Open-access Escritos de Carolina Nabuco na imprensa dos anos 1930

Carolina Nabuco’s writings in the Brazilian 1930’s press

RESUMO

A obra mais conhecida de Carolina Nabuco (1890-1981) é o romance A sucessora (1934), publicado no ciclo do Romance de 30. O título, bem recebido pela crítica, ficou efetivamente famoso devido ao suposto plágio pela inglesa Daphne du Maurier. Esse episódio acabou obliterando a variada produção de Nabuco, ao menos na historiografia literária mais recente. Pouco se tem falado de suas outras obras (ficção, biografias, ensaios), entre as quais está a colaboração em periódicos, especialmente os da imprensa, que é o objeto deste artigo. Um levantamento na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e em outras bases, circunscrito a três estados brasileiros e aos anos 1930, encontrou 33 textos de Nabuco em jornais, revistas, boletins e anuários. O presente artigo apresenta os métodos e resultados do levantamento e discorre sobre os textos encontrados. Uma breve análise desses textos, por ora não aprofundada, mostra a recorrência de alguns temas: a relação entre maturidade literária e formação nacional, a Abolição, e a visão do Brasil como país do futuro.

PALAVRAS-CHAVE:
Romance de 30; governo Getúlio Vargas; mulheres na literatura brasileira; ideologia católica; literatura e nação

ABSTRACT

Carolina Nabuco’s (1890-1981) best-known work is the novel A sucessora (1934), published in the cycle of the “Romance de 1930”. The title, well received by critics, became effectively famous due to alleged plagiarism by the English writer Daphne du Maurier. This episode ended up obliterating Nabuco’s varied output, at least in more recent literary historiography. Little has been said about her other writings (fiction, biographies, essays), among which is her collaboration in periodicals, especially those of the press, which is the subject of this article. A search in the Hemeroteca Digital of Biblioteca Nacional and in other databases, circumscribed to three Brazilian states and the 1930s, found 33 texts by Nabuco in newspapers, magazines, bulletins and annuals. This article presents the methods and results of the survey and discusses the texts found. A brief analysis of these texts, which for the moment is not in-depth, shows the recurrence of certain themes: the relationship between literary maturity and national formation, Abolition, and the vision of Brazil as the country of the future.

KEYWORDS:
Romance de 30; Getúlio Vargas government; women in Brazilian literature; Catholic ideology; literature and nation

Em fins de 1934, há exatos 90 anos da escrita deste artigo, foi lançado A sucessora (Nabuco, 2018), romance de Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981) com ao menos oito edições até hoje. O livro foi bem recebido pela crítica, mas a própria autora (Nabuco, 1973, p. 111) reconhece que a efetiva fama se deveu a um fator externo: a suspeita de plágio por Daphne du Maurier em Rebecca, de 1938, cuja versão fílmica de Alfred Hitchcock ganhou dois Oscars em 1940 e estreou no Brasil em agosto desse ano. O Rebecca brasileiro foi traduzido por Lygia Junqueira Smith e Monteiro Lobato e saiu no primeiro semestre de 1940 pela Companhia Editora Nacional. Essa mesma casa lançara A sucessora em 1934, mas as duas edições que se beneficiaram da polêmica, em 1940 e 1941, foram da José Olympio.

Ao mesmo tempo em que promoveu o romance, o episódio do plágio enevoou uma obra profícua e reconhecida em seu tempo. Nabuco publicou em diversos gêneros: na ficção, um segundo romance, Chama e cinzas (1947), e o volume de contos O ladrão de guarda-chuva e dez outras histórias (1969); as biografias A vida de Joaquim Nabuco (1929), Santa Catarina de Sena: sua ação e seu ambiente (1957), A vida de Virgílio de Melo Franco (1962), e suas próprias memórias, Oito décadas (1973). Completam sua produção os ensaios Visão dos Estados Unidos (1953) e Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (1967), o Catecismo historiado: doutrina cristã para a Primeira Comunhão (1940) e o receituário memorialístico Meu livro de cozinha (1977).1

O apagamento mais geral de Carolina Nabuco do cânone literário brasileiro talvez se deva também a seu perfil de mulher conservadora, duplamente disfórico na axiologia do Romance de 30 - escritores “de direita” (como Octavio de Faria) e escritoras “engajadas” (como Rachel de Queiroz), ao assumirem apenas uma das disforias, tiveram melhor aceitação. Dos poucos estudos recentes dedicados à sua produção, os mais importantes abordam justamente esse apagamento: Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem comportada?, de Marcelo Medeiros da Silva (2011), e Femmes écrivains et représentation du féminin dans le “Romance de 30” au Brésil, de Giulia Manera (2016). Nos demais estudos, a abordagem se volta para A sucessora, especialmente quanto ao plágio (Amorim, 2022) e ao tema da segunda esposa (Ribeiro; Silva, 2024; Santos, 2022; Silva, 2020; Silva; Botoso, 2019). Exceção a isso são trabalhos dedicados a elementos específicos da dimensão estética de A sucessora, como o espaço (Ferrão Neto, 2012; Silva, 2012), ou os que exploraram outras obras de Nabuco, como Chama e cinzas (Silva, 2018) e os ensaios sobre a literatura estadunidense (Pinheiro, 2024; Muzart, 2013).

Considerando o ótimo tratamento dado pelos estudos de Silva (2011) e Manera (2016) ao aspecto da importância de Nabuco para a discussão da escrita de mulheres, talvez seja o momento de percorrer outras searas. Aparentemente, permanecem pouco ou não exploradas as demais publicações da autora, entre elas a colaboração de Nabuco com periódicos jornalísticos e literários, que é o interesse deste artigo. Tal interesse surgiu durante uma investigação sobre a inserção de A sucessora no Romance de 30, realizada em 2022,2 quando procedi a uma busca, em periódicos do acervo da Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), por pistas da recepção do romance. Junto a essas ocorrências apareceram também vários textos assinados por Nabuco. Não sendo o caso de examiná-los naquele momento, retornei a eles em 2024, em pesquisa financiada pela Lei Paulo Gustavo de Curitiba.3 Os desenvolvimentos e achados dessa pesquisa são apresentados nas seções a seguir. Parto da explanação do método de busca e de seleção dos textos e apresento os títulos obtidos. Em seguida, trato dos textos em conjuntos temáticos e os coloco em diálogo entre si e com algumas outras obras de Nabuco. Por fim, chamo a atenção para um dos temas recorrentes nesses escritos, que é a relação entre maturidade literária e formação nacional.

