Open-access Descrição da correção minimamente invasiva da Diástase do Reto Abdominal (MILA) com preservação do ligamento umbilical

RESUMO

A diástase do reto abdominal (DRA) é uma condição frequente da parede abdominal anterior, com impacto funcional e estético, cujo tratamento cirúrgico tem evoluído progressivamente para abordagens menos invasivas. Entre essas, a técnica MILA (Minimally Invasive Lipoabdominoplasty) destaca-se por permitir a correção da diástase por via endoscópica no plano supra-aponeurótico. O presente artigo tem como objetivo descrever detalhadamente a técnica MILA com preservação do ligamento umbilical, enfatizando seus aspectos técnicos e anatômicos, bem como os critérios de seleção e os passos cirúrgicos fundamentais para sua reprodutibilidade. Trata-se de uma descrição técnica, sem análise de desfechos clínicos ou comparação entre métodos. A preservação do ligamento umbilical constitui um diferencial da técnica, contribuindo para a manutenção da anatomia umbilical e do contorno abdominal natural. A descrição sistematizada da MILA pode auxiliar cirurgiões na padronização da técnica e servir de base para futuros estudos clínicos comparativos.

Palavras-chave:
Diástase do Reto Abdominal; Cirurgia Minimamente Invasiva; Laparoscopia; Parede Abdominal; Umbigo

ABSTRACT

Diastasis rectus abdominis (DRA) is a frequent condition of the anterior abdominal wall, with functional and aesthetic impact, whose surgical treatment has progressively evolved to less invasive approaches. Among these, MILA (Minimally Invasive Lipoabdominoplasty) stands out for allowing the correction of diastasis endoscopically in the supra-aponeurotic plane. The present article details the MILA technique with umbilical ligament preservation, emphasizing its technical and anatomical aspects, as well as the selection criteria and the fundamental surgical steps for its reproducibility. This is a technical description, without analysis of clinical outcomes or comparison between methods. The preservation of the umbilical ligament is a differential of the technique, contributing to the maintenance of the umbilical anatomy and the natural abdominal contour. The systematized description of MILA can help surgeons standardize the technique and serve as a basis for future comparative clinical studies.

Keywords:
Diastasis Rectus Abdominis; Minimally Invasive Surgery; Laparoscopy; Abdominal Wall; Navel

INTRODUÇÃO

A diástase do reto abdominal (DRA) caracteriza-se pelo afastamento excessivo dos músculos retos abdominais ao longo da linha alba, decorrente da alteração da resistência e da integridade do tecido conjuntivo dessa estrutura. Trata-se de uma condição frequentemente associada à gestação, mas que também pode ocorrer em indivíduos com ganho ponderal significativo, cirurgias abdominais prévias ou fatores constitucionais1,2. Estudos epidemiológicos demonstram elevada prevalência da DRA durante a gravidez e no período pós-parto, podendo persistir em parcela significativa dos pacientes1.

Embora por vezes considerada predominantemente uma alteração estética, a DRA pode estar associada a repercussões funcionais relevantes, incluindo dor lombar, sensação de instabilidade da parede abdominal, diminuição da força do core e impacto negativo na qualidade de vida2,3. Do ponto de vista anatômico, a linha alba exerce papel fundamental na transmissão de forças da musculatura abdominal, e o aumento patológico de sua largura está diretamente relacionado à disfunção da parede abdominal anterior4,5.

As opções terapêuticas para a DRA incluem abordagens conservadoras e cirúrgicas. O tratamento conservador, baseado em fisioterapia e fortalecimento muscular, apresenta resultados variáveis e eficácia limitada nos casos de diástase moderada a grave6. Nessas situações, a correção cirúrgica mostra-se a alternativa mais efetiva para restauração da anatomia e da função da parede abdominal7,8.

Tradicionalmente, a correção cirúrgica da DRA foi realizada por meio de técnicas abertas, como a abdominoplastia convencional. Apesar de eficazes, esses procedimentos estão associados a maior morbidade, tempo prolongado de recuperação e cicatrizes extensas9. Com o avanço da cirurgia minimamente invasiva, surgiram técnicas endoscópicas e laparoscópicas que permitem a correção da diástase com menor agressão tecidual, menor taxa de complicações e recuperação mais rápida10,12.

