Open-access Trabalho e riscos ocupacionais de enfermeiros da equipe de retirada de múltiplos órgãos e tecidos

Resumo

Objetivo  Conhecer o trabalho dos enfermeiros da equipe de retirada de órgãos e tecidos e os riscos ocupacionais a que estão expostos e analisar se o contexto e as condições de trabalho podem interferir na viabilidade do órgão. Método: Trata-se de um estudo qualitativo realizado em um hospital de referência do Sul do Brasil. Participaram da pesquisa os enfermeiros que compõem a equipe. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas via plataforma digital. Foi empregado o método de análise de conteúdo.

Resultados  Durante as análises, emergiram três categorias: o trabalho do enfermeiro na equipe da retirada de múltiplos órgãos, os riscos ocupacionais que permeiam o trabalho e o contexto de trabalho e seu impacto na viabilidade do órgão.

Conclusão  O papel do enfermeiro na equipe de retirada de múltiplos órgãos é importante para a efetivação e segurança dos transplantes, porém, nesse processo, o enfermeiro vivencia riscos ocupacionais, incluindo os relacionados ao deslocamento, mau tempo, carga de trabalho excessiva e exposição a riscos biológicos.

Palavras-chave:
Enfermagem; Obtenção de Tecidos e Órgãos; Transplante de Órgãos; Riscos Ocupacionais; Saúde do Trabalhador

Abstract

Objective  To understand the work of nurses in the organ and tissue removal team and the occupational risks to which they are exposed and to analyze whether the context and working conditions can interfere with the viability of the organ.

Method  This is a qualitative study carried out in a reference hospital in southern Brazil. The nurses who make up the team participated in the research. Data collection took place through interviews via a digital platform. The content analysis method was employed.

Results  During the analyses, three categories emerged: the work of nurses in the Multiple Organ Removal team, the occupational risks that permeate the work and the work context and their impact on the viability of the organ.

Conclusion  The role of the nurse in the Multiple Organ Removal team is important for the effectiveness and safety of transplants, however, in this process, the nurse experiences occupational risks, including those related to travel, bad weather, excessive workload and exposure to biological risks.

Keywords:
Nursing; Tissue and Organ Procurement; Organ Transplantation; Occupational Risks; Occupational Health

Introdução

No Brasil, atualmente cerca de 88% dos transplantes de órgãos são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O país é referência mundial como o maior sistema público de transplantes1 e, em números absolutos, o 4º maior centro transplantador do mundo2.

No entanto, verifica-se que, no Brasil e no mundo, há uma grande desproporção entre a demanda de órgãos para transplante e o número de transplantes que são de fato realizados. Para pessoas portadoras de algumas doenças em estágio avançado, o transplante de órgão é a única alternativa terapêutica viável3. Neste contexto, encontram-se muitos obstáculos relacionados ao processo de doação, sendo os mais citados: as dificuldades no conhecimento da morte encefálica, as entrevistas com os familiares, a manutenção clínica do potencial doador e as contraindicações médicas4.

Neste sentido, e com vistas a organizar todo este processo, Instituições Hospitalares Brasileiras com mais de 80 leitos, sejam privadas, públicas ou filantrópicas, devem obrigatoriamente possuir Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), que, além de organizarem toda a logística necessária para captação do órgão, também tem o papel fundamental de realizar contato com as famílias dos potenciais doadores5. Dentre estas instituições, algumas possuem uma Equipe de Coordenação de Retirada de Múltiplos Órgãos (RMO), composta por enfermeiros que organizam e acompanham a logística do procedimento. Estas equipes devem ser pontuais em relação ao horário de chegada aos locais de retirada e início de cirurgia, pois o retardo do procedimento está diretamente vinculado ao sucesso do transplante. Neste processo, algumas documentações devem ser checadas, tais como: provas documentais de morte encefálica, termo de doação assinado pela família e tipagem sanguínea6.

O enfermeiro que atua na equipe de RMO desempenha um papel fundamental em todo o processo, com o objetivo de obter resultados positivos no momento do transplante, atuando de forma assistencial e gerencial7. Além disso, exerce um importante papel como coordenador do procedimento8. No entanto, o exercício desta função, além de expor os trabalhadores a riscos ocupacionais comuns na área da saúde, também os expõe a outros riscos específicos enfrentados no cotidiano deste trabalho, sendo esse tema relevante, visto que pode impactar diretamente no transplante9.