Procedimentos de busca e textos encontrados

A consulta na base da Hemeroteca foi a partir de busca da palavra-chave “Carolina Nabuco”, inicialmente em periódicos dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo veiculados entre 1930 e 1939. O período testemunha a ascensão intelectual e política da autora; são dessa década o lançamento de A sucessora, a outorga do prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) por A vida de Joaquim Nabuco e o seu protagonismo em ao menos seis conferências no Rio de Janeiro e em Recife. As notícias em jornais fluminenses e paulistas sobre as conferências em Recife me levaram a ampliar o escopo da busca para periódicos de Pernambuco. Quanto à década, ela também é relevante porque, apesar de desaprovar a Revolução de 30 e o próprio Getúlio Vargas (Nabuco, 1973, p. 94-96), a autora teve papel de destaque em diversas iniciativas realizadas por esse governo.

Os conteúdos encontrados (ocorrências com menção ao nome da escritora) se dividem entre 1) os que citam Carolina Nabuco e 2) os que são assinados por ela. Os conteúdos do grupo 2 foram automaticamente integrados ao corpus, mas houve também contribuições a que cheguei a partir de ocorrências do grupo 1, pois entre elas estão notícias e anúncios que citam a autora como colaboradora de outras publicações. Essas publicações foram buscadas tanto na Hemeroteca da FBN quanto em outros acervos e, quando encontrado, o texto referido foi incluído no corpus.

A busca ampla na Hemeroteca Digital (e dirigida nos demais acervos) resultou em 687 ocorrências com o nome “Carolina Nabuco” distribuídas em 43 publicações do Rio de Janeiro, 10 de São Paulo e seis de Pernambuco, na maior parte periódicos da imprensa ou de literatura. Dessas quase 700 ocorrências, 45 são textos de nossa escritora.4 Foram também consideradas nessa categoria as cartas de Nabuco reproduzidas em jornais e as entrevistas em que há citação direta de sua fala. Descontadas as repetições (alguns textos foram veiculados em mais de uma publicação), tem-se 33 contribuições únicas. Esse conjunto está listado no Quadro 1 em ordem cronológica e com entrada pelo nome da publicação e data de veiculação - fórmula adotada daqui em diante para referência aos textos do corpus.5 Para textos publicados mais de uma vez, a entrada é pela publicação mais antiga e a repetição é informada na mesma célula.

O exórdio da escritora

Nabuco (1973, p. 215) assume em suas memórias o precoce desejo de escrever. Suas primeiras iniciativas seriam dos anos 1910, quando a família voltou ao país após a morte de Joaquim Nabuco (1849-1910), que era embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Teria publicado nessa época algumas crônicas no A Noticia com o título genérico “Opiniões de Eva” e enviado contos para concursos promovidos por jornais. Encontrei um dos premiados, “A mascara” (Nabuco, 1922), saído n’O Jornal. A década de 1920 foi quase toda dedicada à escrita de A vida de Joaquim Nabuco, lançado no início de 1929 pela Companhia Editora Nacional e com trechos veiculados previamente na imprensa em 1926 e 1928. A biografia recebeu o Prêmio de Erudição da ABL em 1930; coube a Nabuco o discurso de agradecimento em nome de todos os contemplados daquele ano e sua fala foi publicada pelo Jornal do Commercio, por O Paiz (ambos em 30 jun.-1 jul. 1930) e pela Revista da Academia Brazileira de Letras (set. 1930).

Em janeiro de 1933, uma publicação de outro gênero: o poema “Diversidade”, na revista Brasil Feminino. Nessa lírica, Nabuco associa as fases da vida aos períodos do dia e defende que “O dia é bello por inteiro/ diverso”, incluindo a maturidade, tema que aparecerá em outro texto no final da década. Brasil Feminino circulou de 1932 a 1937. Foi dirigida por Iveta Ribeiro (1886-1962) e se posicionava como uma revista de mulher, para a mulher e pela mulher. Suas colaboradoras, oriundas da elite intelectual do Rio de Janeiro e de outros estados e países, manifestavam vozes progressistas ainda que não revolucionárias em termos de emancipação feminina.6 Como explica Lianina de Vargas Palacio (2020, p. 16), o conteúdo da revista “[…] difundia um ‘feminismo racional’, que se caracterizava pela manutenção estratégica de seus papéis [das mulheres] dentro da estrutura familiar heteronormativa e branca do Brasil, enquanto reclamava pelos direitos civis e por mais reconhecimento na vida pública”.

Os obituários

Os gêneros do discurso biográfico talvez tenham sido os preferidos de Nabuco. Neles incluo os obituários, textos em que a autora traça um perfil biográfico mesclado a memórias de sua convivência com as pessoas falecidas. Em 1934 ela escreve sobre a amiga Laly (Correio da Manhã, 18 mar. 1934), Anna Eulalia Monteiro de Barros (1891-1934), mulher oriunda da elite que perdeu seu status ao desafiar as convenções sociais (não teve filhos e se desquitou do marido). Laly trabalhou na biblioteca do Itamaraty e perdeu o emprego com a Revolução de 30; tentou sem sucesso outros trabalhos assalariados em que pudesse empregar sua cultura, mas encontrou portas fechadas. Por fim, foi colaboradora do jornal Correio da Manhã, o mesmo que publica o obituário. A carreira literária poderia ter sido um caminho para Laly não fossem as deficiências que Nabuco debitava na conta da educação recebida pelas moças de elite daquele tempo: “Laly fôra victima dessa formação cosmopolita que nos faz donas de muitas línguas nos salões, mas que nos paralyza a expressão escripta em qualquer uma dellas, quando se trata da precisão que a arte literaria requer” (Correio da Manhã, 18 mar. 1934). A própria Carolina vivera as contradições dessa formação: tendo sido alfabetizada em francês e escolarizada em inglês, até os 20 anos só dominava a variante oral da língua portuguesa, déficit que precisou superar para se tornar escritora (Nabuco, 1973, p. 52).

Ainda sobre o obituário de Laly, nota-se que a escrita devotada a homenagear e reabilitar a amiga também veicula firmes posicionamentos ideológicos. Nabuco se demora em um comentário da cronista a um livro que lamenta a Europa de então, um mundo ameaçado pelo “[…] inimigo do indivíduo e protector da massa, presidido pelo Estado que exige delle ‘o sacrificio da propriedade e da família, as duas ancoras ás quaes a creatura se agarra para não perder a consciencia de si mesma’ […]”.7 Salvador desse mundo seria o jovem Brasil, ainda sóbrio, sensato e unido, porto ameno ao qual uma degradada e empobrecida Europa poderia ancorar após a tempestade. A menção ao sacrifício da propriedade e da família, a um Estado inimigo do indivíduo, sugere uma discursividade anticomunista. As palavras são de Laly, mas Nabuco assina embaixo com um “Oxalá!” à proposta desse papel redentor do Brasil (Correio da Manhã, 18 mar. 1934). Posicionamentos desses carizes vão aparecer em outras contribuições de nossa escritora. Emblemática é a resposta a uma enquete proposta pelo O Globo em 1938 a respeito do divórcio. Nabuco, que é contra, vê no dispositivo um problema de épocas de inquietude e de caos como a vivida por parte do mundo naquele momento. Países que não tinham divórcio, como Argentina e Brasil, seriam exemplos de crescimento, segurança e fé no futuro; teriam conseguido se manter “alheios ao caos universal, fiéis aos princípios morais que sempre caracterizaram no mundo as épocas de estabilidade ou de formação robusta” (O Globo, 7 nov. 1938). Na Europa esse tipo de exemplo caberia à Itália (fascista), vista como “rejuvenescida”.

