Open-access Qualidade de vida e distúrbios osteomusculares crônicos: um estudo multifatorial dos impactos na saúde do trabalhador de escritório

RESUMO

Introdução:  Atuantes em ambiente de escritório têm maiores riscos de distúrbios osteomusculares devido à postura sentada prolongada e movimentos repetitivos, impactando na qualidade de vida e gerando custos para empresa, sistemas de saúde e previdenciário.

Objetivos:  Investigar a presença de distúrbios osteomusculares crônicos e a correlação com a qualidade de vida em servidores de uma instituição federal de ensino superior.

Métodos:  Estudo descritivo baseado em banco de dados de pesquisas aprovadas pelo comitê de ética. Participaram 256 trabalhadores, que trabalhavam 20 horas semanais em escritório e que tinham os dados sociodemográficos de distúrbios osteomusculares crônicos (Questionário Nórdico de Distúrbios Osteomusculares) e de qualidade de vida (World Health Organization Quality of Life). A comparação dos escores de qualidade de vida foi realizada pelo teste de correlação de Pearson, com nível de significância de 95% (p < 0,05).

Resultados:  A mediana de idade foi 39 anos, maioria feminina (66,3%), casada (62,3%) e com ensino superior completo (98%). Do total, 186 (72,6%) referiram distúrbios osteomusculares crônicos, principalmente nas regiões do pescoço e parte inferior das costas. Os distúrbios no punho-mão se relacionaram com pior escore de qualidade de vida global e nos domínios físico e ambiental; e os da região lombar, com pior no domínio social.

Conclusões:  Apesar de jovens adultos, a maioria estava adoecida em múltiplas regiões; entretanto, a correlação dos distúrbios com pior qualidade de vida global ocorreu somente com sintomas no punho-mão. Sugere-se a adoção de medidas de educação em saúde para mitigar e prevenir o adoecimento.

Palavras-chave
dor crônica; ergonomia; qualidade de vida; saúde ocupacional.

ABSTRACT

Introduction:  Office workers are at higher risk of musculoskeletal disorders due to prolonged sitting and repetitive movements, impacting their quality of life and generating costs for employers, healthcare systems, and social security.

Objectives:  To investigate the presence of chronic musculoskeletal disorders and their correlation with quality of life among employees at a federal higher education institution.

Methods:  A descriptive study based on an approved ethics committee database. Participants included 256 workers who worked 20 hours/week in office settings and provided sociodemographic data, chronic musculoskeletal disorder assessments (Nordic Musculoskeletal Questionnaire), and quality of life evaluations (WHOQOL-Bref). Quality of life scores were compared using Pearson’s correlation test, with a significance level of 95% (p < 0.05).

Results:  The median age was 39 years, with a female majority (66.3%), married (62.3%), and holding a college degree (98%). Of the total, 186 (72.6%) reported chronic musculoskeletal disorders, primarily in the neck and lower back. Wrist-hand disorders were associated with worse overall quality of life scores, as well as physical and environmental domains, while lower back disorders correlated with poorer social domain scores.

Conclusions:  Despite being young adults, most participants had disorders in multiple body regions; however, only wrist-hand symptoms were significantly correlated with worse overall quality of life. The adoption of health education measures is recommended to mitigate and prevent these conditions.

Keywords
chronic pain; ergonomics; quality of life; occupational health.

INTRODUÇÃO

A dor é um problema significativo de saúde pública subdiagnosticado e subtratado1. No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, isso se dá pela escassa conscientização sobre a importância de uma avaliação correta, pois afeta cerca de 37% dos brasileiros2. Além disso, o Estudo Epidemiológico da Dor (Epidor), feito pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), revelou que mais de 45% das pessoas com dor nas costas por mais de 3 meses não buscam tratamento adequado2.

O ambiente de trabalho em escritório pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios osteomusculares (DMEs) crônicos1. A postura inadequada, associada a longos períodos em posição sentada, atividades repetitivas e pouca mobilidade agravam o quadro de lesões e dores3,4. Ademais, fatores como normas rígidas, hierarquia inflexível, comunicação ineficiente e centralização do poder podem aumentar os riscos de sobrecarga física e mental5.

Em 2019, a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho registrou cerca de 39 mil afastamentos laborais devido a distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) ou por lesões por esforço repetitivo (LER), os quais impactam negativamente a vida dos trabalhadores6 e também afetam as empresas e aumentam as demandas dos setores de saúde e previdência. Essas patologias afetam músculos, tendões, articulações, nervos e ligamentos e se manifestam por sinais e sintomas, como dor e limitação do movimento ou da força muscular7. A dor é o sintoma mais prevalente em casos de DORT ou LER.

