Open-access Prevalência e fatores associados à autoavaliação de saúde ruim em adolescentes brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019

RESUMO

Objetivo:  Estimar a prevalência e os fatores associados à autoavaliação ruim do estado de saúde em escolares brasileiros de 13 a 17 anos.

Métodos:  Estudo transversal com dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019. Foram calculadas as prevalências e razões de prevalências (brutas e ajustadas) por regressão logística, considerando variáveis associadas à autoavaliação ruim de saúde entre adolescentes brasileiros. As análises foram realizadas no Stata, versão 16.

Resultados:  As características associadas à autoavaliação de saúde ruim foram: ser do sexo masculino (RPa 0,75; IC95% 0,72-0,79); ter 16 ou 17 anos (RPa 1,13; IC95% 1,08-1,18); de raça/cor preta (RPa 1,08; IC95% 1,01-1,14), parda (RPa 1,10; IC95% 1,05-1,16) e outras (RPa 1,13; IC95% 1,04-1,22); tomar café da manhã (RPa 0,84; IC95% 0,80-0,87); já ter experimentado bebidas alcoólicas (RPa 1,12; IC95% 1,07-1,18); perceber-se gordo (RPa 1,34; IC95% 1,27-1,42) ou magro (RPa 1,12; IC95% 1,06-1,18); praticar atividade física (RPa 0,85; IC95% 0,80-0,89), consumir frutas (RPa 0,86; IC95% 0,81-0,92); ter 1 ou mais amigos (RPa 0,80; IC95% 0,74-0,86); já ter procurado algum serviço de saúde (RPa 0,92; IC95% 0,88-0,96); faltar à aula por motivos de saúde em 1 a 3 dias (RPa 1,31; IC95% 1,24-1,39) ou 4 ou mais dias (RPa 1,64; IC95% 1,54-1,74); sentir-se preocupado(a) (RPa 1,09; IC95% 1,02-1,15), triste (RPa 1,33; IC95% 1,24-1,41), que ninguém se preocupa consigo (RPa 1,22; IC95% 1,16-1,29), irritado(a) (RPa 1,79; IC95% 1,10-1,25) e que a vida não vale a pena ser vivida (RPa 1,38; IC95% 1,32-1,45).

Conclusão:  Fatores sociodemográficos, comportamentais e de saúde mental associaram-se ao desfecho.

Palavras-chave:
Adolescente; Autoavaliação; Nível de saúde; Inquéritos epidemiológicos; Brasil

ABSTRACT

Objective:  To estimate the prevalence and factors associated with poor self-assessed health among Brazilian school-aged adolescents aged 13 to 17 years.

Methods:  Cross-sectional study using data from the 2019 National School Health Survey (PeNSE). Crude and adjusted prevalence ratios (APR) were estimated by logistic regression. Analyses were performed in Stata 16.

Results:  Factors associated with poor self-rated health were: being male (APR 0.75; 95%CI 0.72-0.79); aged 16-17 years (APR 1.13; 95%CI 1.08-1.18); Black (APR 1.08; 95%CI 1.01-1.14), Brown (APR 1.10; 95%CI 1.05-1.16), or other (APR 1.13; 95%CI 1.04-1.22); eating breakfast (APR 0.84; 95%CI 0.80-0.87); consumed alcoholic (APR 1.12; 95%CI 1.07-1.18); perceiving oneself as overweight (APR 1.34; 95%CI 1.27-1.42) or underweight (APR 1.12; 95%CI 1.06-1.18); engaging in >300 minutes of physical activity per week (APR 0.85; 95%CI 0.80-0.89); consuming fruits (APR 0.86; 95%CI 0.81-0.92); having one or more friends (APR 0.80; 95%CI 0.74-0.86); having ever sought health services (APR 0.92; 95%CI 0.88-0.96); missing school due to health problems for 1-3 days (APR 1.31; 95%CI 1.24-1.39) or ≥4 days (APR 1.64; 95%CI 1.54-1.74); feeling worried (APR 1.09; 95%CI 1.02-1.15), sad (APR 1.33; 95%CI 1.24-1.41), that no one cares about them (APR 1.22; 95%CI 1.16-1.29), irritated (APR 1.19; 95%CI 1.10-1.25), or that life is not worth living (APR 1.38; 95%CI 1.32-1.45).

Conclusion:  Sociodemographic, behavioral, and mental health factors were associated with poor self-rated health among Brazilian adolescents.

