Open-access A fome como penitência ou purgação religiosa em Os Sertões de Euclides da Cunha: uma análise histórico-literária

Hunger as penance or religious purgation in Os Sertões by Euclides da Cunha: a historical-literary analysis

RESUMO

O objetivo foi realizar análise histórico-literária de Os Sertões, de Euclides da Cunha, procurando-se compreender os significados do conceito de fome e como o autor relatou aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares. A análise fundamentou-se em referencial teórico-conceitual do campo da Nutrição, complementada por revisão bibliográfica. Foram observadas quatro percepções da fome: fome como penitência religiosa, fome biológica, fome como instrumento de luta ou resistência e fome epidêmica (conjuntural). A percepção biológica da fome como problema sofrido pelas tropas militares que dizimaram a população de Canudos revelou-se hegemônica. As narrativas da fome relativas ao beato Antônio Conselheiro e seguidores foram reportadas com preconceito religioso, racial, ideológico, regional ou cultural. A fome como ato de penitência praticada pelos fiéis foi narrada com sátira. A fome não foi percebida como um fenômeno social e historicamente produzido pela guerra do Exército Brasileiro contra o povo de Canudos.

Palavras-chave:
Fome; Nutrição; Literatura; Os Sertões; Euclides da Cunha

ABSTRACT

The objective was to conduct a historical-literary analysis of Os Sertões by Euclides da Cunha, seeking to understand the meanings of the concept of hunger and how the author reported aspects of the food environment, eating habits and practices. The analysis was based on a theoretical-conceptual framework from the field of Nutrition, complemented by a bibliographic review. Four perceptions of hunger were observed: hunger as religious penance, biological hunger, hunger as an instrument of struggle or resistance, and epidemic (conjunctural) hunger. The biological perception of hunger as a problem suffered by the military troops that decimated the population of Canudos proved to be hegemonic. The narratives of hunger related to Blessed Antônio Conselheiro and his followers were reported with religious, racial, ideological, regional or cultural prejudice. Hunger as an act of penance practiced by the faithful was narrated with satire. Hunger was not perceived as a social and historical phenomenon produced by the war of the Brazilian Army against the people of Canudos.

Keywords:
Hunger; Nutrition; Literature; Os Sertões; Euclides da Cunha

Introdução

O livro Os Sertões, publicado em 1902 por Euclides da Cunha (1866-1909), engenheiro militar do Exército brasileiro, jornalista e escritor nascido no município de Cantagalo, estado do Rio de Janeiro, tem sido considerado a obra inaugural do período pré-modernista da literatura brasileira. De acordo com distintas análises realizadas e no depoimento do próprio autor (Cunha, 2013), o livro é um produto do seu trabalho de jornalista correspondente do jornal A Província de São Paulo (atual O Estado de S. Paulo ou Estadão) e procura retratar fatos relacionados à Guerra de Canudos, evento histórico envolvendo tropas militares do Exército brasileiro contra os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro, ocorrido entre 1896 e 1897 no sertão da Bahia. Para alguns, Os Sertões iniciou, à época, o estilo literário romance-reportagem no país (Souza, 2010; Silva; Moura, 2014; Almeida et al., 2022; Silva, 2023).

Em revisão de literatura realizada para elaboração deste artigo, tomando-se como fonte de dados as bases eletrônicas SciELO (Scientific Electronic Library Online) e Google Acadêmico, e utilizando-se os unitermos Os Sertões AND Euclides da Cunha, observou-se que esta obra tem sido analisada e/ou referenciada em publicações científicas desde 1903 até o mês de março de 2025. Nos campos da Medicina, das Ciências Sociais e da Nutrição, por exemplo, Os Sertões constituíram base empírica e teórica para as obras Poeira da estrada: ensaios de crítica e de história, do médico Afrânio Peixoto (1876-1947), publicada em 1921 (Peixoto, 1921); Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), publicada em 1933 (Freyre, 1998); e para Geografia da fome, do médico-nutrólogo Josué de Castro (1908-1973), publicada em 1946 (Castro, 1980). Sem a pretensão de realizar uma busca exaustiva das publicações em formato de artigos científicos, observou-se que os estudos que realizaram análises de Os Sertões começaram a ser publicados em maior frequência nos anos 1950 (Azevedo, 1950; Azevedo, 1952; Ramos, 1954), continuaram nos anos 1960 (Barbosa, 1969; Garbuglio, 1968), nos anos 1970 (Calasans, 1970; Nogueira, 1978), nos anos 1980 (Figueiredo, 1980; Galvão, 1981), nos anos 1990 (Goto, 1990; Santos, 1998) e nos anos 2000 (Souza, 2010; Silva; Moura, 2014; Rezende et al., 2016). A partir da análise do conjunto de estudos identificados, observou-se que, ao longo destas décadas, por sucessivas gerações de estudiosos de Os Sertões, esta obra de Euclides da Cunha tem recebido avaliações favoráveis e desfavoráveis que, ao mesmo tempo que enaltecem a primazia e originalidade do seu estilo literário, contribuindo para a mitificação tanto do criador (o autor) como da criatura (a obra), também apontam suas fragilidades e inconsistências histórico-literárias, favorecendo para o seu descrédito, demonização ou cancelamento.

