Resumo
Objetivo Mapear a prevalência de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) entre bombeiros e identificar os fatores psicossociais, organizacionais e sociodemográficos associados.
Métodos Revisão de escopo conforme a metodologia do Joanna Briggs Institute e as diretrizes PRISMA-ScR, com buscas em nove bases de dados (PubMed, VHL, Cochrane, Web of Science, Scopus, SciELO, PsycINFO, Embase e OpenBDTD) para estudos publicados de 2014 a 2024. Foram incluídos estudos quantitativos primários relatando a prevalência de TEPT entre bombeiros na ativa ou socorristas com atribuições de combate a incêndio.
Resultados Após a triagem, 43 estudos foram incluídos, relatando prevalência de TEPT de 15% a 30%. Os principais fatores associados incluíram exposição a eventos traumáticos, turnos irregulares, privação de sono e estressores organizacionais. O estigma emergiu como a principal barreira, e outros aspectos da vida dos bombeiros são impactados negativamente. A prevalência de TEPT foi maior no sexo feminino, frequentemente associada a experiências de assédio e discriminação. Características próprias da corporação foram relacionadas ao agravamento dos sintomas e à menor procura por ajuda.
Conclusões Os achados indicam elevada prevalência de TEPT entre bombeiros, ressaltando a necessidade de intervenções organizacionais, apoio da liderança, estratégias de redução do estigma e ampliação do acesso a serviços de saúde mental.
Palavras-chave:
Bombeiros; Saúde Mental; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Fatores Psicossociais; Saúde do Trabalhador; Revisão de Escopo
Abstract
Objective To map Post-Traumatic Stress Disorder (PTSD) prevalence among firefighters and to identify associated psychosocial, organizational, and sociodemographic factors.
Methods This scoping review was conducted according to the JBI methodology and the PRISMA-ScR guidelines, searches encompassed nine databases (PubMed, VHL, Cochrane, Web of Science, Scopus, SciELO, PsycINFO, Embase, and OpenBDTD) for studies published from 2014 to 2024. Primary quantitative studies reporting PTSD prevalence among active firefighters or first responders with firefighting duties were included.
Results After screening, 43 studies were included, reporting a PTSD prevalence ranging from 15% to 30%. Key associated factors included exposure to traumatic events, irregular shifts, sleep deprivation, and organizational stressors. Stigma emerged as the main barrier, and other aspects of firefighters’ lives are negatively impacted. Female firefighters showed a higher PTSD prevalence, often linked to experiences of harassment and discrimination. Specific organizational characteristics were related to worsening symptoms and lower help-seeking.
Conclusions The findings indicate a high PTSD prevalence among firefighters, underscoring the need for organizational interventions, leadership support, stigma reduction strategies, and expanded access to mental health services.
Keywords:
Firefighters; Mental Health; Post-Traumatic Stress Disorders; Psychosocial Factors; Occupational Health; Scoping Review
Introdução
Os bombeiros são rotineiramente expostos a situações perigosas e desafios operacionais extremos, o que pode afetar negativamente sua saúde física e mental. Como socorristas, eles são geralmente os primeiros profissionais a chegar a cenários caóticos, enfrentando, portanto, exposição contínua a experiências traumáticas, como operações de resgate de vítimas, combate a incêndios de grande escala e respostas a desastres naturais. Consequentemente, esses profissionais são particularmente vulneráveis ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)1.
O TEPT é uma condição que se desenvolve após a exposição a um evento traumático. É caracterizado por sintomas intrusivos como pesadelos, flashbacks, evitação de estímulos relacionados ao trauma, alterações negativas na cognição e no humor, e alterações marcantes no comportamento, além do aumento da excitação e reatividade2.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que catástrofes e desastres naturais recorrentes têm um impacto emocional profundo3, particularmente em bombeiros. Obuobi-Donkor et al.4 examinaram a prevalência e os determinantes de TEPT em militares e bombeiros, relatando uma prevalência de 57% nesse grupo ocupacional. Esse número é notavelmente superior à prevalência ao longo da vida de 3% a 6%5observada na população em geral. Tal disparidade destaca a relevância epidemiológica de TEPT nessa profissão e reforça sua caracterização como um problema importante de saúde ocupacional. Consequentemente, há uma necessidade urgente de desvendar os fatores específicos que contribuem para o TEPT nesse contexto profissional6.
Estudos identificam que o excesso de trabalho, o descanso insuficiente, o assédio no local de trabalho e a discriminação afetam negativamente a saúde mental dos bombeiros e estão associados a um aumento no TEPT e outros transtornos mentais7-12. Todos esses fatores afetam o bem-estar psicológico dos bombeiros11, revelando uma falta de apoio psicológico organizacional. O estigma em torno dos transtornos mentais nessa população cria barreiras para o gerenciamento eficaz de casos e dificuldades no acesso a cuidados de saúde mental6,13.
Embora a prevalência de TEPT seja maior entre bombeiros e outros profissionais de emergência do que na população em geral, a maioria das revisões se concentra em populações mistas ou aborda os fatores de risco isoladamente13, o que indica que a literatura ainda carece de uma síntese abrangente, que aborde todo o espectro de dimensões psicossociais e organizacionais ligadas à prevalência de TEPT em bombeiros, bem como a identificação e a categorização de fatores psicossociais, institucionais e sociodemográficos associados. Tais evidências são necessárias para desenvolver abordagens que facilitem o acesso desses profissionais ao tratamento de saúde mental.
Dado que estratégias eficazes de saúde mental são essenciais para mitigar a vulnerabilidade e os impactos na saúde enfrentados pelos bombeiros, esta revisão de escopo tem como objetivo mapear a prevalência de TEPT entre bombeiros e identificar os fatores psicossociais, organizacionais e sociodemográficos associados.
Métodos
Protocolo e registro
Esta revisão de escopo teve o seu protocolo registrado no Open Science Framework (OSF)14, em setembro de 2024 (DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/AJ3P4), e foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA-ScR15.
