Open-access Percepções sobre a decisão de continuar trabalhando após o tempo para aposentadoria: um estudo qualitativo em uma universidade pública

Resumo

Objetivo  Analisar a percepção dos trabalhadores de uma universidade pública que já alcançaram os critérios para aposentadoria, sobre a decisão de continuarem trabalhando.

Método  Pesquisa qualitativa com entrevistas em profundidade, analisadas com o software IRAMUTEQ® (versão 0.7 alpha 2). A amostra incluiu 12 participantes (7 mulheres e 5 homens).

Resultado  As palavras mais frequentes foram "aposentar", "processo", "vida" e "continuar". Na análise de similitude, foram identificadas quatro comunidades de palavras: "aposentadoria adiada", "momento de aposentar", "preocupações financeiras" e "envelhecimento ativo". Na Classificação Hierárquica Descendente, emergiram quatro classes: desafios da aposentadoria, reinventar-se, aposentadoria adiada e envelhecimento saudável. Os resultados enfatizaram que os entrevistados têm uma visão multifacetada sobre o envelhecimento e a aposentadoria, considerando aspectos financeiros, emocionais e de saúde.

Conclusão  Os achados corroboram com as evidências na literatura sobre os significados da aposentadoria, reforçando a importância de compreender as percepções dos servidores diante desse momento crucial de transição. Os eixos temáticos refletem a complexidade e a multidimensionalidade da experiência de envelhecimento e aposentadoria, evidenciando a necessidade de políticas que promovam um envelhecimento ativo e saudável, bem como suporte emocional e financeiro para essa população. A pesquisa destaca a relevância de um planejamento adequado para a aposentadoria, considerando as diversas dimensões que afetam a qualidade de vida dos trabalhadores idosos.

Palavras-chave
Envelhecimento; Trabalhador; Idoso; Universidades; Aposentadoria.

Abstract

Objective  To analyze the perception held by public university employees eligible for retirement, regarding the decision to continue working.

Method  A qualitative study with in-depth interviews analyzed using IRAMUTEQ® software (version 0.7 alpha 2) was conducted. The sample included 12 participants (7 women and 5 men).

Results  The most frequent words were “retire”, “process”, “life” and “continue”. In the similarity analysis, four communities of words were identified: "postponed retirement", "time to retire", "financial concerns", and "active aging". In the Descending Hierarchical Classification, four classes emerged: challenges of retirement, reinventing oneself, postponed retirement, and healthy aging. The results revealed that respondents held a multifaceted view of aging and retirement, considering financial, emotional and health aspects.

Conclusion  The findings corroborate the evidence in the literature on the meanings of retirement, underscoring the importance of understanding the perceptions of employees regarding this crucial time of transition. The thematic axes reflected the complexity and multidimensionality of the aging and retirement experience, highlighting the need for policies that promote active healthy aging, as well as emotional and financial support for this population. The study highlights the importance of adequate planning for retirement, considering the various dimensions that affect the quality of life of older workers.

Keywords
Aging; Worker; Aged; University; Retirement.

INTRODUÇÃO

Dentro do curso de vida das pessoas, o trabalho assume um papel central, não apenas como meio de subsistência, mas também como uma fonte de significado e propósito1,2. Ele se constitui como um dos valores fundamentais do indivíduo, influenciando sua percepção de si mesmo e de seu lugar na sociedade. Por meio do trabalho, os sujeitos constroem suas trajetórias, desenvolvem habilidades, estabelecem relações e encontram formas de expressar sua subjetividade3. Dessa maneira, o trabalho não só contribui para a realização pessoal, mas também exerce um papel essencial na formação da identidade, refletindo e, ao mesmo tempo, moldando os valores, aspirações e experiências ao longo da vida4,5.

A participação das pessoas idosas na dinâmica do mercado de trabalho gera novas perspectivas e configurações, visto que a longevidade representa um ganho social. Nessa perspectiva, há necessidade de as pessoas idosas permanecerem ativas, como uma forma de ampliar sua qualidade de vida. Além disso, existe outra realidade em que os próprios trabalhadores, mesmo após atingir uma idade avançada, precisam continuar trabalhando, desde que estejam com as suas funções psíquicas e motoras em bom estado6.