Nos últimos cinco anos (2020 até março de 2025) foram localizados mais de 40 artigos, publicados em periódicos nacionais, que revisitaram a obra Os Sertões de Euclides da Cunha, fato que evidencia a sua relevância, pertinência e atualidade. Selecionou-se uma amostra de 20 destes artigos (Ávila, 2021; Fernandes; Queiroz, 2021; Rodrigues; Lima, 2021; Almeida et al., 2022; Bernucci, 2022; Costa; Gama, 2022; Dias, 2022; Santana, 2022; Tavares, 2022; Guedelha, 2023; Morais et al., 2023; Pimentel; Pimentel, 2023; Rocha, 2022; Siega; Ceribeli, 2023; Silva, 2023; Ceribelli, 2024; Pereira; Tavares, 2024; Pinheiro, 2024; Reis, 2024; Freitas; Campos, 2025) para realização de análise temática, observando-se que estes estudos foram elaborados por profissionais de distintos campos de conhecimento, sendo os mais frequentes Letras (n=10; 50,0%), História (n=2; 10,0%), Comunicação (n=2; 10,0%), Geografia (n=2; 10,0%), Sociologia (n=1; 5,0%), Educação (n=1; 5,0%), Artes (n=1; 5,0%) e Filosofia (n=1; 5,0%). As análises realizadas por estes 20 artigos sobre Os Sertões focalizaram distintas temáticas, utilizando diversos procedimentos metodológicos e perspectivas teóricas. Entre as temáticas identificadas, destacam-se: abordagem bélico-militar; narrativas e conteúdos jornalísticos; ambiente físico-geográfico; violência; gênero/mulheres; memória/esquecimento; estilo literário/construção textual; doença mental (loucura); aspectos biográficos, influência e confluência sobre outros autores; formação histórico-territorial, nacionalidade e cultura; alimentação, identidade e patrimônio cultural; miséria e fome.

Na revisão bibliográfica foram localizados três artigos que se propuseram a analisar a abordagem da temática da fome e/ou da alimentação na obra Os Sertões (Cunha, 2013). O estudo de Rezende et al. (2016) explicita que teria como objetivo “fazer um paralelo entre os direitos a uma alimentação adequada e a realidade social” (p. 144), para tanto, diz que se fundamentaria em uma abordagem da fome sob ponto de vista conceitual específico, analisado sob o ordenamento jurídico brasileiro. Entretanto, ao longo do seu desenvolvimento, o artigo se desvia, amplia ou redefine o seu objetivo. Embora apresente importantes considerações e reflexões sobre a temática do direito humano à alimentação adequada, a base empírica do estudo se amplia de forma difusa para tentar identificar confluências entre as obras de Euclides da Cunha, Candido Portinari (1903-1962) e Josué de Castro. Por sua vez, o artigo de Siega e Ceribeli (2023) teve por objetivo identificar os pontos convergentes e como a violência e a fome em torno da vida no sertão foram retratadas pela literatura nas obras: Os Sertões, de Euclides da Cunha; A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1887-1980), O Quinze, de Rachel de Queiroz (1910-2003) e Pedra Bonita, de José Lins do Rego (1901-1957). Em nossa avaliação, embora o estudo de Siega e Ceribeli (2023) apresente a expertise analítica de profissionais do campo das Letras, as quais entre outros referenciais teóricos se fundamentaram na perspectiva crítico-humanista de Antonio Candido (1918-2017) (Candido, 2011), não se debruçou, de fato, na análise da concepção de fome retratada em Os Sertões, de Euclides da Cunha. Já o artigo de Rodrigues e Lima (2021) é aquele que mais se aproximou ao objetivo do presente estudo. Entre as várias formulações do objetivo do referido estudo, a partir de uma abordagem sociológica, os autores se propuseram a “compreender como a organização da vida material sertaneja, mormente no que diz respeito a sua cultura alimentar, moldou o discurso ideológico e identitário do arraial sertanejo de Canudos” (Rodrigures; Lima, 2021, p. 57).

Portanto, deduz-se que os estudos identificados acima evidenciam quanto a obra Os Sertões têm sido objeto de investigação desde a sua publicação aos dias atuais. Embora esta obra tenha sido revisitada nos últimos cinco anos sob o olhar de diversos campos de conhecimento e distintas perspectivas teóricas e metodológicas, em função da relevância da temática da fome no contexto atual, considera-se que ainda são escassos os estudos com olhar específico do campo da Nutrição e que há lacunas do conhecimento a serem preenchidas, justificando-se a elaboração do presente artigo.

Neste sentido, o objetivo deste artigo foi realizar análise histórico-literária de Os Sertões, de Euclides da Cunha, procurando-se compreender quais os significados do conceito de fome e como o autor relatou aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares dentro do contexto temporal e ambientação da obra.

Métodos

Trata-se de análise histórico-literária (Candido, 2005) de Os Sertões, de Euclides da Cunha (Cunha, 2013), procurando-se compreender o contexto histórico, a situação política, social e cultural da época em que esta obra literária foi publicada.