Em relação à dor, ela pode ser aguda ou crônica. O quadro agudo é uma resposta fisiológica a estímulos adversos de curta duração, enquanto o crônico persiste além do período normal de cura e é considerado uma doença8. Alguns autores7,9 apontam que as dores crônicas afetam a qualidade de vida (QV) e colaboram para o desenvolvimento de distúrbios do sono, ansiedade e depressão4. A QV é entendida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como resultado da percepção de um indivíduo sobre sua posição na vida, considerando o contexto cultural e abrangendo aspectos físicos, mentais, sociais e ambientais10.

A partir do entendimento de que aspectos físicos impactam a QV, a hipótese deste estudo é de que a dor pode prejudicar a autonomia do indivíduo pela redução das capacidades física e funcional. Assim, esta pesquisa visou investigar a presença de DMEs crônicos e a correlação com a QV em servidores públicos de uma instituição federal de ensino superior.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa descritiva e transversal com dados secundários agregados e anônimos, coletados entre 2018 e 2024, fornecidos pelo Grupo de Estudos sobre a Saúde do Trabalhador (GEST), que podem ser solicitados por meio do link:https://www.instagram.com/gpe_saude coletiva?igsh=MWoxajR1NGc5OHY3Yg==.

A amostra era composta por servidores públicos de uma instituição federal de ensino superior que realizavam as atividades em ambiente de escritório por pelo menos 20 horas semanais. Considera-se que as atividades laborais dos servidores públicos são, majoritariamente, realizadas com tecnologias que envolvem o uso de computadores e seus acessórios. Os fatores de inclusão foram os participantes serem maiores de 18 anos e atuarem em ambiente de escritório por no mínimo 20 horas semanais; e os fatores de exclusão foram estarem gestantes. Os dados avaliados correspondem às variáveis idade, sexo, escolaridade, estado civil, tempo sentado, tempo de tela (incluindo computadores, celulares, televisão e qualquer outro tipo), presença de DMEs crônicos e os escores de QV. A natureza desse agregado dispensou a tramitação em comitê de ética em pesquisa com seres humanos por se enquadrar no Artigo 1º, Parágrafo único, incisos II e V da Resolução 510 de 07/04/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

Os dados do banco GEST sobre QV foi construído a partir do World Health Organization Quality of Life Questionnaire, versão reduzida (WHOQOL-Bref). Esse instrumento, desenvolvido pela OMS e validado para o português por Fleck (2000)11, avalia a QV de pessoas acima de 18 anos, considerando as duas últimas semanas. É composto por 26 questões que abordam quatro domínios: físico, psicológico, meio ambiente e relações sociais. Cada questão é respondida em uma escala Likert de cinco pontos, e os resultados de cada domínio são graduados de 0 a 100, possibilitando a análise individual de cada dimensão, sendo que 0 corresponde a uma pior QV e, 100, a uma melhor.

Os dados sobre a presença de DMEs crônicos foram obtidos por meio da questão do Questionário Nórdico de Distúrbios Osteomusculares, que avalia a presença de sintomas em nove regiões corporais (pescoço, ombros, parte superior das costas, cotovelos, punho/mãos, parte inferior das costas, quadril/coxa, joelhos, tornozelos/pé), ao longo do último ano. As respostas são dicotômicas (sim/não), e esse instrumento foi validado e traduzido para o português por Barros & Alexandre9.

O conjunto das idades das pessoas e do tempo sentado e de tela foram descritos segundo medidas estatísticas de tendência central e amplitude. As variáveis sociodemográficas foram expostas em tabulação simples, segundo suas respectivas categorias constantes no banco de dados. O número de regiões corporais afetadas por sintomas foi tratado como variável categórica, em que cada quantitativo específico foi tomado como uma categoria e apresentado na forma de tabulação simples. As regiões afetadas foram apresentadas em forma de diagrama corporal demonstrativo da região e da proporção com que cada região foi declarada como afetada no conjunto dos dados agregados.

Os escores de QV foram categorizados em geral e por domínios (físico, psíquico, social e ambiental) e demonstrados mediante tabulação simples. Em seguida, foi calculada a correlação de Pearson entre cada domínio da QV com cada região afetada e com o quantitativo de regiões afetadas. Foi considerada significativa a correlação cuja probabilidade de não ser verdadeira era menor que 5% (valor-p < 0,05).

