Open-access Equoterapia, Fonoaudiologia e Comunicação: análise de reorganizações linguísticas em crianças com Transtorno do Espectro Autista

RESUMO

Objetivo:  analisar os efeitos da equoterapia nas faculdades comunicativas verbais e não verbais de crianças com Transtorno do Espectro Autista, após aplicadas dez sessões do Programa Passo a Passo na Comunicação.

Métodos:  estudo longitudinal do tipo série de casos, com 10 crianças entre 2 e 10 anos, diagnosticadas com transtorno do espectro autista. Os procedimentos deste estudo consistiram de avaliação fonoaudiológica antes e após intervenção por meio dos instrumentos e escalas: Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem (ADL); Protocolo de Observação Comportamental (PROC), pautado na proposta da linguagem funcional sistêmica (LSF) e o Teste de Linguagem Infantil (ABFW) - parte D (pragmática) e 10 sessões de equoterapia. Optou-se também por uma análise sistêmico-funcional da fala das crianças, que consiste em tratar os segmentos de fala como recursos de comunicação que estão disponíveis em uma dada situação. A análise estatística foi descritiva, utilizando o Coeficiente de Progressão e os Pontos de Evolução para mensurar diferenças pré e pós-intervenção.

Resultados:  foram observadas reorganizações comunicativas e linguísticas de dez crianças com autismo que receberam as primeiras dez sessões de equoterapia. Foi possível observar evolução nos aspectos pragmáticos e gramaticais dos participantes, com desenvolvimento comunicativo diferente nos indivíduos. Todas as crianças que iniciaram o Programa sem emissões verbais começaram a utilizam esse meio comunicativo.

Conclusão:  a aplicação parcial do Programa de intervenção fonoaudiológica em equoterapia denominado “Passo a Passo na Comunicação” apresentou resultados positivos quanto à evolução em habilidades pragmáticas, semânticas e morfossintáticas na maioria das crianças da amostra estudada.

Descritores:
Terapia Assistida por Cavalos; Linguagem; Transtorno do Espectro Autista; Comunicação; Fonoaudiologia

ABSTRACT

Purpose:  to analyze the effects of equine-therapy services on the verbal and nonverbal communicative abilities of children with autism spectrum disorder, after 10 sessions of the Step-by-Step Communication Program.

Methods:  a longitudinal case series with 10 children aged 2 to 10 years, diagnosed with autism spectrum disorder. The procedures consisted of speech-language-hearing assessments before and after intervention, using the following instruments and scales: Language Development Assessment (ADL); Behavioral Observation Protocol (PROC), based on systemic functional language; and the Child Language Test (ABFW) - part D (pragmatics), as well as 10 sessions of equine-therapy service. The children's speech also underwent systemic-functional analysis, which involves treating speech segments as communication resources available in a given situation. The statistical analysis was descriptive, using the progression coefficient and progress points to measure differences before and after the intervention.

Results:  communicative and linguistic reorganizations were observed in 10 children with autism who received the first 10 sessions of equine-therapy service. The participants’ pragmatic and grammatical aspects progressed, with different communicative developments among them. All children who began the program without verbal utterances started to use this communicative means.

Conclusion:  the partial application of the speech-language-hearing intervention program in equine-therapy services, called "Step-by-Step in Communication," had positive results regarding the progress of pragmatic, semantic, and morphosyntactic skills in most of the children in the study sample.

Keywords:
Equine-Assisted Therapy; Autism Spectrum Disorder; Language; Communication; Speech-Language Pathology

INTRODUÇÃO

A (re-)habilitação que lança mão do cavalo como método terapêutico interdisciplinar envolvendo equitação, saúde e educação é chamada equoterapia1. Médicos e terapeutas na Alemanha, França e Itália difundiram a prática entre 1500 a 1800, no entanto, a ascensão da intervenção em saúde utilizando os cavalos ocorreu de fato no século XX2. Diante da sensibilidade e alta percepção desses animais3, eles reagem rapidamente às atitudes humanas3,4 e crianças com autismo, foco deste estudo, reconhecem as reações dos cavalos como respostas às suas atitudes e reinterpretam as suas atitudes como comandos potenciais para os cavalos moverem conforme desejam5,6. Como também atestado neste estudo, após a equoterapia, essas crianças são observadas fazendo contato visual, apontando objetos e falando com outras pessoas, ainda que esses comportamentos não tenham sido atestados anteriormente 6. A hipótese de transferência é a de que as crianças se conscientizam do potencial de algumas das suas atitudes como contribuições semânticas nas interações com cavalos e que elas se mantêm conscientes desse potencial em trocas de serviço e informação com outros seres humanos, o que é essencial para interações interpessoais.

