Open-access O EMÉRITO ORLANDO MARQUES VIEIRA

INTRODUÇÃO

Transcorria o ano de 1932, quando em 29 de novembro, nasceu no Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca, aquele que seria um expoente da cirurgia brasileira Orlando Marques Vieira (Figura 1), filho de Antonio Marques Vieira e Maria Rosa de Almeida Vieira. Casou-se com Marinete Neves Marques Vieira e tiveram duas filhas: Fernanda Marques Vieira e Marcela Marques Vieira, ambas professoras universitárias. Uma curiosidade: sempre que perguntado sobre a sua naturalidade o Prof. Orlando enfaticamente afirmava que era “carioca da gema”, ou seja, nascido no munícipio do Rio de Janeiro, filho de pais também nascidos no Rio de Janeiro. Cabe assinalar que era um apaixonado torcedor do América Futebol Clube.

Figura 1
ECBC Orlando Marques Vieira.

Iniciou seus estudos no jardim de infância do Instituto Lafayette e permaneceu nesta conceituada instituição de ensino até a conclusão do terceiro ano científico. Em suas conversas o Prof. Orlando demonstrava um grande orgulho desta turma que caminhou unida até a conclusão do curso científico, o motivo? Cinco alunos desta turma tornaram-se professores titulares em diversas universidades do nosso país.

Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil (atualmente Faculdade de Medicina da UFRJ) em 1951. Em 1956, ainda aluno da graduação, foi admitido por concurso para realizar o internato na terceira cadeira de clínica cirúrgica, então chefiada pelo ilustre professor Mariano Augusto de Andrade. Ele sempre dizia que “desde criança queria ser médico e professor de medicina” e afirmava que não entendia o porquê deste pensamento. Referindo-se a este fato proferiu as seguintes palavras durante seu discurso de posse como Professor Emérito da UFRJ: “Naquele momento, iniciava minha carreira universitária tão acalentada desde os bancos escolares”. Ao final de 1956, com 24 anos de idade, graduou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Após o internato realizou a residência em cirurgia também na Terceira Cadeira da Clínica Cirúrgica. Após terminar a residência em Cirurgia Geral foi admitido como instrutor de Cirurgia na terceira Cadeira de Clínica Cirúrgica da UFRJ. Terminada a residência “precisava arranjar uma fonte de renda”. Submeteu-se então ao concurso para o Ministério da Saúde para exercer clínica médica. Exerceu vários cargos na Divisão de Organização Hospitalar do Ministério da Saúde. Posteriormente, em 1965, após a realização de concursos recebeu os títulos de Doutor em Medicina e Livre-Docente em Cirurgia Geral pela UFRJ. Em 1969, reforçando o seu interesse pela vida universitária, o Prof. Orlando concorreu e foi aprovado no concurso para Livre - Docente realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e recebeu o título de Livre-Docente em Clínica Cirúrgica.

Na FM-UFRJ participou de várias Comissões e bancas examinadoras. Foi Diretor Adjunto de Pós-Graduação de 1992 a 1995. Chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, de 1994 a 2002.

Em 1989 inscreveu-se para participar do concurso para professor Titular do Departamento de Cirurgia da FM-UFRJ. Após excelente desempenho neste concurso, foi aprovado como professor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFRJ, na área de Técnica Operatória. Sua posse foi realizada em 14/06/1989.

Foi nome da turma de formandos de Medicina-UFRJ de 2002. Patrono da turma de 2004 e Paraninfo da turma de 2005. Em 1994 foi o professor escolhido para receber os novos residentes do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF)- UFRJ.

Destacou-se no ensino e na prática da Cirurgia Geral e, especialmente, na Cirurgia Gastroenterológica1-3, incluindo a Cirurgia Experimental4, onde, durante o final da década de 1960 estimulou o programa de transplante hepático em cães, realizado pelo então residente e futuro professor do Departamento de Cirurgia da UFRJ Prof. Henrique Murad. Decorridos aproximadamente 30 anos deste fato, foi realizado no (HUCFF), em 1993, o primeiro transplante de fígado no Rio de Janeiro. Mais uma vez pontificava o Prof. Orlando Marques Vieira colaborando e estimulando o Prof. Joaquim Ribeiro Filho condutor deste icônico ato operatório (Figura 2). O Prof. Orlando também se destacou por sua atuação no tratamento cirúrgico da hipertensão portal5 e das doenças do esôfago e do estômago.

