Open-access Machado de Assis: recortes avulsos

Machado de Assis: Loose Cuttings

RESUMO

Recorro ao título da compilação de escritos de Machado de Assis, Papéis Avulsos, para dar nome ao ensaio que ora se apresenta. A coletânea foi publicada em 1882 e reúne 12 contos anteriormente divulgados em periódicos. Da revista A Estação, vieram “O Alienista” e “Teoria do Medalhão” (1881-1882); “D. Benedita” e “O anel de Polícrates” (1882). Dos contos assinados por pseudônimos, estão “A Chinela turca”, n’A Época (1875) rubricado por Manassés; “Na arca”, em O Cruzeiro (1878), subscrito por Eleazar e “Uma visita de Alcibíades” no Jornal das Famílias (1876) assinado com o codinome Victor de Paula. Do jornal Gazeta de Notícias foi transportado o maior número de contos, todos de 1882: “O segredo de Bonzo”, “O empréstimo”, “A sereníssima república”, “O espelho” (1882) e “Verba testamentária” (1882). Assim como o volume de escritos diversos, apresento variados recortes “nas folhas volantes do jornalismo”, com temas recorrentes ao autor e suas obras, na segunda metade do século XIX.

PALAVRAS-CHAVE:
Machado de Assis; imprensa; jornal; contos

ABSTRACT

I use the title of the compilation of writings by Machado de Assis, Papéis Avulsos, to give the name to the essay presented here. The collection was published in 1882 and brings together twelve short stories previously published in periodicals. From the magazine A Estação came “O Alienista” and “Teoria do Medalhão” (1881-1882); “D. Benedita” and “The Ring of Polycrates” (1882). Among the short stories signed by pseudonyms are “A Chinela Turkish”, in A Época (1875) initialed by Manassés; “Na arca”, in O Cruzeiro (1878), subscribed by Eleazar and “Uma Visita de Alcibíades” in Jornal das Famílias (1876) with the code name Victor de Paula. The largest number of short stories were transported from the newspaper Gazeta de Notícias, all from 1882: “The secret of Bonzo”, “The loan”, “A sereníssima republic”, “The mirror” (1882) and “Verba testamentária” (1882). As well as the volume of diverse writings, I present various excerpts from “the flying pages of journalism”, with themes recurring to the author and his works, in the second half of the 19th century.

KEYWORDS:
Machado de Assis; press; newspaper; stories

Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. (Machado de Assis, “Advertência” de Papéis Avulsos)

1. As “folhas volantes do jornalismo”.

Inspirada no título da coletânea Papéis Avulsos (1882), organizei este ensaio, que agrupa notas, anúncios e recortes acerca da produção de Machado de Assis, na imprensa. “Avulsos são eles”, os excertos e fragmentos, “mas não vieram para aqui como passageiros”, são trechos do contista e romancista, de e sobre seus escritos, que auxiliam a nortear a discussão. Essas anotações são advindas das “folhas volantes do jornalismo”, ambiente pelo qual o nome do autor foi mais referido, durante a segunda metade do século XIX, resultando numa via de mão dupla, pois tanto o meio de comunicação se ocupou da sua popularidade para a propagação de notícias, quanto o próprio Machado soube fazer bom uso da imprensa, como ressalta Valdiney Valente:

Seguramente nenhum autor na segunda metade do século XIX teve sua vida e obra tão expostas nos jornais quanto Machado de Assis: nessas folhas brotam notícias sobre seu casamento, viagens feitas para tratamento da moléstia que o vitimou e a respeito dos ataques em decorrência dela; há também notas sobre sua participação como júri popular, divulgação dos eventos em que comparecia como orador ou como convidado e várias gravuras com o seu rosto para atrair os leitores. Da mesma maneira como os jornais se ocuparam bastante com o autor, Machado também se dedicou muito ao suporte: era assíduo colaborador nessas folhas, além de suas obras em poesia e prosa, também assinou notas sobre costumes, publicou críticas, muitas vezes a pedido, sobre algumas obras e ainda participou nos passatempos comuns nas folhas periódicas, tanto propondo problemas de xadrez, quanto os respondendo. (Valente, 2022. p. 9).

