Open-access PERFIL DO FONOAUDIÓLOGO NA CIDADE DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

The Speech-Language Pathologist profile in São José dos Campos city

RESUMO

Objetivo:  traçar o perfil do fonoaudiólogo na cidade de São José dos Campos, quantificando o número de profissionais atuantes, as áreas de atuação e atividades desenvolvidas.

Métodos:  foi elaborado um questionário abrangendo a formação de graduação e pós-graduação, atuação ou não na área, atividades desenvolvidas, tipo de vínculo empregatício, natureza da empresa, setor de atuação, jornada semanal, idade da clientela, convênios e renda.

Resultados:  cinqüenta por cento dos profissionais tem até 30 anos; 63% cursaram as seguintes faculdades: Pontifícia Universidade Católica - Campinas, Universidade de Mogi das Cruzes, Faculdade Teresa D’ Ávila e Pontifícia Universidade Católica - São Paulo; 60% cursaram pós-graduação e 50% se especializaram em motricidade oral; 78% trabalham em clínica particular ou consultório; 70% ganha até 10 salários mínimos e são credenciados em convênios médicos.

Conclusão:  a maioria dos profissionais tem no máximo 30 anos; formados na década de 90 e que se especializaram em motricidade oral ou audiologia; trabalham mais de 30 horas semanais em consultório ou clínica particular e ganham até 10 salários mínimos.

DESCRITORES:
Fonoterapia; Área de atuação profissional; Fonoaudiologia/estatística e dados numéricos; Fonoaudiologia/recursos humanos

ABSTRACT

Purpose:  to specify the speech-language pathologist profile in the city of São José dos Campos, indicating the number of professionals, the areas of working and developed activities.

Methods:  elaboration of questionnaire including graduation and pos-graduation, performing or not in the area, developed activities, kind of job entailment, business nature, acting sector, weekly journey, customers age, health insurance and salary.

Results:  fifty percent of the professionals are up to 30 years old; 63% are graduated at Pontifícia Universidade Católica - Campinas, Universidade de Mogi das Cruzes, Faculdade Teresa D’ Ávila e Pontifícia Universidade Católica - São Paulo; 60% are post-graduated and 50% are specialized in Oral Motricity; 78% work in private clinic or office; 70% get until ten minimum wage and are affiliated to health insurance.

Conclusions:  30 year-old professionals were the majority; graduated on the 90th and specialized in Oral Motricity or Audiology; work over than 30 weekly hours in office or private clinic and get until 10 minimum wage.

KEYWORDS:
Speech therapy; Professional Practice location; Speech, language and hearing sciences / statistics; numerical data; Speech; Language and hearing sciences/manpower

INTRODUÇÃO

Fonoaudiologia é a ciência que estuda a comunicação em suas diferentes manifestações. O profissional fonoaudiólogo pode atuar no diagnóstico, reabilitação, prevenção e pesquisa nas áreas de linguagem oral e escrita, audição, voz e motricidade oral1.

A história da Fonoaudiologia no Brasil surgiu no final dos anos 50 e até meados de 70, mas já na época do império pensava-se em reabilitação no Brasil, onde em 1855 foi fundado o Colégio Nacional, destinado ao ensino de pessoas surdas2. Procedimentos terapêuticos para distúrbios da linguagem eram de responsabilidade de um reabilitador e a ele couberam técnicas curativas inserindo-o no contexto clínico. Isto fez com que nos anos 70 surgissem muitas clínicas e centros de atendimento especializados3.

Os cursos de graduação em Fonoaudiologia foram criados no Brasil em meados dos anos 60, mas foi em 9 de dezembro de 1981 que a profissão foi legalmente reconhecida através da lei 6965/81. Com base no histórico da profissão, observamos que é ainda uma ciência nova se comparada a outras profissões da saúde; que inicialmente obteve caráter clínico e evoluiu para ações assistenciais à saúde da população4.

Em 1988, a instituição do Sistema Único de Saúde possibilitou à sociedade o acesso a serviços e ações de promoção, proteção e recuperação da saúde; e o fonoaudiólogo passou a integrar equipes de profissionais responsáveis por essas atividades5.

