Falar sobre o Prof. Dr. Laerte Idal Sznelwar é uma tarefa difícil para quem o conheceu e teve o privilégio de conviver com ele. O Prof. Laerte foi uma pessoa multifacetada e sempre surpreendia ao revelar atividades até então desconhecidas, mesmo para aqueles que o conheciam bem. Por isso, apresentar seu legado é, ao mesmo tempo, uma honra e um desafio, pois parte sempre nos escapará.
Nossa intenção é apresentar, sobretudo, sua trajetória profissional, sua importância intelectual e acadêmica no campo da Saúde e Trabalho, e traços de sua personalidade que permitam ao leitor conhecer melhor quem foi o Prof. Laerte.
Graduou-se em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 1980. Especializou-se em Medicina do Trabalho e, já nesse período, seu interesse voltava-se para compreender e atuar no mundo do trabalho e junto às pessoas nele envolvidas, participando de atividades no Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT), em sindicatos e em outras instituições da área.
Em 1984, ele concluiu seu mestrado na França, obtendo o Diplôme d’Études Approfondies (DEA), equivalente a um mestrado de pesquisa e pré-requisito para o doutorado. Em seguida, realizou o doutorado em Ergonomia, sob a orientação de Alain Wisner, no Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM), concluído em 1992. Wisner foi um dos fundadores da ergonomia da atividade, cujo objetivo era estabelecer um diálogo entre o ser humano, o trabalho e sua organização.
Ao longo de sua trajetória, desenvolveu inúmeras ações no campo da ergonomia da atividade, tornando-se uma referência nacional e, posteriormente, internacional. Contribuiu de modo decisivo para a implementação e o avanço desse campo no Brasil.
Durante o período em que realizou seu doutorado, conheceu Christophe Dejours, de quem se tornou grande amigo. Dejours introduziu o Prof. Laerte na Psicopatologia e na Psicodinâmica do Trabalho (PDT). Desde então, mantiveram uma relação rica e profícua, tanto no plano pessoal quanto no profissional.
Em 1992, foi contratado pelo Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) como professor assistente em Ergonomia. À medida que avançou em sua carreira acadêmica, impactou profundamente alunos da graduação e da pós-graduação, sendo inclusive paraninfo de diversas turmas. Organizou também congressos e jornadas tanto em Ergonomia quanto em Psicodinâmica do Trabalho.
Formou inúmeros especialistas em Ergonomia da Atividade, assim como mestres e doutores. Mais tarde, passou também a formar profissionais em Psicodinâmica do Trabalho, tanto em nível lato sensu quanto stricto sensu.
Em 1997, convidado pelo Prof. Seiji Uchida, realizou conjuntamente com ele sua primeira ação em PDT. Tratou-se de um trabalho demandado pela diretora de enfermagem do Hospital Universitário de Londrina, ligado à Universidade Estadual de Londrina (UEL). Essa ação foi voltada para dois grupos: auxiliares de enfermagem e enfermeiros(as). Foi um trabalho pioneiro no Brasil nesse campo e motivou o Prof. Laerte a prosseguir nessa área.
Laerte retornou à França para realizar seu pós-doutorado no Laboratoire de Psychologie du Travail et de l’Action do CNAM – Psychodynamique du Travail (de dezembro de 2010 a fevereiro de 2011). Nesse período, consolidou a articulação que vinha construindo em torno do conceito de trabalhar e dos impactos da organização do trabalho sobre a subjetividade1-3. Seu interesse se voltou, então, para o aprofundamento da relação subjetiva com o trabalho. Manteve-se associado ao Laboratoire de Psychopathologie et Psychodynamique du Travail, que, recentemente, com a aposentadoria do Prof. Dejours do CNAM, passou a se chamar Institut de Psychopathologie et Psychodynamique du Travail. Nesse âmbito, participou de seminários, colóquios, bancas de tese, entre outros.
Em seu desenvolvimento intelectual, o Prof. Laerte passou a articular seus conhecimentos médicos à lógica do trabalho, segundo a ergonomia da atividade e a PDT, que tem a psicanálise como um dos fundamentos da antropologia mobilizada por Dejours.
Entre 2001 e 2002, começou a trabalhar com os autores deste editorial, formando um trio que desenvolveu o campo da PDT por meio de uma série de projetos e ações. Com o tempo, o Prof. Laerte tornou-se um importante especialista em Psicopatologia e Psicodinâmica do Trabalho. Seus trabalhos com esses dois colegas foram significativos para a expansão dessa área no Brasil4,5.
O Prof. Laerte tinha uma característica pessoal marcante: era agregador. Sabia escutar, compreender e articular pessoas em torno de um projeto comum. Era sensível, inteligente e curioso, sempre pesquisando, estudando e abrindo novos campos de investigação. Além de articular pessoas, agregava conhecimentos, incorporando diferentes campos com os quais dialogava, sem perder a especificidade de cada um deles.