A realidade se justifica devido à necessidade de uma renda adicional, ocupação do tempo ou até mesmo apreço pelo trabalho desenvolvido, uma vez que a perda involuntária do emprego pode prejudicar a saúde mental, enquanto a reintegração no mercado de trabalho tende a restaurar o bem-estar psicológico anterior7. Para pessoas que trabalharam durante três ou mais décadas durante a vida, a interrupção abrupta na jornada diária de trabalho desestabiliza a saúde mental, ao mesmo tempo em que demanda o surgimento de novas rotinas e perspectivas de vida no envelhecimento. Ademais, há doenças físicas, transtornos mentais, isolamento social, diminuição da cognição, o que leva a uma redução da longevidade2,4.

Embora muitas pessoas associem o envelhecimento à aposentadoria, é importante reconhecer que nem todos os indivíduos são idosos, e entre os que são, muitos ainda permanecem ativos no mercado de trabalho6. Socialmente o envelhecimento é observado de forma estereotipada com relação ao trabalho, que se manifesta desde a recusa em contratar profissionais com mais idade, até a rotulação da pessoa idosa como menos capaz, menos produtiva ou menos adaptável às mudanças, fazendo com que seja considerado por tal sistema impossibilitado de exercer suas funções8.

Por outro lado, um conjunto de fatores que desempenham papel significativo na decisão pela aposentadoria diz respeito às representações sociais desenvolvidas sobre o assunto. A aposentadoria pode ser percebida como uma oportunidade para expandir seu papel social; enquanto outros a veem como um período de descanso, sem perspectivas de novos projetos. Portanto, a aposentadoria também pode ter uma conotação positiva, representando liberdade para o trabalhador, permitindo que ele se dedique a projetos pessoais, à família e a si mesmo9,10.

No contexto das instituições de ensino superior brasileiras, algumas têm trabalhado na construção de políticas voltadas para os servidores que estão nesse processo de envelhecimento, a exemplo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em que o Instituto do Envelhecer (IEN) desenvolve programas benéficos para o envelhecimento saudável de seus servidores públicos efetivos.

Diante da diversidade de sentimentos e concepções que envolvem o sentido do trabalho e a aposentadoria de pessoas idosas descritos na literatura científica, as contribuições deste estudo residem na ampliação da compreensão sobre os desafios e percepções dos trabalhadores em relação ao envelhecimento e à aposentadoria, abordando aspectos financeiros, emocionais e de saúde. Essa abordagem multidimensional é fundamental para aprimorar práticas e políticas em gerontologia, que visam à promoção do bem-estar físico, mental e social das pessoas. Nesse contexto, o presente estudo busca responder à seguinte questão: qual a percepção dos trabalhadores de uma universidade pública com tempo para aposentadoria, sobre sua decisão de continuar trabalhando?

O objetivo deste estudo é analisar a percepção dos trabalhadores de uma universidade pública que já alcançaram os critérios para aposentadoria, sobre a decisão de continuarem trabalhando.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa. Além disso, considerando que a unidade de análise é a realidade de uma Instituição de Ensino Superior (IES) específica, a pesquisa também pode ser caracterizada como um estudo de caso único11.

O presente estudo foi realizado em uma instituição pública de ensino superior no Rio Grande do Norte, Brasil. A instituição foi criada há 63 anos, tendo um campus na capital e quatro campi no interior nas cidades de Macaíba, Santa Cruz, Currais Novos e Caicó, bem como três Hospitais Universitários. Além disso, está presente em 62 municípios com ações de extensão universitária e em 20 polos presenciais de apoio à educação a distância, 12 localizados no Rio Grande do Norte e 8 em outros estados brasileiros. Atualmente, a IES disponibiliza cursos de graduação e pós-graduação, totalizando mais de 200 oportunidades de capacitação12.

A IES é formada por cerca de 5.500 servidores. Destes, aproximadamente 1.000 servidores, incluindo técnico-administrativos e docentes efetivos, possuem tempo por serviço ou idade de estarem aposentados12.

