Resumo
Os estudos urbanos globais têm testemunhado uma virada periférica, à medida que os pesquisadores vêm mudando seu olhar da parte central das cidades para as áreas periurbanas. Essa mudança de perspectiva é crucial para estudar cidades no sul global, já que a maior parte do crescimento urbano nessa região ocorreu na franja urbana. Este ensaio analisa a evolução dos estudos sobre a China urbana e considera como a China enquanto estudo de caso pode lançar luzes sobre a virada periférica nos estudos urbanos globais. Ele defende que as pesquisas sobre a China urbana precisam ir além das maiores cidades do país e se debruçar sobre uma gama mais ampla de regiões periféricas e de experiências urbanas. O nordeste da China é usado como exemplo para ilustrar de que maneira é possível enriquecer a narrativa sobre o urbanismo chinês ao se adotar uma visão periférica. Em seguida, são propostas algumas questões comparativas para repensar o urbanismo do Sul a partir da periferia.
Palavras-chave:
Sul Global; Urbanização; Espaço Urbano; Periferia; Urbanismo do Sul; China; Comparação
Abstract
Global urban studies have seen a peripheral turn, as researchers shifted their gaze from the central city to the peri-urban areas. This shift in perspective is crucial for studying cities in the Global South, as most urban growth in the Global South has taken place on the urban fringes. This essay surveys the evolving scholarship on urban China and considers how China as a case study may illuminate the peripheral turn in global urban studies. It argues that urban China research needs to move beyond the largest cities in the country and study a wider range of peripheral regions and urban experiences. Northeast China is used as an example to illustrate how the narrative on Chinese urbanism can be enriched by taking a peripheral view. It then proposes some comparative questions to rethink southern urbanism from the periphery.
Keywords:
Global South; Urbanization; Urban Space; Periphery; Southern Urbanism; China; Comparison
Os estudos urbanos globais têm testemunhado uma “virada periférica”, à medida que os pesquisadores vêm mudando seu olhar da parte central das cidades para as áreas periurbanas (Ren, 2021). Essa mudança de perspectiva é crucial para estudar cidades no sul global, já que a maior parte do crescimento urbano em países como China e Brasil tem ocorrido na franja urbana. O Brasil se urbanizou rapidamente nas décadas de 1960 e 1970, enquanto na China o processo ocorreu duas décadas depois, nos anos 1980 e 1990. Em ambos os países, a periferia urbana tem, há algum tempo, sido foco de pesquisas, mas os debates nos estudos sobre a China urbana e o Brasil urbano vêm se desenvolvendo de forma paralela, com pouca troca entre si. Essa discussão visa aproximar os dois campos ao discutir o urbanismo chinês a partir de uma perspectiva periférica. Ao fazer isso, também visa formular algumas questões comparativas para repensar o urbanismo do Sul a partir da periferia.
1. China urbana
A rápida urbanização da China desde a década de 1990 transformou o país em um território de frutíferas pesquisas urbanas comparativas (Ren, 2020). Isso fica evidente no grande número de publicações sobre cidades chinesas em periódicos de estudos urbanos publicados em língua inglesa. Dentro da China, um conjunto ainda maior de trabalhos acadêmicos, em periódicos em chinês, examina estruturas e processos urbanos de cidades chinesas desde as reformas de mercado dos anos 1990. Os principais tópicos estudados incluem privatização de moradias, desregulamentação do mercado de terras, migração do campo para a cidade, megaprojetos e megaeventos e, mais recentemente, ecocidades e tecnologias emergentes. Entretanto, apesar dessa produção acadêmica, o olhar dos estudos sobre a China urbana tem se concentrado sobretudo nas regiões economicamente mais dinâmicas - Xangai no delta do Rio Yangtze, Pequim na região de Jing-Jin-Ji e Guangzhou e Shenzhen, no sul do delta do Rio das Pérolas. O restante da China permanece em grande parte uma zona de passagem, embora contenha vastos territórios urbanos com muitas cidades vibrantes.
