RESUMO
O presente artigo tem como objetivo discutir as releituras do conceito de literatura-mundo (world literature) a partir de movimentos críticos e teóricos da Literatura Comparada na contemporaneidade. Esta pesquisa visa refletir sobre as práticas do Comparatismo e as concepções de literatura-mundo ao tecer uma leitura dos movimentos de disseminação da obra de Clarice Lispector via tradução. Esta pesquisa também analisa a repercussão da obra na crítica literária e na pesquisa acadêmica a partir da recepção de Clarice Lispector no contexto internacional (Fitz, 1989; Marting, 1993; Schmidt, 2018). Portanto, neste artigo, dois contextos de recepção positiva foram identificados, com base em culturas e línguas distantes do português brasileiro, o Leste Europeu e o Leste Asiático, sendo estes poucos estudados. O estudo pautou-se nos conceitos de literatura-mundo e solidariedade das fronteiras (solidarity of borders) (Spivak, 2003) e a desocidentalização da Literatura Comparada (Chow, 1995).
PALAVRAS-CHAVE:
Literatura Brasileira; literatura-mundo; crítica; tradução; Clarice Lispector
ABSTRACT
This article aims to discuss the rereading of the concept of world literature based on critical and theoretical perspectives in contemporary Comparative Literature. This research analyzes the conceptions of world literature in the practices of comparative studies by tracing a reading of Clarice Lispector’s reception mapping. This study also examines the repercussions of literary criticism and the academic research on the reception of Lispector’s texts abroad (Fitz, 1989; Marting, 1993; Schmidt, 2018). Thus, this study identified two contexts of positive reception of Lispector’s works, based on cultural traditions and non-related languages to Brazilian Portuguese: Eastern Europe and East Asia, being both areas not explored in previous studies. The theoretical framework of rereading the concept of world literature guided by the solidarity of borders (Spivak, 2003) and the de-Westernization of Comparative Literature (Chow, 1995).
KEYWORDS:
Brazilian Literature; world literature; criticism; translation; Clarice Lispector
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre as releituras do conceito de literatura-mundo (world literature) por intermédio da análise dos trânsitos realizados pela obra de uma das mais renomadas ficcionistas da Literatura Brasileira: a escritora Clarice Lispector. O conceito de literatura-mundo, desde a primeira definição de Weltliteratur por Goethe (2013) , tem sido alvo de releituras e reinterpretações que oscilam entre noções do estético e de arquivo para descrever um conjunto de textos literários considerados grandes obras num contexto “universal” ou “geral” (D’Haen; Damrosch; Kadir, 2012, p. 18-19). Neste artigo, o conceito de literatura-mundo será discutido de forma a apresentar uma reflexão sobre as práticas do Comparatismo via releituras do conceito e da relação entre literatura-mundo e tradução, ao tecer uma leitura dos movimentos de disseminação da obra de Clarice Lispector em contextos de culturas e línguas distantes do português brasileiro, tais como a outra Europa - entenda-se países da Europa fora do Eixo França-Inglaterra, e o Extremo Oriente - em recorte os países do Leste da Ásia. Tais movimentos de disseminação da obra de Lispector serão analisados sob uma perspectiva de ultrapassar barreiras linguísticas e geográficas no âmbito dos Estudos Comparatistas.1 Para isto, propõe-se traçar um mapeamento da repercussão da obra de Lispector através da tradução e da pesquisa acadêmica nas referidas regiões culturais e linguísticas. Sendo assim, este estudo tem como base o posicionamento crítico desconstrucionista de Gayatri Spivak (2003) , o qual propõe repensar as práticas de tradução, de crítica e de pesquisa acadêmica via “solidariedade das fronteiras” no campo da Literatura Comparada. O conceito literatura-mundo será problematizado de forma a compreender os movimentos teóricos que colocaram em cena questionamentos acerca do Eurocentrismo e, por conseguinte, promoveram os deslocamentos teóricos com a finalidade de desocidentalizar a Literatura Comparada (Chow, 1995; Spivak, 2003).
Ao refletir sobre os trânsitos encenados pelas obras de Clarice Lispector nos casos de disseminação em diversos países, o ato de cruzar fronteiras mostra-se como um elemento pertinente para este estudo conduzido no campo do Comparatismo. Acerca do ato de cruzar fronteiras, no livro Death of Discipline (2003), Gayatri Spivak chama a atenção para o papel que deve ser desempenhado pela Literatura Comparada, sendo esta a disciplina que “(...) deve sempre cruzar fronteiras. E ao cruzar fronteiras, como Derrida nunca cessa de nos lembrar via Kant, é uma relação problemática” (2003, p. 16, tradução minha).2 Assim sendo, a partir do posicionamento teórico de Spivak, proposto para as práticas de pesquisa em Literatura Comparada, destaca-se uma demanda desafiadora ao considerar a multiplicidade e a mobilidade entre diversos mundos culturais, além de proporcionar espaço para que diferentes vozes e discursos sejam ouvidos. Logo, mostra-se importante ressaltar que este viés desconstrucionista de Spivak conduz a um processo de estudo da literatura no campo do Comparatismo que vem a promover a compreensão da alteridade e o rompimento das barreiras culturais e geográficas de poder, ou seja, propondo a construção de uma solidariedade das fronteiras (solidarity of borders). Portanto, para este artigo é proposta uma análise dos trânsitos das obras de Clarice Lispector, uma escritora brasileira pertencente a um sistema literário duplamente periférico (Rubio dos Santos, 2021, p. 182). Para poder compreender o estado periférico em que se encontra a Literatura Brasileira, ou seja, estar às margens de sistemas literários de zonas geográficas, como também do âmbito mundial, é importante lançar o questionamento acerca da presença da Literatura Brasileira em outros contextos. Ao observar os processos de representatividade das obras de escritores brasileiros, é possível identificar as presenças e os apagamentos de seus nomes em sistema literário além do nacional. Neste sentido, ao investigar a presença de escritores brasileiros em redes de produção literária de zonas da América, ocidentais ou até mesmo mundiais, o pesquisador depara-se com a dupla posição periférica ocupada pela Literatura Brasileira - tanto em relação ao centro de poder representado pelos países do eixo Europa-Estados Unidos, como também, ironicamente, dentro do sistema literário da América Latina, visto que a Literatura Brasileira tem pouca visibilidade no cenário latino-americano, seja através das traduções de obras brasileiras para a língua espanhola, seja através da produção de pesquisas acadêmicas, consideravelmente escassa. A respeito da rede de diálogos entre as literaturas que formam a Literatura Latino-Americana, Castro-Klaren (2013, p. 1) descreve de forma um tanto problemática o contexto da fundação do termo “Literatura Latino-americana” na década de 1940, pois contempla apenas as literaturas produzidas em língua espanhola em países da América do Sul e da América Central. Logo, este posicionamento indica a exclusão da literatura em língua portuguesa da América, a Literatura Brasileira, descartando-a do papel de literatura nacional a ser considerada importante no processo de formação da identidade literária da região da América Latina. Diante desse contexto, é interessante observar o distanciamento entre a Literatura Brasileira e a Literatura Hispano-Americana, do qual resulta uma espécie de falta de diálogo entre as duas áreas vizinhas, o que torna o uso do termo Literatura Latino-americana problemático no campo dos Estudos Literários.