O jornal foi o propagador pelo qual Machado iniciou suas publicações na década de 1850, sendo possível concluir que o veículo esteve como propagador da sua obra e, inclusive, como benefício à sua aproximação com D. Carolina, já que a apresentação dos dois se deu por intermédio do irmão da moça, Faustino Xavier de Novais (1820-1869), jornalista português que, no Brasil, dirigiu a revista O Futuro (1869). E a propagação do seu nome não ficou restrita somente à corte do Rio de Janeiro, estendendo-se por outras folhas noticiosas das demais províncias, principalmente a partir de 1860, quando já escreve crônicas para a imprensa, com mais evidência para o Jornal das Famílias, período que constituiu a mudança em sua vida, pois, ao final dessa época, já possuía um número de escritos suficientes para dar corpo às coletâneas que surgiram a partir de 1870. Contudo, ainda no final da década de 1860, a relevância do seu nome já era notória, e, em 1863, o Diário de Pernambuco (1825-) circulou o poema As Ventoinhas, extraído do jornal O Futuro (1862-1863), no ano seguinte, incorporado ao volume Crisálidas (1864), pela editora Garnier (1844 e 1934). Esse volume de poemas foi noticiado a 2$000 nos jornais da época, como no Despertador (1863-1885), de Santa Catarina, em 1865, em Casa de Faria & Filho, rua do Príncipe, juntamente com as obras: O Demônio Familiar (1857), de José de Alencar (1$500), e Cânticos Fúnebres (1864), de Gonçalves de Magalhães (6$000). Em outro anúncio, da mesma loja, ainda no jornal Despertador, a obra Crisálidas consta juntamente com Diva (1864), Cinco minutos (1856) e Asas de um Anjo (1860), de José de Alencar; Jeronimo Corte Real (1865), de Pereira da Silva, Suspiros Poéticos (1836), de Gonçalves de Magalhães e Brasileiras celebres (1861), de Joaquim Norberto, entre outras obras.

O anúncio das obras literárias, como o costume da época, vinha avizinhado de outros títulos, como Manual de missa, Almanaques, Dicionários, Novo método latino, Tesouro de meninas e ditos meninos, Tesouro da mocidade, Mensageiro dos amantes, Método facílimo para aprender a ler, além de materiais de papelaria (papéis em diferentes categorias, livros em branco, calendários, entre outras utilidades).

A relevância do escritor era comprovada de igual forma no diálogo que mantinha entre os demais escritores, como pode atestar sua relação com José de Alencar, reiterada em carta divulgada no Correio Mercantil e Instrutivo, Politico, Universal (1848-1868) do Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 1868, para apresentação do poeta Castro Alves (2021). A carta de José de Alencar a Machado de Assis, datada em 18 de fevereiro de 1868, assinalava:

Recebi ontem a visita de um poeta.

O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito em breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente, do coração e não do resto.

O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade há alguns dias apenas. [...]

Depois da leitura de seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias, A cascata de Paulo Afonso, as duas ilhas e a visão dos mortos, não cedem às exigências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta.

[...]

Seu melhor título, porém, é outro. O Sr. foi o único de nossos modernos escritores que dedicou à cultura dessa difícil ciência, que se chama a crítica. Uma porção do talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, não duvidou aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.

Do Sr., pois, ao primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária que se revelou com tanto vigor.

