Open-access Características ambientais e prática de atividade física entre pessoas idosas residentes em Santa Maria, Brasil

Resumo

Objetivo  Analisar o nível de atividade física e as características ambientais relatadas por pessoas idosas residentes em Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.

Métodos  Este estudo transversal foi conduzido na área urbana e incluiu uma amostra de 202 participantes. Foram coletados dados sobre características sociodemográficas, estado cognitivo, nível de atividade física e percepção de aspectos ambientais. Realizaram-se análises de frequências relativas e absolutas, além de testes do qui-quadrado e regressões logísticas bivariada e multivariada.

Resultados  A prevalência de participantes fisicamente ativos foi inferior a 30%, com média de 63,14 minutos (±115,15) de atividade física por semana. A presença de feiras livres e de faixas de pedestres próximas às residências dos participantes foram as variáveis que mais influenciaram a prática de atividade física, aumentando a probabilidade de serem ativos em 3,3 e 2,7 vezes, respectivamente.

Conclusão  A prevalência de pessoas idosas fisicamente ativas em Santa Maria é baixa. Fatores ambientais, como a presença de feiras livres e faixas de pedestres, exerceram a maior influência sobre o nível de atividade física no tempo livre.

Palavras-chave
Idoso; Envelhecimento; Ambiente; Exercício físico.

Abstract

Objective  To examine the level of physical activity and the environmental characteristics reported by older adults living in Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brazil.

Methods  This cross-sectional study was conducted in the urban area and included a sample of 202 participants. Data were collected regarding sociodemographic characteristics, cognitive status, level of physical activity, and perceived environmental features. Analyses of relative and absolute frequencies were performed, along with chi-square tests and bivariate and multivariate logistic regressions.

Results  The prevalence of physically active participants was below 30%, with a mean of 63.14 minutes (±115.15) of physical activity per week. The presence of street markets and pedestrian crosswalks near participants’ homes were the variables most strongly associated with physical activity, increasing the likelihood of being active by 3.3 and 2.7 times, respectively.

Conclusion  The prevalence of physically active older adults in Santa Maria is low. Environmental factors such as the presence of street markets and pedestrian crosswalks had the strongest influence on the level of leisure-time physical activity.

Keywords
Older Adults; Aged; Environment; Physical Activity.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional tem se tornado tema de relevância crescente nas discussões sobre saúde1, principalmente devido ao crescente número de pessoas idosas e ao aumento projetado dessa população nos próximos anos2. A atividade física é amplamente reconhecida como um determinante biopsicossocial da saúde, e está bem estabelecido que a prática regular de atividade física e o consequente aumento dos níveis de atividade física (NAF) estão associados à redução da morbimortalidade por diversas doenças, bem como à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e de determinados tipos de câncer3-5. Estudos longitudinais demonstram que pessoas idosas que mantêm um estilo de vida ativo percebem sua saúde e qualidade de vida como significativamente melhores6.

No Brasil, a inatividade física nos domínios do transporte e do lazer está fortemente associada ao sobrepeso e à obesidade, sugerindo que esses domínios são caracterizados por períodos mais prolongados de comportamento sedentário7. Uma pesquisa nacional revelou que apenas 26,4% dos adultos eram fisicamente ativos no tempo livre, e uma parcela considerável da população não atendia às recomendações internacionais de atividade física8. Esses achados são preocupantes, uma vez que esses adultos constituirão a futura população idosa.

É amplamente reconhecido que a qualidade de vida das pessoas idosas está intimamente relacionada à mobilidade, cuja ausência resulta em piora geral da saúde e do bem-estar. A mobilidade diária é um pré-requisito para aprimorar a autonomia pessoal, promover o engajamento social e melhorar tanto a saúde física quanto a mental das pessoas idosas9.

Nesse contexto, o ambiente desempenha um papel fundamental não apenas na mobilidade, mas também em diversos outros aspectos do processo de envelhecimento. O ambiente construído tem atraído considerável atenção de diferentes áreas do conhecimento, incluindo o planejamento urbano, a geografia, o transporte, a saúde pública e a psicologia10-12.

