RESUMO
Objetivo: descrever as categorias da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde de adultos e idosos com disfagia segundo aspectos clínico-assistenciais e sociodemográficos.
Métodos: estudo observacional, descritivo transversal, amostra composta por 50 adultos e idosos com disfagia orofaríngea. Foram utilizados o Critério de Classificação Econômica Brasil para conhecimento das condições socioeconômicas, avaliação das estruturas orofaciais envolvidas na deglutição, Protocolo de Avaliação do Risco para Disfagia, Escala Funcional de Ingestão por Via Oral para determinar a via de alimentação e a Classificação Internacional de Funcionalidade. Foi realizada pré-seleção dos componentes de Funções do Corpo (b - Body Functions) e Estruturas do Corpo (s - Structure) relacionados à habilidade de deglutição e a análise descritiva dos dados.
Resultados: a maioria dos participantes era do sexo feminino e idosa, apresentava disfagia leve e se alimentava por via oral com mais de uma consistência, mas com preparo especial. Foram identificadas 38 categorias da CIF, 28 de funções do corpo e 10 de estruturas do corpo, correspondentes à fala/comunicação, motricidade orofacial e disfagia.
Conclusão: foi possível descrever, por meio da classificação internacional de funcionalidade incapacidade e saúde, os componentes de estrutura do corpo e funções do corpo que o paciente com disfagia orofaríngea pode apresentar.
Descritores:
Transtornos de Deglutição; Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde; Serviços de Reabilitação; Adulto; Idoso
ABSTRACT
Purpose: to describe the categories of the International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF) of adults and older adults with dysphagia, according to clinical-care and sociodemographic aspects.
Methods: an observational, descriptive, cross-sectional study with 50 adults and older adults with oropharyngeal dysphagia. The study verified socioeconomic conditions with the Brazilian Economic Classification Criteria, assessed orofacial structures involved in swallowing, and used the Dysphagia Risk Evaluation Protocol, the Functional Oral Intake Scale to determine the feeding route, and the International Classification of Functioning. It also preselected Body Functions (b) and Body Structures (s) components related to swallowing ability, followed by descriptive analysis of the data.
Results: most participants were females, older adults, with mild dysphagia, and fed orally with more than one consistency, but with special preparation. The study identified 38 ICF categories, 28 related to body functions and 10 to body structures, corresponding to speech/communication, oral motor skills, and dysphagia.
Conclusion: the International Classification of Functioning, Disability and Health made it possible to describe the components of body structure and function that a patient presented with oropharyngeal dysphagia may show.
Keywords:
Deglutition Disorders; International Classification of Functioning, Disability and Health; Rehabilitation Services; Adult; Aged
INTRODUÇÃO
A deglutição é um processo neuromuscular complexo que envolve estruturas diversas, como nervos cranianos, diferentes grupos musculares e áreas cerebrais corticais e subcorticais, as quais devem realizar uma sequência de eventos coordenados para que o processo ocorra de forma eficiente e segura1,2.
O transtorno da deglutição, chamado de disfagia, pode ser decorrente de várias condições de saúde, como acidente vascular cerebral, doenças neurológicas progressivas, câncer de cabeça e pescoço, entre outras1,2. Acomete cerca de 27% de idosos na comunidade e pode chegar a 47,5% em sujeitos hospitalizados3. As principais complicações decorrentes da disfagia são desnutrição, desidratação e pneumonia aspirativa1,2.
O ato de se alimentar, além de suprir as necessidades orgânicas de nutrição para a sobrevivência, constitui também fonte de prazer, é um ato social e proporciona interação entre as pessoas3. Nesta perspectiva, o indivíduo com disfagia pode apresentar comprometimento da funcionalidade e incapacidades em diferentes extensões ou magnitudes.
A Organização Mundial da Saúde propõe a utilização da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), como uma ferramenta que fornece base para a compreensão e estudo da saúde e de condições relacionadas, em linguagem unificada e padronizada, para embasar parâmetros estatísticos referentes à saúde e à incapacidade e promover a participação, a inclusão e a saúde das pessoas com deficiência4. Baseia-se na abordagem biopsicossocial levando em consideração a visão das diferentes dimensões da saúde em suas perspectivas biológica, individual e social ((4)). Assim sendo, o termo funcionalidade abrange os aspectos positivos de todas as funções do corpo, atividades e participação, e, de forma díspar, o termo incapacidade abrange os aspectos negativos de deficiências, limitações de atividade ou restrição a participação4.
