RESUMO
O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito moderador da cultura nacional na relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional. A relevância desta pesquisa está em apresentar evidências de que as características culturais dos países têm influência na relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional. A literatura aponta, até o momento, que a maturidade da dívida influencia negativamente os relatórios contábeis conservadores. A cultura nacional pode influenciar a qualidade das informações contábeis inseridas nos estudos sobre o conservadorismo condicional, especificamente entre maturidade da dívida e o conservadorismo condicional. Os resultados oferecem suporte para que investidores, analistas, auditores e demais usuários de demonstrações contábeis entre empresas de países distintos. A amostra compreendeu os países que compõem o Grupo G20, totalizando 16 países, distribuídos entre os anos de 2010 e 2023. O total de observações foi de 162.188, abrangendo 11.350 empresas. Foram avaliadas as seis dimensões culturais apresentadas por Hofstede (1980, 2001). O conservadorismo condicional foi medido a partir do modelo de Khan e Watts (2009). A maturidade da dívida escolhida foi a de vencimento em 3, 4 e 5 anos. Os resultados apontaram que a cultura nacional de distância do poder, aversão à incerteza e orientação para o longo prazo amenizam a relação negativa entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional das empresas analisadas. Conclui-se que contextos culturais levam a práticas contábeis mais ou menos conservadoras e podem, indiretamente, influenciar a escolha da maturidade da dívida das empresas.
Palavras-chave:
cultura nacional; maturidade da dívida; conservadorismo condicional
ABSTRACT
The objective of this study was to evaluate the moderating effect of national culture on the relationship between debt maturity and conditional conservatism. This research is relevant because it presents evidence that the cultural characteristics of countries influence this relationship. Previous literature indicates that debt maturity negatively affects conservative accounting reports. National culture may affect the quality of accounting information in studies of conditional conservatism, particularly with regard to debt maturity. The results provide valuable information for investors, analysts, auditors, and other users of financial statements from companies in different countries. The sample included 16 of the countries that comprise the G20 Group and was distributed between 2010 and 2023. There were a total of 162,188 observations covering 11,350 companies. The six cultural dimensions presented by Hofstede (1980, 2001) were evaluated. We measured conditional conservatism using Khan and Watts's (2009) model. The chosen debt maturities were three, four, and five years. The results showed that national cultures with high power distance, high uncertainty avoidance, and a high long-term orientation mitigate the negative relationship between debt maturity and conditional conservatism in the companies analyzed. It can be concluded that cultural contexts lead to more or less conservative accounting practices and may indirectly influence companies' choice of debt maturity.
Keywords:
national culture; debt maturity; conditional conservatism
1 INTRODUÇÃO
O conservadorismo condicional (CC) representa o reconhecimento enviesado das más notícias, ocorrendo mais antecipadamente do que as boas notícias (Basu, 1997; Ball et al., 2000; Ball & Shivakumar, 2005). Moreira et al. (2010) afirmam que o CC está relacionado à tendência da contabilidade de exigir um maior grau de verificação das boas notícias para reconhecê-las no resultado em relação ao grau de verificação das más notícias. Isso significa reconhecer fatos econômicos de forma oportuna e assimétrica, privilegiando as más notícias em relação às boas notícias (Coelho, 2010). Assim, aplicar o conceito de conservadorismo (ou seja, verificação das boas notícias) restringirá as oportunidades dos gestores de manipular os lucros (Ahmed & Duellman, 2007).
Watts (2003 a ) afirma que o conservadorismo é um mecanismo que reduz os custos do conflito de agência entre as diferentes partes interessadas. O conflito de agência pode estar presente nas relações contratuais com informação assimétrica, pagamentos assimétricos e direitos de controle diferentes. Consequentemente, o endividamento através de contratos está associado a um maior grau de conflito de agência entre gestores (acionistas) e detentores de dívidas, devido aos titulares de dívidas estarem geralmente em desvantagem informativa, tendo como recompensa a assimetria das informações e direito de controle limitados.
Em um cenário de informação assimétrica, os investidores externos têm um incentivo para disciplinar os gerentes internos para limitar o risco e a seleção de vencimento da dívida, por ser um dos mecanismos para mitigar os conflitos de agência. A teoria da agência destaca o interesse próprio, onde cada pessoa agirá para maximizar seus interesses em detrimento dos outros, e que a capacidade de aceitar riscos varia entre acionistas e gestores (Eisenhardt, 1989). Portanto, segundo a teoria da agência, a dívida de longo prazo aumenta a probabilidade de expropriação de riquezas, seja por meio da substituição de ativos ou da distribuição de lucros aos acionistas. Assim, a diminuição ou o aumento do vencimento da dívida (maturidade da dívida) impactam as práticas contábeis, refletindo o nível de conservadorismo demandado pelos credores (Lee, 2015).
Nesse contexto, entre CC e maturidade da dívida (MAT), cabe destacar que os estudos sobre o endividamento nas empresas na literatura têm avançado (Chen, 2020; Loenert & Silva, 2020) na perspectiva de que há fatores específicos que influenciam o CC. Entre eles, pode-se destacar a estrutura da dívida (Ball, 2001; Watts, 2003 a ; Ramalingegowda & Yu, 2012; Li, 2013). O conceito de estrutura de endividamento segue os estudos que conceituam a dívida como a proporção com que as empresas utilizam de dívidas financeiras (empréstimos, financiamentos, debêntures, etc.) para financiar as suas atividades (Brito et al., 2007). Essas dívidas podem ser caracterizadas a partir do valor da dívida total e da maturidade da dívida. A dívida total é o valor das dívidas financeiras utilizadas pela empresa como fonte de financiamento de seu funcionamento (Hasan et al., 2014), enquanto a maturidade da dívida indica como está estruturado o vencimento da dívida da empresa ao longo do tempo (Choi et al., 2018).
Em relação à maturidade da dívida, cabe destacar que diversas razões podem justificar a escolha dos prazos para pagamento. Nguyen e Wald (2022) evidenciaram que a escolha da maturidade da dívida tem influência em relação ao tipo de dívida (emissão de dívida ou empréstimos bancários). Chang et al. (2012) afirmam que a cultura nacional e a governança corporativa influenciam a seleção da maturidade da dívida das empresas, dependendo se o sistema financeiro de um país é baseado em bancos (por exemplo, Japão e Alemanha) ou no mercado (por exemplo, EUA e Reino Unido).