Entretanto, no Brasil, há poucos estudos que investigam as características ambientais percebidas associadas aos níveis de atividade física e aos comportamentos ativos entre pessoas idosas. As evidências disponíveis indicam uma associação positiva entre o comportamento ativo e condições ambientais favoráveis, em consonância com achados internacionais13-15. Assim, este estudo teve como objetivo analisar a prevalência de atividade física e sua associação com variáveis ambientais percebidas entre pessoas idosas residentes na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.

MÉTODOS

Este estudo transversal, domiciliar e descritivo foi conduzido na área urbana de Santa Maria, localizada na região central do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A cidade possui uma população total de 271.633 habitantes, dos quais aproximadamente 53.000 (19,51%) têm 60 anos ou mais. De acordo com o último censo, Santa Maria apresentou um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,784 e uma expectativa de vida ao nascer de 75,89 anos. A área urbana concentra 95,14% da população do município e é composta por 41 bairros, dos quais três foram selecionados para este estudo.

A seleção dos bairros baseou-se em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os critérios de seleção incluíram a renda domiciliar média total e o percentual de pessoas idosas entre os residentes (variando de 2% a 3,99%). Os bairros selecionados foram categorizados como de alta, média e baixa renda. O Bairro 1 (B1) incluía 930 pessoas idosas; o B2, 620; e o B3, 600.

O tamanho da amostra foi calculado com base nos procedimentos de amostragem para populações finitas, considerando poder estatístico de 95%, nível de significância de 5% e precisão de 3%, tendo como base o número total de pessoas idosas. Com essa abordagem, foram necessários pelo menos 202 participantes. Considerando-se um acréscimo de 10% para possíveis perdas, o tamanho final da amostra foi de aproximadamente 220 participantes.

Com base nesse cálculo, cerca de 10% das pessoas idosas de cada bairro foram abordadas e convidadas a participar. Assim, 66 participantes foram entrevistados no B1 e no B2, e 70 no B3, totalizando 202 entrevistas. O processo de amostragem foi não probabilístico.

Foram incluídos adultos da comunidade com 60 anos ou mais que concordaram em participar do estudo. Os critérios de exclusão incluíram comprometimento cognitivo com base no ponto de corte previamente estabelecido, lesões ou condições musculoesqueléticas que limitassem a prática de atividade física e residência em instituições de longa permanência.

Antes da coleta de dados, foi realizado um estudo piloto para identificar possíveis dificuldades operacionais relacionadas ao recrutamento de participantes e à aplicabilidade dos instrumentos. Oito pessoas idosas de um quarto bairro foram entrevistadas. Os instrumentos mostraram-se de fácil aplicação, exigindo em média 35 minutos para a realização de cada entrevista. No entanto, observou-se que a dificuldade em identificar os coletores de dados reduzia a disposição dos participantes em participar do estudo. Assim, recomendou-se o uso de camisetas padronizadas e crachás de identificação para facilitar o reconhecimento dos entrevistadores. Panfletos informativos sobre o estudo e os procedimentos de coleta de dados também foram distribuídos em residências e caixas de correio de apartamentos, com o objetivo de sensibilizar os moradores.

A coleta de dados ocorreu durante o segundo semestre de 2015. Quando os participantes em potencial eram abordados, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido era apresentado, explicando os objetivos e procedimentos do estudo e ressaltando o caráter voluntário da participação. Os participantes foram informados sobre os possíveis riscos e benefícios do estudo. Em seguida, foram aplicados uma anamnese e um teste cognitivo para verificar a elegibilidade. As etapas subsequentes incluíram a aplicação de questionários sobre nível de atividade física e características ambientais percebidas.

Os dados sociodemográficos e relacionados à saúde (como presença de doenças crônicas, incapacidades e uso de medicamentos) foram coletados por meio da anamnese. O estado cognitivo foi avaliado utilizando o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), validado por Folstein et al.16, com pontos de corte ajustados para o nível de escolaridade17. Os participantes foram classificados como portadores ou não de comprometimento cognitivo. Aqueles identificados com comprometimento cognitivo foram excluídos das etapas subsequentes, uma vez que os instrumentos seguintes exigiam respostas autorreferidas.