Neste sentido, a situação de isolamento da Literatura Brasileira no contexto de concepção da Literatura Latino-Americana poderia ser justificada pelo fato da língua portuguesa ser a responsável pela incomunicabilidade, ou pelo escasso diálogo, com os países vizinhos de língua espanhola nas Américas. Deve ser apontado o fato de a língua portuguesa não ser uma língua de amplo espectro de circulação, tal como outras línguas ocidentais - o inglês, o francês e o espanhol, destina-se às produções literárias do Brasil um difícil caminho de disseminação e reconhecimento tanto no cenário da região da América Latina, como também mundial. Marchant (2013) aponta a questão do status da Literatura Brasileira ser marcado pela invisibilidade e pela falta de reconhecimento, em comparação a outros países da América Latina falantes de espanhol: “Uma consequência de tal enorme/invisibilidade é que enquanto escritores brasileiros estejam bem familiarizados com as tradições do pensamento ocidental, o Ocidente, consideravelmente, desconhece a produção acadêmica e literária brasileira” (Marchant, 2013, p. 495-496, tradução minha).3 Portanto, diante desse contexto de barreiras das línguas nacionais em que se encontra a Literatura Brasileira, a prática da tradução vem a ser um movimento decisivo para repensar a noção de literatura-mundo no campo da Literatura Comparada na contemporaneidade. Logo, a tradução desempenha um papel fundamental ao promover a mobilidade de textos além das fronteiras linguísticas e culturais (Bassnett, 2019). Retomo a proposição teórica de Gayatri Spivak para a prática de estudos comparatistas, a qual sinaliza a perspectiva de cruzar fronteiras. Considerando que esta pesquisa visa analisar como a obra de Clarice Lispector pode transpassar as fronteiras culturais e os limites geográficos no processo de disseminação da Literatura Brasileira, torna-se necessário descrever como são os movimentos de tradução das obras de Lispector para línguas e culturas distantes, em específico, dois cenários pouco discutidos em pesquisa até então: 1. a “outra” Europa; e 2. o Leste da Ásia. Outro ponto importante na condução da análise seria a descrição da presença ou da ausência dos trânsitos da obra da escritora Clarice Lispector no que se refere à repercussão na crítica literária e na produção de pesquisas acadêmicas sobre a obra da ficcionista brasileira, sejam estas realizadas por pesquisadores brasileiros em língua estrangeira, sejam estas realizadas por pesquisadores estrangeiros.
Portanto, para a realização do estudo proposto, devem ser colocados alguns questionamentos nodais: como as obras da Literatura Brasileira, no caso representadas pela obra da escritora Clarice Lispector, circulam em países de línguas e culturas distantes da língua portuguesa e da cultura brasileira? Haveria possibilidade de estabelecer diálogos entre a Literatura Brasileira, uma literatura menor, com literaturas oriundas de países fora do centro europeu, sendo também estas consideradas literaturas menores? Acrescenta-se a este questionamento: como seriam as possibilidades de tradução das obras de Clarice Lispector para línguas além daquelas comumente alvo de tradução, tais como o inglês, o francês e o espanhol? Ademais, como seria o processo de cruzar fronteiras protagonizado pela obra de Clarice Lispector na “outra” Europa, uma vez que no cenário da Literatura Comparada, como também algumas concepções de literatura-mundo estão focalizadas em literaturas de língua francesa e de língua inglesa? Como seria o processo de cruzar fronteiras em um continente distante, tal como a Ásia, em especial, a investigação dos diálogos com países do Leste da Ásia? Seria, portanto, a obra da escritora Lispector aquela que poderia ser considerada como um caso de autoria representativa da Literatura Brasileira no cenário de world literature? Estas perguntas serão respondidas ao longo da pesquisa.
Reflexões acerca da literatura-mundo (world literature)
Primeiramente, cabe apresentar a disciplina Literatura Comparada e sua atuação dentro do campo dos Estudos Literários. A Literatura Comparada tem como uma de suas principais problemáticas a realização de leituras de textos literários através da mobilidade entre narrativas e culturas. Sendo assim, a partir desta concepção de Literatura Comparada, é possível olhar para um amplo horizonte da literatura, o que tem impulsionado relações com diversas disciplinas e campos teóricos ao longo das últimas décadas. Dessa forma, o estudo de narrativas literárias via comparatismo promove o desvelamento de trânsitos, uma vez que a comparação proporciona uma práxis de aproximações e ressemantização de fronteiras, seja pelo viés da intertextualidade, seja pelo diálogo com outras disciplinas; a interdisciplinaridade. Logo, a prática comparatista faz com que seja possível o estudo da literatura através de um olhar diferenciado e problematizador, com foco no estudo da diferença e da crítica da cultura. Neste sentido, destaca-se a afirmação de Susan Bassnett sobre a disciplina Literatura Comparada como aquela que “envolve o estudo de textos entre culturas, que ela é interdisciplinar e que está voltada para os padrões de relações entre as literaturas no tempo e no espaço” (Bassnett, 1993, p. 1). Outro conceito norteador para a disciplina Literatura Comparada é a mediação. Neste sentido, a prática comparatista se realiza “preservando sua natureza mediadora, intermediária”, numa leitura entre dois elementos ou mais, e que explora “nexos e relações entre eles” (Carvalhal, 1991, p. 10). Sendo assim, é possível afirmar que o comparatismo coloca em cena a questão da diferença e a propõe como “espaço-chave” no estudo entre obras de culturas distintas, visto que, através da leitura das diferenças, a Literatura Comparada constrói o mapeamento dos imaginários da literatura e, dessa forma, possibilita a (re)leitura ou compreensão da(s) cultura(s) ao tecer pertinentes reflexões sobre o literário. Neste sentido, por intermédio desse movimento, pode-se afirmar que o Comparatismo desempenha um papel mediador entre a cultura e os povos, possibilitando uma abordagem comparatista transversal, na qual a pesquisa em Literatura Comparada pode pensar a cultura de forma que não reproduza generalizações ou reducionismos. Diante desse contexto, em que circundam questões como diferença cultural, ressemantização de fronteiras, alteridade e trânsitos culturais, torna-se pertinente propor uma reflexão no campo dos estudos da Literatura Comparada.