A Associação Americana de Fonoaudiologia (ASHA) sugere que a estrutura para a descrição de funcionalidade e saúde por meio da CIF é útil para expor a amplitude do papel do fonoaudiólogo na prevenção, avaliação, habilitação/reabilitação de distúrbios de comunicação e deglutição, aprimoramento e investigação científica dessas funções5. No Brasil, a política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa estabelece como meta a atenção integral à saúde da pessoa idosa, e considera a condição de funcionalidade como importante indicador de saúde dessa população6.
A CIF, utilizada na prática clínica, permite a classificação e codificação dinâmicas, com referenciação de códigos que se relacionam a várias dimensões da saúde (biológica, individual e social) com interação dos componentes de estruturas, funções do corpo e atividades e participação e as condições de saúde que podem ser modificadas pela intervenção clínica ou por mudanças no ambiente físico, social ou político4. Vale destacar que pessoas com uma mesma condição de saúde podem apresentar diferentes classificações na CIF, uma vez que é realizada com base nas características individuais e contextuais.
A aplicação da CIF na disfagia é viável em processos de diversas etiologias e pode contribuir para o manejo clínico em contextos de diagnóstico/reabilitação e permite a elaboração de um plano terapêutico centrado nas necessidades do paciente7. Desse modo a descrição das categorias nos transtornos de deglutição permite a compreensão ampla do estado de saúde do sujeito quanto à funcionalidade e à incapacidade e o acompanhamento da evolução terapêutica.
Embora a CIF contemple de forma integrada os componentes de Funções e Estruturas do Corpo, Atividades e Participação e Fatores Ambientais, optou-se por direcionar este estudo especificamente para as Funções e Estruturas do Corpo. Essa escolha se justifica pelo fato de que a disfagia, em adultos e pessoas idosas, manifesta-se primordialmente por alterações orgânicas e funcionais que influenciam os processos fisiológicos da deglutição. Dessa forma, a análise centrada nesse componente permite uma compreensão mais detalhada das condições clínicas associadas, fornecendo elementos essenciais para a avaliação e o planejamento terapêutico. Ainda que os aspectos relacionados às Atividades e Participação sejam fundamentais para a compreensão global da funcionalidade, neste trabalho eles foram abordados apenas de maneira contextual, uma vez que a ênfase clínica incidiu nas alterações estruturais e funcionais envolvidas na disfagia.
O objetivo do presente trabalho foi descrever quais são as categorias referentes às funções e às estruturas do corpo da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde que podem ser aplicadas na prática clínica fonoaudiológica na área de disfagia em adultos e idosos com disfagia segundo aspectos clínico-assistenciais e sociodemográficos.
MÉTODOS
Trata-se de estudo observacional descritivo transversal com amostra não probabilística composta por 50 usuários de um serviço ambulatorial do componente especializado de reabilitação de disfagia orofaríngea em um hospital público. Optou-se por um tamanho amostral de conveniência, baseado na demanda atendida durante o período de coleta e na natureza exploratória da investigação. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob o parecer 3.006.459, CAEE 00993018.3.0000.5149, estando em conformidade com os padrões reconhecidos pela Resolução 466/2012, Conselho Nacional de Saúde, Ministério da Saúde, Brasil.
Foram incluídos usuários do serviço com idade superior a 18 anos, diagnosticados com disfagia orofaríngea. Foram excluídos participantes que não apresentavam condições neurológicas ou cognitivas para compreender os instrumentos propostos ou que não responderam aos instrumentos por completo.
A caracterização dos participantes se deu por meio da análise dos prontuários, nos quais foram coletadas as seguintes informações: idade, escolaridade e local de residência. Para o conhecimento das condições socioeconômicas, utilizou-se o Critério de Classificação Econômica Brasil8, aplicado sob a forma de entrevista. Foram considerados idosos os indivíduos com idade superior a 60 anos9.
Quanto à avaliação da deglutição, foi utilizado o Protocolo de Avaliação do Risco para Disfagia (PARD)10, o grau de habilidade de deglutição foi classificado em sete níveis, que vão de deglutição normal (nível 1) até disfagia orofaríngea grave (nível 7). Já para se determinar a via de alimentação foi utilizada a Escala Funcional de Ingestão por Via Oral (FOIS)11, que determina desde nada por via oral (FOIS 1) até via oral total sem restrições (FOIS 7).