O estudo abordou as seguintes questões de pesquisa: Qual é a prevalência de TEPT entre bombeiros? Quais fatores psicossociais e organizacionais estão associados ao desenvolvimento de TEPT? Quais características sociodemográficas são relatadas entre os indivíduos afetados? Quais modelos de intervenção ou políticas de saúde foram descritos na literatura para prevenir TEPT e outros transtornos mentais em bombeiros?
Critérios de elegibilidade
A seleção dos estudos baseou-se em critérios de elegibilidade predefinidos e seguiu a estrutura mnemônica PCC (População, Conceito, Contexto). A população incluiu bombeiros e socorristas ativos envolvidos em operações de combate a incêndios. O conceito compreendeu o TEPT. O contexto abrangeu a prevalência de TEPT, fatores associados e relações de exposição-comorbidade em ambientes ocupacionais, com ênfase na exposição traumática, condições de trabalho e estruturas de apoio à saúde mental. Foram elegíveis estudos publicados em inglês, português, espanhol ou francês.
Fontes de informação
Uma busca preliminar em bases de dados internacionais (PROSPERO, PubMed, Joanna Briggs Institute, Epistemonikos, American Psychological Association, PsycInfo e Cochrane Library) não identificou revisões de escopo comparáveis a este estudo. Posteriormente, foram realizadas buscas sistemáticas nas bases de dados Embase (Ovid), PsycINFO (Ovid), PubMed (EBSCOhost), Biblioteca Virtual em Saúde (VHL/BVS – EBSCOhost), Complementary Medicine Database, MEDLINE (EBSCOhost), CINAHL (EBSCOhost), Scopus, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Web of Science (WOS). A literatura cinzenta também foi incluída por meio da Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR) e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). As buscas foram realizadas de 3 de maio a 28 de agosto de 2024, com estudos publicados de 2014 a 2024.
Estratégia de busca
A metodologia do Instituto Joanna Briggs (JBI) para revisões de escopo16 enfatiza as estratégias de busca abrangentes para mapear toda a extensão das evidências disponíveis, o que inclui a literatura cinzenta. Assim, foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) relevantes, bem como termos de texto livre relacionados ao TEPT, bombeiros ou socorristas e prevalência de TEPT, seguindo as abordagens descritas em revisões de escopo anteriores (por exemplo, Jones et al., 2020)17.
As buscas abrangeram todo o período disponível para cada base de dados, garantindo que as informações estivessem atualizadas em um campo de pesquisa em constante evolução. A estratégia de busca completa inclui descritores, bases de dados, filtros e operadores booleanos e está resumida na Tabela 1.
Seleção de fontes de evidência
O processo de busca e seleção seguiu três etapas: (1) identificação, (2) triagem de publicações elegíveis e (3) extração de dados. Todos os registros foram exportados para o Rayyan®18para futura análise (gestão e triagem). O fluxo de informações pelas fases de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão seguiu as diretrizes PRISMA-ScR. A triagem envolveu o gerenciamento de referências com ferramentas automatizadas, a remoção de duplicatas, a exclusão de registros inelegíveis durante a calibração e a análise dos estudos que atendiam aos critérios de elegibilidade. Os estudos foram excluídos se: (a) não incluíssem bombeiros da ativa ou socorristas em atividade com funções de combate a incêndios; (b) não avaliassem o TEPT ou utilizassem instrumentos nunca analisados; (c) não relatassem a prevalência ou os fatores associados; (d) utilizassem delineamentos qualitativos, formatos de revisão, relatos de caso ou outras evidências não primárias; (e) não tivessem o texto completo disponível; ou (f) avaliassem populações não relacionadas aos serviços de bombeiros. Esses critérios foram aplicados tanto na triagem de títulos/resumos quanto na etapa de elegibilidade do texto completo. Participaram do processo de seleção os pesquisadores (ASOA) e (SRL) de forma independente. Na primeira fase, os títulos e resumos foram analisados separadamente para identificar artigos que atendessem aos critérios de inclusão. Na segunda fase, os textos completos dos estudos selecionados foram lidos integralmente para confirmação da elegibilidade. As divergências foram resolvidas por consenso. O processo de seleção dos estudos é apresentado no fluxograma PRISMA-ScR (Figura 1).
Organização e extração de dados
A extração dos dados foi realizada de forma independente, pelos pesquisadores (ASOA) e (SRL), utilizando o software Rayyan®18 e, posteriormente, organizada no Microsoft Excel®19. Os artigos selecionados foram recuperados pelos revisores e inseridos no formulário de coleta de dados. Para garantir consistência e clareza, o formulário foi avaliado de forma independente pelos revisores.
Itens de dados e variáveis
As seguintes variáveis foram extraídas de cada fonte de evidência incluída: autor(es), ano de publicação, país do estudo, prevalência relatada de TEPT, tamanho da amostra, Nível de Avaliação da Qualidade (NAQ), desenho do estudo, objetivos e principais resultados. Adicionalmente, foram analisadas as características da população (por exemplo, sexo, tempo de serviço), os instrumentos utilizados para avaliação de TEPT e os fatores psicossociais e organizacionais associados ao TEPT. No entanto, esses dados não foram apresentados explicitamente na tabela. Para preservar a precisão metodológica, nenhuma suposição ou simplificação de dados foi aplicada durante a extração, visto que a revisão se concentrou na obtenção de dados quantitativos diretamente relacionados às questões da revisão, conforme relatado nos estudos originais.
Análise crítica de fontes individuais de evidência
A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada utilizando a Lista de Verificação de Avaliação Crítica do JBI para Estudos de Prevalência, expressa como um NAQ. De forma independente, os revisores (ASOA) e (SRL) avaliaram os estudos. Cada critério foi classificado como “Sim”, “Não” ou “Inconclusivo”, e o número total de respostas afirmativas foi utilizado para determinar o nível geral de qualidade.
Como parte do processo de avaliação, assumiu-se que os estudos incluídos relataram sintomas de TEPT. Quando dados relevantes estavam ausentes ou pouco claros, essas questões foram documentadas e resolvidas por consenso entre os revisores.