Além de “Laly”, mais três obituários compõem o corpus: o do juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935), no Correio da Manhã (9 mar. 1935), o do jornalista, poeta e empresário Felippe d’Oliveira (1890-1933), no boletim Lanterna Verde (fev. 1936), e o do frei Luiz Reinke8 (1872-1937) no Jornal do Brasil (6 abr. 1938). Nabuco conhecia o juiz de sua infância nos Estados Unidos, quando Holmes frequentava a embaixada brasileira em Washington liderada por Joaquim Nabuco. O franciscano Frei Luiz era figura de destaque na Petrópolis em que Carolina viveu com a família na volta ao Brasil. Laly e Felippe eram seus amigos e coetâneos. Como outros textos de Nabuco, esses quatro sairão em mais de uma publicação, sugerindo a boa recepção de sua escrita - ou a iniciativa da autora em difundir seu trabalho. O obituário de Justice Holmes foi veiculado também no Jornal do Recife (23 mar. 1935) e o de Frei Luiz na revista Excelsior (15 maio 1938); este e o de Felippe d’Oliveira foram aproveitados no livro de memórias, Oito décadas (1973). O texto sobre Laly saiu depois, com alguns cortes, no volume póstumo Outras terras, outras gentes (1935), que reuniu escritos de Eulalia e homenagens de amigos.

A colaboração com o Centro Dom Vital

O ano de 1934, que vira sair o romance A sucessora, assinala também o início da colaboração de Nabuco com a Columna do Centro, espaço de divulgação das ideias do Centro Dom Vital em O Jornal. O Centro Dom Vital foi uma associação civil laica, porém apoiada e supervisionada por autoridades católicas.9 Visava formar e atrair elementos da intelectualidade, inserindo-os depois na estrutura burocrática do Estado para pautar políticas públicas alinhadas aos interesses da Igreja. Posicionou-se inicialmente contra a Revolução de 30, mas aderiu ao governo assim que Getúlio Vargas se efetivou no poder. De postura fortemente anticomunista, apoiava, além do governo, os movimentos integralista e monarquista. Buscava “a institucionalização de um Estado forte, capaz de defender a Igreja católica do comunismo, e a própria divisão do poder entre a Igreja e o Estado, baseada na ‘superioridade do espiritual sobre o temporal’” (Kornis, 2009).

Em um estudo sobre o tratamento dado ao integralismo pelos jornais Correio da Manhã e O Jornal, Vinícius da Silva Ramos (2016) conclui que este, apesar de não ter sido um órgão do movimento, fora-lhe simpático ao omitir notícias sobre os episódios de violência protagonizados pelos camisas-verdes e funcionou mesmo como divulgador de sua agenda. A simpatia, que aumentava junto com prestígio do movimento, evidenciou-se especialmente em relação aos conflitos que marcaram o aniversário da AIB em outubro de 1934 (Ramos, 2016, p. 101). A AIB foi extinta em novembro de 1937, mas alguns de seus integrantes tentaram um contragolpe em maio de 1938. O período de veiculação da Columna do Centro se sobrepõe à cronologia desses acontecimentos. A coluna foi lançada em 2 de dezembro de 1934 com texto de Tristão de Athayde (1934), pseudônimo do escritor e líder católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983). A última veiculação foi em 23 de novembro de 1938. Ao menos até 1936 a coluna ocupou a porção central do segmento inferior da página três, parte nobre do jornal. A palavra “centro” diz respeito, então, à instituição patrocinadora dos textos e à sua posição topológica na diagramação da página.

Carolina Nabuco foi uma das primeiras a colaborar com a Columna do Centro. No texto “Culto e cinema” (O Jornal, 28 dez. 1934) a autora discute a transmissão da missa no cinema-jornal e os modos de não esvaziar a mística do sacrifício eucarístico. A atenção ao meio de comunicação aparece também em “Pelo bom cinema” (O Jornal, 25 mar. 1936, Diario de Pernambuco, 12 abr. 1936), última de suas colaborações para o espaço. Nele a autora divulga e manifesta apoio às iniciativas de moralização do cinema brasileiro encabeçadas por Darcy Vargas (1895-1968) e pela Aliança Católica, citando os efeitos positivos do Código Hays, a autocensura que já estava em prática nos estúdios cinematográficos dos Estados Unidos. A abordagem eclesiástica se mantém em três dos artigos publicados na Columna em 1935. “Hoje” (O Jornal, 27 fev. 1935) coloca em debate visões pessimistas e otimistas sobre a situação do cristianismo naquele momento. Nabuco acreditava que a época era de retorno ao espiritual em detrimento do material e ostentatório que caracterizaram o século XIX e que as demandas por igualdade social poderiam vir a ser favoráveis à Igreja.10 “A renovação do catecismo” (O Jornal, 27 jul. 1935; Diario de Pernambuco, 3 ago. 1935) discorre sobre os métodos de ensino religioso e defende a importância dos compêndios mais do que a pedagogia. A própria Nabuco publicaria em 1940 um desses compêndios, Catecismo historiado: doutrina cristã para a Primeira Comunhão, pela José Olympio.11 Por fim, em “Freiras administradoras” (O Jornal, 14 set. 1935), a autora evoca o tempo em que o antigo Hospício D. Pedro II estivera a cargo de irmãs de caridade e atesta a superioridade dessa gestão em comparação à laica, advinda quando a República substituiu as religiosas por enfermeiros “mercenários”. Por fim, houve “Desmorona o lar?” (O Jornal, 27 dez. 1935; Diario de Pernambuco, 4 jan. 1936), talvez o mais interessante dos textos de Nabuco para a Columna. Partindo da reivindicação de uma feminista parisiense para o retorno da operária ao labor exclusivamente doméstico como forma de evitar sua exploração nas fábricas, a autora questiona se o fato de a mulher trabalhar fora seria efetivamente uma ameaça à unidade do lar. Para Nabuco, a família toda já estava “fora do lar” tanto devido ao pouco espaço das casas (dos pobres) quanto à atratividade dos divertimentos públicos (também para os ricos). Os novos tempos não destroem a família, que tem força para se adaptar a eles e se manter unida. Quanto à exploração das mulheres nas fábricas, Nabuco parece bem consciente: concorda que elas “[…] continuam escravas, mas de outro serviço, e talvez variar de escravidão seja, na falta de melhor, ainda uma forma de liberdade” (O Jornal, 27 dez. 1935).