As categorias da CIF4 relacionadas à habilidade de deglutição foram elencadas de acordo com os componentes das Funções do Corpo (b - Body Functions) e Estruturas do Corpo (s - Structure). Este estudo foi elaborado como primeira etapa para a seleção e aplicação das categorias da CIF relacionadas à habilidade de deglutição. Pretende-se apresentar as categorias relacionadas às Atividades e Participação e Fatores Ambientais em estudos futuros. A avaliação das estruturas orofaciais envolvidas na habilidade de deglutição foi realizada por meio de protocolo de rotina do serviço, aplicado durante avaliação clínica da deglutição, onde se analisa: 1. Condições de saúde: estado de alerta, autonomia, independência e condições respiratórias; 2. Comunicação oral - qualidade vocal; loudness; ressonância; articulação; inteligibilidade de fala; linguagem expressiva; linguagem compreensiva; 3. Condições miofuncionais das estruturas do sistema estomatognático e cervical - face; lábios; língua; bochechas; palatos duro e mole; dentição; salivação; laringe. 4. Presença de reflexos patológicos e de proteção relacionados à alimentação- sucção, mordida, procura, GAG e tosse. 5. Avaliação funcional da mastigação e da deglutição.
Em primeiro momento, foi realizada, por uma das pesquisadoras, a seleção aberta ampla das categorias da CIF que se relacionavam à habilidade de deglutição de acordo com os protocolos utilizados na prática clínica fonoaudiológica do serviço, já mencionados anteriormente (Figura 1). Após o pareamento das categorias da CIF com os protocolos de avaliação da disfagia, duas pesquisadoras experientes na área de disfagia e na utilização da CIF, julgaram e selecionaram os códigos que apresentavam maior correspondência aos itens presentes nos instrumentos de avaliação clínica. Para tanto, foram realizadas reuniões entre as três pesquisadoras e as tomadas de decisões foram em consenso. Para a seleção das categorias da CIF foram realizadas as seguintes etapas:
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Estudo criterioso do protocolo de avaliação para identificação, descrição e determinação das categorias da CIF;
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Para cada componente da CIF, foi selecionado o conjunto de categorias, de acordo com os procedimentos realizados na avaliação clínica da deglutição;
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Análise individual dos protocolos de avaliação de cada um dos participantes para realizar correspondência com as categorias previamente selecionadas;
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Atribuição de um qualificador às categorias, sendo determinadas como:
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Funções do Corpo: 0 (nenhuma deficiência), .1 (deficiência leve), .2 (deficiência moderada), .3 (deficiência grave), .4 (deficiência completa), .8 (não especificada) e .9 (não aplicável).
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Estruturas do Corpo, primeiro qualificador, que diz respeito a extensão ou magnitude de uma deficiência: .0 (nenhuma de deficiência), .1 (deficiência leve), .2 (deficiência moderada), .3 (deficiência grave), .4 (deficiência completa), .8 (não especificável), .9 (não aplicável); segundo qualificador, utilizado para indicar a natureza da mudança na estrutura: .0 (nenhuma mudança na estrutura), .1 (ausência total), .2 (ausência parcial), .3 (parte adicional), .4 (dimensões aberrantes), .5 (descontinuidade), .6 (posição desviada), .7 (mudanças qualitativas na estrutura, incluindo acúmulo de fluido), .8 (não especificada), .9 (não aplicável); terceiro qualificador que indica a localização: .0 (mais de uma região), .1 (direita), .2 (esquerda), .3 (ambos os lados), .4 (parte dianteira), .5 (parte traseira), .6 (proximal), .7 (distal), .8 (não especificada), .9 (não aplicável).
Avaliação das Estruturas do Corpo e Funções do Corpo, de acordo com resultados obtidos na avaliação fonoaudiológica clínica da deglutição
Foi realizada a análise descritiva das variáveis estudadas, por meio da distribuição de frequência das variáveis categóricas e análise das medidas de tendência central e de dispersão das variáveis contínuas. Para entrada, processamento e análise dos dados foi utilizado o software SPSS, versão 25.0.