Para a realização da análise de Os Sertões, seis etapas metodológicas sequencias foram desenvolvidas: 1a) leitura atenciosa da obra; 2a) busca e identificação das cenas ou narrativas textuais de surgimento e quais os significados e percepções do conceito de fome; 3a) pesquisa e localização de outros termos relacionados ao conceito, tais como alimentação, alimentos, refeições, comida, comer, nomes de alimentos específicos (arroz, açúcar, carne, café, farinha, feijão, frutas, legumes, milho, rapadura etc.); 4a) quantificação dos termos observados com o objetivo de analisar a frequência de uso pelo autor da obra; 5a) elaboração de síntese analítica procurando compreender como o autor relatou aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares dentro do contexto temporal e ambientação do romance; e 6a) estabelecimento de possíveis diálogos com a literatura aderente à temática investigada.

Ressalta-se que, para o desenvolvimento das etapas 2, 3 e 4, descritas acima, capturou-se um arquivo em formado pdf (portable document format) da obra, usando a plataforma Google®. Para a identificação e localização dos termos na obra foi usada a ferramenta localizar (Ctrl+L) no arquivo pdf.

A análise e compreensão do conceito fome e demais conceitos relacionados aos aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares dentro do contexto temporal e ambientação da obra investigada fundamentou-se em referencial teórico do campo da Nutrição. Investigou-se sobre os significados e representações do conceito de fome a partir de múltiplas dimensões ou perspectivas: biológica, social, psicológica, econômica, política e cultural, bem como vernácula, etimológica e literária (Castro, 1980; Vasconcelos, 2001; Valente, 2003; Abramovay, 2017; Sordi; Leme, 2024). Na investigação dos aspectos relacionados ao conceito de ambiente alimentar, usou-se como referencial teórico estudo do campo de ambiente alimentar (Glanz et al., 2005) e na análise dos aspectos relacionados aos hábitos e práticas alimentares fundamentou-se em abordagem antropológica em alimentação e nutrição (Canesqui; Garcia, 2005).

Conforme já antecipamos na seção de introdução deste artigo, realizou-se busca bibliográfica não exaustiva sobre a temática em duas bases eletrônicas de dados: SciELO e Google Acadêmico. Procurou-se com a busca bibliográfica, além de apresentar um panorama geral (estado da arte) dos estudos prévios sobre a obra Os Sertões, reunir base material para fundamentação teórica da análise histórico-literária. Salienta-se que, dos estudos localizados foram selecionados, prioritariamente, aqueles publicados em periódicos científicos, os quais apresentassem aderência à temática investigada. Não foram incluídos livros, dissertações, teses, trabalhos de conclusão de curso, nem trabalhos apresentados em eventos científicos.

Sertão, seca, fome, miséria e literatura brasileira antes de Euclides da Cunha

Evidências bibliográficas atestam que, no campo da literatura brasileira, a emergência da complexa e multidimensional problemática da seca, fome e miséria no sertão da região Nordeste ocorreu entre o final do século XIX e o início do século XX. Neste contexto histórico, teria ocorrido o processo de construção da Literatura da seca, e dentro deste movimento literário teria surgido o interesse pelas narrativas literárias sobre a fome (Greco, 2007; Machado, 2016; Mendonça; Alencar, 2021; Rocha, 2022; Maia; Santos, 2023). Segundo alguns estudos, a Literatura da seca teria sido constituída por duas fases, sendo a primeira fase representada pela seguinte sequência de obras: O Sertanejo, de José de Alencar (1875), O Cabeleira, de Franklin Távora (1876), Os Retirantes, de José do Patrocínio (1879), A fome: cenas da seca no Ceará, de Rodolfo Teófilo (1890), Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902) , e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio (1903). Por sua vez, na segunda fase da Literatura da seca, período em que ocorreu o processo de consolidação deste movimento literário, destacam-se, entre outros, os escritores: José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado (1912-2001), Graciliano Ramos (1892-1953), Antônio Callado (1917-1997) e Guimarães Rosa (1908-1967) (Greco, 2007; Machado, 2016; Mendonça; Alencar, 2021; Rocha, 2022; Maia; Santos, 2023).

A Literatura da seca apresenta, entre outras, as seguintes características: 1) um movimento literário brasileiro cuja temática central é a vida no sertão nordestino; 2) a inspiração principal deste movimento literário foram as secas periódicas e prolongadas e suas trágicas sequelas sociais, econômicas, políticas, culturais e ambientais para a região Nordeste; e 3) a estrutura narrativa foi centrada no fenômeno dos retirantes (retirada), tendo como protagonistas das obras literárias: migrantes (retirantes), beatos e bandidos (cangaceiros) (Greco, 2007; Machado, 2016; Mendonça; Alencar, 2021; Rocha, 2022; Maia; Santos, 2023).