Os padrões temáticos relacionados a fatores psicossociais, organizacionais e sociodemográficos foram posteriormente integrados por meio de síntese narrativa descritiva e rotulados de acordo com os critérios de avaliação.
Estudos que atenderam a ≥70% dos critérios foram classificados como de alta qualidade, aqueles que atenderam a 50–69% como de qualidade moderada e aqueles que atenderam a <50% como de baixa qualidade. Estudos de baixa qualidade não foram excluídos, no entanto, seus resultados foram interpretados com cautela, considerando as especificidades e limitações de cada desenho de estudo. Os resultados foram sintetizados para destacar possíveis fragilidades e evitar interpretações excessivas das descobertas.
Detalhes sobre o tratamento e a sumarização dos dados são fornecidos na subseção Síntese de Dados. As variáveis quantitativas foram organizadas em tabelas estruturadas para facilitar a comparação das estimativas de prevalência e dos instrumentos de avaliação entre os estudos, preservando, ao mesmo tempo, a heterogeneidade metodológica inerente às revisões de escopo.
Síntese de dados
Variáveis relevantes foram extraídas e padronizadas. Os valores de prevalência, as características da amostra, os delineamentos dos estudos e os instrumentos de avaliação foram tabulados para permitir uma comparação estruturada entre os estudos. Para a síntese, os dados quantitativos foram resumidos descritivamente. Os fatores psicossociais, organizacionais e sociodemográficos foram identificados e agrupados em categorias temáticas utilizando uma abordagem indutiva conduzida pelos revisores.
Para demonstrar essa distribuição, foi criado um mapa-múndi que ilustra a distribuição geográfica dos estudos incluídos. Para fins descritivos e ilustrativos, o sombreamento verde indica os países e regiões onde os estudos foram identificados. Os painéis gráficos exibem o tamanho da amostra agregado por região e a contribuição proporcional de cada área para a amostra total. Os dados foram inicialmente organizados no Microsoft Excel® e posteriormente importados para um software de mapeamento geográfico (QGIS®, versão Changelog para QGIS 3.44. As variáveis mapeadas incluíam país e continente, enquanto os painéis complementares exibiam o tamanho da amostra agregado e a prevalência média relatada de TEPT por continente. A Figura 2 apresenta os dados por país e continente junto à média do tamanho das amostras e a média da prevalência TEPT, fornecendo um resumo visual alinhado com os objetivos da revisão.
Distribuição dos estudos incluídos na revisão de escopo, segundo desenho do estudo e localização geográfica
(A) a distribuição porcentual dos desenhos do estudo; (B) distribuição geográfica dos estudos por país e por continente em todo o mapa global; (C) distribuição proporcional dos desenhos dos estudos por continentes; e (D) média da distribuição do tamanho das amostras dos estudos por continente (círculo externo) e a média da prevalência de TEPT por continente (círculo interno).
Resultados
Seleção de fontes de evidência
A busca recuperou 981 registros em diferentes bases de dados, dos quais 459 duplicados foram removidos. Dos 522 registros restantes, os títulos e resumos foram analisados e 208 foram excluídos, principalmente porque a população de estudo não atendia aos critérios de inclusão devido a populações inadequadas ou à ausência de avaliação de TEPT. Dos 314 registros avaliados para elegibilidade de texto completo, 250 foram excluídos por motivos como desfechos inadequados, incompatibilidade com a população estudada, desenho de estudo inadequado, dados insuficientes, uso de instrumentos de TEPT não validados ou por estarem fora do escopo da revisão. Dessa forma, 64 artigos em texto completo foram examinados, dos quais 21 eram artigos de revisão e, portanto, foram excluídos. Em seguida, a análise concentrou-se nas características dos estudos restantes sobre TEPT, após o que cinco registros adicionais, identificados por meio de outras fontes como literatura cinzenta (BDTD), foram avaliados e excluídos por não atenderem aos critérios finais.
Um total de 43 estudos atendeu aos critérios de elegibilidade e foi incluído nesta revisão de escopo. A análise concentrou-se em estudos que abordaram o TEPT como desfecho primário e examinaram suas associações com comorbidades psiquiátricas, comportamentais e ocupacionais, incluindo depressão, distúrbios do sono, consumo de álcool e burnout entre bombeiros. A Figura 1 apresenta o fluxograma da revisão de escopo.
Características das fontes de evidência
Esta revisão incluiu apenas estudos quantitativos primários publicados em inglês, português, espanhol ou francês entre 2014 e 2024 que utilizaram instrumentos validados ou padronizados para avaliar o TEPT. Estudos que se concentraram em profissionais de emergência sem funções de combate a incêndios foram excluídos.
Estudos qualitativos, revisões, relatos de caso, dissertações, resumos de congressos, editoriais e outros materiais de evidência não primária foram excluídos, assim como estudos para os quais o texto completo não estava disponível. O processo seguiu a estrutura PRISMA ScR, conforme descrito na Tabela 1. O arquivo contendo a estratégia de busca foi depositado no repositório SciELO e está disponível publicamente no Google Drive®.
Análise crítica das fontes de evidência
Os 43 estudos incluídos examinaram a prevalência de TEPT entre bombeiros ou socorristas com funções de combate a incêndios. As principais características dos estudos, como tamanho da amostra, objetivos, instrumentos, país, classificação QAL, prevalência e fatores associados, estão resumidas na Tabela 2. Aspectos adicionais, incluindo fatores psicossociais e organizacionais relacionados ao TEPT em corpos de bombeiros, ferramentas de avaliação, prevalência associada e principais achados, foram analisados, mas não apresentados na tabela. A revisão categorizou os artigos selecionados por desenho do estudo em consonância com a classificação padrão utilizada na área de pesquisa epidemiológica em saúde.
Resultados das fontes individuais de evidência
O TEPT em bombeiros é um fenômeno complexo e multifatorial influenciado por fatores psicossociais21, ocupacionais22e ambientais23. Uma revisão dos estudos analisados mostra que os principais fatores desencadeantes foram associados à exposição a situações traumáticas21,22, desastres23,24, contextos pandêmicos25, condições psicossociais e organizacionais, bem como à dinâmica dos sintomas de estresse ao longo do tempo26,27. Muitos desses elementos estão indiretamente relacionados a fatores ambientais.