Os servidores (técnicos e docentes) foram selecionados a partir de um banco de dados fornecido pelo departamento pessoal na IES com autorização da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, contendo a relação de servidores com idade para estarem aposentados, mas que continuavam exercendo suas atividades laborais, juntamente com e-mail e telefone. Foram contactados 75 servidores, pessoalmente, via e-mail ou WhatsApp, para participar do estudo conforme o interesse e disponibilidade. As entrevistas ocorreram nas modalidades presencial ou remota, de acordo com a preferência da pessoa entrevistada, e foram conduzidas até se observar a saturação teórica, ponto em que novos dados deixaram de trazer contribuições relevantes às categorias analisadas, o que ocorreu com 12 participantes. Esse método consiste na identificação de padrões e repetições nas respostas, reconhecendo a saturação quando nenhuma nova informação ou temática é apresentada pelos participantes, indicando um afastamento progressivo do fenômeno em estudo12.

A coleta de dados foi operacionalizada através da utilização de dois instrumentos:

I) Questionário socioeconômico, demográfico e laboral: elaborado pelos pesquisadores, incluindo as seguintes variáveis: sexo, idade, estado civil, cor/raça, religião, escolaridade, renda, renda familiar, religião, formação profissional, ocupação atual, anos de atuação profissional na UFRN, anos de contribuição, idade que começou a trabalhar, qual idade se aposentou/irá se aposentar.

II) Roteiro de entrevista semiestruturado: elaborado com duas questões centrais: 1 - qual a percepção a respeito do processo de envelhecimento e trabalho com base na sua realidade; 2 - quais seus objetivos para vivenciar e quais dificuldades consegue visualizar diante da sua realidade, assim como questões de relance, tais como: 1 – Sobre sua vida profissional, o que lhe motiva a continuar trabalhando?; 2 – Cite palavras que expressam o processo de envelhecimento dentro da sua realidade, utilizadas para maior aprofundamento na temática, quando necessário.

Para a análise qualitativa, foi utilizado o método da Análise de Conteúdo, na modalidade temática, que consiste em desvelar os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência tenham algum significado para o objetivo analítico visado13. Após a construção das categorias teóricas, os resultados foram discutidos considerando a literatura pertinente.

O tratamento e organização do banco de dados foi realizado com apoio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ), na versão 0.7 alpha 2, software livre e de código aberto.

A partir dos dados coletados, foi preparado e codificado um corpus textual. Inicialmente, os dados foram agrupados em uma nuvem de palavras, visando organizar os achados quanto a sua relevância, com base na frequência14. Em seguida, foi realizada a análise de similitude, a qual se baseia na teoria dos grafos, possibilitando a identificação de ocorrências entre as palavras do texto15. Por fim, foi realizada a análise textual de Classificação Hierárquica Descendente (CHD), para identificar o dendrograma de classes e a significância da relação das palavras14, cujo aproveitamento mínimo deve ser de 75%, p-valor menor que 0,05 e x2 maior que 3,82. Para interpretação do processamento do CHD foi adotado o referencial metodológico da análise de conteúdo de Bardin, cujos termos foram analisados seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados e discussão dos dados com a literatura13.

Todo o desenvolvimento deste estudo foi norteado a partir da Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que preconiza a regulamentação ética em pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo CEP da Faculdade de Ciências da Saúde do Trairí da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (FACISA/UFRN) sob o parecer número 6.215.488 e somente após isso foi iniciada a coleta de dados. Todos os participantes do estudo assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, TCLE.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no figshare.com e pode ser acessado em https://doi.org/10.6084/m9.figshare.28774475.v1.

RESULTADOS

A presente pesquisa contou com uma amostra constituída por 12 participantes, dos quais 7 eram do sexo feminino e 5 do sexo masculino. Desses 12, apenas 2 participantes haviam solicitado o abono permanência, benefício concedido aos servidores ativos que assegura o recebimento de um montante equivalente à contribuição previdenciária. A amostra era constituída de 10 participantes pertencentes ao campus de Natal, 1 de Caicó e 1 de Currais Novos. Dentre eles, 5 eram docentes e 7 eram técnicos. Além disso, 10 participantes eram casados, 1 estava divorciado e 1 era solteiro. Dados relativos à idade, condições financeiras e tempo de trabalho estão dispostos na Tabela 1.