As percepções de fome em Os Sertões de Euclides da Cunha

Ao longo das mais de 600 densas páginas, distribuídas pelos 44 capítulos que compõem as três partes da obra Os Sertões, nas quais Euclides da Cunha (Cunha, 2013) apresenta sua narrativa dos episódios ocorridos na Guerra de Canudos, em nossa investigação identificamos que a palavra fome foi usada em apenas 24 vezes. Portanto, essa baixa frequência do uso do conceito central de nossa investigação foi um dos primeiros pontos que nos chamou a atenção, ao compararmos com as frequências observadas na leitura das 500 páginas de Os Retirantes (Patrocínio, 2018), quando observamos a presença do conceito de fome em 126 passagens. De forma semelhante, na leitura das 507 páginas de A fome: cenas da seca no Ceará (Theophilo, 1890), identificamos o uso do conceito de fome por 120 vezes.

Quanto à investigação dos demais termos relacionados aos aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares presentes em Os Sertões, também observamos uma baixa frequência e pouca diversificação de uso de conceitos e termos do campo da Nutrição, conforme referencial teórico que fundamentou este artigo (Castro, 1980; Vasconcelos, 2001; Valente, 2003; Abramovay, 2017; Sordi; Leme, 2024; Glanz et al., 2005; Canesqui; Garcia, 2005). Em relação ao uso dos nomes dos alimentos investigados, as frequências identificadas foram: umbu/umbuzada/umbuzeiro (n=15), farinha (n=11), carne - incluindo carne-seca, carne de sol e carne cozida sem sal (n=10), café (n=3), milho (n=3), açúcar (n=)2, leite (n=2), pão (n=2), feijão (n=1), cuscuz (n=1) e jerimum (n=1). Quanto aos termos relacionados aos eventos alimentares, observou-se: jejum (n=9), refeição (n=5), ração (n=5), banquete (n=4), jantar (n=3), alimento (n=3), almoço (n=1) e comer (n=1).

A primeira vez em que a palavra fome aparece no texto (Cunha, 2013) ocorre em uma das seções (O asceta) do capítulo IV da segunda parte O Homem, intitulado Antônio Conselheiro, documento vivo de ativismo. Neste capítulo, composto por 19 seções, o autor realiza uma espécie de “biografia” do personagem real Antônio Vicente Mendes Maciel (1828-1897), o Antônio Conselheiro, natural da cidade de Quixeramobim, Ceará. O capítulo busca narrar - na perspectiva ou ponto de vista dos vencedores, no caso, o Exército brasileiro - a trajetória de vida de Antônio Conselheiro até chegar ao sertão da Bahia, o processo de construção de igrejas e de reformas de cemitérios e da formação às margens do Rio Vaza-Barris, na região de Canudos, da comunidade de Belo Monte (Cunha, 2013). Na nossa interpretação, a palavra fome aparece nesta primeira passagem no sentido de religioso de “purgação”:

O asceta despontava, inteiriço, da rudeza disciplinar de quinze anos de penitência. Requintara nessa aprendizagem de martírios, que tanto preconizam os velhos luminares da Igreja. Vinha do tirocínio brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas e das misérias fundas. Não tinha dores desconhecidas. (Cunha, 2013, p. 168).

A segunda vez em que o vocábulo fome aparece em Os Sertões (Cunha, 2013) também é expresso no sentido de ação de penitência ou purgação religiosa. O termo é usado em uma das seções (População multiforme) do capítulo V da segunda parte, O Homem, intitulado Canudos: antecedentes. Esta passagem constitui um dos poucos momentos em que o autor emprega vários termos pertinentes ou aderentes aos aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares que investigamos:

O que urgia era antecipá-lo pelas provações e pelo martírio. Pregava, então, os jejuns prolongados, as agonias da fome, a lenta exaustão da vida. Dava o exemplo fazendo constar, pelos fiéis mais íntimos, que atravessava os dias alimentando-se com um pires de farinha. Conta-se que em certo dia foi visitado por um crente abastado das cercanias. Repartiu com ele a refeição escassa; e este - milagre que abalou o arraial inteiro! - saiu do banquete minúsculo, repleto, empanzinado, como se volvesse de festim soberbo. (Cunha, 2013, p. 194).

A terceira vez que a palavra fome surge em Os Sertões (Cunha, 2013) traz o sentido biológico da sensação fisiológica apresentada pelo corpo humano por estar horas sem receber alimentos. Ela aparece na seção A guerra das caatingas, contida no capítulo III da terceira parte, A Luta, intitulado Preparativos da reação. No contexto da Guerra de Canudos, o autor narra um episódio em que a fome aparece como decorrência da perseguição das tropas militares contra Antônio Conselheiro e seus seguidores no ambiente de caatinga do sertão da Bahia:

A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. (Cunha, 2013, p. 245).

Da quarta à décima terceira vez em que a palavra fome é usada na narrativa de Os Sertões (Cunha, 2013), o autor procura retratar episódios relacionados à falta de alimentos para garantir as necessidades nutricionais das tropas militares. Na oitava vez, por exemplo, o autor reproduz em sua narrativa relatos de estratégias de sobrevivência alimentar usadas em períodos de secas pelo sertanejo nordestino, previamente já registradas, muitas vezes de forma mais completa e precisa, nas obras de outros autores da fase inicial da Literatura da seca, como José do Patrocínio (Patrocínio, 2018), Rodolfo Teófilo (Theophilo, 1890) e Franklin Távora (Távora, 2014):

Como os retirantes infelizes, os soldados apelaram para a flora providencial. Cavavam os umbuzeiros em roda, arrancando-lhes os tubérculos túmidos; catavam cocos de ouricuris, ou talhavam os caules moles dos mandacarus, alimentando-se de cactos que a um tempo lhes disfarçavam ou iludiam a fome e a sede. Não lhes bastava, porém, este recurso, que para os mais inexpertos mesmo era perigoso. Alguns morreram envenenados pela mandioca brava e outras raízes, que não conheciam. (Cunha, 2013, p. 436).