Além do diagnóstico, prevalência e tratamento, a literatura enfatiza a importância de medidas ocupacionais preventivas, que incluem: a identificação das causas subjacentes22,26, o gerenciamento de fatores de risco e comorbidades28,29, o combate ao estigma como barreira ao cuidado30,31e a mitigação da exposição a eventos traumáticos32-36. As comorbidades e os sinais associados ao TEPT mais frequentemente relatados são: depressão28, síndrome de burnout8, abuso de álcool37, distúrbios do sono45-47e ideação suicida48.
Os fatores psicossociais no local de trabalho incluíram discriminação e assédio49, estresse ocupacional50e exposição a incidentes traumáticos graves51. Por outro lado, os fatores atenuantes foram apoio social e resiliência individual51. Estratégias e habilidades de enfrentamento voltadas para a recuperação e o bem-estar também emergiram entre bombeiros com TEPT54-55, particularmente durante os estágios iniciais de sua carreira55.
Consequentemente, uma maior gravidade dos sintomas tem sido associada ao comprometimento funcional e ao aumento da exposição ao estigma nos serviços de bombeiros56.
As evidências também destacam a relevância de políticas organizacionais que abordem a exposição ao trauma e o apoio psicológico antes, durante e após o serviço ativo, bem como durante a aposentadoria23,35,37,39,49. Nesse contexto, estruturas de gestão no local de trabalho projetadas para fornecer apoio psicológico eficazes24,38,40,44,50 foram enfatizadas.
As análises de subgrupos visaram populações específicas, incluindo bombeiros do sexo masculino38,54ou do sexo feminino10, voluntários6, pessoal de combate a incêndios florestais21e equipes de busca e resgate urbano32. Além disso, algumas investigações cotejaram informações entre essas diferentes populações, como, por exemplo, um estudo sul-coreano que comparou bombeiros com a população em geral35, outro comparou pessoas expostas aos ataques ao World Trade Center13e um terceiro comparou bombeiros de diferentes países9.
Para isso, os estudos incluídos utilizaram diversos desenhos de pesquisa focando em desastres específicos33, sendo os ataques ao World Trade Center nos EUA26, o incêndio na boate Kiss no Brasil47, o atentado de Oklahoma City nos EUA29e a pandemia de covid-1925no mundo.
Diversas investigações não descreveram ações ou intervenções personalizadas adaptadas ao ambiente de trabalho ou às características individuais dos bombeiros, apesar das evidências de que tais fatores podem influenciar a satisfação com a vida11e a necessidade de cuidados de saúde mental56, seja voltado para prevenção ou voltado para a reabilitação12.
Além disso, alguns estudos mostraram contextos nacionais e abrangeram diversas regiões globais, incluindo América do Norte e do Sul, Europa, Ásia (Leste, Sudeste e Oriente Médio), Oceania e África.
Os Estados Unidos10,13,22,24-27,29-31,34,38-43,46,50,53,55 foram responsáveis pelo maior número de publicações, seguidos pela Coreia do Sul4,11,35,44,48,51, Brasil28,36,47e Turquia8,32. Outros países, como Alemanha5, Portugal21, Reino Unido9, Dinamarca33, Holanda54, Irã12, Tailândia45, Austrália37, China52e Etiópia23, também relataram resultados sobre suas populações de bombeiros. Um estudo envolveu colaboração inter-regional, especificamente entre os EUA e Israel49. A Figura 2 ilustra a distribuição global dos estudos incluídos, juntamente com resumos descritivos das outras variáveis.
Em resumo, metodologicamente, a maioria dos estudos empregou delineamentos transversais6,9-12,21-25,27-28,30-32,34-49,51,53,56 (76,74%), seguidos por estudos de coorte8,29,52,54(11,63%) e abordagens longitudinais13,33,55 (4,65%) específicas, enquanto outros representam proporções reduzidas. Geograficamente, as Américas (Norte e Sul) lideraram o volume de pesquisas sobre TEPT. Estudos multivariados se concentram na América do Norte e Europa. As maiores taxas de prevalência de TEPT ocorrem na Ásia Ocidental (28,90%) e Oceania (25,60%) e as maiores amostras estão concentradas na região da Ásia Oriental (13.090), América do Norte (1.215), Sudeste Asiático (1.114).
Avaliação da qualidade dos estudos incluídos
A avaliação crítica dos estudos incluídos foi realizada utilizando o NAQ, que considera a clareza dos objetivos, o tamanho da amostra, os instrumentos, os desfechos e a completude do relato metodológico. As variações no desenho do estudo também foram consideradas na interpretação das diferenças de prevalência. Com base nesses critérios, os estudos de alta qualidade foram caracterizados por objetivos claros, tamanhos de amostra adequados, instrumentos validados e desfechos bem definidos.
Os estudos de qualidade moderada basearam-se principalmente em instrumentos alternativos e medidas autorrelatadas; nesses estudos foram utilizados instrumentos padronizados, mas a força das evidências que sustentavam as conclusões era limitada. Os critérios de baixa qualidade envolviam uma quantidade substancial de informações faltantes em mais de três domínios metodológicos. No geral, a maioria dos estudos foi classificada como de alta qualidade e as classificações de qualidade da informação (QAL) são apresentadas na Tabela 2.
Em termos de distribuição de qualidade, dos 43 estudos incluídos, 36 foram classificados como de alta qualidade6,8,10-13,21-34,36-41,43-50,52-53,56e sete, como de qualidade moderada9,35,39,42,51,54,55. Nenhum estudo foi classificado como de baixa qualidade.
Em relação aos métodos de avaliação, a maioria dos estudos de alta qualidade empregou instrumentos padronizados de avaliação de TEPT, por exemplo, a lista de verificação de TEPT para as versões do DSM-5 (PCL-5) e examinou mais de um fator psicossocial potencialmente associado aos sintomas de TEPT. Dois estudos45,51não utilizaram instrumentos validados para avaliação de TEPT. Outros trabalhos basearam-se em critérios de diagnósticos relacionados às organizações6,9,12,24,27-28,40,43,46,48-49,51.