Os dados foram processados nos aplicativos SPSS, versão 20.0 (IBM Corp., Armonk, N.Y., USA), jamovi (https://www.jamovi.org/) e Epi Info (https://www.cdc.gov/epiinfo/por/pt_index.html) e na calculadora estatística on-line Statiscs Kingdom, acessível em: https://www.statskingdom.com/121proportion_normal2.html.

RESULTADOS

O banco de dados era um consolidado relativo a uma casuística de 256 pessoas. A idade variou de 25 a 71 anos, com mediana de 39 anos e maioria (57,54%) até essa mediana. As pessoas permaneciam, em média, 44 e 47 horas semanais em frente às telas e sentadas, respectivamente. A maioria era mulher (66,3%), casada (62,3%) e com ensino superior completo (98%). A prevalência da presença de sintoma osteomuscular nas mulheres foi 18% maior do que nos homens (78% nelas e 66% neles; p = 0,041).

Dos 256 participantes, 186 (72,6%) referiram algum sintoma osteomuscular crônico. Desses, 117 (72,6%) tinham até três regiões corporais sintomáticas (Tabela 1).

Tabela 1
Número de pessoas afetadas por quantidade de regiões corporais cronicamente sintomáticas

As únicas variáveis que se correlacionaram positivamente com a presença de DMEs crônicos foram os tempos semanais frente a uma tela e sentado, além de ser do sexo feminino (p < 0,05). As duas primeiras também se correlacionaram positivamente uma com a outra, mas sexo feminino foi um preditor independente para ocorrência de transtorno osteomuscular (p = 0,026).

As regiões mais acometidas por alterações crônicas foram as regiões cervical e lombar (Figura 1).

Figura 1
Percentual de pessoas acometidas por distúrbio crônico, por região afetada.

No que tange à QV, o maior prejuízo esteve nas esferas psicológica e física (Tabela 2).

Tabela 2
Qualidade de vida: escore geral e por domínio

Quanto à QV global e por domínios, encontrou-se que, quanto maior o número de regiões afetadas, pior a QV global. Embora a quantidade de regiões afetadas não tenha tido correlação estatisticamente significativa com a QV no domínio psicológico, correlacionou-se inversamente aos demais domínios. Ao mesmo tempo, todos os domínios de QV tiveram relação direta com a QV global, isto é, a pior QV em qualquer domínio correlacionou-se com pior QV global (Tabela 3).

Tabela 3
Correlação entre qualidade de vida (QV) global e por domínios, entre si e com quantidade de regiões cronicamente afetadas

Ao analisar estatisticamente a região afetada com a QV, os sintomas crônicos no punho-mão foram os que mais estiveram relacionados com pior QV global e nos domínios físico e ambiental. A alteração crônica lombar foi a que mais se relacionou com pior QV no domínio social (Tabela 4).

Tabela 4
Correlação de Pearson entre a região afetada cronicamente e a qualidade de vida (QV) global e por domínio

DISCUSSÃO

É evidente a existência de uma população de servidores adoecida e com múltiplas regiões afetadas por DME crônico12. A relevância desse adoecimento é explicitada pela numerosa quantidade de estudos já publicados sobre a temática. A exemplo disso, observa-se, na ferramenta de busca PubMed, entre 2019 e 2024, um total de 481 artigos considerando os descritores “Quality of Life”, “Musculoskeletal Disorders” e “Workers”, ou seja, “Qualidade de Vida”, “Distúrbios Musculoesqueléticos” e “Trabalhadores”, e 45 estudos com os descritores “Quality of Life”, “Musculoskeletal Disorders” e “Public Servants”, ou seja, “Qualidade de Vida”, “Distúrbios Musculoesqueléticos” e “Servidores Públicos”. Entre esses, destaca-se um estudo de 2021 associado à revista Science, no qual constatou-se alta prevalência de DME, com 74% dos trabalhadores relatando pelo menos um sintoma, destacando as regiões lombar, cervical e punhos, sendo que as mulheres possuem maior risco de desenvolvimento desses distúrbios (cerca de 1,5 vez maior)13, dados que corroboram os achados deste estudo. Outro fator de relevância para os estudos são os dados da Fundacentro6, que retratam o afastamento de cerca de 39 mil trabalhadores brasileiros por DME.

Dois fatores sociodemográficos apontados pela literatura como relacionados ao panorama de adoecimento encontrado nessa população são a idade e o sexo.

Estudos12,13 corroboram que a idade é um fator associado às afecções do aparelho locomotor, especialmente na faixa dos 45 anos. Apesar disso, a população aqui analisada apresenta um adoecimento precoce (antes dos 40 anos).