Outras estratégias de sobrevivência alimentar usadas em períodos de secas pelo sertanejo nordestino, também previamente já registradas nas obras dos autores que iniciaram a Literatura da seca (Theophilo, 1890; Távora, 2014; Patrocínio, 2018) podem ser observadas na narrativa em que termo fome é usado pela décima segunda vez:

Alguns, quando os demais abalavam dos pousos transitórios, se deixavam ficar, quietos, à sombra dos arbustos murchos, de todo sucumbidos de fadigas - enquanto outros, aguilhoados pela sede, mal extinta nas águas impuras das almácegas sertanejas e impelidos pela fome, torcendo o rumo, batiam afanosamente os desvios multívios das caatingas, apelando para os recursos da flora singular transbordante de frutos e de espinhos - e desgarravam, desarraigando tubérculos de umbuzeiros, sugando os cladódios túmidos dos cardos espinescentes, catando os últimos frutos das árvores desfolhadas. (Cunha, 2013, p. 478).

Na décima primeira vez em que a palavra fome aparece na narrativa de Os Sertões (Cunha, 2013) o autor também remete o leitor para a compreensão de aspectos do ambiente de consumo alimentar dos soldados que compunham os batalhões que dizimaram Antônio Conselheiro e seus seguidores em Canudos. Nesta passagem faz alusão ao consumo de carne de boi pelas tropas - animal do cenário da produção agropecuária da região do sertão da Bahia, o qual também estava sujeito às consequências da seca na região -, sede e fome:

Os batalhões, diariamente mandados até às Baixas, voltavam sem rastrear nem um sinal da sua existência, pelas estradas vazias. Um deles, o 15º, comandado pelo Capitão Gomes Carneiro, no dia 10, ao tornar da diligência inútil, comboiara como suprema irrisão um boi, um único boi - magro, retransido de fome, oscilante sobre as pernas secas - uma arroba de carne para seis mil famintos. (Cunha, 2013, p. 442).

Da décima quarta à vigésima quarta vez em que o termo fome aparece procura retratar de forma predominante, mas não exclusiva, a situação de carência alimentar da população de Canudos. Em sua décima quarta passagem a fome aparece com noção de instrumento de luta e de resistência do povo de Canudos (os jagunços na concepção do autor), a qual pode ser observada na seção Primeiras notícias certas do Capítulo VI da parte Quarta Expedição:

Aqueles homens, que chegavam dilacerados pelas garras do jagunço e pelos espinhos da terra eram o vigor de um povo posto à prova do ferro, à prova do fogo e à prova da fome. Abaladas pelo cataclismo da guerra, as camadas superficiais de uma nacionalidade cindiam-se, pondo à luz os seus elementos profundos naqueles titãs resignados e estoicos. Sobre tudo isto um pensamento diverso, não boquejado sequer mas por igual dominador, latente em todos os espíritos: a admiração pela ousadia dos sertanejos incultos, homens da mesma raça, de encontro aos quais se despedaçavam daquele modo batalhões inteiros. (Cunha, 2013, p. 489-490).

A noção de fome conjuntural (ou fome epidêmica) (Castro, 1980), resultante tanto da seca como em consequência da Guerra de Canudos, afetando tanto a tropa de soldados, mas sobretudo, a população local, pode ser observada em algumas passagens. A décima oitava vez em que é usada, apareceu na seção Os prisioneiros do Capítulo I da parte Últimos dias, recortada a seguir:

Algumas mulheres fizeram revelações: Vila-Nova seguira, na véspera, para a Várzea da Ema. Sentia-se, já há tempos, fome no arraial, sendo quase todos os mantimentos destinados aos que combatiam; e, revelação mais grave, o Conselheiro não aparecia desde muito. Ainda mais, trancadas todas as saídas, começara para todos, lá dentro, o suplício crescente da sede. (Cunha, 2013, p. 562).

A décima nona passagem na qual a palavra fome foi usada em Os Sertões (Cunha, 2013) encontra-se no Capítulo II da parte Últimos dias, intitulado Depoimento do autor. Nesta passagem, observa-se que o autor apresenta uma concepção de fome que mistura o sentido de penitência/purgação com a noção de fome como instrumento de luta e resistência. Ao mesmo tempo, observa-se neste depoimento como o autor “destila” seu preconceito de raça/cor/etnia/classe:

Um negro, um dos raros negros puros que ali havia, preso em fins de setembro, foi conduzido à presença do comandante da 1ª coluna, General João da Silva Barbosa. Chegou arfando, exausto da marcha aos encontrões e do recontro em que fora colhido. Era espigado e seco. Delatava na organização desfibrada os rigores da fome e do combate. A magreza alongara-lhe o porte, ligeiramente curvo. A grenha, demasiadamente crescida, afogava-lhe a fronte estreita e fugitiva; e o rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda. Chegou em cambaleios. O passo claudicante e infirme, a cabeça lanzuda, a cara exígua, um nariz chato sobre lábios grossos, entreabertos pelos dentes oblíquos e saltados, os olhos pequeninos, luzindo vivamente dentro das órbitas profundas, os longos braços desnudos, oscilando - davam-lhe a aparência rebarbativa de um orango valetudinário. (Cunha, 2013, p. 566-567).