Ao mesmo tempo, continuava a desenvolver outros campos de interesse, associando-se a diversos profissionais especialistas, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Como fazia amizades e parcerias com muita facilidade, rapidamente estabelecia relações profissionais e intercâmbios internacionais6,7. Ao longo de sua trajetória, conquistou grande respeitabilidade no plano humano, como pesquisador e como especialista nas várias áreas em que atuava. Tudo isso era realizado de maneira natural e discreta. Nunca alardeou seus feitos. Era reservado e, ao mesmo tempo, marcante. Por onde passava, deixava sua marca de maneira profunda. Relatos daqueles que tiveram contato com ele – orientandos, pares e amigos – ressaltam esse modo espontâneo, despretensioso e sem afetação com que tratava a todos. Sabia valorizar, como poucos, o potencial e o valor de cada pessoa.
Sua inquietação intelectual o levou a estudar a teoria da complexidade, de Edgar Morin. O Prof. Laerte defendia a ideia de que a realidade é complexa e exige uma teoria capaz de dar conta dela no plano do pensamento; encontrou em Morin parte dessas respostas. A incorporação da teoria da complexidade levou-o a um novo patamar intelectual, impactando seu modo de conduzir projetos, ensino e pesquisa.
Um exemplo dessa capacidade de articulação entre diferentes saberes foi sua tese de livre-docência, Quando trabalhar é ser protagonista e o protagonismo do trabalho, recentemente publicada pela Editora Blucher8.
Após sua aposentadoria da docência na Poli-USP, criou o Instituto Trabalhar juntamente com seus parceiros, Dr. Seiji Uchida, Dr. Claudio Brunoro e o engenheiro Rafael Bortoleto. Esse espaço institucional permitiu ao Prof. Laerte dar continuidade ao seu trabalho de ensino, pesquisa e formação de novos especialistas, além de explorar novos interesses.
Nos últimos anos, decidiu realizar sua formação em psicanálise e filiou-se ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Além de representar uma alternativa profissional, essa formação expressava sua busca por aprofundar a compreensão da dimensão inconsciente do ser humano.
Nosso trio manteve-se unido até o dia em que Laerte nos deixou de forma inesperada. Juntos, realizamos algumas das intervenções e reflexões mais significativas na área da PDT no Brasil, divulgando o pensamento de Christophe Dejours, ministrando palestras, traduzindo livros, organizando colóquios e promovendo eventos. Nesse percurso, passamos a desenvolver o que ficou conhecido como Clínica do Trabalho. Essa abordagem tem como objetivo compreender a relação complexa entre a organização do trabalho, o trabalhar e a subjetividade. De um lado, busca entender o processo de adoecimento psíquico no trabalho; de outro, a construção da saúde no trabalho. Muitas ações pioneiras no Brasil foram desenvolvidas por nosso grupo.
Nós, Selma e Seiji, companheiros desta longa jornada com o Laerte, prestamos, com este texto, uma homenagem a essa pessoa tão querida e que nos faz tanta falta. Esperamos ter feito jus a ele, apesar da brevidade dessa escrita diante de um percurso tão rico e multifacetado.
Referências
-
1 Sznelwar LI, Lancman S, Uchida S. A subjetividade no trabalho em questão. Tempo Soc. 2011;23(1):11-30. https://doi.org/10.1590/S0103-20702011000100002
» https://doi.org/10.1590/S0103-20702011000100002 -
2 Uchida S, Sznelwar LI, Lancman S. Aspects épistémologiques et méthodologiques de la psychodynamique du travail. Travailler. 2011;25(1):29-44. https://doi.org/10.3917/trav.025.0029
» https://doi.org/10.3917/trav.025.0029 -
3 Uchida S, Sznelwar LI, Lancman S, Barros JO. O trabalhar em serviços de saúde mental: entre o sofrimento e a cooperação. Laboreal. 2011;7(1):1-23. https://doi.org/10.4000/laboreal.8098
» https://doi.org/10.4000/laboreal.8098 -
4 Lancman S, Barros JO, Uchida S, Sznelwar LI. La PDT comme contribution aux politiques publiques au Brésil: des réflexions sur la démarche et son insertion dans le contexte universitaire á São Paulo. Travailler. 2019;41(1):17-30. https://doi.org/10.3917/trav.041.0017
» https://doi.org/10.3917/trav.041.0017 -
5 Giannini R, Sznelwar LI, Uchida S, Lancman S. A cooperação como instrumento de enfrentamento do real: o caso dos magistrados do trabalho no Brasil. Laboreal. 2019;15(1):1-20. https://doi.org/10.4000/laboreal.1202
» https://doi.org/10.4000/laboreal.1202 - 6 Sznelwar LI, Uchida S, Lancman S. Psychodynamique du Travail. In: Zawieja P, Guarnieri F, organizadores. Dictionnaire des risques psychosociaux. Paris: Seuil; 2014. p. 595-600.
- 7 Sznelwar LI, Hubault F. Ergonomics in services? economy and societal challenges? a case study related to public services in Brazil. In: Proceedings of the 48th Annual Conference of the Association of Canadian Ergonomists / 12th International Symposium on Human Factors in Organizational Design and Management; 2017 jul 31 - ago 3; Banff, Canadá. Banff: Association of Canadian Ergonomists; 2017. p. 210-4.
- 8 Sznelwar LI. Quando trabalhar é ser protagonista e o protagonismo do trabalho. São Paulo: Blucher; 2015.
