Open-access Biossegurança dos serviços odontológicos público e privado na região Sul do Brasil no primeiro ano da pandemia da covid-19

Resumo

Objetivo  Comparar a adoção de medidas de biossegurança no primeiro ano da pandemia por cirurgiões-dentistas dos setores públicos e privados do Sul do Brasil.

Métodos  Estudo transversal, com dados coletados por formulário on-line, de agosto a outubro de 2020. Utilizou-se Análise Fatorial Exploratória para definição das dimensões e testes de hipóteses para a comparação entre os setores.

Resultados  Participaram 1.721 profissionais, a maioria do serviço público (50,6%) e do sexo feminino (n = 673; 77,4%). Obtiveram-se quatro dimensões: I) disponibilidade e uso de equipamentos de proteção individual; II) organização do serviço; III) atendimento; e IV) biossegurança no consultório. Cirurgiões-dentistas dos serviços públicos suspenderam procedimentos eletivos, evitaram geração de aerossóis e radiografias intraorais, e trabalharam a quatro mãos com maior frequência do que aqueles do setor privado (p < 0,001). Nos serviços privados, houve maior frequência de relato de participação na tomada de decisões; utilização de peças de mão esterilizadas, sugadores de alta potência, dique de borracha, e teleorientação/telemonitoramento (p ≤ 0,001).

Conclusão  No setor privado, foram mais frequentes atitudes convencionais nos procedimentos e adesão às medidas de limpeza/desinfecção de equipamentos e ambientes. No setor público, houve maior adesão às medidas de biossegurança no atendimento, e menor adesão àquelas dependentes de equipamentos, materiais e tecnologias.

Palavras-chave:
Covid-19; Contenção de Riscos Biológicos; Cirurgião-Dentista; Saúde do Trabalhador

Abstract

Objective  To compare the adoption of biosafety measures in the first year of the pandemic by public and private sector dentists in southern Brazil.

Methods  Cross-sectional study, with data collected using an online form, from August to October 2020. Exploratory Factor Analysis was used to define the dimensions and hypothesis tests were used to compare the sectors.

Results  1,721 professionals took part, the majority from the public service (50.6%) and female (n = 673; 77.4%). Four dimensions were obtained: I) availability and use of personal protective equipment; II) organization of the service; III) care; and IV) biosafety in the office. Public-sector dentists suspended elective procedures, avoided generating aerosols and intraoral X-rays, and worked four-handed more often than those in the private sector (p < 0.001). In the private sector, there was a higher frequency of reports of participation in decision-making; use of sterile handpieces, high-powered suckers, rubber dams, and tele-orientation/telemonitoring (p ≤ 0.001).

Conclusion  In the private sector, conventional attitudes to procedures and adherence to cleaning/disinfection measures for equipment and environments were more frequent. In the public sector, there was greater adherence to biosafety measures in care, and less adherence to those dependent on equipment, materials, and technologies.

Keywords:
COVID-19; Containment of Biohazards; Dentists; Occupational Health

Introdução

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 775 milhões de casos da doença do coronavírus 2019 (covid-19) foram referidos globalmente até junho de 20241. Em 2021, o Brasil foi classificado entre os quatro países com mais casos de covid-19 e mortes1, e a região Sul foi severamente afetada, com elevadas incidência e mortalidade2.

A pandemia da covid-19 modificou diversas questões da vida cotidiana, com a instalação de uma crise social, econômica e sanitária3. A situação impactou os sistemas de saúde, e demandou respostas rápidas, eficazes e bem coordenadas dos setores públicos e privados para responderem às necessidades emergentes4.

Diante desse cenário, agências governamentais, conselhos de classe e instituições odontológicas formularam e publicaram diretrizes contendo recomendações sobre biossegurança no contexto dos serviços odontológicos, para o controle de infecção durante o atendimento odontológico5. Em síntese, as recomendações encontradas com maior frequência nos protocolos orientavam quanto ao uso de máscaras N95 ou similares, uso de protetor facial (face shield), distanciamento seguro, uso de sucção de alta potência, uso de isolamento absoluto e trabalho auxiliado5. Considerando a readequação e os desafios da prática profissional, os cirurgiões-dentistas depararam-se com impactos psicológicos6 e financeiros7, além de dificuldades na gestão da prática dos serviços, no controle de infecção, em métodos de diagnóstico e na identificação das manifestações bucais da covid-198.