Na vigésima terceira vez em que a fome é abordada em Os Sertões (Cunha, 2013), o autor reafirma a sua concepção preconceituosa de raça/cor/etnia/classe. Essa passagem ocorre na seção Notas de um diário, que compõe o Capítulo V da parte Últimos dias:

Predominava o pardo lídimo, misto de cafre, português e tapuia - faces brônzeas, cabelos corredios e duros ou anelados, troncos deselegantes; e aqui, e ali, um perfil corretíssimo recordando o elemento superior da mestiçagem. Em roda, vitoriosos, díspares e desunidos, o branco, o negro, o cafuz e o mulato proteiformes com todas as gradações da cor... Um contraste: a raça forte e íntegra abatida dentro de um quadrado de mestiços indefinidos e pusilânimes. Quebrara-a de todo a luta. Humilhava-se. Do ajuntamento miserando partiam pedidos flébeis e lamurientos, de esmola... Devoravam-na a fome e a sede de muitos dias. (Cunha, 2013, p. 609).

Em síntese, a análise destes recortes de Os Sertões (Cunha, 2013) nos possibilitou a identificação de pelo menos quatro percepções de fome: fome como penitência ou purgação religiosa, fome biológica/fisiológica, fome como instrumento de luta ou resistência, e fome conjuntural (fome epidêmica). A compreensão destas percepções de como o fenômeno da fome é produzido (sua gênese), quais os seus determinantes ou dimensões e como é relatado precisa ser feita à luz das distintas análises realizadas sobre o autor e sua obra naquele contexto econômico, político e social da sua produção. Em geral, as análises críticas sobre o romance-reportagem publicado por Euclides da Cunha (Cunha, 2013) elencam múltiplos e complexos determinantes envolvidos, tais como: formação, disciplina e ideologia militar; influência das ideias e pressupostos filosóficos do positivismo científico e religioso; vinculação às teorias eugenistas de superioridade de raça/cor/etnia; propensão às teorias evolucionistas e do determinismo biológico; partidário do sistema republicano de governo brasileiro; estilo literário pioneiro e autêntico em forma e conteúdo, com linguagem sofisticada, uso de estrangeirismo e neologismo; e aproximação com o movimento naturalismo literário, o qual caracteriza-se principalmente no uso de evidências científicas na literatura (Azevedo, 1950; Souza, 2010; Tavares; Pereira, 2022; Silva, 2023). Esse amplo leque de atributos concorre para um olhar euclidiano centrado, hegemonicamente, numa perspectiva biológica da fome e, sobretudo, a fome como problema sofrido pelas tropas militares que dizimaram a população de Canudos e que precisavam do abastecimento alimentar dos órgãos públicos financiadores do conflito bélico. Quando a fome foi usada nas narrativas relativas ao beato Antônio Conselheiro e seus seguidores, na maioria das vezes o uso do conceito foi feito a partir de um olhar de preconceito religioso, racial, ideológico, regional ou cultural. A fome como ato religioso de penitência, purgação ou purificação do espírito praticada pelo Conselheiro e conselheiristas foi narrada com sátira ou deboche. Os hábitos de distribuir alimentos (esmolas); de repartir a comida; e de plantar, colher e comer de forma comunitária o “pão nosso de cada dia” no arraial de Canudos não foram reportados em Os Sertões. Portanto, não identificamos em Os Sertões a percepção crítico-social de fome que foi mais facilmente observada em Os Retirantes (Patrocínio, 2018) e em A fome: cenas da seca no Ceará (Theophilo, 1890) - romances pioneiros da Literatura da seca. Ou seja, Euclides da Cunha não percebeu a fome em Os Sertões como um fenômeno social e historicamente produzido pela guerra do Exército brasileiro contra o povo de Canudos.