Figura 2
ECBC Oralndo Marques Vieira, TCBC Eduardo Crema, Prof. Laurent Hannoun (Hôpital Pitié Salpêtrière), TCBC Vinícius Gomes da Silveira e TCBC Joaquim Ribeiro Filho.

O Prof. Orlando participou da autoria de vários livros, entre eles podemos citar: Clínica Cirúrgica - Fundamentos Teóricos e Práticos8. Esta obra foi editada para alunos de graduação e pós-graduação O seu conteúdo aborda de forma clara e detalhada os fundamentos da arte cirúrgica, incluindo os capítulos que versam sobre bases científicas da cirurgia e biologia molecular. Recordar para Viver9. É uma coletânea de discursos proferidos e selecionados pelo Prof. Orlando durante a sua vida acadêmica exercida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Colégio Brasileiro de Cirurgiões e na Academia Nacional de Medicina. Clínica Cirúrgica: Teoria e Prática10. Este livro, elaborado por professores da UFRJ, oferece uma introdução abrangente aos fundamentos da cirurgia, com foco no ensino médico e na formação de estudantes. Apresenta uma estrutura didática, com linguagem clara, conteúdo atualizado e rico material visual. Cada capítulo explora de forma sistemática o diagnóstico, o tratamento, as técnicas operatórias e os resultados clínicos, proporcionando uma base sólida para o aprendizado cirúrgico. Condutas em Cirurgia Gástrica, Biliar, Hepática, Pancreática, Endócrina e Esofagiana11. Este livro, originado da prática médica diária, reúne observações e condutas padronizadas, consolidadas por consenso em reuniões de avaliação cirúrgica. O seu conteúdo orienta para a atuação cirúrgica, com foco na aplicabilidade e na uniformização dos procedimentos.

Nosso professor aposentou-se, em decorrência de imperativo estatutário, em 2002. Entretanto continuou, voluntariamente, exercendo as suas atividades didáticas no Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina e as assistenciais no Serviço de Cirurgia do HUCFF, chefiando a seção de Cirurgia hepato-gástrica. Em 24/06/2005 recebeu o Título de Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, outorgado pelo Conselho Universitário da UFRJ.

Desenvolveu atividade assistencial, durante vários anos, atuando como plantonista do setor de emergência do Hospital Paulino Werneck. Em 1985 foi designado para chefiar o serviço de cirurgia deste hospital. Permaneceu neste cargo até 1992.

O prof. Orlando Marques Vieira iniciou a sua vitoriosa trajetória no Colégio Brasileiro de Cirurgiões em 1962, como Membro Associado, tornou-se Membro Titular, em 1967, e Membro Emérito em 2006. Participou ativamente de diversos cargos em vários diretórios: 28º (1989/1991) 1º Vice-Presidente; 29º (1992/1994 - Presidente); 30º (1995/1997) Presidente do Exercício anterior (1992/1994); 31º (1998/1999) - Diretor de Biblioteca e Museu; 32º (2000/2001) Diretor de Patrimônio e Sede; 33º (2002/2003) Diretor de Patrimônio e Sede; Membro da Comissão Eleitoral em (2018/2019 e 2022/2023).

Posteriormente, tornou-se Conselheiro Nato do Conselho Consultivo Superior e Membro Efetivo da Comissão Especial Permanente.

A nacionalização do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), um pensamento que germinava desde as diretorias iniciais da nosso colégio, ganhou novo fôlego após o Prof. Orlando assumir a presidência (1992-1994) porque, além da sua intenção de expandir o CBC por todo o território nacional, ele já trazia ampla experiência na descentralização da entidade. Sua atuação anterior na Comissão de Ensino Continuado, durante a gestão de Ruy Ferreira Santos, e como vice-presidente do Núcleo Central, sob a liderança de Guilherme Eurico Bastos da Cunha, fortaleceu seu compromisso com a integração nacional. Sob a sua gestão, promoveu a criação de novos capítulos regionais e incentivou a reformulação do Estatuto do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Estas essenciais reformulações permitiram que qualquer estado pudesse indicar o respectivo vice-presidente regional.