Keywords:
Adolescent; Self-testing; Health status; Health surveys; Brazil

INTRODUÇÃO

A Autoavaliação de Saúde (AAS) é amplamente utilizada em estudos e inquéritos populacionais como um importante indicador subjetivo das condições de saúde e bem-estar, por sua simplicidade de aplicação e capacidade de captar percepções individuais sobre o estado de saúde1,2,3,4. Embora subjetiva, a AAS constitui um indicador abrangente que reflete tanto a percepção individual do estado de saúde quanto a influência de determinantes sociais, comportamentais e ambientais1,2,3,4. Estudos recentes têm demonstrado que a AAS se associa a diversos fatores objetivos e subjetivos, incluindo condições socioeconômicas (escolaridade, renda, ocupação) e aspectos culturais, psicológicos (presença de depressão ou bem-estar subjetivo) e sociais (rede de apoio e relacionamentos interpessoais)1,2,3,4.

Uma percepção positiva da própria saúde associa-se a bem-estar psicológico5, maior adesão a tratamentos e adoção de comportamentos preventivos, resultando em melhores desfechos em saúde6. Em contrapartida, uma autopercepção negativa está relacionada a piores prognósticos, maior consumo de substâncias e adoção de hábitos prejudiciais, ampliando os riscos à saúde7,8. Assim, a AAS é considerada um importante instrumento para a análise das condições de saúde das populações e subsidia a formulação e implementação de políticas públicas de promoção da saúde7.

Nas últimas décadas, a autopercepção de saúde entre adolescentes tem ganhado destaque na investigação dos determinantes do processo saúde-doença9,10. A adolescência representa um período de intensas transformações físicas, psicológicas e sociais, marcado pela construção da identidade individual e coletiva, o que influencia diretamente a adoção de hábitos e comportamentos que podem se estender à vida adulta11,12,13. Diversos estudos têm demonstrado que adolescentes do sexo feminino, mais velhos, que se percebem fora do peso ideal ou que apresentam sintomas de sofrimento psicológico tendem a relatar pior autoavaliação de saúde; enquanto aqueles que mantêm hábitos saudáveis, como tomar café da manhã regularmente, praticar atividade física e consumir frutas, apresentam melhor percepção da própria saúde4,11,12,13,14,15.

Diversos fatores têm sido associados a uma percepção negativa da própria saúde nessa faixa etária, incluindo comportamentos de risco como sedentarismo, tabagismo, consumo de álcool e outras substâncias, além da exposição à violência escolar11,13,14. Aspectos sociodemográficos, como sexo, idade, convivência com os pais, realização de refeições em família e frequência do café da manhã, também apresentam associação com maiores prevalências de autopercepção negativa de saúde entre adolescentes4,15.

Em contextos internacionais, resultados semelhantes têm sido observados em diferentes países, indicando consistência nas associações entre autopercepção negativa de saúde e fatores como estresse, sintomas depressivos, baixo nível de atividade física e hábitos alimentares inadequados16. Na Coreia do Sul, por exemplo, um estudo com estudantes do ensino fundamental e médio evidenciou que a autopercepção negativa da saúde esteve significativamente associada à presença de estresse, ideação e tentativas suicidas, além de baixa atividade física e omissão de refeições como o café da manhã16. Esses achados são coerentes com o observado em outras populações, reforçando que, independentemente do contexto sociocultural, determinantes psicossociais e comportamentais desempenham papel central na forma como adolescentes percebem sua saúde.

No contexto brasileiro, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) tem incluído a AAS em seus questionários, reconhecendo sua relevância para compreender a percepção de saúde entre adolescentes4. Estudo com dados da PeNSE 2015 identificou que meninas, adolescentes de 16 e 17 anos, de raça/cor preta ou parda e aqueles com comportamentos de risco apresentaram maior chance de AAS ruim, enquanto a realização regular do café da manhã e a prática de atividade física estiveram associadas a menor chance de autopercepção negativa, embora a definição da variável desfecho tenha diferido daquela utilizada no presente estudo4. Outras pesquisas nacionais também evidenciaram associações entre a AAS e diferentes características sociodemográficas e de estilo de vida, como qualidade de vida4, sexo4,10, idade4,10, raça/cor4, hábitos de vida4,10, procura por serviços de saúde4 e escolaridade materna4,15.

Apesar dos avanços, ainda existe uma lacuna na literatura científica quanto à avaliação da autopercepção negativa de saúde entre adolescentes brasileiros em estudos de abrangência nacional e com dados atualizados. A mensuração da AAS em inquéritos populacionais, por meio de escalas padronizadas, permite captar de forma representativa a percepção de saúde da população, fornecendo subsídios para a compreensão dos determinantes sociais e comportamentais que influenciam o bem-estar4.