A invisibilidade, silêncio ou ocultamento do ambiente alimentar de Canudos em Os Sertões de Euclides da Cunha

Em relação aos aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares presentes em Os Sertões, pelo menos quatro momentos da narrativa do autor merecem ser recortados. O primeiro recorte encontra-se na seção O umbuzeiro, que compõe o Capítulo IV da primeira parte (A Terra) de Os Sertões (Cunha, 2013). Assim como nos demais capítulos e diversas seções desta primeira parte da obra, o narrador procura descrever aspectos do ambiente físico-geográfico da região e, no caso específico desta seção, ele faz uma brevíssima descrição de um dos elementos da flora local - o umbuzeiro, “a árvore sagrada do sertão” (p. 49) para o autor. Neste recorte aparece a alusão tanto ao consumo da fruta umbu, como a uma preparação culinária típica da região do sertão nordestino feita à base de umbu - a umbuzada (umbu, leite de gado ou de cabra e açúcar). Ao longo de Os Sertões (Cunha, 2013), o umbu (umbuzada e umbuzeiro) é um dos alimentos mais citados pelo autor e nos relatos das tradições culinárias também aparece uma referência ao consumo de jerimum (abóbora) com leite pelos vaqueiros sertanejos (Cunha, 2013, p. 131):

Se não existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao Ceará, estaria despovoado. O umbu é para o infeliz matuto que ali vive o mesmo que a mauritia para os garaunos dos llanos. Alimenta-o e mitiga-lhe a sede. Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional. (Cunha, 2013, p. 49).

O segundo recorte diz respeito a um registro que o autor relata na seção Saque antes do triunfo do Capítulo IV da parte Expedição Moreira César, intitulado A ordem de batalha, dando pistas de qual poderia ser a dieta básica (Castro, 1980) no sertão de Canudos - carne de sol e paçoca (farinha), complementada pelo consumo de frutos do ouricuri:

Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar, afinal, em Canudos. Esquadrinhava os jiraus suspensos. Ali estavam carnes secas ao sol; cuias cheias de paçoca, a farinha de guerra do sertanejo; aiós repletos de ouricuris saborosos. A um canto os bogós transudantes, túmidos de água cristalina e fresca. Não havia resistir. Atabalhoadamente fazia a refeição num minuto. Completava-a largo trago de água. Tinha, porém, às vezes, um pospasto crudelíssimo e amargo - uma carga de chumbo; (Cunha, 2013, p. 334-335).

O terceiro recorte relacionado aos aspectos do ambiente alimentar contidos em Os Sertões foi observado na seção “Aventuras do cerco. Caçadas perigosas”, componente do Capítulo IV da parte Quarta Expedição, intitulado Vitória singular. Nesta passagem o autor procura registrar as dificuldades de abastecimento alimentar para satisfazer as necessidades alimentares e nutricionais dos seis mil militares que participaram da Guerra de Canudos, cujo cardápio poderia ser composto por carne de gado, milho, feijão e mandioca:

O gado diariamente adquirido - oito ou dez cabeças - era, porém, um paliativo insuficiente ao minotauro de seis mil estômagos. Além disto, a carne cozida sem sal, sem ingrediente algum, em água salobra e suspeita, ou chamuscada em espetos, era quase intragável. Repugnava à própria fome. As pequenas roças de milho, feijão da vazante e mandioca, que atenuavam a princípio a sensaboria dessa alimentação de feras, exauriram-se prestes. Tornou-se necessário buscar outros recursos. (Cunha, 2013, p. 436).

Por último, o quarto recorte relacionado aos aspectos do ambiente alimentar contidos em Os Sertões foi observado na seção Desânimos, que também constitui o Capítulo IV da parte Quarta Expedição, intitulado Vitória singular. Em sua narrativa o autor acrescenta ao seu registro da dieta básica (Castro, 1980) da população de Canudos (os jagunços na concepção do autor), os alimentos café e açúcar:

A 5ª Brigada ao seguir certa vez até às Baixas, encontrara em suas vizinhanças, orlando os caminhos até próximo ao Angico, malas de carne-seca esturradas, montes de farinha, café e açúcar, de mistura com as cinzas das fogueiras que os haviam consumido. Era um traço firme de altivez selvagem com que se arrojavam à luta os jagunços que, afinal, não tinham abastança tal que justificasse tais atos. Afeitos, porém, às parcimônias de frugalidade sem-par, os rudes lidadores que nas quadras benignas atravessavam o dia com três manelos de paçoca e um trago d’água, haviam refinado a abstinência disciplinadora, na guerra, ostentando uma capacidade de resistência incomparável. Os nossos soldados não a tinham. Não podiam tê-la. A princípio reagiram bem. Deram um epíteto humorístico à fome. (Cunha, 2013, p. 437).

Estes quatro escassos relatos identificados em nossa análise denotam a deliberada estratégia do narrador de Os Sertões em provocar a invisibilidade, o silenciamento ou o ocultamento do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares de Canudos, ou mais precisamente da comunidade de Belo Monte - a terra prometida ou a Canaã, construída por Antônio Conselheiro e seus cerca de 25 mil habitantes, conforme aponta a revisão histórica de Os Sertões realizada por Ataliba Nogueira (1901-1983) (Nogueira, 1978). Em Belo Monte, o peregrino ou beato Antônio Conselheiro, por meio de sua imagem física messiânica (características físico-corporais, vestimentas, equipamentos, gestos e expressões religiosas cristãs), do seu carismático discurso político-religioso e ideológico (defesa da monarquia, questionamentos sobre o papel da igreja católica no Brasil) e de suas ações pragmáticas de cunho humanista-cristã (construir igrejas, cemitérios, distribuir esmolas, etc.), conseguiu construir sua comunidade de “conselheiristas”, que foi formada pelos “sertanejos retirantes” das longas e cíclicas secas da região, negros recém libertos do regime escravocrata e indígenas, denominados de jagunços e fanáticos na narrativa de nítida parcialidade contida em Os Sertões (Cunha, 2013). Portanto, o sustentável, saudável e comunitário sistema de produção, distribuição, comercialização e consumo de alimentos que ocorreu em Canudos por cerca de quatro anos (1893-1897), antes das quatro sucessivas expedições militares que a dizimaram, conforme relatos identificados na literatura analisada (Nogueira, 1978; Martins, 2007; Adoue, 2011; Câmara; Câmara, 2015; Pinheiro; Duarte, 2020; Morais et al., 2023; Siega; Ceribeli, 2023), não foi observado e reportado no romance-reportagem de Euclides da Cunha (Cunha, 2013).