Com relação ao tamanho da amostra e à robustez analítica, entre os 31 estudos com tamanhos de amostra grandes (mais de 300 participantes)9-13,22-24,28,30-31,33,36-49,51-52,54-56, a maioria analisou os fatores associados de forma apropriada incluindo a depressão28,38,40, distúrbios do sono45,47, consumo de álcool39,42,43, apoio social49,52, exposição cumulativa21,37, ideação suicida22,44,46; estresse ocupacional12,40; ruminação35, resiliência33,53; e discriminação entre mulheres10.
Os principais instrumentos utilizados para avaliar o TEPT foram: a Lista de Verificação de TEPT (PCL-5) para as versões do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)13,18,21,23-28,31,34,38,39,41,44-46,48,52,54,56; a Lista de Verificação de Eventos de Vida para o DSM-522,42,43,49,53, que enfatiza a exposição a eventos traumáticos; a Escala de Impacto do Evento Revisada, que mede intrusão, evitação e hiperativação35,36,40; a Escala Diagnóstica Pós-Traumática, baseada nos critérios do DSM-IV6; a Escala de Sintomas de Estresse Pós-Traumático (com foco em pensamentos intrusivos e ativação fisiológica)9; e o Questionário de Triagem de Trauma10. De modo geral, a predominância de artigos de alta qualidade reforça a consistência das evidências sintetizadas nesta revisão.
Síntese dos resultados
Extração de dados
Foram sintetizados dados quantitativos sobre a prevalência de TEPT e os fatores psicossociais e organizacionais associados a ele entre bombeiros. A síntese dos dados está resumida na Tabela 2. O estigma emergiu como a principal barreira à busca de tratamento44, enquanto a discriminação de gênero emergiu como um fator de estresse psicossocial associado à prevalência de TEPT entre bombeiras8.
Prevalência, características de amplitude e associações
Pesquisas sobre o desenvolvimento de TEPT em bombeiros relataram estimativas de prevalência variáveis como uma manifestação central de sofrimento psicológico. Nos estudos incluídos, a prevalência de TEPT variou de 15% a 30% entre os bombeiros. Muitas investigações empregaram diferentes instrumentos para estabelecer associações e comorbidades utilizando escalas padronizadas para avaliar depressão28,38, ansiedade24,50, estresse32, qualidade do sono45,47, consumo de álcool44, dificuldades emocionais43e risco de suicídio22,31,46,48.
Além desses correlatos clínicos, outros estudos aplicaram instrumentos que abordam a falta de apoio social49,52, estratégias de enfrentamento35, traços de personalidade e resiliência25,33,53, fatores preditivos como somatização33e ruminação intrusiva51, bem como o impacto da cultura organizacional no desenvolvimento e manutenção de TEPT30 junto às várias dimensões psicossociais e ocupacionais adicionais9,11,12,29,32,33,37,51.
Em conjunto, as evidências indicam que o TEPT em bombeiros é multifatorial33, e associações surgem em múltiplos domínios, incluindo a exposição a fatores traumáticos11,12,13, a gravidade do transtorno9,34,37e a relação entre o TEPT e a saúde física11,12,50. No geral, as evidências sintetizadas indicam que o TEPT entre bombeiros é multifatorial33, impulsionado pela exposição cumulativa ao trauma, pela cultura organizacional e por estressores psicossociais.
Essas descobertas respondem às questões iniciais da pesquisa, mapeando as prevalências, identificando fatores preditivos e destacando lacunas de conhecimento para orientar intervenções futuras.
Discussão
Resumo das evidências
A prevalência de TEPT identificada nesta revisão está de acordo com a literatura anterior, que relata consistentemente uma prevalência maior em bombeiros do que na população em geral4,5. A exposição repetida a eventos traumáticos continua sendo o principal gatilho de TEPT entre bombeiros, conforme documentado em vários estudos11-13.
Evidenciou-se que o TEPT é associado à exposição a eventos traumáticos, e que o risco é aumentado na presença de fatores psicossociais e organizacionais21-22 incluindo a falta de apoio institucional, o estigma relacionado a transtornos mentais49e as barreiras de acesso ao tratamento50,56.
Em conjunto, as evidências indicam que o sofrimento psicológico entre bombeiros envolve múltiplos determinantes que interagem entre si, exigindo estratégias abrangentes de avaliação e intervenção, capazes de abordar simultaneamente as dimensões clínica, ocupacional e cultural.
Do ponto de vista organizacional, diversos fatores contribuem para o estresse psicológico persistente e restringem as oportunidades de recuperação, incluindo turnos irregulares, longas jornadas de trabalho, privação de sono e estruturas hierárquicas rígidas. Além disso, culturas ocupacionais que normalizam a resistência, desencorajam a busca por ajuda e estigmatizam problemas de saúde mental e podem exacerbar a cronicidade dos sintomas. Esse atraso no tratamento contribui para a prevalência observada.
Dada a complexidade dessas questões, faz-se necessária uma base analítica ampla que integre as perspectivas interculturais44, diversas realidades operacionais10e políticas públicas de saúde mental48,56. No entanto, muitos estudos não descreveram tais características sociodemográficas ou ocupacionais essenciais36, o que limitou a comparabilidade e dificultou o emprego de análises mais robustas10,13,55. Como consequência, a falta de padronização metodológica limita a síntese entre estudos e destaca riscos psicossociais persistentes57, restringindo a capacidade de descrever soluções práticas aplicáveis em diferentes contextos.
Essas descobertas reforçam a necessidade de instrumentos de avaliação padronizados10,13,43e de respostas organizacionais mais concretas aos fatores de risco psicossociais. Além da exposição a eventos traumáticos, cada incidente adiciona uma carga emocional cumulativa58aos indivíduos e seus colegas11,57, enquanto a exposição crônica pode resultar em alterações neurobiológicas59que prejudicam a memória e a regulação emocional60. Essa relação reforça a ligação entre a experiência ocupacional e o sofrimento psicológico.