Os riscos ocupacionais são fatores que podem ocasionar desfechos negativos para os trabalhadores, usuários dos serviços, bem como local de trabalho e ambiente. Além disso, podem ser classificados em categorias, as quais são: riscos biológicos, organizacionais, físicos, químicos e provenientes de acidentes10, além dos riscos de deslocamento.

Diante do exposto, este artigo tem por finalidade conhecer o trabalho dos enfermeiros da equipe de retirada de órgãos e tecidos de um hospital universitário do Sul do País e os riscos ocupacionais a que estão expostos e analisar se o contexto e as condições de trabalho interferem na viabilidade dos órgãos a serem captados.

Métodos

Trata-se de um estudo qualitativo. Utilizou-se a ferramenta Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)11para direcionar a construção do estudo e orientar a metodologia. Esse recurso proporciona ao narrador meios para reconstruir as experiências adquiridas.

A pesquisa foi realizada em um hospital universitário do Sul do país que possui uma equipe de retirada de órgãos e tecidos vinculado à CIHDOTT desde 2001. Seu trabalho tem como finalidade auxiliar no processo de doação/transplante de órgãos, aperfeiçoando e padronizando o procedimento de captação. A equipe é atualmente composta por seis enfermeiros, que, quando acionados, se dirigem ao local da retirada e captação com transporte oficial e são responsáveis, entre outros procedimentos, pelo transporte do órgão. O local de retirada varia com a disponibilidade de órgãos, podendo ser na mesma cidade, em outras cidades e até mesmo outros estados.

A coleta de dados ocorreu no mês de dezembro do ano de 2020, por meio de entrevista via plataforma digital, com os enfermeiros da equipe de RMO e, teve duração de aproximadamente uma hora e trinta minutos. As entrevistas foram realizadas fora do turno de trabalho dos entrevistados, por um membro da equipe de pesquisa, enfermeiro e sem vínculo com a equipe pesquisada. Simultaneamente, foram realizadas anotações de campo. A entrevista foi gravada e após transcrita na íntegra. As informações foram identificadas com a letra E de enfermeiro e seguidas do número da ordem de realização.

Foram convidados a participar da pesquisa todos os enfermeiros da equipe de RMO que trabalhavam há pelo menos seis meses no momento do convite. Participaram os seis enfermeiros que compõem a equipe, não havendo nenhuma exclusão.

Na entrevista, os participantes foram convidados a falar sobre as seguintes questões norteadoras: 1 - Como é o seu trabalho e a importância do enfermeiro no processo de captação? 2 - A quais riscos ocupacionais você está exposto ao realizar seu trabalho? 3 - Quais suas sugestões para melhorar os processos de trabalho? 4 - O contexto e as condições do seu trabalho podem interferir na viabilidade do(s) órgão a ser(em) transplantado(s)?

A análise dos dados obtidos nas entrevistas foi realizada utilizando-se o método de análise de conteúdo12. Essa análise foi constituída de três passos: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação.

O primeiro passo trata-se da fase de organização, na qual se estabelece um esquema de trabalho com procedimentos bem definidos, envolvendo a leitura e um primeiro contato com os documentos que foram submetidos à análise, formulação de hipóteses e objetivos, que orientaram a interpretação e a preparação do material. O segundo passo, de exploração do material, consistiu na categorização do mesmo, auxiliando na compreensão do que está por trás dos discursos. A interpretação dos resultados obtidos, realizada no terceiro passo, se deu por meio da inferência, que é um tipo de interpretação controlada, que significa a realização de uma operação lógica, pela qual se admite uma proposição em virtude de sua ligação com outras proposições já aceitas como verdadeiras12.

Considerações éticas

Este estudo respeitou os preceitos éticos, seguindo as diretrizes e normas de pesquisa envolvendo seres humanos, previstas na Resolução no 466/201213. O projeto da pesquisa foi aprovado no dia 3 de junho de 2020, pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, CAEE nº 31641020.6.0000.5327. Os riscos previstos no estudo foram relacionados a possíveis desconfortos ao responder a entrevista e a participação na coleta de dados deste estudo foi voluntária, com o direito de o participante desistir do estudo a qualquer momento. Os participantes foram convidados a participar da pesquisa e, após o aceite, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de forma virtual.

