RESUMO
Objetivo: Analisar os atendimentos de urgências oftalmológicas realizados em um hospital público do norte de Minas Gerais.
Métodos: Trata-se de estudo transversal analítico. Os dados foram obtidos de prontuário médico referente aos atendimentos de urgências oftalmológicas realizados em 2022 em um hospital público do norte de Minas Gerais.
Resultados: Foram avaliadas 314 consultas oftalmológicas, sendo que as lesões traumáticas foram as mais frequentes, sumarizando 58,6% dos casos. O corpo estranho foi a causa de lesão traumática mais frequente, e a limalha de ferro foi a causa mais recorrente, com 61,4% (n = 70; p < 0,001). Observou-se que 70,65% (n = 65; p < 0,001) não estavam usando Equipamentos de Proteção Individual.
Conclusão: Deve haver fiscalização mais efetiva nos ambientes laborais que demandam o uso de óculos para a proteção dos olhos.
Descritores:
Traumatismos oculares; Epidemiologia; Equipamentos de proteção individual
ABSTRACT
Objective: To analyze the ophthalmologic emergency care provided at a public hospital in Northern Minas Gerais.
Methods: This is an analytical cross-sectional study. The data were obtained from medical records regarding ophthalmologic emergency care provided in 2022 at a public hospital in Northern Minas Gerais.
Results: A total of 314 ophthalmologic consultations were evaluated, with traumatic injuries being the most frequent, accounting for 58.6% of cases. Foreign bodies were the most common cause of traumatic injury, and iron filings were the most recurrent cause, with 61.4% (n=70; p<0.001). It was observed that 70.65% (n=65; p<0.001) were not using personal protective equipment (PPE).
Conclusion: The data suggest that more effective oversight is needed in work environments that require the use of goggles for eye protection.
Keywords:
Eye injuries; Epidemiology; Personal protective equipment
INTRODUÇÃO
A demanda por atendimentos oftalmológicos é influenciada por uma gama variável de fatores, intrinsecamente ligados a questões físicas, biológicas, psíquicas, entre outras. Em nações em desenvolvimento, como o Brasil, a obtenção de dados abrangentes sobre a prevalência de distúrbios oculares em diferentes faixas etárias é notavelmente desafiadora.(1)
O conhecimento das urgências oftalmológicas mais prevalentes é importante para garantir um atendimento eficaz e apropriado. Embora essas urgências não estejam diretamente associadas à mortalidade, a falta de identificação e de tratamento adequados pode resultar em danos oculares significativos, incluindo a baixa visual permanente e, até mesmo, a cegueira. Esses desfechos adversos podem causar impactos substanciais nas esferas funcional, social, econômica e mental dos indivíduos afetados. Assim, percebe-se que a deficiência visual pode afetar consideravelmente a qualidade de vida, tanto a nível individual quanto coletivo.(1,2)
As urgências oftalmológicas podem ser categorizadas em traumáticas e não traumáticas. As urgências traumáticas são mais frequentes e podem resultar de acidentes mecânicos, exposição a substâncias químicas, lesões por radiação ou calor. Por outro lado, as urgências não traumáticas surgem sem causa identificável específica e podem envolver inflamação ou infecção em um ou mais tecidos oculares.(3)
É reconhecido que, geralmente, o primeiro atendimento às lesões oftalmológicas é conduzido por médicos não especializados na área, como clínicos gerais, o que pode dificultar a identificação do tipo de trauma e a escolha da conduta mais apropriada. Nesse sentido, a disseminação do conhecimento e o aprimoramento do treinamento dos profissionais de saúde que atuam em situações de urgência e emergência são fundamentais. Isso visa facilitar o reconhecimento precoce das urgências oftalmológicas e a prestação do cuidado inicial adequado enquanto o oftalmologista é contatado para intervenção especializada.(4)
O objetivo deste artigo foi analisar os atendimentos de urgências oftalmológicas realizados em um hospital público do norte de Minas Gerais.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal analítico realizado no Hospital Doutor Alpheu Gonçalves de Quadros, localizado na cidade de Montes Claros (MG), durante todo o ano de 2022. O Hospital Doutor Alpheu Gonçalves de Quadros possui gestão municipal, sendo vinculado exclusivamente ao Sistema Único de Saúde (SUS). Ademais, é considerado uma referência no atendimento de urgências oftalmológicas de toda a região norte de Minas Gerais.