Partindo do contexto da disciplina Literatura Comparada acima descrito, o conceito de literatura-mundo (world literature) apresenta-se como aquele que vem a problematizar narrativas de diferentes culturas e de distintas localizações geográficas. Ao estudar textos de diferentes origens, permeados por imaginários simbólicos e culturais distintos, cabe discutir a noção de literatura-mundo como aquela que possibilita a realização de uma leitura comparatista que descreva as diferenças e as convergências presentes na tessitura dos objetos literários. Entretanto, diversas concepções do termo literatura-mundo, ao longo do tempo, têm mostrado posicionamentos e conjunto de valores discrepantes, apesar do conceito literatura-mundo apontar para uma multiplicidade de literaturas e culturas em diálogo, um determinado estudo pode colocar em relevo uma literatura em detrimento da outra, como, por exemplo, a literatura considerada “maior” pelo centro de poder do eixo Europa-Estados Unidos e as “literaturas menores”, como as literaturas que estão às margens do centro, designadas como a outra literatura. Para ilustrar esta questão, dois exemplos podem ser citados: antologias e enciclopédias de literatura-mundo que destinam valor somente às literaturas pertencentes aos países do eixo Europa-Estados Unidos, como também os currículos de disciplinas de literatura sobre os clássicos da literatura mundial no curso de Letras, os quais giram em torno da literatura europeia.
A fim de compreender o conceito literatura-mundo, torna-se necessário realizar uma breve discussão de diferentes concepções de literatura-mundo, desde o seu surgimento no século XIX até as releituras do conceito no século XXI. O termo literatura-mundo foi mencionado nos escritos do ficcionista e pesquisador alemão Johann Wolfgang von Goethe no ano de 1827. O autor declara que a weltliteratur (literatura-mundo) mostra-se como um elemento de extrema importância para a circulação de ideias, temas e formas literárias entre os escritores na Europa e além do continente europeu, motivado pelo desenvolvimento dos jornais literários espalhados pela Europa (D’Haen et al., 2013, p. 13). Goethe (2013) descreve a noção de literatura-mundo como uma literatura transnacional, pois a esta era destinado o papel de mediação entre diferentes culturas, sendo uma prática que inspirava a compreensão e a tolerância entre as nações e os povos europeus.
Destaca-se, no final do século XIX, o pesquisador dinamarquês Georg Brandes, o qual colocou em cena de discussão uma interessante problematização do conceito literatura-mundo, ao apresentar duas categorias de classificação de obras literárias nacionais: as “literaturas maiores” e as “literaturas menores”. Em seu texto “World Literature”, Brandes (2013) afirma que o conceito de literatura-mundo está ligado à circulação das obras em diversas línguas, sendo estas representativas de uma determinada nação. Brandes (2013) destaca que, no cenário europeu, as obras lidas e reconhecidas são originárias da França, Inglaterra e Alemanha, denominadas pelo autor como “large lands” (grandes territórios), visto que a disseminação das obras está correlacionada com a forte presença de suas línguas em outras regiões do continente europeu. Neste sentido, as obras provenientes de um sistema literário considerado “menor”, ou de “small lands”, (pequenos territórios) no contexto europeu, encontram oportunidade muito reduzida para serem disseminadas e consideradas como integrantes do conjunto de obras da literatura-mundo. O autor aponta o papel importante desempenhado pelas línguas na circulação das obras literárias, uma vez que estas atuam como elemento decisivo para o reconhecimento de uma literatura em outros sistemas literários, além de ser uma condição para que possa ser categorizada como uma obra pertencente à literatura-mundo. Apesar de ter introduzido as noções de “literaturas maiores” e “literaturas menores” na discussão do conceito de literatura-mundo, deve ser destacado que o pensamento de Georg Brandes estava ligado ao Eurocentrismo, uma vez que sua teoria analisa somente literaturas oriundas de países da Europa, e, por conseguinte, exclui literaturas das Américas, da Ásia, da África, do Oriente Médio e da Oceania.
Cabe apontar as releituras do conceito literatura-mundo no século XXI realizadas dentro da disciplina Literatura Comparada. A partir dos trabalhos publicados nesse período, o conceito literatura-mundo passa a ser considerado um paradigma na aproximação de textos literários e não mais considerado um objeto. Assim sendo, o conceito de literatura-mundo é agora definido como o papel da literatura além da nação-estado de forma a levantar um questionamento sobre como a literatura ultrapassa as fronteiras (D’Haen et al., 2013, p. 11). A partir desse período, surgem variadas acepções do conceito literatura-mundo, bem como são diversas as formas de considerar a prática de pesquisa nos Estudos Literários focalizando o referido conceito.
Para a pesquisa apresentada neste artigo, foi selecionada como fundamento teórico norteador a proposta de Gayatri Spivak (2003) para pensar o conceito de literatura-mundo. A crítica e teórica tece uma releitura do conceito literatura-mundo pautada pela multiplicidade, pela diferença e pelo cruzar das fronteiras. No livro Death of a Discipline (2003), Spivak tece uma reflexão sobre os novos caminhos da disciplina Literatura Comparada na contemporaneidade ao apresentar três capítulos - “Crossing borders, Collectivities” e “Planetarity” (“Cruzar fronteiras”, “Colectividades” e “Planetariedade”). A autora propõe a reformulação da disciplina Literatura Comparada a partir de uma prática do ensino de literatura que promova a humanização e a compreensão da outridade através do treinamento da imaginação.
O ato de cruzar de fronteiras, um dos traços característicos da Literatura Comparada, é destacado por Spivak como uma questão problemática, de ordem político-geográfica. Nas palavras da pesquisadora: “Fronteiras são facilmente cruzadas a partir de países metrópoles, enquanto tentativas de entrada a partir de países, então chamados periféricos, encontram fronteiras burocráticas e policiadas, completamente mais difíceis de serem adentradas” (Spivak 2003, p. 16, tradução minha).4 Esta descrição das barreiras geográficas pode ser considerada como uma perspectiva pertinente quando são observadas as barreiras das línguas nacionais e a forma com que os trânsitos são realizados em estudos no campo da Literatura Comparada. É necessário pontuar o fato de que as literaturas periféricas encontram desafios ao tentarem cruzar fronteiras, diferentemente das literaturas do centro que fazem essa travessia sem maiores impasses. Diante desse cenário, Spivak (2003) aponta a importância de estabelecer relações interdisciplinares entre a Literatura Comparada e os Estudos de Área, uma vez que estes
(...) podem trabalhar juntas em promover não apenas as literaturas nacionais do Sul-Global, mas também a escritura de inúmeras línguas originárias do mundo que foram programadas para serem extintas quando os mapas foram criados. As literaturas em língua inglesa produzidas pelas ex-colônias britânicas na África e na Ásia deveriam ser estudadas e apoiadas. E quem pode negar as literaturas em línguas espanhola e portuguesa na América Latina? (Spivak, 2003 p. 15-16, tradução minha).5
Ao propor um deslocamento do olhar para outras literaturas em uma nova configuração da disciplina Literatura Comparada, em movimentos e diálogos frutíferos com outros discursos e universos científicos, Spivak ressalta que a solidariedade das fronteiras impulsiona o movimento e conduz à transformação da prática do comparatismo. Logo, a autora declara que a Literatura Comparada ainda está em construção, ou seja, está “por vir”. Dessa forma, a pesquisa a ser realizada pelo viés da concepção de uma nova Literatura Comparada, tal como proposta por Spivak, colocaria em relevo um outro olhar pertinente ao objeto literário.