Além dessas relações, outros estudos buscaram especificamente a relação com o conservadorismo. O estudo de Khurana e Wang (2015) afirma que, para prazos de dívida mais curtos (até cinco anos), haverá uma relação negativa com o conservadorismo condicional, pois financiamentos de longo prazo tendem a ser mais fiscalizados pelos credores e apresentam mais conservadorismo, segundo a perspectiva do gestor. Conforme alguns estudos (Haw et al., 2014; André et al., 2015), a explicação para empresas apresentarem CC está vinculada à estrutura da dívida (Zhang, 2008; Nikolaev, 2010), uma vez que o conservadorismo proporciona o monitoramento dos contratos de dívida, alertando mais rapidamente quanto à verificação do cumprimento da dívida, com base em números contábeis e no controle junto aos credores.
Além do endividamento, que é uma variável de nível empresa, outro fator, mas de nível país, tem sido investigado como relacionado ao conservadorismo contábil das empresas: a cultura nacional (Salter & Niswander, 1995; Wronski & Klann, 2020). ConformeGray (1988), a cultura nacional influencia o desenvolvimento da contabilidade nas empresas, além de impactar em suas práticas de forma distinta de país para país, pois, segundo ele, quanto mais um país se classifica em termos culturais, maior é a sua influência em termos de conservadorismo. As diferenças culturais entre os países influenciam o comportamento dos indivíduos e podem impactar as relações dentro da organização. Quanto maiores essas diferenças, mais divergentes tendem a ser as práticas administrativas, organizacionais e estratégicas (Ariño & De La Torre, 1998).
Sendo assim, este estudo foca nos conceitos culturais de Hofstede (1980), e que fazem parte do pressuposto de que a relação entre maturidade da dívida e conservadorismo pode ser afetada pelas características culturais de cada país. Este alinhamento cultural, que utiliza o efeito moderador das dimensões culturais, especificamente, baseia-se nos resultados de Gray (1988), que construiu construtos teóricos e hipóteses que ajudam a explicar e a predizer as diferenças entre as práticas contábeis de cada país de acordo com suas dimensões culturais. Portanto, Gray (1988) afirma que a ligação entre o conservadorismo e as dimensões propostas por Hofstede (1980) está mais fortemente relacionada com a aversão à incerteza, e que sociedades com maior nível de individualismo tendem a ter uma maior liberdade para emissão de julgamento e que a masculinidade está relacionada à divisão de papéis emocionais entre homens e mulheres, o que pode refletir visões diferentes dentro de uma sociedade. Essas dimensões permitem uma análise da força cultural destes países em relações pré-existentes.
Pesquisas que visaram observar a relação direta entre a cultura nacional do país e as práticas contábeis conservadoras não discutiram seu potencial efeito moderador sobre as relações pré-existentes no contexto dos negócios (Kang, 2004; Tsakumis, 2007; Zeghal & Lahmar, 2018; Guermazi & Halioui, 2020). Alguns estudos têm demonstrado que a dívida influencia negativamente o conservadorismo condicional (Watts & Zimmerman, 1986; Lee & Steele, 2019), pois a empresa precisa apresentar resultados positivos com mais frequência para justificar o investimento por meio de financiamentos de longo prazo (Hamdan et al., 2011) e, para tal, apresenta relatórios menos conservadores.
Em relação à maturidade da dívida, Khurana e Wang (2015) afirmam que, para prazos de dívidas mais curtos (até cinco anos), haverá uma relação negativa com o CC, pois financiamentos de longo prazo (acima de seis anos) tendem a ser mais fiscalizados pelos credores, induzindo maior conservadorismo (Zhang, 2008; Haw & Nikolaev, 2010; André et al., 2015). Fauver e McDonald (2015) destacam que os termos culturais demandam menos conservadorismo quando avaliados em relação à escolha da MAT dos contratos de dívida. Em suma, considerando as dimensões e interpretações existentes (Hofstede, 1980; Gray, 1988), a cultura nacional pode influenciar a necessidade de conservadorismo nas contratações de maior maturidade dos contratos de dívida.
Assim, com base no exposto, apresenta-se a seguinte questão de pesquisa: Quais são os efeitos da cultura nacional na relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional? O objetivo desta pesquisa é avaliar os efeitos moderadores da cultura nacional na relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional.
Os resultados contribuem para o entendimento do conservadorismo dos relatórios financeiros influenciado por aspectos internos (maturidade da dívida) e externos (cultura nacional) das organizações. Além disso, pesquisas que visaram observar a relação direta entre a cultura nacional e práticas contábeis conservadoras (Kang, 2004; Tsakumis, 2007; Zeghal & Lahmar, 2018; Guermazi & Halioui, 2020) não discutiram seu efeito moderador sobre relações pré-existentes no contexto dos negócios. Armstrong et al. (2010) pedem mais pesquisas para se entender melhor o papel do conservadorismo condicional na contratação de dívidas.
A relevância desta pesquisa está em apresentar evidências de que as características culturais dos países (Hofstede, 1980) têm influência em relações pré-existentes, tais como a representatividade, a maturidade da dívida, a estrutura de financiamento e o conservadorismo condicional (Khurana & Wang, 2015; Kang et al., 2017).
2 REVISÃO DA LITERATURA E FUNDAMENTAÇÃO DAS HIPÓTESES
Os estudos sobre CC costumam desenvolver o tema de duas maneiras. A primeira tenta evidenciar as consequências do conservadorismo (Lara et al., 2009; Kim & Zhang, 2016); a segunda, por sua vez, busca apontar as motivações e os incentivos para a prática conservadora dos registros contábeis (Ball & Shivakumar, 2005). Basu (1997) apresenta o conservadorismo contábil condicional, ou simplesmente conservadorismo condicional, como um requisito de verificação assimétrica de ganhos e perdas. O CC se caracteriza por escolhas contábeis (Watts, 2003b ). Assim, modelos de estimação do conservadorismo foram criados, complementados, adaptados, testados e criticados ao longo dos anos, a fim de obter respostas razoáveis para as questões de pesquisa.
A literatura tem avançado na perspectiva de que fatores específicos influenciam no conservadorismo condicional (Chen, 2020; Loenert & Silva, 2020). Entre eles, pode-se destacar a estrutura da dívida (Ball, 2001; Watts, 2003a; Ramalingegowda & Yu, 2012; Li, 2013). Ela pode ser caracterizada a partir de seu valor total ou de seu prazo (maturidade). O termo “maturidade da dívida”, utilizado em alguns estudos (Barclay & Smith Jr., 1995; Choi et al., 2018), indica como o vencimento das dívidas das empresas está estruturado, ou seja, se elas vencem a curto ou a longo prazo.
