Em junho de 1969, a comunidade LGBTQIAPN+ fez história com a Revolta de Stonewall em Nova York, EUA. Na madrugada de 28 de junho, clientes do bar Stonewall Inn reagiram contra uma invasão policial, o que era relativamente frequente em bares com público LGBTQIAPN+, desencadeando protestos que se espalharam pela cidade. Esses eventos são amplamente reconhecidos como o catalisador do moderno movimento pelos direitos LGBTQIAPN+. A revolta de Stonewall marcou o início de uma luta mais expressiva e organizada contra a discriminação e pela igualdade de direitos para a comunidade LGBTQIAPN+ no mundo todo. Em reconhecimento a essa importante data, o mês de junho foi escolhido para celebrar mundialmente o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ e 28 de Junho se tornou o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+1,2.
O mês do orgulho é celebrado mundialmente e se trata de um período de reafirmação e celebração das diversas identidades, orientações e expressões de gênero. É uma ocasião para refletirmos sobre a importância da inclusão e do respeito à diversidade em todas as áreas da sociedade, incluindo a saúde. Nesse contexto, a Fonoaudiologia tem um papel fundamental em garantir que todas as vozes sejam ouvidas, reconhecidas e respeitadas.
O papel da Fonoaudiologia na comunidade LGBTQIAPN+
Em qualquer que seja a área de atuação da pessoa fonoaudióloga (encorajamos termos de linguagem inclusiva, como pessoas fonoaudiólogas, para que não se tenha exclusão de pessoas não binárias ou com presença de variabilidade de gênero), a prática fonoaudiológica deve ser inclusiva e culturalmente competente, especialmente ao tratar de populações diversas como a comunidade LGBTQIAPN+. Estudos indicam que há uma necessidade urgente de promover a competência cultural entre as pessoas fonoaudiólogas para melhor atender as necessidades da população LGBTQIAPN+3.
Pessoas transexuais, por exemplo, frequentemente buscam serviços de Fonoaudiologia para assumir a sua identidade vocal e comunicativa como parte de seu processo de afirmação de gênero. No entanto, muitas pessoas fonoaudiólogas ainda se sentem despreparadas para fornecer esses serviços devido à falta de treinamento específico em seus currículos de graduação3.
Competência cultural e educação em Fonoaudiologia
É imperativo que a educação em Fonoaudiologia inclua módulos específicos sobre a cultura e as necessidades da comunidade LGBTQIAPN+. Um estudo mostrou que os alunos responderam positivamente a um módulo de ensino sobre questões LGBTQIAPN+, demonstrando maior interesse, engajamento e consciência para melhor atender esses clientes4.
Além disso, é crucial que as pessoas fonoaudiólogas compreendam a importância de uma abordagem centrada na pessoa e que seja culturalmente responsiva. Isso inclui reconhecer o impacto do estresse de minoria e microagressões na saúde mental e bem-estar dos indivíduos LGBTQIAPN+, e adaptar suas práticas para abordar essas questões diretamente5.
Desafios e oportunidades
Embora haja avanços significativos, muitos desafios persistem. A inclusão de conteúdos sobre a diversidade LGBTQIAPN+ nos currículos de graduação em Fonoaudiologia ainda é limitada e variável entre instituições. Há a necessidade urgente de padronizar essa educação para garantir que todos os profissionais sejam bem preparados. Estudos recentes destacam que muitas pessoas fonoaudiólogas ainda não recebem treinamento adequado sobre comunicação e terapia vocal para pessoas transgêneras em seus programas de graduação3 e que pessoas fonoaudiólogas podem aprender sobre a população LGBTQIAPN+ por diversas formas, tais como a realização de pesquisas, interações com os pacientes, ambientes de consultório e documentação do paciente6.
Além disso, a diversidade dentro da própria força de trabalho da Fonoaudiologia também precisa ser ampliada. Pesquisas mostram que uma equipe diversificada enriquece a prática profissional e promove uma inclusão mais significativa e equitativa nos serviços prestados7.