RESULTADOS
Dos 50 indivíduos participantes, a idade variou de 24 a 89 anos, média de 60 anos (±16,08) e mediana de 63 anos. A maioria era do sexo feminino (76,0%), idosa (56,0%), residia em Belo Horizonte (68,0%) e pertencia à classe C (56%) segundo o Critério de Classificação Econômica Brasil. A maior parte era analfabeta ou apresentava ensino fundamental incompleto, seguido de ensino médio completo. A escalas PARD e FOIS, revelaram que a maioria dos participantes apresentava disfagia leve (60,0%) e se alimentava por via oral com mais de uma consistência, mas com preparo especial (70,0%) (Tabela 1).
Foram selecionadas 38 categorias da CIF, sendo 28 de Funções do Corpo e 10 de Estruturas do corpo. As categorias selecionadas são apresentadas no Quadro 1.
Categorias da classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde selecionados para a pesquisa, segundo as respostas dos protocolos de avaliação da disfagia, protocolo de avaliação do risco para disfagia e escala funcional de ingestão por via oral
A classificação das Estruturas do Corpo segundo a CIF por extensão, natureza e localização, indicou que dentes, gengivas, língua e músculos da região da cabeça e do pescoço, foram os que apresentaram maior deficiência. Prevaleceu o qualificador não especificação da extensão da deficiência das estruturas do corpo em 38,5%, da natureza em 23,1% e da localização em 30,8% (Tabela 2).
A análise das funções do corpo verificou que a maior parte dos participantes apresentou alteração leve nas funções da voz, produção da voz, qualidade da voz, ritmo da fala, velocidade da fala, funções de ingestão, morder, mastigar, manipulação dos alimentos na boca, salivação, deglutição e deglutição oral (Tabela 3).
DISCUSSÃO
O primeiro ponto que merece destaque é o número elevado de categorias da CIF que foram selecionadas em busca aberta, tendo como referência os protocolos utilizados para avaliação dos participantes inseridos na pesquisa. Vale destacar que essa seleção das 38 categorias demonstra que, além da viabilidade do uso do modelo biopsicossocial, os protocolos selecionados para o estudo oportunizaram a discussão da implementação da CIF para avaliação, reabilitação e monitoramento no contexto da disfagia.
A seleção de 10 categorias de Estruturas do Corpo presentes em capítulos referentes a: estruturas relacionadas à voz e à fala, estruturas dos sistemas cardiovascular, imunológico e respiratório; estruturas relacionadas aos sistemas digestório, metabólico e endócrino; estruturas relacionadas ao movimento; e pele e estruturas relacionadas, reflete o fato de a disfagia orofaríngea ser um sintoma presente em diferentes afecções e, por vezes, um sintoma multifatorial1,3, além da variedade de estruturas necessárias para o ato de se alimentar. Dificuldades no processo de deglutição podem ocorrer por diversos motivos, como alterações dentárias, instabilidade no padrão de movimentação da língua, que impactam na motricidade orofacial e podem contribuir para deficiências na retenção e manipulação do bolo alimentar e na propulsão do bolo alimentar da cavidade oral para a faringe12.
Já em relação às Funções do Corpo, as 28 categorias presentes nos capítulos referentes às: funções mentais; funções sensoriais e da dor; funções da voz e da fala; funções dos sistemas cardiovascular, hematológico, imunológico e respiratório; e funções dos sistemas digestório, metabólico e endócrino indicam a possibilidade de utilização abrangente da CIF na área da disfagia. Tais funções integram a prática clínica fonoaudiológica na área de disfagia e manifestam-se com diferentes sintomatologias, como odinofagia, desnutrição e desidratação. A integração entre as funções e a adequada fisiologia é necessária para que haja o reconhecimento do alimento, formação do bolo alimentar, produção de saliva e toda a sincronia da biomecânica das fases da deglutição13.
Ao se observar os componentes de funções do corpo, houve deficiências leves relacionadas à deglutição e comunicação oral. Destaca-se que as estruturas utilizadas na comunicação e na deglutição são, em sua maioria, as mesmas. As alterações vocais podem estar presentes em sujeitos com disfagia ocorrendo, inclusive, sintomas como a voz molhada como sinal indicativo de estase de secreções, líquidos ou alimentos no vestíbulo laríngeo, bem como o risco de aspiração12. Um estudo realizado com o objetivo de estabelecer correlação entre condições da voz e as características da fala, em pacientes com diagnóstico de disfagia identificou múltiplas características de alterações de voz e fala em pacientes com disfagia, sugerindo uma investigação multidimensional entre as funções de comunicação e deglutição14. A CIF permite essa análise multidimensional, percorrendo todas as funções que estão correlacionadas possibilitando assim uma classificação que se torna mais completa.