O modo de produção da comunidade de Belo Monte, no que tange à produção dos alimentos para a garantia de sua sobrevivência, conforme diversas análises, pautava-se na produção de base mutualista e participativa (decisão colegiada), sob à orientação religiosa de Antônio Conselheiro. A propriedade comunitária, mutualista ou socialista da terra e da água, naquele contexto histórico-temporal do semiárido nordestino, no qual predominavam o poder político-econômico dos latifundiários e a força devastadora dos fenômenos climáticos naturais da região (as secas cíclicas e prolongadas), revelava-se um perigo paroquial e nacional. Há relatos de que Belo Monte desenvolveu importante sistema econômico de caprinocultura, capaz de satisfazer o autoabastecimento local, bem com gerar excedente para comercialização nas redondezas, particularmente, de peles. Nas terras do arraial, às margens do rio Vaza-Barris, de forma comunitária ou mutualista, os sertanejos de Canudos plantavam, colhiam e comiam leguminosas, cereais, legumes, hortaliças e frutas; criavam, comiam e vendiam animais (gado e, principalmente, cabras e carneiros); coletavam, caçavam, pescavam e comiam alimentos da flora e fauna da região (Nogueira, 1978; Martins, 2007; Adoue, 2011; Câmara; Câmara, 2015; Pinheiro; Duarte, 2020; Morais et al., 2023; Siega; Ceribeli, 2023), atividades humanas de sobrevivência coletiva que o romance-reportagem de Euclides da Cunha retratou de forma parcial, ou seja, apenas do ponto de vista dos vitoriosos da Guerra de Canudos.

De acordo com os relatos observados na literatura analisada o padrão alimentar da população de Canudos no período anterior à chacina militar era formado pelo consumo de alimentos in natura produzidos predominantemente na região e redondezas, tais como: farinha de mandioca, milho, leite, feijão, fava, carnes (bovina, caprina), café, mel de abelha, rapadura, jerimum e frutas (melão, melancia, umbu) (Nogueira, 1978; Martins, 2007; Adoue, 2011; Câmara; Câmara, 2015; Pinheiro; Duarte, 2020; Morais et al., 2023; Siega; Ceribeli, 2023). Um padrão bem característico dos hábitos e práticas alimentares regionais do sertão nordestino relatado pelas obras da Literatura da seca que antecederam (Theophilo, 1890; Távora, 2014; Patrocínio, 2018) à publicação de Os Sertões (Cunha, 2013).

Conclusão

A análise histórico-literária realizada de Os Sertões possibilitou a seguinte síntese conclusiva:

  1. Quando comparada às obras iniciais da literatura da seca Os Retirantes, de José do Patrocínio, e A fome: cenas da seca no Ceará, de Rodolfo Teófilo, observa-se que a obra não apenas subestimou o uso do conceito de fome, mas, sobretudo, não percebeu a sua dimensão crítico-social revelada por seus antecessores.

  2. Pelo menos quatro percepções da fome foram identificadas na narrativa de Os Sertões: fome como penitência religiosa, fome biológica, fome como instrumento de luta ou resistência e fome conjuntural (fome epidêmica).

  3. Observou-se hegemonia da perspectiva biológica da fome e, sobretudo, como problema sofrido pelas tropas militares que dizimaram a população de Canudos e que precisavam do abastecimento alimentar dos órgãos públicos financiadores do conflito bélico.

  4. As narrativas da fome relativas ao beato Antônio Conselheiro e seus seguidores foram reportadas com preconceito religioso, racial, ideológico, regional ou cultural. A fome como ato religioso de purificação do espírito praticada pelo Conselheiro e conselheiristas foi narrada com sátira ou deboche.

  5. O ambiente alimentar e os hábitos de distribuir alimentos; de repartir a comida e de plantar, colher e comer de forma comunitária o “pão nosso de cada dia” no arraial de Canudos não foram reportados ou foram silenciados.

Em síntese, Euclides da Cunha não percebeu a fome em Os Sertões como um fenômeno social e historicamente produzido pela guerra do Exército Brasileiro contra o povo de Canudos.

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  • Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora-Chefe:
    Cássia Maria Bezerra do Nascimento
  • Editor Executivo:
    Gerson Roberto Neumann
  • Editores Associados:
    Adriana Cristina Aguiar Rodrigues
    Anderson Bastos Martins
    Germana Henriques Pereira

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2025
  • Aceito
    22 Out 2025
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