Em resposta à progressão da pandemia, o governo federal teve que tomar decisões sobre medidas de contenção de avanço da pandemia, como a adoção de práticas de higiene pessoal, orientação sobre distanciamento social, uso de máscaras e vacinação; bem como sobre medidas de proteção social e financiamento das ações de enfrentamento9. Em virtude da complexidade da pandemia, houve divergências entre as decisões em âmbito federal, os entes federativos e os outros Poderes da República9, que possivelmente reverberaram na adoção das medidas de biossegurança nos setores públicos e privados.

A classe odontológica está exposta aos patógenos de doenças infecciosas transmitidas pelo ar, devido à realização de procedimentos com contato próximo, prolongado e direto com a cavidade bucal, ambiente caracterizado como um reservatório e porta de saída/entrada para o vírus10. Além disso, diante da natureza dos procedimentos odontológicos, há grande geração de aerossóis que estão possivelmente contaminados com saliva e sangue10.

Embora não haja um entendimento consensual quanto à maior incidência da covid-19 e ao risco ocupacional entre profissionais de saúde11, compreende-se que aqueles que sofreram exposição a secreções oronasais apresentam elevado risco para a contaminação12. Nesse sentido, evidencia-se que a utilização de equipamentos de proteção adequados e a adesão às medidas de controle e prevenção de infecções podem reduzir o risco de infecção por covid-1911.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu a Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa no 04/2020 (NT04/2020), em 30 de janeiro de 2020, visando definir protocolos de biossegurança diante da pandemia13. Em uma nova versão, de março de 2020, incluíram-se orientações para os consultórios odontológicos, voltadas à prevenção e ao controle da covid-19. No decorrer da pandemia, a primeira versão dessa diretriz foi submetida a 11 atualizações até a data de 24 de junho de 202413. A partir das versões mais recentes desta norma, com o andamento da vacinação e o maior controle de contaminação, foi recomendado o retorno gradual às atividades, com a priorização dos atendimentos. A adesão às medidas de biossegurança vigentes foi essencial para a mitigação da doença14 e para evitar ou reduzir ao máximo a transmissão do vírus.

A fim de subsidiar as políticas de enfrentamento da crise, o monitoramento e a detecção das diferenças no processo de trabalho entre os serviços odontológicos públicos e privados na pandemia se fazem essenciais7. No entanto, apesar da existência de alguns estudos sobre as medidas de biossegurança diante da covid-19 em odontologia, até o momento, poucos estudos avaliaram as diferenças entre as práticas de cirurgiões-dentistas nas esferas pública e privada15,16. A maioria dos artigos focou no estudo da equipe de saúde bucal17,18,14, perfil socioeconômico19 e impacto da covid-19 na prática dos cirurgiões-dentistas7.

Diante do exposto, o objetivo deste artigo foi comparar a adoção de medidas de biossegurança, durante o primeiro ano da pandemia de covid-19, por cirurgiões-dentistas, nos setores públicos e privados do Sul do Brasil.

Métodos

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo transversal, realizado com dados de um estudo multicêntrico20, cuja coleta de dados foi realizada por meio de formulário on-line, de agosto a outubro de 2020, quando nacionalmente a curva de contágio da primeira onda da covid-19 era decrescente. O estudo seguiu as diretrizes para o relato de estudos observacionais (STROBE)21 e de websurveys (Checklist for Reporting Results of Internet E-Surveys - CHERRIES)22.

População e amostra

O estudo multicêntrico foi realizado com a participação dos profissionais de saúde bucal (auxiliares em saúde bucal, técnicos em saúde bucal e cirurgiões-dentistas). A amostra não probabilística foi constituída por profissionais dos três estados da região Sul que aceitaram o convite, e que se voluntariaram a participar da pesquisa.

