Open-access HÁBITO DE SUCÇÃO DE CHUPETA E MORDIDA ABERTA ANTERIOR NA CRIANÇA COM DENTIÇÃO DECíDUA*

Pacifier Sucking Habits and Anterior Open Bite in Childrem With Primary Dentition

RESUMO

Objetivo:  verificar a relação entre a mordida aberta anterior e a sucção de chupeta.

Métodos:  foi feita urna pesquisa em crianças de 3 a 6 anos, de ambos os sexos, na cidade de Belo Horizonte. Para a avaliação, foi aplicado um questionário aos pais e realizado o exame clinico da cavidade oral das crianças.

Resultados:  analisando-se os dados obtidos, verificouse que a presença do hábito de sucção de chupeta pode determinar a existência de mordida aberta anterior, levando em consideraçáo as variáveis: tempo, intensidade e duraçáo.

Conclusão:  o hábito de sucção da chupeta é um fator causal significante para o surgimento da mordida aberta anterior.

DESCRITORES:
Hábitos; Mordida aberta; Maloclusáo; Dentição primária;

ABSTRACT

Purpose:  to verifythe relation between the anterior open bite and the pacifier-sucking.

Methods:  itwas made a research in 3 to 6 year-old children, of both gender, from Belo Horizonte City After a questionnaire answered by parents, clinical examination of the chiidren's oral cavity was performed.

Results:  by results showed, it was verified that the presence of the pacifier-sucking habit can determine the existence of anterior open bite, taking in consideration the variable time, intensity and duration. Conclusion; the pacifier-sucking habit is a significant cause factor for the anterior open bit".

KEYWORDS:
Habbits; Open bite; Malocclusion; Dentition; primary: Child; preschool

INTRODUÇÃO

A mordida aberta anterior é a presença de espaço interincisal entre os dentes anteriores, e inferiores, com a mandibula em posição cêntrica(1). A etiologia da mordida aberta anterior está quase sempre associada a uma desarmonia miofuncional orofacial, seja pela açáo prolongada de hábitos de sucçáo anormais (como a sucção de polegar echupeta), deglutição atípica ou respiração bucal(1), além dos fatores genéticos.

Hábito é a disposição duradoura, adquirida pela repetição freqúente de um ato(2). Um mau hábito ocorre quando há prejuízo para o organismo(1), ou quando traduz perversões funcionais(3). Os hábitos incorretos indesejáveis caracterizam as disfunções, ou seja, podem não satisfazer as exigências para o crescimento normal e conduzir a desvios e deformações(3). Para afirmar que um mau hábito bucal vai gerar uma deformação, é necessário levar-se em consideração vários fatores como freqüência, intensidade, duração, predisposição individual, idade, estágio no qual se encontram as trocas de dentes, a oclusão, as funções envolvidas, as condições de nutrição e saúde do indivíduo(3-4) e o padrão facial apresentado. O desmame precoce ou abrupto pode levar a criança a buscar um substituto para o peito. Em geral, ela procura um substituto de fácil acesso para a sua boca(5). A chupeta é utilizada para evitar a instalação de hábitos bucais mais prejudiciais, como a sucção digital, sem que o uso se torne um hábito(6). Quando a sucçáo de chupeta se torna um hábito, observa-se uma subirrupçáo dos incisivos de ambos os arcos, gerando uma mordida aberta anterior com conformação característica(7)

Os hábitos de sucção durante os anos de dentadura decídua, se persistirem, podem provocar uma má oclusão caracterizada por uma mordida aberta anterior(8).

A mordida aberta anterior é um dos tipos de má oclusão mais observados na prática odontopediátrica, fato esse justificável já que a maioria dos casos é resultddo da açáo prolongada de hábitos de sucção anormais como a sucção de polegar e chupeta(1).

A sucção de chupeta produz, na maior parte dos casos, mordida aberta anterior na dentição decídua(9). No plano vertical, mordidas abertas anteriores estão presentes em 80% das crianças que apresentam o hábito de sucção de chupeta(10)

O intuito da pesquisa foi verificar se o hábito de sucção de chupeta determina a mordida aberta anterior na fase de dentição decídua.

MÉTODOS

A amostra constituiu-se de 168 crianças com idade entre 3 e 6 anos, de ambos os sexos.

A amostra iniciou-se com a distribuição de uma ficha de coleta de dados para 600 pais ou responsáveis, em escolas particulares de Belo Horizonte no Sudeste do Brasil, no período de agosto a dezembro de 2002, que foi entregue aos pais por intermédio dos professores. Esta ficha contém um questionário com perguntas referentes ao tempo, freqüência, intensidade, tipo do hábito de sucção, tipo de chupeta e se a criança fez ou faz algum tipo de tratamento ortodôntico elou fonoaudiológico.