Na minha opinião, a próxima fase das pesquisas deve abordar três conjuntos de questões que têm restringido o debate no campo de estudos da China urbana. Primeiro, o gênero de tópicos em estudo é limitado. A maior parte da literatura sobre a China urbana aborda a privatização de moradias (Huang; Li, 2014), a especulação imobiliária (Lin, 2009; Wu, 2015) e a migração (Fan, 2008, 2022; Li; He; Chan, 2017), mais especificamente, seu efeito sobre migrantes de baixa qualificação nas cidades por causa do sistema hukou no país (Chan, 2018).1 Esses tópicos são relevantes, mas a fixação neles ignora outras mudanças cruciais em andamento no país, como integração urbano-rural, nacionalismo crescente, desemprego juvenil, comércio digital e transição energética. Segundo, o arcabouço interpretativo no campo da China urbana é demasiadamente estreito. Inspirado por geógrafos críticos, esse segmento adotou o empreendedorismo estatal local como principal arcabouço interpretativo (Harvey, 1989). Empiricamente, esse foco gerou análises abrangentes sobre governos municipais (que talvez tenham esgotado o tema). O papel desses governos foi examinado, por exemplo, em reformas habitacionais, regulamentação do mercado de terras, investimentos em infraestrutura, proteção ambiental e na construção de megaprojetos e realização de megaeventos. Contudo, a ênfase na governança municipal obscureceu o papel dos atores não estatais, como o setor privado, grupos da sociedade civil e os moradores. Além disso, esse foco em governos locais perpetua o mito de que a China é um Estado autoritário monolítico. Embora a influência do Estado possa ser vista em todas as esferas da vida urbana, especialmente sob Xi Jinping (2013-presente), o forte setor privado e a sociedade civil ativa da China merecem mais atenção acadêmica (Spires, 2024). Terceiro, uma ênfase narrativa nas forças estruturais do Estado e do mercado obscurece a vida cotidiana dos citadinos comuns - como eles entendem seu ambiente construído e reivindicam seus direitos à cidade. A próxima fase das pesquisas precisa ampliar o repertório empírico e teórico e colocar em primeiro plano a experiência vivida das pessoas.
2. Visões a partir da periferia
Uma mudança de perspectiva do centro para a periferia pode impulsionar o estudo das cidades chinesas. Em outro artigo, discuti o significado de “periferia” em contextos geográficos (por exemplo, franjas urbanas, cidades menores, sertão), conceituais (por exemplo, fronteiras teóricas, teoria urbana pós-colonial) e sociais (por exemplo, grupos marginalizados) (Ren, 2021). A perspectiva periférica mais necessária nos estudos da China urbana, em primeiro lugar, é geográfica, ou seja, cidades menores e regiões economicamente menos desenvolvidas fora de Xangai, Pequim, Guangzhou e Shenzhen. Se as cidades chinesas serviram como locais para descentralizar a teoria urbana do Ocidente, então o próprio campo de estudos da China urbana também precisa se descentralizar. Considerar uma gama mais diversificada de cidades e experiências urbanas também pode levar a avanços analíticos e ampliar o arcabouço interpretativo.
O nordeste da China é um bom exemplo de região periférica a partir da qual é possível repensar o urbanismo do país. O Nordeste (antes chamado de Manchúria) faz fronteira com a Rússia e é composto de três províncias. Ele ocupa um território de 350.000 km2 e tem muitas cidades vibrantes - locais coloniais (Changchun e Dalian), centros de conexões ferroviárias (Harbin e Qiqihar), centros automotivos (Shenyang) e muitos lugares voltados para recursos (Hegang, Yichun, Fushun). No final do século XIX, a região era um ponto de encontro de culturas, absorvendo ondas de imigrantes da Europa, da Ásia Central, do Japão e da Coreia. Tratava-se de um posto industrial estratégico para a industrialização e modernização da China na segunda metade do século XX. Na década de 1990, quando o país aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e despejou recursos nas Zonas Econômicas Especiais no Sul, teve início o declínio do Nordeste industrial. Fábricas foram fechadas e trabalhadores foram demitidos (Lee, 2007). Embora a região seja frequentemente chamada de “cinturão da ferrugem” da China, esse apelido capta a desindustrialização apenas até certo ponto, pois a reestruturação econômica e a emigração aqui diferem muito do que ocorre nas cidades pós-industriais do Ocidente. Em termos de queda da população, por exemplo, a região perdeu moradores para o Sul, apesar de suas maiores cidades continuarem atraindo migrantes de cidades menores próximas, estabilizando sua população. Longe de serem abandonadas e esvaziadas, as principais cidades do Nordeste (Harbin, Changchun, Shenyang e Dalian) competem com as cidades costeiras por investimentos em infraestrutura e subsídios para atrair investidores privados. A reestruturação econômica, que teve início no final da década de 1990 com a privatização de empresas estatais, já foi concluída. O principal pilar para o crescimento urbano na região não é mais a manufatura, mas sim serviços empresariais, imóveis e turismo. O Nordeste está tentando se reinventar, mas seu crescimento fica aquém daquele registrado no Sul. O crescimento lento da região, por sua vez, levou a estratégias de desenvolvimento diferentes daquelas das cidades de nível 1.
