Open-access CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA EM DISLÉXICOS

Phonological awareness in dyslexics

RESUMO

Objetivo:  analisar a consciência fonológica em um grupo de disléxicos, visto sua importância no processo de aquisição da leitura e da escrita e sabendo que tal domínio configura grande dificuldade para as crianças com o transtorno em questão.

Métodos:  aplicou-se a prova de Consciência Fonológica em uma amostra de 15 crianças com dislexia, na faixa etária de 8 à 12 anos.

Resultados:  o desempenho nas tarefas silábicas foi nitidamente superior ao desempenho nas tarefas fonêmicas, no entanto, também se observou uma defasagem nas tarefas silábicas em relação ao esperado para a idade.

Conclusão:  nos disléxicos a consciência silábica é adquirida antes da consciência fonêmica, assim como nas crianças sem o transtorno em questão. No entanto, os resultados nas tarefas silábicas também se encontraram rebaixados. Quanto mais a criança depende da consciência fonológica para realizar a tarefa, maior é a sua dificuldade.

DESCRITORES:
Dislexia; Consciência; Linguagem; Leitura; Compreensão

ABSTRACT

Purpose:  to analyze the phonological awareness on a dyslexics’ group, provided its importance in the reading and writing acquisition process and knowing that such domain configures great difficulty for the children with the disorder at issue.

Methods:  phonological awareness test was applied in 15 children with dyslexia, from 8 to 12 years old.

Results:  the performance in syllabic tasks was clearly above the performance in phonemic tasks; nevertheless, a reduction in syllabic tasks was also noted with relation to the expectation for that age.

Conclusion:  the syllabic awareness is acquired before the phonological awareness in dyslexics, as well as the children without the said disturbance. Nevertheless, the results of syllabic tasks are also lowered. The more children depend on phonological awareness for carrying out the task, the worst their performance becomes.

KEYWORDS:
Dyslexia; Conscience; Language; Reading; Comprehension

INTRODUÇÃO

A dislexia do desenvolvimento é uma desordem da linguagem escrita que muitas vezes afeta criticamente o domínio fonológico da linguagem 1.

A aquisição e o bom desenvolvimento da linguagem escrita requer, entre outros fatores, a capacidade de reconhecer que as palavras são formadas por unidades menores e compreender a possibilidade de manipular tais unidades, chamadas sílabas e fonemas. Essa capacidade é conhecida como consciência fonológica 2-3. É necessário que a criança descubra que o código escrito corresponde às unidades da fala, ou seja, que os fonemas podem ser transformados em grafemas 3-6.

O conceito de consciência fonêmica refere-se apenas à consciência de fonemas, estando inserido no conceito mais amplo de consciência fonológica 2. Uma deficiência na manipulação desses segmentos pode gerar dificuldades na aprendizagem das correspondências grafema-fonema 7. A leitura ocorre de acordo com um modelo de dupla rota. Na rota fonológica, a leitura é feita por meio da decodificação grafemafonema, enquanto na rota lexical a palavra já é reconhecida visualmente, acessando diretamente o sistema semântico 8. No estágio inicial da leitura, o processo de decodificação pelo uso da rota fonológica é fundamental para a aquisição das representações ortográficas das palavras, o que posteriormente favorecerá a leitura via rota lexical 9.

A primeira dificuldade a se manifestar em crianças com dislexia do desenvolvimento aparece na decodificação grafema-fonema 10. Em função desta dificuldade, a leitura de palavras isoladas fica prejudicada, por isso os disléxicos apresentam menor índice de erros na leitura de palavras em contexto em relação à sua apresentação isolada, uma vez que no texto eles utilizam mais o acesso semântico 8,11. Além das dificuldades fonológicas, os disléxicos também podem apresentar outras manifestações, dentre elas, distúrbio de memória, problemas de orientação espaço-temporal, distúrbios de lateralidade e de percepção visual 1,12.

A dislexia é um distúrbio intrínseco que ocorre apesar de uma inteligência normal, instrução escolar adequada, oportunidades sócio-econômicas, ausência de déficits sensoriais, retardo mental, distúrbios neurológicos graves e problemas psicoafetivos primários 12-14.

O desenvolvimento adequado da consciência fonológica é vital para que a criança possa correlacionar os aspectos sonoros da fala com o código escrito, desenvolvendo adequadamente os alicerces da leitura e escrita 3.

O objetivo desta pesquisa é analisar a consciência fonológica em um grupo de disléxicos, visto sua importância no processo de aquisição da leitura e da escrita e sabendo que tal domínio configura grande dificuldade para as crianças com o transtorno em questão.

MÉTODOS

A prova de Consciência Fonológica 15 foi aplicada em uma população de 15 disléxicos na faixa etária de 8 anos a 12 anos. A população avaliada estava em atendimento no ambulatório de fonoaudiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, situado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto. A pesquisa foi realizada no segundo e terceiro bimestres de 2004.

A prova de Consciência Fonológica citada consiste em 10 tarefas fonológicas, cada uma contendo 4 itens, apresentadas a seguir: síntese silábica, síntese fonêmica, rima, aliteração, segmentação silábica, segmentação fonêmica, manipulação silábica, manipulação fonêmica, transposição silábica e transposição fonêmica.