Outra colaboração da autora com o Centro Dom Vital foi uma publicação no seu órgão oficial, a revista A Ordem, fundada em 1921. Trata-se de “Nabuco e o espírito de luta” (A Ordem, nov. 1936), conferência proferida na Faculdade de Direito de Pernambuco, Recife, em 3 de novembro de 1936. O texto ressalta as posturas reflexivas assumidas por Joaquim no fim da vida, depois da conversão ao catolicismo. Nesse sentido, reinterpreta ou relativiza ideias outrora expressas por ele e que não se coadunavam com o posicionamento da Igreja. Defende a propriedade privada, propõe o Estado como responsável pela saúde e educação dos pobres, mas a pobreza como algo que sempre existirá, e o cristianismo como a chave de leitura desses problemas. Concorda com as reformas sociais desde que não se insufle o ódio de classe.

As conferências de 1936

A conferência publicada em A Ordem foi a primeira das duas proferidas em Recife, em outubro e novembro de 1936. Sobre a segunda, falarei logo a seguir. Antes, em maio, veio sua participação na série de conferências promovidas pelo ministro da Educação de Vargas, Gustavo Capanema (1900-1985), com vistas a traçar as diretrizes da educação nacional. A primeira da série coube a Tristão de Athayde com o tema “A educação e o comunismo” e a segunda ao médico Fernando Magalhães (1878-1944), sobre “A educação e a democracia”. Nabuco falou sobre “A educação e a mulher” e, depois dela, o advogado e deputado Raul Fernandes (1877-1968) falou sobre “A educação e a paz”. O general Góes Monteiro (1889-1956) falaria sobre “A educação e a guerra”, mas, segundo Nabuco (1973, p. 114), essa conferência não aconteceu. Desses cinco conferencistas, os três primeiros eram seguramente relacionados ao Centro Dom Vital. De fato, a educação foi uma das áreas em que o grupo mais atuou junto ao governo (Arduini, 2014, p. 69).

A conferência de Nabuco aconteceu no dia 30 de maio e foi amplamente divulgada pela imprensa. A partir de 8 de maio são mais de 30 menções em 11 periódicos anunciando o evento, e quase 20 menções nas duas semanas após a realização. Nesse pós-evento destaca-se o jornal A Nação (31 maio 1936), que publicou o texto da conferência nas edições de 31 de maio e de 2, 3, 4, 5, 6, 9 e 10 de junho. O conteúdo dessa comunicação merece um estudo à parte, mas, em linhas gerais, a autora chancela a ideia de que homens e mulheres têm inteligências distintas, a deles mais abstrata e profunda e a nossa mais instrumental e superficial. Nesse sentido, a educação poderia fazer muito mais pelos homens do que pelas mulheres. No entanto, a existência de exceções como uma Marie Curie justificaria que fosse dada às mulheres a mesma instrução destinada aos homens. Quanto ao papel da mulher na educação, este incluiria a defesa da família, a instrução moral dos filhos, a fiscalização das políticas educacionais e a atuação como professora.12

Alguns meses depois a escritora será convidada pelo governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti (1892-1967), para visitar Recife e proferir palestra sobre Joaquim Nabuco no Theatro Santa Isabel. O convite foi enviado em 11 de agosto e a carta de resposta, de 2 de outubro, publicada dias depois no Diário da Manhã (7 out. 1936). Nessa carta Carolina propõe falar sobre o Joaquim que se mostra no livro Pensées detachées et souvernis, escrito em francês e lançado em Paris em 1906. O tema convinha à filha, pois em 1937 ela publicaria a tradução da obra (Pensamentos soltos) pela Companhia Editora Nacional. A conferência recebeu o título de “Joaquim Nabuco e seu último livro” e foi realizada em 26 de outubro, dois dias após a chegada da autora à capital pernambucana. No início do ano seguinte o texto saiu no Boletim de Ariel (fev. 1937). Nele, Nabuco atribui ao pai, na maturidade e após a conversão ao catolicismo, mais acuidade para ver e descrever. Ressalta que Pensées é um livro religioso, mas não católico, pois nele haveria algumas heresias.

A viagem teve grande repercussão na imprensa. São mais de 80 ocorrências relacionadas à estadia e também a seus desdobramentos, como a publicação das conferências nos periódicos e em livro,13 a entrega de um exemplar desse livro à ABL, o pitoresco caso de um anúncio pedindo a devolução de um álbum de autógrafos perdido durante evento com a escritora na Juventude Católica Feminina, além de entrevistas e da reprodução da correspondência com o governador. Já de volta ao Rio,14 Nabuco enviou outra carta a Carlos de Lima Cavalcanti, datada de 11 de novembro (Diário da Manhã, 24 nov. 1936). Ela agradece a recepção e se diz orgulhosa de ser brasileira e impressionada com o progresso de Pernambuco.

Essas ideias de sentimento nacional associado ao progresso civilizatório já tinham aparecido em uma entrevista concedida no dia do desembarque em Recife, quando ofereceu suas primeiras impressões sobre a cidade:

- Foi uma surpreza para mim - disse - encontrar uma cidade tão interessante como o Recife. Não é que eu não tivesse a certeza de aqui encontrar uma grande cidade, moderna, com todos os attributos exigidos pela civilização. Varias vezes essa certeza foi por mim sentida. O que me surprehendeu é tel-a encontrado muito maior que eu esperava, mais attractiva que a que me pintaram, mais suggestiva na sua natureza privilegiada. E o que me encantou de modo especial é o facto de ter o Recife attingido tamanho progresso sem perder certos traços arquitetônicos puramente brasileiros. (Diário da Manhã, 25 out. 1936).

Concedeu duas outras entrevistas no retorno ao Rio. À Gazeta de Noticias (10 nov. 1936), falou exclusivamente sobre as conferências ministradas; a’O Jornal (10 nov. 1936), transmitiu também suas impressões sobre Recife, agora enriquecidas pelas duas semanas de visita:

Tive a impressão de que o Norte é muito mais Brasil do que o Brasil que eu já conhecia e onde vivo. Encontrei uma physionomia que não se alterou ainda com as multiplas influencias da civilização moderna, que ficou nossa, das mais antigas, das mais nobres, das mais tradicionaes. O coqueiro é muito mais brasileiro que o arranha-céo e pareceu-me também muito mais bonito. (O Jornal, 10 nov. 1936; Diario de Pernambuco, 11 nov. 1936).

