontinuidades, cronogramas, grupos expostos); e integração texto + números com transparência do pipeline (validação fora da amostra; abertura de código e dicionários).

Em síntese, a RC&F não apenas registrou o GR no Brasil; moldou a forma de estudá-lo. De Martinez (2008) a Nardi e Nakao (2009), de Dantas et al. (2013) a Cupertino et al. (2016) e Sincerre et al. (2016), de Cunha e Piccoli (2017) e Consoni et al. (2017) a Paulo e Mota (2019) e, mais recentemente, de Santana et al. (2020) a Ribeiro et al. (2025), o periódico consolidou marcos empíricos, conectou métodos a perguntas relevantes e delineou, por contraste, o que ainda precisamos entender para que a evidência siga acionável para reguladores, auditores e investidores.

7. AGENDA DE PESQUISA PARA OS PRÓXIMOS CINCO ANOS (2026-2030)

A agenda parte das lacunas mapeadas e das frentes promissoras da literatura brasileira (RC&F e outros periódicos), propondo rumos operacionais com foco em identificação crível, mensuração consistente e utilidade institucional. A ideia central é converter questões relevantes em desenhos viáveis no contexto de dados nacionais [CVM/Informações Trimestrais (ITR)-Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP), Economatica, notas explicativas, formulários de referência, bases setoriais e registros de enforcement], produzindo resultados cumulativos e acionáveis.

No plano metodológico, é necessário quantificar o trade-off entre accruals e atividades reais de forma integrada, combinando Jones modificado (ajuste de desempenho) e anomalias de Roychowdhury (CFO, produção, despesas discricionárias). O modelo deve impor coerência entre séries e considerar a escolha sequencial do gestor (real antes do contábil), conforme Zang (2012), com instrumentos plausíveis (choques de demanda, custo de capital de giro, mudanças em guias de auditoria ou regulação). A mensuração exige benchmarks setoriais dinâmicos, winsorização (1%/99%), efeitos fixos (firma e ano), erros clusterizados e análises de sensibilidade. Para cumulatividade, recomenda-se pré-registros e divulgação de código/dicionários.

No plano regulatório, a convergência às IFRS já é um corte consolidado; o passo seguinte é estimar efeitos norma-específicos. Projetos focados em IFRS 15 (receita) e IFRS 16 (arrendamentos) podem explorar quase-experimentos com grupos naturalmente mais expostos (setores intensivos em contratos de cliente ou em arrendamentos), usando difference-in-differences (DiD) com testes de paralelismo e placebos pré-adoção; em IFRS 17 (seguros), microdados regulatórios setoriais permitem avaliar se mudanças de mensuração deslocam o mix accruals/real. No eixo tributário, as ações BEPS e o reporte país-a-país oferecem choques de transparência que viabilizam event studies e staggered DiD em multinacionais brasileiras; a pergunta é se a maior transparência reduz BTDs anormais e, por transbordamento, aperta as margens de GR. Em todos os casos, é crucial distinguir efeitos de nível (mudança permanente no patamar de accruals) de efeitos de composição (migração para atividades reais), o que exige múltiplas proxies em conjunto.

No plano institucional, o foco desloca-se de “se funciona” para “quando e como funciona”. É preciso isolar efeitos de comitês de auditoria e conselhos independentes (rodízio de sócio, especialização, intensidade orçamentária), separando reputação de capacidade. Em estatais, variações exógenas (eleições, trocas de executivos) testam se pressões políticas afetam resultados e se comitês mitigam. Em ESG, integrar scores com variáveis textuais [tom, coerência Management Discussion and Analysis (MD&A)-números, evasiva] e portfólio accruals/real pode diferenciar transparência genuína de greenwashing. Em propriedade, explorar quando famílias mostram conservadorismo (accruals negativos) ou o inverso. Em bancos, separar efeitos prudenciais de oportunistas.

No plano tecnológico, modelos de linguagem e preditivos podem gerar variáveis explicativas rastreáveis (cautela/otimismo, legibilidade, evasiva), testadas em regressões tradicionais. Em classificação preditiva, recomenda-se treino fora do tempo e validação ex-post (republicações, autos da CVM). A digitalização [enterprise resource planning (ERP) integrado, auditoria contínua, blockchain, smart contracts] redefine pontos do ciclo de reporte, reduzindo ou criando brechas discricionárias. Estudos de caso setoriais combinados a painéis podem mapear áreas de rigidez e risco residual.

Três diretrizes transversais ancoram a agenda 2026-2030. Primeiro, identificação antes de mensuração: explicitar o desenho causal (hipóteses, common trends, placebos, sensibilidades) e, quando viável, explorar fontes exógenas (normas, choques setoriais, cronogramas regulatórios, eleições). Segundo, replicabilidade: publicar código e dicionários (e, quando permitido, amostras tratadas); revisitar protocolos clássicos com janelas atualizadas e specs pré-registradas; adotar relato transparente de exclusões/filtros e decisões de winsorization. Terceiro, relevância institucional: alinhar perguntas a prioridades de fiscalização (CVM, Receita Federal, órgãos setoriais), governança de auditoria (comitês/rodízio/escopo) e decisões de usuários (investidores, credores). Exemplos: medir o ganho marginal de comitês sob IFRS 15/16; avaliar se BTDs anormais sinalizam alvos de supervisão; estimar o benefício informacional de variáveis textuais rastreáveis em modelos de risco contábil.