Para avaliar o nível de atividade física (NAF), utilizou-se o Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ – versão longa) adaptado para pessoas idosas no Brasil18. O presente estudo considerou apenas a atividade física no domínio do tempo livre, classificando os participantes como fisicamente ativos quando praticavam ≥150 minutos de atividade física por semana.

Para a avaliação ambiental, foi utilizada a versão adaptada¹³ da Escala de Caminhabilidade do Ambiente do Bairro (NEWS – Neighborhood Environment Walkability Scale), validada para uso no Brasil19. As questões da versão adaptada da NEWS apresentavam respostas dicotômicas (“sim”/“não”). As percepções sobre o ambiente incluíram a visão dos participantes quanto às estruturas físicas e ambientais próximas de suas residências que facilitavam ou dificultavam a prática de atividade física, como a presença e a qualidade das calçadas, áreas verdes, parques e praças, bem como o tráfego e a segurança do bairro.

Também foram avaliadas as características que promovem a prática de atividade física, como ciclovias, trilhas, pistas de caminhada, quadras esportivas e a ocorrência de eventos esportivos no bairro, além do apoio social percebido para a prática de atividade física e das condições climáticas. Todos os participantes foram orientados a considerar como “próximos de suas residências” os locais que pudessem ser alcançados em até 15 minutos de caminhada.

Todas as variáveis foram analisadas de forma descritiva por meio de frequências absolutas e relativas, tanto por bairro quanto para a amostra total. O teste do qui-quadrado foi utilizado para verificar diferenças nos níveis de atividade física (NAF) entre os bairros, classificando os participantes como “fisicamente ativos” ou “insuficientemente ativos”, de acordo com o ponto de corte de 150 minutos por semana.

Foram realizadas análises de regressão logística bivariada entre o NAF (variável dependente) e as variáveis ambientais percebidas (variáveis independentes). As variáveis com p<0,20 foram selecionadas para inclusão no modelo múltiplo. Para o modelo de regressão logística múltipla, as variáveis independentes foram inseridas em ordem crescente de significância, utilizando a estratégia de seleção progressiva (forward-selection). As variáveis foram mantidas ou removidas do modelo conforme sua significância estatística (p<0,05) e plausibilidade biológica. Todas as análises consideraram o desenho amostral complexo e incorporaram os pesos amostrais.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, sob o número de registro 43071815.5.0000.5346 e processo nº 1082661. Todos os princípios éticos foram observados em conformidade com as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes de participarem do estudo.

DISPONIBILIDADE DOS DADOS

O conjunto completo de dados que fundamenta os achados deste estudo está disponível com o autor correspondente, mediante solicitação razoável.

RESULTADOS

Foi entrevistado um total de 202 pessoas idosas. Nenhuma entrevista foi realizada com cuidadores ou familiares. Entre os respondentes, 46 (22,8%) foram excluídos com base no ponto de corte do Mini Exame do Estado Mental (MEEM), resultando em uma amostra final de 156 participantes (77,2%) para as análises subsequentes.

A Tabela 1 apresenta as principais características sociodemográficas e de saúde dos participantes, tanto no total quanto por bairro. Observou-se uma baixa prevalência de atividade física no tempo livre, inferior a 30%, em todos os bairros e na amostra total.

Tabela 1
Características sociodemográficas e de saúde dos participantes por bairro (B1, B2, B3) e para a amostra total, com intervalos de confiança de 95% (IC95%). Santa Maria, RS, 2015.

Ao considerar o nível de atividade física (NAF), observou-se que as pessoas idosas dos três bairros estudados não atingiram o limite recomendado de 150 minutos por semana, apresentando uma média geral de 63,14 minutos (±115,15). Analisando separadamente, o B1 apresentou média de 71,88 minutos (±138,31), o B2 de 80,81 minutos (±108,89) e o B3 de 38,51 minutos (±89,54) por semana. Foi identificada uma diferença significativa entre as médias de B2 e B3 (p = 0,007) (Figura 1).