Recentemente, sobretudo após a pandemia de Covid-19, o Nordeste atraiu uma atenção renovada na China. Como a economia nacional havia estagnado, o país olhou para a região em busca de reflexões - sobre o que significa desacelerar. Jornalistas viajaram para o local para relatar a vida urbana em cidades de crescimento lento. Obras literárias sobre cidades do Nordeste - que geralmente tinham como tema a perda, o desemprego e a desintegração familiar - subiram nas listas nacionais de livros mais vendidos. Algumas cidades do Nordeste conquistaram nômades digitais, à medida que artistas e outros trabalhadores criativos saíram do Sul, principalmente por conta dos baixos custos de moradia e de vida. A região também atraiu migrantes climáticos. Uma vez que o verão se tornou insuportavelmente quente em todo o país, famílias com recursos compram propriedades na região como casas de veraneio. O turismo, por sua vez, descobriu o local: em 2023, a cidade de Harbin recebeu 135 milhões de turistas - a maioria atraída pelo Festival de Gelo e Neve que acontece todo ano entre dezembro e fevereiro. A cidade se tornou uma wang hong (cidade de influenciadores).
Se Xangai apresenta uma imagem da China em seu pico de globalização, então o Nordeste representa o país em sua fase pós-pandêmica e pós-crescimento - um país em busca de uma nova narrativa para imaginar seu futuro incerto. Os processos urbanos na região envolvem crescimento e declínio, esperança e decepção. Ela evoca comparações, não apenas com outras cidades chinesas, mas também em um âmbito mais global. Como o vasto território urbano do nordeste da China foi feito e refeito? Como se imagina seu futuro? Como as pessoas entendem e dão sentido a suas cidades? O que uma visão periférica do “cinturão da ferrugem” do país pode nos dizer sobre a governança urbana, a prosperidade e o futuro de outras cidades? Esse tipo de pensamento comparativo, a partir de uma região periférica, pode mudar a maneira como contamos a história do urbanismo chinês - alterando a perspectiva do extraordinário para o comum, das grandes narrativas para o cotidiano e do Estado para o privado e o individual.
3. Pontos de entrada
A maior parte da literatura sobre a China urbana adotou o empreendedorismo estatal local como arcabouço interpretativo. Estudiosos das regiões periféricas do país podem partir dessa rica bibliografia, mas também precisam estar abertos a explorar novos pontos de entrada. Mencionarei três exemplos: o rural, a hiperperiferia e o clima. Eles podem enriquecer a narrativa sobre o urbanismo chinês, que está excessivamente focada no Estado empreendedor local.
Em primeiro lugar, precisamos considerar o rural ao analisar a mudança urbana. Na China, a prosperidade do urbano geralmente está ligada a uma reestruturação maior da economia agrícola. O caso do Nordeste é particularmente relevante porque a agricultura industrializada nessa região é a mais avançada do país - na verdade, ela é fortemente subsidiada pelo governo central. No Nordeste, grandes áreas de terras agrícolas planas e férteis sob propriedade estatal estão amplamente disponíveis para a agricultura industrializada. O governo central, tendo identificado a segurança alimentar como uma prioridade nacional, escolheu o Nordeste como a “reserva alimentar” do país. É proibido usar a maioria das terras agrícolas na região para construções urbanas. Os governos locais, que dependem de financiamentos baseados em terras (arrendamento de terras para investidores visando gerar receita), devem buscar outras maneiras de crescer e expandir. Quais formas e processos urbanos resultarão da reestruturação da agricultura e desse reposicionamento como a “reserva alimentar” da China? Estamos vendo sinais de um “urbanismo agrário”?
Em segundo lugar, a hiperperiferia oferece uma lente útil para decodificar a mudança urbana. Por hiperperiferia, refiro-me às áreas marginais das cidades em regiões periféricas.2 Mesmo para as cidades de nível 2 ou 3, essas áreas apresentam padrões heterogêneos de uso do solo e uma crescente fragmentação espacial semelhante à “poliperiferia” das cidades brasileiras mencionadas nesta edição especial (Richmond et al., 2025). No verão de 2024, visitei a zona periurbana da cidade de Harbin, no nordeste da China. Vi casas unifamiliares em condomínios fechados, complexos de apartamentos, uma “zona de desenvolvimento” em construção, uma zona econômica de aeroporto, parques temáticos voltados para turistas de fim de semana vindos da cidade - tudo isso cercado por campos de arroz. Também visitei duas grandes cidades novas, construídas para acomodar meio milhão de pessoas. A maioria das novas moradias foi desenvolvida pelo governo local em conjunto com investidores privados. A literatura publicada anteriormente detalhou o papel dos governos municipais no desenvolvimento de terras, moradias e infraestrutura, mas qual é o envolvimento de outras partes interessadas -desenvolvedores privados, esferas inferiores de governo (em cidades, municípios e vilas), moradores, migrantes e proprietários de casas de férias - na construção da hiperperiferia? Como esses habitantes imaginam os futuros urbanos da hiperperiferia? Como esses lugares são representados na grande mídia, nas redes sociais, em mapas e em planos oficiais?
