Open-access Impacto da gestação de alto risco na jornada de trabalho de gestantes do município de Catalão, Goiás

RESUMO

Introdução:  O gestar, na vida da mulher, é um momento que gera expectativas e anseios, além de mudanças físicas, emocionais e sociais. Tais mudanças implicam adaptações necessárias, inclusive no contexto profissional, uma vez que a gravidez provoca alterações que podem limitar a mulher e sua relação profissional.

Objetivos:  Analisar as mudanças e os impactos na vida profissional de gestantes de alto risco do município de Catalão, estado de Goiás.

Métodos:  Trata-se de um estudo analítico transversal, realizado no serviço de obstetrícia do Centro Integrado da Mulher, no município de Catalão, estado de Goiás.

Resultados:  Do total de 123 gestantes entrevistadas, 7 (5,7%) tinham entre 13 e 17 anos, 54 (43,9%), entre 18 e 29 anos, 45 (36,6%), entre 30 e 39 anos e 17 (13,8%) tinham 40 anos ou mais; 82 (66,7%) trabalhavam fora de casa. Em relação às mudanças vivenciadas, 84 (68,3%) afirmaram que a gestação implicou alterações na rotina da vida, 32 (38,1%) relataram mudanças na rotina do trabalho e 64 (76,2%) disseram que essas mudanças causaram impactos emocionais.

Conclusões:  O trabalho e a gestação influenciam diretamente a vida da mulher, estando a função profissional definida como um meio de sustento familiar. Contudo, nas gestações de alto risco, seja por fatores psicológicos ou físicos, as gestantes frequentemente necessitam ser afastadas de seus cargos. Além disso, para muitas mulheres, o trabalho também está relacionado à satisfação pessoal. Assim, as mudanças impostas geram impactos financeiros, emocionais e sociais.

Palavras-chave
gravidez de alto risco; mercado de trabalho; relações trabalhistas.

ABSTRACT

Introduction:  Pregnancy is a period in a woman’s life characterized by expectations, desires, and profound physical, emotional, and social changes. These transformations require multiple adjustments, including in the professional sphere, as pregnancy may limit women’s ability to perform their usual work activities and affect their employment relationship.

Objectives:  To analyze the changes and impacts on the professional lives of high-risk pregnant women in the city of Catalão, state of Goiás, Brazil.

Methods:  This was a cross-sectional analytical study conducted at the obstetrics service of the Women’s Integrated Center in Catalão, Brazil.

Results:  Of the 123 high-risk pregnant women interviewed, 7 (5.7%) were between 13 and 17 years old, 54 (43.9%) were between 18 and 29 years old, 45 (36.6%) were between 30 and 39 years old, and 17 (13.8%) were aged 40 years or older. A total of 82 (66.7%) women were employed outside the home. Regarding the changes experienced, 84 (68.3%) reported that pregnancy led to changes in their daily routine, 32 (38.1%) reported changes in their work routine, and 64 (76.2%) stated that these changes caused emotional impacts.

Conclusions:  Work and pregnancy directly influence women’s lives, with professional activity often serving as a primary means of family support. However, in high-risk pregnancies, psychological or physical factors frequently require work leave. Moreover, as work is a source of personal fulfillment for many women, such imposed changes can result in significant financial, emotional, and social impacts.

Keywords
high-risk pregnancy; workforce; employment relationship.

INTRODUÇÃO

A gestação constitui um período na existência feminina marcado por uma multiplicidade de transformações, abrangendo as esferas física, social e emocional, que se desdobram de maneira simultânea e em um intervalo temporal notavelmente breve1. Tais mudanças, embora de natureza fisiológica, repercutem no nível de cuidados necessários durante as fases pré-natal, intraparto e puerpério, conforme determinado pelo risco gestacional atribuído à gestante. Em cenários desfavoráveis, caso essas modificações não ocorram de maneira propícia, essas mulheres são enquadradas no grupo de gestação de risco intermediário ou elevado2.