Nabuco estabelece uma oposição entre progresso e conservação, cultura e natureza. Apesar de não recusar a modernidade de Recife, considera-a representante de uma civilização mais antiga, mais nobre, mais tradicional, cuja fisionomia ainda não fora, como a do Rio de Janeiro, alterada pelas inscrições da civilização moderna. O coqueiro estaria para Recife assim como o arranha-céu para o Rio, e o primeiro seria mais brasileiro e mais bonito porque também é mais antigo, mais tradicional. O Jornal deve ter apreciado a alegoria, pois a reproduz três vezes na matéria. Mas em outros contextos a comparação talvez não tenha sido bem-vista. Em março de 1937, a Revista Universidade, publicada pela Faculdade de Direito do Recife, veicula um texto que soa como desagravo. Nele Nabuco corrige suas “Impressões de viagem”15 ao reabilitar os arranha-céus no Rio de Janeiro (por não terem escondido de todo a paisagem) e antecipar sua onipresença também na capital pernambucana, em uma passagem assustadoramente premonitória se se considera a configuração atual das margens do Capiberibe:

Declarei até que o coqueiro era mais bonito e muito mais brasileiro que o arranha-ceu, mas confesso que quando o Highland Brigade […] me proporcionou, á entrada da bahia Guanabara, uma vista simultanea dos altos edificios do Rio, […] eu me reconciliei com os arranha-ceus. […] não só lhes aprovei a altura, mas despojei-os do seu nome pitoresco. […] No Recife, é verdade, o nome lhes terá que ficar, quando as torres das velhas Igrejas não dominarem mais o casario. […] Mas ha de vir o dia em que o Capibaribe correrá em sua largura majestosa entre alas de edificios altos, e em que o arranha-ceu, já aclimado no Brasil, já absolvido pelas convenções estheticas, sempre lentas de evoluir, da pecha de vulgaridade, não parecerá menos nosso que o coqueiro. (Revista Universidade, mar. 1937).

Ensaios e conferências sobre os Estados Unidos e sua literatura

Carolina Nabuco passou o final da infância e a adolescência na Inglaterra e nos Estados Unidos e foi escolarizada nesses dois países, o que explica seu conhecimento e interesse pela literatura de língua inglesa. Mais tarde, entre outubro de 1949 e fins de 1951, morou novamente nos Estados Unidos, acompanhando o irmão Mauricio Nabuco (1891-1979), embaixador do Brasil em Washington. Registrou suas impressões em crônicas veiculadas no Correio da Manhã e depois reunidas no livro Visão dos Estados Unidos, de 1953. Escreveu ainda Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (Nabuco, 2000), lançado pela José Olympio em 1967 e reeditado pela Nova Fronteira.

Muitos dos ensaios de Retrato dos Estados Unidos evocam textos publicados em periódicos na década de 1930. Por exemplo: o livro dá relativo destaque ao escritor socialista Sinclair Lewis, que já tinha sido abordado por Nabuco (junto ao inglês John Galsworthy16) no artigo “Dois livros de nobelistas” (Boletim de Ariel, jan. 1936). Menos diretamente, a atenção que Retrato dedica aos contistas se relaciona com “Americanização do conto”, saído na Revista do Brasil (nov. 1938) e n’A Cigarra (jun. 1939). Nesse texto, a autora avalia que o desenvolvimento do cinema teria provocado a decadência quantitativa do conto naquele país, tendo as revistas de celebridades substituído as de short stories. Por outro lado, a redução numérica não seria acompanhada da qualitativa. Ao contrário: “Como obra de arte, [o conto] continua cercado de um carinho como talvez outro paiz ainda não lhe concedeu. Todas as contas feitas, isto é o essencial” (Revista do Brasil, nov. 1938, p. 529).

A partir de seus estudos sobre a literatura dos Estados Unidos, Nabuco chega à seguinte formulação, publicada em outra colaboração periódica:

A maioridade literaria é tardia. É a ultima que chega aos paizes novos. Nem poderia ser de outro modo, uma vez que a literatura é apenas o reflexo do ambiente, o reflexo da alma e da civilização, que uma nação precisa primeiro criar para depois seus escriptores refletirem. A primeira hora não pertence aos artistas, mas aos homens de acção, aos colonizadores que ocupam e subjugam a terra, aos patriotas que edificam com solidez o sentimento nacional. Depois, por sua vez, os escriptores influem no desenvolvimento do paiz. Não deixam de ter tambem acção, mas á sua maneira, esclarecendo os espiritos ou inspirando novos feitos. Os escriptores são um pouco como as abelhas. Precisam de achar o jardim já plantado. Depois produzem o mel. Felizmente o verdadeiro artista nunca é a mosca do coche. A profissão das letras produz tambem essa especie, mas a historia literaria não lhes recorda os nomes. (Mensario do Jornal do Commercio, nov. 1938, p. 525, grifos meus).

Trata-se do primeiro parágrafo de “Historia literaria dos Estados Unidos”, conferência proferida por Nabuco em 1938 no âmbito de uma série organizada pelo Instituto Brasil-Estados Unidos. Esse mesmo excerto, apenas ele, aparece integralmente no ano seguinte na revista Aspectos (fev.-mar. 1939, p. 135), e depois é aproveitado, com alguma modificação (ver os grifos na citação anterior), no capítulo inicial de Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura:

A maioridade literária é tardia. É a última que chega aos países novos. Os escritores, como as abelhas, precisam achar o jardim já plantado, para depois produzir o mel. Assim a primeira hora americana não pertenceu a literatos mas a homens de ação, aos colonizadores e patriotas que criaram e solidificaram o sentimento nacional. (Nabuco, 2000, p. 11).

Nabuco acredita que a literatura de um país depende da consolidação civilizatória e do sentimento nacional, e isso valeria também para a nossa. No texto “Historia literaria dos Estados Unidos” a autora menciona que o Brasil já vinha produzindo grandes escritores (Machado de Assis, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco). Porém, apesar de “tocados por algo essencialmente brasileiro”, eles ainda não teriam feito literatura brasileira original, pois

[…] a literatura dum paiz só começa de facto quando os escriptores descrevem aquillo que o publico conhece e que, ou não é capaz de descrever elle mesmo, ou já deixou de ver, pelo habito. Entre nós, no principio do seculo actual, ainda não existia uma percepção completa do ambiente, a percepção attingindo o inconsciente, donde vem a inspiração. […] Isto para nós principiou ha talvez vinte annos. A literatura americana e mais velha. Terá oitenta. (Mensario do Jornal do Commercio, nov. 1938, p. 526).