Os exames clínicos foram realizados nas escolas para onde foram enviados os questionários, em locais em que houvesse incidência direta de luz natural. Esse exame clinico foi realizado por apenas um ortodontista, diminuindo, assim, a variabilidade dos critérios de avaliação também acompanhada por urna fonoaudióloga. As crianças permaneceram sentadas e foram avaliadas, utilizando-se luvas descartáveis. Foi pedido ao paciente para ocluir os dentes em máxima intercuspidaçâo com a cabeça posicionada paralelamente ao plano de Frankfurt Dependendo do tipo de oclusão, as crianças foram classificadas como não portadores de mordida aberta anterior, quando apresentaram um trespasse vertical positivo ou nulo, ou seja, os incisivos superiores cobrirem os incisivos inferiores; e como portadores de mordida aberta anterior quando mostraram um trespasse vertical negativo, ou seja, os incisivos superiores náo cobrirem os incisivos inferiores.

Os critérios clínicos que foram utilizados para a seleçâo da amostra se referiam a crianças com ausência de grandes cavidades cariosas, que comprometem o perímetro do arco, dentição decídua completa (20 dentes) e ausência de dentes permanentes. Além disso, os indivíduos não poderiam estar usando qualquer tipo de aparelho ortodôntico, e nem já terem sido submetidas a esse tipo de tratamento, nem terem feito, ou estarem fazendo tratamento fonoaudiológico, relacionado com a mordida aberta anterior e serem portadores de síndromes genéticas e traumas faciais.

Os achados encontrados foram anotados em uma ficha de controle individual dos pacientes para posterior análise.

As crianças que preencheram todos os critérios estabelecidos foram classificadas em: grupo A (não suctores) com 51 crianças, e grupo B (suctores de chupeta) com 117 crianças.

O objetivo inicial da pesquisa era comparar o hábito de sucção de chupeta e sucção digital, Com a presença da mordida aberta anterior. Devido a isso, no questionário feito aos pais ou responsáveis, constam perguntas referentes aos há tos de sucção digital, porém, em decorrência da pequena. amostragem de crianças suctoras digitais, essas foram elimina• das da pesquisa.

Ética:esta pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em, Fonoaudiologia Clínica (CEFAC) com o n2133/02 e considerada como de sem risco e com necessidade do consentimento livre e esclarecido.

Estatística: Análise descritiva básica mediante porcentagens, Teste Exato de Fisher para a comparação das proporçôes. Pacote estatístico utilizado na análise; SPSS for windo 10.0 e Statxact 3.0.2.

RESULTADOS

A pesquisa foi realizada no período de agosto a dezembro de 2002 e teve como objetivo principal verificar a influência da sucção de chupeta no aparecimento da mordida aberta anterior.

No estudo da associação entre o hábito da sucção de Chu. peta e a presença da mordida aberta anterior (Tabela 1), ob. servou.se que dos 51 (100%) náo sugadores, 4 apre. sentaram mordida aberta anterior e 47 (92,2%) não mostra. ram mordida aberta anterior Dos 117 (100%) sugadores de chupeta, 31 (26,5%) apresentaram mordida aberta anterior e 86 (73,5%) não tinham mordida aberta anterior. A razão de chances (OR) é igual a 4,23 1,41; 12,7), ou seja, a chance de um suctor de chupeta ter mordida aberta anterior é 4,23 vezes a chance de urna criança que não tem o hábito de sucção. Em relação ao tempo (Tabela 2) de sucção de chupeta, 17 (100%) crianças que sugaram até 1 ano de idade, 3 apresentaram mordida aberta anteriore 14 não exibiram mordida aberta anterior. Das 71 (100%) crianças que garam de 1 a 3 anos, 12 (16,9%) apresentaram mordida aberta anterior e 59 não mostraram mordida aberta anterior. E das 115 (100%) crianças que sugaram de 3 a 6 anos idade, 31 (26,9%) apresentaram mordida aberta anterior e 64 (73,1 não exibiram mordida aberta anterior.

Tabela 1
Distribuição hábitos de sueçáO em função de ter ou não mordida aberta anterior.
Tabela 2
Distribuição do Tempo, Freqüência e Intensidade em função da presença de mordida aberta anterior em suctores de chupeta.