Resultados

Foram entrevistadas seis enfermeiras que atuavam na equipe de retirada de múltiplos órgãos. Das entrevistas, emergiram três categorias temáticas: (i) o trabalho do enfermeiro na equipe de RMO, (ii) os riscos ocupacionais que permeiam o trabalho e (iii) o contexto de trabalho e o seu impacto na viabilidade do órgão.

O trabalho do enfermeiro na equipe de RMO

Para essa categoria surgiram diversos relatos, por exemplo, como é realizada a rotina fora da assistência direta ao paciente, que deve ser desenvolvida pelos enfermeiros da equipe, a qual inclui o contato com a central de transplantes e com o bloco cirúrgico, permeando a comunicação necessária com a equipe multiprofissional. Além disso, o enfermeiro que atua na equipe também é responsável pela logística do procedimento que prevê a organização do transporte, cidade da captação, hospital e horário, bem como checagem de documentação, registro de entrada, incisão cirúrgica, clampeamento da aorta, início e término da perfusão dos órgãos e término da RMO, organização da sala cirúrgica, armazenamento adequado do órgão e controle do tempo visando mantê-lo íntegro. Outras atribuições também incluem a administração de antibiótico profilático, coleta de sangue, identificação de materiais biológicos e transporte do órgão até o receptor.

Nesse contexto, o papel do enfermeiro é considerado fundamental para o sucesso da captação e viabilidade do órgão, no que diz respeito ao desenvolvimento do procedimento de forma adequada, como é possível identificar pelas falas seguintes:

Eu acho fundamental o enfermeiro, porque ele faz todos os contatos e faz contato com a central, com o bloco cirúrgico, com a equipe, vai informando o bloco sobre a condição do órgão. Quanto tempo leva para chegar e tudo mais (ENF 4).

Mostrar o papel que a enfermagem faz nisso, porque muita gente nem sabe que isso existe, que os enfermeiros participam, e eu acho que com o trabalho da enfermagem a gente consegue ter toda a garantia do processo, que vai ser o processo correto (ENF 1).

Toda a parte de legislação a gente revisa, a gente revisa a identificação do paciente, a gente coleta os exames, eles [equipe do local da retirada] não precisam se preocupar, porque, às vezes, é um bloco que nunca fez esse tipo de procedimento, não sabem o que tem que fazer então a gente tá lá pra organizar tudo (ENF 5).

Dentre as enfermeiras entrevistadas, também foi relatada a relevância do papel do profissional dentro da equipe de RMO e o destaque dentro da instituição.

Eu acho que é um grupo que sempre vai existir... Acho que dentro do hospital a equipe de enfermagem já ocupou espaço e ocupou um espaço dentro desse trabalho. Acho que sempre vai existir enfermeiros na captação, porque o nosso trabalho é reconhecido (ENF 3).

Os relatos, a partir das entrevistas, evidenciaram também que a comunicação interpessoal passa por algumas dificuldades, como a impertinência de alguns membros da equipe multiprofissional, características pessoais de enfrentamentos das situações que envolvem a rotina de trabalho e a dinâmica de contato envolvendo a central de transplantes.

Eu tento interagir... e a outra é a comunicação, está sempre ligando pro bloco, pra conversar com as enfermeiras que estão no nosso bloco, pra dizer como é que tá o andamento da cirurgia, com a central mesma coisa, pra ver a logística (ENF 3).

Às vezes, a comunicação da central com a equipe que, às vezes, nos avisam muito em cima da hora (ENF 5).

Então, às vezes, tu vai pegar, por exemplo, o cirurgião que não vai estar no melhor humor, né? E existem pessoas que são mais inseguras. Então a gente tem isso também (ENF 2).

Riscos ocupacionais que permeiam o trabalho

O trabalho do enfermeiro da equipe de RMO é permeado por riscos ocupacionais, que são diferentes dos comumente presentes no ambiente intra-hospitalar, dentre eles se pode destacar: jornadas de trabalho atípicas (noturnas, não previstas e prolongamento de jornadas diurnas), deslocamento noturno até o hospital para organizar os materiais a serem levados à instituição da retirada por implicar riscos, especialmente em municípios com altos índices de violência urbana, impacto na qualidade do sono e carregamento de peso.