Pesquisas propõem que a maturidade da dívida pode ser usada para mitigar problemas de assimetria de informação (Flannery, 1986; Berger & Udell, 1998; Ortiz-Molina & Penas, 2008). Sob a perspectiva do tomador de crédito, as empresas sinalizam que são boas, e podem obter melhores condições de preço em caso de renovações subsequentes dos empréstimos. Do ponto de vista do credor, prazos de vencimento mais curtos permitem um controle e um monitoramento melhores dos gestores (Diamond, 1993). Myers (1977) argumenta que uma das formas de reduzir os conflitos de agência é encurtar prazo de vencimento da dívida pendente.
Estes conflitos de agência são abordados na Teoria da Agência, na qual os indivíduos são motivados por seus próprios interesses, e na qual a ação auto interessada e o comportamento oportunístico ocorrem em função de preferências e crenças específicas. (Lourenço & Sauerbronn, 2017). Para Bourdieu (2001), os agentes fazem parte de um campo de poder em contínuo conflito, cujas ações derivam do habitus, um princípio forjado pela história que gera as práticas sociais. Logo, a força de um agente depende do volume e dos diferentes tipos de capital social e cultural que possui.
Do e Nabar (2019) destacam que o conservadorismo pode estar relacionado ao crescimento de um país (na visão macroeconômica econômica), pois países classificados como emergentes têm mais espaço para crescer e, portanto, apresentariam maior conservadorismo, ou seja, são mais conservadores. Segundo esses autores, o conservadorismo reduz os custos de agência ao mitigar a assimetria de informações entre gerentes e proprietários da empresa, tentando gerar mais confiança nas informações contábeis em países que apresentam maior risco. O conservadorismo também cria valor ao aumentar a eficiência da contratação de dívidas.
Nesse contexto de conflito de agência, uma redução da necessidade de conservadorismo contábil pode se refletir em menores prazos de vencimento (maturidade) da dívida. A falta de informações faz com que os credores forneçam crédito de curto prazo como forma de se protegerem de um possível calote (Platikanova, 2017). Antoniou et al. (2008) sugerem que as dívidas de menor maturidade oferecem melhores oportunidades de monitoramento para os credores, já que os gerentes precisam abordá-los com mais frequência para renovar essas dívidas (Gul & Goodwin, 2010). Khurana e Wang (2015) evidenciaram uma relação negativa entre dívidas de curto prazo (três, quatro ou cinco anos) e o conservadorismo condicional, indicando que a adoção da abordagem contábil conservadora está mais relacionada à dívida com prazo de vencimento superior a seis anos. Salehi e Sehat (2018) observaram uma relação negativa (mas não significativa) entre a maturidade e o conservadorismo em empresas listadas na Bolsa de Valores de Teerã.
O estudo de Antoniou et al. (2008) destaca que, até o momento, na discussão entre maturidade e conservadorismo, especificamente, a maturidade com prazo menor é menos sensível a mudanças na variação de projetos realizados do que a maturidade com prazos maiores (Barnea et al., 1980). Com isso, a empresa pode apresentar relatórios menos conservadores quando tem dívidas de menor prazo, buscando obter um resultado econômico melhor. Kang et al. (2017) evidenciaram uma relação positiva entre conservadorismo e maturidade da dívida com prazos maiores. Destaca-se também que as associações entre conservadorismo e maturidade da dívida, bem como entre conservadorismo e crescimento financiado por dívida de longo prazo, são observadas principalmente em empresas com menos provisões em vigor. Esses achados sugerem que a demanda por conservadorismo não é uniforme nos diferentes horizontes de vencimento da dívida.
Considerando que a literatura sobre a relação entre maturidade e conservadorismo, em sua forma condicional, ainda é incipiente e que podem haver outros fatores, relacionados ao contexto de cada país, por exemplo, que ajudem a explicar essa relação, vislumbra-se uma lacuna de pesquisa. Nesse contexto, inserem-se as características culturais de cada país, que têm sido utilizadas para explicar determinadas práticas contábeis, como do conservadorismo (Gray, 1988; Salter & Niswander, 1995; Kanagaretnam et al., 2014; Wronski & Klann, 2020).
Portanto, essa relação pré-existente entre maturidade e conservadorismo pode ser avaliada por meio da moderação da cultura nacional. Para esse fim, o modelo de cultura nacional de Hofstede (1980) tem sido aplicado em estudos de contabilidade por diversos autores (Combs et al., 2013; Khlif, 2016; Reisch, 2020). Hofstede (1980, 2001) identificou seis dimensões culturais descritas como “problemas básicos com que todas as sociedades têm que lidar” (Hofstede, 2001, p. 29). Fatores culturais impactam a informação contábil reportada pelas empresas (Harrison & McKinnon, 1986; Perera, 1986; Han et al., 2010; House & Kennedy, 2013; Kwok & Tadesse, 2006).
Hofstede (1980) destaca que as dimensões culturais são: (1) individualismo versus coletivismo (IND): descreve a relação entre o indivíduo e o grupo e se reflete na forma como os indivíduos convivem, nomeadamente em seus valores coletivistas ou de lealdade; (2) grande versus pequena distância do poder (DP): relacionada à desigualdade social, é formalizada na relação entre os indivíduos e as autoridades; (3) forte versus fraca aversão à incerteza (AVER): relacionada às várias formas de lidar com a incerteza relativa ao futuro; (4) masculinidade versus feminilidade (MASC): relacionada à dualidade de gênero, nomeadamente às implicações sociais resultantes das diferenças existentes entre os gêneros feminino e masculino; (5) orientação a longo prazo versus orientação a curto prazo (OLP): a sociedade tem que manter alguns elos com o seu próprio passado, enquanto lida com os desafios do presente e do futuro. As sociedades priorizam esses dois objetivos existenciais de maneira diferente; e (6) indulgência versus restrição (INDULG): a indulgência significa uma sociedade que permite a gratificação relativamente livre dos desejos e impulsos humanos básicos, relacionados a aproveitar a vida e a se divertir, enquanto na restrição a sociedade suprime a satisfação de necessidades e as regula por meio de normas sociais rígidas.