Dessa forma, considerando a importância da AAS como indicador das condições de saúde e do bem-estar psicológico de adolescentes, o presente estudo teve como objetivo estimar a prevalência e os fatores associados à autoavaliação ruim do estado de saúde em escolares brasileiros de 13 a 17 anos, utilizando dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal com dados da PeNSE, edição 2019. Os dados são de domínio público, disponíveis no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)17.

A PeNSE é um inquérito nacional conduzido pelo IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde e com o apoio do Ministério da Educação17,18, e investiga fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes brasileiros, coletando dados sobre hábitos como atividade física, alimentação, uso de substâncias, saúde bucal, comportamento sexual e violência17,18. A primeira edição da PeNSE foi realizada em 2009, sendo posteriormente repetida nos anos de 2012, 2015 e 201917,18.

A amostra final foi composta pelos estudantes pertencentes às turmas selecionadas. A pesquisa utilizou como base o Cadastro de Escolas Públicas e Privadas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), garantindo a representatividade dos seguintes níveis geográficos: Brasil, grandes regiões, Unidades da Federação (UF), capitais e o Distrito Federal17,18.

Foram selecionados para responder ao questionário todos os alunos regularmente matriculados e frequentes nas aulas do 7o ao 9o ano do ensino fundamental e da 1a à 3a série do ensino médio, em escolas públicas e privadas, nos turnos matutino, vespertino e noturno17,18. Também foram incluídos os alunos matriculados em cursos técnicos integrados ao ensino médio e cursos de formação para o magistério17,18. Apenas os estudantes presentes no dia da coleta participaram do estudo. Escolas com menos de 20 alunos matriculados foram excluídas17,18.

A amostra foi obtida por meio de amostragem probabilística em múltiplos estágios (conglomerados), com estratificação por UF, localização (urbana ou rural) e tipo de escola (pública ou privada) 17,18.

O processo de seleção ocorreu em 3 estágios:

  • 1. Seleção probabilística das escolas em cada estrato;

  • 2. Seleção aleatória de turmas nas escolas selecionadas; e

  • 3. Inclusão de todos os estudantes presentes nas turmas selecionadas no momento da coleta17,18.

Mais detalhes metodológicos sobre a pesquisa e o plano amostral podem ser encontrados em publicações anteriores17,18.

Para esta análise, o desfecho investigado foi a autoavaliação do estado de saúde, com base na pergunta presente no questionário da PeNSE 2019: “Como você classificaria seu estado de saúde?”. As opções de resposta incluíram: muito bom, bom, regular, ruim e muito ruim. Para a construção da variável desfecho (autoavaliação ruim de saúde), as respostas foram agregadas em duas categorias: a primeira agregou as opções “muito bom”, “bom” e “regular”, enquanto a segunda agrupou “ruim” e “muito ruim”.

A mensuração da AAS é comumente realizada por meio de um único item, com escala ordinal de cinco pontos, semelhante à utilizada na PeNSE. Termos como self-rated health, self-assessed health e self-reported health são frequentemente empregados na literatura de forma equivalente para se referir a essa medida subjetiva de percepção global de saúde4,17,18. A questão utilizada para mensurar a AAS é amplamente empregada em inquéritos populacionais e apresenta evidências consolidadas de validade e confiabilidade em diferentes contextos4,17,18.

As variáveis independentes, por sua vez, foram selecionadas com base na literatura, a qual indica que a autopercepção de saúde está associada a fatores sociodemográficos, grau de escolaridade, raça/cor, características familiares, hábitos de vida, comportamentos, procura por serviços de saúde e fatores relacionados à saúde mental4. Dessa forma, as variáveis independentes foram distribuídas conforme descrito abaixo.

As características sociodemográficas incluíram: sexo (feminino e masculino), idade em anos (13 a 15, e 16 ou 17 anos), raça/cor (branca, preta, parda e outros), tipo de escola (pública e privada), e escolaridade da mãe (sem escolaridade, primário [incompleto/completo], secundário [incompleto/completo] e superior [incompleto/completo]). As características familiares consideraram se o indivíduo morava com a mãe (sim e não), morava com o pai (sim e não), fazia refeição com o responsável (não, 2 vezes ou menos na semana, 3 a 4 vezes semanais, e 5 ou mais vezes na semana).