As participantes do estudo elencaram algumas situações de risco associadas ao seu trabalho, especialmente quando se trata dos deslocamentos durante a rotina de trabalho, pois envolve por diversas vezes o transporte aéreo, mau tempo, que causam medo e insegurança. As falas a seguir evidenciam as preocupações que os enfermeiros entrevistados vivenciam:

E aí tu tem que pegar um avião e ir, vou te dizer que o que mais me preocupa é ter um temporal e ter que pegar um avião (ENF 1).

Outra coisa que sempre me agonia muito são os transportes, voo, avião, helicóptero. São coisas que deixam a gente mais insegura, porque, mesmo com tempo ruim, às vezes a gente viaja (ENF 3).

Eu já me recusei a voar, eu disse “eu não vou, tô vendo que não tem condições de voar”. Aí o piloto “tá, mas assim, tá vendo aquela frestinha ali?” (ENF 5).

Nesse cenário, tiveram relatos que trouxeram à tona a insegurança no decorrer do trajeto para ser realizada a captação, que pode acontecer em qualquer horário do dia ou da noite e qualquer dia da semana, podendo ocorrer dentro de todo o território nacional, gerando exaustão dos profissionais que realizam essa função.

Então a gente organiza sempre para um pós-plantão, e aí, então, os cansaços, às vezes, tu teve um plantão super ruim e aí tu tem que ficar com o telefone ali ligado, esperando alguém te chamar (ENF 1).

Muito ligado aos deslocamentos, sim. Até o nosso deslocamento para casa. Tipo, sou chamada às 3 horas da manhã, vou sair de casa de madrugada, ou estou voltando pra casa na madrugada. Até o nosso deslocamento sozinho dentro da cidade, também é um risco que a gente corre (ENF 2).

Os riscos que a gente corre com avião, com mau tempo, carro com motorista cansado, taxista não preparado (ENF 5).

Recentemente os trabalhadores da equipe de RMO contam com seguro de vida para desempenhar as suas funções, porém, isso não elimina o risco ocupacional das atividades laborais, embora seja uma importante estratégia para reparar e monetizar eventuais danos. A fala a seguir relata os diversos riscos durante o seu trajeto de trabalho:

O deslocamento sempre tem risco. Quando a gente vai fazer o deslocamento, inclusive, a gente tem seguro, enfim, porque a gente vai longe, em vários lugares, tanto do município quanto do Brasil (ENF 3).

Além dos perigos devido aos deslocamentos e da carga de trabalho excessiva, há a ameaça de riscos biológicos inerentes às funções realizadas pela equipe de enfermagem dentro do bloco cirúrgico.

E [riscos] biológicos mesmo, dentro de uma sala cirúrgica onde eu participo direto no processo de retirada, quando a gente auxilia o cirurgião em algum procedimento, onde eu fico responsável pelo órgão, onde eu faço a quebra do gelo (ENF 3).

Porque dentro do bloco mesmo existe risco biológico. É que eu acho que tudo é inerente, sabe? Inerente à função de quem escolhe tá na assistência (ENF 4).

Existe risco biológico também, embora seja um doador que tem todas as sorologias. Às vezes, tem alguma positiva a gente já conhece o campo que a gente tá lidando, mas é material biológico que a gente lida, sangue, fragmentos de baço, linfonodos (ENF 5).

O contexto de trabalho e seu impacto na viabilidade do órgão

Durante todo o processo de captação, transporte, deslocamento e armazenamento do órgão, a etapa final culmina com a realização do transplante, e, para isso, existem processos importantes para que o procedimento se torne viável. O cuidado com o armazenamento correto e os insumos necessários para que nada interfira na viabilidade do órgão no momento do transporte é uma dessas etapas, como relatam as falas a seguir:

Tudo tem um processo, né, a quantidade de gelo que eu coloco, a quantidade de soro, tudo influencia, então, eu preciso ter conhecimento para poder fazer da maneira correta e viabilizar esse órgão pra pessoa que vai receber (ENF 1).