Por fim, a mudança climática oferece outro ponto de vista para pensar sobre o futuro urbano da periferia. Por exemplo, o nordeste chinês tem a zona climática mais fria do país - as temperaturas no inverno são inferiores a -25 ºC. As cidades da região têm sido um ímã tanto para turistas de inverno oriundos do Sul mais quente quanto para migrantes climáticos que buscam fugir do calor do verão. Apostando na “economia de inverno”, essas cidades têm investido, com dívidas, em infraestrutura turística, como hotéis, aluguéis de curto prazo e transporte público, bem como em estações de esqui, locais para prática de esportes de inverno e parques temáticos de “gelo e neve”. O “clima” pode mudar seu destino urbano? Elas tornar-se-ão novas cidades em expansão climáticas? Como essa região urbana está sendo reformulada pela migração e pelo turismo climáticos, e o que isso significa para a população local?
4. Comparação Sul-Sul
O campo dos estudos urbanos da China poderia se beneficiar de uma descentralização - das megacidades mais estudadas para o restante periférico do país. Usei o Nordeste como exemplo para destacar alguns dos pontos cegos nessa área de estudos. As mesmas questões talvez se apliquem à investigação urbana em outros países do sul global, da Índia ao Brasil e à África. Nesses locais, grandes regiões metropolitanas e suas zonas periurbanas receberam mais atenção, mas pouco foi escrito sobre a transformação em curso em áreas periféricas fora das grandes regiões metropolitanas (Mukhopadhyay; Zérah; Denis, 2020).
Outra maneira de embasar a virada periférica é por meio de comparações entre cidades no sul global (Robinson, 2022). Se a heterogeneidade é o foco do estudo, como visto nas contribuições para esta edição especial, então talvez seja útil começar buscando variações e comparando como a heterogeneidade assume diferentes formas na China, na Índia e no Brasil. O que explica os diferentes graus de informalidade nas áreas periurbanas? Como a dinâmica de coprodução de heterogeneidade - pelos setores público e privado - varia entre esses contextos? Como o periurbano é distintamente integrado às cidades centrais? Como o rural molda a mudança periurbana em ambos os casos? Existem questões climáticas que pressionam a vida urbana e quais ações são promovidas pelos governos locais e por organizações comunitárias para a adaptação climática? Para passar de comparações que buscam variação para as relacionais, pode-se observar como as regiões periurbanas no sul global são transformadas pelo investimento transnacional em infraestrutura, como o impacto da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) da China na América Latina. Como, por exemplo, o investimento chinês em veículos elétricos está reformulando a periferia urbana de São Paulo à Bahia?
Em suma, o urbanismo do Sul pode ser reimaginado e reconceitualizado a partir da periferia. Se os estudos anteriores se concentraram principalmente nas cidades maiores, agora precisamos voltar nosso olhar para as regiões mais negligenciadas. Além do empreendedorismo estatal local, precisamos de diferentes pontos de entrada a partir dos quais podemos entender a periferia. Do nordeste da China à São Paulo periurbana e ao sertão do Brasil, as periferias do sul global apresentam excelentes locais para pensar comparativamente sobre como o urbano é feito, imaginado e habitado.
Referências
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1
O sistema hukou é o sistema nacional de registro de domicílios da China, que divide a população do país entre urbana e rural, muitas vezes privilegiando a primeira em detrimento da segunda em questões como acesso a melhor assistência social.
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2
Torres e Marques (2001) usam o termo “hiperperiferia” para se referir a áreas de extrema pobreza em cidades brasileiras, que não se beneficiaram de investimentos e melhorias. TORRES, H. G.; MARQUES, E. C. Q. Reflexões sobre a hiperperiferia: novas e velhas faces da pobreza no entorno municipal. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 49, n. 4, p. 49-70, 2001. Disponível em: https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/57.