Quanto às características sobre hábitos de vida e comportamentos, considerou-se se o adolescente tomava café da manhã regularmente (não tomava, 5 ou mais vezes na semana, 1 a 4 vezes na semana), já experimentou cigarro (não e sim), já experimentou bebidas alcoólicas (não e sim), já experimentou drogas na vida (não e sim), consumia refrigerantes >5 vezes na semana (não e sim), consumia frutas >5 vezes na semana (não e sim), realizava atividade física regular (<300 minutos semanais e >300 minutos semanais) e se tinha relação sexual (não e sim).

Além disso, considerou-se se o adolescente já faltou à aula por algum motivo de saúde (não, 1 a 3 dias e 4 ou mais dias), como vê sua imagem corporal (normal, gordo e magro) e se já procurou algum serviço de saúde (não e sim). Quanto às características sobre saúde mental, por fim, considerou-se se o adolescente tem amigos (não tenho, e 1 ou mais); sentiu-se preocupado nos últimos 30 dias (não e sim); sentiu-se triste nos últimos 30 dias (não e sim); sentiu que ninguém se preocupa com ele(a) nos últimos 30 dias (não e sim); sentiu-se irritado(a), nervoso(a) ou mal-humorado(a) nos últimos 30 dias (não e sim); e se sentiu que a vida não vale a pena ser vivida nos últimos 30 dias (não e sim).

Inicialmente, foram realizadas análises descritivas para estimar as prevalências e os seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), segundo as variáveis independentes mencionadas.

Em seguida, para investigar os fatores associados ao desfecho analisado (autoavaliação ruim de saúde), foi realizada inicialmente uma análise bivariada, estimando-se os valores não ajustados de razão de prevalência (RP) e seus respectivos IC95% por meio de regressão logística simples. Em seguida, foi aplicado um modelo de regressão logística multivariada, incluindo as variáveis de interesse que apresentaram p<0,20 na análise bivariada, conforme critérios estatísticos. No modelo multivariado final (RPa), foram mantidas apenas as variáveis estatisticamente significativas (p<0,05). Para avaliar o ajuste do modelo final, foi aplicado o teste de Hosmer-Lemeshow.

Todas as análises foram conduzidas com o uso do módulo svy do software Stata Statistical Software, versão 16, que permite a incorporação adequada dos pesos amostrais, estratos e conglomerados.

O presente estudo utilizou dados secundários, dispensando, portanto, a necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Contudo, a edição de 2019 da PeNSE obteve aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Conep), sob o parecer no 3.249.26817,18.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

RESULTADOS

Do total de 103.177 adolescentes incluídos na base de dados, 100.221 (97,1%) apresentaram informações completas sobre as variáveis de interesse e foram incluídos na análise final. Foram excluídos 2.956 casos (2,9%) devido à ausência de dados em uma ou mais variáveis.

A amostra deste estudo foi composta majoritariamente por estudantes do sexo feminino (52,17%), de 13 a 15 anos (64%) e pardos (43,01%). A maioria estava matriculada em escolas públicas (51,73%) e tinha mães com escolaridade superior incompleto/completo (46,91%). Quanto aos hábitos, 58,95% dos estudantes relataram tomar café da manhã regularmente, enquanto 79,63% nunca experimentaram cigarro, 63,94% já experimentaram bebidas alcoólicas, e 87,59% nunca haviam experimentado drogas. O consumo frequente de refrigerantes foi relatado por 15,92%, e de frutas por 28,42%. Quanto à atividade física, 71,58% praticavam menos de 300 minutos semanais (Tabela 1).

Tabela 1.
Distribuição e prevalência de autoavaliação de saúde ruim entre adolescentes escolares brasileiros, segundo fatores associados, com respectivos Intervalos de Confiança de 95%. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, Brasil, 2019.

A imagem corporal predominante foi normal (47,91%). A quase totalidade relatou ter um ou mais amigos (96,79%), 84,46% já procuraram algum serviço de saúde, e 52,31% tinham faltado à escola 4 ou mais dias por motivo de saúde. Em relação ao bem-estar psicológico, 84,46% dos adolescentes relataram sentir-se preocupados(as); 68,12% sentiram-se tristes; 54,11% sentiram que ninguém se preocupava com eles; 76,90% sentiram-se irritados(as), nervosos(as) ou mal-humorados(as); e 36,10% sentiram que a vida não valia a pena ser vivida (Tabela 1).