A quem tenha lido A sucessora, essa passagem soará familiar. Já no final do romance, a protagonista Marina deixa a casa do marido e volta para a fazenda, no interior do Rio de Janeiro, onde vivera até antes de se casar. Estamos em fins dos anos 1920, a viagem é demorada, são horas de trem e depois de carro. Durante o trajeto a personagem mergulha em uma reflexão profunda sobre a exuberante natureza brasileira que margeia a estrada. Inicialmente seu sentimento é de rejeição; tem o gosto moldado pela literatura europeia, que a ensinou a apreciar outro tipo de paisagem. Oprimida pelo espaço da estrada, ora fechado pela vegetação, ora aberto em campos e morros, Marina elabora:

O homem ainda não criara, nesta terra nova [o Brasil], beleza alguma. Sua colaboração não passara por enquanto do combate perene, contra a vegetação que, da noite para o dia, apagava os traços humanos. […] Na incipiente literatura brasileira, ninguém ainda lhe despertara a atenção, ninguém lhe apontara o que seus olhos não sabiam ver. (Nabuco, 2018, p. 157-158).

Outro possível gérmen dos ensaios que aparecerão em livro em 1967 é “A mentalidade americana nas letras”, que sai no Jornal do Commercio em 27 de agosto de 1939 e também no título que republicava os artigos de colaboração do periódico (Mensario do Jornal do Commercio, ago. 1939). O texto, oriundo de uma conferência ministrada em 16 de agosto durante a Exposição do Livro Norte-Americano Moderno, instalada na Biblioteca Nacional entre 7 de agosto e 8 de setembro daquele ano (Exposição, 1939, p. 550-551), apresenta um perfil quase antropológico da sociedade estadunidense a partir dos tipos humanos e valores presentes na prosa de ficção e na poesia daquele país.

Algo semelhante pode ter sido planejado em relação ao Chile, onde Nabuco ficara de maio a dezembro de 1937. Isso se depreende de uma entrevista, concedida logo após o retorno, em que a autora menciona o processo de escrita de um livro sobre a república transandina (Folha da Noite, 13 dez. 1937). Nos estudos que publicam sua bibliografia não aparece menção a livro com tal assunto, mas Nabuco (1973, p. 104-108) dedica quatro páginas de Oito décadas às memórias dessa visita.

Sobre a Abolição

Em 21 de outubro de 1938, Carolina Nabuco participou do III Congresso Nacional de História, realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Junto à educadora Branca Ozório de Almeida Fialho (1896-1965), foram as únicas congressistas mulheres, fato destacado na imprensa (Silva, 1938, p. 4). Em sua comunicação, “O elemento servil: a abolição” (Boletim do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1941) a autora traça um histórico da escravidão e do processo de abolição fundamentado em documentos e em dados estatísticos. Sua leitura do acontecimento, porém, assim como a de outros intelectuais da época, é bastante edulcorada,17 minimizando o sofrimento das pessoas escravizadas e negando o racismo da sociedade brasileira. Nabuco chega a ver como benéfica para as pessoas escravizadas a consolidação do patriarcado agrícola no qual tinha suas origens:

Em tempo, com a transformação do Brasil num vasto patriarcado agrícola, com a vinda das famílias, com a familiaridade entre senhores e escravos já oriundos ambos do solo brasileiro, com os traços de bondade que caracterizam a raça brasileira, a escravidão veiu a ser, entre nós, uma instituição relativamente suportavel para as vítimas. (Boletim do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1941, p. 241-242).

Quanto às figuras que lutaram pela abolição, a comunicação cita “o negro Luiz Gama”, que se fazia “o precursor da agitação para auxiliar a fuga de escravos e desmoralizar o princípio da escravidão” (Boletim do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1941, p. 248). No apanhado de personagens abolicionistas, o advogado e jornalista Luís Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882) é mencionado apenas por essa participação em atos “revolucionários”, de agitação, vistos de modo negativo pela autora diante na atuação comedida e sem enfrentamento de outras figuras, a exemplo de seu pai e do engenheiro André Rebouças (1838-1898), como veremos logo adiante. No mesmo ano do Congresso, Nabuco tivera que dar contas da relação de sua família com Luís Gama diante da publicação do livro O precursor do abolicionismo no Brasil (Luiz Gama), de Sud Mennucci (1892-1948), lançado em 1938 pela Companhia Editora Nacional. Mennucci estranhava que Joaquim Nabuco e Gama não se tivessem citado em seus trabalhos, mesmo tendo convivido e lutado na mesma frente, e atribuía esse distanciamento a uma malquerença provocada por um artigo em que Gama acusava o pai de Joaquim de ceder de suas posições abolicionistas quando convinha. Carolina responde ao biógrafo e este replica. A troca de correspondência é publicada na imprensa em matéria com o título “A antipathia entre Luiz Gama e Joaquim Nabuco”. Carolina refuta a hipótese de Mennucci citando passagens dos escritos em que Joaquim menciona Gama. Mennucci, por sua vez, reafirma sua posição dizendo que nesses escritos Gama é apenas listado, e pergunta:

Por que se calaria elle, [Joaquim Nabuco] então, a respeito do trabalho e da obra de um authentico pioneiro, de um homem pobre, ex-escravo, que se avantajara a seu tempo, arrostando a pesada mentalidade que não admittia se discutisse siquer a instituição negra? Por que não ajudou Nabuco a esse homem, dando-lhe o conforto de seu elogio? (Folha da Manhã, 19 fev. 1939; Diário da Manhã, 4 jun. 1939).

De modo geral, Carolina Nabuco desaprovava a atitude de personalidades negras “revolucionárias” ou que expuseram a discriminação racial em sua militância. Parece ter sido assim com Luís Gama em “O elemento servil: a abolição”, pois também foi assim em relação a José do Patrocínio no seu comentário (“Pérolas de um livro recente”, Revista do Brasil, jul. 1939) sobre os diários de André Rebouças.18 Para Nabuco, Patrocínio era “exhibicionista até a alma” e aproveitava a cor para salientar o brilho de sua trajetória, para comover. Já em Rebouças aprovava a maneira lacônica com que o engenheiro aludia às injustiças sofridas,19 mas deplorava a veemência dele na crítica aos escravocratas, avaliando que isso desvalorizava o testemunho.

Brasil, porto seguro e país do futuro

Para encerrar esta discussão sobre as publicações de Carolina Nabuco em periódicos nos anos 1930, vejamos a crônica “Reflexões de fim de ano” (Jornal do Brasil, 31 dez. 1938), veiculada no último dia de 1938. O texto inicia comentando a arbitrariedade do Ano Novo, que permite às pessoas deixarem o indesejável para trás e fazer novos planos, e alude à diferente sensação da passagem do tempo para os jovens e para as pessoas maduras (Nabuco fará 49 em fevereiro do ano seguinte), o que remete ao poema “Diversidade” (Brasil Feminino, jan. 1933). O benefício de se chegar ao cume da meia-idade é poder contemplar a trajetória da própria geração:

Muito diversa da que observaram nossos pais e avós, que viram sua época desdobrar-se em construções de aspecto sólido e definitivo e aperfeiçoaram uma civilização, a paisagem do ultimo quarto de século, que nós, a geração da guerra, já podemos contemplar serenamente, foi mais da espécie de um terremoto, mas já agora com a claridade de um novo dia a surgir, a possibilidade de uma melhor confraternização entre as classes. (Jornal do Brasil, 31 dez. 1938).