Nesse contexto, Gray (1988) relaciona o modelo de Hofstede (1980) com os valores contábeis, apresentando que, quanto maior a classificação que um país ocupa em termos de AVER e menor em termos de IND e MASC, maior a probabilidade de ocupar uma elevada classificação em termos de conservadorismo. Além das dimensões destacadas por Gray (1988) relacionadas ao CC, foram delimitadas as demais três dimensões culturais de Hofstede (1980, 2001) (DP, OLP e INDULG) que podem apresentar influências moderadoras na relação entre a maturidade da dívida e o CC. O estudo de Kanagaretnam et al. (2014) reforça essa relação entre a cultura nacional e o CC. Guermazi e Halioui (2020) confirmaram a relação entre as dimensões da cultura nacional e o CC no período pós-IFRS. Goodwin et al. (2000) indicam que, em países com alto índice de Distância do Poder, as empresas são menos propensas a manipular dados. Segundo Fauver e McDonald (2015), empresas em países com maior nível de individualismo e maior aversão à incerteza são diferentes, dependendo do contexto cultural.
Nesse contexto, outras pesquisas têm encontrado resultados parciais sobre a influência da cultura nacional no CC. Kanagaretnam et al. (2014) evidenciaram, mesmo que em uma perspectiva do gestor, que o conservadorismo condicional está positivamente relacionado à aversão à incerteza e negativamente relacionado ao individualismo, embora seus resultados tenham sido obtidos a partir de uma amostra limitada a empresas financeiras.
Assim, a moderação da cultura nacional (CN) na relação entre a maturidade da dívida (MAT) e o conservadorismo (CC) pode trazer perspectivas diferentes para a aplicação dessa discussão. Pressupõe-se que a relação negativa entre a maturidade da dívida e o nível de conservadorismo tende a se intensificar ou a se amenizar à medida que aumenta o nível de uma característica cultural.
A primeira dimensão cultural é Distância de Poder (DP), que está associada à aceitação da desigualdade na distribuição de poder entre os membros de uma organização, conforme proposto por Hofstede (1980). Essa dimensão representa o grau em que indivíduos com menor poder hierárquico aceitam, e até esperam, uma distribuição desigual de autoridade. Embora alguns estudos empíricos não tenham identificado uma relação significativa com o conservadorismo (Sudarwan & Fogarty, 1996; Lima et al., 2016; Wronski & Klann, 2020), os achados de Goodwin et al. (2000) indicam que a cultura nacional caracterizada por uma DP elevada tende a amenizar os efeitos negativos da relação entre MAT e CC, constituindo a hipótese H1.
A dimensão cultural do Individualismo (IND), conforme definida por Hofstede (1980), refere-se ao grau de integração dos indivíduos em grupos sociais primários. Essa dimensão indica o nível de independência dos indivíduos em relação ao coletivo. Em sociedades com elevado índice de IND, as decisões tendem a ser tomadas de forma mais autônoma, muitas vezes influenciadas por um excesso de autoconfiança (Van den Steen, 2004; Chaui, 2008). Segundo Gray (1988), existe uma relação negativa entre o conservadorismo contábil (CC) e a dimensão cultural do IND. Assim, espera-se que o IND exerça um efeito moderador que potencializa a intensidade da relação negativa entre MAT e CC, constituindo a hipótese H2.
A dimensão cultural de Aversão à Incerteza (AVER) refere-se ao nível de estresse que uma sociedade apresenta diante de situações futuras desconhecidas ou imprevisíveis (Hofstede, 1980). De acordo com Gray (1988), essa é a dimensão que apresenta maior correlação positiva com o conservadorismo contábil, o que é corroborado por diversos estudos empíricos (Salter & Niswander, 1995; Sudarwan & Fogarty, 1996; Schultz & Lopez, 2001; Lima et al., 2016). Nesse contexto, espera-se que a cultura nacional de alta AVER amenize a relação negativa entre MAT e CC, o que constitui a hipótese H3.
A dimensão cultural de Masculinidade (MASC), por sua vez, refere-se ao quanto os valores dominantes na sociedade são “masculinos”, isto é, relacionados a aspectos como assertividade, aquisição de dinheiro e bens, em vez de cuidado com os outros, qualidade de vida ou pessoas (Hofstede, 1980). Essa dimensão apresenta uma relação negativa com o conservadorismo contábil, conforme alguns estudos (Salter & Niswander, 1995; Salter & Lewis, 2011). Dessa forma, a expectativa é de que a cultura nacional com alta MASC potencialize a relação negativa entre MAT e CC, estabelecendo a hipótese H4.
A dimensão cultural de Orientação de Longo Prazo versus Orientação de Curto Prazo (OLP) refere-se à sociedade na qual tem que se manter alguns elos com o seu próprio passado, enquanto lida com os desafios do presente e do futuro (Hofstede et al., 2008). Em sociedades com predominância da orientação de curto prazo, há uma ênfase maior em resultados imediatos e na preservação de tradições. Por outro lado, culturas com alta OLP tendem a valorizar a perseverança, o planejamento de longo prazo e a adaptação às circunstâncias futuras. Nesse sentido, quanto maior o nível de OLP em uma sociedade, maior tende a ser o grau de conservadorismo contábil adotado (Wronski & Klann, 2020). Assim, espera-se que a cultura de alta OLP atue como um fator moderador, amenizando a relação negativa entre MAT e CC, constituindo a hipótese H5.
A dimensão cultural Indulgência versus Restrição (INDULG) é definida como uma sociedade que permite a gratificação relativamente livre dos desejos e impulsos humanos básicos, relacionados a aproveitar a vida e a se divertir (Hofstede et al., 2022). Relacionando a dimensão com a prática do conservadorismo, acredita-se que sociedades mais indulgentes, mais propensas a aproveitar a vida, são menos conservadoras, pois, conformeGray (1988), o conservadorismo se caracteriza pelo uso da prudência e da cautela, em que os contabilistas mais conservadores optam por uma contabilidade mais cautelosa para lidar com a incerteza de eventos futuros (Wronski & Klann, 2020). Assim, espera-se que a cultura da INDULG potencialize a relação negativa entre MAT e CC, formando a hipótese H6.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A população é composta por empresas de capital aberto, disponíveis na base de dados Refinitiv Eikon, que compõem o grupo de países do G20. Esse grupo consiste num conjunto de países caracterizados pela relevante abrangência geográfica, dado que sua composição reúne nações de continentes diferentes (Leite & Aguilar, 2009), contribuindo para análises sobre culturas diferentes. Conforme a Tabela 1, até a Cúpula de 2023, o G20 é composto por 19 países, e a União Europeia, por 23 países:
Foram excluídas as empresas do setor financeiro, totalizando 13.598 empresas (Dechow et al., 2012; Demonier et al., 2015; Bushman & Piotroski, 2006; Chen, 2020). O setor financeiro foi excluído, pois, de acordo com Lee et al. (2018), tais empresas possuem diferentes regulamentos e suas demonstrações financeiras não devem ser comparadas com as dos demais setores (Dechow et al., 2012; Demonier et al., 2015). As empresas financeiras apresentam uma estrutura de dívida diferente dos demais setores, o que poderia distorcer os resultados da relação entre a maturidade da dívida e o CC (Canton, 2019). Ainda nessa etapa, foram excluídas as empresas de países considerados não representativos por possuírem menos de 100 empresas na base.