Leitura da disseminação da obra de Clarice Lispector na “outra” Europa e no Leste da Ásia: um mapeamento do cruzar fronteiras
Indubitavelmente, considerada uma das mais importantes escritoras da Literatura Brasileira no século XX, Clarice Lispector (1920-1977) escreveu obras que se destacam pelas construções peculiares de tessitura da linguagem e de estrutura do texto. Em relação ao estilo único da ficcionista, podem ser apontados os seguintes elementos: a presença dos jogos de linguagem através de significantes e de estruturas, o monólogo interno e o fluxo de consciência. A autora explorou diversos gêneros literários ao longo de sua carreira, entre os quais figuram romance, conto, crônica e literatura infantojuvenil. É interessante observar que a obra da escritora Clarice Lispector tem sido estudada em diversos campos na área das Letras e das Ciências Humanas: na Literatura Brasileira, no campo dos Estudos de Gênero e no campo da Literatura Comparada.
Em relação à realização do mapeamento dos trânsitos da obra de Clarice Lispector, poderia ser apontada como justificativa a representatividade da escritora tanto no âmbito nacional quanto internacional. Sendo assim, considero como fundamentais as pesquisas previamente realizadas sobre o tema: o artigo “O lugar de Clarice Lispector na História da Literatura Ocidental: uma avaliação comparativa”, de Earl E. Fitz (1989) , o livro Clarice Lispector: A Bio-Bibliography, de Diane E. Marting (1993) , e o artigo “Crossing Borders: Clarice Lispector and the Scene of Transnational Feminist Criticism”, de Rita Terezinha Schmidt (2018) , visto que estas pesquisas investigaram a recepção da obra de Clarice Lispector via tradução e crítica acadêmica, ao mesmo tempo em que colocaram em cena de discussão o nome de Clarice Lispector como ficcionista de destaque no contexto internacional, como também discutiram o conceito de literatura-mundo nas práticas de Literatura Comparada. Neste sentido, cabe ressaltar a posição ocupada por Clarice Lispector em diversas esferas, seja o reconhecimento no contexto da crítica nacional e da história da Literatura Brasileira contemporâneas, seja a posição de destaque no campo da tradução, uma vez que a obra da escritora distingue-se por ser aquela que promove uma troca transcultural ao longo de cinco décadas através da tradução para diversas línguas (Schmidt, 2018, p. 246-247), movimento este que aponta para a difusão da obra de Lispector no contexto da literatura-mundo. Ademais, deve ser destacada a presença do nome de Clarice Lispector em compêndios de História da Literatura Latino-americana e World Literature (Rabassa, 1975; Ungar, Maneiro, 1975; Monegal, Colchie, 1977; Fitz, 1983, 1985, 1987; Lawall, Mack, 2002; Hart, 2007; Castro-Klaren, 2013; Schmidt, 2018). Portanto, ao traçar um mapeamento da disseminação da obra de Clarice Lispector, coloca-se em relevo: 1. o questionamento dos diferentes olhares para a obra; e 2. a proposição de investigar como a obra da escritora pode protagonizar uma ação de cruzar fronteiras via movimentos de tradução e de repercussão na crítica literária. Logo, esta leitura da obra de Lispector visa colaborar para a reflexão acerca das releituras do conceito de literatura-mundo (world literature) no campo da Literatura Comparada, visto que o questionamento acerca de literaturas fora do centro, ou do Sul-Global permeia a discussão neste artigo.
Acerca da repercussão da obra de Clarice Lispector no cenário internacional, podem ser apontados três principais fatores decisivos para o processo de internacionalização da escritora brasileira: 1. a tradução das obras de Clarice Lispector, o que proporciona novos leitores em contextos fora do Brasil; 2. as críticas literárias produzidas por pesquisadores estrangeiros e pesquisadores brasileiros escritas em língua estrangeira, as quais promovem a divulgação da ficção de Clarice Lispector através da escrita de artigos, ensaios e resenhas críticas sobre as obras traduzidas da escritora; e 3. as pesquisas realizadas no âmbito do pós-graduação, as quais resultam em dissertações de Mestrado e teses de Doutorado. Sendo assim, com a finalidade de refletir sobre o status de tradução das obras da escritora foi conduzido um levantamento de dados referentes às traduções das obras de Lispector, o qual teve como ponto de partida a leitura das pesquisas de Fitz (1989) , Marting (1993) e Schmidt (2018) . Após esta etapa, a pesquisa teve seu campo expandido para outras fontes, tais como livros sobre literatura-mundo (world literature), websites oficiais da escritora Clarice Lispector, acervos em bibliotecas virtuais e sites do governo brasileiro, bem como outros meios de indexação das obras. Portanto, para iniciar a discussão sobre o processo de difusão, ou internacionalização, das obras de Clarice Lispector, cabe destacar o decisivo papel que a tradução desempenha no processo de disseminação das obras de Lispector pelo mundo. Marting (1993, p. 21) destaca a recepção da obra de Lispector nas Américas, na Europa e na Ásia, sendo a coletânea de contos Laços de família (1960) a obra de Lispector que culminou o despertar do interesse do público internacional, sendo, então, as traduções das obras para a língua francesa e para a língua inglesa aquelas responsáveis por impulsionar a produção crítica da obra de Clarice Lispector, principalmente, devido ao seu amplo espectro de circulação e de público leitor. Além disso, Diane E. Marting aponta a década de 1980 como um período marcado por intensa produção crítica internacional sobre a obra de Clarice Lispector, tendo sido resultado de uma ampliação do espectro de leitores (Marting 1993, p. 33). Um outro elemento importante no processo de disseminação da obra da escritora Lispector é a repercussão entre pesquisadores de diversos países (Marting, 1993, p. 33). A obra de Clarice Lispector tem despertado a curiosidade e a inspiração em leitores provenientes de diversos contextos culturais e de épocas distintas, seja a partir da leitura dos textos em língua portuguesa, seja em tradução. Logo, ao pensar no processo de internacionalização das obras de Clarice Lispector, considero como ponto de partida para reflexão a seguinte questão: como foi realizada a recepção da obra de Clarice Lispector em outros países? Poderia ser afirmado que este movimento é marcado por momentos distintos, sendo o primeiro movimento de recepção da obra de Lispector realizado no eixo Europa-Estados Unidos, mais especificamente, na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos entre as décadas de 1960 a 1990. Já o segundo movimento de recepção da obra de Clarice Lispector ocorreu em outros países da Europa, América Latina e Ásia no período de 1950 a 2020. Apresento, portanto, o primeiro movimento de recepção da obra de Clarice Lispector, realizado no eixo Europa-Estados Unidos. O pioneiro movimento de disseminação da obra de Clarice Lispector no âmbito internacional (1950-1990) teve início na França com a publicação do romance Perto do coração selvagem (Près du Coeur Sauvage), em 1954. Nas décadas de 1970 e 1980, destacam-se as traduções das obras de Clarice Lispector realizadas pela Editora des Femmes e os títulos de Clarice Lispector traduzidos e publicados em revistas literárias na França (Rubio dos Santos, 2021, p. 53). Os seminários ministrados pela escritora e crítica feminista Hélène Cixous, no final da década de 1970 e ao longo da década de 1980, foram importantes para a repercussão do nome de Clarice Lispector no cenário acadêmico-literário da França e, posteriormente, impulsionou a disseminação da obra de Clarice Lispector em outros países. É pertinente apontar que o histórico das traduções e das críticas das obras de Clarice Lispector no cenário da França teve o seu auge entre os anos 1977 e 1989. Por sua vez, em relação à recepção da obra de Clarice Lispector no mundo anglófono, deve ser destacado o importante papel dos tradutores e pesquisadores de Literatura Brasileira e Literatura Latino-americana: Gregory Rabassa, Giovanni Pontiero e Earl E. Fitz, os quais foram responsáveis pelas pioneiras traduções e pelo estudo da obra de Clarice Lispector que vieram a conduzir, ao longo das décadas de 1960 e 1990, a divulgação da obra da escritora brasileira nos Estados Unidos e na Inglaterra. A primeira obra de Clarice Lispector publicada em língua inglesa foi o romance A maçã no escuro (The Apple in the Dark), traduzido por Gregory Rabassa em 1967. Um grande número de obras da escritora Clarice Lispector foi traduzido na década de 1980, ao total 17 títulos. E, por fim, a partir do ano de 2010, as obras de Clarice Lispector foram objetos de tradução novamente nos Estados Unidos. Deste período contabilizam a tradução de seis títulos de romances e um livro de contos, tendo sido traduzidos pela primeira vez para a língua inglesa os romances Água viva (2012) e O Lustre (2018).