No Brasil, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e os Conselhos Regionais de Odontologia (CRO) regulam o registro profissional. O quantitativo de profissionais em seus diferentes estados é atualizado diariamente na base de dados pública do CFO. Em abril de 2020 havia, segundo os registros, 55.147 cirurgiões-dentistas na Região Sul, sendo 21.037 (38,2%) no Paraná, 14.136 (25,6%) em Santa Catarina e 19.972 (36,2%) no Rio Grande do Sul20.

Critérios de elegibilidade

No presente estudo, foram incluídos os cirurgiões-dentistas dos três estados da Região Sul que relataram atuar nos serviços ambulatoriais públicos do Sistema Único de Saúde – SUS (unidades básicas de saúde, centros de especialidades e serviços de pronto atendimento) e em consultórios e clínicas do setor privado.

Foram excluídos aqueles que não tiveram atuação em clínica desde o início da pandemia, os que trabalhavam em outras áreas (docência, hospitais, gestão, forças armadas, Sistema S e residência em saúde).

Instrumento de pesquisa

O instrumento de coleta de dados foi elaborado pela equipe de pesquisadores e foi submetido à validação de face por oito experts da área e a teste-piloto com 35 profissionais de saúde bucal não atuantes na Região Sul do Brasil. Especificidades sobre a construção e validação de face do formulário, bem como os testes de reprodutibilidade e validação do instrumento podem ser identificados em publicações prévias20,23.

A versão final continha três blocos: (1) Perfil sociodemográfico, de formação e de trabalho; (2) Disponibilidade de insumos e medidas de biossegurança e (3) Prática profissional, gestão, educação e trabalho em equipe. No total, o questionário tinha 47 questões fechadas, além de duas questões abertas sobre dificuldades do trabalho e sofrimento emocional e mental dos profissionais de saúde bucal no período da pandemia.

Nesta pesquisa foram utilizados os dados referentes ao segundo bloco, que constou de 37 questões elaboradas a partir da Nota Técnica da Anvisa n° 04/2020 e visou aferir o nível de conformidade dos serviços odontológicos às medidas preconizadas, com instrumento que foi previamente validado pelos autores do estudo23. Os itens apresentavam opções de resposta em escala do tipo Likert de frequência em cinco pontos (1 – nunca, 2 – raramente, 3 – às vezes, 4 – quase sempre, 5 – sempre), além da opção de resposta “não sei”. As questões fechadas eram de preenchimento obrigatório. O tempo de resposta era em torno de 10 a 15 minutos.

Coleta de dados

Foi utilizado um formulário no Google Forms® para a coleta de dados, no período de 10 de agosto a 7 de outubro de 2020. O link de participação foi enviado por e-mail pelos CRO de cada estado. Esse procedimento se repetiu com 15 e 45 dias de intervalo do primeiro envio.

Ao considerar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o envio das rodadas da pesquisa se deu pelos CRO e, por isso, havia previsibilidade de garantia de acesso por desatualização dos dados ou pelo spam. Sendo assim, desde o início do estudo foi prevista a divulgação do estudo concomitantemente com a colaboração de secretarias de saúde, instituições de ensino, associações de classe e por meio mídias sociais20. Embora apresente a vantagem de garantir a maior visibilidade e adesão dos elegíveis, há maior chance de acontecer as duplicatas, uma vez que nenhuma forma de registro de identificação foi solicitada, tais como: nome, número de registro do conselho ou e-mail). No entanto, por meio das respostas do Bloco 1 (perfil sociodemográfico, de formação e de trabalho) do questionário, especialmente estado, município, idade e tipo de serviço, houve análise e remoção de respostas duplicadas.

Análise de dados

Utilizou-se o Statistical Package for the Social Sciences (Versão 25.0 – IBM SPSS Statistics). Para possibilitar a extração e o entendimento de fatores relevantes que compreendiam o processo de trabalho na pandemia, foi realizada a Análise Fatorial Exploratória (AFE) das variáveis dependentes. Foi utilizado o comando Análise de Componentes Principais elegendo a técnica de rotação Varimax. A adequabilidade dos dados para a aplicação da AFE foi aferida com as medidas de ajuste: Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e teste de esfericidade de Bartlett. O pressuposto de normalidade foi verificado utilizando-se o teste de Shapiro-Wilk e identificou-se que os itens apresentavam distribuição não normal mesmo após a transformação logarítmica24.