Destaca-se também que foram excluídas as observações para as quais a proporção da dívida de curto prazo em relação à dívida total é menor que zero ou maior que um, seguindo o estudo de Khurana e Wang (2015). Essa exclusão se faz necessária, pois a relação entre a dívida de curto prazo e a dívida total deve ficar obrigatoriamente entre zero e um. Valores abaixo de zero indicam dívidas negativas, enquanto valores acima de um indicam que a dívida de curto prazo é maior que a dívida total. Portanto, considerou-se que essas observações provavelmente conteriam algum erro, e, portanto, foram excluídas da amostra.
A amostra foi analisada entre 2010 e 2023 e se configura como não balanceada (com um mínimo de seis anos por empresa), totalizando 162.188 observações. Essa opção se justifica pela busca de maior robustez estatística, pois, na composição amostral, foram eliminadas as observações de empresas que não apresentaram todas as informações necessárias para a mensuração do conservadorismo condicional. Portanto, para um adequado acompanhamento cronológico durante as inferências (Gujarati & Porter, 2011), entendeu-se que a aplicação desse critério era necessária. Choi et al. (2018) aplicaram o balanceamento de três anos em seu estudo sobre a maturidade da dívida, evidenciando um meio mais apropriado de aplicação.
Esse período de análise equivale a 13 anos de dados, seguindo outros estudos sobre conservadorismo (Demonier et al., 2015). Os anos de 2020 e 2021 foram mantidos, mesmo com o período da pandemia do COVID-19, fato que foi controlado junto com os dados aplicados. Em seu estudo, Cui et al. (2021) destacaram que as empresas chinesas listadas nas bolsas de Xangai e Shenzhen aplicaram relatórios mais conservadores durante o surto de COVID-19 em relação a outras empresas. Nascimento et al. (2024) sugerem um aumento do conservadorismo durante a crise (Tabela 2).
O país mais representativo foi a China, com 41.719 do total das observações, seguida pelos Estados Unidos (30.541 observações) e pela Índia (28.945 observações), corroborando outros estudos (Zheng et al., 2012; Farooq & Amin, 2017; Chang et al., 2020). Por outro lado, os países com o menor número de observações foram Bulgária (516 observações), Grécia (914 observações) e Finlândia (1.049 observações), o que é coerente com outros estudos (Ashraf et al., 2016; Paredes & Wheatley, 2017; Wronski & Klann, 2020).
A métrica do CC foi baseada no modelo de Khan e Watts (2009), a partir da Equação 1. Destaca-se a adaptação ao modelo original mencionada anteriormente, que consistiu na troca da variável Alavancagem (Lev) por Tempo de Fundação (Fund). Essa mudança foi necessária, pois o modelo poderia criar duplicidade de informação na mensuração, já que a variável explicativa “dívida total” faz parte da proposta do estudo. Com a validação dos modelos mitigaram-se possíveis problemas de mensuração.
em que: LPAit = resultado contábil do exercício (lucro/prejuízo) por ação da empresa i no ano t; Pit-1 = preço médio da ação da empresa i no ano t-1; é o retorno da ação da empresa i no ano t; Dit = variável dummy que assume 1 quando o retorno da ação da empresa i no ano t é negativo e 0 caso contrário; Sizei = tamanho da empresa, de acordo com o logaritmo natural do valor de mercado; MBi = market-to-book; Fundi = logaritmo do nº de dias desde a fundação da empresa i no ano t; μj e λj = parâmetros invariantes entre as empresas, mas que variam de acordo com o tempo, estimados por regressões transversais anuais.
O processo de verificação do conservadorismo condicional implica na verificação dos estimadores gerados pela Equação 1. Calcula-se o C_Score por meio da Equação 2, que reflete as más notícias (C_Score), evidenciando o nível desse conservadorismo em cada empresa.
O C_Score revela o nível de conservadorismo condicional, por empresa e ano (Khan & Watts, 2009). Sendo assim, quanto maior o índice encontrado na Equação 2, maior o nível de conservadorismo da empresa. Os modelos econométricos para estimação do conservadorismo podem ter uma limitação, visto que a literatura aponta possíveis vieses em sua estimativa. Para minimizar isso, foi utilizado o modelo de conservadorismo apresentado por Khan e Watts (2009), baseado no modelo clássico de Basu (1997), o qual já foi utilizado em estudos da área contábil. Mesmo assim, não se elimina totalmente a possibilidade de viés em sua estimativa. Porém, os modelos aqui apresentados foram testados e ajustados para melhor aplicação da proposta de pesquisa.
Para testar as hipóteses de moderação dos níveis de cultura nacional nas dimensões de individualismo e aversão à incerteza na relação direta entre a maturidade da dívida e o conservadorismo, apresenta-se o modelo empírico a seguir:
em que: CC = nível de conservadorismo condicional da empresa i no período t; MAT = endividamento total da empresa i no período t, que vence em até 3, 4 e 5 anos (teste individual); CN = dimensão da cultura nacional do país j (6 dimensões culturais com teste individual); IFRS = variável dummy que assume 1 quando a adoção das IFRS da empresa i no ano t é negativa e 0 caso contrário; ComCod = sistema legal do país j (Common law/Code law) no ano t; Pandem = variável dummy que assume 1 quando o período de pandemia mundial da empresa i no ano t e 0 caso contrário; Ab.Coml = variável abertura comercial, representada pela soma das importações e exportações sobre PIB do país j no ano t; PIB = logaritmo do PIB do país j no ano t; TaxaCamb = taxa de câmbio do país j no ano t
As variáveis de controle IFRS, ComCod, Pandem, Ab.Coml, PIB e TaxaCamb visam capturar variações nos níveis de CC não relacionadas com a maturidade da dívida. Tais variáveis já foram testadas em relação ao CC em estudos prévios.
