Open-access Desigualdades de gênero e interseccionalidades na vida laboral de mulheres imigrantes e seus reflexos na saúde

Resumo

Introdução  Apesar de sempre estarem presentes nos fluxos migratórios, as mulheres foram historicamente invisibilizadas por análises que as reduziam a papéis secundários. Entretanto, atualmente, destaca-se sua crescente e ativa participação nas migrações internacionais, reposicionando-as como protagonistas desses processos e enfatizando a relevância global da migração feminina.

Objetivo  Refletir sobre os impactos das desigualdades nas condições de trabalho e seus reflexos na saúde de mulheres imigrantes, considerando a intersecção entre gênero, raça-etnia e classe social.

Método  Ensaio acadêmico teórico-reflexivo que usou como referencial teórico-filosófico a interseccionalidade entre as categorias: gênero, classe social e raça-etnia.

Resultados  A intersecção entre trabalho, gênero e migração configura condições laborais precárias para mulheres imigrantes pobres e racializadas, com impactos severos em sua saúde física, reprodutiva e mental. Inseridas em ocupações informais e desvalorizadas, as mulheres imigrantes podem enfrentar jornadas exaustivas, exploração sexual e laboral, além de barreiras no acesso aos serviços de saúde. Essa precariedade, agravada por xenofobia, racismo e pela divisão sexual do trabalho, perpetua ciclos de adoecimento e marginalização.

Conclusão  A análise interseccional revela como as opressões combinadas sustentam essa realidade, destacando a urgência de políticas que confrontem não apenas as vulnerabilidades, mas também as estruturas que naturalizam a exploração no contexto migratório.

Palavras-chave:
Mercado de Trabalho; Estudos de Gênero; Migração Humana; Classe Social; Mulheres Trabalhadoras; Saúde do Trabalhador

Abstract

Introduction  Although women have always been part of migratory flows, they have historically been rendered invisible by analyses that reduced them to secondary roles within the family. However, their growing and active participation in international migration has recently been highlighted, repositioning them as key players in these processes and revealing the global significance of female migration.

Objective  To reflect on the impacts of inequalities in working conditions and their repercussions on the health of immigrant women, considering the intersection of gender, race-ethnicity, and social class.

Method  This theoretical-reflexive academic essay used the intersectionality between the categories of gender, social class, and race-ethnicity as a theoretical-philosophical framework. Results: The intersection of work, gender, and migration creates precarious working conditions for poor and racialized immigrant women, with severe impacts on their physical, reproductive, and mental health. Employed in informal and undervalued occupations, immigrant women may face exhausting work hours, sexual and labor exploitation, and barriers to accessing healthcare. This precariousness, compounded by xenophobia, racism, and the sexual division of labor, perpetuates cycles of illness and marginalization.

Conclusion  Intersectional analysis reveals how combined oppressions sustain this reality, highlighting the urgency of policies that confront not only vulnerabilities but also the structures that naturalize exploitation in the context of migration.

Keywords:
Job Market; Gender Studies; Human Migration; Social Class; Women, Working; Occupational Health

Introdução

A crescente desigualdade global, as crises políticas, ambientais e as violações de direitos humanos têm intensificado os fluxos migratórios, destacando a vulnerabilidade de refugiados e imigrantes. Diante desse cenário, as migrações femininas ganham relevância, uma vez que as mulheres representam mais da metade da população imigrante, muitas vezes impulsionadas pela pobreza, pela violência ou pela busca do sustento familiar. Essa realidade contrasta com os discursos neoliberais que celebram a autonomia feminina, mas ignoram as desigualdades enfrentadas por essas mulheres1,2.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicados em 2024, sobre o ano de 2022, dos aproximadamente 167,7 milhões de imigrantes na força de trabalho mundial, 155,6 milhões estavam empregados. No que tange às mulheres imigrantes, havia uma relação emprego-população de apenas 48,1%, em comparação com 72,8% entre os homens imigrantes. Além disso, os imigrantes enfrentaram uma taxa de desemprego mais elevada (7,2%) em comparação com os trabalhadores nacionais (5,2%). As mulheres imigrantes apresentaram níveis de desemprego ainda mais altos (8,7%) do que os homens imigrantes (6,2%). Isso pode ser atribuído a fatores como barreiras linguísticas, o não reconhecimento de qualificações, a discriminação, a oferta limitada de serviços de cuidado infantil e as expectativas de gênero que restringem as oportunidades de emprego, especialmente para as mulheres3.

Ainda segundo esse relatório, os imigrantes internacionais continuam a desempenhar um papel vital no mercado de trabalho global, representando 4,7% da força de trabalho. Desse contingente, aproximadamente 102,7 milhões eram homens e 64,9 milhões eram mulheres. A maioria desses trabalhadores estava concentrada em países de alta renda, que reuniam 68,4% do total, seguidos por 17,4% em países de renda média-alta3.

Além dessas disparidades no mercado formal, os imigrantes estão desproporcionalmente expostos a formas contemporâneas de exploração. A escravidão moderna, que afeta particularmente grupos vulneráveis, gera, segundo a OIT, cerca de US$ 236 bilhões anuais em lucros ilegais, majoritariamente de salários subtraídos. Esses valores fortalecem redes criminosas e alimentam ciclos de exploração intrinsecamente ligados aos fluxos migratórios, nos quais a interseção de vulnerabilidades socioeconômicas, de gênero e jurídicas amplia os riscos para populações já marginalizadas, perpetuando dinâmicas de exclusão e abuso3,4.

Essas dinâmicas, por sua vez, interligam-se diretamente com os fluxos migratórios, criando um cenário em que a precariedade socioeconômica, as barreiras de inserção laboral e a falta de proteção social facilitam a emergência de novas e perversas formas de subjugação, ampliando os riscos para populações migrantes já marginalizadas nos contextos de trabalho formal.

No Brasil, esse cenário se materializa de forma particular nos recentes fluxos migratórios. Embora o país tenha uma tradição receptora, os imigrantes vindos do Sul Global, como bolivianos, haitianos e venezuelanos, frequentemente enfrentam inserção laboral precária e maior vulnerabilidade, em contraste com a recepção mais favorável dada à mão de obra qualificada do Norte Global. Essa precarização é atravessada por desigualdades de classe social (classe), raça-etnia e gênero, como se observa no atual fluxo migratório venezuelano. Em Roraima, por exemplo, muitas mulheres imigrantes ocupam funções associadas ao cuidado e ao trabalho doméstico em bairros abastados, enquanto outras, diante da falta de oportunidades, são levadas ao trabalho sexual como subsistência, ficando expostas a diversas formas de violência5,6.

Desde o clássico estudo de Mirjana Morokvasic7 em 1984, diversas pesquisas demonstraram que as mulheres sempre fizeram parte dos fluxos migratórios, muitas vezes de forma expressiva. No entanto, suas experiências foram historicamente negligenciadas, em razão de análises baseadas na lógica da família nuclear, a unidade básica de reprodução dos valores, hierarquias e divisões de trabalho do sistema patriarcal, na qual o homem tem o papel de provedor e a mulher, uma função secundária, voltada apenas à reunificação familiar. Essa perspectiva ignora o trabalho, remunerado ou não, realizado por mulheres imigrantes, contribuindo para sua invisibilização. Assim, o aumento da participação feminina nas migrações internacionais e, consequentemente, sua maior visibilidade, sobretudo a partir dos estudos de gênero, têm contribuído para reposicioná-las como protagonistas dos movimentos migratórios2,8.

Dessa forma, os processos de mobilidade humana são atravessados por relações de gênero, ou seja, as construções sociais atribuídas a homens e mulheres atuam como elementos estruturantes das dinâmicas migratórias, interagindo com outros marcadores, tais como: classe e raça-etnia. A subordinação com base nesses marcadores sociais da diferença compõe o referencial essencial para qualquer análise crítica dos mecanismos que geram e perpetuam a marginalização e a exclusão das mulheres imigrantes2.

Nesse contexto, torna-se essencial reconhecer que as mulheres imigrantes enfrentam não apenas os desafios comuns aos deslocamentos internacionais, mas também um conjunto de desigualdades de gênero em intersecção com os marcadores sociais supracitados que atravessam suas trajetórias laborais. A sobrecarga de trabalho, a informalidade, os baixos salários e a exposição a riscos ocupacionais estão frequentemente associados a uma realidade de invisibilidade social e institucional. Tais desigualdades laborais podem impactar de maneira direta a saúde física e mental dessas mulheres, sobretudo diante da ausência de políticas públicas que considerem suas especificidades.

Assim, este ensaio acadêmico teve como objetivo refletir sobre os impactos das desigualdades nas condições de trabalho e seus reflexos na saúde de mulheres imigrantes, considerando a intersecção entre gênero, raça-etnia e classe.

A relevância desta reflexão reside na necessidade de compreender como os marcadores de gênero, classe e raça-etnia operam de forma interseccional para aprofundar a vulnerabilidade das mulheres imigrantes no mundo do trabalho. A escassez de dados específicos e de políticas públicas efetivas contribui para a invisibilização do sofrimento e do adoecimento dessas trabalhadoras. As análises que evidenciam essas desigualdades são fundamentais para subsidiar as ações intersetoriais voltadas à promoção da equidade em saúde e trabalho.

Referencial teórico-filosófico

A categoria gênero surge como um instrumento analítico para desnaturalizar as hierarquias historicamente construídas, principalmente entre homens e mulheres, questionando a visão essencialista que atribui papéis sociais com base no sexo biológico. Diferentemente deste, que se refere às características anatômicas e fisiológicas, o gênero é uma construção sociocultural, linguística e histórica que define as expectativas, os comportamentos e as relações de poder entre os sexos. Essa perspectiva demonstra que as desigualdades não são imutáveis ou determinadas pela biologia, mas são produtos de dinâmicas sociais que variam conforme o contexto. Assim, o gênero permite analisar como as diferenças entre o masculino e o feminino são interpretadas e reforçadas pelas estruturas sociais, transcendendo a simples dualidade biológica9,10.

A categoria classe configura-se como elemento capital para a análise das desigualdades estruturais nas sociedades. No fenômeno migratório, a classe não apenas define a posição econômica do indivíduo, mas também pode condicionar seu acesso a direitos básicos, como saúde, educação e trabalho formal no país de destino. Mulheres imigrantes em situação de baixa renda frequentemente se deparam com condições de vida precárias, sendo absorvidas por ocupações informais, com baixa remuneração e sem qualquer proteção legal. Tal precariedade material gera uma vulnerabilidade que pode restringir sua autonomia e dificultar a ruptura de ciclos de violência5,6.

A raça-etnia igualmente constitui uma categoria crucial para compreender dinâmicas de opressão e exclusão. Imigrantes cujas características fenotípicas, tais como: cor de pele, textura do cabelo ou traços físicos, quando divergem do padrão da sociedade receptora estão sujeitos à discriminação étnico-racial. Essa distinção pode intensificar a violência, pois as expõe a estereótipos negativos, preconceito e marginalização. Ademais, diferenças culturais e barreiras linguísticas frequentemente obstaculizam sua integração social, tornando-as alvos mais vulneráveis a diversas formas de violência. Desse modo, a etnização/racialização das relações sociais aprofunda as desigualdades e amplia os riscos a que essas mulheres estão submetidas6.

A interseccionalidade emerge como uma ferramenta crítica que analisa como categorias sociais, tais como: raça ou etnia, classe, gênero, sexualidade, geração, nacionalidade, entre outras, se entrelaçam, produzindo sistemas complexos de opressão e privilégio. Desenvolvida a partir de reflexões teóricas por ativistas e estudiosos negros, essa abordagem demonstra que formas de subordinação como o racismo, o sexismo, o etarismo, a xenofobia, a homofobia, a aporofobia e/ou a desigualdade de classe não atuam isoladamente, mas interagem de modo dinâmico, intensificando-se mutuamente. Assim, a interseccionalidade revela como estruturas de poder operam em múltiplos níveis, criando experiências únicas de marginalização ou vantagem social11-14.

Dessa forma, a atuação interseccional desses marcadores sociais de diferença contribui para a precarização do trabalho da mulher imigrante. A condição de classe pode influenciar ou mesmo definir seu acesso às oportunidades laborais, enquanto a raça-etnia tende a intensificar a marginalização e a informalidade nas relações de trabalho de mulheres não brancas. A sobreposição dessas opressões (ser imigrante, mulher, pobre e racializada) consolida um ciclo de vulnerabilidade que restringe direitos, invisibiliza demandas e perpetua desigualdades no mundo do trabalho.

Trabalho, gênero e migração: condições laborais de mulheres imigrantes

As transferências transnacionais de força de trabalho evidenciam desigualdades profundas nas dinâmicas globais de emprego. No contexto da migração internacional, observa-se historicamente um fluxo predominante do Sul para o Norte Global. Entretanto, as sociedades economicamente mais desenvolvidas tendem a acolher de forma mais positiva a imigração qualificada, voltada para suprir as lacunas específicas em seus mercados de trabalho. Esse tipo de migração, geralmente legalizado e institucionalmente facilitado, é representado como estratégico e vantajoso. Ele se alinha aos interesses econômicos e ao modelo de desenvolvimento desses países, que buscam atrair perfis altamente especializados para os setores considerados prioritários15,16.

Em contraste, mulheres imigrantes pobres e racializadas enfrentam realidades bem distintas, frequentemente inserindo-se em condições laborais precárias, com pouca proteção legal e baixa valorização social. Suas trajetórias são, em grande parte, atravessadas por redes informais e marcadas por inserções ocupacionais em setores historicamente feminizados e desvalorizados, como o trabalho doméstico e as atividades de cuidado.

Esta precarização é intensificada quando se analisam as dinâmicas raciais no mundo do trabalho, inclusive no Brasil. Em comparação com trabalhadores brasileiros brancos, os imigrantes não brancos enfrentam condições laborais e econômicas significativamente mais precárias, evidenciando como a origem nacional e raça-etnia se interseccionam para produzir desvantagens estruturais. As organizações, embora muitas vezes se apresentem como “neutras”, reproduzem dinâmicas históricas de racialização, nas quais a branquitude opera como norma invisível que concentra poder e oportunidades. Essa hierarquização se torna ainda mais explícita no contexto migratório: trabalhadoras racializadas enfrentam barreiras adicionais, por serem estrangeiras, mulheres e não brancas, sendo frequentemente relegadas a empregos informais, sub-remunerados e com menor proteção social16-19.

O racismo estrutural nas relações de trabalho não se limita a atos individuais de discriminação, mas se manifesta na própria organização do mercado laboral, que naturaliza a marginalização desses grupos. No caso das imigrantes, essa dinâmica é agravada pela intersecção entre xenofobia e sexismo, criando um ciclo de exclusão total ou parcial do acesso aos direitos básicos, tais como: carteira assinada, ascensão profissional, posições de destaque, dentre outros. Uma análise crítica exige, portanto, examinar não apenas as experiências das imigrantes pobres e racializadas, mas também os mecanismos institucionais e culturais que perpetuam sua subalternidade, desde processos seletivos enviesados até a invisibilização de suas contribuições econômicas. Essa perspectiva revela como gênero, raça-etnia, classe e migração interagem para moldar trajetórias de exploração específicas, demandando políticas que confrontem essas formas combinadas de opressão16-19.

Em um estudo realizado com mulheres imigrantes na Espanha, muitas relataram as dificuldades enfrentadas para conciliar o trabalho com o cuidado dos filhos e as demais responsabilidades familiares. Ressaltaram, ainda, a escassez de apoios sociais que possibilitem o cuidado adequado de suas crianças durante a jornada laboral. Elas são frequentemente obrigadas a destinar parte significativa de seus salários à contratação de outras mulheres para esse fim. Essa dinâmica revela não apenas a sobrecarga imposta às mulheres imigrantes, mas também a reprodução de uma cadeia de cuidado marcada por desigualdades de gênero, classe e raça-etnia20.

Nesse cenário de múltiplas opressões, observa-se a reprodução de uma cadeia de cuidado muitas vezes já presente nos países de origem dessas imigrantes socialmente desfavorecidas. É comum que a filha mais velha de uma família pobre assuma responsabilidades domésticas e o cuidado dos irmãos, enquanto a mãe trabalha como babá para os filhos de outra trabalhadora: uma mulher de classe alta, frequentemente não negra. Essa dinâmica de terceirização do cuidado, antes restrita a fluxos internos, como as migrações rural-urbanas, passou a ocorrer de forma crescente em escala transfronteiriças e transregionais. Trata-se de deslocamentos fortemente articulados a redes informais de migração, que possibilitam o recrutamento e a circulação dessa mão de obra feminina, marcada por vulnerabilidades e atravessada pelas interseccionalidades de gênero, classe e raça-etnia2.

Desigualdades de gênero no mercado de trabalho também foram observadas entre imigrantes caribenhos residentes na região de Maryland, nos Estados Unidos. Nesse contexto, os homens apresentavam, em média, remunerações superiores às das mulheres e relatavam melhores condições de saúde mental e física21.

Uma pesquisa realizada no Brasil mostrou que, embora sírios, venezuelanos brancos, haitianos e africanos enfrentassem dificuldades similares no mercado de trabalho, os imigrantes negros relataram experiências específicas de racismo. Identificados como mão de obra barata e descartável, sofriam distanciamento social e condições análogas à escravidão, evidenciando o duplo fardo da migração somada à negritude18,19.

Toda essa dinâmica evidencia a forma perversa como as mulheres vêm sendo inseridas na engrenagem da economia laboral global, marcada pela feminização da pobreza e por uma lógica de exploração baseada na utilidade e na subvalorização de seu trabalho. As imigrantes são preferidas justamente por frequentemente carregarem consigo marcadores sociais de diferença desfavoráveis para o contexto da sociedade receptora que favorecem a precarização e o controle de sua força de trabalho. A procura por essa mão de obra também se explica pelos baixos custos e pela escassa regulamentação que envolve o trabalho dos imigrantes em muitos países, sobretudo no Norte, especialmente no trabalho doméstico e nas redes de cuidado, bem como pela fragilidade na garantia dos direitos trabalhistas. O comércio internacional de trabalhadoras do cuidado, nesse contexto, integra o fenômeno da feminização das migrações, sendo reflexo das desigualdades estruturais entre os países e da persistente lógica de dominação que atravessa o mundo do trabalho2, nomeadamente na área dos cuidados domésticos e das atividades de cuidado, nas quais muitas imigrantes se inserem22.

Outro fator determinante na intensificação da vulnerabilidade das mulheres imigrantes refere-se à ausência de documentação regular em sua condição migratória. Essa irregularidade é apontada como uma das principais causas da exploração no ambiente de trabalho ou da exclusão do mercado formal. A falta de documentos não apenas limita o acesso às políticas públicas e serviços essenciais oferecidos pelo Estado, mas também aprofunda o medo constante de penalizações legais, o que as empurra para relações laborais marcadas pela informalidade, instabilidade e abusos2. Dessa forma, a conjugação dos marcadores de gênero e migração, de modo interseccional à classe e/ou à raça-etnia, agrava esse cenário, uma vez que, diante da urgência de garantir a própria sobrevivência e, muitas vezes, de sustentar suas famílias, essas mulheres acabam se submetendo a condições precárias de trabalho. Esse contexto de sobrecarga, insegurança e ausência de proteção institucional contribui para o adoecimento, tanto físico quanto mental, evidenciando o nexo entre a precarização laboral e os processos de sofrimento relacionados à saúde.

Entre os bolivianos residentes em São Paulo e Buenos Aires, observa-se uma predominância de mulheres, majoritariamente empregadas no setor têxtil, atuando em oficinas de costura e confecção. Muitas vezes, essas trabalhadoras vivem nos próprios locais de trabalho, geralmente situados em bairros periféricos, marcados por condições precárias e insalubres. Essa mão de obra é submetida a rotinas laborais exaustivas, vínculos informais e, em certos casos, situações análogas à escravidão. Quando há a barreira linguística associada à discriminação, a situação é agravada. Nesse contexto, os ateliês funcionam como estratégias de empresários locais para reduzir os encargos trabalhistas, baratear a produção e ampliar seus lucros21.

Em relação às mulheres venezuelanas em Roraima, embora não haja dados oficiais divulgados pela prefeitura de Boa Vista ou pelo governo estadual, percebe-se, no âmbito local, a condição de vida extremamente vulnerável enfrentada por grande parte dessas imigrantes. Muitas recebem remunerações inferiores às oferecidas às trabalhadoras brasileiras em funções equivalentes, revelando práticas exploratórias que se apoiam na precariedade social dessas mulheres. Em alguns casos, a ausência de documentação regularizada e o desconhecimento dos direitos trabalhistas as empurram para atividades subvalorizadas, mal pagas e executadas em condições desfavoráveis ou na prostituição. Soma-se a isso o cenário de mendicância visível nas ruas e nos cruzamentos da cidade, onde diversas venezuelanas, muitas delas com crianças pequenas, solicitam ajuda para sobreviver. Esse cenário é um reflexo claro da exclusão social e da vulnerabilidade que as conduz a aceitar formas extremas de trabalho precarizado6.

É necessário, no entanto, estabelecer uma distinção crucial. A situação de mendicância que caracteriza a extrema vulnerabilidade das mulheres venezuelanas não indígenas em Boa Vista difere da prática observada entre os indígenas venezuelanos da etnia Warao. Para estes, a solicitação de doações nas ruas, realizada principalmente por mulheres com crianças e vestimentas tradicionais, configura o denominado “setor mendicante”. Conforme elucidado na literatura, para os indígenas essa prática é compreendida como uma forma de trabalho e, frequentemente, como a única atividade possível no contexto urbano, representando, portanto, uma atividade com contornos culturais específicos. Desse modo, a precariedade descrita no parágrafo anterior refere-se especificamente às imigrantes não indígenas, para quem a mendicância não constitui uma prática cultural, mas sim a expressão mais aguda da exclusão social e da falência dos mecanismos de inserção laboral formal e informal23.

Uma pesquisa com mulheres imigrantes venezuelanas que atuam como profissionais do sexo em Roraima também demonstrou a intensificação da violência de gênero nesses contextos. Esse tipo de trabalho, já marcado por forte estigmatização e riscos, apresenta-se ainda mais vulnerável quando atravessado pelas interseccionalidades de raça-etnia, classe e nacionalidade24. A precarização do trabalho feminino imigrante é, assim, atravessada por múltiplas camadas de desigualdade, expressando uma realidade em que gênero e essas interseccionalidades estruturam formas complexas de exploração.

Entre a invisibilidade e o adoecimento: impactos do trabalho precarizado na saúde de imigrantes

Sabe-se que a migração internacional de populações mais vulneráveis as expõe a maiores riscos de adoecimento, com prevalência mais elevada de doenças crônicas (como diabetes), infecciosas (tuberculose, HIV/Aids e infecções sexualmente transmissíveis – IST), entre outras. Essas condições são agravadas pelos determinantes sociais da saúde, como condições precárias de vida, barreiras linguísticas e acesso limitado aos serviços de saúde e ao padrão alimentar. O processo migratório em si pode ser marcado por violências, instabilidade e desenraizamento, que atuam como fatores de estresse crônico, aumentando a vulnerabilidade às doenças físicas e psicológicas, o que dificulta a integração nas sociedades receptoras25-27.

No que se refere à saúde psíquica, a literatura aponta há várias décadas que a experiência migratória pode constituir um importante fator de risco para o sofrimento psíquico. Nesse contexto, é fundamental considerar as particularidades de cada situação, incluindo país de origem e de destino, aspectos culturais, contexto social e familiar e redes de apoio disponíveis. Assim, os imigrantes apresentam fatores potenciais para desenvolver transtornos mentais tais como: depressão, estresse pós-traumático, ansiedade patológica, entre outros21,25,28. Adicionalmente, mulheres imigrantes enfrentam mais dificuldades para acessar cuidados em saúde mental. Isso ocorre devido à combinação de status migratório instável, dependência financeira e barreiras estruturais. Fatores culturais, sociais e econômicos também influenciam essa busca por ajuda28.

Dessa forma, para muitos imigrantes, especialmente mulheres, a sobrecarga de funções, a informalidade e a discriminação no emprego se somam às dificuldades já enfrentadas no processo migratório, criando um ciclo de desgaste que dificulta o acesso aos cuidados básicos. A instabilidade no trabalho não apenas limita suas condições materiais, mas também aprofunda o isolamento e a insegurança, reforçando sua vulnerabilidade. Assim, a precariedade laboral não é apenas um obstáculo econômico, mas um fator que deteriora diretamente o bem-estar dessas populações.

No Brasil, o primeiro estudo soroepidemiológico realizado com imigrantes em 2024 revelou que esses indivíduos, especialmente homens, apresentam taxas de IST superiores às da população geral. O contexto migratório, marcado por deslocamentos solitários, múltiplas parcerias sexuais e vulnerabilidade social, favorece práticas de risco. Essa tendência se acentua com o tempo de permanência no país, indicando falhas na assistência à saúde preventiva. A ausência de políticas específicas para essa população agrava o quadro, exigindo ações que considerem suas particularidades26.

Em comparação às mulheres autóctones, as imigrantes costumam apresentar indicadores mais desfavoráveis de saúde, especialmente no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. Observa-se entre elas uma maior incidência de morbidades maternas, perinatais e infantis, além de complicações mais frequentes durante a gestação e o pós-parto. Também são mais propensas a comportamentos de risco e apresentam menor acesso às práticas de prevenção em saúde29.

Nessa perspectiva, o tipo de inserção ocupacional dos imigrantes, frequentemente concentrado em setores informais e com alta rotatividade, pode criar condições que favorecem a exposição às situações de vulnerabilidade sanitária. A mobilidade geográfica exigida por certos trabalhos, combinada com a ausência de vínculos estáveis, dificulta o estabelecimento de rotinas de cuidado preventivo e de acompanhamento regular em saúde. No caso específico da saúde sexual, a combinação entre o isolamento social, as condições de moradia inadequadas e as jornadas exaustivas pode contribuir para a formação de redes de sociabilidade mais vulneráveis. Essa conjuntura revela como a organização do trabalho imigrante, marcada pela precariedade, se entrelaça com outras dimensões da vida que podem impactar diretamente o perfil epidemiológico dessa população.

Para as mulheres imigrantes, a precarização laboral agrava suas vulnerabilidades e impacta diretamente sua qualidade de vida e saúde. A frequente dupla jornada, marcada por empregos informais, muitas vezes insalubres, e pelo trabalho doméstico e de cuidado familiar não remunerado, pode gerar impactos ainda maiores na negligência dos próprios cuidados em saúde. A invisibilidade social dessas trabalhadoras no setor de cuidados e serviços aprofunda seu adoecimento, perpetuando um ciclo de exclusão que demanda urgentes intervenções intersetoriais.

Observa-se, portanto, que os imigrantes apresentam vulnerabilidades intrínsecas que podem levar a desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Algumas das principais barreiras enfrentadas incluem as diferenças culturais, situação socioeconômica desfavorável, dificuldades linguísticas, ausência de documentação, falta de histórico médico, isolamento social, desconhecimento sobre os serviços de saúde disponíveis, direito limitado à saúde pública, além de experiências de racismo e xenofobia. Ademais, é comum que encontrem limitações relacionadas ao atendimento de estrangeiros dentro dos sistemas públicos de saúde dos países receptores25,26,30,31.

Já foram relatadas na literatura as péssimas condições de trabalho às quais estão submetidos os bolivianos, que sabidamente são, em sua maioria, mulheres que atuam na área de costura na indústria têxtil de Buenos Aires. A seguir, apresenta-se a seguinte descrição, colhida em estudo anterior, das condições de trabalho:

[...] desde a angústia sofrida pela violência e maus-tratos, passando pela escassa circulação do ar, o isolamento e a falta de luz solar, a acumulação de pó e umidade nas paredes, no solo e no teto; até o fato de que o trabalho se realiza em condições de aglomeração, em habitações sem ventilação infestadas de retalhos de tecidos, fios, poeira e penugens que as máquinas produzem [...]; além de que a quantidade de horas diárias trabalhadas seja entre 14 e 18, com ritmos intensos e ininterruptos; bem como que a alimentação seja escassa e deficiente etc. Todos estes elementos, em conjunto, podem gerar uma baixa no sistema imunológico destas pessoas, tornando-as mais vulneráveis à infecção, ao contágio e ao desenvolvimento de tuberculose21(p. 305).

Outros estudos também mostraram prevalências elevadas de tuberculose em imigrantes bolivianos vivendo na Argentina, relacionadas também às condições de trabalho insalubres21. No Brasil, o estudo de Silva et al.25, baseado em notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), referentes ao período de 2018 a 2022, demonstrou que os imigrantes representaram 0,6% do total de casos de tuberculose notificados no país. A proporção de casos entre migrantes foi mais elevada em algumas unidades federativas, como Roraima (19,83%), Distrito Federal (3,87%), Santa Catarina (1,30%) e São Paulo (1,12%).

Por fim, deve-se mencionar que as mulheres imigrantes enfrentam maior risco de violência sexual e tráfico humano, sendo as principais vítimas dessa exploração com finalidade comercial por parte dos perpetradores dessas violências. Essa situação acarreta graves danos à saúde física e mental, com impactos duradouros inclusive sobre sua autonomia sexual, reprodutiva e sua integração social. Ainda, muitas são submetidas a condições laborais análogas à escravidão em outros países, agravando sua situação de vulnerabilidade29,32-34.

Essas condições insalubres e degradantes impactam profundamente a saúde dos imigrantes, expondo-os a riscos físicos e emocionais extremos. A má ventilação, a sobrecarga de trabalho e a alimentação precária contribuem para o enfraquecimento do sistema imunológico, aumentando a vulnerabilidade a doenças como a tuberculose e a hanseníase. Além disso, o confinamento em espaços apertados e a ausência de condições mínimas de higiene favorecem a disseminação de infecções respiratórias e dermatológicas, além de poderem fragilizar a saúde mental. Esse cenário evidencia como a precarização do trabalho e da moradia compromete diretamente o bem-estar físico e mental dessas trabalhadoras imigrantes21,24,25,28,29.

Considerações finais

Este ensaio buscou demonstrar como as desigualdades de gênero, entrelaçadas com marcadores de raça-etnia e classe, moldam as trajetórias laborais e os processos de saúde-adoecimento de mulheres imigrantes. A inserção de grande parte dessas trabalhadoras no mercado de trabalho ocorre de forma profundamente desigual, marcada pela precarização, pela informalidade e pela vulnerabilidade social. Especialmente quando provenientes de países do Sul Global, essas mulheres enfrentam não apenas as barreiras impostas pela condição migratória, mas também a interseccionalidade de opressões que as relegam a ocupações desvalorizadas, jornadas exaustivas e condições insalubres que impactam diretamente a saúde física e mental.

A precarização do trabalho no contexto migratório se revela como um fenômeno multidimensional. Não se trata apenas da ausência de direitos trabalhistas, mas de um sistema que naturaliza a exploração de corpos racializados e feminizados das classes menos favorecidas. A xenofobia, o racismo e a divisão sexual do trabalho convergem para perpetuar ciclos de marginalização, nos quais as mulheres imigrantes são vistas como força laboral descartável e potencialmente mais fácil de explorar. Os dados e as descrições apresentados ao longo deste estudo mostram como essa realidade se traduz em agravos à saúde: desde doenças ocupacionais e infecciosas até transtornos mentais associados ao estresse crônico e à insegurança documental, laboral e socioeconômica. A falta de acesso aos serviços de saúde adequados, somada à sobrecarga de trabalho não remunerado (como os cuidados domésticos), aprofunda ainda mais essas iniquidades.

A interseccionalidade, aqui, não é apenas um quadro analítico, mas um chamado teórico-prático para reconhecer que as múltiplas opressões que estruturam a vida das mulheres imigrantes constituem o primeiro passo para construir respostas, que não apenas mitiguem danos, mas promovam a justiça social. Seu direito à saúde, compreendido em sua dimensão integral, só será pleno quando suas vidas deixarem de ser tratadas como mercadoria barata no capitalismo global.

É fundamental reconhecer, no entanto, que o Brasil, com sua recente Lei de Migração35 e a garantia do acesso universal ao Sistema Único de Saúde (SUS), oferece um marco legal protetivo que assegura, inclusive a migrantes internacionais, o direito integral à saúde, da prevenção à reabilitação. Embora as vulnerabilidades interseccionais persistam na prática, tais políticas representam um alicerce crucial para confrontar a exploração e construir respostas que transcendam a mitigação de danos, rumo à efetiva garantia de direitos.

Referências

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  • Disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
    O autor declara que utilizou ChatGPT (OpenAI), versão GPT-5.3 para revisão de linguagem e ajuste de referências.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    O autor informa que o estudo não foi apresentado em evento científico.
  • Financiamento:
    O autor declara que o estudo não foi subvencionado.

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Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Jul 2025
  • Revisado
    24 Fev 2026
  • Aceito
    06 Mar 2026
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