Foram utilizados os testes qui-quadrado, ajustado pelo teste Z e Bonferroni; e o teste U de Mann-Whitney (p≤0,05) para identificar as diferenças entre os grupos de cirurgiões-dentistas dos setores público e privado quanto às frequências nas variáveis de interesse.

Os dados missings foram desconsiderados na análise, por isso, incluídos para cada variável o número de observações válidas.

Aspectos éticos

A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) das instituições de ensino envolvidas: Universidade Estadual de Ponta Grossa (CAAE: 31720920.5.1001.0105 - 13 de maio de 2020), Universidade Federal do Paraná (CAAE: 31720920.5.3001.0102 – 1o de outubro de 2020), Universidade Federal de Santa Catarina (CAAE: 31720920.5.2001.0121 – 20 de agosto de 2020) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CAAE: 31720920.5.2002.5530 – 4 de junho de 2020). Foi utilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que foi disponibilizado previamente ao preenchimento do questionário, para a inclusão somente daqueles que consentiram e concordaram em participar da pesquisa. Para garantir a privacidade dos participantes e confidencialidade da base dos dados, o acesso às informações foi restrito e controlado e foi mantido o anonimato dos respondentes.

Resultados

Obteve-se 2.862 respostas durante o período de coleta de dados. Destas, 11 foram excluídas por assinalarem não concordância na participação, uma, por não ser de profissional de saúde bucal, e 290, que foram duplicadas automaticamente pela plataforma Google Forms®. A amostra final contou com 2.560 respostas válidas dos profissionais de saúde bucal. No entanto, 1.941 respostas foram de cirurgiões-dentistas, dos quais 1.721 estavam de acordo com os critérios de inclusão deste estudo (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma da amostra de profissionais de saúde bucal para os estados da Região Sul e amostra final de cirurgiões-dentistas dos serviços públicos e privados, de agosto a outubro de 2020.

CD: Cirurgião-dentista; TSB: Técnico em Saúde Bucal; ASB: Auxiliar em Saúde Bucal; UBS: Unidade Básica de Saúde; ESF: Estratégia de Saúde da Família; CEO: Centro de Especialidades Odontológicas; UPA: Unidade de Pronto Atendimento.

*Outros: CD que não atuaram em clínica durante a pandemia, e os que atuavam em outras áreas (docência, hospitais, gestão, forças armadas, Sistema S e residência em saúde).


Do total de 1.721 participantes, a maioria era do serviço público (50,6%), do sexo feminino (77,4%), com idade até 39 anos (52,6%). A comparação entre os setores revelou que uma maior proporção de cirurgiões-dentistas dos serviços públicos não se afastou do trabalho em clínica odontológica durante o período da coleta de dados (42,6%), e estes profissionais inclusive apresentaram o maior percentual de realização de testes para a covid-19 (72,3%) e de afastamento devido a essa doença (17,3%) (p < 0,001). A maior proporção de cirurgiões-dentistas que não teve acesso a alguma diretriz (de órgãos governamentais ou de conselho de classe) de prevenção e controle da covid-19 (7,3%) e que não teve acesso à nota técnica GVIMS/GGTES/Anvisa no 04/2020 (56,8%) era dos serviços privados (p < 0,001) (Tabela 1).