Os cavalos selecionados para a terapia de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) normalmente apresentam um temperamento calmo e movimentos mais constantes do que animais menores de outras espécies4. Tais características promovem uma maior previsibilidade durante a terapia4,5, além de ter um impacto direto nos processos de aprendizagem emocional7. Somado a esses atributos encontrados nos cavalos, o ambiente terapêutico motivador em que as sessões de equoterapia podem ocorrer contribuem para o engajamento da criança e das famílias3,8. Isso porque a criança encontra-se em um ambiente que propicia o contato com o ar livre e com uma variedade de estímulos naturais3.

Outra influência positiva da equoterapia em crianças com TEA refere-se à melhora das funções motoras9. Tal melhora, dentre outros fatores, está relacionada ao movimento do cavalo. A partir do deslocamento do corpo do animal, ajustes corporais são realizados a todo momento no corpo do praticante montado, bem como são recebidas por esse praticante informações proprioceptivas e neuromusculares enquanto o animal permanece andando10. A influência dos aspectos motores nas funções cognitivas e comunicação é comumente negligenciada na população de crianças com TEA9, apesar de serem bem descritas as associações entre desenvolvimento motor e linguagem 11.

Tratando especificamente sobre os aspectos comunicativos, sabe-se que no TEA a comunicação social está alterada, ou seja, aspectos pragmáticos e gramaticais da linguagem oral devem ser levados em consideração12. Em um ensaio clínico randomizado com 127 crianças com TEA, uma evolução comportamental positiva durante participação em um programa de equoterapia foi detectada na taxa de produção de palavras por minuto. Em outro estudo de evolução durante equoterapia, os atos comunicativos de crianças com TEA pré- e pós-intervenção foram analisados nos seus aspectos pragmáticos, com resultados promissores. Os relatos dos pais e terapeutas indicaram que a interação especial entre cavalo e criança proporcionou momentos de abertura, nos quais a fala, contato visual e gestos simbólicos foram utilizados pelos participantes nas interações sociais6.

Apesar desses resultados promissores, estudos de revisão sistemática sobre equoterapia mostram que a faculdade de se comunicar verbalmente ainda foi muito pouco investigada2,13. Além disso, nenhum desses estudos resultou em uma proposta de intervenção voltada especificamente para a aquisição desta faculdade. Devido a esta lacuna, propusemos o Programa Passo a Passo na Comunicação14 o qual consiste em uma proposta de intervenção que tem como objetivo estimular a consciência do potencial comunicativo das atitudes humanas em crianças com TEA e assim desimpedir o desenvolvimento da faculdade de comunicação13, utilizando como estímulo prático dessa conscientização a interação com o cavalo em sessões de equoterapia. Os objetivos selecionados para as sessões de equoterapia foram derivados das várias funções da fala nas interações interpessoais, as quais são agrupadas para fins de aplicação em quatro metafunções (linguística sistêmico funcional - LSF)15. As sessões terapêuticas foram estruturadas de tal forma que a criança se engaje nas atividades espontaneamente enquanto é submetida a intervenções fonoaudiológicas visando o desenvolvimento da faculdade de selecionar e sequenciar palavras assim como as faculdades de representar e interagir com elas16.

Neste estudo, buscou-se analisar os efeitos da equoterapia nas faculdades comunicativas verbais e não verbais de crianças com autismo, após aplicadas dez sessões do Programa Passo a Passo na Comunicação.

MÉTODOS

Aspectos éticos

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da Universidade de Brasília com CAAE 14946819.8.0000.8093 e número de parecer 3473484 e está em conformidade com a resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, Ministério da Saúde, Brasil. Todos os participantes assinaram um Termo de Assentimento Livre e Esclarecido e os pais ou responsáveis assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O Termo de Assentimento foi desenvolvido em formato de quadrinhos, com imagens apropriadas para a melhor compreensão por parte das crianças.