O estudo obedeceu aos princípios éticos, sendo aprovado pelo número CAAE 81700224.2.0000.5146. Destaca-se que os pacientes foram atendidos por um único médico oftalmologista, que é plantonista do hospital. Os dados foram disponibilizados de forma anônima e exclusiva para a realização do presente estudo.
As informações coletadas foram transferidas para o Programa Microsoft Excel e classificadas de acordo com um roteiro anteriormente criado. O roteiro possui as seguintes informações: idade, sexo, olho afetado, motivo da consulta, tipo de corpo estranho, profissão e uso de óculos de proteção de segurança (Equipamento de Proteção Individual; EPI). Como critério de inclusão, foram selecionados os pacientes que possuíam queixas oftalmológicas com diagnóstico estabelecido e que foram atendidos durante o ano de 2022. Os pacientes com queixas inespecíficas e sem diagnóstico estabelecido foram excluídos do estudo. Ao todo, 314 pacientes foram incluídos e analisados neste estudo. Os dados foram tabulados utilizando-se o software IBM Statistical Package Social Sciences (SPSS), versão 22.0, tendo sido avaliada a distribuição de frequências relativas e absolutas. As diferenças estatísticas foram estimadas por meio do teste do qui-quadrado para as frequências esperadas. Foram aceitos como estatisticamente significantes as variáveis com valor de p ao nível de 5% (p < 0,05).
RESULTADOS
O presente estudo avaliou 314 consultas oftalmológicas do hospital, das quais 72,3% (n=227) dos pacientes eram do sexo masculino. A tabela 1 traz o perfil epidemiológico das urgências oftalmológicas.
Aproximadamente 22,3% (n = 70) dos pacientes apresentaram acometimento ocular bilateral. Em relação ao acometimento unilateral, 39,8% (n = 125) ocorreram no olho direito, ao passo que 37,9% (n = 119) no olho esquerdo.
Em relação às causas não traumáticas, a não infecciosa foi mais frequente, com 61,5% das ocorrências (n = 80) sendo as infecciosas responsáveis pelos outros 38,5% casos (n = 50). Quanto ao tipo de lesão, as traumáticas foram as mais frequentes, 58,6% (n = 184), se comparadas às não traumáticas, com 41,4% (n = 130). O corpo estranho foi a causa traumática mais comum no estudo, com 61,4% (n = 113), seguida de acometimento físico-químico, com 38,6% (n = 71). Além disso, o tipo de corpo estranho mais detectado foi a limalha de ferro, 61,4% (n = 70). Desse total, cerca de 70,7% (n = 65) ocorreram em situações que implicaram a necessidade do uso de EPIs, o qual foi utilizado em apenas 29,3% (n = 27) casos avaliados.
