Open-access ALTERAÇÕES CLÍNICAS PERIODONTAIS E MASTIGATÓRIAS EM INDIVÍDUOS COM DEFICIÊNCIA MENTAL

Periodontal and masticatory clinical alterations in mental retarded people

RESUMO

Objetivo:  traçar um perfil da função mastigatória e das condições periodontais em indivíduos com retardo mental, incluindo síndrome de Down.

Métodos:  vinte pacientes submetidos à avaliação periodontal e fonoaudiológica.

Resultados:  as principais contribuições foram: (1) há alterações significantes entre os indivíduos avaliados, tanto na área de odontologia como na fonoaudiologia; (2) foram observados 15% de indivíduos apresentando doença periodontal em graus variados e, também 85% que apresentaram gengivite marginal associada a placa bacteriana; (3) foram observadas alterações de mastigação em 90% dos indivíduos; (4) das mastigações alteradas, 55% foi com lábios abertos, 50% ruidosa, com pouca força de mordida e dificuldades com alimentos consistentes, ocasionando evidentes prejuízos a deglutição; (5) dos casos avaliados 60% apresentaram deficiência na higiene oral. Foram examinadas todas as estruturas que compõem o periodonto e as estruturas envolvidas na mastigação, estática e funcionalmente.

Conclusão:  estas avaliações deveriam constar, como prevenção, da rotina de atendimento aos pacientes com deficiência mental.

DESCRITORES:
Pessoas portadoras de deficiência mental; Mastigação; Doenças periodontais/prevenção & controle

ABSTRACT

Purpose:  to profile the masticatory function and periodontal conditions in mentally retarded individuals, including Down Syndrom.

Methods:  twenty patients did periodontal and phoniatric checkup.

Results:  the main findings were: (1) there are meaningful odontological and phoniatric alterations among the examined individuals. (2) 15% of the individuals showed periodontal diseases in several degrees and 85% of them showed marginal gingivitis associated to bacterial plaque. (3) Masticatory alterations were observed in 90% of individuals. (4) 50% of the masticatory alterations were with opens lips, 50% were noisy with weak chewing force and difficulty with consistent food, causing evident damage to swallowing. (5) 60% of the examined individuals showed oral hygienic deficiency. There were examined all structures which form the periodontum and the ones involved in functional and static mastication.

Conclusion:  these examinations should be held as a preventive routine of the treatment of the mentally retarded people.

KEYWORDS:
Mentally disabled persons; Mastication; Periodontal diseases/ prevention; control

INTRODUÇÃO

A boca é a parte do sistema digestório que tem fundamental importância no contexto digestivo como elemento receptor de alimentos, fonte única de energia que o organismo animal utiliza para o seu desenvolvimento 1.

É na boca que ocorre a mastigação, função mais importante do sistema estomatognático, onde, após a captura dos alimentos, há a ocorrência de um conjunto de ações que visam morder e degradar mecanicamente esses alimentos transformando-os, mediante a trituração e a moagem, em partículas pequenas que se unem por ação da saliva, formando o “bolus” alimentar para ser deglutido e incorporado posteriormente ao meio interno 1-3.

A boca tem nas suas estruturas inúmeros receptores orais, com importante função sensitiva imprescindível para o processo alimentar. Muitos deles estão localizados no periodonto, órgão formado por tecidos de revestimento e de suporte do dente 1-2.

Estruturalmente, esse órgão é composto de um periodonto de proteção formado, basicamente, pela gengiva que adere ao osso alveolar, e um periodonto de sustentação formado de cemento (tecido osteóide), ligamento periodontal (tecido conjuntivo denso e fibroso) e osso alveolar (parte da maxila e mandíbula) 1,4-6.

A gengiva tem, como toda a mucosa, função de manter hígido o aparelho de suporte dos dentes durante a sua fisiologia protegendo a articulação alveolodentária de invasão microbiana 1,5-6.

O periodonto de sustentação, permite que os dentes fiquem ajustados em sua posição, quando submetidos às forças de tração e pressão 1,5-6.