Outra iniciativa importante foi a alteração na periodicidade dos congressos brasileiros, que passaram de trienais para bienais. Uma outra ação foi iniciada em relação aos mandatos do Diretório Nacional. Comentando sobre estas alterações o Prof. Orlando afirmou que elas: “além de modernizar a gestão, proporcionaram maior integração nacional, permitindo aos membros do CBC de todo o Brasil maior participação nas atividades do Colégio Brasileiro de Cirurgiões”.

O professor Orlando Marques Vieira também criou o Fórum Regional de Pesquisa em Cirurgia e instituiu os Prêmios Alfredo Monteiro, Ruy Ferreira Santos e Mariano de Andrade, concedidos aos melhores trabalhos apresentados no Fórum. Criou o Curso de Reciclagem em Cirurgia Geral, em 1986, que recebia cirurgiões de todo o país para aulas teóricas e visitas aos principais serviços de cirurgia do Rio de Janeiro. O curso era gratuito e a única exigência: o candidato deveria ter um mínimo de seis anos de experiência como cirurgião.

Ainda nesta gestão foi criado um comitê para discutir a instituição da defesa profissional para zelar pela dignidade profissional, pleitear a isenção de anuidade para os membros com mais de 70 anos de idade e 20 anos como membro da entidade, em qualquer categoria. Atualmente estão isentos da anuidade os membros associados com mais de 65 anos e aqueles com mais de 25 anos como associado.

O Prof. Orlando ainda implementou um projeto cultural na sede do CBC para a realização de concursos de corais, exposição de pinturas e apresentação de música clássica, que faziam parte da programação dos eventos científicos e sociais da entidade.

O Emérito Orlando Marques Vieira e Membro Nato do Conselho Consultivo Superior, em reconhecimento à sua dedicação, às suas atividades administrativas, educacionais e ao esmero de suas publicações, recebeu os seguintes prêmios: “Colégio Brasileiro de Cirurgiões” (2004), maior honraria oferecida pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões, concedida àqueles que contribuíram para o ensino, progresso e desenvolvimento da Cirurgia. Em 1984, recebeu o Prêmio “José de Mendonça”, outorgado anualmente ao autor cujo artigo aborde assuntos de técnica cirúrgica, publicados na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Em 2004 foi o merecedor do Prêmio “Oscar Alves”, concedido anualmente ao autor com o melhor artigo publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Homenageando o Emérito Orlando Marques Vieira o CBC instituiu o prêmio “Conferência Magna: Orlando Marques Vieira” que deverá ser apresentada, como ato obrigatório, durante as solenidades de aniversário do CBC. O primeiro convidado para a proferir a “Conferência Magna: Orlando Marques Vieira” foi o ECBC Samir Rasslan (Figura 3).

Figura 3
TCBC Luiz Carlos von Bahten, ECBC Samir Rasslan, ECBC Orlando Marques Vieira, TCBC PedroEder Portari Filho.

O Prof, Orlando, desde longa data, manifestava preocupação com a formação do cirurgião e a criação das especialidades10,11, enfatizando a relevância da pesquisa científica e da cirurgia experimental como componentes fundamentais desse processo formativo. Da mesma forma, preocupado com o exercício da atividade médica e a dignidade profissional, o nosso mestre já alertava, há mais de trinta anos, que “a relação hipocrática médico-paciente foi substituída pela relação usuário-empresa”. E concluía: “Sente-se que os novos parâmetros comerciais da medicina estão sendo regidos por empresas. às vezes em detrimento da atividade profissional”9.

Tomou Posse como Membro Titular da Academia Nacional de Medicina em 04/07/1995. Na ocasião de sua candidatura a Membro Titular na Academia Nacional de Medicina, apresentou memória intitulada “Cirurgia da Vagotomia Incompleta”. Nesta renomada instituição, exerceu os seguintes cargos: Tesoureiro (1997-1999); Secretário Geral (1999-2001; 2003-2005); Vice-presidente (2007-2009). Proferiu 13 discursos em sessões solenes de posse de novos acadêmicos9, de aniversários da instituição e, também, de homenagens aos acadêmicos.