O modelo das características da cultura nacional proposto por Hofstede (1980) pode ser alvo de limitação, pois algumas críticas com relação ao seu uso foram feitas por outros estudos (McSweeney, 2002). Mesmo assim, o modelo é amplamente aplicado na literatura e é considerado um dos mais utilizados em pesquisas da área. No entanto, visando trazer maior robustez aos achados, também foi analisado o modelo de cultura nacional do Projeto GLOBE (House et al., 2004). Além disso, os modelos de cultura nacional apresentam mudanças ao longo do tempo e podem não representar a realidade de alguns países, especialmente aqueles que passaram por mudanças específicas. Hofstede (2001) argumenta que a cultura é útil quando analisada por meio de dimensões culturais, como um item que muda lentamente, de geração em geração.
Por fim, Wooldridge (2010) destaca que os problemas de endogeneidade normalmente originam-se de três causas: variáveis explicativas omitidas no modelo, erros de mensuração nas variáveis, e simultaneidade entre as regressões e a variável resposta. Nas premissas de mensuração dos dados, buscou-se amenizar essas características.
4 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
Para conseguir entender o conjunto de evidências empíricas obtido no processo de investigação, primeiramente apresenta-se a estatística descritiva das variáveis dependentes e independentes, expondo os valores de média, desvio-padrão, mediana e dos percentis 25 e 75 (Tabela 3).
A amostra foi composta por 162.188 observações, de 16 países, ao longo de 13 anos (2010-2023). O valor negativo de conservadorismo indica que, em média, as empresas analisadas não são conservadoras, apresentando baixo nível de conservadorismo condicional.
Moreira et al. (2010) destacam que, no Brasil, o conservadorismo condicional é encontrado em baixas proporções nos resultados contábeis publicados pelas companhias, semelhante aos achados apresentados na Tabela 3. Li et al. (2017) destacam diferentes níveis de conservadorismo na China, especialmente entre as estatais. André et al. (2015) afirmam que os países da Europa têm apresentado menor nível de conservadorismo após a implementação das IFRS. Diferente dos resultados encontrados, o nível de conservadorismo condicional identificado no estudo de Li (2013), o qual analisou 35 países entre 1991 e 2007, indica uma tendência ascendente em todo o período amostral.
Quanto às variáveis independentes referentes à maturidade da dívida, nota-se que a média dos valores da dívida com vencimento entre três, quatro e cinco anos está próxima de 50% a 55% da dívida total, o que indica que, para a amostra analisada, as empresas têm mais dívidas com vencimento mais longo (acima de cinco anos). O estudo de Khurana e Wang (2015) apresentou um valor médio da dívida total com vencimento em três anos de 0,48, indicando que, em média, 48% da dívida total vencia em três anos ou menos, enquanto os valores médios de vencimento em quatro anos e cinco anos foram, respectivamente, 54,7% e 60,8%. A amostra contemplou todas as empresas da base de dados da Compustat no período de 1985 a 2007. Na pesquisa de Lee e Steele (2019), que utilizou como proxy de maturidade da dívida a soma da dívida com vencimento em dois, três, quatro e cinco anos, obteve-se média de 0,20. Salehi e Sehat (2018) encontraram o valor 0,85 para a maturidade da dívida ao utilizarem o índice de dívidas de curto prazo sobre dívidas totais como uma proxy para a estrutura de vencimento da dívida em empresas listadas na Bolsa de Valores de Teerã, durante o período de 2011 a 2016. O mesmo critério foi utilizado nos estudos de Fan et al. (2012), que encontraram o valor de 0,58 na relação entre a dívida total e a dívida de longo prazo, e de Hasan et al. (2014), que observaram o valor médio de 0,53 para a maturidade da dívida das empresas da Austrália no período de 2000 a 2015.
As correlações entre as variáveis, apresentadas na Tabela 4, são, na sua maioria, significantes ao nível de 5%. As variáveis independentes de maturidade da dívida (Mat3Div, Mat4Div, Mat5Div) apresentam uma relação positiva com o conservadorismo, todas com correlação estimada de aproximadamente 0,09.
As dimensões da cultura nacional, do individualismo e da indulgência estão negativamente correlacionadas com o conservadorismo, enquanto a aversão à incerteza, a orientação de longo prazo, a masculinidade e a distância de poder estão positivamente correlacionadas. Esses resultados estão alinhados com a abordagem da influência cultural nos sistemas de evidenciação contábil de Gray (1998).
Em relação às variáveis de controle, observa-se que a adesão às IFRS se apresentou negativamente relacionada com o nível de conservadorismo (Brunozi Júnior et al., 2015). Quanto ao sistema legal (ComCod), foi percebida uma relação positiva, o que significa que empresas de países com sistema legal code law apresentam maior conservadorismo (Ball et al., 2000). Em relação à pandemia, a relação observada mostra-se positivamente correlacionada ao CC (Cui et al., 2021; Nascimento et al., 2024). A abertura comercial, que busca avaliar a capacidade de importação e exportação em relação ao PIB, se mostrou negativamente correlacionada com CC. O PIB mostrou-se positivamente correlacionado com o CC (Machado et al. 2022). Por fim, a taxa de câmbio de cada país também apresentou relação positiva com o nível de CC (Bittencourt et al., 2007). Essas relações, mensuradas pelas correlações, estão alinhados a outros estudos que também interpretam o CC.
O diagnóstico de multicolinearidade foi realizado a partir da estatística Variance Inflation Factor (VIF). A partir dos resultados desse teste, verificou-se que não existem problemas de multicolinearidade (Fávero et al., 2009). O pressuposto de homoscedasticidade dos resíduos foi avaliado por meio dos testes de White e Breusch-Pagan, os quais indicaram problemas de heteroscedasticidade, o que foi corrigido utilizando-se o estimador de erros robustos nos modelos de regressão.
As tabelas 5, 6 e 7 apresentam os resultados dos modelos estimados em relação ao nível de CC e à maturidade da dívida de 3, 4 e 5 anos, respectivamente. Os resultados apontam que todos os modelos apresentaram significância ao nível de 1% (0,000), indicando que a linearidade presumida para o modelo proposto não pode ser descartada. O R² dos modelos de regressão estimados manteve-se entre 22,22% e 25,17%. Os resultados do VIF indicam que os modelos estimados não apresentam problemas de multicolinearidade (Fávero et al., 2009). Os testes de Durbin-Watson apontam que não existe autocorrelação de primeira ordem entre os resíduos. Para a análise da moderação, as variáveis culturais foram padronizadas pela média.