Entre as abordagens minimamente invasivas descritas na literatura, destacam-se a reparação subcutânea laparoscópica (SCOLA), a reparação endoscópica pré-aponeurótica (REPA) e a reconstrução endoscópica da linha alba, todas com resultados promissores no tratamento da DRA isolada ou associada a defeitos da linha média10,13. Entretanto, apesar da crescente difusão dessas técnicas, ainda há heterogeneidade na nomenclatura, nos critérios de indicação e nos detalhes técnicos descritos12,14.

A técnica MILA (Minimally Invasive Lipoabdominoplasty) foi proposta como uma abordagem endoscópica no plano supra-aponeurótico, permitindo a plicatura dos músculos retos associada a procedimentos estéticos complementares15. Contudo, a preservação sistematizada do ligamento umbilical, especialmente em pacientes sem hérnia umbilical associada, ainda carece de descrição técnica padronizada na literatura. Considerando a importância anatômica do ligamento umbilical para a manutenção do contorno e da viabilidade do umbigo, sua preservação pode representar um diferencial técnico relevante16.

Diante desse contexto, justifica-se a apresentação de uma descrição técnica detalhada da MILA com preservação do ligamento umbilical, enfatizando seus fundamentos anatômicos, critérios de seleção e etapas cirúrgicas, com o objetivo de contribuir para a padronização da técnica e servir de base para futuras investigações clínicas.

MATERIAIS E MÉTODOS

Natureza do estudo

Trata-se de um estudo descritivo de técnica cirúrgica, cujo objetivo é apresentar de forma sistematizada os princípios técnicos da correção minimamente invasiva da diástase do reto abdominal por meio da técnica MILA, com ênfase na preservação do ligamento umbilical. Não houve coleta de dados clínicos individuais, análise estatística ou seguimento sistematizado de pacientes, não se configurando como série de casos nem estudo comparativo, em conformidade com descrições técnicas previamente publicadas na literatura cirúrgica minimamente invasiva10,12.

Questões éticas

Por se tratar exclusivamente de uma descrição técnica, não houve participação direta de pacientes ou animais, nem coleta de informações identificáveis. As imagens utilizadas possuem caráter estritamente didático e ilustrativo, não permitindo identificação individual. Dessa forma, o estudo não se enquadra nos critérios que exigem submissão e aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme práticas adotadas em publicações similares de descrição técnica em cirurgia da parede abdominal10,11.

Critérios de inclusão e exclusão

Os critérios descritos a seguir referem-se à indicação técnica da abordagem MILA com preservação do ligamento umbilical, e não à definição de uma amostra clínica.

Critérios de inclusão

  • Índice de massa corporal (IMC) ≤ 27 kg/m2;

  • Diástase do reto abdominal com afastamento de até 4 cm, mensurada por exame físico e/ou métodos de imagem;

  • Ausência de hérnia umbilical associada;

  • Boa qualidade cutânea e espessura adequada do tecido subcutâneo, permitindo a abordagem no plano supra-aponeurótico.

Esses critérios estão em concordância com recomendações descritas para abordagens minimamente invasivas da diástase do reto abdominal8,15,17.

Critérios de exclusão

  • Presença de hérnia umbilical ou outras hérnias da linha média;

  • Cirurgias abdominais prévias complexas envolvendo a linha média;

  • IMC elevado;

Flacidez cutânea severa que contraindique a abordagem minimamente invasiva isolada.

Preparação do Paciente

A avaliação pré-operatória inclui anamnese detalhada, exame físico criterioso da parede abdominal e exames de imagem, como ultrassonografia ou tomografia computadorizada, para confirmação da extensão da diástase e exclusão de hérnias associadas17. Recomenda-se a suspensão de anticoagulantes e anti-inflamatórios não esteroides conforme protocolos institucionais.

Antes do procedimento, o paciente é orientado quanto às características da técnica, potenciais riscos e limitações da abordagem, sendo obtido consentimento informado para o procedimento cirúrgico. A demarcação pré-operatória é realizada com o paciente em posição ortostática, identificando-se a linha média abdominal, a projeção do umbigo e os pontos de acesso endoscópico, seguindo princípios descritos para cirurgias minimamente invasivas da parede abdominal10,11.