Em entrevista ao Projeto Memória Virtual da Academia Nacional de Medicina12, o Prof. Orlando recordou um episódio marcante de sua carreira como cirurgião: em parceria com o Prof. Sérgio Andrade, diagnosticou e operou, em 1968, um paciente portador da síndrome de Zollinger-Ellison. Segundo o Prof. Orlando este foi o primeiro paciente diagnosticado com esta síndrome e submetido ao tratamento cirúrgico no Brasil.

Em 22/11/2023 foi homenageado com “O Simpósio Internacional de Cirurgia: 90 anos do Acad. Orlando Marques Vieira”13. O simpósio foi Organizado pelos Acadêmicos: Francisco Sampaio, Pietro Novellino e Rossano Fiorelli.

Em uma recente reunião, realizada em 25/09/2025 na Academia Nacional de Medicina14, a abertura foi dedicada ao acadêmico e professor Orlando Marques Vieira, em uma “sessão da saudade” que reuniu familiares, amigos e colegas de profissão. O professor Orlando foi lembrado por sua contribuição à medicina, por sua generosidade e senso de humor.

Embora o prof. Orlando Marques Vieira tenha desenvolvido uma intensa e profícua atividade na Faculdade de Medicina da UFRJ (Departamento de Cirurgia), no Colégio Brasileiro de Cirurgiões e na Academia Nacional de Medicina, principalmente nas duas primeiras instituições, ele também participou de várias outras casas de cultura da ciência médica: Sócio Fundador da Academia de Medicina do Rio de Janeiro. Membro Titular do Collegium Internationale Chirurgiae Digestivae, Membro Honorário da Academia de Medicina do Amazonas, Membro Correspondente da Real Academia de Medicina da Espanha, Membro do International College of Surgeons, Membro do Conselho Curador da “Fundação Estatal dos Hospitais Gerais de Urgência e Emergência”, instituída em abril de 2009. Membro da Cãmara Técnica de Cirurgia Geral e Trauma no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (2008-2009). Foi presidente da Sociedade Brasileira de História da Medicina - Capítulo do Estado do Rio de Janeiro (SBHM-RJ).

O Prof.Orlando Marques Vieira deixou um legado marcante na formação de gerações de alunos, muitos dos quais se tornaram destacados cirurgiões e professores. Convicto da relevância do aperfeiçoamento contínuo, defendia com vigor a integração entre pesquisa científica e treinamento cirúrgico, pilares que considerava indispensáveis para a excelência médica. Foi também um firme defensor da valorização e da proteção da profissão, sempre atento às causas que fortaleciam a dignidade do médico além de grande incentivador da expansão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões em todo o território nacional.

O Prof. Orlando Marques Vieira viveu intensamente com sua família e, paralelamente, com a sua vida profissional até 28 de dezembro de 2023, quando partiu para viver eternamente.

Expresso minha sincera gratidão ao TCBC Ramiro Colleoni Neto, Diretor de Publicações do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, pelo honroso e generoso convite para escrever sobre o eminente Professor Orlando Marques Vieira cuja convivência tive a felicidade de iniciar durante meu internato em cirurgia em 1974.

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    » https://youtu.be/8_EFYV-2-ZM?si=OaFvneUrojBYQ3Ma
  • 13 Acadnamed. Simpósio Internacional de Cirurgia 90 anos do Acad Orlando Marques Vieira [1ª parte]. YouTube, 2023. 1:27:58. Disponível em: https://youtu.be/ZvE7evIgmjQ?si=0SX_8CvHVO7fEs0y
    » https://youtu.be/ZvE7evIgmjQ?si=0SX_8CvHVO7fEs0y
  • 14 Acadnamed. Sessão da Saudade: ACADÊMICO ORLANDO MARQUES VIEIRA. YouTube,2025,1:00. Disponível em https://youtu.be/wFpEL8nZG54
    » https://youtu.be/wFpEL8nZG54
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    nenhuma.

Editado por

  • Editor
    Daniel Cacione

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    05 Dez 2025
  • Aceito
    04 Mar 2026
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