Situações vivenciadas pela mulher no período gestacional, relacionadas a condições socioeconômicas desfavoráveis, doenças prévias, antecedentes obstétricos ruins, problemas surgidos na gestação atual ou, ainda, alterações fetais, podem colocá-la em condição de maior vulnerabilidade e risco gestacional. Nesses casos, a gestante é classificada como de alto risco3. As gestações de alto risco geralmente desencadeiam problemas comportamentais, afetivos e emocionais, os quais podem elevar o nível de estresse e diminuir a autoestima das gestantes, além de interferir no neurodesenvolvimento do feto4.

Além das modificações físicas, observa-se maior volatilidade no humor dessas gestantes. A autoestima, embora pouco abordada, pode constituir um ponto relevante na avaliação da preparação para a maternidade. Mulheres com autoimagem negativa e que avaliam suas competências como baixas podem considerar-se incapazes de desempenhar satisfatoriamente o papel de mãe, principalmente se forem mais jovens e tiverem baixo apoio social5.

Estresse materno, apoio social e autoestima são fatores importantes a serem considerados em qualquer processo gestacional, pois interferem diretamente no desenvolvimento do concepto, na evolução satisfatória da gravidez e na construção do papel materno. Quando aplicados a gestantes de alto risco, que experienciam mais medo, maior dependência de outras pessoas e maior sensação de incapacidade, esses fatores adquirem conotação ainda mais relevante6.

Todos esses aspectos somam-se e acarretam diversas modificações que as gestantes vivenciam durante a gravidez e o puerpério. Além disso, destaca-se o papel do trabalho - sob o entendimento da sociologia e psicologia - como elemento imprescindível para a construção da identidade do sujeito e como forma de ascensão e inserção no corpo social7.

Assim, este estudo buscou analisar as modificações e os impactos no âmbito profissional de gestantes de alto risco do município de Catalão, estado de Goiás.

MÉTODOS

DESENHO DO ESTUDO

Trata-se de um estudo transversal analítico, conduzido no serviço de obstetrícia do Centro Integrado da Mulher, no município de Catalão, Goiás. Após o acolhimento e a estratificação de risco gestacional pela equipe de atenção primária à saúde nas Unidades Básicas de Saúde, as gestantes que não se enquadravam no perfil de risco habitual foram encaminhadas para o pré-natal de alto risco do município.

Os instrumentos de avaliação utilizados foram um questionário de perfil sociodemográfico, elaborado pelos pesquisadores, e o Prenatal Psychosocial Profile (PPP-VP), sendo utilizada a versão em português traduzida pelos autores.

ASPECTOS ÉTICOS

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Catalão (CAAE nº 65527722.2.3001.0164) e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUC Goiás (CAAE nº 65527722.2.0000.0037). As entrevistadas foram devidamente orientadas quanto aos objetivos da pesquisa, aos possíveis riscos envolvidos, ao sigilo das informações e à garantia de privacidade durante a entrevista. Após o esclarecimento de dúvidas e a leitura, concordância e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (para gestantes com 18 anos ou mais) e do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (para gestantes menores de 18 anos e seus responsáveis), procedeu-se à coleta de dados.

RESULTADOS

Do total de 130 gestantes convidadas a participar do estudo, sete não aceitaram, sendo incluídas 123 gestantes de alto risco que atenderam aos critérios de inclusão. A Tabela 1 apresenta os resultados referentes ao perfil sociodemográfico e às mudanças que a gestação implicou em suas vidas.

Tabela 1
Caracterização do perfil sociodemográfico, mudanças na rotina de vida, no trabalho e impacto emocional das gestantes de alto risco da rede pública de um município do interior goiano, Brasil

Em relação à faixa etária, sete (5,7%) tinham entre 13 e 17 anos, 54 (43,9%), entre 18 e 29 anos, 45 (36,6%), entre 30 e 39 anos e 17 (13,8%) tinham 40 anos ou mais. Do total de entrevistadas, 82 (66,7%) trabalhavam fora de casa. No que tange às mudanças vivenciadas, 84 (68,3%) afirmaram que a gestação implicou alterações na rotina de vida, 32 (38,1%) relataram mudanças na rotina de trabalho e 64 (76,2%) disseram que essas mudanças causaram impactos emocionais.