Como parte importante da função estomatognática, os receptores periodontais permitem o ajuste da força mastigatória (ação mecânica dos músculos da mastigação, resposta graduada da musculatura levantadora da mandíbula), pois são sensíveis à pressão exercida nos ligamentos periodontais pelos diferentes tipos de alimentos a serem mastigados. Os receptores periodontais também têm limiar baixo e são rapidamente adaptáveis quando estimulados mecanicamente pelo contato oclusal 1-2.

A mastigação é uma função essencial na prevenção dos distúrbios miofuncionais e tem grande influência no periodonto pelo estímulo funcional que exerce sobre esse órgão 3.

Um padrão bilateral alternado propicia uma distribuição de força mastigatória, intercalando períodos de trabalho e repouso com equilíbrio muscular e funcional. Há excitação do periodonto de todos os dentes através do esfregamento oclusal e esse periodonto apresenta vitalidade. Isto depende de presença de dentes e boa saúde dental, crescimento e desenvolvimento crânio-facial, equilíbrio oclusal, ausência de interferências dentais ou contatos prematuros, estabilidade e saúde das articulações temporomandibulares e maturação neuromuscular 1-2,7.

Embora inúmeros autores entendam a mastigação unilateral como um mecanismo adaptativo para garantir o mínimo trauma para o periodonto, dentes e articulações, no decorrer do tempo, o resultado pode ser um periodonto sem vitalidade, com pouca irrigação sangüínea, pouca resistência e suscetível ao ataque de bactérias e germes que irão ocasionar as doenças periodontais, tais como gengivites com ulcerações e sangramentos, perda de fixação de dentes e perda óssea dos alvéolos dentários 7.

Por outro lado, pesquisas identificam que indivíduos com retardamento mental, portadores de Síndrome de Down, Diabetes e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) incluem-se nos grupos populacionais com maior suscetibilidade à doença periodontal 8.

Assim, neste trabalho, o objetivo foi constatar a presença de alterações mastigatórias e/ou presença de alterações periodontais na população pesquisada, e traçar um perfil da mastigação desses indivíduos, quer tenham ou não doença periodontal.

METÓDOS

Participaram deste estudo 20 indivíduos com deficiência mental, incluindo Síndrome de Down, 9 do sexo masculino e 11 do sexo feminino, com idades variando entre 7 a 24 anos e média de 15,1 anos. Foi realizado no período de junho a agosto de 2003, com alunos e /ou pacientes do Instituto Pestalozzi, em Canoas, no Rio Grande do Sul.

Inicialmente, os pesquisados foram avaliados pelo cirurgião dentista, especialista em periodontia.

No exame odontológico periodontal, utilizou-se exames clínicos com avaliação visual das gengivas e sondagem milimetrada para observar perda de inserção e profundidade de bolsa.

Em seguida, aplicou-se uma entrevista fonoaudiológica inicial e, por fim, preencheu-se um protocolo com as observações da função mastigatória desenvolvida pelo pesquisado frente ao terapeuta.

Na avaliação funcional da mastigação, utilizou-se como alimento de teste o pão francês, que favorece a visualização e não causa atipias erroneamente.

O estudo foi submetido de acordo com o comitê de ética em pesquisa do CEFAC sob número 180/02.

As variáveis foram descritas sob a forma de freqüências, com valores absolutos e proporções. A idade é descrita sob a forma de médias e desvio padrão.

RESULTADOS

Nesta amostra foi verificado que 90% dos indivíduos apresentaram mastigação alterada que estão representados na tabela 1, sendo que 85% apresentaram gengivite marginal e 15%, doença periodontal, observados na tabela 2. Todos os indivíduos avaliados apresentaram alteração na força mastigatória, preferindo alimentos moles.

Tabela 1
Avaliação Funcional da Mastigação
Tabela 2
Exame Periodontal

No exame periodontal, os mesmos indivíduos apresentaram graus diversos de gravidade, representados na tabela 2, e 95% dos indivíduos estavam associados ao acúmulo de placa bacteriana. Aqueles com periodonto de aspecto normal mostraram o cuidado dos pais no acompanhamento da boa higienização oral dos filhos, com incentivo à escovação e ao tratamento odontológico periódico preventivo.

Os principais aspectos fonoaudiológicos avaliados estão sumarizados na tabela 1, e os aspectos periodontais na tabela 2.