Tabela 1
Distribuição das características sociodemográficas, de formação, trabalho e saúde de profissionais dos serviços odontológicos públicos e privados. Cirurgiões-dentistas da Região Sul, Brasil, de agosto a outubro de 2020 (n = 1.721)

As dimensões apresentadas na Tabela 2 foram definidas como resultado da análise fatorial exploratória (AFE). Foram identificados oito fatores com Eigenvalues > 1,0, que explicaram uma parte significativa (55,7%) da variância total dos dados. O fator com maior poder explicativo foi referente à disponibilidade e utilização dos equipamentos de proteção individual (EPI) considerados convencionais – luva de procedimento, gorro, óculos de proteção e máscara cirúrgica (dimensão 1), sendo que a máscara N95/PFF2 (dimensão 5) e o avental impermeável (dimensão 6) constituíram fatores individuais. A organização dos serviços de saúde (dimensão 2) e do atendimento odontológico (dimensão 3) e a biossegurança no consultório (dimensão 4) complementam os fatores com maior participação na variância dos dados. Os fatores relacionados aos cuidados com os EPI contaminados e o acolhimento e a triagem de casos suspeitos apresentaram menor participação no modelo (dimensões 7 e 8).

Tabela 2
Análise Fatorial Exploratória (AFE) quanto ao processo de trabalho e medidas de biossegurança para controle da disseminação da covid-19, em amostra de cirurgiões-dentistas dos setores públicos e privados da Região Sul do Brasil, de agosto a outubro de 2020 (n = 1.721)

Os resultados quanto ao processo de trabalho e às medidas de boas práticas para controle da disseminação da covid-19 nos serviços públicos e privados estão apresentados na Tabela 3 e na Figura 2, de acordo as dimensões.

Tabela 3
Distribuição dos profissionais quanto ao processo de trabalho e adoção de medidas de biossegurança para controle da disseminação da covid-19 nos consultórios públicos e privados, em amostra de cirurgiões-dentistas da Região Sul, Brasil, de agosto a outubro de 2020 (n = 1.721)
Figura 2
Distribuição dos profissionais quanto à elevada disponibilidade e utilização de equipamentos de proteção individual nos consultórios públicos e privados, em amostra de cirurgiões-dentistas da Região Sul, Brasil, de agosto a outubro de 2020 (n = 1.721)

Escore 5 (sempre) da escala do tipo Likert de frequência; respostas “não sei” foram consideradas dados perdidos (missing data). Teste qui-quadrado para diferenças entre público e privado (p < 0,05).

EPI: Equipamentos de proteção individual.


Quanto à dimensão 1, observa-se que os EPI convencionais e o protetor facial (face shield) foram referidos como disponíveis e utilizados, sendo que mais de 75% dos participantes informaram que eram sempre disponíveis e utilizados (Tabela 3). De acordo com a Figura 2, o setor privado teve a maior disponibilidade de gorros, luvas de procedimento, máscara cirúrgica (p ≤ 0,05).

Em relação à dimensão 2, houve menor frequência quanto à redução da carga horária de trabalho ou rotatividade de profissionais, uso de ferramentas digitais e interação com outros profissionais de saúde. A maior amplitude, com intervalo interquartílico variando entre os escores 1 (nunca) e 5 (sempre), foi identificada para a participação na tomada de decisões, a redução na jornada de trabalho e o uso de ferramentas digitais. Os cirurgiões-dentistas dos serviços privados adotaram as medidas relacionadas a essa dimensão com maior frequência (p < 0,001) (Tabela 3).

No que se refere à dimensão 3, a maior amplitude foi identificada para evitar radiografias intraorais e realizar procedimentos a quatro mãos, que também foram as medidas adotadas com menor frequência. Os cirurgiões-dentistas dos serviços públicos referiram maior frequência de adoção das normas do que os dos serviços privados (p < 0,001) (Tabela 3).

De outro modo, em relação à dimensão 4, os cirurgiões-dentistas dos serviços privados relataram maior frequência de utilização de dique de borracha, sistema de alta potência e utilização de peças de mãos esterilizadas a cada atendimento odontológico, bem como maior frequência de limpeza/desinfecção das mangueiras de sucção e do ambiente por profissional treinado utilizando EPI adequados (p ≤ 0,001) (Tabela 3).