A resposta de Machado de Assis foi apresentada no dia 1 de março de 1868, na mesma gazeta, mas o assunto dessa correspondência ganhou visibilidade e outros jornais se ocuparam em mencionar o acontecimento. O Ypiranga (1867-1869), de São Paulo, em 8 de março, não só anunciou a carta de Alencar para Machado de Assis, como transcreveu a irônica introdução feita por Salvador de Mendonça acerca da correspondência, quando compara o mundo das letras à política, no que tange às influências e aos consórcios possíveis entre “um poeta nascente com outro poeta já consagrado”. Mendonça é categórico ao afirmar: “A palavra e a senha aí estão dadas ao entregar Virgílio o moço Dante”; e prossegue:

Quando o sumo sacerdote do majestoso templo de nossa terra assim convoca os adeptos e recorda nomes merecidamente festejados [...] cabe a todos os verdadeiros crentes, e ainda ao mais obscuro dentre todos, a satisfação de declarar constituída a seita nacional.

A carta que publicamos, do autor de Iracema tem para nós esta magna significação.

[...]

Como tais iniciados e com iniciadores tais, a nacionalização da poesia brasileira já não é um sonho e uma profecia de videntes, um cogitar e um almejar de bons filhos deste solo, - é uma realidade

Ainda sobre o expediente, em Fortaleza, O Jornal do Ceará (1868) notificou:

Em outro lugar publicamos um folhetim, uma mimosa carta do nosso distinto literato o Sr. Conselheiro José de Alencar, dirigida a outro literato não menos distinto, o Sr. Machado de Assis. Diz a respeito o Correio Mercantil: O assunto do interessante escrito é a apresentação de um poeta a outro poeta.

O nome Machado de Assis foi constante na imprensa do Império e passou a ser referência para o lançamento de periódicos, como a Ilustração Anglo Brasileira (1870), um “jornal de literatura amena e recreativa, abrangendo as ciências e as artes”, que ganhou destaque no dia 11 de novembro de 1870, no Despertador, de Santa Catarina (Figura 1):

Figura 1.
Ilustração Anglo Brasileira (1870)

A Ilustração Brasileira será publicada semanalmente, com 16 páginas. Cada número, primorosamente ilustrado, conterá grande variedade de artigos de interesse, recreativos e instrutivos, tão altamente sérios como divertidos, tão severos, como espirituosos e atraentes e dignos de serem lidos. [...] Como garantia não só do elevado merecimento deste jornal, como de seu programa será fielmente executado, oferecemos os nomes dos cavalheiros notáveis, que desde já para ele colaborarão, e são os Srs: Quintino Bocaiuva, Emilio Zaluar, Machado de Assis, Salvador de Mendonça e uma redação efetiva de escritores e artistas.

2. “Vários escritos de ordem diversa”.

Foi em 1870 que o público conheceu o volume Contos Fluminenses, com extraordinária repercussão entre as obras difundidas, de norte a sul do Brasil. No Jornal do Pará (1862-1878), no mesmo ano da edição, há a propaganda: “Acham-se a venda na livraria de José Maria da Silva, na calçada do Colégio [...] Machado de Assis, Falenas 1 vol 3$000 reis; Contos Fluminenses 1 vol, 3&000 réis”. As duas obras são as únicas no rol de outras de assuntos diversos, como aritmética para o uso nas escolas primárias e textos religiosos; essa divulgação permaneceu na folha por mais de vinte edições, o que demonstra a circulação constante da obra entre os leitores.

A circulação da coletânea recebeu atenção do jornal Correio Oficial de Goiás, quando exibiu a “relação de livros que a diretoria do Gabinete Literário Goiano manda vir do Rio de Janeiro”. Nesse rol, também constam Ressureição, do mesmo autor; As Primaveras, de Casimiro de Abreu; Poesias completas, de Bernardo Guimarães; O retrato da Laguna, de Taunay; O moço loiro e A Misteriosa, de Joaquim Manuel de Macedo; Til, de José de Alencar; O seminarista, por Bernardo Guimarães e, como de costume, uma lista de obras que tratam desde a agricultura até o Alfabeto da malícia das mulheres, ao João Petusco, história de um velhote folgazão que atravessou todas as peripécias de sua existência com o sorriso nos lábios.