Essas condições exigem intervenções de saúde mental individuais e coletivas61apoiadas por estruturas ocupacionais e cuidados interpessoais33. Vários estudos mencionaram estratégias críticas de gestão do estresse62, como supervisão de apoio entre pares63 e outras formas que trazem à tona a necessidade crítica de pesquisa nessas populações, como triagem, monitoramento e eficácia dos tratamentos64. No entanto, embora estratégias de enfrentamento65 dentro de redes de cuidado66 tenham sido discutidas, as evidências sobre sua eficácia ainda são limitadas67.
Os estudos incluídos relataram que os bombeiros vivenciam uma média de 26 eventos traumáticos ao longo de suas carreiras, com sofrimento psicológico descrito em relação à exposição ocupacional cumulativa e a incidentes envolvendo múltiplas vítimas21. Poucos estudos acompanharam os participantes por mais de dois anos, o que limita a compreensão das trajetórias dos sintomas, e isso sugere que a escassez de protocolos de descompressão emocional – particularmente após incidentes críticos – contribua para o agravamento dos resultados de saúde mental, restringindo a expressão emocional e a recuperação psicológica. Outros estudos relataram casos em que a gravidade do sofrimento psicológico piorou ao longo do tempo22-25.
As condições psicossociais e organizacionais, incluindo turnos exaustivos, privação de sono, horas de trabalho prolongadas e padrões de turnos irregulares21-22,43, intensificam ainda mais esses resultados.
Nesse contexto organizacional, culturas marcadas pela normatividade funcional e pela estigmatização dos transtornos mentais aumentam a vulnerabilidade ao desencorajar a busca por ajuda e reforçar o silêncio em torno do sofrimento psicológico30,33,50,68. Normas que valorizam a resistência33e o autocontrole emocional fomentam o medo de seres percebidos como fracos, profissionalmente inadequados ou incapazes, limitando, assim, o acesso aos cuidados de saúde mental50e piorando os resultados em saúde mental, ao mesmo tempo que reforçam ainda mais o estigma dos transtornos mentais68.
Além disso, o sofrimento silencioso é exacerbado por barreiras sistêmicas, como estereótipos de gênero. As bombeiras vivenciam estressores psicossociais adicionais, incluindo a discriminação de gênero, assédio moral e sexual.
Em um estudo, 37% das bombeiras relataram ter sofrido assédio organizacional no local de trabalho10. Essas condições contribuem para cargas de trabalho desiguais, barreiras estruturais à progressão na carreira, riscos à saúde mental e maior prevalência de depressão (42%)48e TEPT (35%)10em comparação com os bombeiros do sexo masculino, além de outros fatores que contribuem ainda mais para o sofrimento psicológico30.
Outra dimensão crítica envolve a privação de sono, que prejudica os domínios cognitivo, físico e psicológico43-44,69. O sono inadequado aumenta a vulnerabilidade a transtornos de humor44, reduz o desempenho cognitivo em cerca de 40%43e eleva a probabilidade de erros operacionais atribuíveis ao planejamento, julgamento e regulação emocional em 60% devido à disfunção executiva44e à diminuição da capacidade de tomada de decisão43. Após 18 a 24 horas de vigília, o desempenho pode assemelhar-se a uma concentração de álcool no sangue de 0,05 a 0,10%70.
Sem uma regulação adequada do sono, o processamento de memórias traumáticas permanece incompleto70, complicando o tratamento de TEPT quando a regulação afetiva e a função neurobiológica são interrompidas. Essa desregulação exacerba os sintomas de TEPT, episódios depressivos28e transtornos de regulação do humor44,69.
Finalmente, o consumo de álcool surge como uma dimensão adicional de vulnerabilidade entre esses profissionais41,18. O abuso de álcool afeta 28% dos bombeiros39-40 e, entre os veteranos com mais tempo de serviço (15–18 anos), a probabilidade de desenvolver alcoolismo triplica37.
Nesse contexto, normas culturais que enfatizam a contenção emocional e a autossuficiência moldam não apenas a vulnerabilidade, mas também os comportamentos de enfrentamento entre bombeiros. Em vez de buscar apoio, muitos profissionais adotam o silêncio como estratégia adaptativa71, uma resposta reforçada por hierarquias rígidas, apoio limitado da liderança e medo de julgamento30,50.
Esse padrão contribui para a normalização do sofrimento e enfraquece as respostas institucionais às necessidades de saúde mental. Como resultado, o apoio organizacional insuficiente, combinado com a exposição repetida a traumas e o consumo de álcool41, exacerba o TEPT e se associa a comorbidades como depressão28e distúrbios do sono43-44. Ao valorizar a resiliência33e a autocontenção, as culturas institucionais podem, inadvertidamente, promover percepções de invulnerabilidade71, perpetuando ciclos de sofrimento psicológico e atrasando o acesso ao tratamento.
Considerando o complexo panorama clínico, o manejo eficaz de TEPT requer intervenções multidimensionais capazes de abordar barreiras organizacionais, psicossociais e culturais30,50. Hierarquias rígidas e medo de represálias ou consequências na carreira limitam o acesso aos cuidados de saúde mental30,50,56, enquanto o estigma reforça a relutância em buscar tratamento72e incentiva o autossacrifício73.
O TEPT, portanto, reflete a interação de fatores organizacionais, psicossociais e culturais. Tratar problemas emocionais41como desafios individuais em vez de estruturais30,50perpetua a vulnerabilidade sistêmica e ressalta a urgência de mudanças institucionais nos serviços de bombeiros.
Portanto, reduzir a prevalência de TEPT e de outras condições psicológicas entre bombeiros exige abordar as variações nos sistemas de apoio organizacional, o acesso a serviços de saúde mental e a dinâmica de gênero dentro dos corpos de bombeiros.