Quadro 1
Segmentos textuais representativos das classes obtidas a partir das entrevistas com os participantes do estudo (n=12). Rio Grande do Norte, 2023.
Tabela 1
Características etária, financeira e de serviço prestado pelos participantes da pesquisa (n= 12). Rio Grande do Norte, 2023.

A partir da análise de frequência das palavras de toda a entrevista foi possível destacar as palavras mais frequentes nas falas dos participantes: Aposentar (18); Processo (17); Vida (12); Continuar (12); Universidade (11); Idade (11); Financeiro (9); Permanecer (9); Sentir (9); Envelhecimento (9); Atividade (8); Gostar (8); Viver (8); Pensar (8); Ativo (8); Saúde (7); Motivar (7); Físico (6); Renda(6); Necessidade(6); Perder(7), (Figura 1).

Figura 1
Nuvem de palavras da distribuição e importância dos termos presentes nas entrevistas dos participantes do estudo. Rio Grande do Norte, 2023.

Essas expressões ilustram os temas principais que se destacaram nos diálogos, enfatizando que a aposentadoria é compreendida como um processo intrínseco à dinâmica institucional. Ademais, a análise abrange termos menos recorrentes, não listados entre as palavras mais usuais, contudo, capazes de oferecer perspectivas relevantes para as investigações de padrões semelhantes e análises hierárquicas descendentes acerca das temáticas e inquietações presentes nos diálogos.

Buscando identificar semelhanças e padrões entre diferentes elementos, como textos, palavras ou dados, foi realizada uma análise de similitude, formando quatro comunidades de padrões (Figura 2).

Figura 2
Análise de similitude das famílias de palavras nos discursos dos participantes do estudo. Rio Grande do Norte, 2023.

A principal comunidade, “aposentadoria adiada” (verde, centralizada), formada pelas palavras (aposentar, permanecer, gosto, continuar, motivar, vida, viver) está relacionada a todas as perspectivas e possibilidades que circundam a aposentadoria, a ideia de permanecer trabalhando, a motivação para seguir trabalhando, e a possibilidade de aposentar de vez e mudar os hábitos de vida.

Uma segunda comunidade, “o momento de aposentar” (azul, centralizada na parte superior), é formada por (momento, perder, idade, saúde), representando a reflexão sobre o momento de se aposentar, quando a saúde e a idade se tornam centrais no processo de influência da aposentadoria.

A terceira comunidade, “preocupações financeiras” (lilás, à direita), representada por (financeiro, renda, necessidade), demonstram que os participantes apresentam um certo nível de medo em relação a questões econômicas, indicando ainda não possuir uma estabilidade financeira adequada para poder usufruir da aposentadoria.

Na quarta comunidade, “envelhecimento ativo” (vermelho, à esquerda), percebe-se que existe um padrão em justificar os motivos para permanecerem trabalhando, levando a considerações como: gostar do que faz, manter um envelhecimento ativo, satisfação acadêmica na busca por propósitos pessoais.

O corpus desta pesquisa foi formado de 12 entrevistas que possuíram um tempo de execução total estimado entre 15 e 25 minutos de duração, sendo separadas em 69 segmentos textuais (ST), o qual obteve um aproveitamento de 52 ST, correspondendo a 75,36% do corpus analisado. Dentre os dados aproveitados, emergiram 2.436 ocorrências (vocábulos e expressões), 832 palavras distintas e 531 com apenas uma ocorrência.

Após análise do conteúdo das entrevistas a partir da Classificação Hierárquica Descendente (CHD), emergiram quatro classes que representam o corpus: Classe 1 - Desafios da aposentadoria: visões e preocupações; Classe 2 - Reinventando-se: um novo estilo de vida; Classe 3 - Aposentadoria adiada: uma perspectiva de equilíbrio e propósito; Classe 4 - "Envelhecimento saudável". Conforme a Figura 3, é possível perceber uma relação direta entre as classes 2 e 3, seguida da classe 4 e por fim a classe 1.

Figura 3
Dendrograma de classes da Classificação hierárquica descendente a partir das entrevistas dos participantes do estudo. Rio Grande do Norte, 2023.