A repercussão da obra foi explorada minunciosamente, no Diário de Pernambuco em 4 de março de 1870:

Sr. Machado de Assis, distinto escritor brasileiro, como autor dos interessantíssimos contos e narrativas singelas e, com essas narrativas impressas, prestou o autor inegável serviço às letras pátrias, tão balda de escritos nesse gênero. O poeta das Crysálidas e das Falenas é também um mimoso romancista, para isso não lhe faltam estilo correto e simples facilidade no diálogo, uniformidade nos tipos postos em ação. Nos Contos Fluminenses que é uma obra sem pretensão, um livro gracioso e elegante, o romancista revelou grande aptidão e pouco vulgar espírito analítico. (Diário de Pernambuco, 1870)

A exposição resume cada conto da seleção e conclui: “É o livro do Sr. Machado de Assis uma bonita aquisição para as letras pátrias. Prova o poeta que nas horas em que descansa a lira festejada, o seu talento e a sua imaginação em novo rumo alcançam facilmente novas e não interrompidas vitórias”

Contos Fluminenses (Assis, 1975a), como é sabido, foi uma reunião de contos já de conhecimento do público, pelo Jornal das Famílias e a boa repercussão já havia sido apresentada em 1869 numa charge, na Semana Ilustrada (Figura 2), cuja imagem apresenta um “moleque”, diante de uma mesa com sete pacotes de moedas, que responde à exaltação do jornal, ao volume: A Semana: “Estes sete contos de Machado de Assis honram-no sobremaneira, enriqueceu a nossa literatura.... Moleque: ..... e também a bolsa do autor e do editor”.

Figura 2.
Charge publicada na Semana Ilustrada

A charge insinua sobre os bons tostões ganhos pelo autor e editor da obra, dada a suposta vendagem do livro, presente em tantos anúncios e propagandas que deram vazão à ampla distribuição. Contudo, nem todos os juízos foram positivos, como demonstra um ensaio publicado no jornal Dezesseis de julho, de 21 de fevereiro de 1870, quando assinala:

De todos os gêneros literários é o conto o mais delicado e mais difícil de manejar se for encarado pelo lado do estilo. [...] O método mais simples, responde um crítico que encontro por acaso a meu lado, Marmotel, é reduzi-lo a sua maior simplicidade, e à proporção que se for encontrando algum embaraço, tratar de dissolve-lo logo com um raio de luz, que ilumine toda a cena, de modo que nem se torne a narração enfadonha, nem tão pouco obscura. Pouco cultivado tem sido esse gênero de contos que se filiou o livro do Sr. Machado de Assis.

O autor indica algumas obras de cunho caprichoso, delicado, suave, com narrações claras, breves, com agilidade e vivacidade nas apreciações, e questiona: “Estarão, porventura os contos do Sr. Machado de Assis em idênticas circunstâncias? Preencheram os Contos Fluminenses o fim a que se propõem?” Para o autor, o estilo dos contos não é desagradável e as narrações são animadas, mas os diálogos são maçantes, vazios, recorrentes, sem a graça devida. Para ele, o maior defeito nos Contos Fluminenses é “a falta de certo perfume e estilo próprio de tais composições, a ausência de certo colorido imaginativo, sem o qual estes quadros não se podem animar, não passando por este modo de pálidos esboços daquilo que tentam representar”. Ademais, o crítico julga Machado pouco afeito ao humor e julga algumas cenas como inverossímeis. Mas arremata:

Terminando, devo declarar que o trabalho do Sr. Machado de Assis, a par destes defeitos, pode apresentar ao leitor verdadeiras belezas literárias que lhe fazem honra. [...] A linguagem, principalmente, como se tem notado em todos os seus escritos, é um primor de concisão e pureza. Não é, portanto, um livro inútil e poderá proporcionar aos amantes da literatura amena, algumas horas deleitosas e variadas. (Dezesseis de julho, 1870).