Contextos caracterizados por liderança de apoio, suporte entre pares e intervenções estruturadas pós-incidente tendem a apresentar menor prevalência. Em contrapartida, ambientes marcados por estigma, assédio e sobrecarga de trabalho demonstram maior prevalência de TEPT.
Em primeiro lugar, a ausência de protocolos padronizados pós-incidente dificulta a intervenção oportuna. Falhas estruturais, institucionais e operacionais contribuem para o risco psicossocial persistente e a subnotificação6,21. Consequentemente, o TEPT pode se desenvolver como uma condição crônica em contextos de combate a incêndios.
Diretrizes internacionais da OMS e da OIT abordando estratégias organizacionais relacionadas à conscientização sobre saúde mental3,74, comportamento de busca de ajuda e acesso ao tratamento75foram identificadas entre as fontes referenciadas pelos estudos incluídos.
No entanto, a implementação de programas de agências internacionais continua sendo um desafio para as organizações. Estas diretrizes defendem reformas institucionais de cima para baixo para abordar barreiras hierárquicas e condições de trabalho, juntamente com iniciativas de baixo para cima para promover a conscientização sobre saúde mental e comportamentos de busca de ajuda.
Além da ação coletiva voltada para a identificação e o enfrentamento dos fatores de risco psicossociais33, também é necessário abordar as condições de trabalho que contribuem para o estresse, o sofrimento psicológico e a insatisfação74. Sem mudanças sistêmicas, os corpos de bombeiros correm o risco de perpetuar ciclos em que a prevenção ocorre somente após incidentes críticos. Portanto, a implementação de políticas eficazes para promover a saúde mental dos bombeiros deve ser priorizada61.
Limitações críticas
Esta revisão de escopo segue a estrutura metodológica proposta pelo JBI. No entanto, várias limitações metodológicas devem ser reconhecidas. Primeiro, a ausência de análises temporais impediu o estabelecimento de relações causais6,10-12,17,30-31,35-36,43-49,51-53, visto que apenas um número limitado de investigações longitudinais avaliou a progressão dos sintomas ao longo do tempo6,11,33,43,46,48,51,53,54. Além disso, muitos estudos se basearam em amostras pequenas ou não representativas13,48, frequentemente utilizando amostragem por conveniência31,49-50ou análises de evento único6,26. Algumas investigações careciam de critérios diagnósticos ou metodológicos objetivos22,46, e a subnotificação pode ter ocorrido devido ao receio de consequências profissionais ou institucionais55.
Em segundo lugar, foram identificadas múltiplas fontes de viés nos estudos incluídos. O viés de seleção relacionado à participação voluntária29-30,56e o viés de informação33podem ter contribuído para a subestimação do TEPT23,42. Também foi observado viés de entrevistador, particularmente em estudos que não incluem avaliações focadas em exposições traumáticas específicas38.
Notou-se um possível efeito do trabalhador saudável, visto que a maioria dos estudos avaliou apenas bombeiros da ativa, excluindo indivíduos em licença médica. Isso pode ter levado à subestimação dos casos reais de TEPT nessa população, como também aos possíveis casos de sofrimento psíquico.
Outras limitações metodológicas mapeadas incluem diferenciação insuficiente entre grupos expostos e não expostos13, inclusão de características comportamentais ou de personalidade8e exame limitado de padrões de sono e características de turno45.
Com relação ao escopo e à abrangência, poucos estudos realizaram comparações baseadas na população25,29,35, restringindo uma interpretação contextual mais ampla. É importante ressaltar que estratégias preventivas – como programas de treinamento, iniciativas de apoio emocional41e desenvolvimento de liderança – raramente foram abordadas nos estudos, o que evidencia uma lacuna crítica na literatura. Portanto, pesquisas futuras devem incorporar características ocupacionais12-13,26,29,39,44,45,47e garantir maior diversidade em relação a gênero, etnia, raça, orientação sexual e status socioeconômico24,31,42,49-51.
Por fim, as limitações desta revisão de escopo incluem a omissão de estudos não publicados, restrições de idioma e a limitação da inclusão da literatura cinzenta. A inclusão exclusiva de estudos quantitativos também pode ter resultado na perda de valiosas evidências qualitativas, essenciais para a compreensão das experiências subjetivas e das dimensões contextuais de TEPT entre bombeiros.
Principais conclusões
As evidências demonstram que o TEPT entre bombeiros representa uma preocupação ocupacional substancial. Comparada a outros grupos de alto risco, a prevalência de TEPT em bombeiros é consistentemente maior6,8,31,36,42,47e pode ser de duas a quatro vezes mais do que a observada na população em geral, ressaltando a magnitude da exposição ocupacional da profissão.
Para contextualizar essa descoberta, estudos epidemiológicos como o National Comorbidity Survey Replication de Kessler et al.5estimaram a prevalência de TEPT ao longo da vida na população geral. Quando contrastada com outros grupos de alto risco, essa disparidade torna-se particularmente pronunciada. Nesse sentido, Obuobi-Donkor et al.4relataram prevalência de TEPT entre bombeiros superior à documentada em militares18,31,36,42,47.
Em conjunto, esses resultados indicam que os bombeiros vivenciam uma carga excepcionalmente alta de TEPT. Esse padrão não reflete uma anomalia estatística. Em vez disso, ele representa o impacto cumulativo da exposição crônica a eventos traumáticos combinada com os estressores organizacionais e psicossociais identificados nesta revisão.
Um padrão multidimensional e interconectado de sofrimento psicológico foi evidente, abrangendo estresse crônico, comorbidades psiquiátricas e ambientes organizacionais adversos. Sem mudanças sistêmicas, as barreiras estruturais descritas provavelmente perpetuam o TEPT e as condições relacionadas, o que inclui processos neuro-cognitivos que interferem na regulação do sono e no funcionamento emocional, o que contribui, assim, para sintomas depressivos28e de ansiedade68. Essa lacuna parece estar intrinsecamente ligada às diferenças na cultura organizacional das corporações.