A disfagia orofaríngea pode estar associada a distúrbios de linguagem, como a afasia, sendo que a preservação das capacidades cognitivas e comunicativas do paciente constitui um dos indicadores para a classificação do paciente na escala de independência relativa à deglutição funcional e que a flutuação do estado de consciência ou das funções cognitivas pode impossibilitar aprendizagens que favoreçam a deglutição15.
A estrutura da CIF para descrever a disfagia16 apontou que categorias e códigos referentes a Estruturas do Corpo se relacionam às partes do sistema neurológico e estruturas necessárias para levar o alimento à boca, manipulá-lo adequadamente e direcioná-lo ao estômago16. Já as categorias e os códigos relacionados à Funções do Corpo descrevem o processo de deglutição, incluindo movimentos específicos envolvidos na habilidade de deglutir, e refletem a implicação sobre como a pessoa será bem-sucedida no ato de comer e beber16. Um consenso brasileiro na área sugere que a avaliação de pessoas com disfagia deve abranger questões sobre as principais alterações comuns a essa faixa etária, considerando o envelhecimento ativo, o conforto e a funcionalidade metas de saúde para essa população17. Ressalta, ainda, que é importante compreender os efeitos da disfagia na vida das pessoas incluindo variáveis demográficas, como idade e raça, bem como traços de personalidade, estilos de enfrentamento e motivação. A elaboração de um checklist da CIF para a atuação fonoaudiológica no contexto hospitalar, indicou maior predomínio de categorias relacionadas às funções orais18. Funções de voz, fala, linguagem e motricidade orofacial estão interligadas à deglutição, não devendo ser fragmentadas no processo terapêutico de reabilitação fonoaudiológica.
No presente estudo observou-se que a maioria dos participantes com disfagia orofaríngea de grau leve e com via oral com múltiplas consistências, mas com preparo especial ou compensações (FOIS 5). A via de alimentação corrobora os achados do estudo que caracterizou as alterações relacionadas à deglutição e as principais intervenções e condutas fonoaudiológicas em pacientes em cuidados paliativos com disfagia orofaríngea, no qual se verificou que metade dos participantes também apresentava FOIS 519. A maior proporção de ocorrência de deficiência leve entre os participantes deste estudo pode estar associada ao perfil dos pacientes atendidos em serviços do componente especializado de reabilitação, uma vez que não se encontram em fase crítica de fragilização, como por exemplo, quando hospitalizados. Além disso, participantes que não apresentavam condições neurológicas ou cognitivas para compreensão e resposta aos instrumentos propostos foram excluídos, provavelmente, nesses casos, a disfagia poderia ser mais grave. Vale ressaltar ainda que há comprometimentos na biomecânica da deglutição que podem não ser identificados apenas com a avaliação clínica, como as aspirações silentes, podendo a extensão na CIF ser subclassificada20.
A temática da CIF na área de disfagia ainda é pouco explorada, sendo que a classificação pode ser utilizada como uma ferramenta para identificar a funcionalidade e a participação dos pacientes com transtornos fonoaudiológicos, além de pautar a evolução terapêutica na percepção do profissional, do paciente e de seus familiares e cuidadores21. Observa-se uma utilização mais ampla da CIF em áreas como Terapia Ocupacional, entretanto, estudos apontam carência em áreas como Fisioterapia22,23.
A frequência de “não especificado” da deficiência da extensão das estruturas envolvidas na deglutição se deve à falta de investigação instrumental para determinar de forma objetiva a magnitude da deficiência. Contudo, vale ressaltar a possibilidade de utilização da CIF junto à avaliação instrumental da biomecânica da deglutição como, por exemplo, a videofluroscopia da deglutição24, o Iowa Oral Performance Instrument - IOPI25, utilizado para medir a pressão da língua e instrumentos de triagem de disfagia17.