Em relação à frequência da sucção de chupeta (Tabela 2)' das 17 (100%) crianças que sugavam de 1 a 3 horas por dia, 7 (100%) náo apresentaram mordida aberta anterior, das 1 J (100%) crianças que sugavam de 3 a 6 horas por dia, 3 (23, mostraram mordida aberta anterior e 10 (76,9%) não apre. sentavam mordida aberta anterior. E das 82 (100%) crianças que sugavam mais de 6 horas por dia, 28 (34, 1%) exibiram m.)rdida aberta anterior e 54 (65,9%) náo apresentaram mor, dida aberta anterior.Quanto à intensidade da sucção de chupeta (Tabela 2), das 94 (100%) crianças que usavam pouca força de sucção, 20 (21 apresentaram mordida aberta anterior e 74 (78,8%) não mostraram mordida aberta anterior.E das 17 (100%) crianças que usavam muita força de sucção, 10 (58,8%) apresentaram mordida aberta anterior enquanto 7 (41 ,25%) crianças náo o fizeram.Para os suctores de chupeta, o tempo (Estatistica Exata de Fisher = 16,84; valor 0,0002), a freqüência (Estatística Exata de Fisher 9,796; valor p - 0,0061) e a intensidade (Estatística Exata de Fisher = 9,275; valor p 0,0027) interferem significativamente no fato de a criança apresentar ou náo mordida aberta anterior.

Com relação ao tipo de chupeta (Tabela 3), das 83 (100%) crianças suctorasde chupeta ortodôntica, 22 (26,5 %) apresentaram mordida aberta anterior e 61 (73,5 %) não o fizeram. Das 26 (100%) crianças suctoras de chupeta convencional, 7 (26,9 %) crianças apresentaram mordida aberta anterior e 19 (73,1%) não mostraram mordida aberta anterior. E das 8 (100%) crianças suctoras de ambos os tipos de chupeta, 2 (25%) apresentaram mordida aberta anterior, e 6 (75 náo exibiram mordida aberta anterior.

Tabela 3
Distribuiç%o dos tipos de chupeta utilizados em funçáo de ter ou náo Moidida Aberta Anterior.

Não existe associação significativa do tipo de chupeta utilizada, com o fato de a criança apresentar mordida aberta anterior ou não (Estatística Exata de Fisher = 0,0350 ; valor 1,000).

DISCUSSÃO

A Tabela 1 evidenciou a forte associação entre o hábito de sucção de chupeta e a presença de mordida aberta anterior 26,5% (31 del 7), havendo uma chance de 4,23 vezes (IC,ss- 1,41 ; 12,7) maior de um suctor de chupeta ter a mordida aberta anterior, comparado a um não suctor 7,8% (4 de 51), o que é confirmado por alguns estudos'1t•'2) contudo, discorda do estudo que relata que não foi possível fazer uma relação direta entre a presença do hábito bucal e consequente mordida aberta anterior(13).

A Tabela 2 demonstrou que quanto maior o tempo 59,2% (16 de 31), frequência 34,1% (28 de 31) e intensidade 58,8% (IO de 30) da sucção de chupeta, maior a incidência de mordida aberta anterior, ou seja, a criança que fez uso de chupeta por maior número de anos elou mais horas por dia elou com maior força apresentou maior prevalência de mordida aberta anterior. Este resultado também foi demonstrado em outros estudos(8,11-12)

A Tabela 3 comprovou o achado que relata que o uso de chupeta ortodôntica ou chupeta convencional náo mostrou diferença estatisticamente significante como causadora de mordida aberta anterior pois 26,5% (22 de 83) das crianças que utilizavam chupeta ortodôntica tinham mordida aberta anterior e 26,9% (7 de 26) das crianças que utilizavam chupeta convencional mostravam mordida aberta anterior. Contudo, no presente trabalho, não foi realizada uma análise específica associando o tipo de chupeta em função do tempo , frequência e intensidade, o que seria necessário para comprovar o potencial de cada tipo de chupeta como um dos fatores desencadeantes da mordida aberta anterior.

Seria necessário um estudo com uma amostragem maior e um melhor relacionamento das variáveis para obter resultados mais precisos.

CONCLUSÃO

Conclui-se, por meio deste trabalho, que o hábito de sucçáo da chupeta em função do tempo, freqüência e intensidade foi um fator causal significante para o surgimento da mordida aberta anterior em indivíduos da faixa etária entre 3 a 6 anos.

O tipo de chupeta, nesta amostra, não foi um diferencial significativo no estabelecimento da mordida aberta anterior.

  • *
    Ingituoo de origem: Faculdades Metodista Izabela Hendrix

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2003

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2003
  • Aceito
    28 Abr 2003
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