Quanto à graduação, a inclusão de conteúdos sobre a saúde LGBTQIAPN+ nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Fonoaudiologia é fundamental para garantir uma formação completa e inclusiva de futuras pessoas fonoaudiólogas. Tal inclusão está alinhada com o princípio de reconhecer a saúde como um direito e garantir a integralidade da assistência, conforme estipulado nas diretrizes8. Considerar aspectos de gênero e orientação sexual, além de outras dimensões socioeconômicas, culturais e históricas, é essencial para assegurar que pessoas fonoaudiólogas sejam capazes de atuar de forma competente e sensível às necessidades diversas da sociedade. Essa abordagem promove ações e serviços de saúde que são, além de curativos e preventivos, promotores de uma assistência contínua e articulada em todos os níveis de complexidade do sistema, atendendo de maneira adequada e respeitosa a todos os indivíduos, independentemente de suas características pessoais ou identitárias.
CONCLUSÃO
A Fonoaudiologia tem um papel vital na promoção da saúde e bem-estar da comunidade LGBTQIAPN+. Para avançarmos, é essencial que a educação em Fonoaudiologia incorpore conteúdos robustos sobre diversidade e que os profissionais sejam preparados para fornecer cuidados culturalmente competentes. Devemos nos esforçar para garantir que todas as vozes, especialmente aquelas das populações marginalizadas, sejam ouvidas e respeitadas. Ao fazê-lo, estaremos contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e equitativa.
Como profissionais da saúde, temos a responsabilidade de liderar pelo exemplo, promovendo a inclusão e a equidade em nossas práticas diárias. No Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, cabe a nós reiterarmos o nosso compromisso com a diversidade e nos comprometermos a continuar aprendendo e crescendo para melhor servir a todos os membros da nossa comunidade.
Referências bibliográficas
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3 Hancock A, Haskin G. Speech-Language Pathologists' knowledge and attitudes regarding Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender, and Queer (LGBTQ) populations. Am J Speech Lang Pathol. 2015;24(2):206-21. https://doi.org/10.1044/2015_AJSLP-14-0095 PMID: 25654222.
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4 Mahendra N. Integrating lesbian, gay, bisexual, transgender, and queer issues into the multicultural curriculum in speech-language pathology: Instructional strategies and learner perceptions. Perspect. ASHA Spec. Interest Groups. 2019;4(2):384-94. https://doi.org/10.1044/2019_PERS-SIG14-2018-0007
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5 Azul D, Hancock AB, Lundberg T, Nygren U, Dhejne C. Supporting well-being in gender-diverse people: A tutorial for implementing conceptual and practical shifts toward culturally responsive, person-centered care in speech-language pathology. Am J Speech Lang Pathol. 2022;31(4):1574-87. https://doi.org/10.1044/2022_AJSLP-21-00322 PMID: 35580248.
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6 Clark EK, Koenig AL. Affirming practices with LGBTQIA+ patients seeking speech and hearing care. Ear Hear. 2023;44(5):949-54. https://doi.org/10.1097/AUD.0000000000001373 PMID: 37226296.
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7 Nancarrow S, McGill N, Baldac S, Lewis T, Moran A, Harris N et al. Diversity in the Australian speech-language pathology workforce: Addressing sustainable development goals 3, 4, 8, and 10. Int J Speech Lang Pathol. 2023;25(1):119-24. https://doi.org/10.1080/17549507.2023.2165149 PMID: 36773003.
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8 Brasil. Ministério da Educação [Webpage on the internet]. Resolução CNE/CES nº 5, de 19 de fevereiro de 2002. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Fonoaudiologia. Brasília: Ministério da Educação; 2002 [accessed 2024 Jun 2]. Available at: https://normativasconselhos.mec.gov.br/normativa/view/CNE_CES05_02.pdf?query=INOVA%C3%87%C3%83O
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