Figura 1
Nível semanal de atividade física (em minutos) para os três bairros e para a amostra total.

Em relação à percepção ambiental, os fatores com maiores proporções de respostas positivas foram: “presença de ponto de ônibus”, “igreja/templo”, “padaria”, “sensação de segurança” e “ausência de fumaça/poluição”.

Por outro lado, os fatores com maiores proporções de respostas negativas foram: “presença de clubes/quadras/campos esportivos”, “parques ou áreas para caminhada”, “bancos para sentar”, “motoristas que cedem passagem a pedestres” e “realização de eventos esportivos” (Tabela 2).

Tabela 2
Fatores ambientais mais frequentemente relatados como positivos e negativos entre pessoas idosas (n = 156). Santa Maria, RS, 2015.

A maioria dos participantes (53,8%) relatou a presença de calçadas na maioria das ruas próximas às suas residências, variável que apresentou um Odds Ratio (OR)=1,110, embora com valor de p não significativo (p=0,800). Achado semelhante foi observado quanto à presença de áreas verdes, relatada como inexistente por 70,5% da amostra, com OR=1,303, também com p não significativo (p=0,524).

Das 41 variáveis de percepção ambiental investigadas neste estudo em relação à prática de 150 minutos semanais de atividade física no tempo livre, quatro apresentaram valores de p<0,20 e, portanto, foram selecionadas para o modelo de regressão logística múltipla. No entanto, apenas as variáveis “presença de feira livre” e “presença de faixas de pedestres próximas à residência” permaneceram no modelo múltiplo final. Os participantes que relataram a presença de uma feira livre apresentaram 3,3 vezes mais chances de serem fisicamente ativos, enquanto aqueles que relataram faixas de pedestres próximas às suas residências apresentaram 2,7 vezes mais chances de praticar atividade física no tempo livre (Tabela 3).

Tabela 3
Modelo de regressão logística considerando 150 minutos de atividade física no tempo livre por semana como variável dependente entre pessoas idosas de Santa Maria, RS, Brasil, 2015.

DISCUSSÃO

O presente estudo identificou uma baixa prevalência de pessoas idosas fisicamente ativas no tempo livre, bem como uma baixa média de minutos de atividade física por semana.

Em relação à percepção ambiental, as variáveis “presença de feira livre” (OR = 3,547) e “presença de faixas de pedestres próximas à residência” (OR = 2,717) permaneceram no modelo final de regressão múltipla, indicando que a probabilidade de realizar mais de 150 minutos semanais de atividade física no tempo livre aumentou quando essas características ambientais estavam presentes. A primeira variável relaciona-se à estrutura do bairro, enquanto a segunda está associada à segurança no trânsito.

A baixa prevalência de indivíduos fisicamente ativos pode estar associada às condições climáticas, visto que a cidade de Santa Maria apresenta clima subtropical, caracterizado por mudanças bruscas de temperatura, com invernos frios e verões quentes. Esse achado corrobora outros estudos que indicam que a variação climática constitui uma das principais barreiras para a manutenção de níveis adequados de atividade física, especialmente em atividades ao ar livre, como caminhadas ou exercícios em parques e áreas verdes20,21. Um desses estudos também relatou que 53,2% das pessoas idosas mencionaram que as condições climáticas interferem nas caminhadas e em outras atividades ao ar livre.

Diversos estudos realizados com populações, instrumentos e pontos de corte semelhantes aos utilizados nesta pesquisa relataram resultados distintos. Salvador et al.13 avaliaram 385 pessoas idosas do município de Ermelino Matarazzo e observaram prevalência de 15,1% de atividade física no tempo livre, sendo os homens mais ativos que as mulheres. Os mesmos autores analisaram a caminhada como forma de transporte entre pessoas idosas, considerando o ponto de corte de 150 minutos por semana, e encontraram que 34,8% foram classificados como fisicamente ativos. Giehl et al.14 avaliaram 1.656 pessoas idosas residentes em Florianópolis (SC) e encontraram prevalência de 29,7% de atividade física no tempo livre, com média de 131,8 minutos por semana (±216).