A “geração da guerra” tem início em 1913 (“ultimo quarto de século”), véspera da Primeira Guerra Mundial. Para Nabuco, esse período convulso já pode, no fim dos anos 1930, ser contemplado serenamente. Apesar das mudanças em todas as áreas, a autora vê a possibilidade de uma melhor confraternização entre as classes; o individualismo teria sido vencido “pelo impulso da coletividade unida em busca de condições melhores que não sejam injustas nem sejam utopia” (Jornal do Brasil, 31 dez. 1938).

É intrigante que uma pessoa como nossa escritora, que frequentava círculos diplomáticos e do Governo Federal e que tinha interlocutores na Europa e nos Estados Unidos, visse nesse fim de 1938 um período de serenidade, a alvorada de um tempo de conciliação. A autora certamente não ignorava a Guerra Civil Espanhola, que se desenrolava desde 1936, nem a invasão da então Abissínia pela Itália, a anexação da Áustria pela Alemanha e outros conflitos bélicos em diversas partes do mundo, todos noticiados pelos jornais brasileiros.20 O otimismo do seu texto seria uma ficção, um atendimento à eventual encomenda de palavras positivas, de esperança? Ou se baseava na confiança de que o Brasil, mesmo diante do caos internacional, se manteria o porto seguro de sociedade estável e moralmente sólida aludido no obituário de Laly e na enquete sobre o divórcio?

Retrospectivamente (Nabuco, 1973, p. 123-126), a autora comenta que os primeiros meses da Segunda Guerra (cujo início foi posteriormente atribuído à invasão da Polônia pela Alemanha em setembro de 1939) foram vistos com certa despreocupação pela Europa ocidental, pois França e Inglaterra não acreditavam que a Alemanha fosse novamente (como na Primeira Guerra) desrespeitar a neutralidade dos países vizinhos. A ameaça foi sentida quando, a partir da invasão da Bélgica e da Holanda, Hitler tomou a França. O conflito se tornou uma preocupação apenas quando chegou à parte da Europa onde Nabuco passara parte da infância e a adolescência, e que contribuíra para sua formação cultural. Nessas memórias, o único comentário sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial refere-se à frieza com que a elite carioca tratou os representantes do governo de Vichy.

Observações finais

Neste artigo as aproximações entre as colaborações de Nabuco em periódicos dos anos 1930 e outras de suas produções foram feitas de modo não exaustivo e em relação a aspectos escolhidos por conveniência. Elas provêm da percepção proporcionada pelo contato extensivo com tais textos, e não de uma busca sistematizada por traços de um ou outro assunto. Sem querer ver nisso uma teleologia do pensamento de Nabuco, nota-se a permanência ou a retomada de certas ideias e formulações. O caso mais emblemático talvez seja o da sua visão a respeito da maturidade literária como manifestação do grau de civilização e nacionalização de um país, raciocínio teórico que está presente mesmo no texto ficcional de A sucessora e que será desenvolvido nas produções ensaísticas subsequentes, até se consolidar na obra Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura, de 1967.

Com o levantamento e a breve apresentação desses textos de Nabuco e o apontamento de recorrências temáticas, este estudo lança o convite a um exame mais detalhado da obra da escritora, de sua genealogia e de suas filiações teóricas, estéticas, sociais, filosóficas e políticas. Carolina Nabuco merece ser mais e melhor investigada para além do plágio de A sucessora, como integrante do cânone literário e como intelectual representante da mentalidade brasileira, inclusive naquelas facetas que ainda hoje nos debatemos para superar.