Na classe 1 emergiu o impasse entre a estabilidade financeira e a qualidade de vida como um fator preponderante na decisão de se aposentar. Na classe 2 há uma diversidade de visões sobre a transição para a aposentadoria. Já na classe 3 foi observado que os indivíduos exploram o adiamento da aposentadoria em busca de significado e equilíbrio. Por fim, a classe 4 apresentou perspectivas variadas sobre manter uma vida saudável e ativa ao longo dos anos.

A classe 1 foi denominada desafios da aposentadoria: visões e preocupações. Essa classe correspondeu a 28,85% do corpus textual, sendo composta por palavras com intervalo entre x² = 13,65 (abono) e x² = 4,50 (só). As respostas revelam uma gama de dilemas enfrentados por indivíduos próximos à aposentadoria.

Muitos expressam a preocupação com a perda de benefícios, como abonos e vale-alimentação, e o impacto direto disso em suas rotinas e satisfação pessoal. Ainda, a busca por reconhecimento financeiro, juntamente com o apreço pelo trabalho e o receio de perder atividades de estudo e interação, tornam-se aspectos cruciais ao ponderar o momento da aposentadoria.

A classe 2 foi denominada reinventando-se: um novo estilo de vida. Essa classe correspondeu a 23,08% do corpus textual, sendo composta por palavras com intervalo entre x² = 14,36 (vida) e x² = 6,43 (viver). Alguns entrevistados desejam manter o ritmo de vida atual, postergando a aposentadoria até se sentirem completamente prontos para essa mudança.

O equilíbrio entre trabalho e prazer é uma prioridade para alguns, destacando a busca por novos objetivos e a realização pessoal. Outros enfatizam a importância de contribuir com o conhecimento adquirido ao longo da carreira, visando ao avanço da sociedade em áreas de interesse. Alguns expressam satisfação e realização no trabalho atual, enquanto outros procuram preencher o vazio que a ausência dos filhos em casa pode gerar, encontrando no trabalho uma fonte de ocupação e propósito.

A classe 3, denominada aposentadoria adiada: uma perspectiva de equilíbrio e propósito, correspondeu a 28,85% do corpus textual. Composta por palavras com intervalo entre x² = 16,73 (motivar) e x² = 4,73 (gostar). Alguns encontram motivação na satisfação pessoal e na paixão por suas ocupações atuais, desafiando a ideia tradicional de aposentadoria.

A classe 4 denominada envelhecimento saudável correspondeu a 19,23% do corpus textual. Composta por palavras com intervalo entre x² = 17,94 (físico) e x² = 4,13 (saúde). Alguns participantes expressam o entendimento de que a idade cronológica não é um indicativo absoluto de capacidades físicas e mentais, enfatizando a importância de uma mente ativa e de práticas saudáveis para uma vida plena.

No Quadro 1 são apresentados segmentos textuais juntamente com suas respectivas forças de representatividade das classes supracitadas do dendrograma.

DISCUSSÃO

A maioria dos participantes deste estudo atendeu ao menos a um dos critérios para se aposentar - por idade, tempo de serviço ou ambos. Ao explorar a relação desses profissionais com a aposentadoria, identificou-se quatro principais perspectivas: desafios financeiros e preocupações com a perda de benefícios; a busca por um novo estilo de vida que equilibre prazer e trabalho; o adiamento da aposentadoria como estratégia para manter propósito e estabilidade; e a valorização do envelhecimento saudável.

A análise de similitude revelou comunidades temáticas relacionadas à decisão de permanecer ativo, às preocupações econômicas e às reflexões sobre o momento ideal para a aposentadoria. A Classificação Hierárquica Descendente confirmou essas tendências, destacando que a estabilidade financeira, a motivação pessoal e a saúde são fatores centrais nesse processo decisório. Esse cenário está alinhado com a literatura, que aponta que o espaço da pessoa idosa na sociedade se ampliou significativamente devido ao aumento da expectativa de vida no Brasil, associado à queda na taxa de natalidade. Como consequência, a estrutura demográfica do país foi alterada, assim como ocorreu em outros países sul-americanos16.