Instrumental Cirúrgico Específico

O procedimento requer instrumental específico para abordagem endoscópica no plano supra-aponeurótico, incluindo:

  • Endoscópio rígido de 10 mm com óptica de 30°;

  • Trocárteres subcutâneos (um de 11 mm e dois de 5 mm);

  • Insuflador de dióxido de carbono (CO2);

  • Pinças laparoscópicas atraumáticas;

  • Tesoura endoscópica e sistema de eletrocoagulação monopolar;

  • Agulha endoscópica curva;

  • Fios de sutura de alta resistência, preferencialmente monofilamentares barbados bidirecionais;

  • Sistema de videolaparoscopia com visualização em alta definição.

Técnica Cirúrgica Detalhada

Primeira etapa:

Realiza-se previamente lipoaspiração do abdome anterior, com o objetivo de facilitar a criação do espaço supra-aponeurótico e otimizar o contorno abdominal. O procedimento é executado utilizando cânulas de 3 mm e pressão negativa inferior a 0,5 atm, respeitando rigorosamente os limites estabelecidos pelas normas vigentes do Conselho Federal de Medicina para procedimentos combinados. As incisões utilizadas para a lipoaspiração, incluindo aquelas na região superior do abdome e periumbilical, são revisadas e fechadas, permitindo a adequada confecção do espaço de trabalho supra-aponeurótico.

Segunda etapa:

Plicatura endoscópica DRA

  1. 1. Posicionamento e Antissepsia:
    • Posição: Decúbito dorsal com braços em abdução a 90° e pernas abertas (posição francesa).

    • Antissepsia da parede abdominal: Clorexidina alcoólica a 2% (ou conforme protocolo do serviço).

    • Campo cirúrgico estéril com abertura xifo-pélvica.

  2. 2. Acesso Minimamente Invasivo:
    • Portal óptico (11 mm): Incisão transversal de 1,5 cm no sulco suprapúbico, com dissecção romba até o espaço supraaponeurótico na linha média.

    • Portais de trabalho (5 mm): Direito e esquerdo, utilizando incisões prévias de cânula de lipoaspiração.

  3. 3. Criação do Espaço de Trabalho:
    • Insuflação de CO2 a 10 mmHg do espaço onlay previamente dissecado, permitindo visualização endoscópica do espaço supraaponeurótico e da rede trabecular pós-lipoaspiração.

    • Dissecção cônica no sentido cranial do tecido celular subcutâneo, procede-se à identificação cuidadosa do ligamento umbilical, o qual é preservado integralmente nos casos sem hérnia umbilical associada. Na presença de hérnia umbilical, o ligamento pode ser liberado conforme a necessidade técnica.

  4. 4. Plicatura dos Retos Abdominais:
    • Sutura contínua crânio-caudal com fio monofilamentar barbado bidirecional sem nó (preferencialmente 0 ou 1.0), em padrão em “U” invertido, com espaçamento de 1 cm entre pontos (geralmente 2 unidades para cobertura completa do defeito ao longo da linha média).

    • Correção do defeito umbilical (quando hérnia associada).

  5. 5. Finalização:
    • Retirada e corte da agulha sob visão do portal de 11 mm.

    • Desinsuflação do do espaço supra-aponeurótico.

    • Síntese cutânea com sutura intradérmica absorvível ou cola cirúrgica nos portais.

Figura 1
Posicionamento e Antissepsia.

Figura 2
Acesso minimamente Invasivo.

Figura 3
Criação do Espaço de Trabalho.

Figura 4
Identificação do ligamento umbilical.

Figura 5
Preservação do ligamento umbilical.

Figura 6
Visualização do cone xifo-púbico.

Figura 7
Sutura contínua crânio-caudal.

Tercera etapa:

Na etapa final, podem ser empregadas tecnologias adjuvantes de retração cutânea, como radiofrequência, ultrassom, laser ou outras disponíveis no serviço. A escolha da tecnologia baseia-se em critérios clínicos, características da pele e disponibilidade institucional, não interferindo na execução nem na reprodutibilidade da técnica MILA propriamente dita.

Ao término do procedimento, procede-se ao posicionamento e fixação de dreno com sistema de vácuo, seguido de curativo estéril e colocação de faixa modeladora compressiva.

Figura 8
Preservação do ligamento umbilical.

Figura 9
Desinsuflação do espaço supraaponeurótico.

Figura 10
Posicionamento para inicio de tecnologias de retração cutânea.