Como se configura o cenário de disseminação da obra de Clarice Lispector a partir dos projetos de tradução para línguas da Europa além do francês e inglês? Tendo como ponto de partida este questionamento, foi conduzido um levantamento de dados referentes às primeiras traduções das obras de Clarice Lispector, o qual foi realizado a partir do estudo da bibliografia sobre a obra da autora em acervos de bibliotecas e outros meios de indexação. Sendo assim, a coleta de dados realizada teve como finalidade refletir sobre o status de tradução das obras da escritora brasileira em um contexto específico de primeiro contato com a obra da ficcionista - traçado de décadas atrás até a atualidade, como também sobre a disseminação das obras para um público não-falante de língua portuguesa. A partir da coleta de dados sobre a recepção da obra de Clarice Lispector via tradução na “outra” Europa, ou seja, países europeus além do eixo França-Inglaterra, foram encontrados registros de traduções das obras da escritora brasileira em uma ampla variedade de línguas, tais como alemão, italiano, sueco, tcheco, holandês, norueguês, finlandês, dinamarquês, polonês, russo, ucraniano, búlgaro, catalão e língua basca. O período das publicações varia de 1963 a 2020, sendo os gêneros literários mais traduzidos o romance e o conto. Cerca de uma década após a pioneira tradução da obra de Clarice Lispector na França, o romance Perto do coração selvagem, em 1954, as primeiras traduções registradas na Europa foram realizadas pela Suécia e pela Alemanha na década de 1960: o livro de contos Laços de família foi traduzido para o sueco em 1963, e o romance A maçã no escuro foi traduzido para o alemão em 1964. Já nas décadas de 1970 e 1980, durante a grande repercussão das obras de Lispector na França e nos Estados Unidos, foram encontrados os primeiros registros de tradução de romances nas seguintes línguas europeias: tcheco (Perto do coração selvagem, 1973), italiano (Água viva, 1980), polonês (A hora da estrela, 1987), holandês (A hora da estrela, 1988), dinamarquês (A hora da estrela, 1989) e norueguês (A paixão segundo G. H., 1989). Os casos de tradução mais tardios são referentes às décadas de 90, 2000 e 2010, sendo os casos de primeira tradução nas respectivas línguas: finlandês (A hora da estrela, 1996), russo (A cidade sitiada, 2000), catalão (Água viva e A hora da estrela, 2006), búlgaro (Laços de família, 2013), língua basca (Felicidade clandestina, 2015) e ucraniano (A hora da estrela, 2016).
Dentro deste cenário de recorte de países europeus, destacam-se os projetos de tradução realizados na Alemanha e na Itália, uma vez que estes apresentam um considerável catálogo de obras traduzidas de Clarice Lispector na Europa, tendo sido registradas traduções de quase a totalidade dos títulos de romances de Clarice Lispector. Entretanto, estes podem ser descritos como dois casos diferentes ou locus de recepção das obras de Clarice Lispector na Europa, uma vez que eles divergem entre si em relação ao período histórico das traduções. As primeiras obras de Clarice Lispector começaram a ser traduzidas na Alemanha na década de 1960, por outro lado, no contexto da Itália, as traduções foram iniciadas décadas após, a partir dos anos 1980. As primeiras traduções para a língua alemã, na década de 1960, foram o romance A maçã no escuro (Der Apfel im Dunkeln,1964) e o livro de contos Onde estivestes de noite? (Wo Warst du in der Nacht, 1966). Já os primeiros registros para a língua italiana correspondem à década de 1980, tendo sido as primeiras obras traduzidas os romances Água viva (Aqua Viva, 1980), Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Un Apprendistato o Il Libro dei Piaceri, 1981) e A paixão segundo G.H. (La Passione secondo G.H., 1982).
Em relação à repercussão de trabalhos críticos e pesquisas acadêmicas nos países da “outra” Europa, podem ser apontadas algumas produções. Para a língua alemã foram encontradas as seguintes publicações: o livro Die Zeitgenössische Literatur in Latinoamerika: Chronik einer Wirklichkeit, Motive und Strukturen, de Günter W. Lorenz (1971); o capítulo de livro “Clarice Lispector”, de Dieter Reichardt, publicado no compêndio de História da Literatura Latino-Americana intitulado Lateinamerikanische Autoren: Literaturlexikon und Bibliographie der deutschen Übersetzungen (1972) e o artigo Die eine und die Andere, Clarice Lispector, de Regina Dackweiler, publicado no periódico Listen, Zeitschrift für Leserinnen und Leser, número 8 (1987). Em holandês foram encontradas publicações de duas críticas na imprensa datados de 1988, no mesmo ano da tradução do romance A hora da estrela para o holandês: os artigos publicados no jornal Groene Amsterdammer em 18 de maio de 1988 são “Een ongewone kijk op liefde en leven, Clarice Lispector, Groeneprofiel” (An unusual look at love and life, Clarice Lispector), de autoria de Stevens Christa, e “Zichzelf Verliezen is Een Gevaarlijke Manier Om Zichzelfte vinden. De Genadige Zwakheid van Clarice Lispector” (Losing Yourself Is a Dangerous Way to Find Yourself. The Merciful Weakness of Clarice Lispector), de J.F. Vogelaar. Já na língua italiana há dois trabalhos de pesquisa sobre a obra de Clarice Lispector: o livro Apocalypsis H.G.: una lettura intertestuale dell A paixão segundo G.H. e della Dissipatio H.G., de Ettore Finazzi-Agrò (1984), e a tese de doutorado intitulada Scritture delle origini, de Nadia Setti (Università di Roma “La Sapienza”, 1987).