Diante dessas evidências, a alta prevalência de TEPT justifica a urgência da implementação de políticas e intervenções de saúde mental direcionadas aos bombeiros. A ausência de protocolos estruturados de saúde mental sugere que programas de bem-estar isolados ou genéricos são insuficientes para lidar com a complexidade dos estressores ocupacionais enfrentados pelos bombeiros. Assim, há a necessidade de ir além das iniciativas convencionais de bem-estar na cultura do serviço de bombeiros6,8,12,23,32,49.
Em vez disso, estratégias personalizadas devem abordar os determinantes específicos de TEPT, incluindo fatores organizacionais, psicossociais e ocupacionais. Apesar da gravidade dos sintomas, as barreiras culturais à busca de ajuda persistem.
Os resultados enfatizam a necessidade urgente de ferramentas de avaliação padronizadas, delineamentos de pesquisa longitudinal, reformas organizacionais e intervenções abrangentes em saúde mental alinhadas com iniciativas internacionais56. Nesse contexto, as diretrizes da OMS e da OIT recomendam estratégias focadas na redução do estigma, no apoio psicológico74e no acesso ao tratamento para o pessoal afetado. Essas medidas incluem o apoio a indivíduos em licença médica em seu retorno ao trabalho por meio de modelos de cuidado recíproco75, bem como a garantia da continuidade do apoio emocional desde o início da carreira até a aposentadoria.
Por fim, análises sistemáticas, comparando bombeiros com outras forças militares, podem esclarecer ainda mais as diferenças relacionadas aos contextos culturais e organizacionais que influenciam a prevalência de TEPT.
Conclusões
A prevalência de TEPT entre bombeiros variou de 15% a 30%. As evidências apontam que fatores psicossociais e organizacionais contribuem para o agravamento dos desfechos associados ao transtorno. A exposição cumulativa a eventos traumáticos, o trabalho em turnos irregulares, as longas jornadas de trabalho e a privação de sono favorecem a sobrecarga psicológica e o desenvolvimento da síndrome de burnout. As bombeiras apresentam maior risco de desenvolver TEPT do que os bombeiros, e um terço delas relata ter sofrido assédio sexual e discriminação no ambiente de trabalho.
Além da exposição individual, culturas institucionais que priorizam o desempenho e a prontidão operacional, juntamente com estruturas de gestão hierárquicas e o estigma persistente em torno dos transtornos mentais, emergiram como barreiras significativas que impedem bombeiros com sofrimento psicológico ou que vivem com TEPT de buscarem ajuda ou tratamento. Nesse contexto, abordagens focadas exclusivamente na responsabilidade individual podem reforçar o estigma76, o silêncio e o sofrimento psicológico30e transferir a responsabilidade aos determinantes organizacionais e institucionais.
De uma perspectiva organizacional, as iniciativas de apoio entre pares31,49,51e as práticas estruturadas de promoção da saúde mental desempenham um papel central nos departamentos de bombeiros6,34. No entanto, seu sucesso depende da integração em estratégias institucionais mais amplas, em vez da implementação isolada.
Assim, os resultados indicam a necessidade de expandir o acesso aos cuidados de saúde mental e ao apoio psicológico organizacional por meio de políticas institucionais formais8,29,40e programas estruturados de saúde mental50,56, indo além de intervenções individuais de gestão do estresse ou regulação emocional23,35. Também ressaltam a importância de políticas de saúde pública que abordem o TEPT por meio da prevenção73, diagnóstico77e tratamentos78, fundamentado em abordagens de gestão humanizadas65.
Nesse sentido, uma estrutura preventiva deve incorporar programas de saúde mental envolvendo serviços de saúde, agências de segurança pública e setores de defesa civil, uma vez que setores integrados são necessários para abordar os fatores de risco psicossociais e organizacionais aos quais bombeiros estão expostos76.
Em consonância com experiências e diretrizes internacionais, estratégias orientadas para a gestão, apoiadas por uma liderança capacitada e centrada no ser humano, podem reduzir o estigma ao reformular o TEPT como uma condição que pode ser prevenida, minimizada e tratada.
Por fim, pesquisas futuras devem priorizar estudos longitudinais e estudos de intervenção com seguimento para avaliar a eficácia de intervenções preventivas e terapêuticas. Estratégias de cuidado individualizadas, combinadas com melhorias nas condições de trabalho e nos ambientes organizacionais, são essenciais para promover o bem-estar de todos os profissionais envolvidos no cuidado da saúde mental de bombeiros afetados por TEPT.
Agradecimentos
Os autores agradecem a Diogenes Martins Munhoz por sua valiosa contribuição e pelo apoio, que foram essenciais para o desenvolvimento deste artigo.
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Disponibilidade dos dados:
Todos os dados extraídos e analisados nesta revisão de escopo estão disponíveis publicamente no repositório Open Science Framework (OSF). O conjunto de dados inclui os formulários padronizados de extração de dados e as variáveis agregadas utilizadas para a síntese descritiva e geração de figuras. Os dados podem ser acessados em https://doi.org/10.17605/osf.io/AJ3P4 Os dados encontram-se também disponibilizados em repositório em nuvem Google Drive®, como forma complementar de acesso e preservação (https://drive.google.com/drive/folders/1YQYPz28sKgwQS5ZYGyWDaGF9yGd7gib?usp=drive_link).
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para a elaboração do artigo.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Os autores declaram que o estudo foi subvencionado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES; processo nº 88887.988158/2024-00).
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Editora responsável:
Leila Posenato Garcia. https://orcid.org/0000-0003-1146-2641. Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO
Todos os dados extraídos e analisados nesta revisão de escopo estão disponíveis publicamente no repositório Open Science Framework (OSF). O conjunto de dados inclui os formulários padronizados de extração de dados e as variáveis agregadas utilizadas para a síntese descritiva e geração de figuras. Os dados podem ser acessados em https://doi.org/10.17605/osf.io/AJ3P4 Os dados encontram-se também disponibilizados em repositório em nuvem Google Drive®, como forma complementar de acesso e preservação (https://drive.google.com/drive/folders/1YQYPz28sKgwQS5ZYGyWDaGF9yGd7gib?usp=drive_link).