Dois EPI que foram adicionados na rotina devido à pandemia da covid-19, máscara N95/PFF2 e avental impermeável, apresentaram frequência de disponibilidade e utilização menor do que os EPI convencionais. A dimensão 5 compreendeu as variáveis relacionadas com a máscara N95/PFF2 (Tabela 3). O setor privado apresentou maior disponibilidade da máscara N95/PFF2 e do avental impermeável (p ≤ 0,003), conquanto o setor público tenha apresentado a maior utilização da máscara (p = 0,013) (Figura 2). No que se refere à dimensão 8, os profissionais dos serviços públicos apresentaram a maior frequência de trabalho em ações de acolhimento/triagem/fast track da covid-19 (p < 0,001) (Tabela 3).

Discussão

Este estudo revela que houve diferenças na implementação das medidas para controle da disseminação da covid-19 entre os cirurgiões-dentistas dos serviços públicos e privados. Apesar do aumento da discussão acerca da pandemia à medida que o número de casos evoluía, pouca evidência a respeito da implementação das medidas de biossegurança nos serviços odontológicos públicos e privados foram publicadas15,16.

No presente estudo, a coleta de dados aconteceu quando o Brasil estava em declínio de novos casos e de mortes na primeira onda da pandemia25. Seus resultados são influenciados pelo contexto epidemiológico e as normativas vigentes naquele momento1, e os dados devem ser interpretados com cautela, considerando esse cenário.

A maioria de participantes do presente estudo eram profissionais atuantes no serviço público, diferentemente de outra pesquisa desenvolvida sobre a covid-19 em outro país26. Essa maior adesão pode ter sido derivada das diferentes estratégias de divulgação da pesquisa, pois houve contato direto com as secretarias de saúde, realização de lives streamings sobre a temática e com a discussão de relatos de experiências20.

No contexto da pandemia, os cirurgiões-dentistas foram levados a adotar novas rotinas no processo de trabalho, tais como: adesão aos novos EPI (máscara N95, protetor facial – face shield e avental impermeável) aos protocolos de descontaminação e à organização da demanda dos pacientes. Nesse sentido, esses fatores impactaram na variação de procedimentos e no aumento de custos7,27. A menor suspensão de procedimentos eletivos no serviço privado, como no presente estudo, pode ser influenciada por questões econômicas, visto que muitos profissionais dependem do fluxo de atendimento de pacientes para suprirem as despesas financeiras28. Nessa perspectiva, a instabilidade e a insegurança financeira do setor privado parecem sobrepor a insegurança relacionada aos riscos ocupacionais e adoecimento da covid-1929, achados semelhantes foram identificados em estudo realizado no Brasil em maio de 20207. Os efeitos financeiros negativos para o setor privado e biossegurança insuficiente para o setor público reforçam a existência de desigualdades entre os sistemas de atuação dos profissionais de saúde bucal30.

As diferenças encontradas entre os setores público e privado em relação à disponibilidade, utilização e/ou reutilização de alguns EPI, tais como: protetor facial (face shield), máscara cirúrgica, máscara N95/PFF2 e avental impermeável, podem refletir uma maior autonomia e menor burocratização para compra dos EPI no serviço privado, ao mesmo tempo que podem demonstrar uma priorização de alocação dos suprimentos nos serviços públicos de saúde e/ou profissionais de saúde atuantes na linha de frente7. Salienta-se que, nas fases iniciais da pandemia, o estoque de EPI tornou-se escasso e algumas propostas sugeriam o racionamento e controle da alocação desses equipamentos27. No entanto, a maior ou mesma disponibilidade dos EPI, não refletiu na maior frequência de disponibilidade para alguns EPI, como, por exemplo, o uso do protetor facial (face shield) e máscara N95/PFF2, que apresentaram maior uso por cirurgiões-dentistas do serviço público. O maior conhecimento e/ou adesão a protocolos de biossegurança quanto às medidas a serem tomadas durante a pandemia pode ter contribuído para o maior uso dos EPI por esses profissionais.