Um estudo escandinavo com trabalhadores de ambiente de escritório relacionou o adoecimento precoce ao sedentarismo contínuo (> 90 minutos sem pausas), postura inadequada e tempo de tela superior à 6 horas por dia14. O presente estudo corrobora o tempo frente a uma tela e acrescenta o tempo sentado como fator relacionado ao DME.

Quanto ao sexo, o presente estudo o confirma o feminino como preditor do desenvolvimento dos DME. Entre os motivos apontados na literatura, estão a múltipla jornada15 e a menopausa16,17. Dados brasileiros indicam que a menopausa ocorre entre os 45 e 55 anos16, fase marcada por declínio da força muscular e alterações hormonais responsáveis pelas altas taxas de desconforto musculoesquelético17. Diante disso, questiona-se quais os motivos de essas mulheres antes dessa faixa etária apresentarem tal adoecimento, além dos associados ao tempo de tela e sentado e ao sedentarismo.

Quanto às questões comportamentais, sugere-se que o elevado tempo de tela e sentado são fatores de risco para a população estudada tanto no desenvolvimento dos distúrbios quanto de doenças mentais18. O tempo sentado, atividades repetitivas, pouco deslocamento, a adoção de postura inapropriada, a ausência de pausas ao longo da jornada e a sobrecarga da coluna pela postura estática promovem o desenvolvimento de lesões e dores19, reduzindo o gasto energético, além de proporcionar curvatura da coluna vertebral, que prejudica os sistemas digestório e respiratório, sobrecarrega os músculos dorsais20 e, quando associada ao sedentarismo, aumenta os riscos para o desenvolvimento de insuficiência venosa21. Os DMEs, além da utilização excessiva do sistema musculoesquelético e de sua inadequada recuperação20, possuem outras origens que resultam do desequilíbrio entre as exigências das tarefas realizadas e as capacidades funcionais individuais.

Considera-se relevante que outras questões, não abordadas neste estudo, sejam observadas no que se refere a ergonomia: física (ajusta posturas e movimentos), cognitiva (otimiza processos mentais e a interação humano-tecnologia) e organizacional (foca o bem-estar e a eficiência no ambiente de trabalho). Isso porque o ambiente de escritório, com ergonomia não estruturada, transforma-se em um espaço com condições ergonômicas inadequadas, de acordo com a literatura17,22, impactando o aparecimento dos sintomas relativos a DME.

Salienta-se, também, que o grupo analisado, enquanto servidores públicos, realiza atividades relacionadas às burocracias internas de uma instituição pública de ensino superior, como tramitação de documentos, registros de atas, participação de conselhos, processos licitatórios entre outras, as quais exigem o uso frequente de ambiente computacional. Ciente disso, os processos licitatórios para a aquisição de materiais computacionais, mesas e cadeiras deveriam prever, na descrição dos produtos, a possibilidade de ajustes, ao menos de profundidade e altura, de forma a ofertar um melhor posicionamento corporal ao longo da jornada.

Emrelação aoadoecimento emfunção da quantidade de regiões corporais afetadas, nessa população, predominam multirregiões afetadas, tal como na literatura, com uma média de quatro regiões23. Tal como em outro estudo23, observou-se a média de três regiões afetadas, e as mais atingidas foram lombar, cervical e punho-mão. Esses dados se assemelham também a pesquisas realizadas com trabalhadores blue collar, da área de saúde24.

Os distúrbios acometeram, principalmente, a parte superior do corpo, tal como a literatura10,11,23. Seja na parte inferior ou superior do tronco (incluindo-se os respectivos membros), esses distúrbios frequentemente são causados pelo desgaste osteomuscular7 e aspectos laborais5, gerando dores, redução da mobilidade, diminuição da força muscular e aumento do risco de outras lesões12,22.

Além dos prejuízos físicos, eles impactam também na saúde mental, podendo provocar ansiedade, estresse e comprometimento da qualidade do sono pela dor persistente9,17,18. No âmbito institucional, ocasiona queda na produtividade pela limitação da eficiência, aumento do absenteísmo e custos associados a tratamentos médicos3,6,12.

O tratamento da dor multirregional requer uma avaliação inicial da etiologia do sintoma e estratégias de manejo da dor. A abordagem deve considerar as expectativas do paciente, a avaliação contínua de uma equipe multiprofissional, as ações de educação em saúde25, o uso de terapias não farmacológicas, como fisioterapia, prática de exercícios físicos, alongamentos, terapias psicológicas e de saúde integrativa26, como, também, de tratamento farmacológico27,28. Apesar de serem necessários mais estudos que abordem seus efeitos29, novas abordagens para o manejo de sintomas crônicos a partir da neuromodulação estão sendo indicadas.