Na análise dos dados referentes às traduções das obras de Clarice Lispector para as “outras” línguas europeias foi constatado que a obra da autora mais traduzida entre as 14 línguas europeias, discutidas nesta seção, foi o romance A hora da estrela, publicado por Clarice Lispector em 1977. A referida obra recebeu versões para 11 línguas europeias ao longo de seis décadas. Acerca dos gêneros literários mais traduzidos, é possível constatar a preferência pela publicação de romances - alemão (seis títulos), sueco (cinco títulos) e italiano (cinco títulos). Além disso, um outro momento de recepção das obras de Lispector ocorreu nas décadas de 1980 e 1990, período em que as obras da escritora eram alvo de estudos acadêmicos registrados na França e nos Estados Unidos. E, nas décadas subsequentes, nas de 1990, 2000 e 2010, constatou-se um terceiro movimento de novas traduções das obras de Clarice Lispector.
Ao observar os movimentos dos projetos de tradução das obras de Lispector realizados na “outra” Europa, a princípio, estes movimentos mostram-se como peculiares casos devido aos diferentes períodos e localidades, por conseguinte, apontando o interesse do público-leitor pelas narrativas da escritora Clarice Lispector, um importante nome da Literatura Brasileira. Entretanto, ao lançar um olhar para os movimentos de repercussão da obra sob a perspectiva teórica da Literatura Comparada, em particular, a partir do conceito solidariedade das fronteiras (solidarity of borders), é possível ver os traços dos movimentos da repercussão da obra de Lispector na França como os agentes responsáveis pela incursão da obra da escritora no sistema literário do centro da Europa, como também impulsionaram a recepção da obra em contexto da “outra” Europa. Apesar do movimento de repercussão da obra de Lispector na “outra” Europa ter seguido os ecos da França, um centro de poder, esse movimento de recepção da obra pode ser lido como um ato de cruzar fronteiras, o que consolida o diálogo de uma literatura de outra zona, no caso a Literatura Brasileira, pertencente a um sistema literário distante cultural e geograficamente dos países da “outra” Europa. É pertinente apontar que o movimento de circulação de literaturas está pautado, na maioria dos casos do século XX, pelos poderes do Eurocentrismo. Sendo assim, poderia ser esperado um diálogo entre literaturas do centro de poder da Europa (França e Inglaterra) com as literaturas da “outra” Europa. Se for retomada a categorização opositiva entre literaturas de “large lands” e de “small lands”, apresentada pelo teórico Georg Brandes, os percursos distintos traçados pelas literaturas europeias podem ser lidos como as literaturas do centro de poder da Europa sendo as literaturas representadas pela literatura-mundo e algumas exceções reservadas para as literaturas “menores” da Europa. Porém, a obra de Clarice Lispector rompeu as barreiras que até então engessaram as literaturas “menores” às margens do centro, barreiras estas que impunham a imobilidade e a invisibilidade no cenário da literatura-mundo.
A respeito da repercussão da obra de Clarice Lispector no Extremo Oriente, no recorte do Leste da Ásia, foram constatados poucos títulos da escritora traduzidos até o momento desta pesquisa. O primeiro registro de tradução de uma obra da autora no âmbito do Leste da Ásia foi o conto “Uma Galinha” (“めんどり”), do livro de contos Laços de família (1960) traduzido para a língua japonesa em 1977. O conto foi selecionado para compor um compêndio de Literatura Brasileira, intitulado Brazilian Literature short stories Latin American Novel, editado por Kazuko Hirokawa e traduzido por Renard Perez. Ainda no Japão, outros registros de traduções de obras de Clarice Lispector foram encontrados: uma edição especial composta pelo romance A paixão segundo G.H. e a coletânea de contos Laços de família publicados no ano de 1984, ambos traduzidos por Kunihiro Takahashi (G.H. の受難; 家族の絆). E, após 10 anos, as obras de Lispector voltaram a ser traduzidas para a língua japonesa: o conto “A quinta história” (“五番目の物語”), do livro A legião estrangeira, foi traduzido por Motoyuki Shibata e publicado na coletânea Bunshun Bunko Sudden Fiction 2 (1994). No ano de 1995, “A língua do P” (“Pことば”), outro conto do livro A legião estrangeira, integrou a coletânea de Literatura Mundial intitulada New Mystery-42 writers from around the world across genres, traduzido por Takiko Okamura. Em 2021, o romance A hora da estrela (星の時) foi traduzido por Nobuhiro Fukushima. Esta tradução recebeu o prêmio de melhor tradução literária do Japão (The 8th Japan Translation Awards) em 2022.
Em outro caso de disseminação da obra de Clarice Lispector no Leste da Ásia, na Coreia do Sul, pode ser afirmado que a recepção da obra da escritora brasileira iniciou tardiamente no final dos anos 2000. O primeiro registro de tradução de uma obra de Lispector para a língua coreana data de 2007: o romance A hora da estrela (1977) teve sua tradução para a língua coreana e recebeu o título alternativo Sua história sobre mim (나에 관한 너의 이야기), traduzida por Chu Mi Ook. Recentemente, dois registros de tradução de obras de Lispector têm recebido destaque na Coreia do Sul: uma coletânea de contos intitulada O ovo e a galinha (달걀과 닭), em 2019, e o romance A paixão segundo G. H. (G.H.에 따른 수난), em 2020. Ambas as obras foram traduzidas pela reconhecida escritora e tradutora sul-coreana Bae Suah. Cabe destacar que as traduções das obras não foram traduções diretas, ou seja, realizadas a partir da língua portuguesa, mas sim traduções indiretas do inglês e do alemão. Ademais, a coletânea de contos intitulada O ovo e a galinha (달걀과 닭, 2019) é uma seleção de contos dos livros Laços de família, A legião estrangeira e Felicidade clandestina, realizada de acordo com os critérios de valor da tradutora Bae Suah, ou seja, não segue a organização dos livros de contos de Lispector, como outras edições em língua estrangeira. Em uma entrevista sobre o processo tradutório dos livros de Clarice Lispector, Bae Suah (2019) declara que a decisão de traduzir os contos de Lispector para a língua coreana foi impulsionada pelo interesse em traduzir um texto literário desafiante que deveria ser lido pelo público coreano via tradução (Kim, 2020). Cabe destacar que estas duas obras de Clarice Lispector traduzidas para o coreano recentemente têm recebido certa atenção da imprensa e da crítica coreanas, visto que a tradução das obras foi realizada pela escritora Bae Suah. E, nos últimos anos, há as traduções de Min Seung Nam das obras Perto do coração selvagem (야생의 심장 가까이, 2022), Água viva (아구아 비바, 2023) e A hora da estrela (별의 시간, 2023). Entretanto, estas obras traduzidas para a língua coreana ainda não foram alvo da produção crítica na Coreia do Sul, sendo os artigos científicos publicados sobre a escritora Clarice Lispector na Coreia resultados da recepção da obra em língua portuguesa ou em língua inglesa, em contexto de Programas de Pós-Graduação em Estudos Lusófonos e Estudos Brasileiros em instituições de ensino superior na Coreia do Sul.