DISCUSSÃO

A gestação é uma condição que envolve mudanças físicas, hormonais, sociais, familiares e psicológicas. Muitas mulheres, a depender de sua história pregressa, de seus hábitos e do suporte de que dispõem, apresentam grande vulnerabilidade a agravos à saúde mental8. Os aspectos psicológicos de mulheres com gestações de alto risco são ainda mais complexos, uma vez que demandam intenso esforço de processamento emocional. A vivência materna torna-se mais desafiadora devido à vulnerabilidade emocional presente nesse período, ao aumento dos riscos envolvidos e às diversas emoções associadas à sua condição clínica9 - uma complexidade de sentimentos que reverbera em diversas aéreas de suas vidas, inclusive no âmbito profissional.

Com a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, esta passou a exercer um papel importante no sustento familiar, assumindo, em muitos casos, o papel de provedora do lar e sendo obrigada a conciliar carreira profissional e maternidade. Entretanto, em alguns casos de gestações de alto risco, seja por questões psicológicas ou fisiológicas, as gestantes precisam ser afastadas de seus cargos por não conseguirem desempenhar suas funções habituais. Tal situação acarreta grande prejuízo para trabalhadoras sem vínculo formal de emprego - como autônomas, pessoas jurídicas, informais e freelancers -, que podem não contar com proteção legal contra a demissão durante a gravidez, podendo resultar em perda do emprego e dificuldades financeiras adicionais.

Outro aspecto importante é o impacto emocional gerado nessas gestantes, principalmente ao se relacionar trabalho e gestação. O medo da demissão, a angústia de retornar ao trabalho e não reassumir a posição anteriormente ocupada, a ansiedade diante da separação do bebê ao retomar a rotina laboral e o medo de que a gestação de alto risco seja agravada pelas atividades laborais fazem com que esse período seja marcado por intenso conflito interno. Para a mulher, nesse momento, “maternidade e trabalho são vividos imaginariamente como concorrentes opostos na realização fálica, pelo qual o investimento crescente em um implicaria necessariamente o desinvestir proporcional no outro”10.

Ademais, destacam-se as alterações na vida familiar que o trabalho e a gestação induzem. Com as novas configurações na estrutura familiar, a mulher deixa de desempenhar exclusivamente o papel de esposa e mãe e passa a exercer atividades laborais na iniciativa privada ou pública, tornando-se também provedora da família. Essa dinâmica configura uma reorganização dos papéis sociais, que ocorre de forma bilateral, pois o homem também passa por mudanças significativas. Assim, evidenciam-se transformações nos papéis de mãe e pai no seio familiar, o que reflete mudanças no entendimento de maternidade10.

Outra mudança observada na atualidade é o adiamento da maternidade, que está relacionado à crescente inserção da mulher no mercado de trabalho - espaço que, no passado, era majoritariamente ocupado por homens. Essa realidade é particularmente observada entre mulheres que priorizam e valorizam suas carreiras profissionais, gerando um conflito entre as prioridades da vida adulta: ser mãe ou consolidar-se no mercado de trabalho. Como a mulher vivencia simultaneamente as fases reprodutiva e produtiva, ambas exigindo grande dedicação e entrega, esse dilema torna-se ainda mais evidente11.

Os benefícios sociais, cognitivos e emocionais proporcionados pelo trabalho são importantes para estimular as mães trabalhadoras a enfrentarem as dificuldades inerentes ao equilíbrio dos diversos papéis que exigem delas grande dedicação12. Para muitas mulheres, o trabalho não se resume apenas ao aspecto financeiro, mas também traz satisfação e sensação de crescimento pessoal e social. Nesse sentido, ao terem que deixar o mercado de trabalho durante o período gestacional, elas percebem que não são mais a mesma pessoa de antes e que seu papel no mundo mudou, sentimentos que impactam de forma negativa a saúde mental, sobretudo das mulheres com maior vulnerabilidade emocional.

CONCLUSÕES

Gestações de alto risco são sempre desafiadoras para as mulheres, não apenas em termos físicos e emocionais, mas também nos âmbitos social e profissional. Os resultados do presente estudo evidenciam que gestantes de alto risco enfrentam mudanças significativas em suas rotinas pessoais e laborais, que frequentemente impactam a saúde emocional e a autoestima. A necessidade de equilibrar a maternidade com as demandas do trabalho é uma fonte de estresse e conflito interno, especialmente entre as mulheres em condições socioeconômicas mais vulneráveis ou sem proteção legal no emprego.