Considerando a hipótese inicial de que a presença de DMEs crônicos afeta a QV e reconhecendo a QV como a percepção do indivíduo quanto a sua inserção social e sua relação com os objetivos, expectativas, padrões e preocupações em relação ao bem-estar espiritual, físico, mental, psicológico e emocional17,28, notou-se que os sintomas em todas as regiões corporais avaliadas afetam, de alguma forma, a QV; exceto no domínio psicológico. Algumas regiões corporais, especialmente as localizadas na parte superior do tronco foram as que mais afetaram de forma mais significativa a QV. Esses dados diferem de outro estudo28, que indica que a presença de dor, independente da região e da quantidade de locais atingidos, prejudica a QV. Estudos sobre a intensidade dos sintomas talvez sejam importantes para compreender o fator que diferencia o grau dessa influência.

Apesar da presença dos sintomas, os escores de QV dos respondentes se mantiveram acima de 64%. Isso indica que essa população possui condições como escolaridade, maturidade, estado civil, salário, suporte à saúde e contexto de vida que estão atuando como fatores protetivos.

Em suma, os resultados apontam que a população estudada se encaixa no problema de saúde pública16,19 quanto aos DMEs crônicos e, com isso, há os desdobramentos decorrentes dessa condição física, como afetar a QV do trabalhador e também impactar negativamente a empresa e os sistemas de saúde e previdenciário.

Como uma medida nacional, na perspectiva de promover educação em saúde no ambiente de trabalho, existem ferramentas para manejo e prevenção de estresse ocupacional e de patologias decorrentes de um ambiente não ergonômico (físico, cognitivo e organizacional), além de promover o empoderamento dos trabalhadores21,29. A formação continuada dos trabalhadores para prevenir patologias físicas e emocionais pode ocorrer por meio de palestras, rodas de conversa, acompanhamento psicológico, além de oficinas e treinamento sobre saúde mental e comunicação21.

Nesse viés, o governo brasileiro instituiu o dia 28 de fevereiro como o Dia Mundial de Combate às LER/ DORT. Outra medida foi a promulgação da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, que definiu diretrizes e estratégias para efetivação da integralidade da saúde desse grupo30,31.

Assim, espera-se que as medidas dessa política sejam implementadas e que os trabalhadores tenham acesso às informações sobre as condições insalubres do ambiente em que atua e, com isso, construam coletivamente medidas que possam mitigar esses riscos.

Como limitações deste estudo, sugerem-se o efeito do trabalhador saudável, em que somente trabalhadores com sintomas se interessaram em participar do estudo, como, também, o uso de instrumentos, que apesar de validados, obtêm dados sobre a percepção do respondente.

CONCLUSÕES

Conclui-se que a maioria dos servidores está acometida por DME crônico e de forma multirregional, o que, apesar disso, não afetou majoritariamente os resultados quanto à QV global, a qual se manteve elevada, exceto quando com sintomas na região do punho-mão. Os sintomas no punho-mão também estavam relacionados aos piores escores de QV nos domínios físico e ambiental e, os da região lombar, aos piores escores de QV no domínio social.

Tempo semanal frente a uma tela, tempo semanal que permanece sentado e sexo feminino foram as únicas variáveis que se correlacionaram positivamente com presença de DME crônicos.

Pesquisas futuras podem incluir avaliações objetivas do ambiente de trabalho, observando os três aspectos da ergonomia, como, também, realizar acompanhamento dos trabalhadores de forma longitudinal. Variáveis que possam conduzir a compreensão entre a presença de sintomas dos DME crônicos e os altos escores de QV, por exemplo, perguntar se as mulheres já se encontravam no climatério ou menopausa, como forma de compreender o adoecimento feminino, talvez sejam outra questão interessante a se incluir em outros estudos.

De todo modo, esta pesquisa traz um alerta sobre a necessidade de ações pessoais, coletivas e organizacionais para a melhoria da saúde e QV dos servidores, especialmente pela precocidade e quantidade de regiões afetadas por DME crônico.

  • Fonte de financiamento:
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico: Bolsa de Iniciação Científica PIBIC-Af 2023-2024

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Editado por

  • Editor responsável:
    Sergio de Lucca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Jan 2025
  • Aceito
    18 Set 2025
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