DISCUSSÃO

Considerando que indivíduos com deficiência mental apresentam deficiências motoras, que comprometem o controle de placa bacteriana, faz-se necessário intervir nesse processo infeccioso, visando interromper a destruição do periodonto. Caso contrário, a doença irá progredir, levando a periodontite. Por sua vez, haverá reabsorção óssea alveolar e menor será a capacidade de aplicar força ao dente, perdendo assim a capacidade moduladora da força mastigatória 1.

Observa-se que, na literatura, muito pouco se divulga a doença periodontal em pacientes com deficiência mental e síndrome de Down. No entanto, nossa pesquisa revela que tanto a mastigação como a presença de placa bacteriana são muito alteradas, na proporção de 90% para mastigação e 95% para presença de placa bacteriana.

A mastigação, função mais importante do sistema estomatognático 1-3, torna importante a presença de dentes e boa saúde dental, em função de ser um órgão fundamental para que ocorra uma boa mastigação 1-2.

É preciso, sem dúvida, que se dê especial atenção para a necessidade de se levar em conta o controle de placa bacteriana, como prevenção de futuros problemas periodontais e mastigatórios.

Nesta pequena amostra, podemos afirmar que, principalmente neste grupo de pacientes é de fundamental importância o acompanhamento odontológico preventivo e a atuação fonoaudiológica trabalhando-se a função mastigatória.

O grande número de indivíduos apresentando acúmulo de placa bacteriana se deve à falta de colaboração dos pacientes no controle desta, devido à deficiências motoras e de compreensão, frente às técnicas de higienização. Sendo assim, há necessidade que o cuidador seja orientado quanto aos cuidados e higienização oral.

Através de nossa experiência, constatamos que os pacientes com deficiência mental, em sua grande maioria, não são assistidos por atendimento odontológico, principalmente nas instituições, ficando sob a responsabilidade da família que, geralmente, não tem uma condição sócio-econômica favorável a que se faça o tratamento.

CONCLUSÃO

De acordo com as avaliações periodontal e fonoaudiológica realizadas com pacientes, podemos concluir que:

  • . A função mastigatória está alterada em 90% dos indivíduos, concluindo-se que em indivíduos com deficiência mental é importante o trabalho fonoaudiológico que dê atenção à função mastigatória.

  • . A gengivite marginal está presente em 85% dos indivíduos, sendo assim sugere-se um programa de tratamento e prevenção da doença periodontal em pacientes com deficiência mental.

AGRADECIMENTOS

Ao Presidente Prof. Armando Würth do Instituto Pestalozzi pelo apoio que nos foi dado, aos familiares, e aos pacientes que foram fundamentais para a realização desta pesquisa.

REFERÊNCIAS

  • 1 Douglas C.R. Tratado de fisiologia aplicada à fonoaudiologia. São Paulo: Robe; 2002. p.286-313, 345-370.
  • 2 Douglas C.R. Patofisiologia oral. São Paulo: Pancast;1998. p. 245-71, 513-27.
  • 3 Tanigute CC. Desenvolvimento das funçõesestomatognáticas. In: Marchesan, IQ. Fundamentos em fonoaudiologia: aspectos clínicos da motricidade oral. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. p.1-6.
  • 4 Köhler GI. Órgão dentário. In: Petrelli E, coordenador.Ortodontia para a fonoaudiologia. São Paulo: Lovise; 1992. p. 54-63.
  • 5 Lascala NT. Periodontia clínica. São Paulo: Artes Médicas; 1981.
  • 6 Marchesan IQ. Motricidade oral. São Paulo: Pancast; 1999.
  • 7 Bianchini EMG. Mastigação e ATM. In: MarchesanIQ. Fundamentos em fonoaudiologia : aspectos clínicos da motricidade oral. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. p.35-49.
  • 8 Barnett ML, Press KP, Friedman D, Sonnenberg EM. Theprevalence of periodontitis and dental caries in a Down’s syndrome population. J Periodontol 1986; 57: 288-93

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2004

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 2003
  • Aceito
    19 Nov 2003
location_on
ABRAMO Associação Brasileira de Motricidade Orofacial Rua Uruguaiana, 516, Cep 13026-001 Campinas SP Brasil, Tel.: +55 19 3254-0342 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revisora1@revistacefac.com.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro