Open-access HABILIDADES FONOLÓGICAS EM CRIANÇAS NÃO ALFABETIZADAS E ALFABETIZADAS

Phonological abilities in literate and iliterate children

RESUMO

Objetivo:  verificar os níveis de habilidades fonológicas em crianças não alfabetizadas e alfabetizadas em uma escola da rede municipal do Recife e analisar as variáveis que podem influir no desempenho.

Métodos:  a casuística desta pesquisa foi composta por vinte crianças, sendo dez não alfabetizadas e dez alfabetizadas. Foi utilizado como instrumento de coleta um protocolo de tarefas de consciência fonológica e foram consideradas como variáveis: idade do aluno, grau de instrução dos pais ou responsáveis, acompanhamento do desempenho acadêmico do aluno pelos pais.

Resultados:  observou-se que as crianças alfabetizadas apresentaram desempenho superior em segmentação de frases, detecção e reversão de sílabas, exclusão, detecção e síntese fonêmicas. Os alunos não alfabetizados foram melhores apenas na detecção de rimas. Ambos os grupos não obtiveram êxito na tarefa de reversão fonêmica.

Conclusão:  concluiu-se que crianças alfabetizadas mostraram maior habilidade fonológica e que fatores externos como nível sócio-econômico-cultural, pouca estimulação no ensino-aprendizagem e distorção série/idade parecem ter contribuído com o baixo desempenho dos sujeitos testados.

DESCRITORES:
Linguagem; Testes de Linguagem; Leitura; Escrita Manual

ABSTRACT

Purpose:  to verify the levels of phonological abilities in literate and illiterate children from a municipal school in Recife and to analyze the variables that can act on the performance.

Methods:  the studied sample was made up by 20 children, ten literate and ten illiterate, between six and eleven years old. A test of phonological awareness was applied considering as variables the students age, parents’ schooling, parents’ accompaniment of the student academic performance.

Results:  testing results of phonological awareness showed that the literate children had better performance in segmentation of sentences in word, syllabic detection, syllabic reversion, phonemic exclusion, phonemic detection and phonemic synthesis. The illiterate children had a better performance in rhyme detection. None of the children groups was able to do the phonemic reversion.

Conclusion:  it was found that the literate children showed higher phonological abilities and that outside factors like the socio-economic-cultural level, lack of stimulation on the teach-learning and distortion grade/age apparently helped to the low performance of the studied subjects.

KEYWORDS:
Language; Language Tests; Reading; Handwriting

INTRODUÇÃO

A apropriação da escrita apresenta-se como um grande desafio para os educadores e alunos. Muitas crianças de escolas públicas e particulares vivenciam situações de fracasso escolar devido a dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita, entretanto, esta constatação não indica necessariamente que a dificuldade para aprender a ler e a escrever deve-se a razões de ordem social, cultural, econômica, orgânica ou emocional da criança 1.

Para aquisição da leitura e escrita numa língua cujo sistema é alfabético, é necessário entender que as letras correspondem a segmentos sonoros sem significados, ou seja, fonemas 2.

O conhecimento da escrita começa antes da entrada da criança na vida escolar. O aluno passa por estágios durante processo de aquisição da linguagem escrita apontados como uma seqüência psicogenética e caracterizada sucessivamente como fase pré-silábica, silábica, silábica - alfabética e alfabética 3.

Na fase alfabética o sujeito torna-se capaz de conhecer o valor sonoro convencional de algumas ou de todas as letras, conseguindo juntá-las para formar sílabas e palavras. No entanto, apesar de dominar as convenções fonema - grafema, tal como são regidos pelo sistema de escrita alfabética, o indivíduo não tem a escrita correta das palavras defrontando-se então com as dificuldades ortográficas 4.

Pesquisadores indicam a necessidade de se considerar a aquisição da grafia correta como resultado de um processo que envolve a reflexão sobre diferentes aspectos da língua e não apenas de treino e memorização. A criança necessita utilizar diversas informações lingüísticas para aperfeiçoar sua escrita alfabética, compreendendo primeiramente que as grafias são geradas por uma seqüência fonológica, necessitando também de informações morfológicas e sintáticas 5.

Antes de quatro anos e meio, os comportamentos são espontâneos e automáticos, não envolvendo a consciência lingüística; porém, alguns comportamentos infantis que se manifestam antes da idade acima e que indicam algum tipo de consciência lingüística são considerados como um continuum de etapas evolutivas sucessivas, em função de variáveis como o ambiente sócio-cultural, o aprendizado da leitura e o desenvolvimento biológico que interferem no desenvolvimento e amadurecimento de cada criança 6-7.

A consciência fonológica é a capacidade do indivíduo reconhecer que as palavras são formadas por diferentes sons que podem ser manipulados e abrange a capacidade de refletir (constatar e comparar) e operar com fonemas, sílabas, rimas e aliterações (contar, segmentar, unir, adicionar, suprimir e transpor) 8.

A consciência fonológica foi considerada como algo monolítico, homogêneo, ou seja, a criança tinha ou não. No entanto, a consciência fonológica não é uma variável única, binária, dicotômica, ou seja, esta habilidade possui uma estrutura hierárquica, que atua através de estágios, iniciando com a consciência de unidades mais globais até chegar à consciência plena dos segmentos fonêmicos da fala. A consciência fonológica demanda que a criança ignore o significado da palavra e passe a prestar atenção à estrutura fonológica da mesma 9.

A capacidade de segmentar e operar com as estruturas silábicas é denominado conhecimento silábico. A sílaba é a unidade natural de segmentação da fala, sendo mais acessível do que as unidades intra-silábicas e os fonemas. É o primeiro e talvez o mais óbvio caminho de segmentação sonora, que traz pouca dificuldade a maioria das crianças 10.

O conhecimento intra-silábico caracteriza-se pela habilidade de conhecer que as palavras podem ser divididas em unidades que são maiores que um fonema e menores que uma sílaba 4.

Perceber que a palavra é uma seqüência de fonemas equivale ao conhecimento segmental ou fonêmico. A criança percebe que as palavras possuem sons que podem ser modificados, apagados ou reposicionados 11.

Ocorrem duas hipóteses antagônicas quando se refere à relação entre consciência fonológica e alfabetização. A primeira hipótese considera o desenvolvimento da consciência fonológica como anterior à alfabetização enquanto a segunda acredita que a consciência fonológica é conseqüência da alfabetização 12-13.

O conhecimento da consciência fonológica vem atraindo cada vez mais fonoaudiólogos, principalmente os que estão inseridos na escola. Muitas crianças são encaminhadas para o atendimento com queixa de dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita, observando-se que em alguns casos não há patologia, cabendo ao fonoaudiólogo realizar um diagnóstico coerente e orientar os pais e professores sobre a dificuldade encontrada.

Sendo assim, a presente pesquisa tem o objetivo de verificar as habilidades fonológicas presentes em crianças não alfabetizadas e alfabetizadas em uma escola da Rede Municipal do Recife e analisar as variáveis que podem influir no desempenho.

MÉTODOS

A pesquisa foi realizada em uma escola da rede municipal do Recife, no período de novembro de 2003 a março de 2004.

O processo de amostragem teve como objetivo selecionar os sujeitos com a realização dos seguintes procedimentos:

  • Seleção de uma turma com sujeitos não alfa-betizados e uma turma com sujeitos alfabetizados.

  • Coleta dos Termos de consentimento assina-dos pelos pais ou responsáveis, após reunião para esclarecimentos sobre a pesquisa.

  • Aplicação dos questionários com os pais ouresponsáveis para colher dados referentes ao desenvolvimento da linguagem da criança, desenvolvimento motor, participação dos pais na vida escolar da criança e dados pessoais dos pais (nome, idade, grau de instrução, profissão).

  • Aplicação de ditado de palavras para seleci-onar os sujeitos que se encontram na fase alfabética.

As turmas selecionadas para a pesquisa foram: o 1º ano do 1º ciclo como sendo a turma dos sujeitos não alfabetizados e a turma do 1º ano do 2º ciclo representando os sujeitos alfabetizados.

Após as aplicações dos critérios para seleção da amostra, obteve-se um total de 10 sujeitos não alfabetizados com a faixa etária de 6 anos e 9 meses a 8 anos e 10 meses, pertencentes ao 1º ano do 1º ciclo e 10 sujeitos alfabetizados com idades de 9 anos e 4 meses a 11 anos e 3 meses que freqüentam o 1º ano do 2º ciclo.

O método de coleta foi realizado por meio da aplicação do Protocolo de Tarefas de Consciência Fonológica baseado em Cielo, conforme apresentado abaixo, sendo aplicado individualmente a cada sujeito, cujos parâmetros visaram descrever os níveis de habilidades fonológicas, sendo eles: segmentação de frases em palavras, detecção de rimas, síntese silábica, segmentação silábica, detecção de sílabas, reversão silábica, exclusão fonêmica, detecção de fonemas, síntese fonêmica, reversão fonêmica.

O estudo teve caráter descritivo, observacional, seccional, com temporalidade transversal.

Foram observadas as seguintes variáveis: idade do aluno, grau de instrução dos pais ou responsáveis, acompanhamento do desempenho acadêmico do aluno pelos pais.

Os resultados serão apresentados em forma de tabela para melhor visualização e discussão. As tabelas serão apresentadas relacionando o número de alunos alfabetizados e não alfabetizados e seus respectivos desempenhos nas atividades de habilidades fonológicas.

A pesquisa foi aprovada Comitê de Ética e Pesquisa sob o número 290/2003 do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco.

Protocolo de Tarefas de Consciência Fonológica

Nome:

Turma:

Data de nascimento: Data de aplicação: Idade:

1) Dividir as frases em palavras: treino - Pedro caiu. - O leão morde.

Duas palavras 1º T 2ºT Três palavras 1º T 2ºT Quatro palavras 1º T 2ºT Oi mamãe! O copo quebrou. O suco está doce. Bruna gritou. Estamos te esperando. O recreio foi ótimo. Alô garotinho! O gato arranha. A professora está zangada. Bem feito! Como se faz? Papai comprou um carro. Já agradeci ! Perto do muro. Eu e mamãe saímos. cinco palavras 1º T 2ºT Seis palavras 1º T 2ºT Sete palavras 1º T 2ºT A chave trancou a porta. O vovô mora no prédio azul. Os gatos miam e os cachorros latem. A calça rasgou no joelho. Estamos pensando em tomar chocolate quente. A geladeira estragou e o gelo derreteu. Eu fui ao cinema ontem. Meu primo tem um cavalo preto. O vaso quebrou e a planta murchou. A mochila estava muito cheia. Meus lápis de cor são lindos. o passarinho voou. Pensei que você não vinha. O filme do rei leão acabou. Não pude brincar com a bicicleta ontem

2) Detecção de rimas: eu vou dizer três palavras, duas rimam e uma não. Qual não rima?

Treino: - LATA DEDO MEDO CHUPETA BIGODE ROLETA

Dissílabos 1º T 2ºT Trissílabos 1º T 2ºT Pente, suco, dente Peruca, bigode, mutuca Mola, gola, pote Banqueta, chupeta, repórter Papel, bacia, macia Árvore, berinjela, panela Planta, mato, janta Cenoura, cabelo, vassoura Peito, jeito, gola Armário, rosário, galinha

3) Eu vou falar como um robô, adivinhe a palavra que o robô diz.

Treino: CO-POSA-PA-TO

Dissílabo 1º T 2º T Trissílabo 1º T 2º T Quadrissílabo 1º T 2º T pa-to ca-be-ça bi-ci-cle-ta so-pa sol-da-do cho-co-la-te lei-te pa-li-to es-pe-ti-nho la-go sor-ve-te ca-pa-ce-te ge-lo le-gu-me e-le-va-dor

4) Agora você vai falar como um robô. Treino: - TAPA - COLEGA

Dissílabo 1º T 2º T Trissílabo 1º T 2º T Quadrissílabo 1º T 2º T Suco Calado Omelete Colher Cabelo Elefante Prego Sacada Tartaruga Ovo Macaco Borboleta Faca Cobertor Macacada

5) Eu vou dizer três palavras, duas começam ou terminam com o mesmo pedacinho ou tem o mesmo pedacinho do meio e uma não. Quais palavras começam ou terminam com o mesmo pedacinho ou têm o mesmo pedacinho do meio? Treino: MOLA, BOCA, BOBOPALA, BELA, MOTOMULATO, BONITA, COLADA

Inicial 1º T 2ºT Final 1º T 2ºT Medial 1º T 2ºT Cama, lata, lápis Côco, soco, lata Maluco, peludo, sacada Bola, sino, bote Pote, saci, bate Mensagem, caneta, passado Vaca, vaso, lupa Caça, massa, côco Barriga, palito, terrível Mesa, copo, cola Lado, saci, dedo Cereja, morena, sapato Suco, pele, sujo Pato, sala, mola Cinema, moleque, soneto

6) Eu vou dizer os pedacinhos das palavras de trás para frente, tente colocar na ordem para adivinhar a palavra. Treino: - LA-SA - CO-SA-CA

Dissílabo 1º T 2º T Trissílabo 1º T 2º T Quadrissílabo 1º T 2º T po-co ça-be-ca ta-cle-ci-bi To-pra do-da-sol te-la-co-cho cho-gan te-ve-sor nho-ti-pe-es Lo-ge me-gu-le te-ce-pa-ca Te-lei ra-du-ver ra-sso-fe-pro

7) Se eu tirar o ... de ... sobra ....? Treino: - tirar o / / de gela - tirar o /k/ de cana

Inicial 1º T 2ºT Final 1º T 2ºT Medial 1º T 2ºT / / de gema /r/ de sair /s/ de resto /p/ de pomar /w/ de sol /s/ de pasta /l/ de lata /r/ de caçar /r/ de parte /k/ de cama /s/ de pés /r/ de corta /R/ de rei / / de comerá /m/ de manta

8) Eu vou dizer três palavras, duas começam ou terminam com a mesma letrinha ou tem a mesma letrinha do meio e uma não. Quais palavras começam ou terminam com a mesma letrinha ou têm a mesma letrinha do meio? Treino: - MATO, GELO, MICO - MAR, LUA, VER

Inicial 1º T 2ºT Final 1º T 2ºT Medial 1º T 2ºT faca, trigo, fogo tiro, vaca, fogo lar, sim, tal vaso, gelo, jogo vaso, gema, cala cor, mel, pés vaca, vila, pato xale, bota, goma carta, porco, cosme tapa, bola, tudo cana, saco, vaca isca, arma, este saci, boca, bebê gari, pato, soco céu, gol, por

9) Agora eu vou falar como um robô, tente adivinhar a palavrinha. Treino: l-u-a, c-a-s-a.

3º fon. 1º T 2ºT 4º fon. 1º T 2ºT 5º fon. 1º T 2ºT 6º fon. 1º T 2ºT 7º fon. 1º T 2ºT sol mato Tampa Sapato armário mau gelo Leite Cereja estante ela sapo Maria tomate cenoura Ana lixo Largo doente estrada rua faca Carta macaco máscara

10) Agora eu vou dizer uma palavrinha e eu vou dizê-la como um robô.

Treino: l-u-a, c-a-s-a

3º fon. 1º T 2ºT 4º fon. 1º T 2ºT 5º fon. 1º T 2ºT 6º fon. 1º T 2ºT 7º fon. 1º T 2ºT pau bola resto Moleque lagarto meu taco perto Cabelo cadeira cai vaca certo Bexiga loteria viu dado braço Óculos abóbora seu gato livro Planta formiga

11) Vamos dizer as palavras de trás para frente para ver no que dá?

2 e 3 fonemas 1º T 2ºT 4 e 5 fonemas 1º T 2ºT rês (ser) roma (amor) miss (sim) assim (missa) ova (avô/o) rias (sair) ai (ia) rota (ator) alho (olha) omar (ramo)

RESULTADOS

A primeira tarefa de habilidade fonológica proposta aos alunos foi a de segmentação de frases em palavras. Os resultados estão dispostos na Tabela 1.

Tabela 1
Desempenho dos alunos não-alfabetizados e alfabetizados na tarefa de segmentação de frases em palavras

Observou-se uma diminuição de desempenho com o aumento de número de palavras na frase em crianças não alfabetizadas e um aumento considerável do desempenho das crianças alfabetizadas com o aumento de número de palavras.

Na tarefa de detecção de rimas, solicitou-se que os sujeitos reconhecessem as palavras similares auditivamente. Os resultados encontram-se na Tabela 2.

Tabela 2
Atuação dos alunos não alfabetizados e alfabetizados na tarefa de detecção de rimas em palavras dissílabas e trissílabas

Nesta atividade com palavras dissílabas e trissílabas, todos os sujeitos não alfabetizados conseguiram realizar tal tarefa, porém, três alunos alfabetizados não obtiveram êxito na atividade, denotando uma leve superioridade do primeiro grupo em lidar com rima.

Nas tarefas de síntese e segmentação silábica com palavras dissílabas, trissílabas e polissílabas houve 100% de acertos para ambos os grupos testados.

Para a tarefa de detecção de sílabas nas posições inicial, medial e final da palavra, encontraramse os resultados que estão dispostos na Tabela 3.

Observou-se que 50% dos sujeitos não alfabetizados apresentaram bom desempenho nesta tarefa enquanto que os alfabetizados mostraram um ótimo desempenho.

Tabela 3
Desempenho dos alunos na tarefa de detecção de sílabas
Tabela 4
Desempen atividade de reversão siho dos alunos alfabetizados na lábica

Na atividade de reversão silábica de palavras dissílabas, trissílabas e polissílabas, 100% dos alunos não alfabetizados não conseguiram realizá-la. Já para os alfabetizados os resultados obtidos encontram-se expostos na Tabela 4.

Percebeu-se que 80% dos sujeitos reverteram as sílabas formando novas palavras dissílabas e polissílabas.

Na tarefa de exclusão fonêmica os não alfabetizados não cumpriram o que foi solicitado e os alfabetizados atingiram os seguintes resultados mostrados na Tabela 5.

Constatou-se que 70% dos alunos alfabetizados formaram palavras após exclusão de fonemas na posição inicial e final. Percebeu-se uma pequena diferença de atuação na exclusão fonêmica na posição medial da sílaba.

A atividade de detecção de fonemas nas palavras revelou as respostas dispostas na Tabela 6.

Observou-se maior êxito dos sujeitos alfabetizados nesta atividade de detecção de fonemas nas posições inicial, medial e final, ou seja, 70% dos alfabetizados detectaram os fonemas, e apenas 20% dos não alfabetizados detectaram fonemas nas posições inicial, final e medial.

Tabela 5
Desempenho dos alunos alfabetizados na atividade de exclusão fonêmica
Tabela 6
Atuação dos alunos não alfabetizados e alfabetizados na atividade de detecção de fonemas
Tabela 7
Desempenho dos sujeitos alfabetizados na tarefa de síntese fonêmica

Nas tarefas de síntese, segmentação e reversão fonêmica os educandos não alfabetizados não concretizaram as atividades. A Tabela 7 demonstra o desempenho dos sujeitos alfabetizados na tarefa de síntese fonêmica.

Dos alfabetizados testados na tarefa de síntese fonêmica, 40% formaram palavras com até seis fonemas enquanto 100% não formaram palavras com 7 (sete) fonemas.

Nas tarefas de segmentação e reversão fonêmica, as crianças alfabetizadas não tiveram boa performance atingindo 100% de inabilidade para tais tarefas. Observou-se que não houve uma melhora no desempenho de forma relevante nas habilidades em consciência fonológica com relação à variável idade. Um aluno de 11 anos apresentou fraco resultado nas tarefas de segmentação de frases, detecção de rima, exclusão, detecção, síntese, reversão e segmentação fonêmicas, ao ser comparado com as crianças alfabetizadas com menor idade, talvez por apresentar algum tipo de dificuldade que interferiu no seu desempenho.

O grupo dos não alfabetizados demonstrou um comportamento de recusa acentuado, apresentando respostas breves e indefinidas ao iniciarem-se as tarefas que envolviam habilidades fonêmicas.

Na aplicação do Protocolo de tarefas de consciência fonológica as crianças revelaram ansiedade, inquietação e pouca concentração ao longo das atividades propostas devido à extensão das mesmas e o aumento da complexidade conforme a troca de tarefas interferindo no desempenho dos sujeitos.

Em relação as variáveis levantadas na pesquisa, o questionário revelou que a população é composta por pais com graus de instrução variados, desde analfabeto até ensino fundamental incompleto.

Observou-se que o interesse dos pais ou responsáveis pela vida escolar está diretamente relacionado aos benefícios que vão ganhar na permanência dos filhos em troca do investimento de tempo e esforço. No entanto, afirmam que não têm tempo para acompanhá-los nas atividades escolares como também não possuem letramento suficiente para estimular a aprendizagem da leitura e escrita.

DISCUSSÃO

Estudos mostram que em relação à habilidade de consciência de palavras, as crianças tendem a não considerar artigos, preposições, pronomes, dentre outros, como uma palavra, indicando uma falha no processo educacional, além de um número considerável de itens a serem controlados, exigindo uma boa capacidade de memória e atenção 14.

O resultado da tarefa de detecção de rimas corrobora com os achados de estudos que apontam que as crianças com 4 / 4:6 anos possuem capacidade para detectar rimas tornando-se mais tênue aos 6 / 6:6 anos, ou seja, supõe-se que crianças brasileiras, antes da alfabetização, são conscientes de rimas presentes nas brincadeiras infantis do diaa-dia e após o contato com a escrita, esta consciência torna-se mais frágil. Tal fato pode ser explicado, talvez pelo interesse pelos sons iniciais das palavras ou abandono das brincadeiras que envolvem rimas 5.

A consciência silábica desenvolve-se antes da consciência fonêmica pelo fato da sílaba conter núcleo vocálico caracterizado por um pico de energia acústica que age como pista auditiva, facilitando a localização dos segmentos silábicos pelas crianças não alfabetizadas e alfabetizadas 15.

Algumas tarefas de consciência fonológica são mais simples, exigindo apenas uma operação seguida de resposta, como a segmentação de sílabas de uma palavra, porém, tarefas mais complexas, exigem a realização de duas operações, ou seja, guardar uma unidade na memória enquanto é feita uma nova manipulação. As respostas variam de acordo com o tipo de operação que é exigido da criança 16.

Na tarefa de reversão silábica observa-se a habilidade da criança em segmentar, manipular e juntar sílabas de palavras. Em pesquisa recente encontrou-se um aumento crescente do desempenho do aluno à medida que as faixas etárias aumentaram e que o desempenho foi nulo ou muito baixo em crianças com idades entre 4 e 5 anos. Percebeu-se, portanto, uma diferença marcante entre a não execução da tarefa dos sujeitos não alfabetizados com faixa etária de seis anos e onze meses a oito anos e oito meses, comparando-se com esta pesquisa a qual sugere que esta habilidade parece surgir em torno dos seis anos de idade, aumentando marcadamente até os oito anos 17.

O desenvolvimento da consciência fonológica é um importante instrumento que os profissionais podem utilizar para melhorar a leitura e a escrita das crianças, ressaltando que outras variáveis são igualmente importantes para tal aquisição, tais como o nível sócio-econômico-cultural, a escolaridade dos pais, aspectos pedagógicos, a maturação intelectual, aspectos emocionais, grau de sensibilidade lingüística, entre outros 18.

O estudo permitiu comprovar que determinadas habilidades em consciência fonológica facilitam o aprendizado da leitura e escrita, apesar de alguns sujeitos da amostragem apresentarem distorções entre a idade e o ciclo que freqüentam e defasagem nos níveis de desempenho nas tarefas de habilidades fonológicas de acordo com a literatura explorada. Estes alunos possivelmente apresentam um rendimento pedagógico mais baixo devido à privação social, situação sócio-econômica, pouca estimulação para a leitura e escrita, instrução educacional inadequada e menor qualidade de ensino na rede pública.

Torna-se claro o papel dos pais ou responsáveis em acompanhar o desenvolvimento das suas crianças mais de perto e de forma mais atuante, valorizando suas tarefas e estimulando-as a gostarem de aprender de forma prazerosa e a serem curiosas na vida fora da escola.

A partir do que foi relatado evidencia-se a importância do conhecimento do fonoaudiólogo sobre o papel das habilidades fonológicas na aquisição da escrita, visto que a maioria dos alunos que chega ao consultório fonoaudiológico apresenta sérios problemas de leitura e escrita e é de extrema importância que esse profissional consiga diferenciar se está diante de um quadro patológico ou de um processo normal de aquisição resultando numa prática mais coerente e efetiva.

Reforça-se a necessidade de inclusão do fonoaudiólogo no contexto escolar para um intercâmbio mais efetivo no que se refere à prevenção e orientação aos pais e professores sobre o processo de aquisição da leitura e escrita das crianças ao longo da escolaridade.

Necessita-se esclarecer que as provas de consciência fonológica não servem como instrumento diagnóstico para detecção de dificuldades específicas de aprendizagem, mas podem ser um meio de tentar entender como se encontra o processo de aquisição da criança avaliada, levando em conta a variação de exigência cognitiva de cada tarefa, a extensão das atividades e as variáveis que podem interferir no processo e que foram discutidas neste trabalho.

CONCLUSÃO

Na amostra estudada verificou-se que crianças alfabetizadas apresentaram desempenhos superiores aos das crianças não alfabetizadas nas tarefas de segmentação de frases em palavras, detecção de sílabas, reversão silábica, exclusão fonêmica, detecção de fonemas e síntese fonêmica.

As tarefas de síntese e segmentação silábica mostraram um ótimo desempenho de todas as crianças com acerto de 100% das atividades propostas.

Os dois grupos testados não conseguiram realizar as tarefas de segmentação e reversão fonêmica.

As crianças não alfabetizadas apresentaram atuação melhor apenas na tarefa de detecção de rimas.

Fatores externos como nível sócio-econômicocultural, pouca estimulação no ensino-aprendizagem e distorção série/idade parecem ter contribuído com o baixo desempenho dos sujeitos testados.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2005

Histórico

  • Recebido
    29 Jan 2005
  • Aceito
    08 Maio 2005
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