O primeiro modelo das tabelas 5, 6 e 7 testou a relação direta entre a maturidade da dívida (MAT) e o conservadorismo condicional (CC). Os resultados apresentam uma relação negativa nos vencimentos de três anos (-0,0217), quatro anos (-0,0262) e cinco anos (-0,0317). Esses achados corroboram o estudo de Khurana e Wang (2015), que também encontraram uma relação negativa para os três períodos. A demanda por conservadorismo pode ser diferente para cada vencimento da dívida (ou seja, curto ou longo prazo), consistente com o efeito de monitoramento inerente associado à dívida de curto prazo (Myers, 1977). O resultado segue a ideia de que o condicionamento das notícias é benéfico para os credores (Ball et al., 2008), pois é considerado como uma qualidade da informação contábil, na qual as empresas são mais cautelosas com seus resultados econômicos.
As diferenças encontradas podem ser justificadas pela quantidade de dívida que está no longo prazo. Conforme Fan et al. (2012), o país com empresas com as maiores proporções de dívidas de longo prazo é os Estados Unidos, enquanto o país com empresas com a menor proporção de dívidas de longo prazo é a China. Outro ponto é que a cultura pode influenciar os sistemas financeiros, pois, conforme Rajan e Zingales (1995), os empréstimos de curto prazo dão aos bancos mais poder para disciplinar os mutuários, enquanto os empréstimos de longo prazo, com covenants, apenas permitem que os bancos executem ações severas se um pacto for violado.
De acordo com a hipótese H1, previa-se que a dimensão da cultura ligada à Distância do Poder (DP) atenuaria a relação negativa entre MAT e CC. Essa relação ficou comprovada pelos resultados, ou seja, quanto mais um país reflete a medida com que os membros com menor poder dentro das organizações aceitam, e até mesmo esperam, que o poder seja distribuído de forma desigual (Hofstede, 1980), maior será a demanda por conservadorismo, reduzindo a relação negativa entre MAT de 3, 4 e 5 anos e o CC.
Na hipótese H2, a relação teórica previa que a moderação do Individualismo (IND) potencializasse a relação negativa entre MAT e CC. No entanto, ficou comprovado que, quanto mais um país é individualista, o qual está ligado ao excesso de confiança do indivíduo (Chaui, 2008), menor o conservadorismo, amenizando a relação negativa entre maturidade da dívida e CC. Considerando que níveis maiores de dívidas com vencimento no curto prazo são gerados por políticas de monitoramento mais próximas por parte dos credores (Platikanova, 2017; Khurana & Wang, 2015), o efeito de mitigação dessa relação em sociedades mais individualistas pode estar associado à maior autoconfiança dos credores em sua escolha (Fauver & McDonald, 2015). Esse nível de confiança mais alto em sociedades orientadas para o indivíduo, por sua vez, refletir-se-á em menor conservadorismo para empresas nessas sociedades, quando relacionado a MAT de 3, 4 e 5 anos.
Para a hipótese H3, a predição teórica previa que a Aversão à Incerteza (AVER) amenizasse a relação negativa entre MAT e CC. A CN da AVER indica até que ponto uma sociedade se sente ameaçada por situações incertas (Hofstede, 1980, 2011). Nesse caso, os modelos demonstram que, ao considerar a moderação entre AVER e MAT, a variável independente MAT não se mantém significativa em comparação com o modelo 1. O que ocorre nesse caso é o aumento do erro-padrão estimado para o coeficiente associado a MAT e a redução de sua magnitude, em função de haver maior potencial explicativo da variável de AVER e da variável moderada AVER*MAT. Assim, pode-se entender que, ao considerar cultura nacional quanto a aversão à incerteza, o componente efeito do financiamento sobre o nível de conservadorismo perde relevância. Em contrapartida, maiores níveis de aversão à incerteza levam a menores níveis de conservadorismo (relação significativa a 1%), mas, conforme os níveis de dívida de curto prazo aumentam, as empresas tendem a aumentar seu nível de conservadorismo. Nesse cenário de dívidas de curto prazo, a hipótese defendida por Gray (1988) passa a fazer sentido.
Os resultados relacionados aos modelos considerando a MASC, tanto o nível de dívida de curto prazo (MAT) quanto o grau de MASC dos países, afetam negativamente o nível de CC, semelhante ao que foi observado por Salter e Niswander (1995) e Salter e Lewis (2011). Na hipótese H4, previa-se que a MASC potencializaria a relação negativa entre MAT e CC. Contudo, considerando os achados dos modelos, o nível de MASC atenua o efeito da maturidade da dívida sobre o conservadorismo. Ao considerar o conceito dessa dimensão, segundo Hofstede (1980), ambientes culturais mais ligados a coisas e dinheiro podem deixar a gestão menos preocupada com a qualidade do reporte prestado ou com o risco financeiro da empresa. Esse conceito pode ser um fator que justificaria o efeito mitigador encontrado.
Na H5, a previsão seria de que a OLP amenizasse a relação negativa entre MAT e CC. Os resultados corroboram a premissa, indicando que, quanto mais um país tem orientação para o longo prazo (OLP), maior a demanda por CC, amenizando a relação negativa entre MAT de 3, 4 e 5 anos e o CC. Isso ocorre pois, a sociedade que pensa com o seu próprio passado enquanto lida com os desafios do presente e do futuro (Hofstede et al., 2008), gerada pela insegurança, tende a ser mais conservadora, o que ameniza a relação.
Na H6, a predição teórica previa que a INDUL potencializasse a relação negativa entre MAT e CC. Não foi possível comprovar essa premissa com os resultados do modelo testado, então, quanto mais um país é indulgente, menor será a demanda por CC em relação a dívidas de até 5 anos. As sociedades mais indulgentes são mais propensas a aproveitar a vida e menos conservadoras (Hofstede et al., 2008). ConformeGray (1988), o conservadorismo se caracteriza pelo uso da prudência e da cautela, em que os contabilistas mais conservadores optam por uma contabilidade mais cautelosa, a fim de lidar com a incerteza de eventos futuros (Wronski & Klann, 2020). Logo, em ambientes indulgentes, a postura pode ser menos defensiva quando diante da pressão de dívidas de até 5 anos, resultando em suavizar a relação esperada (Tabela 8).
Inicialmente, pode-se verificar que, se os credores vêm de culturas que demandam maior conservadorismo, e essa demanda se expressa por meio da fiscalização de dívidas, então ela tenderá a ser maior nas dívidas que são mais fiscalizadas, ou seja, nas dívidas de longo prazo (acima de 6 anos) (Khurana & Wang, 2015). As dívidas de curto prazo (até 5 anos), por outro lado, são pouco fiscalizadas e, portanto, menos sujeitas às demandas dos credores por conservadorismo condicional, sejam eles culturalmente mais conservadores ou não. Sendo assim, a diferença entre a exigência de lucros conservadores de credores de curto prazo versus credores de longo prazo tenderia a aumentar à medida que aumenta a preferência cultural do credor pelo conservadorismo, pois essa preferência é mais fortemente transmitida em dívidas de longo prazo do que em dívidas de curto prazo.