Tipo de estudo

Trata-se de um estudo longitudinal do tipo série de casos, o qual foi parcialmente interrompido pelo fechamento dos estabelecimentos de saúde da cidade de Brasília (DF) no início da pandemia causada pela Covid-19. Incialmente, foram selecionados 30 participantes para compor dois grupos distintos de atendimento na equoterapia para participação no programa de intervenção “Passo a Passo na Comunicação”. Entretanto, as sessões foram interrompidas e apenas metade do Programa (10 sessões) foi implementado e somente o primeiro grupo iniciou o tratamento. Dessa forma, foram elegíveis 15 crianças com diagnóstico de Transtorno de Espectro Autista. Essas crianças estavam na fila de espera da Associação Nacional de Equoterapia do Brasil. Das 15 crianças que iniciaram as sessões, 10 finalizaram sem faltas e foram incluídas neste estudo. Os responsáveis pelas avaliações dessas crianças não se envolveram nos atendimentos e vice versa.

Participantes

Participaram dez crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista dos gêneros feminino e masculino, na faixa etária entre dois até dez anos de idade, sem alterações ósseas, auditivas ou visuais. As famílias que estavam na fila de espera do Associação Nacional de equoterapia do Brasil foram convidadas a participar da pesquisa. O TEA poderia estar associado ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e/ou Apraxia de Fala. O diagnóstico foi estabelecido por equipes multiprofissionais externas ao estudo, com base nos critérios do DSM-5. O grau de autismo não foi estabelecido como critério, o objetivo foi recrutar uma gama heterogênea para refletir a realidade da prática de atendimento do local.

Nenhuma criança possuía diagnóstico confirmado de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Duas crianças (participantes 5 e 9) apresentavam diagnóstico associado de Apraxia de Fala, identificado previamente por fonoaudiólogos em contexto clínico e confirmado em anamnese e relatórios fornecidos pelas famílias. Ressalta-se que não foram aplicados instrumentos específicos para avaliação da apraxia de fala no presente estudo, uma vez que o foco da investigação esteve voltado à comunicação no contexto da equoterapia.

Considera-se, entretanto, que a apraxia de fala pode repercutir diretamente na comunicação do paciente, em especial quanto à expressão verbal e à inteligibilidade da fala. Ainda assim, observou-se que as crianças com essa comorbidade também apresentaram progressos ao longo da intervenção. A decisão metodológica de mantê-las na amostra deve-se ao caráter exploratório da pesquisa e ao propósito de refletir a realidade clínica, na qual diagnósticos associados são frequentes.

O nível intelectual não foi mensurado por instrumentos formais de QI; todavia, o grau do TEA foi determinado pela Escala de Avaliação do Autismo na Infância (CARS). No que se refere à escolaridade, oito participantes estavam matriculados na Educação Infantil e dois no Ensino Fundamental I.

Nove crianças encontravam-se em acompanhamento terapêutico paralelo, incluindo fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, terapia ocupacional ou psicomotricidade. Reconhece-se que tais abordagens podem ter influenciado os resultados; entretanto, por se tratar de um estudo exploratório, optou-se por manter esses participantes, de modo a representar de forma mais fidedigna a realidade clínica do atendimento em equoterapia. Nenhuma criança havia tido contato prévio com a prática de equoterapia.

Como critérios de inclusão, as crianças precisavam ter idade entre dois e dez anos e não poderiam ter praticado atividades com equinos no último ano, nem mesmo atividades recreativas. As crianças deveriam possuir indicação médica para prática de equoterapia. Os pais ou responsáveis pelas crianças, no momento da anamnese, deveriam relatar queixa de dificuldades comunicativas por parte das crianças e as alterações comunicativas deveriam ser confirmadas pelos profissionais no momento das avaliações para inclusão efetiva das crianças no estudo. Como critérios de exclusão estabeleceram-se: qualquer falta sem reposição, mais de duas faltas, mesmo com reposição, alterações de visão não corrigidas, instabilidade atlanto - axial, distrofia muscular, crise convulsiva sem controle medicamentoso, hidrocefalia, luxação de quadril, escoliose acentuada, obesidade e fobia de cavalo. Os critérios de exclusão também incluíam quaisquer outras condições físicas ou psicológicas que pudessem comprometer a segurança ou saúde do praticante, avaliadas pela equipe da ANDE-BRASIL. O Quadro 1 mostra as idades, gênero, grau de severidade e comorbidades dos participantes.

Quadro 1
Caracterização da amostra do estudo

Procedimentos

Avaliações

Os procedimentos deste estudo consistiram de avaliação psicológica e fisioterápica pela equipe da ANDE-BRASIL, avaliação fonoaudiológica antes da intervenção, 10 sessões de equoterapia e reavaliação fonoaudiológica. As avaliações da ANDE-BRASIL são realizadas com todas as pessoas que chegam ao centro de equoterapia com intuito de avaliar os aspectos psicológicos e fisioterápicos que possam impedir a prática da equoterapia. Todos devem ter indicação médica prévia autorizando a prática.

Para realização deste estudo foram utilizados os instrumentos e escalas: Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem (ADL)17; Protocolo de Observação Comportamental (PROC)18, pautado na proposta da LSF15 e o Teste de Linguagem Infantil (ABFW)19 - parte D (pragmática). Os testes foram aplicados em ambiente organizado e estruturado, seguindo as orientações dos manuais e/ou artigos. As interações entre as avaliadoras e os participantes foram gravadas para análise.

Intervenção

Profissionais envolvidos e Programa Passo a Passo na Comunicação

Estiveram envolvidos na pesquisa fonoaudiólogos, estagiários de fonoaudiologia, mediadores, laterais, auxiliares guia e equitadores.

O Programa Passo a Passo na Comunicação é um programa de intervenção na equoterapia desenvolvido para crianças com dificuldades na comunicação social. Apresenta 8 módulos e 24 sessões, podendo ser aplicado uma ou duas vezes na semana14.

Fidelidade de tratamento

Antes de iniciar os atendimentos, todos os profissionais da ANDE-BRASIL e da Universidade de Brasília que atuaram como mediadores, laterais, treinadores dos animais e guias dos cavalos receberam treinamento fornecido pela coordenadora do Programa e grupo de pesquisa. O treinamento ocorreu em duas frentes, tanto teórica, em formato expositivo, como prática incluindo atividades com os cavalos.

Cada uma das atividades específicas para as crianças era programada semanalmente a partir do resultado das avaliações individuais e evolução na tabela de acompanhamento, a equipe realizava a medição/escores de cada objetivo específico do Programa, em cada sessão14. Todas as sessões semanais foram filmadas por alunos de graduação em fonoaudiologia. Estas filmagens foram realizadas a fim de contribuir para verificação de atitudes dos profissionais durante os atendimentos em reuniões semanais com o coordenador do Programa. Observações dos atendimentos em tempo real foram realizadas pela coordenadora do Programa de maneira pontual, a fim de fornecer instruções pertinentes aos terapeutas que estavam aplicando a Intervenção. Todos os atendimentos foram realizados por profissionais que não participaram da aplicação das avaliações pré e pós-intervenção.

Análises
Análise da pragmática

Foram transcritas as interações para aplicações do PROC das dez crianças participantes do estudo antes e após intervenção. Os atos comunicativos foram analisados de acordo com as diretrizes de análise de atos comunicativos do ABFW19 que se correlacionam com as três primeiras habilidades comunicativas apresentadas no PROC18, a saber: 1) habilidade dialógica ou conversacional; 2) função comunicativa; e 3) meio comunicativo. Não foram realizadas as pontuações propostas pelo PROC uma vez que o artigo original apresentou resultados para crianças de até 3 anos18.

Foram transcritos todos os atos comunicativos dos envolvidos, sendo que todos os atos foram analisados um por vez, dentro de seus contextos de produção. A partir da quantificação e classificação de funcionalidade proposta para os atos comunicativos pelo ABFW- parte D19 houve a marcação no PROC18.

As variáveis de análise foram: habilidades dialógicas (iniciativa, resposta, aguardar o turno, participar da atividade dialógica), funções comunicativas (instrumental, protesto, interativa, nomeação, informativa, heurística, narrativa), meios de comunicação (vocal, gestual, verbal), e atos comunicativos. Foi medido o coeficiente de progressão (CP) calculado a partir da razão entre o resultado da pós-intervenção pelo resultado na pré-intervenção. Para o CP, quando o resultado foi maior que 1 representa evolução e quando menor 1 representa piora. Os dados coletados foram organizados em uma planilha do Excel, tabulados, analisados e descritos por meio de uma análise quantitativa e qualitativa.

Análise semântica e morfossintática formal

A análise semântica e morfossintática formal foi realizado por meio do instrumento ADL17 e foi realizada baseado nos graus dos distúrbios inerentes ao próprio teste, bem como nos resultados em linguagem receptiva, expressiva e global de cada criança.

Análise Descritiva: Linguística Sistêmico-Funcional

Optou-se por uma análise sistêmico-funcional da fala das crianças, o que consiste em tratar os segmentos de fala como recursos de comunicação que estão disponíveis em uma dada situação. Esse tipo de análise consiste em dois passos. Primeiro, identificam-se os traços semânticos dos recursos usados e organizam-se esses traços em sistemas de opções, depois se aplica essa descrição na análise de segmentos15. De um lado, esse método de análise nos permitiu extrapolar tanto os recursos disponíveis na interação criança-terapeuta quanto o repertório de uma criança específica. Supusemos corretamente que o tamanho e a qualidade dos repertórios estariam correlacionados com os graus de autismo. De outro, isso também nos permitiu explicar a escolha dos recursos pelas crianças de modo bem detalhado. Supusemos novamente de modo acertado que a abundância de detalhes nos revelaria evoluções sutis na fala das crianças, sobre as quais sequer conseguíamos lançar hipóteses.

A interação entre terapeuta e criança durante a aplicação do PROC18, antes e após a equoterapia ocorreram no mesmo ambiente e foram gravadas em áudio e vídeo. Cinco minutos mediais dessa gravação foram transcritos e analisados por cinco pesquisadores. Três deles realizaram em conjunto uma segmentação do texto ranqueada de duas formas. A primeira foi pela composição/gramática em orações, grupos e palavras. A segunda foi ranqueada por melodia/ritmo em linhas e passos. Os outros dois pesquisadores, especialistas no tema, conferiram detalhadamente o produto da análise. Neste artigo, foram consideradas somente as categorias de ranque dos segmentos e não as categorias de tipo ou de função como, por exemplo, os tipos de oração e a função de uma oração específica na situação. Contamos as orações, grupos, palavras e passos nos dois estratos de cinco minutos para cada criança: tomando α como a frequência de segmentos de um determinado ranque após a terapia e tomando β como a frequência de segmentos do mesmo ranque antes da terapia, desenvolvemos os Pontos de Evolução (pré) como 100 vezes o logaritmo natural da divisão de β por α: 100 * ln(α/β). Assim uma criança que passa a produzir o dobro de orações progride 69 passos, a que produz o triplo progride 110 passos, já a que volta a produzir a metade regride 69 passos, e a que volta a produzir o terço regride 110 passos.

RESULTADOS

A análise dos atos comunicativos produzidos pelas crianças, acrescido do Coeficiente de Progressão para mensurar o desempenho dos praticantes, mostra que houve evolução em nove das dez crianças participantes do estudo. É possível observar CP>1 e aumento no número de iniciativas na comunicação por seis das dez crianças estudadas, estabilidade em duas crianças e piora em outras duas crianças. O participante identificado como 3, de grau leve/moderado, apresentou redução visível no número de iniciativas. Os resultados estão dispostos na Tabela 1.

Tabela 1
Atos comunicativos, habilidade dialógica de iniciativa e habilidade dialógica de resposta com coeficiente de progressão antes e após participação do programa de equoterapia

Já no que diz respeito às funções comunicativas, a função instrumental, de nomeação e informativa foram as que apesentaram evoluções positivas em um maior número de crianças. Os resultados das funções comunicativas estão dispostos na Tabela 2.

Tabela 2
Funções comunicativas produzidas pelas crianças na pré e pós-intervenção

A reorganização no uso dos meios comunicativos pelas crianças do estudo foi muito diversificada, mas é possível observar que o único meio comunicativo que apresentou diminuição geral em seu uso foi o verbal/gestual/vocal combinados, enquanto o meio gestual/vocal combinados manteve-se em cinco usos na pós-intervenção. O meio comunicativo que apresentou maior taxa de evolução de uso foi o meio vocal com aumento de 120%, seguido dos meios verbal/gestual combinados com aumento de 80,9%, dos meios verbal/vocal combinados com evolução de 41,6%, do meio gestual com evolução de 27,7%, e por último o meio verbal com evolução de 24,8% em seus usos.

Na análise semântica e morfossintática por meio do teste ADL não foi possível verificar evolução dos casos na linguagem compreensiva e melhora em apenas duas crianças na linguagem expressiva. A gravidade do distúrbio foi alterada em apenas uma criança (Tabela 3).