Não me custa levar 5kg a mais, eu estou a quilômetros de distância, o que vai mudar muito a viabilidade do órgão se eu não levar. Bom, então vou levar litros a mais de líquido de preservação, porque... vá que contamine? Eu vou levar, ah, sei lá, um pote a mais, porque vá que eu contamine (ENF 2).

Então, quando eu chego no hospital arrumo todo o material que eu preciso pra fazer a captação, isso é uma responsabilidade nossa, né, os líquidos de perfusão, os fios de sutura, a gente leva tudo do hospital, tudo que nós vamos precisar, até bandeja cirúrgica nós levamos (ENF 3).

Segundo a fala de uma das entrevistadas, existem situações em que há indisponibilidade de insumos básicos necessários para o adequado armazenamento do órgão na instituição de captação.

Então, até na quantidade de gelo que a gente vai ter que levar a gente tem que pensar. Eu já cheguei uma vez num hospital em que eu pedi mais gelo e me disseram: “não, mas aqui a gente não tem mais gelo” (ENF 2).

Nessa conjuntura, não é importante somente a disponibilidade de insumos, mas também o meio de transporte adequado para o deslocamento órgão, evidenciado na fala a seguir:

Depois quando a gente fala com a central, a gente pede um táxi “preciso de um táxi para as 16h, preciso de um táxi grande, porque a minha caixa não cabe num carro pequeno”... isso é parte de um processo seguro, porque se eu chego em um carro pequeno eu não posso colocar a minha caixa no banco de trás e ficar chacoalhando um fígado (ENF 3).

Discussão

O trabalho dentro da equipe de RMO representa uma jornada intensa e complexa dos profissionais que exercem o seu papel cuidando da vida e da manutenção dela para a realização de um transplante. Nesse cenário, o enfermeiro realiza todos os contatos necessários para a realização do procedimento, comunicando-se sempre com a central de transplantes, com o bloco cirúrgico e com as equipes responsáveis.

Nesse contexto, o Conselho Federal de Enfermagem, por meio da Resolução no 611/2019, confere ao enfermeiro da captação e transplante de órgãos e tecidos as atividades de planejamento, execução, coordenação, supervisão e a avaliação das ações de enfermagem em remoção de órgãos e transplantes14.

Conforme estudos, as atividades do enfermeiro que compõe a equipe de remoção de órgãos se iniciam quando a central de transplantes comunica à instituição a existência de um potencial doador, sendo primordial a atuação do enfermeiro nessas equipes, corroborando com os elementos achados neste estudo15,16.

Nessa conjuntura, alguns fatores podem fragilizar o processo de comunicação dentro do ambiente de trabalho durante a captação de órgãos e, no que se refere às fragilidades, pode-se destacar a dificuldade dentre os profissionais em desenvolver uma comunicação efetiva17.

O presente estudo sugere também que o papel do enfermeiro dentro da equipe de retirada de múltiplos órgãos é de suma importância para o andamento e a efetivação da cirurgia, sendo ele o responsável por revisar toda parte de documentação, condições de sala cirúrgica e do órgão e por estar atento à logística da captação e do transplante. Corroborando esses achados, estudos18,19 citam que o enfermeiro é componente fundamental dentro do processo de doação de órgãos e tecidos, sendo responsável por toda essa organização.

Os profissionais da equipe de enfermagem, além de exercerem um papel fundamental na equipe de retirada de múltiplos órgãos, estão expostos a diversas situações desgastantes em sua rotina. Dentre elas está o fato de conciliar duplas jornadas de trabalho, acarretando períodos de exaustão física, por atuar não somente nessa equipe, mas também em outras áreas dentro da instituição. Um estudo nacional ressalta que os locais de trabalho de muitos profissionais da saúde são considerados inadequados para o desenvolvimento de suas atividades, o que é evidenciado pelos problemas de organização causados pela falta de recursos humanos e pelas horas excessivas de trabalho20. Ainda nesse sentido, em seus deslocamentos, utilizam diferentes meios de transportes para captar o órgão nos mais diversos lugares do país e, durante o transporte, estão expostos a diferentes riscos, dentre eles, as intempéries do tempo. Essas questões podem colocá-los em situação de risco ocupacional e afetar diretamente o processo de captação do doador e transplantação do órgão para o receptor.