Além disso, as mudanças nos papéis sociais - marcadas pela crescente inserção feminina no mercado de trabalho e pela reorganização das responsabilidades familiares - reforçam a importância de políticas públicas e iniciativas que garantam suporte emocional, social e financeiro às gestantes. Tais medidas são fundamentais para minimizar os impactos negativos da gestação de alto risco, promovendo não apenas o bem-estar materno, mas também o desenvolvimento saudável do feto e a estabilidade das famílias.

Apesar das limitações do estudo, como a subjetividade do tema e a dificuldade de compreensão por parte de entrevistadas com menor escolaridade, este trabalho contribui para ampliar a compreensão sobre os desafios vivenciados por gestantes de alto risco no município de Catalão, Goiás, destacando a necessidade de intervenções direcionadas que considerem as particularidades desse grupo, bem como sua relação com o mercado de trabalho.

  • Fonte de financiamento:
    Nenhuma.

Referências bibliográficas

  • 1 Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Gestação de alto risco: manual técnico (Série A. Normas e Manuais Técnicos). 5ª ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2012.
  • 2 Alves AC, Cecatti JG, Souza RT. Resilience and stress during pregnancy: a comprehensive multidimensional approach in maternal and perinatal health. ScientificWorldJournal. 2021;2021:9512854.
  • 3 Gadelha IP, Souza RT, Cecatti JG. Determinantes sociais da saúde de gestantes acompanhadas no pré-natal de alto risco. Rev Rene. 2020;21:6.
  • 4 Nolvi S, Merz EC, Kataja EL, Parsons CE. Prenatal stress and the developing brain: postnatal environments promoting resilience. Biol Psychiatry. 2023;93(10):942-52.
  • 5 Kucharska J. Validation of the Polish version of the Posttraumatic Cognitions Inventory. Curr Psychol. 2018;40(2):611-7.
  • 6 Yu X, Liu Y, Huang Y, Zeng T. The effect of nonpharmacological interventions on the mental health of high-risk pregnant women: a systematic review. Complement Ther Med. 2022;64:102799.
  • 7 Blanch-Ribas JM. Trabajar en la modernidad industrial. Teoría de las relaciones laborales: fundamentos [Internet]. Barcelona: Editorial UOC; 2003. p. 19-148 [acesso 21 maio 2024]. Disponível: https://www.researchgate.net/publication/341590892_trabajar_en_la_modernidad_industrial
    » https://www.researchgate.net/publication/341590892_trabajar_en_la_modernidad_industrial
  • 8 Morais AODS, Simões VMF, Rodrigues LS, Batista RFL, Lamy ZC, Carvalho CA, et al. Sintomas depressivos e de ansiedade maternos e prejuízos na relação mãe/filho em uma coorte pré-natal: uma abordagem com modelagem de equações estruturais. Cad. Saude Publica. 2017;33(6):e00032016.
  • 9 Caldas DB, Silva ALR, Böing E, Crepaldi MA, Custódio ZAO. Atendimento psicológico no pré-natal de alto risco: a construção de um serviço. Psicol Hosp (São Paulo). 2013;11(1):66-87.
  • 10 Beltrame GR, Donelli TMS. Maternidade e carreira: desafios frente à conciliação de papéis. Aletheia. 2012;(38-39):1-10.
  • 11 Barbosa PZ, Rocha-Coutinho ML. Maternidade: novas possibilidades, antigas visões. Psicol Clin. 2007;19(1):163-85.
  • 12 Toledo JS, Martins JT, Gonçalves J. Percepções de mulheres sobre gestação e os sentidos do trabalho. Cad Psicol Soc Trab. 2023;26(1):1-15.

Editado por

  • Editora responsável:
    Paula Moreira Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    30 Dez 2024
  • Aceito
    10 Fev 2025
location_on
Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) Rua Peixoto Gomide, 996 sl. 350 - CEP: 01409-000 Telefone 55 (11) 3251-0849 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revista@anamt.org.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error