A despeito do parecer manifestado, daquele que assina como Coppelius, recorro ao conceito do próprio Machado, exibido na Advertência de Histórias da meia noite, quando sentencia: “É um modo de passar o tempo. [...] O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos” (Assis, 1975b).

Salvo a apreciação descuidada exposta no jornal paranaense, as coletâneas de contos do autor foram editadas entre os anos de 1870 e 1906 e seguiram em tom de aclamação favorável. A propagação de Histórias da Meia Noite (1975b) esteve do mesmo modo assíduo nos anúncios, entre eles, no Correio Paulistano, em 23 de dezembro de 1873:

Mais dois livros de literatura nacional editadas pelo sr. Garnier acabam de chegar às mãos. Ambas recentemente publicadas e qualquer deles firmado por nome já bem conhecido na república das letras pátrias. Um intitula-se Histórias da maia noite, contendo uma coleção de contos amenos escritos com a naturalidade peculiar ao talento do seu autor, o sr. Machado de Assis.

No mesmo Correio Paulistano, na data de 27 de dezembro do mesmo ano, na coluna “Literatura”, há um ensaio relativo à edição de Histórias da Meia Noite:

Como sempre, Machado de Assis revela neste seu último volume a mesma talentosa disposição para primores de estilo, como a mesma exiguidade de imaginação que se nota em todas as suas obras.

[...]

As Histórias da meia noite compõem-se de seis magníficos contos todos a rescenderem suaves perfumes de estilo e por vezes marcheados de verdadeiros primores de espírito

Foi nessa década de 1970 que vieram a público os primeiros romances de Machado de Assis: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), e só acabado esse intervalo, as antologias de contos voltam a preencher o espaço das leituras com Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899), juntamente com os demais romances difundidos nos anos oitenta: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899). Naturalmente, todas essas obras obtêm atenção da publicidade diante de um escritor firmado por um estilo ao mesmo tempo formal e leve, com um tratamento para a imprevisibilidade e uma atenção particular à personagem feminina. Acerca da aceitação da obra do escritor, Ana Maria Lisboa pontua:

O reconhecimento de Machado de Assis como escritor advém da existência, em sua obra, de uma estreita integração e harmonia entre forma e significação. As estruturas da ficção machadiana impõem rupturas com o passado literário, estabelecendo regras que obedecem às suas próprias lógicas. (Mello, 2012, p. 113).

E pelo estabelecimento dessa consonância harmônica da produção machadiana, em que a tradição é incorporada ao dinamismo da narrativa, seus escritos permaneceram e perduram. João Alexandre Barbosa pondera que é “exatamente pela intensificação desses espaços de intervalo as obras permanecem [...] a questão da perenidade das obras. Por que as obras permanecem? Por que se lê e relê Dom Quixote? Por que se lê e relê Dostoiévski? Para facilitar as coisas, dizemos que esses autores são clássicos” (Barbosa, 2017. p. 3). Da mesma forma, Machado de Assis é lido e relido, mantém-se, conserva-se, dura, desde o Oitocentos.

E, para situar melhor os recortes machadianos, retomo a veiculação do nome do autor e suas obras nos jornais de Belém, Pará, em anúncios na década de 1870, como do livro Americanas, repetidamente difundido nas folhas diárias; notas sobre Machado lido em Lisboa; inúmeros reclames sobre o Jornal das Famílias e a Illustração Anglo-Brasileira: jornal de literatura amena e recreativa, com ênfase no nome de Machado de Assis, fragmentos do romance Helena e até a reprodução do conto “A ideia de Ezequiel Lima”, divulgado no Liberal do Pará, em 18 de abril de 1883, mesmo ano em que circulou na Gazeta de notícias do Rio de Janeiro.