Somado a isso, há as ameaças relacionadas ao contato com material biológico, cenário inerente às funções realizadas pelos profissionais entrevistados que atuam dentro do bloco cirúrgico, que está sempre em contato com agentes passíveis de contaminações, como sangue e fragmentos de órgãos. Um estudo brasileiro relata que as instituições de saúde, reconhecidamente, são ambientes insalubres para os que ali trabalham e potenciais ocasionadores de afecções agudas e crônicas, provocadas por agentes patológicos, como vírus, fungos e bactérias21.

O enfermeiro membro da equipe de remoção de órgãos para transplante organiza todo o material necessário para o acondicionamento adequado dos órgãos, a fim de manter a sua qualidade e integridade e suprir toda e qualquer necessidade do hospital de destino.

A preocupação com a organização adequada dos materiais permeia o trabalho das entrevistadas, evidenciando que essa é uma etapa considerada importante dentro do processo. Os teóricos neste assunto trazem à tona que a segurança no transplante está relacionada com as etapas de uma remoção bem conduzidas, acondicionamento correto e transporte pertinente, e que o enfermeiro é o profissional habilitado para gerenciar todo esse processo22.

A logística do deslocamento após o contato com a central está sob a responsabilidade do enfermeiro da captação. A distância percorrida, as condições do trajeto, os insumos necessários para a preservação do órgão, o material adequado para o acondicionamento são questões de responsabilidade destes profissionais e demonstradas neste trabalho. Em um estudo, foram encontrados fatores que podem impossibilitar que um transplante ocorra de forma segura e, dentre eles, estão os problemas logísticos, o modo e o meio de transporte, as rotas, os atrasos e condições meteorológicas adversas9. Logo, imprevistos podem ocorrer no decorrer do processo e afetar o andamento do procedimento. A falta de insumos, a dificuldade na comunicação com as equipes locais e o meio de transporte utilizado pelas equipes são algumas das dificuldades encontradas no respectivo estudo.

Considerações finais

Essa pesquisa permitiu conhecer elementos do trabalho do enfermeiro que atua na equipe de retirada de múltiplos órgãos de um hospital universitário do Sul do país, que coordena a captação e o transplante de órgãos, além dos riscos ocupacionais a que os profissionais estão expostos durante o seu cotidiano de trabalho, como os referentes a deslocamento, mau tempo, carga de trabalho excessiva e exposição a riscos biológicos. Além disso, foi possível analisar que a imprevisibilidade do contexto e das condições de trabalho podem interferir diretamente na viabilidade do órgão e na efetivação do transplante. Foi possível perceber que a realidade do cotidiano de trabalho do grupo envolve desde a organização de documentos necessários para a realização da cirurgia, passando pela captação do órgão até a realização do procedimento.

A partir do estudo, conclui-se que o profissional enfermeiro é elemento fundamental no processo de obtenção de tecidos e órgãos, desdobrando-se em muitas tarefas para a efetivação e segurança dos transplantes. Desta forma, a pesquisa justificou-se plenamente por dar visibilidade a esse processo e discutir importantes aspectos relacionados à doação e viabilidade do órgão e os riscos ocupacionais a que estão submetidos os profissionais de enfermagem.

O estudo teve como limitação ter sido realizado em um único hospital, visto que os contextos são diferentes nos diversos territórios. Sugere-se que novos estudos sejam desenvolvidos em outras realidades para futura comparação e aprimoramento do processo de trabalho, pois podem trazer outros elementos de realidade pouco conhecida.