As características da presente amostra, no que se refere a gênero, faixa etária e escolaridade corroboram os achados de estudo que avaliou as características sociodemográficas, econômicas, clínicas e comportamentais e o grau de fragilidade de pessoas idosas atendidas em serviço de reabilitação do componente especializado26. Além disso, há maior predominância de perdas dentárias à medida que a idade avança e em mulheres, sendo que menor renda e escolaridade também se associam ao número de elementos dentários27. No processo de envelhecimento, há modificação da deglutição, decorrente de diversas causas, como o envelhecimento das estruturas envolvidas na habilidade de deglutir na senescência, ou como consequência de inúmeras doenças na senilidade, o que pode determinar a diminuição sensório-motora e funcional levando, por exemplo, a sintomas, como redução na produção de saliva, lentidão na formação e no transporte do bolo alimentar, presença de resíduo de alimentos no trato digestivo26.
A aplicação da CIF no contexto de serviços de reabilitação requer o desenvolvimento de ferramentas apropriadas para a prática clínica-terapêutica, a descrição da funcionalidade do usuário pode ser acompanhada por meio dos qualificadores trazidos pela classificação, permitindo, também, acompanhar as mudanças ao longo do processo terapêutico28. A CIF pode ser um modelo para designar orientações para a atuação dos profissionais de saúde com as consequências das doenças no envelhecimento, norteando planos terapêuticos individuais6. Ressalta-se também a possibilidade de sistematização dos dados, levando à identificar os indicadores de saúde e a sua contribuição para qualificar a assistência. Modelos de utilização da CIF em outros países mostraram que utilizar a classificação na rotina clínica estruturou as intervenções com ênfase nos aspectos de participação e ambiente29.
Uma revisão de escopo com o objetivo de identificar a variedade de medidas de resultados relatadas pelo paciente utilizadas em disfagia após AVC, indicou que os conceitos mapeados, de acordo com protocolos descritos na literatura, foram, em sua maioria, itens relacionados às Funções do Corpo e alguns conceitos relacionados ao capítulo Atividades e Participação30. A CIF reflete o efeito diverso e multifacetado da disfagia e pode ser uma estrutura para representar a sua complexidade.
Como limitações do presente estudo, podem ser indicadas as características amostrais, uma vez que foi realizado em um único serviço ambulatorial e a subjetividade na avaliação clínica fonoaudiológica, sem apoio de investigação instrumental, o que impactou diretamente nas classificações “não especificado”. Assim, a coleta baseada em protocolos clínicos pode implicar subdiagnóstico e, consequentemente, na subclassificação da CIF. Outra limitação foi a falta de validação cruzada dos componentes da CIF com outras escalas funcionais.
Entretanto, foi possível identificar as principais categorias da CIF, referentes às funções e às estruturas do corpo, passíveis de utilização em serviços ambulatoriais de disfagia, inclusive em serviços com intervenções em patologias variadas. Além disso, tal resultado aponta para a possibilidade de utilização da CIF em serviços com estrutura semelhante, além de permitir a discussão sobre a CIF com pacientes com disfagia. Pretende-se ainda explorar os aspectos relacionados à utilização da classificação no que se refere à sua aplicação no componente de atividades e participação, tendo em vista a execução de tarefas relacionadas à habilidade de deglutição e o envolvimento em situações de vida real. Para estudos futuros, sugere-se a validação dos componentes da CIF com outras escalas funcionais.
CONCLUSÃO
O presente estudo identificou 38 categorias da CIF, sendo 28 de funções do corpo e 10 de estruturas do corpo, que podem ser atribuídas a sujeitos com disfagia. Quanto aos componentes de estruturas do corpo avaliados em indivíduos com disfagia, verificou-se deficiência em categorias de diferentes capítulos, já para o componente de funções do corpo as categorias dentes, gengivas, língua e músculos da região da cabeça e pescoço foram as que apresentaram maior deficiência.
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Pesquisa realizada no Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
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Fonte de financiamento
O presente trabalho também foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Bolsa de Produtividade em Pesquisa - PQ: 307841/2022-7
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Declaração de compartilhamento de dados
Os dados dos participantes que fundamentam os resultados apresentados neste artigo estarão disponíveis em forma de texto, tabelas, figuras ou apêndices de acordo com a publicação do manuscrito de forma permanente, para acesso público. Os dados serão apresentados de forma a proteger a identidade dos participantes.
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