3. Para arrematar: novamente o jornal e os contos.

É em 1890, duas décadas após as primeiras edições dos seus livros, quando a coluna folhetim já não era constante, que o jornal paraense Folha do Norte (1896-1903) inaugurou sua edição com a retomada dos textos ao pé da página; entre eles alguns contos de Machado de Assis foram exibidos: Uma Carta (17 de março 1896), publicado originalmente em 15 de dezembro de 1884 n’A Estação; Adão e Eva (19 a 21 de junho de 1897) e Uns Braços (15 a 17 de outubro de 1899), preliminarmente difundidos na Gazeta de Notícias em 1885; O Diplomático (24 a 26 de outubro de 1899), Conto de escola (02 a 03 de janeiro de 1900) e A Cartomante (04 a 05 de janeiro de 1900) oriundos da Gazeta de Notícias de 1884.

Entre as narrativas, também foi republicado, em 1 de março de 1886, o poema “Lindoia”, publicado anteriormente em Americanas (1875); notícias das reuniões para a consolidação da Academia Brasileira de Letras em 5 de janeiro de 1897; um ensaio de Coelho Neto, especialmente para A Folha, em 7 de janeiro de 1897, ilustrado com citações de Machado; a lista dos quarenta membros da Academia, no dia 19 de fevereiro de 1897; uma apreciação de Coelho Neto sobre a fundação da Academia Brasileira de Letras, em 28 de fevereiro de 1897 e novo ensaio de Coelho Neto, “Pelo amor”, com referência a uma comédia de Machado, em 13 de junho de 1897.

O jornal paraense A Folha do Norte surgiu após a Proclamação da República e foi classificado como combatente das oligarquias, orquestrando querelas políticas locais. Ao me deparar com os textos machadianos expostos na Folha do Norte, logo me questionei: qual o critério de escolhas para a definição dos textos a circular como literatura naquele periódico diário? Ora, como já dito, desde 1870, os jornais de Belém ocuparam-se em propalar o nome de Machado de Assis, quer fosse em ensaios assinados pelo autor, ou em propagandas das obras. Daí ser natural retomar narrativas assinadas pelo escritor, sobretudo aquelas que guardam enredos estimulantes e já reconhecidamente “interessantíssimos, mimosos e singelos”, adjetivos usados nos anúncios de vendas.

Nos contos presentes na Folha do Norte é possível reconhecer alguns traços coexistentes na narrativa de Machado de Assis, como a forma cuidadosa do narrador em situar seu leitor, tanto quanto a localização espacial em que decorrem os acontecimentos, quanto o tempo cronológico da narrativa: “Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870” (Uns braços), ou “A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau” (Conto de escola), “a casa do encontro era na antiga rua dos barbonos” e “desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia” (A Cartomante); “Esquecia-me dizer que isto acontecia aqui mesmo, no Rio de Janeiro, entre 1860 e 1862” (Uma Carta); “pelos anos de mil setecentos e tantos” (Adão e Eva); “Estamos na noite de São João de 1854” (O Diplomático), “O ano era de 1840” (Conto de escola), “Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870” (Uns braços); “numa sexta-feira de novembro de 1869” e “No princípio de 1869” (A cartomante). Também as circunscrições elementares, como estratégia para a aproximação benevolente com o leitor: “Vamos por partes” (O Diplomático) ou “vamos a ela” (A Cartomante), “Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública” (Conto de escola).

Essas introduções deram origem às narrativas e suas fatalidades nos desfechos, peculiaridade identificada nestes e nos demais contos machadianos e aqui ressaltada.

Entre outros fatores, ao reler esses escritos, chamou a minha atenção a obsessão dada aos olhos nas narrativas. Aqueles olhos de ressaca que aparecem em Dom Casmurro foram acentuados de diferentes formas nos contos: Celestina, protagonista de Uma carta (1884), tem um “olhar complacente sobre si”, “os seus olhos lindos como as estrelas do céu são para mim as luzes da existência”, “olhos ardentes”; enquanto Joaninha, de O Diplomático (1896), “possuía um par de olhos lindos e sossegados, belos olhos derramados” e Queirós “olhos negros”, ao ponto que a Cartomante tinha “olhos sonsos e agudos, que fuzilavam”; enquanto Rita possuía “olhos cálidos, teimosos”, no conto A Cartomante (1884); já os “olhos espertos, escuros, compridos” eram de Conceição, em Missa do galo (1893); e Inácio, em Uns braços (1885), expressava “olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga”; enquanto o par de olhos do mestre, em Conto de escola (1896) eram pontudos.