Os resultados encontrados apontam para os desafios e preocupações dos trabalhadores em torno da aposentadoria, sobretudo no que concerne a perdas financeiras e da participação social. Neste sentido, a influência do trabalho na qualidade de vida da pessoa idosa relaciona-se às necessidades de renda, mas vai além, envolvendo também o sentido atribuído ao trabalho, como a concepção de identidade, valorização e desenvolvimento pessoal, podendo ser considerado uma atividade promotora da saúde e que permite uma maior inserção social, independência e autonomia17. Assim, ressalta-se o trabalho como uma condição preponderante para a realização humana, ao possibilitar ação transformadora sobre a natureza e a si, contribuindo para a sobrevivência e para a realização pessoal18.

Nesse sentido, as perdas decorrentes das reformas previdenciárias e a instituição do abono de permanência têm contribuído para que trabalhadores do serviço público, como é o caso desse estudo, tenham adiado a decisão de se aposentar19-22.

Por outro lado, o fato de muitas pessoas serem impelidas a trabalhar devido à situação financeira não afirma que o trabalho cause necessariamente sofrimento. Pelo contrário, em algumas situações, observam-se sentimentos felizes e experiências positivas relacionadas ao trabalho, promovendo uma maior satisfação tanto pessoal como profissional, a qual resulta em uma melhor qualidade de vida e envelhecimento saudável. Pode-se dizer que fatores pessoais e externos influenciam a decisão do que fazer após a aposentadoria23.

Muitas vezes, a aposentadoria carrega consigo uma aura de incerteza em relação à vida futura. Esse período de transição, embora esperado, pode gerar preocupações e questionamentos nas pessoas quanto a mudanças financeiras, propósitos, saúde e interações sociais24. Nessa perspectiva, os programas de preparação para aposentadoria visam auxiliar os trabalhadores nessa transição de vida25.

No que diz respeito à necessidade de se reinventar para permanecer trabalhando, o trabalho muitas vezes está associado à autoimagem e à identidade como indivíduos produtivos e com capacidade física para o desempenho das atividades, remetendo para a presença de pessoas mais saudáveis tanto física quanto mentalmente26.

Entretanto, essa transição trabalho-aposentadoria pode trazer sentimentos de inferioridade, devido à entrada de profissionais mais novos e pretensamente mais atualizados. Assim, deixar um cargo administrativo do departamento ou da universidade, e até mesmo, apresentar diminuição na produção acadêmica referente às publicações, pode despertar no servidor um sentimento de não pertencimento ao papel que ocupa no trabalho27.

Dessa forma, o processo de aposentadoria é permeado por sentimentos contraditórios e incertezas, mas que pode ser enfrentado de forma positiva. Pesquisa que analisou a percepção de técnicos administrativos sobre processo de aposentadoria constatou que a maioria dos indivíduos demonstra estar preparada para a aposentadoria, com a decisão apoiada pelos familiares e motivada pela posse do tempo necessário. Entre as expectativas, destacou-se a disponibilidade de tempo livre, uma vida mais tranquila e a motivação para novos hábitos e um novo estilo de vida23.

Sobre o momento da aposentadoria, um estudo destacou que a idade de saída do mercado de trabalho é influenciada por fatores estruturais do mercado e do sistema previdenciário, além de condições econômicas, preferências e circunstâncias individuais, em que o trabalho muitas vezes sustenta a autoestima, identidade e senso de utilidade do indivíduo28. Deste modo devem-se considerar os vários fatores que podem intervir na decisão trabalho-aposentadoria, a qual acarreta três possíveis caminhos: a aposentadoria definitiva, o adiamento da aposentadoria com a permanência no mesmo trabalho, ou o trabalho após a aposentadoria24.

Pesquisadores reportaram a relação entre o nível educacional e a permanência no mercado de trabalho, fenômeno observável na amostra investigada. O processo de capacitação profissional pode assumir um papel preditor para que esses profissionais continuem a exercer suas funções mesmo com a possibilidade de se aposentar, entendendo a manutenção de suas funções como uma forma de possuir um envelhecimento ativo10.

Portanto, nem sempre a aposentadoria representa um rompimento com o mundo do trabalho. Trabalhadores idosos estão aceitando cada vez mais o emprego de ponte ou bridge employment, que ocorre quando eles aceitam um emprego remunerado após a aposentadoria de sua carreira principal28.