Os resultados encontrados evidenciaram que a CN de DP, AVER e OLP amenizaram a relação entre MAT e CC, corroborando com a proposta das hipóteses H1, H3 e H5. A moderação da relação negativa amenizada pelo DP está relacionada ao nível reduzido de confiança causado pela alta desigualdade social (Zheng et al., 2012), gerando mais CC. Em relação à moderação com a inclusão da cultura da AVER, os estudos de Aggarwal e Goodell (2009) e de Kwok e Tadesse (2006) evidenciaram que os países com elevado nível de aversão à incerteza preferem retornos de investimento previsíveis, um estilo de gestão consultiva e transações baseadas em relações, fazendo com que a relação negativa prevista seja amenizada. Por fim, uma sociedade focada em valores culturais que se preocupa com uma OLP apresenta uma visão voltada para o futuro (Hofstede et al., 2008); logo, é mais conservadora em seus relatórios (Wronski & Klann, 2020) e, por consequência, ameniza a relação negativa entre MAT e CC.
Por outro lado, as hipóteses H2, H4 e H6 tinham como predição teórica que os níveis de IND, MASC e INDULG potencializariam o efeito negativo da MAT sobre o CC, mas os resultados indicaram o oposto. Isso pode ser atribuído às características específicas dessas dimensões culturais em relação à MAT. Conforme o estudo de Zheng et al. (2012), que analisou a maturidade da dívida e a cultura nacional em 40 países, evidenciou que as empresas localizadas em países com alta masculinidade e alto coletivismo/individualismo tendem a usar mais dívida de curto prazo. Logo, esse comportamento leva à maior exposição aos riscos de refinanciamento e, consequentemente, a uma necessidade de práticas contábeis mais conservadoras, o que pode justificar a relação menos intensa entre MAT e CC. Sociedades mais indulgentes adotam práticas contábeis menos conservadoras (Wronski & Klann, 2020), porém, diante da MAT, resultou em menor impacto sobre o CC. Isso sugere que, em contextos culturais mais indulgentes, as empresas podem intensificar práticas conservadoras, em detrimento da exposição a maiores dívidas de curto prazo (até 5 anos).
Cabe destacar o número de empresas da amostra por país, considerando que alguns países têm um número maior de dados, como EUA, a China, a Índia e o Japão, o que pode gerar um viés nos resultados, influenciados por esses países com um número maior de observações. Diante desse resultado, cabe destacar que estudos fornecem evidências de que fatores como a proteção ao credor e as características do sistema financeiro de uma nação (sistema baseado em mercado versus sistema bancário) podem influenciar como as empresas são financiadas (Demirguc-Kunt & Maksimovic, 1999; Fan et al., 2012), o que pode justificar esses resultados.
Testes adicionais foram realizados com os níveis culturais do Projeto GLOBE (House et al., 2004). Nesse caso, foi possível corroborar com a maioria dos resultados para as culturas de Distanciamento de Poder, Coletivismo de Grupo, Igualdade de Gênero, Evitação (Aversão) à Incerteza, Orientação para o Futuro e Orientação Humana.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste estudo foi avaliar a moderação da cultura nacional na relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional. Para tal, realizou-se uma pesquisa com uma amostra de 11.350 empresas e 162.188 observações, provenientes de 16 países. Os resultados apontaram que dívidas de longo prazo contribuem para práticas contábeis conservadoras, ao passo que dívidas com prazos mais curtos (de até cinco anos, no máximo) fazem com que as empresas apresentem relatórios contábeis mais agressivos, ou menos conservadores.
Conclui-se que a cultura nacional de cada país afeta a relação entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional das empresas, conforme defende a abordagem da influência cultural de Gray (1998). Por meio dos achados deste estudo, e corroborando o exposto na literatura, conclui-se que as dimensões culturais de DP, AVER e OLP amenizam a relação negativa entre a maturidade da dívida e o conservadorismo condicional das empresas analisadas, enquanto as dimensões culturais de IND, MASC e INDUL, mesmo que significativas, atenuam a relação entre MAT e CC.
Esses resultados vêm ao encontro (Penalva & Wagenhofer, 2019) das tentativas de contribuir para a literatura sobre os efeitos econômicos do grau de conservadorismo em cenários de contratação de dívida, impulsionados por mercados orientados ao capital de terceiros. Esta pesquisa contribui, ainda, para o aprimoramento de discussões que envolvem as dimensões culturais (Hofstede, 2001, 2022). Este estudo também responde à demanda por pesquisas que estudem a relação entre os atributos dos relatórios financeiros e as decisões de financiamento das empresas (Armstrong et al., 2010; Kang et al., 2017).
Sugere-se algumas oportunidades para pesquisas futuras: investigar modelos adicionais de conservadorismo condicional; agrupar os países com características específicas por região. Outra sugestão é ampliar as discussões em relação à cultura dos países, utilizando os demais níveis de CN do Projeto GLOBE (House et al., 2004) em conjunto com Hofstede (1980, 2001, 2022).
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Este é um texto bilíngue. Este artigo também foi traduzido para o idioma inglês e publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x20252185.en.
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Este artigo deriva de uma tese de doutorado defendida pelo autor Oderson Panosso, em 2023.
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo podem ser disponibilizados a partir de solicitação aos autores.
APÊNDICE
O Projeto GLOBE, de House et al. (2004), apresenta as seguintes medidas de cultura nacional: distância do poder, evitação (aversão) à incerteza, igualitarismo de gênero, coletivismo institucional, coletivismo em grupo, orientação para o desenvolvimento, orientação para o futuro, orientação humana e assertividade, sendo os níveis culturais determinados por notas que variam entre 1 e 7, e quanto maior a nota, mais forte a característica cultural presente no país (House et al., 2004). Neste estudo, através dos testes adicionais utilizando os níveis culturais de House et al. (2004), foi possível corroborar os resultados para as culturas de Distanciamento de Poder, Coletivismo Institucional e de Grupo, Igualdade de Gênero, Orientação para o Futuro e Orientação Humana.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo podem ser disponibilizados a partir de solicitação aos autores.