Tabela 3
Resultados em linguagem receptiva, linguagem expressiva e linguagem global antes e após intervenção

Os resultados da análise linguística por meio da LSF tiveram como variáveis as palavras, grupos, orações e passos, ou seja, realizamos as categorias constitutivas. Dessa forma, foram contabilizadas palavras, grupos, orações e passos, acrescido de um Coeficiente de Progressão para mensurar o desempenho dos praticantes. Os pontos de evolução por paciente estão dispostos na Tabela 4.

Na Tabela 4, nota-se que sete das 10 crianças estudadas progrediram em palavras por minuto, oito em grupos, oito em orações, e oito em passos. As três crianças que não falaram antes da terapia, passaram a falar após, adquirindo a faculdade de se comunicar por um novo meio, o meio verbal.

Tabela 4
Número de palavras, grupos, orações e passos produzidos pelas crianças antes e após intervenção

A criança identificada como participante 3 neste estudo merece destaque, pois ela apresentou estabilidade ou piora em praticamente todos os resultados apresentados. É importante contextualizar que a criança citada perdeu o pai uma semana antes de iniciar o programa de equoterapia, mas a mãe preferiu continuar o tratamento.

DISCUSSÃO

O presente estudo detectou as reorganizações comunicativas e linguísticas em dez crianças com autismo que receberam as primeiras dez sessões de equoterapia do Programa Passo a Passo na Comunicação. Foi possível observar evolução nos aspectos pragmáticos e gramaticais dos participantes, com desenvolvimento comunicativo diferente nos indivíduos. Todas as crianças que iniciaram o Programa sem emissões verbais começaram a utilizar esse meio comunicativo.

Com relação ao Programa “Passo a Passo na Comunicação”2 em sua versão inicial com dez sessões, foram observadas melhoras em diferentes variáveis pragmáticas, a saber: atos comunicativos, habilidades dialógicas de iniciativa e resposta, funções comunicativas e meios comunicativos. Tais resultados indicam que o Programa é uma ferramenta de reabilitação em equoterapia que produz repercussões positivas para a esfera do uso da linguagem por parte de crianças com autismo.

A reabilitação (ou habilitação, considerando que estamos tratando de um transtorno do neurodesenvolvimento) da pragmática é um dos desafios na população de crianças com TEA13. No estudo foi possível observar aumento de atos comunicativos em nove das dez crianças que receberam equoterapia, bem como aumento de iniciativa na interação em 80% da amostra e aumento de respostas ao outro em 90% dos participantes. Resultados que indicam melhora nos aspectos pragmáticos são relatados em outro estudo que também se propõe a analisar as consequências da intervenção em equoterapia para a população de crianças com TEA6. Os desfechos apontados pelos autores indicam aumento nas interações sociais iniciadas pelas crianças. Tais interações abarcam tanto a fala como uso de gestos para interagir com o outro6.

O aumento dos atos comunicativos, e das habilidades de iniciar e responder à interação com o outro após dez sessões de equoterapia pode ser explicado pelo fato da relação entre o homem e o equino ser considerada como facilitadora no surgimento de comportamentos sociais em indivíduos com TEA5,6. A formação de vínculo entre praticante e cavalo torna-se possível, por exemplo, por meio da prática de atividades que permitam a possibilidade de oferecer algo que é recebido pelo outro com prazer, como é o caso da oferta de comida ao animal ou da realização do trote para a criança20,21, tais atividades favorecem a construção da relação afetiva e emocional entre o praticante e o cavalo, e por consequência, surgimento de comportamentos sociais.

A partir de estratégias específicas aplicadas no Programa e que são particulares à equoterapia21, torna-se possível o aumento do interesse do indivíduo pelo meio que o cerca e pelos outros6. Sabe-se que a percepção e interesse pelo outro estão intimamente relacionados à manutenção de uma interação22. Essa relação de interesse pelo cavalo nas crianças com TEA4 auxilia na hipótese de que a equoterapia pode proporcionar o aumento do interesse social destas crianças 5,6,23. Na equoterapia associada a um Programa de intervenção voltado para Comunicação14, o resultado foi o aumento de atos comunicativos, iniciativas e respostas na comunicação (Tabelas 1 e 2).

O aumento no interesse por interações sociais, interesse este iniciado em ambiente terapêutico, possibilita colocar a comunicação e linguagem em uso. O interesse aumentado em se comunicar resulta primeiro na evolução do número de participações sociais do indivíduo. Depois possibilita a aquisição e desenvolvimento de funções da linguagem que antes não eram utilizadas por falta de tentativas em participações sociais.