DISCUSSÃO

A técnica MILA, na sua concepção original, foi desenvolvida como uma abordagem minimamente invasiva no plano supra-aponeurótico para correção da diástase do reto abdominal, combinando princípios de cirurgia endoscópica da parede abdominal com objetivos estéticos complementare15. A presente descrição técnica propõe como diferencial a preservação sistematizada do ligamento umbilical em pacientes selecionados, sem hérnia umbilical associada, aspecto ainda pouco detalhado na literatura.

No contexto das abordagens minimamente invasivas, diversas técnicas têm sido descritas para o tratamento da diástase do reto abdominal, incluindo a reparação subcutânea laparoscópica (SCOLA), a reparação endoscópica pré-aponeurótica (REPA) e a reconstrução endoscópica da linha alba10,13. Embora compartilhem princípios técnicos semelhantes, essas abordagens apresentam variações quanto ao plano de dissecção, à sistematização da plicatura e ao manejo do umbigo. De modo geral, a preservação explícita do ligamento umbilical não é abordada de forma padronizada nessas técnicas, sendo frequentemente realizada a sua liberação quando necessária à exposição cirúrgica.

A preservação do ligamento umbilical, conforme descrita nesta técnica, fundamenta-se em princípios anatômicos bem estabelecidos. O ligamento umbilical desempenha papel relevante na manutenção da vascularização e da posição anatômica do umbigo, e sua preservação pode contribuir para a manutenção do contorno abdominal natural e para a redução de complicações umbilicais descritas em técnicas abertas e em algumas abordagens endoscópicas18. Estudos prévios sugerem que a integridade anatômica do umbigo está associada a melhores resultados estéticos, embora a evidência clínica comparativa ainda seja limitada16.

Em comparação com técnicas abertas tradicionais, como a abdominoplastia convencional, as abordagens minimamente invasivas da diástase do reto abdominal apresentam vantagens teóricas bem documentadas, incluindo menor agressão tecidual, recuperação mais rápida e menor incidência de complicações relacionadas à ferida operatória9. Nesse cenário, a MILA se insere como uma alternativa técnica que permite a correção da diástase por via endoscópica, mantendo princípios de reconstrução funcional da linha alba descritos em outras técnicas minimamente invasivas10,11.

É importante ressaltar que o presente manuscrito se limita à descrição técnica, não apresentando dados clínicos próprios, casuística ou análise de desfechos funcionais e estéticos. Essa característica constitui uma limitação inerente ao escopo do estudo, mas é compatível com publicações prévias de descrição técnica em cirurgia da parede abdominal10,12. A ausência de seguimento clínico e de avaliação comparativa impede inferências quanto à superioridade da técnica em relação a outras abordagens, devendo tais aspectos ser explorados em estudos futuros.

Dessa forma, estudos prospectivos, séries de casos e investigações multicêntricas com acompanhamento em médio e longo prazo são necessários para avaliar de maneira objetiva os desfechos funcionais, estéticos e o perfil de complicações da técnica MILA com preservação do ligamento umbilical, bem como para compará-la com outras abordagens minimamente invasivas atualmente disponíveis8,12,15.

CONCLUSÕES

A técnica MILA representa uma abordagem minimamente invasiva para a correção da diástase do reto abdominal no plano supra-aponeurótico, permitindo a plicatura da linha alba por via endoscópica. A preservação do ligamento umbilical, conforme descrita neste artigo, constitui um diferencial técnico que visa manter a integridade anatômica do umbigo em pacientes selecionados e sem hérnia umbilical associada.

A descrição sistematizada da técnica, com definição clara das etapas cirúrgicas, critérios de indicação e cuidados técnicos, contribui para sua reprodutibilidade e padronização, podendo auxiliar cirurgiões no planejamento e execução do procedimento. Por se tratar de uma descrição técnica, o presente trabalho não permite inferências quanto a desfechos clínicos, funcionais ou estéticos, os quais deverão ser avaliados em estudos futuros.

Investigações prospectivas, séries de casos e estudos multicêntricos serão necessárias para validar os potenciais benefícios da técnica MILA com preservação do ligamento umbilical e para compará-la de forma objetiva com outras abordagens minimamente invasivas no tratamento da diástase do reto abdominal.

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    Daniel Cacione

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Jul 2025
  • Aceito
    05 Maio 2026
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