Referências

  • 1 Ministério da Saúde (BR). Sistema Nacional de Transplantes. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025 [citado 11 mar 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/snt/transplantes
    » https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/snt/transplantes
  • 2 Global Observatory on Donation and Transplantation. Soma do transplante: rim+coração+pulmão+fígado+pâncreas+intestino delgado; c2023 [citado 11 mar 2025]. Disponível em: https://www.transplant-observatory.org/data-charts-and-tables/chart/
    » https://www.transplant-observatory.org/data-charts-and-tables/chart/
  • 3 Roza BA, Schirmer J, organizadores. Boas práticas e apoio decisório para o processo de doação e transplantes de órgãos, tecidos e células humanos. Brasília, DF: Anvisa; 2023 [citado 06 ago 2024]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/monitoramento/biovigilancia/livro-biovigilancia-2.pdf
    » https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/monitoramento/biovigilancia/livro-biovigilancia-2.pdf
  • 4 Flores CM, Silva RM, Tamiozzo J, Centenaro AP, Silva DM, Zamberlan C, et al. Care for potential braindead organ donors in an adult emergency room: a convergent care perspective. Texto Contexto Enferm. 2023;32:e20230032. https://doi.org/10.1590/1980-265x-tce-2023-0032pt
    » https://doi.org/10.1590/1980-265x-tce-2023-0032pt
  • 5 Ministério da Saúde (BR). Portaria Nº 1.752, de 23 de setembro de 2005. Determina a constituição de Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante em todos os hospitais públicos, privados e filantrópicos com mais de 80 leitos. Diário Oficial União [Internet]; 2005 [citado 06 ago 2024]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2005/prt1752_23_09_2005.html
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2005/prt1752_23_09_2005.html
  • 6 Brasil. Conselho Federal de Medicina. Resolução Nº 2.173, de 23 de novembro de 2017. Define os critérios do diagnóstico de morte encefálica. Diário Oficial União. 2017 [citado 06 ago 2024] Disponível em: https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20171205/19140504-resolucao-do-conselho-federal-de-medicina-2173-2017.pdf
    » https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20171205/19140504-resolucao-do-conselho-federal-de-medicina-2173-2017.pdf
  • 7 Oliveira JC, Oliveira LA, Santos LN, Silva CR. Coordenação da sala cirúrgica na captação de órgãos: uma análise do papel do enfermeiro. BIUS -Boletim Informativo Unimotrisaúde em Sociogerontologia. 2023 [citado 11 mar 2025]; 37(31):1-13. Disponível em: https://periodicos.ufam.edu.br/index.php/BIUS/article/view/12033
    » https://periodicos.ufam.edu.br/index.php/BIUS/article/view/12033
  • 8 Marek FA, Silveira JT, Schöninger N, Pereira AR, Wilsmann J, Glanzner CH, et al. O trabalho do enfermeiro na equipe de retirada de múltiplos órgãos para transplantes. Ponta Grossa: Atena; 2020 [cited 11 mar 2025]. Disponível em: https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/o-trabalho-do-enfermeiro-na-equipe-de-retirada-de-multiplos-orgaos-para-transplantes
    » https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/o-trabalho-do-enfermeiro-na-equipe-de-retirada-de-multiplos-orgaos-para-transplantes
  • 9 Lima ER, Heis RM. Análise dos processos logísticos do transporte aéreo de órgãos no Estado de Santa Catarina. R Bras Av Civil Ciencias Aeron. 2021;1(2):33-62. [citado 06 ago 2024]. Disponível em: https://rbaccia.emnuvens.com.br/revista/article/view/24
    » https://rbaccia.emnuvens.com.br/revista/article/view/24
  • 10 Rodrigues PP, Pinho PT, Melo ME. Riscos ocupacionais: identificação e prevenção na percepção de profissionais do setor de urgência e emergência. Rev Interdisc Encontro Ciencias. 2020;3(3):1498-512. Disponível em: https://riec.univs.edu.br/index.php/riec/article/view/188
    » https://riec.univs.edu.br/index.php/riec/article/view/188
  • 11 Souza VR, Marziale MH, Silva GT, Nascimento PL. Translation and validation into Brazilian Portuguese and assessment of the COREQ checklist. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE02631. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2021AO02631
    » https://doi.org/10.37689/acta-ape/2021AO02631
  • 12 Bardin L. Reto LA, Pinheiro A, tradutor. Análise de conteúdo. Volume 10. São Paulo: Edições; 2011. 118 pp.
  • 13 Ministério da Saúde (BR). Conselho Nacional de Saúde. Resolução n°466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as seguintes diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos; Revoga as (RES. 196/96); (RES. 303/00); (RES. 404/08). Diário Oficial União. 2013 [citado 06 ago 2024]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html