No caso da recepção da obra de Clarice Lispector na China, destaca-se o projeto de tradução realizado por Min Xuefei, professora do Departamento de Espanhol e Português do Instituto de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim. Min Xuefei teve as obras de Clarice Lispector - Perto do coração selvagem, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, A hora da estrela, Felicidade clandestina e Laços de família -, como objeto de investigação de sua tese de doutoramento em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra em 2018. Em entrevista (Min, 2020), Min Xuefei relata sobre o projeto tradutório das obras de Lispector e o impacto da responsabilidade em traduzir as obras de uma das maiores escritoras brasileiras para o mandarim (ibid, 2020).
A primeira obra de Clarice Lispector traduzida para o mandarim por Min Xuefei foi o romance A hora da estrela (星辰时刻), publicado em 2013. Anos depois, em 2016, o livro de contos Felicidade clandestina (隐秘的幸福) foi traduzido. Ademais, o livro de contos Laços de família (家庭纽带, 2021), é a tradução mais recente para a língua chinesa realizada por Min. Além desta, outra obra está em processo de tradução: o romance A paixão segundo G.H. (Beja; Min, 2020). A professora e tradutora Min aponta que a tradução da obra A hora da estrela tem sido bem recebida pelo público chinês e, em especial, tem recebido repercussão da mídia, tais como escritores chineses renomados (Beja; Min, 2020). Também consta uma coletânea de crônicas intitulada De escrita e vida (写作与生活), traduzida por Chen Di e publicada no ano de 2022. Outras obras de Clarice Lispector traduzidas mais recentemente na China são os títulos de literatura infantojuvenil traduzidos e publicados pela editora Shanghai People’s Fine Arts Publishing House, sendo eles Quase de verdade (Lispector’s Childish Story: The Truth the Puppy Tells You /李斯佩克朵童心故事:小狗告诉你的真相, 2022), O mistério do coelho pensante (título The Thinking Rabbit/爱思考的兔子, 2022), A vida íntima de Laura (The Childlike Story of Waves and Lispector: The Personal Life of a Hen The Childlike Story of Waves and Lispector: The Personal Life of a Hen /浪花朵朵·李斯佩克朵童心故事 :母鸡的个人生活, 2022), A mulher que matou os peixes (Waves and Flowers·Lispector’s Childish Story: Starting from the Death of a Little Fish/浪花朵朵·李斯佩克朵童心故事:从小鱼之死说起, 2022) e, por fim, a coletânea de lendas destinadas ao público infantojuvenil Como nasceram as estrelas (Waves and Flowers·Lispector’s Childish Stories: How Stars Are Born/ 浪花朵朵·李斯佩克朵童心故事 :星星是如何诞生的(精装, 2022). Também foi publicada uma coletânea de textos de Clarice Lispector intitulada Writing and Life (Collection of Works by Clarice Lispector) (写作与生活(克拉丽丝·李斯佩克朵作品集), também pela editora Shanghai People’s Fine Arts Publishing House no ano de 2022.
Ao analisar os movimentos de recepção das obras de Clarice Lispector na Ásia, em especial nos países do Leste Asiático em que foram encontrados registros de traduções, tais como o Japão, a Coreia do Sul e a China, constata-se que o cenário de tradução e de recepção da obra de Lispector ainda se mostra em desenvolvimento. De acordo com os dados encontrados no Japão, há dois momentos de tradução das obras de Clarice Lispector: o primeiro momento foi durante as décadas de 1980 e 1990 através do projeto de apoio à Literatura Brasileira promovido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Também devem ser destacados os compêndios de literatura-mundo produzidos no Japão que listam o nome de Clarice Lispector entre os grandes nomes da literatura contemporânea. Já o segundo momento compreende a tradução de A hora da estrela em 2021. Em contrapartida, os cenários da Coreia do Sul e da China apresentam registros recentes de traduções das obras da escritora brasileira, sendo datados de 2007 a 2023 e 2013 a 2022, respectivamente. No contexto da China destacam-se os projetos de tradução e de pesquisa realizados pela professora e tradutora Min Xuefei, os quais têm proporcionado a apresentação e a disseminação da obra de Clarice Lispector para o público da China e demais países que possuem o mandarim como língua oficial. Já na Coreia do Sul, destaca-se o interesse pela obra de Clarice Lispector em língua portuguesa no campo acadêmico no final da década de 2000 e início de 2010.
Se for considerado que os movimentos de tradução realizados por iniciativas de pesquisadores e professores universitários no Leste da Ásia estão concentrados no período de 2007 a 2022, torna-se pertinente compreender como a obra de Clarice Lispector cruzou fronteiras no período de globalização e não em décadas anteriores, sob influência dos movimentos de repercussão de Clarice Lispector na França. Sendo assim, o que teria motivado a recepção da obra da autora em contextos culturais e linguísticos tão distantes como os países do Leste da Ásia? Ao olhar para os movimentos de recepção da obra de Clarice Lispector em países do Extremo Oriente sob a perspectiva da solidariedade das fronteiras, as práticas de tradução e as relações políticas entre os países desempenham um papel importante no processo da Literatura Brasileira cruzando fronteiras linguísticas e geográficas. As práticas de tradução são decisivas para a construção de diálogos entre literaturas e o contato de uma literatura nacional com outros sistemas literários, visto que “as traduções constituem uma força visível nas trocas interculturais: uma força que conduz a mediações e negociações além das fronteiras geográficas e das identidades culturais” (Schmidt, 2018, p. 244, tradução minha).6 Assim sendo, ao refletir sobre as relações políticas do período, seria importante apontar o cenário de crescimento econômico do Brasil no período de 2003 a 2008, o Brazilian Boom (Magacho, 2016, p. 102-103), que impulsionou as relações diplomáticas e as transações entre o Brasil e países do Leste da Ásia, o que corroborou a divulgação da Literatura Brasileira em tradução. Outro ponto que deve ser mencionado é o novo movimento de tradução das obras de Clarice Lispector para a língua inglesa, editado por Benjamin Moser a partir do ano 2010. Este movimento configura-se, inevitavelmente, como uma zona de influência da língua inglesa como efeito da força do eixo Europa-Estados Unidos, pois diversos países iniciaram os processos de recepção da obra de Clarice Lispector via tradução após a repercussão das novas traduções para a língua inglesa. Entretanto, deve ser observado que o público do Leste da Ásia não limitou seu acesso às obras de Lispector nas traduções para a língua inglesa; pelo contrário, procurou dar espaço para a Literatura Brasileira promovendo traduções das obras. Portanto, os Estudos da Literatura Comparada da atualidade podem ser aqueles que proporcionam visibilidade para as literaturas de línguas de menor circulação, tal como a língua portuguesa, logo, não há necessidade de criar mapeamentos limitadores das literaturas periféricas, pois isto apenas isolaria as literaturas em categorias de literaturas nacionais ou literaturas de zonas, uma vez que “(...) Juntos nós podermos oferecer a eles a solidariedade das fronteiras que podem ser facilmente cruzadas, repetidamente, como uma interrupção permanente vindo por baixo da Literatura Comparada por vir” (Spivak, 2003, p. 15-16).7 Em conclusão, este mapeamento mostra que as obras de Clarice Lispector têm reconhecimento internacional devido à circulação de suas obras em diferentes esferas, rompendo as barreiras linguísticas e culturais e questionando o Eurocentrismo por meio da tradução, da crítica literária e da profícua relação entre literatura e culturas.