DISCUSSÃO
No âmbito deste estudo, destaca-se uma notável predominância do sexo masculino entre os pacientes que procuraram atendimento oftalmológico de urgência oftalmológica do Hospital Dr. Alpheu Gonçalves de Quadros, devido a queixas oftalmológicas apresentadas no pronto atendimento. Esse achado alinha-se com resultados encontrados em várias pesquisas conduzidas em território nacional, indicando semelhança nos padrões observados, sobretudo quando consideradas apenas as lesões traumáticas.(5–7) A disparidade de gênero pode ser atribuída à propensão dos homens se exporem mais às situações que envolvem riscos elevados de lesões oculares.(4,5,8)
Quanto ao tipo de lesão, a epidemiologia dos acometimentos oculares não é unânime na literatura, variando de acordo com a região estudada e apresentando estatísticas muito limítrofes entre os estudos, por influência da epidemiologia local, do sexo mais prevalente e de outros fatores envolvidos em cada região.(4,8–12) Assim, alguns estudos mostraram que as lesões não traumáticas, como as conjuntivites, apresentam maior prevalência seguida pelas lesões traumáticas.(5,8,10,11) Em contrapartida, outros corroboram os achados deste trabalho, apontando maior prevalência das últimas em relação às primeiras.(4,13)
Dentre as lesões não traumáticas, o acometimento infeccioso foi responsável por porcentagem baixa, comparando-se com outros estudos. Em algumas pesquisas, a conjuntivite chega a se destacar como o principal diagnóstico oftalmológico em Serviços de Urgência, embora essa análise seja prejudicada, em muitos trabalhos, pela falta de distinção entre as causas infecciosas e não infecciosas de conjuntivite.(5,8,10,11) Essa observação sugere a possibilidade de que tais demandas sejam absorvidas por outros Serviços de Urgência da região ou até mesmo pela Atenção Primária, o que é particularmente interessante, do ponto de vista da saúde pública.
Por outro lado, os acometimentos traumáticos ganharam notável destaque no contexto regional, apresentando uma distribuição que se alinha com outros estudos da literatura. Em consonância, nosso estudo revela que corpos estranhos são a causa mais frequente de acometimento ocular traumático.(4,10,13) Além disso, nossas investigações destacam a significativa prevalência de limalha de ferro entre os corpos estranhos identificados. Esse fato está possivelmente relacionado a acidentes ocupacionais, tendo em vista estudos que evidenciam uma alta incidência de traumas ocorridos em trabalhadores das atividades metalúrgica, mecânica e construção civil.(4,6,7,10)
Adicionalmente, o estudo conduziu uma análise sobre a utilização de EPIs, cuja obrigatoriedade é estabelecida pela norma vigente desde 1978, a NR-6 do Ministério do Trabalho.(10) Assim, compreende-se que a maioria dos pacientes que precisavam utilizar o dispositivo de proteção não o usou, evidenciando não somente a importância do uso do EPI como ferramenta e proteção no trabalho, mas também de uma fiscalização mais rigorosa das empresas, a fim de prevenir as lesões oculares, achado esse recorrente em outros estudos analisados.(6,10)
Assim, ressalta-se a importância de compreender o perfil epidemiológico para melhorar os Serviços de Urgência e Emergência, orientar as políticas públicas e reduzir os custos diretos e indiretos relacionados às lesões oftalmológicas. De acordo com dados estatísticos e estimativas baseadas no Produto Interno Bruto (PIB), os custos com acidentes de trabalho no Brasil têm aumentado. Tais custos incluem tanto as despesas médicas, como tratamento e reabilitação, quanto as não médicas, como transporte, indenizações e compensações salariais, refletindo a baixa eficácia das políticas de prevenção de acidentes.(14,15)
No entanto, é importante reconhecer as limitações inerentes à metodologia deste estudo, especialmente, ao fato de a coleta dos dados ter sido feita somente por um médico oftalmologista examinador, plantonista do hospital. Nesse sentido, sugerimos a realização de mais estudos prospectivos com análise bivariada de dados obtidos por meio de formulários padronizados, visando a uma melhor identificação de associações estatísticas entre as variáveis analisadas em dados não agregados.
CONCLUSÃO
O presente estudo traz um perfil epidemiológico das urgências oftalmológicas atendidas em um hospital municipal referência na região do norte de Minas Gerais. O sexo masculino e as lesões traumáticas foram mais prevalentes, demonstrando que os homens estão mais suscetíveis a esse tipo de acidente. Dentre os traumas, o corpo estranho (limalha de ferro) foi a causa mais comum, mostrando uma ligação importante com as atividades laborais e a falta de utilização de equipamentos de proteção no trabalho e instrução adequada aos trabalhadores a respeito dos riscos de acidentes. Estes dados da pesquisa adquirem, também, uma relevância científica para o meio médico, já que colaboram para a elaboração de um serviço oftalmológico mais adequado às reais necessidades da instituição, permitindo otimizar o atendimento prestado. Ademais, ressalta-se a aplicabilidade dos resultados encontrados no âmbito da saúde pública e do trabalhador, visto que se torna possível embasar e formular ações mais direcionadas à prevenção e ao melhor manejo dos traumas oculares, essencialmente àqueles identificados neste estudo. Por fim, cumpre ressaltar as limitações inerentes a um estudo transversal analítico.