No contexto internacional, estudos demonstram resultados semelhantes. Por exemplo, uma pesquisa realizada na Bélgica com 438 participantes constatou que a população não atingiu 150 minutos semanais de atividade física no tempo livre22. Bauman et al.23 investigaram os níveis de atividade física (NAF) de homens e mulheres entre 18 e 64 anos em 20 países, utilizando a versão curta do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), e observaram que os NAF recomendados geralmente diminuem com a idade. Além disso, países como Austrália, Canadá, China, República Tcheca, Hong Kong, Nova Zelândia e Estados Unidos apresentaram alta prevalência de baixos níveis de atividade física, corroborando tanto os achados do presente estudo quanto os de pesquisas mais recentes24.

O baixo NAF observado entre os participantes deste estudo é motivo de preocupação, pois um estudo brasileiro recente conduzido por Thuan25 mostrou que pessoas idosas fisicamente ativas no tempo livre relatam melhores desfechos de saúde e menores níveis de solidão, enfatizando o papel essencial da atividade física na manutenção da saúde física e mental dessa população.

Em relação à infraestrutura dos bairros, variáveis como “presença de clube/quadra/campo esportivo” e “presença de parque/local para caminhada” foram frequentemente relatadas como ausentes, sugerindo que essas condições configuram barreiras à prática de atividade física. Contudo, não foram encontradas associações significativas entre essas variáveis e a prática de atividade física no tempo livre. Ainda assim, a literatura tem demonstrado de forma consistente uma relação positiva entre infraestrutura do bairro e atividade física entre pessoas idosas13,14,24,26. Ela também ressalta a importância de enfrentar as barreiras à atividade física nessa população, com o objetivo de transformar os ambientes em espaços de lazer atrativos e adequados, já que tais ambientes estão associados ao aumento dos níveis de atividade física e à redução do risco de declínio da mobilidade e da perda de motivação24,27.

Em Santa Maria, segundo a Superintendência de Parques, Praças e Jardins, existem 25 academias ao ar livre, 52 praças, 52 áreas verdes e 4 locais públicos para caminhada. Entretanto, os resultados sugerem que pessoas idosas não percebem essas estruturas como disponíveis em sua cidade ou próximas às suas residências. Embora haja diversas academias ao ar livre, a ausência de orientação ou acompanhamento profissional pode dificultar a prática de atividade física. A importância do planejamento e da manutenção de espaços de lazer acessíveis está amplamente documentada na literatura, pois esses espaços parecem estimular a prática de atividade física no tempo livre e os deslocamentos ativos. É possível que, no presente estudo, a percepção de inexistência decorra do fato de que essas áreas verdes, praças e parques encontram-se mal conservadas, de difícil acesso ou não atendem de forma eficaz às necessidades da comunidade.

Variáveis como “presença de calçadas” (OR=1,110; p=0,800) e “presença de áreas verdes” (OR=1,303; p=0,524) não foram mantidas no modelo final de regressão múltipla, mas apresentaram razões de chance positivas. É importante destacar que estudos anteriores identificaram essas características como contribuintes significativos para níveis mais elevados de atividade física.14,28. Embora não tenha sido o foco deste estudo, diversos autores relatam que a caminhada é a forma mais comum de atividade física entre pessoas idosas3,12, e que o uso regular de espaços públicos próximos está associado a maiores níveis de caminhada e outras formas de atividade física no tempo livre27,29.

Considerando a segurança no trânsito dos bairros, Giehl et al.14 observaram que a variável “presença de faixas de pedestres próximas à residência” estava entre as mais frequentemente relatadas por pessoas idosas (62,4%), sendo a atividade física no tempo livre mais prevalente entre aqueles que a percebiam de forma positiva (32%). Um estudo mais recente destaca que a qualidade das vias e dos espaços comunitários medeia a relação entre a infraestrutura física e a atividade física, reforçando a importância tanto dos ambientes físicos quanto dos ambientes sociais30.