Considerações Finais
Ao longo do presente artigo foram mapeados os trânsitos realizados pela obra de Clarice Lispector no que tange processos de tradução, recepção e produção acadêmica, com o objetivo de instigar a reflexão sobre as práticas de Comparatismo que promovem diálogos entre literatura e cultura, bem como trazer questionamentos baseados em novas concepções, ou releituras, do conceito de literatura-mundo (world literature) no campo da Literatura Comparada. Ao ter como elemento norteador a noção de movimento impulsionado por crossing borders, ou cruzar fronteiras em português, proposta pela teórica Spivak (2003) , um elemento decisivo para a realização de práticas de estudo no campo do Comparatismo, a pesquisa apresentada neste artigo se propôs a investigar os movimentos de cruzar fronteiras da obra de Clarice Lispector em contextos culturais e distantes da língua portuguesa. Cabe destacar o importante papel dos agentes mediadores - pesquisadores, tradutores e críticos, os quais promovem a circulação da obra da escritora Clarice Lispector em diversos países e continentes, realizando leituras que vão além das fronteiras linguísticas do português brasileiro e dos limites geográficos do Brasil. Logo, retomo algumas questões pertinentes para o estudo: seria a obra de Lispector aquela capaz de romper as barreiras da literatura nacional? Seria a obra da escritora brasileira aquela que se aproxima das obras canônicas do eixo oeste da Europa-Estados Unidos que compreendem, majoritariamente, o corpus da literatura-mundo (world literature)? No que se refere à circulação da Literatura Brasileira, representada pela obra de Clarice Lispector, em países de literaturas menores, quais diálogos poderiam ser suscitados a partir do contato dessas duas literaturas ditas menores? Para responder a estas perguntas, mostra-se necessário tecer reflexões sobre a noção de literatura-mundo, uma vez que a obra de Clarice Lispector realiza trânsitos intensos, ao circular em outras esferas culturais e estabelece diálogos com outros contextos culturais e leitores, de forma a romper barreiras nacionais. Conforme destaca Bittencourt (2018, p. 27), as proposições de releitura da literatura-mundo devem inspirar embates, lacunas e atritos para o campo da pesquisa, de forma a estabelecer um cenário que analise as peculiaridades das literaturas em diálogo. Neste sentido, a literatura-mundo poderia ser vista como um modo de leitura que coloca em cena de discussão “Outras” literaturas, pois concede visibilidade às narrativas de outros universos literários e, dessa forma, vem a propor estudos comparatistas focalizando literaturas até então pouco estudadas. Ou seja, não são propostas pesquisas comparatistas que tenham como foco de discussão uma obra do centro, geralmente tal como pesquisas de valor Eurocentristas realizam. Chow (1995, p. 109) aponta o “Eurocentrism-in-the-name-of-the-other” (em tradução, “Eurocentrismo em nome do outro”), sendo uma postura presente tanto na prática dos estudos comparatistas como reproduzida no ensino da Literatura Comparada. Sendo assim, a crítica ao Eurocentrismo deve estar voltada para o questionamento da legitimação das literaturas de outras culturas que estão fora do contexto do Estado-nação com línguas nacionais da formação europeia, ou seja, as outras culturas também devem ser valorizadas no campo de ensino de literatura e cultura (Chow, 1995, p. 109). Portanto, o movimento de cruzar fronteiras realizado pela obra de Clarice Lispector aponta para uma nova forma de olhar a literatura-mundo, uma nova forma de ver os diálogos entre a Literatura Brasileira e as outras literaturas produzidas ao redor do mundo, no caso, aquelas literaturas de países em que ocorre a difusão da obra de Lispector via tradução e pesquisa. A difusão da obra de obra de Clarice Lispector aponta para uma audaciosa ação de cruzar fronteiras realizada por uma ficcionista brasileira, como aquela que foi capaz de questionar as fronteiras do nacional e o poder do Eurocentrismo para que, então, fosse possível romper as barreiras impostas às literaturas “menores”, ou às Outras literaturas, de forma a instigar reflexões e releituras do conceito de literatura-mundo.
Referências
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1
Cabe mencionar a produção do grupo de pesquisa Warwick Research Collective. Destaca-se a proposta de repensar as práticas da disciplina Literatura Comparada através da reorientação dos conceitos de literatura-mundo e de literatura global. Neste sentido, o coletivo de pesquisadores propõe pensar o conceito de literatura-mundo como “the literature of the world-system” (a literatura do sistema mundial), situado num sistema mundial capitalista moderno, colocando em relevo as relações ente literatura-mundo, países periféricos e os trânsitos no contexto Sul Global (ver mais em WreC/Warwick Research Collective, Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature. Liverpool University Press, 2015).
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2
No original: “(...) must always cross borders. And crossing borders, as Derrida never ceases reminding us via Kant, is a problematic affair”.
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3
No original: “One consequence of such enormity/invisibility is that while Brazilian writers are quite familiar with the traditions of Western thought, the West is to a great degree ignorant of Brazilian scholarly and literary production”.
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4
No original: “Borders are easily crossed from metropolitan countries, whereas attempts to enter from the so-called peripheral countries encounter bureaucratic and policed frontiers, altogether more difficult to penetrate”.
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5
No original: “(...) can work together in the fostering not only of national literatures of the global south but also of the writing of countless indigenous languages in the world that were programmed to vanish when the maps were made. The literatures in English produced by the former British Colonies in Africa and Asia should be studied and supported. And who can deny the Spanish and Portuguese literatures of Latin America?”.
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6
No original: “translations constitute a visible force in intercultural exchanges: a force that leads to meditations and negotiations across geographical borders and cultural identities”.
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7
No original: “(...) Together we can offer them the solidarity of borders that are easily crossed, again and again, as a permanent from-below interruption of a Comparative Literature to come”.
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Este artigo é originado da tese “Para uma literatura-mundo: corpos simbólicos-imagéticos na obra de Clarice Lispector e Park Wan Seo”. Tese orientada pela Professora Dra. Rita Terezinha Schmidt no Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil.
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Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa:
Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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