O fato de os cirurgiões-dentistas dos serviços públicos terem realizado um maior número de testes para SARS-CoV-2 e apresentado um maior percentual de positivar ao longo da pandemia pode ter influenciado o maior afastamento por suspeita ou para tratamento da covid-19 dos serviços públicos. Nesse sentido, evidencia-se que o Brasil enfrentou desafios para ampliar a capacidade de testagem para covid-19, tais como o abastecimento e a importação dos componentes diagnósticos31. O Ministério da Saúde do Brasil incluiu em seu planejamento a oferta de testes para covid-19 para profissionais de saúde32. Apesar disso, muitos profissionais relataram dificuldades no acesso aos testes e, consequentemente, sua não realização33. É possível que os profissionais do serviço público tiveram um acesso facilitado aos testes para SARS-CoV-2 devido à possibilidade do seu local de trabalho ser um ponto de testagem para a população.

Nesta pesquisa, houve menor frequência de trabalho a quatro mãos nos serviços privados. Na perspectiva de redução de custos, a depender da complexidade dos procedimentos, os cirurgiões-dentistas não trabalhavam com auxiliares. Diferente desta lógica, no setor público, há uma priorização do trabalho auxiliado na odontologia, isso pode ser reflexo dos incentivos para a implantação da Equipe de Saúde Bucal no SUS34. A pandemia de covid-19 alerta os profissionais sobre os riscos ocupacionais no trabalho individualizado, tanto na realização de etapas prévias, durante e após o atendimento clínico. O trabalho a quatro mãos respeita com maior qualidade e efetividade os preceitos de ergonomia e biossegurança além de reduzir o tempo de atendimento e, por isso, torna os profissionais e os usuários menos vulneráveis ao adoecimento35.

Os profissionais de ambos os setores tiveram baixa adesão à teleodontologia, o serviço privado apresentou maior frequência na utilização de ferramentas digitais para teleorientação ou telemonitoramento. A teleodontologia vem sendo destacada como uma importante ferramenta para aumentar a eficácia da atenção primária em saúde e melhorar a qualidade dos cuidados de saúde bucal prestados36. No Brasil, essa modalidade foi regulamentada de forma tardia, de modo que a pandemia incentivou esse processo por meio da resolução do CFO no 226/202037. Nesse sentido, a decisão pela incorporação da teleodontologia no Brasil era uma medida determinante para redução do risco ocupacional, mas que não apresentou uma efetividade em detrimento desses fatores limitantes. Destaca-se a existência de alguns desafios para a implementação da teleodontologia, como a falta de conhecimento de profissionais e pacientes para utilizar os equipamentos tecnológicos, necessidade de recursos, infraestrutura e tecnologia38. Diante disso, há necessidade urgente de formação e treinamento contínuos para aceitabilidade e aplicabilidade desta ferramenta39.

Esta pesquisa possui algumas limitações. Os dados não podem ser extrapolados para o contexto do Brasil, pois os resultados refletem as características de respondentes da região Sul do país, podendo não representar as particularidades de todas as regiões do território nacional. Existem limitações e desafios para o desenvolvimento e implementação de websurveys. Não há espaço para os participantes esclarecerem dúvidas; a população que acessa a internet é heterogênea. Ademais, as mensagens que os pesquisadores enviam aos respondentes podem não chegar ao destino previsto40, podendo ocorrer viés de seleção. Para minimizar essas limitações, um grande esforço foi realizado para alcançar e sensibilizar o maior número possível de profissionais, por meio da ampla divulgação da pesquisa; além do controle das respostas e da realização de três tentativas de envio dos e-mails. Esta pesquisa seguiu um método rigoroso para o seu planejamento e desenvolvimento de um instrumento que abordasse com fidedignidade o tema estudado. A identificação, neste artigo, das diferenças no processo de trabalho entre os serviços odontológicos pode fornecer subsídios para o direcionamento de políticas de enfrentamento de crises futuras similares a esta.