A percepção positiva de segurança e o apoio social foram variáveis que não permaneceram no modelo final de regressão múltipla, resultado semelhante ao encontrado por Lim e Taylor31, que investigaram 8.881 pessoas idosas e não observaram associação significativa entre uma boa percepção de segurança e a adesão aos níveis recomendados de atividade física no tempo livre (OR=0,94). A iluminação pública adequada também se destaca como um fator tanto de segurança quanto estético, que contribui positivamente para a disposição das pessoas idosas em realizar atividades ao ar livre³², embora não tenha se revelado significativa neste estudo.

Diversos estudos indicam que essas variáveis influenciam fortemente a atividade física no tempo livre, bem como o comportamento ativo em geral11,12,15. Por exemplo, o primeiro estudo transversal europeu, realizado na década de 1990 e abrangendo adultos da Bélgica, Finlândia, Alemanha, Países Baixos e Espanha, demonstrou que indivíduos com baixos níveis de apoio social apresentavam maior probabilidade de serem fisicamente inativos no tempo livre (OR=2,15; IC95%: 1,72–2,68)33. Esse achado está alinhado a evidências mais recentes que mostram que grupos com menor apoio social e menor nível socioeconômico tendem a apresentar menores taxas de participação e níveis de atividade física34.

Embora o presente estudo não tenha encontrado associação positiva entre atividade física no tempo livre e percepção de segurança ou apoio social, investir em ambientes seguros que promovam não apenas a prática de atividade física, mas também o relacionamento interpessoal e a interação social continua sendo fundamental para o incentivo aos níveis de atividade física (NAF).

No que se refere ao apoio social, destaca-se que o município de Santa Maria possui aproximadamente 30 grupos voltados a pessoas idosas, que oferecem atividades físicas, artesanais e culturais. Contudo, esses grupos geralmente surgem de iniciativas comunitárias e, em sua maioria, não recebem apoio governamental. Nesse sentido, é importante salientar que fatores socioeconômicos também desempenham papel relevante na adesão à atividade física e na participação em geral34. As iniciativas de saúde pública devem concentrar-se em sensibilizar a população quanto aos benefícios de um estilo de vida ativo, normalizar a prática de atividade física ao longo da vida e oferecer programas acessíveis e adaptados às pessoas idosas, além de ambientes que favoreçam a interação social e oportunidades para a prática de atividade física27.

Por fim, vale ressaltar que a prática de atividade física ao ar livre, seja em ambientes naturais ou construídos, está associada à melhora da saúde física e mental, sugerindo que a promoção de espaços seguros ao ar livre durante todo o ano pode aumentar a adesão às recomendações de atividade física35.

Este estudo apresenta algumas limitações, incluindo o delineamento transversal, que impede o estabelecimento de relações de causa e efeito, e o uso de dados autorreferidos, que refletem as percepções dos participantes e não medidas objetivas do ambiente. Outra limitação refere-se ao fato de que a presença de doenças foi autorreferida, e não verificada por exames ou registros médicos, o que pode introduzir viés de recordação.

CONCLUSÃO

O presente estudo concluiu que a prevalência de pessoas idosas fisicamente ativas é baixa e que as variáveis ambientais mais fortemente associadas à atividade física no tempo livre foram a “presença de feira livre” e a “presença de faixas de pedestres próximas à residência”. A maioria das variáveis relacionadas à infraestrutura dos bairros apresentou alta frequência de respostas negativas, indicando a ausência dessas estruturas nas proximidades.

Com base nesses achados, destaca-se a importância da criação e manutenção de ambientes favoráveis à prática de atividade física no tempo livre e aos deslocamentos ativos, bem como da implementação de políticas de promoção da saúde que garantam ambientes seguros, estimulando a interação social e o apoio comunitário.

  • Financiamento
    Financiamento: Programa de Pós-graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Número do processo: 23081.131470/2025-23. Bolsa de R$ 780,00.

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Editado por

  • Editado por
    Camila Alves dos Santos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Jul 2025
  • Aceito
    26 Set 2025
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