A profissão cresceu e o mercado de trabalho ampliou-se. Em 2001 o Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) acusava a existência de 67 cursos de graduação em Fonoaudiologia em nosso país. Em 1996, com a resolução n° 157/96 do CFFa, criou-se cursos de especialização em Fonoaudiologia nas áreas de motricidade oral, voz, linguagem e audição, proporcionando melhor aperfeiçoamento e atualização acadêmica do profissional6.

Em 1997 havia 82 fonoaudiólogos na cidade de São José dos Campos inscritos no Conselho Regional de Fonoaudiologia 2a Região7.

Esta pesquisa teve por objetivo traçar o perfil do fonoaudiólogo na cidade de São José dos Campos visando quantificar o número de profissionais atuantes no município, identificar suas áreas de atuação, caracterizar as atividades desenvolvidas nas distintas áreas de atuação, e analisar a própria profissão.

MÉTODOS

Visando a investigação do perfil do Fonoaudiólogo em São José dos Campos, foi elaborado um questionário composto de perguntas fechadas abrangendo as seguintes variáveis: formação de graduação (instituição e ano de conclusão); formação de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, ano de conclusão); dados profissionais (atuação ou não na área, atividades desenvolvidas, tipo de vínculo empregatício, natureza da empresa em que trabalha, setor de atuação, jornada semanal de trabalho, composição etária da clientela, credenciamento em convênios e renda).

Em novembro de 2002, foi enviado um questionário e uma carta para obtenção do consentimento livre e esclarecido, segundo Resolução 196/96 do Ministério da Saúde para 136 Fonoaudiólogos de São José dos Campos, sudeste do Brasil, e que atuam profissionalmente nesta cidade. Foi realizado um levantamento de vários endereços dos profissionais através das listas de referências dos convênios, lista de endereços das páginas amarelas e profissionais conhecidos das autoras.

Foi solicitado a todos os Fonoaudiólogos que respondessem o questionário no prazo máximo de sete dias, onde seriam recolhidos pessoalmente pelas autoras para evitar problemas de extravio que certamente interfeririam nos resultados da pesquisa.

Foram considerados excluídos da pesquisa os questionários que não forem devolvidos após duas tentativas de recolhimento.

Ética

A presente pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa-CEP, do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica (CEFAC); tendo sido considerada aprovada com o nº 176/02 como sem risco e com necessidade do consentimento livre e esclarecido.

Estatística

Análise descritiva Unidimensional (03:010). Área de aplicação: Bioestatística (14:030).

RESULTADOS

Iniciamos a análise descritiva dos resultados, calculando a freqüência de fonoaudiólogos em cada faixa de idade (tabela 1). Pudemos observar que 50% (52) dos profissionais tinham até 30 anos.

Tabela 1
Frequência de fonoaudiólogos por idade

Em seguida analisamos em quais instituições de ensino os profissionais cursaram a graduação (tabela 2). A Pontifícia Universidade Católica - Campinas, Universidade de Mogi das Cruzes, Faculdade Teresa D’ Ávila e

Tabela 2
Frequência de fonoaudiólogos por instituição de ensino

Pontifícia Universidade Católica - São Paulo foram responsáveis pela graduação de 63% (65) dos fonoaudiólogos de São José dos Campos. Encontramos que 74% (74) dos profissionais cursaram o nível superior na última década (tabela 3).

Tabela 3
Frequência de fonoaudiólogos pelo ano de conclusão da graduação

Quanto à pós-graduação, 58% (60) dos fonoaudiólogos a realizaram (tabela 4). Desses, 93% (56) fizeram especialização (tabela 5), sendo que 52% (31) se especializou em motricidade oral, 27% (16) em audiologia, 12% (7) em linguagem e 10% (6) em voz (tabela 6).

Tabela 4
Frequência de fonoaudiólogos por formação acadêmica
Tabela 5
Frequência de fonoaudiólogos por área de especialização
Tabela 6
Frequência de fonoaudiólogos por área de especialização

Dos profissionais que realizaram a especialização, 59% (33) a concluíram recentemente, entre 2001 e 2002 (tabela 7).