  • 14 Conselho Federal de Enfermagem. Resolução nº 611/2019 revogada pela resolução COFEN nº 710 de 2022. Atualiza a normatização referente à atuação da Equipe de Enfermagem no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante, e dá outras providências. Diário Oficial União. 2019 [citado 06 ago 2024]. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-611-2019/
    » https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-611-2019/
  • 15 Santos RL, Magalhães AL, Knihs NS, Silva EL, Pessoa JL, Souza RS. Atuação do enfermeiro na doação e transplante de órgãos: revisão integrativa de literatura. Rev Recien. 2021;11(36):30-42. https://doi.org/10.24276/rrecien2021.11.36.30-42
    » https://doi.org/10.24276/rrecien2021.11.36.30-42
  • 16 Silva KR, Carvalho EA, Faria SM, Resende CR. O processo de trabalho do enfermeiro em cirurgias de remoção de órgãos sólidos para transplante. Rev Admin Hosp Inov Saude. 2021;18(1):76-93. https://doi.org/10.21450/rahis.v18i1.6598
    » https://doi.org/10.21450/rahis.v18i1.6598
  • 17 Fernandes RV, Silva LA, Higashi GD, Soder RF, Herr GE, Klassmann JC. Transplante de órgãos na perspectiva da comissão intra-hospitalar de doação de órgãos e tecidos. Braz J Hea Rev. 2020;5(3):12116-28. https://doi.org/10.34119/bjhrv3n5-059
    » https://doi.org/10.34119/bjhrv3n5-059
  • 18 Figueiredo CA, Pergola-Marconato AM, Saidel MG. Nursing team and organ donation: an integrative literature review. Rev Bioet. 2020;28(1):76-82. https://doi.org/10.1590/1983-80422020281369
    » https://doi.org/10.1590/1983-80422020281369
  • 19 Tolfo F, Siqueira HC, Scarton J, Cezar-Vaz MR, Santos JL, Rodrigues ST, et al. Obtaining tissues and organs: empowering actions of nurses in the light of ecosystem thinking. Rev Bras Enferm. 2021 May;74(2):e20200983. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2020-0983
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2020-0983
  • 20 Silva RP, Valente GS, Camacho AC. Risk management in the scope of nursing professionals in the hospital setting. Rev Bras Enferm. 2020;73(6):e20190303. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0303
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0303
  • 21 Braga JA. Administradores diante dos riscos ocupacionais que envolvem as atividades da equipe de enfermagem no ambiente hospitalar. Revista PubSaúde. 2020;3:1-14. https://doi.org/10.31533/pubsaude3.a021
    » https://doi.org/10.31533/pubsaude3.a021
  • 22 Paim SM, Knihs NS, Pessoa JL, Magalhães AL, Wachholz LF, Treviso P. Biovigilance in the process of organ and tissue donation during the pandemic: challenges for nurses. Esc Anna Nery. 2020;25:e20210086. https://doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2021-0086
    » https://doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2021-0086
  • Informações sobre trabalho acadêmico:
    Artigo baseado no trabalho de conclusão da Residência Integrada e Multiprofissional e em Área Profissional da Saúde do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, intitulado “O trabalho da equipe de retirada de múltiplos órgãos e tecidos e os riscos ocupacionais”, apresentado por Ana Paula Gravina Azevedo, em 10 de dezembro de 2021, como requisito para obtenção do título de enfermeira especialista em Atenção Integral ao Paciente Adulto Cirúrgico.
  • Disponibilidade de dados:
    As autoras declaram que, por haver informações de profissionais que compõem a equipe, o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora Cecília Helena Glanzner.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    As autoras informam que o estudo foi apresentado em formato de resumo na 42ª Semana Científica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
  • Financiamento:
    As autoras declaram que o estudo não foi subvencionado.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Leila Posenato Garcia

Disponibilidade de dados

As autoras declaram que, por haver informações de profissionais que compõem a equipe, o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora Cecília Helena Glanzner.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Ago 2024
  • Revisado
    24 Mar 2025
  • Aceito
    17 Jun 2025
location_on
Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO Rua Capote Valente, 710 , 05409 002 São Paulo/SP Brasil, Tel: (55 11) 3066-6076 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: rbso@fundacentro.gov.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error