Conclusão

Concluindo, este estudo analisou quatro dimensões relacionadas à biossegurança para o controle da disseminação da covid-19: disponibilidade e uso de EPI; organização do serviço de saúde; organização do atendimento odontológico; e biossegurança no consultório odontológico. Foi possível identificar que os cirurgiões-dentistas dos serviços públicos e privados no Sul do Brasil apresentaram diferenças na adoção dessas medidas. No setor privado, houve maior adesão às medidas relacionadas com a biossegurança no consultório odontológico, e maior frequência de execução de limpeza e desinfecção de equipamentos (mangueiras de sucção e ao uso de protetores faciais/face shields) e ambientes, além de maior manutenção das atitudes convencionais (aquelas comumente utilizadas antes da pandemia) em relação aos procedimentos clínicos. No setor público, houve maior adesão às medidas de biossegurança para o atendimento odontológico, como o trabalho auxiliado e a redução de procedimentos eletivos e geradores de aerossóis; porém menor adesão às medidas organizacionais do serviço, e menor utilização das medidas dependentes de equipamentos e materiais e tecnologias.

Ressalta-se que a adesão ou não a determinadas medidas de biossegurança depende da disponibilidade materiais, insumos e infraestrutura adequados. Nessa lógica, este estudo avaliou somente a disponibilidade de EPI, para as demais medidas de biossegurança não foi avaliada a disponibilidade. Cumpre enfatizar que o setor público também foi afetado por problemas financeiros durante a pandemia, o que pode influenciar na adequada implementação das medidas de biossegurança. O SUS vem enfrentando desafios estruturais que foram agravados por medidas de austeridade fiscal e políticas adotadas pelo governo federal41. Esses fatores somados ao subfinanciamento do sistema de saúde público podem estar relacionados à menor resiliência que o Brasil teve para enfrentar a pandemia42. Num cenário pós-pandêmico, fortalecer o SUS e aprimorar sua gestão devem estar na agenda da saúde e de outros setores da sociedade42.

Este estudo aponta riscos não somente para os pacientes, mas também riscos ocupacionais iminentes, para cirurgiões-dentistas de ambos os setores, ao considerar que durante a primeira fase da pandemia de covid-19 não apresentavam acesso a normas de biossegurança para enfrentamento da pandemia, não suspenderam o atendimento eletivo, não apresentavam sempre disponíveis os EPI para minimizar os riscos à contaminação, ou ainda, não os utilizavam quando disponíveis. Os atendimentos analisados neste estudo eram, sobretudo, de caráter de urgência e os benefícios superavam os riscos. Não se deve desconsiderar que os cirurgiões-dentistas enfrentaram dilemas éticos e sofrimento43. Salienta-se que o processo de trabalho na condição pandêmica pode gerar dificuldades quanto à compreensão sobre atendimentos eletivos e priorização de urgências; acesso aos serviços; e implementação de protocolos de biossegurança43. Todos esses aspectos podem impactar os trabalhadores, resultando em angústia por cobranças da população, medo pela situação da pandemia, situação de exaustão no trabalho e descaso da gestão43. Nesse sentido, torna-se importante a maior divulgação e capacitação para o acesso e aplicação das normas de biossegurança e de suas atualizações, apoio e acompanhamento psicológico para profissionais de ambos os setores, e ainda, maior sensibilização e fiscalização da adequação para mitigar os riscos ocupacionais durante a realização do atendimento odontológico.

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  • Informação sobre trabalho acadêmico:
    Os autores informam que o trabalho foi baseado na tese de doutorado de Renata Cristina Soares Fornazari, intitulada “Análise das diretrizes de biossegurança frente à covid-19 e implementação no ensino e nos serviços odontológicos no Brasil”, apresentada em 2024 ao Programa de Pós-Graduação de Odontologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
  • Disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está no repositório SciELO Data, disponível em: https://data.scielo.org/dataset.xhtml?persistentId=doi%3A10.48331%2FSCIELODATA.KFHUZ7&version=DRAFT
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    Os autores informam que o estudo foi apresentado em evento científico: 38Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica, realizado em 2021.
  • Financiamento:
    Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Leila Posenato Garcia

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está no repositório SciELO Data, disponível em: https://data.scielo.org/dataset.xhtml?persistentId=doi%3A10.48331%2FSCIELODATA.KFHUZ7&version=DRAFT

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    18 Mar 2025
  • Revisado
    23 Jun 2025
  • Aceito
    24 Jun 2025
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