Tabela 7
Frequência de fonoaudiólogos por ano de conclusão da especialização

Um grande percentual de fonoaudiólogos 78% (81), são autônomos e trabalham em clínica particular ou tem o seu próprio consultório (tabela 8).

Tabela 8
Frequência de fonoaudiólogos por setor de atuação

Apenas 30% (30) deles ganham mais de dez salários mínimos (tabela 9). 69% (72) dos fonoaudiólogos são credenciados em algum convênio de assistência médica ou cooperativa (tabela 10).

Tabela 9
Frequência de fonoaudiólogos por renda
Tabela 10
Frequência de fonoaudiólogos por credenciamento

Encontramos que 65% (68) dos profissionais trabalham nas áreas de audiologia, linguagem, motricidade oral e voz. Quanto a jornada de trabalho semanal, 44% (46) dos profissionais trabalham por mais de 30 horas semanais (tabelas 11 e 12).

Tabela 11
Frequência de fonoaudiólogos por jornada de trabalho
Tabela 12
Frequência de fonoaudiólogos por área de atuação

DISCUSSÃO

Para a presente pesquisa optamos por enviar, ao maior número possível de fonoaudiólogos de São José dos Campos - SP, independentemente de sua área de atuação e seu local de trabalho, questionários com perguntas fechadas devido a maior objetividade, visando estabelecer quem é este profissional da Fonoaudiologia que atua neste município.

Trata-se de uma das principais cidades do estado de São Paulo, localizada no eixo Rio - São Paulo, importante corredor de distribuição e escoamento do produto interno bruto nacional, e que segundo o censo demográfico realizado no ano 2002 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município de São José dos Campos - SP contava com 559.700 habitantes8.

Este trabalho teve como base a pesquisa realizada em 1997 pelo Conselho Regional de Fonoaudiologia 2ª Região, que traçou o perfil do fonoaudiólogo no estado de São Paulo.

Após cinco anos da realização da pesquisa de base, constatamos que houve um aumento de 214,63% na população de profissionais fonoaudiólogos na cidade de São José dos Campos; em 1997 eram 82 profissionais, e em 2002 havia 176, dos quais 136 receberam o questionário de nossa pesquisa e 104 responderam.

O significativo aumento do número de profissionais de Fonoaudiologia no município pode estar associado aos novos rumos que, em 1998 o 5o Colegiado do Conselho Regional de Fonoaudiologia suscitou, divulgando e galgando novos campos de atuação, estruturando a classe, oferecendo oportunidades de cursos, e campanhas à população mostrando os serviços prestados pelo fonoaudiólogo.

Outro fator a considerar que tenha contribuído para o aumento de profissionais na cidade, foi o reconhecimento pelo MEC, de duas faculdades que estão muito próximas a São José dos Campos e onde 32%, ou seja, 34 de nossos pesquisados concluíram a graduação: Faculdade Teresa D’ Ávila no município de Lorena, reconhecida em 1995, e a Universidade de Mogi das Cruzes, reconhecida em 1996 4.

Entre 1991 e 2002 houve um crescimento de 2,16% ao ano da população joseense8, o que conseqüentemente favoreceu o crescimento de ofertas de prestação de serviços à sociedade e também às industrias, campo promissor da audiologia.

Desde o início da profissão, a Fonoaudiologia esteve vinculada a padrões mais curativos do que preventivos.

O mercado de trabalho fonoaudiológico de São José dos Campos demonstra nitidamente a forte influência da visão de reabilitação na profissão, pois 78% (81) dos fonoaudiólogos estão atuando em clínicas e consultórios particulares, o que dificulta o acesso de boa parte da população a este tipo de atendimento, além de limitar em vários aspectos as diversas atuações da fonoaudiologia em locais como hospitais e escolas, e há escassez de profissionais em instituição pública (tabela 8).

Para que o atendimento fonoaudiológico seja um direito da população, é necessário um movimento sócio-político-cultural, que permita o maior reconhecimento e a necessidade de fazer parte de setores públicos da saúde e educação; e ainda que a divulgação da profissão seja tão eficaz a ponto de outros profissionais da saúde saberem o papel do fonoaudiólogo e suas áreas de atuação na sociedade.