Essa marca do olhar e sua definição da personagem perpassa a obra de Machado, não restrita às protagonistas e sobressai em outros contos, como Um homem célebre (1896): Pestana possui olhos cuidosos e a “musa de olhos marotos”. Em A desejada das gentes (1879), Quintília tinha “olhos derramados”, e o diplomata austríaco era dono de “olhos grandes e atrativos”. Já Fortunato Gomes da Silveira, em A causa secreta (1885), reunia “olhos claros, cor de chumbo”, “os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias”, ao passo que Luísa conservava “olhos meigos e submissos”

O olhar esteve entre os atributos principais na obra machadiana e, em meio aos inúmeros olhos e suas adjetivações, foram sobre os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, os “olhos que o Diabo” deu à Capitu, o olhar “fluido misterioso e enérgico”, “olhos de ressaca”, que Machado, leitor do mundo, mais se popularizou. E, felizmente, a nós permitiu, retornar aos seus escritos, reler seu olhar para a constituição da personagem com as mazelas, desejos, impurezas, sonhos, para reconstituir recortes que por mais esmiuçados não dão conta de atar as pontas da sua narrativa, pois o que ela abarca é um mundo.

Retomo João Alexandre Barbosa (1996, p. 78), quando acentua: “[...] a leitura de uma obra clássica é, quase sempre, uma releitura daquilo que significa literatura para o presente em que se situa o leitor [...] o leitor lê o que está na obra e relê o que está entre aquela obra e toda a sua experiência de leitura anterior”. E só os textos que suportam a releitura, que sucedem à busca dos leitores, conservam-se, ficam perenes, tornam-se fundamentais para a construção do conhecimento e de uma formação contínua e progressiva do que chamamos de literatura.

Referências:

  • ASSIS, Machado de. Papéis avulsos Rio de Janeiro: Lombaerts & C., 1882.
  • ASSIS, Machado de. Contos Fluminenses Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975a. (Edições Críticas de Obras de Machado de Assis).
  • ASSIS, Machado de. Histórias da meia noite Rio de Janeiro: Civilização Brasileira ; Brasília: INL, 1975b. (Edições Críticas de Obras de Machado de Assis).
  • BARBOSA, João Alexandre. A Biblioteca Imaginária São Paulo: Ateliê Editorial, 1996.
  • BARBOSA, João Alexandre. Literatura Nunca é Apenas Literatura 2017. Disponível em: https://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_17_p021-026_c.pdf Acesso em: 06 maio. 2020.
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  • CASTRO, Valdiney Valente Lobato de. Machado de Assis contista: dos salões às páginas de jornal. 1. ed. Curitiba: Alameda, 2021.
  • MELLO, Ana Maria de Lisboa. Processos narrativos nos contos de Machado de Assis. Organon, v. 15, n. 30-31, 2012. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/29735 Acesso em: 25 maio. 2024.
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  • VALENTE, Valdiney Lobato de Castro. Machado de Assis pelos jornais do Brasil 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2022.

Editado por

  • Organizadoras:
    Juracy Assmann Saraiva, Regina Zilberman
  • Editora-Chefe:
    Cássia Maria Bezerra do Nascimento
  • Editora Executiva:
    Rachel Esteves Lima
  • Editora Executiva:
    Anderson Bastos Martins, Cássia Dolores Costa Lopes, Jorge Hernán Yerro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    26 Jul 2024
  • Aceito
    26 Set 2024
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