Em síntese, a agenda combina aprofundamento de temas conhecidos (equilíbrio accruals-real, efeitos das IFRS) com fronteiras novas (texto/IA, ESG, impactos micro de normas). O fio condutor é claro: modelos integrados, identificação crível, abertura de materiais e perguntas úteis. A Tabela 4 organiza perguntas, desenhos e riscos, servindo de roteiro para pesquisas de impacto e utilidade regulatória no Brasil.

Tabela 4
Agenda 2026-2030: perguntas, desenho e viabilidade

8. CONCLUSÃO

Este artigo organizou um mapa prático do GR no Brasil, convertendo evidências dispersas em diretrizes claras sobre onde o GR tende a surgir, como se manifesta (accruals vs. atividades reais) e quando é mais bem contido (governança, auditoria, enforcement). A síntese não busca repetir autores, mas tornar acionáveis os achados para quem decide, supervisiona e audita, com foco em qualidade informacional e confiança no mercado.

Para auditores internos e independentes, os resultados sustentam um planejamento baseado em risco. Sinais como accruals discricionários elevados e persistentes, queda na qualidade dos accruals (lucro destoando do caixa), padrões anormais de atividades reais (CFO deprimido face às vendas, produção acima do plausível, compressões atípicas de despesas discricionárias) e BTDs anormais devem orientar natureza, extensão e timing de testes substantivos e de controles. Em termos operacionais, convém priorizar receita (cut-off, aging, provisões), estoques/produção (superprodução deliberada e margem), Selling, General & Administrative expenses (SG&A)/P&D (reduções oportunistas) e reconciliações contábil-fiscais que exponham discrepâncias entre o “lucro para o mercado” e a base tributável. Incorporar esses sinais à matriz de risco e discuti-los com o CA eleva a probabilidade de detectar distorções antes de desdobramentos reputacionais ou de liquidez.

Para reguladores e supervisores de integridade (CVM e órgãos correlatos), a evidência sugere priorizações. É recomendável construir painéis de risco que combinem BTDs, qualidade dos accruals e proxies de atividades reais como gatilhos de acompanhamento; reforçar a atenção a janelas críticas (pré-emissões, renegociações de dívida, ciclos eleitorais em estatais), quando os incentivos ao oportunismo aumentam; exigir transparência narrativa (coerência entre MD&A e números) e substância nos assuntos-chave de auditoria; e ampliar a cooperação com a esfera fiscal para cruzar evidências contábil-fiscais em regime de risco. Direcionar o enforcement para os pontos de maior probabilidade de desvio eleva o benefício esperado da fiscalização e desencoraja estratégias recorrentes.

Para emitentes e conselhos, a implicação é fortalecer a governança efetiva. Comitês de auditoria independentes e atuantes, especialistas financeiros no conselho, políticas claras para reconhecimento de receita e arrendamentos, e monitoramento contínuo de indicadores operacionais reduzem o espaço discricionário e elevam o custo de práticas oportunistas. É prudente rever incentivos de curto prazo (metas “binárias” em torno do zero ou de guidance), que alimentam decisões de janela, e alinhar remuneração variável a métricas de qualidade (persistência do lucro, geração de caixa, reconciliações contábil-fiscais). Em estatais, limitar acúmulos de poder e desenhar trilhos decisórios que blindem o reporte de ciclos político-eleitorais são condições para credibilidade.

Para investidores e analistas, a literatura oferece um conjunto enxuto de sinais de alerta: beats marginais e recorrentes; deterioração da qualidade dos accruals com CFO estagnado; produção “esticada” ou SG&A comprimida sem racional estratégico; BTDs persistentemente elevadas; e mudanças abruptas no tom e na coerência dos relatórios narrativos. Levar esses sinais aos modelos de triagem e precificação ajuda a separar ruído de desempenho, ajustar multiples e demandar divulgações adicionais quando necessário.

Os escândalos contábeis recentes no país reforçam a urgência da agenda: detecção tardia de anomalias gera perdas econômicas, corridas por liquidez, litigância e erosão de confiança. Conectar a agenda 2026-2030 a ações concretas, como painéis de risco para supervisão contínua, testes direcionados em auditorias e governança de dados para reconciliações contábil-fiscais, é o próximo passo para transformar conhecimento acumulado em prevenção.

Em suma, esta revisão reconecta pesquisa e prática ao organizar um léxico comum (proxies, premissas, cautelas) e um conjunto coerente de boas práticas para o contexto brasileiro. O ganho não está em listar estudos, mas em operacionalizar evidências: orientar auditorias a riscos materiais, supervisões a fragilidades informacionais, conselhos a escolhas de desenho de controle e investidores a sinais precoces de distorção. Essa convergência eleva a qualidade do reporte, reduz a assimetria informacional e aumenta a confiança no mercado de capitais, razões suficientes para sustentar, nos próximos anos, um programa de pesquisa aplicado ao GR que siga integrando métodos, identificação crível e utilidade institucional.

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  • 40
    Este é um texto bilíngue. Este artigo também foi traduzido para o idioma inglês, publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x2026100-2.en.
  • 50
    Este artigo foi especialmente produzido pelo autor para compor a Edição 100 da Revista Contabilidade & Finanças, a convite do Editor-Chefe Geral.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editor-Chefe Acadêmico:
    Andson Braga de Aguiar
  • Editores Convidados:
    Márcia Martins Mendes De Luca, José Alonso Borba, Raquel Wille Sarquis e Daniel Magalhães Mucci

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Nov 2025
  • Revisado
    21 Nov 2025
  • Aceito
    12 Dez 2025
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