No artigo “Negras guerreiras: o lugar da memória na performance insurgente de uma artista de periferia”, DOI https://doi.org/10.1590/1984-6398202342766, publicado no periódico Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 23, n. 3, e42766, 2023,
1 À página 3, onde se lia:
Diante das perspectivas expostas, cabe ainda uma consideração de suma importância para prosseguirmos no debate que proponho. Antes mesmo de iniciar a escrita desse texto pensei se eu deveria desenvolver uma análise sobre o trabalho de uma mulher negra, reconhecendo de partida o meu lugar privilegiado como autor homem branco e cis. Achei a princípio que não deveria entrar nessa seara acadêmica. No entanto, lendo autoras como Bárbara Carine (2023) tenho pensado que, por um lado, é importante que eu me coloque nesse debate como um intelectual não negro, racializando a branquitude e contribuindo para a desconstrução da premissa colonial do branco como ser universal. Um dever ético e político do meu trabalho intelectual.
Por outro, que a luta antirracista é de todos, mesmo considerando que é a partir dos coletivos e movimentos negros organizados que se manifesta a insurgência física e intelectual capaz de reconfigurar a lógica do racismo estrutural (Almeida, S., 2020). Acredito que, refletir sobre o trabalho artístico de uma mulher negra em um contexto de permanência feroz do racismo e de demais preconceitos direcionados a outros grupos minoritarizados (Cavalcanti, 2011) - tanto na sua dimensão ordinária da vida cotidiana, como por meio de diferentes mecanismos jurídico-institucionais de manutenção da ordem hegemônica branca -, faz com que um intelectual antirracista como eu não se contente em apensas denunciar o racismo, mas agir contra ele. Acredito que trabalhar com a obra de uma artista como Nilze em uma perspectiva transdisciplinar e transperiférica, acima de tudo dialógica, me possibilita atuar ao lado dela no combate ao racismo, evidenciando assim práticas que ressignificam o lugar do negro e da negra na sociedade brasileira, principalmente no que se refere a produção de conhecimento oriunda das periferias e favelas das cidades.
Leia-se:
Diante das perspectivas expostas, cabe ainda uma consideração de suma importância para prosseguirmos no debate que proponho. Lendo autoras como Bárbara Carine (2023) tenho pensado sobre a importância de um intelectual não negro e cis como eu se colocar nesse debate, racializando a branquitude e contribuindo para a desconstrução da premissa colonial do branco como ser universal. Como dever ético e político do meu trabalho intelectual, parto do princípio de que a luta antirracista é de todos, mesmo considerando que é a partir dos coletivos e movimentos negros organizados que se manifesta a insurgência física e intelectual capaz de reconfigurar a lógica do racismo estrutural (Almeida, S., 2020). Acredito que, refletir sobre o trabalho artístico de uma mulher negra em um contexto de permanência feroz do racismo e de demais preconceitos direcionados a outros grupos minoritarizados (Cavalcanti, 2011) - tanto na sua dimensão ordinária da vida cotidiana, como por meio de diferentes mecanismos jurídico-institucionais de manutenção da ordem hegemônica branca -, faz com que um intelectual antirracista como eu não se contente em apenas denunciar o racismo, mas agir contra ele de forma analítica a subsidiar novas ações e consolidar novos entendimentos sobre o outro não hegemônico. Acredito que trabalhar com a obra de uma artista como Nilze em uma perspectiva transdisciplinar e transperiférica, acima de tudo dialógica, me possibilita atuar ao lado dela no combate ao racismo, evidenciando assim práticas que ressignificam o lugar das mulheres negras na sociedade brasileira, principalmente no que se refere a produção de conhecimento oriunda das periferias e favelas das cidades.