A média salarial recebida pelo profissional da Fonoaudiologia em São José dos Campos foi de até 10 salários mínimos, conforme tabela 9, sendo que 36% dos pesquisados (36 profissionais) recebem até 5 salários mínimos, o que revela que o serviço do profissional ainda não é devidamente reconhecido e valorizado. Sendo assim, 69% dos profissionais optam pelo atendimento de convênios, que geralmente oferecem tabelas de honorários com valores defasados, se comparados com a Tabela Única de Honorários Fonoaudiológicos, que foi acordada por entidades representativas da categoria9.

Fatores como a crise e o contraste sócio-econômico associado à concorrência do mercado de trabalho, dificultam o estabelecimento de honorários justos aos serviços prestados, além da classe fonoaudiológica não contar com um piso salarial estabelecido por Lei, conforme informou a Comissão de Orientação e Fiscalização do Conselho Regional de Fonoaudiologia - 2a. Região.

Há 04 anos o Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica - CEFAC, estabeleceu os cursos de especialização em Motricidade Oral e Audiologia em São José dos Campos, o que certamente favoreceu o ingresso de profissionais da cidade e de regiões vizinhas.

Desde 2001 aumentou o número de especialistas na cidade, onde a preferência esteve em Motricidade Oral com 52% (31) dos profissionais, seguida de Audiologia com 27% (16).

Mesmo buscando se especializar, o fonoaudiólogo ainda continua mantendo os atendimentos em mais de uma área ao mesmo tempo como em linguagem e motricidade oral; e linguagem, voz e motricidade oral (tabela 12). Isto ocorre devido ao tipo de demanda que o fonoaudiólogo recebe em seu consultório e a necessidade de se manter atuante em um mercado de trabalho onde o fluxo de atendimentos ainda não é tão generoso.

CONCLUSÃO

Com base na análise descritiva dos resultados, podemos traçar um provável perfil para o profissional de Fonoaudiologia de São José dos Campos - SP.

Trata-se de uma pessoa com no máximo 30 anos que concluiu a graduação na década de 90 e especializou-se mais em Motricidade Oral e Audiologia nos últimos dois anos. Estes profissionais trabalham mais de 30 horas semanais em seu próprio consultório ou em clínica particular ganhando no máximo 10 salários mínimos.

REFERÊNCIAS

  • 1 Lins MLF, Andrade CRF. O campo de atuação dofonoaudiólogo. In: Kudo AM, Marcondes E. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional em pediatria. São Paulo: Sarvier; 1990. p.73-5.
  • 2 Goulart P, Goulart AS, Issler S, Hasson M, Dantas M.Histórico da Fonoaudiologia. J Bras Reabil 1983;4.
  • 3 Silva APBV, Massi GA. Práticas fonoaudiológicas: umaanálise histórica. Pró-Fono 1999;11:150-2.
  • 4 Conselho Regional de Fonoaudiologia 2a Região. Quatro décadas de evolução da fonoaudiologia. Rev Fonoaudiol 2002;44:7-8.
  • 5 Conselho Federal de Fonoaudiologia. Exercício profissional do fonoaudiólogo. 70 colegiado. Brasília; 2002.
  • 6 Ribas A, Teixeira SB, Luna RCM, Ristow SH, BerberianAP, Athayde-Massi G. Perfil do fonoaudiólogo na região sul do Brasil. J Bras Fonoaudiol 2001;2:29-35.
  • 7 Lewis DR, Parrado MES, Masson MLV, Fiorini AC,Boéchat EM. Perfil do fonoaudiólogo no estado de São Paulo. Conselho Regional de Fonoaudiologia do Estado de São Paulo 2aRegião. São Paulo; 1997.
  • 8 Caixeta, N. Muito além do jardim. Rev Exame2002;36:36-55.
  • 9 Conselho Regional de Fonoaudiologia 2aregião. Tabela única de honorários fonoaudiológicos. Rev Fonoaudiol 2000;34:7.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2004

Histórico

  • Recebido
    13 Mar 2003
  • Aceito
    21 Jun 2003
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