Apesar dos resultados pouco satisfatórios na análise de forma e conteúdo realizada por meio do ADL17 no estudo atual, foram observadas melhoras importantes nos aspectos pragmáticos e comunicativos analisados por meio do Teste de pragmática do ABFW19 e do PROC18. Além disso, o instrumento ADL17 foi desenvolvido e validado com foco na avaliação de crianças com Distúrbios de Linguagem, e não especificamente para crianças com autismo. Diante disso, como não há instrumentos de análise gramatical com base na LSF15 para o Português Brasileiro, optou-se por um estudo descritivo.

Com base nos pressupostos de análise da LSF15, observamos uma melhora na maioria das crianças na produção de palavras, grupos, orações e passos, ou seja, foi observada evolução positiva em todas as variáveis iniciais da LSF deste estudo (Tabela 4). Ao contrário dos achados apresentados pelo teste ADL (Tabela 3), encontramos um indicativo de melhora em unidades gramaticais nos participantes desta pesquisa (Tabela 4).

Conseguimos medir evoluções positivas (progressões) na frequência de orações, grupos, palavras e passos (Tabela 4), uma evolução mensurável que não foi detectada no teste ADL (Tabela 4). Isso demonstra que os Pontos de Evolução propostos nesta pesquisa são mais sensíveis e provavelmente mais adequados para a praxis clínica do que o teste ADL quanto a medir evoluções sutis no comportamento de crianças no espectro do autismo antes e após sessões de equoterapia.

Os resultados apresentados neste artigo, como afirmado anteriormente, incluem somente as categorias de ranque, não abrangendo todas as categorias de tipo e função aplicadas na análise das interações. Outros achados serão publicados em artigos futuros.

Um limite da pesquisa é o número de participantes, 10 crianças, o que nos impede de generalizar a praxis clínica da equoterapia. Além disso, impede de afirmar com mais força que os pontos de evolução seriam de fato do tratamento proposto, pois haviam outras terapias associadas. Outro limite é a ausência de um grupo controle, o que nos impede de afirmar que a progressão se deve à intervenção e não a uma evolução espontânea das crianças. Contudo, como até o momento, não tínhamos um teste sensível para as progressões visíveis que os pais e terapeutas atestam, este estudo introduz um método de medição que merece consideração em estudos de maior porte nos quais não só seja corroborada a sensibilidade como também seja provado o nexo causal entre a terapia e a progressão.

Outro limite deste estudo é o foco exclusivo nas funções interativas da fala pela análise sistêmico funcional enquanto um componente da semiótica social. Uma análise holística da interação dos participantes precisaria incluir a faculdade de se comunicar por todo e qualquer meio, não só pela fala, como também a faculdade de realizar tarefas individuais e cooperar em tarefas coletivas, o que perpassaria os aspectos motores e sensoriais e tudo o que podemos inferir sobre os processos cognitivos a partir da observação24. Medidas nesses outros aspectos não nos serviriam somente para comprovar a progressão dos participantes promovida pela equoterapia, como propomos aqui, como também nos serviriam para melhor guiar a intervenção segundo as necessidades individuais de cada criança.

CONCLUSÃO

A aplicação parcial do Programa de intervenção fonoaudiológica em equoterapia denominado “Passo a Passo na Comunicação” apresentou resultados positivos quanto à evolução em habilidades pragmáticas, semânticas e morfossintáticas na maioria das crianças da amostra estudada. Como se trata de série de casos, sugerimos estudos com maior número amostral, do tipo caso-controle e ensaios clínicos para aumentar o poder de generalização dos resultados.

AGRADECIMENTOS

À Associação Nacional de Equoterapia do Brasil.

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  • Estudo desenvolvido na Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil.
  • Fonte de financiamento: Nada a declarar
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    Os conteúdos subjacentes ao texto do manuscrito já estão disponíveis em sua totalidade e sem restrições, estando contidos no próprio manuscrito. Todos os dados, códigos de programa e materiais utilizados na pesquisa encontram-se descritos e documentados de forma completa, garantindo a reprodutibilidade dos resultados e possibilitando avaliação detalhada pelos revisores. Não há restrições legais ou éticas que impeçam o acesso aos conteúdos, e eles estarão disponíveis integralmente no momento da publicação do artigo.

Editado por

  • Editor Chefe
    Giédre Berretin-Felix
  • Editor Associado
    Ana Paula Mackay

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Ago 2025
  • Revisado
    13 Set 2025
  • Aceito
    24 Set 2025
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