2 Na “Conclusão” (p. 16), onde se lia:
Ao me arriscar nessa seara de reflexões sobre as performances e os signos que nos remetem a história e a ancestralidade do povo negro, mais especificamente das mulheres negras, na sociedade brasileira, busquei enfrentar duas questões: a do lugar de legitimidade da fala sobre o tema e a da necessidade de se compartilhar a produção de uma obra artística periférica como produção de saber. Ambas se relacionam na produção desse texto. A primeira questão me desafia no sentido do lugar que ocupo numa sociedade como a brasileira: altamente estratificada material e simbolicamente, e profundamente recortada pelo viés racial e de gênero. Ciente da minha performance como homem branco e cis, não me furto a pensar criticamente esse ser histórico diante das atrocidades cometidas contra homens, mulheres e crianças negros e negras em nome da razão, da ciência, do progresso e da acumulação do capital. No entanto, ao me apresentar como alguém que atua como um intelectual acadêmico no curso das necessárias reparações históricas que devemos fazer como sociedade, me vi desafiado a escrever e a refletir sobre uma mulher negra que tem na sua sensibilidade intelectual e artística a capacidade de tornar, por meio da sua música, a opressão e as mazelas contra seu povo um instrumento de luta e de significação da beleza cultural periférica e negra. Por meio da obra e das performances narrativas de Nilze, me vi moralmente instigado a contribuir com a luta antirracista, uma luta que considero de todos e todas.
Leia-se:
Esse texto desdobra-se de uma série de observações e experiências compartilhadas entre mim e as demais interlocutoras aqui presentes, em diferentes frentes de pesquisa. Ao longo do meu trabalho de campo como pesquisador da moradia popular no Complexo do Alemão, pude acompanhar de perto algumas questões caras à população favelada, principalmente às mulheres faveladas - em sua grande maioria negra. Entre muitos problemas relacionados às questões econômicas e sociais, percebi acima de tudo como a carga de trabalho e de responsabilidades recai com força sobre os ombros delas: a casa e suas funções, o acompanhamento do filho/a na escola, o abrigo da chuva, a mobilização coletiva junto aos representantes governamentais, a proteção sobre o tiroteio, a denúncia e o protesto em torno das mortes precoces e violentas de seus filhos e filhas... são as mulheres negras as protagonistas dessas performances insurgentes nas duras dinâmicas cotidianas das periferias e favelas brasileiras. Ao trabalhar com as letras e as músicas de Nilze Benedicto, bem como todos os signos da negritude que ela mobiliza, pude perceber o quanto as trajetórias mais atuais dessas mulheres estão conectadas com as trajetórias de suas antepassadas negras e escravizadas. Pude compreender um pouco mais como as memórias ao serem mobilizadas tornam-se um poderoso instrumento de reivindicação por ressignificados de suas identidades construídas a partir de um cronotopo específico, mas imbricado com o cronotopo da cidade branca e mercantil. Pensar a produção da vida e a manifestação de mulheres negras e periféricas, seja na militância de coletivos periféricos, seja por meio da performance artística de mulheres como Nilze Benedicto, aponta para a necessidade de compreendermos que as questões aqui apresentadas por elas são resultados de suas vivências individuais e coletivas, secularmente identificadas e compartilhadas entre si.
Assim, ao me arriscar nessa seara de reflexões sobre as performances e os signos que nos remetem a história e a ancestralidade do povo negro, mais especificamente das mulheres negras, na sociedade brasileira, busquei também enfrentar duas questões: 1) a do lugar de legitimidade da fala sobre o tema e; 2) a da necessidade de se compartilhar a produção de uma obra artística periférica como produção de saber. Ambas se relacionam na produção desse texto. A primeira questão me desafia no sentido do lugar que ocupo numa sociedade como a brasileira: altamente estratificada material e simbolicamente, e profundamente recortada pelo viés racial e de gênero. Ciente da minha performance como homem branco e cis, não me furto a pensar criticamente esse ser histórico diante das atrocidades cometidas contra homens, mulheres e crianças negros e negras em nome da razão, da ciência, do progresso e da acumulação do capital. No entanto, ao me apresentar como alguém que atua como um intelectual acadêmico no curso das necessárias reparações históricas que devemos fazer como sociedade, me vi desafiado a escrever e a refletir sobre uma mulher negra que tem na sua sensibilidade intelectual e artística a capacidade de tornar, por meio da sua música, a opressão e as mazelas contra seu povo um instrumento de luta e de significação da beleza cultural periférica e negra. Por meio da obra e das performances narrativas de Nilze, me vi moralmente instigado a contribuir com a luta antirracista, uma luta que considero de todos e todas.
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Responsável pela aprovação da errata - Editora-chefe :
Profa. Dra. Andréa Machado de Almeida Mattos