Fontes

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    » https://bdr.parisnanterre.fr/theses/internet/2016PA100132/2016PA100132.pdf
  • MOOG, Vianna. Um rio imita o Reno Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
  • MUZART, Zahidé Lupinacci. Carolina Nabuco: uma lady em nossa literatura. Anuário de Literatura, Florianópolis, v. 18, n. esp. 1, p. 71-88, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.5007/2175-7917.2013v18nesp1p71 Acesso em: 11 nov. 2024.
    » https://doi.org/10.5007/2175-7917.2013v18nesp1p71
  • NABUCO, Carolina. A mascara. O Jornal, Rio de Janeiro, ano IV, n. 1.184, p. 1-2, 23 nov. 1922. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/110523_02/10842 Acesso em: 12 nov. 2024.
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  • NABUCO, Carolina. Oito décadas Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.
  • NABUCO, Carolina. A sucessora São Paulo: Editora Instante, 2018.
  • PALACIO, Lianina de Vargas. Brasil Feminino: disputas discursivas, alianças políticas e escrita de mulheres na imprensa entre 1932 e 1937. 2020. 175 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/220492 Acesso em: 12 nov. 2024.
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  • PINHEIRO, Ulysses. Carolina Nabuco e o retrato de Henry James: uma escrita expatriada. In: PUGLIESE, Nastassja; SECCO, Gisele; OLIVEIRA, Bernardo (org.). Vozes: mulheres na história da filosofia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2024. p. 208-220.
  • RAMOS, Vinícius da Silva. As folhas dos jornais eram verdes? A Ação Integralista Brasileira nas páginas de O Jornal e Correio da Manhã (1933-1938). 2016. 110 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/13198 Acesso em: 6 nov. 2024.
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  • RELAÇÃO de sócios. A Ordem, Rio de Janeiro, v. LII, n. 4, p. 75-83, out. 1954. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/367729/24987 Acesso em: 8 nov. 2024.
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  • RIBEIRO, Luiz Izaac dos Santos; SILVA, Tályson Marques da. A condição humana sob a perspectiva do ciúme em A sucessora In: BORTOLETTO, Fernanda Favaro; ROCHA, Gustavo Moreira; ESTEVES, Natacha dos Santos. As insurgências e resistências das minorias minorizadas: ebook do I Colmma. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2024. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1KPDcDA2w6U-bcQPe7_KSRwyJ4K2C8A4E/view Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://drive.google.com/file/d/1KPDcDA2w6U-bcQPe7_KSRwyJ4K2C8A4E/view
  • SANTOS, Ana Paula Araujo dos. “Fiel até a morte”: uma análise do passado gótico em A sucessora (1934) e Rebecca (1938). Literartes, v. 1, n. 16, p. 206-222, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9826.literartes.2022.202761 Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://doi.org/10.11606/issn.2316-9826.literartes.2022.202761
  • SCHWARTZMAN, Simon; BOMENY, Helena Maria Bousquet; COSTA, Vanda Maria Ribeiro. Tempos de Capanema São Paulo: Paz e Terra; Editora FGV, 2000. Disponível em: http://www.schwartzman.org.br/simon/capanema/introduc.htm Acesso em: 6 nov. 2024.
    » http://www.schwartzman.org.br/simon/capanema/introduc.htm
  • SILVA, Flávia Santos da. A sucessora e a obra literária de Carolina Nabuco 2020. 50 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras) - Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: https:// www.lume.ufrgs.br/handle/10183/217565 Acesso em: 30 jul. 2022.
    » https:// www.lume.ufrgs.br/handle/10183/217565
  • SILVA, Lafayette. O Instituto Historico. Correio da Manhã, ano XXXVIII, n. 13.454, p. 4, 17 set. 1938. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/089842_04/48263 Acesso em: 11 nov. 2024.
    » https://memoria.bn.gov.br/docreader/089842_04/48263
  • SILVA, Marcelo Medeiros da. Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem-comportada? 2011. 209 f. Tese (Doutorado em Letras) - Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/tede/6159 Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/tede/6159
  • SILVA, Marcelo Medeiros da. Do espaço (e) da mulher em A sucessora, de Carolina Nabuco. Revista Graphos, v. 14, n. 2, p. 91-106, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/13724 Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/13724
  • SILVA, Marcelo Medeiros da. Da casa do pai à do marido: mulher e espaço social em Carolina Nabuco. Olho d’água, São José do Rio Preto, v. 10, n. 1, p. 205-228, jan.-jun. 2018. Disponível em: https://www.olhodagua.ibilce.unesp.br/index.php/Olhodagua/article/view/480 Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://www.olhodagua.ibilce.unesp.br/index.php/Olhodagua/article/view/480
  • SILVA, Maria de Lourdes Marcelino da Silva; BOTOSO, Altamir. A segunda esposa: semelhanças e diferenças entre Encarnação, A sucessora e Rebecca Fólio, v. 11, n. 2, p. 541-556. jul.-dez. 2019. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/folio/article/view/5574 Acesso em: 12 nov. 2024.
    » https://periodicos2.uesb.br/index.php/folio/article/view/5574
  • 1
    Para um brevíssimo apanhado biobibliográfico, ver “Carolina Nabuco: uma lady em nossa literatura”, de Zahidé Lupinacci Muzart (2013).
  • 2
    Analisei o romance e seu contexto de produção a partir das categorias conceptuais elaboradas por Luís Bueno (2006) em Uma história do romance de 30. Proponho que o título de Nabuco apresenta marcas dos elementos estéticos do polo “de direita” do movimento, estando inserido no conjunto preponderante a partir de 1933, o do romance psicológico (Baggio, 2022).
  • 3
    “O projeto de Brasil de Carolina Nabuco: manifestações da escritora na imprensa”. Projeto realizado por meio da Lei Municipal Complementar nº 57/2005 do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba, Secretaria da Cultura e Governo Federal.
  • 4
    Duas exceções aos critérios de seleção: um texto publicado em livro (Outras terras, outras gentes, 1935), mas como separata, e um ensaio publicado em 1941, no Boletim do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas que trata de conferência proferida por Nabuco em 1938.
  • 5
    Ver referência completa dos textos na parte “Fontes” da lista de referências ao final do artigo.
  • 6
    Esse perfil dá uma guinada ideológica quando, em 1937, Iveta se filia à Ação Integralista Brasileira (AIB). É provável que a revista tenha se encerrado nesse mesmo ano, na esteira do decreto de ilegalidade deste e de outros partidos (Palacio, 2020, p. 16).
  • 7
    As citações diretas reproduzem a grafia adotada na fonte.
  • 8
    Às vezes grafado Luís, e no artigo do Jornal do Brasil como “Renhe”.
  • 9
    Carolina Nabuco aparece listada como sócia do Centro Dom Vital em uma edição de 1954 da revista A Ordem (Relação, 1954, p. 76), órgão oficial da organização, filiação que pode ter acontecido antes.
  • 10
    “E nessas tendências sociais, que o catolicismo não apoia ainda pelos princípios políticos que estão em jogo, há o esboço de uma grande renovação espiritual que é muito possível venha se por finalmente sob o pálio da Igreja Católica. A revolução de ideias, lançada por inimigos da Igreja, pode muito bem terminar contra eles […].” (O Jornal, 27 fev. 1935).
  • 11
    Sobre o papel da José Olympio na difusão da produção intelectual dos integrantes do Centro Dom Vital, ver Arduini (2014).
  • 12
    Para um contexto da abordagem de Nabuco, pode-se mencionar a diretriz de Capanema que Schwartzman, Bomeny e Costa (2000) chamam de “contenção das mulheres”: “Os diversos projetos e propostas elaborados com este objetivo mostram certa evolução, que vai desde uma divisão extrema de papéis entre os sexos até uma atitude mais conciliatória, que chega até mesmo a aceitar, em 1942, a co-educação, ainda que de forma excepcional”.
  • 13
    Além de sua veiculação em A Ordem e no Boletim de Ariel, as duas falas foram publicadas ainda em 1936 no livro Conferências sobre Nabuco, editado em Recife pela Imprensa Oficial.
  • 14
    Notícias relatam que Nabuco partiu do Rio de Janeiro em 20 de outubro e chegou a Recife no dia 24; na volta, saiu de Recife em 6 de novembro e aportou no Rio no dia 9.
  • 15
    Tive acesso a esse texto graças ao generoso auxílio dos bibliotecários Wagner Carvalho, da Biblioteca do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Poliana Nascimento, do Setor de Obras Raras da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, a quem muito agradeço.
  • 16
    Sobre literatura em língua inglesa, mas não estadunidense, Nabuco assina também “Dois inglezes que se sobreviveram” (Boletim de Ariel, maio, 1937), dedicado a Rudyard Kipling e Bernard Shaw.
  • 17
    Sobre esse aspecto, ver também o artigo de divulgação “Carolina Nabuco, uma escritora cordial” (Baggio, 2024).
  • 18
    Talvez se trate da obra Diário e notas autobiográficas. Textos escolhidos e anotações, organizada por Ana Flora e José Ignácio Veríssimo e publicada pela José Olympio em 1938.
  • 19
    “Não ha no Diario uma unica referencia a esse assumpto de côr. No curso da viagem aos Estados Unidos, onde ela lhe impoz sucessivas humilhações, não se encontra uma queixa pessoal, nem um desabafo de indignação.” (Revista do Brasil, jul, 1939, p. 33).
  • 20
    Para não falar de romances como Um rio imita o Reno, lançado em 1938, em que os personagens de Vianna Moog (1966) mencionam explicitamente a perseguição aos judeus e a existência de campos de concentração.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora-Chefe:
    Cássia Maria Bezerra do Nascimento
  • Editor Executivo:
    Gerson Roberto Neumann
  • Editores Associados:
    Adriana Cristina Aguiar Rodrigues, Anderson Bastos Martins, Germana Henriques Pereira

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    14 Nov 2024
  • Aceito
    17 Jun 2025
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