A aplicação de cada tarefa foi precedida por dois exemplos iniciais em que o examinador explicava à criança o que devia ser feito e, se necessário, corrigia sua resposta. As explicações e ordens dadas às crianças para a execução de cada tarefa seguiram estritamente as recomendações dos autores.

A prova foi aplicada em cada criança individualmente, no próprio ambiente de sua terapia, com duração de aproximadamente 15 minutos, respeitando as características individuais e a motivação da criança.

Os dados foram analisados do ponto de vista qualitativo, por meio de análise percentual dos dados, freqüências absoluta e relativa.

O projeto de pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica sob o nº 080/04 tendo sido considerada sem risco e com necessidade do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Observa-se na Tabela 1 que todos os disléxicos obtiveram 100% de acerto nas tarefas de síntese e segmentação silábica. Na manipulação e transposição silábica não foram encontrados resultados inferiores a 75% de acerto. Na rima e aliteração, assim como nas demais tarefas silábicas, nenhuma criança apresentou ausência de acerto.

Tabela 1 Distribuição de acertos em tarefas silábicas (em %) nos disléxicos

As informações da tabela 2 (síntese fonêmica) revelam que a maioria apresentou índice de acerto superior a 75%. Na segmentação fonêmica, o desempenho também foi bastante equilibrado. Na manipulação fonêmica, embora nenhuma criança tenha tido alteração em todos os itens, apenas três crianças acertaram a totalidade das tarefas. A transposição fonêmica foi a tarefa em que os disléxicos apresentaram maior índice de alteração, grande parte errou todo o teste.

Tabela 2 Distribuição de acertos em tarefas fonêmicas (em %) nos disléxicos

Na tabela 3, a tarefa de pior desempenho foi transposição fonêmica, em que todos tiveram problemas e erraram 78% dos itens totais apresentados. Em seguida vem a segmentação e manipulação fonêmica com 80% de crianças com alteração e 55% e 36,6% respectivamente de média de erro. Em terceiro lugar está a rima com 73,3% de pessoas com dificuldades e 26, 6% de média de erros. As demais tarefas demonstraram-se equiparadas, vindo na seqüência: síntese fonêmica, aliteração, manipulação e transposição silábica respectivamente. Nenhum disléxico apresentou dificuldade na síntese e segmentação silábica.

Tabela 3 Comparação entre as tarefas de acordo com a quantidade de disléxicos que erraram (em %) e a média de erros (em %)

DISCUSSÃO

Os resultados encontrados neste estudo demonstram que há uma defasagem nas tarefas silábicas em relação ao ideal para a idade, uma vez que o esperado é que crianças apresentem bom desempenho nessas tarefas antes dos 6 anos 16-17. Ainda assim, o desempenho nas tarefas silábicas foi nitidamente superior ao desempenho nas tarefas fonêmicas. O maior grau de acerto foi atingido nas provas de síntese silábica e segmentação silábica, nas quais houve pontuação máxima para todos os avaliados. O menor grau de acerto foi encontrado na transposição fonêmica, tarefa esta que tem uma dependência maior da consciência fonêmica. Diante deste resultado fica evidente que a consciência silábica é adquirida antes da consciência fonêmica. Isso se justifica pelo fato das sílabas serem unidades que requerem menor esforço analítico 2,5,17.

Podemos verificar um contraste substancial entre as provas de segmentação e síntese fonêmica e as provas de rima e aliteração, contrariando outros achados onde os disléxicos apresentaram maior facilidade para segmentar e identificar as semelhanças sonoras no final das palavras 3,18. A consciência fonológica em crianças obedece a uma hierarquia de complexidade, sendo a rima e a segmentação as tarefas menos complexas dessa escala 3,18.

Alterações na consciência de que as palavras podem ser decompostas em segmentos, traz dificuldade para a criança fazer a correspondência fonemagrafema, primordial para a leitura 7,19. No entanto, uma boa aprendizagem da leitura também facilita o desenvolvimento da consciência fonológica e, conseqüentemente, da correspondência fonema-grafema 7,18. Assim, a habilidade fonológica pode ser um prérequisito, um facilitador ou uma conseqüência da aprendizagem da leitura20.

O déficit fonológico traz conseqüências secundárias aos disléxicos, como dificuldade na compreensão da leitura, o que provoca falta de interesse pela mesma; e, com essa falta de experiência, retarda o enriquecimento do vocabulário8,19.

Desta forma, podemos concluir que tanto a avaliação quanto a estimulação das habilidades de consciência fonológica são de extrema importância não apenas para predizer o adequado desenvolvimento da leitura e escrita, mas também para a detecção de possíveis transtornos fonológicos visando a reabilitação destes.

CONCLUSÃO

Na presente pesquisa encontrou-se melhor desempenho nas tarefas silábicas, evidenciando que nos disléxicos a consciência silábica é adquirida antes da consciência fonêmica, assim como nas crianças sem o transtorno em questão. No entanto, os resultados nas tarefas silábicas também se encontram rebaixados.

Quanto maior o grau de consciência fonêmica requerida na prova, pior o desempenho dos disléxicos.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2005

Histórico

  • Recebido
    20 Jul 2005
  • Aceito
    30 Nov 2005
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