REFERÊNCIAS
- 1 Vargas MA, Veronesi ML. Perfil da demanda em um serviço de Oftalmologia de atenção primária. Rev Bras Oftalmol. 2010;69(2):77–83.
- 2 Rocha SR, Castro R. AAvaliação da qualidade de vida relacionada à saúde em um programa de reabilitação para pessoas com deficiência visual. Rev Bras Oftalmol. 2023;82;e0013.
- 3 Cardoso Filho AP, Costa LC, Rocha EM. Urgências oftalmológicas: o que todo médico precisa saber. Medicina (Ribeirão Preto). 2022; 55(Supl 2):e174151.
- 4 Rassi AJ, Nascimento JL, Duarte LC, Freitas LP, Di Filice LC, Ferreira MA, et al. Epidemiologia das urgências e emergências oftalmológicas em um Hospital Universitário Terciário. Rev Bras Oftalmol. 2020;79(4):227-30.
- 5 Almeida HG, Fernandes VB, Lucena AC, Kara-Junior N. Evaluation of ophthalmic emergencies in a public reference hospital in Pernambuco. Rev Bras Oftalmol. 2016;75(1):18–20.
- 6 Gerente VM, Melo GB, Regatieri CV, Alvarenga LS, Martins EN. Trauma ocupacional por corpo estranho corneano superficial. Arq Bras Oftalmol. 2008;71(2):149–52.
- 7 Matos AG, Cavalcante RG, Figueiredo TF, Chaves MF, Bandeira MF, de-Souza FA. Profile of occupational eye injury at an ophthalmologic emergency department. Rev Bras Med Trab. 2017;15(4):329–32.
- 8 Araújo TA, Melo CR, Mendes LP, Higino TM, Rocha CS, Sabino LP, et al. Analysis of ocular emergencies in a reference eye center in Brazil. Arq Bras Oftalmol. 2021;85(4):377–81.
- 9 Campos GM, Brum IV, Brum IV. Perfil epidemiológico dos atendimentos em um serviço público de urgência oftalmológica. Rev Bras Oftalmol. 2019;78(5):297-9.
- 10 Espinosa PG, Knob HH, Marchetti MP, Stock RA, Rieger A, Bonamigo EL, et al. Atendimento às urgências oftalmológicas em unidade de pronto atendimento. Arq Catarin Med. 2020;49(1):78–90.
- 11 Pereira FB, Frasson M, D’Almeida AG, Faria AA, Francis J, Medeiros JN. Demand profile and morbidity among patients treated at service of ophthalmic urgencies in a university hospital. Rev Bras Oftalmol. 2011;70(4):238–42.
- 12 Sen E, Celik S, Inanc M, Elgin U, Ozyurt B, Yılmazbas P. Seasonal distribution of ocular conditions treated at the emergency room: a 1-year prospective study. Arq Bras Oftalmol. 2018;81(2):116–9.
- 13 Cecchetti DF, Cecchetti SA, Nardy AC, Carvalho SC, Rodrigues ML, Rocha EM. Perfil clínico e epidemiológico das urgências oculares em pronto-socorro de referência. Arq Bras Oftalmol. 2008;71(5):635–8.
- 14 Souza HD, Padilha BV, Marra AL, Schmoeller RN, Gemballa L, Grumann A. Perfil epidemiológico de uma emergência oftalmológica de referência no Sul do Brasil. Rev Bras Oftalmol. 2024;83:e0049.
- 15 Maurício FD, Albuquerque JJ, Medeiros RL, Calazans PA, Coelho RL. Perfil epidemiológico das urgências e emergências oftalmológicas do sertão paraibano. Rev Interdiscipl Saúde. 2019;6(5):172–84.