Outra questão suscitada nos achados deste estudo relaciona-se com o envelhecimento ativo. A rotina de trabalho, com atividades repetitivas e longas jornadas, faz com que o trabalhador esqueça hábitos de vida saudáveis, como a prática de exercícios físicos, adotando o sedentarismo29. Esse estilo de vida sedentário pode contribuir para o aumento do risco de desenvolvimento de diversas doenças crônicas, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e problemas musculoesqueléticos30.

Ainda neste contexto, sabe-se que fatores psicológicos envolvendo a capacidade cognitiva são indicadores de envelhecimento ativo e longevidade, que muitas vezes são estimulados durante o trabalho. Logo, quanto mais ativa a pessoa idosa for em um campo de atuação que exerça esforço cognitivo, maior sua satisfação com a saúde e melhor será seu enfrentamento contra as adversidades, proporcionando, consequentemente, aumento da qualidade de vida31.

Diante disso, pode-se dizer que a permanência da pessoa idosa no mercado de trabalho proporciona a manutenção do seu círculo de convívio e a quantidade de ações realizadas cotidianamente, resultando em uma maior proteção contra um possível comprometimento psicológico decorrente da aposentadoria e dos problemas gerados pelo declínio gradativo das funções orgânicas, promovendo um envelhecimento ativo e saudável23.

Em conjunto com todos os tópicos elencados nos eixos temáticos, torna-se importante discutir que, para haver uma saída mais tardia do mercado de trabalho, é fundamental garantir ao trabalhador condições adequadas à sua idade, evitando risco de adoecimentos físicos e mentais. Isso implica oferecer condições de trabalho seguras, saudáveis e adaptadas a seu contexto atual de vida, assim como promover políticas que incentivem hábitos de vida saudáveis e práticas de autocuidado.

Dessa forma, é evidente a importância de a preparação para a aposentadoria ser uma experiência positiva, auxiliando na escolha das futuras atividades de vida, reorganização da rotina diária, controle financeiro e promoção da autoestima. Ressalta-se, portanto, a relevância das instituições públicas e privadas em oferecer programas de preparação para a aposentadoria aos trabalhadores, visando promover reflexão, suporte e estratégias para definir e enfrentar essa fase da vida, com o objetivo de tornar esse processo o mais saudável possível.

Apesar das contribuições deste estudo para a compreensão da decisão de permanência no trabalho após a elegibilidade para aposentadoria, é preciso considerar a limitação relacionada à restrição geográfica deste estudo, uma vez que a pesquisa foi realizada em uma única instituição de ensino superior no Rio Grande do Norte, o que reflete apenas essa realidade em particular.

CONCLUSÃO

A decisão dos trabalhadores de uma universidade pública em permanecerem em atividade, mesmo tendo direito à aposentadoria, é influenciada por múltiplos fatores. Entre eles, destacam-se a necessidade financeira, a identificação com o trabalho, a manutenção de uma rotina produtiva e a preocupação com os impactos da aposentadoria na saúde mental e no bem-estar. Além disso, o ambiente acadêmico e a influência de colegas também se mostram determinantes, assim como as incertezas relacionadas às mudanças no sistema previdenciário. Esses aspectos evidenciam que a escolha de continuar trabalhando transcende a esfera econômica, abrangendo motivações subjetivas e institucionais que sustentam essa decisão.

Os achados deste estudo corroboram as evidências da literatura sobre os significados da aposentadoria, ressaltando a complexidade e multidimensionalidade dessa transição. A análise das percepções dos servidores reforça a necessidade de abordagens individualizadas e holísticas para apoiar os indivíduos nesse processo, considerando tanto os aspectos financeiros quanto os psicológicos e sociais envolvidos. Assim, destaca-se a importância de políticas e programas específicos que atendam às demandas desses trabalhadores, visando mitigar impactos negativos e promover uma transição mais equilibrada e satisfatória para a aposentadoria.

AGRADECIMENTO

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

  • Financiamento da pesquisa
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

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Editado por

  • Editado por
    Rayssa Horacio Lopes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    31 Ago 2024
  • Aceito
    12 Jun 2025
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