Dos escolares brasileiros, 32,80% (IC95% 32,51-33,08) relataram autoavaliação ruim do estado de saúde, prevalência que se mostrou mais elevada entre o sexo feminino (39,55%; IC95% 38,62-40,50), entre os escolares de 16 ou 17 anos (35,69%; IC95% 34,75-36,63), de outra raça/cor (32,99%; IC95% 30,42-35,68), matriculados em escolas públicas (31,10%; IC95% 30,33-31,88) e cujas mães tinham escolaridade secundária incompleta/completa (31,97%; IC95% 30,87-33,17). Também foram observadas maiores prevalências entre os escolares que não tomavam café da manhã regularmente (39,60%; IC95% 38,43-40,78), bem como entre os que já experimentaram cigarro (39,70%; IC95% 38,23-41,20) e aqueles que já consumiram bebidas alcoólicas (35,22%; IC95% 34,30-36,14) (Tabela 1).

Observou-se, ainda, maiores prevalências entre os escolares que já experimentaram drogas (41,31%; IC95% 39,37-43,28), que se consideravam gordos (44,28%; IC95% 42,57-46,00), que consumiam refrigerantes regularmente (32,56%; IC95% 30,95-34,22) e não consumiam frutas com a mesma frequência (32,87%; IC95% 31,98-33,77), que faziam atividade física <300 minutos semanais (33,54%; IC95% 32,69-34,40), bem como entre aqueles que referiram não ter amigos (44,69%; IC95% 41,23-48,21). Além disso, maiores prevalências foram encontradas entre os escolares que já procuraram algum serviço de saúde (31,73% IC95% 30,91-32,55) e que já faltaram à aula por motivos de saúde em 4 ou mais dias na semana (47,84%; IC95% 45,39-50,30) (Tabela 1).

Ademais, observou-se maiores prevalências entre os escolares que, nos últimos 30 dias, relataram sentir-se preocupados(as) (32,53%; IC95% 31,81-33,26); tristes (38,12%; IC95% 37,30-38,94); que ninguém se preocupa com eles (35,07%; IC95% 34,33-35,82); irritados(as), nervosos(as) ou mal-humorados(as) (35,07%; IC95% 34,33-35,82); e que a vida não vale a pena ser vivida (45,82%; IC95% 44,78-46,85) (Tabela 1).

Na Tabela 1 do Material Suplementar constam as estimativas do modelo bruto (Tabela 1S). As características dos escolares que se mantiveram associadas à autoavaliação de saúde ruim após o ajuste por todas as variáveis do modelo foram: ser do sexo masculino (RPa 0,75; IC95% 0,72-0,79); ter 16 ou 17 anos (RPa 1,13; IC95% 1,08-1,18), raça/cor preta (RPa 1,08; IC95% 1,01-1,14), parda (RPa 1,10; IC95% 1,05-1,16) e outras (RPa 1,13; IC95% 1,04-1,22); tomar café da manhã 5 ou mais vezes na semana (RPa 0,84; IC95% 0,80-0,87); já ter experimentado bebidas alcoólicas (RPa 1,12; IC95% 1,07-1,18); e perceber-se gordo (RPa 1,34; IC95% 1,27-1,42) ou magro (RPa 1,12; IC95% 1,06-1,18).

Somado a isso, praticar atividade física >300 minutos semanais (RPa 0,85; IC95% 0,80-0,89); consumir frutas frequentemente (RPa 0,86; IC95% 0,81-0,92); ter 1 ou mais amigos (RPa 0,80; IC95% 0,74-0,86); já ter procurado algum serviço de saúde (RPa 0,92; IC95% 0,88-0,96); faltar à aula por motivos de saúde em 1 a 3 dias (RPa 1,31; IC95% 1,24-1,39) ou 4 ou mais dias (RPa 1,64; IC95% 1,54-1,74); sentir-se preocupado(a) (RPa 1,09; IC95% 1,02-1,15), triste (RPa 1,33; IC95% 1,24-1,41), que ninguém se preocupa consigo (RPa 1,22; IC95% 1,16-1,29), irritado(a), nervoso(a) ou mal-humorado(a) (RPa 1,79; IC95% 1,10-1,25) e que a vida não vale a pena ser vivida (RPa 1,38; IC95% 1,32-1,45) estiveram associadas ao desfecho após ajuste (Tabela 2).

Tabela 2.
Modelo ajustado de autoavaliação de saúde ruim entre adolescentes escolares brasileiros, segundo fatores associados, com respectivos intervalos de confiança de 95%. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, Brasil, 2019.

DISCUSSÃO

Este estudo evidenciou que aproximadamente 33% dos adolescentes brasileiros autoavaliaram seu estado de saúde como ruim. Foram associadas à autoavaliação ruim características individuais, comportamentais e psicossociais, como ter 16 ou 17 anos; ser de raça/cor preta, parda ou outras; consumo de bebidas alcoólicas; perceber-se gordo ou magro; faltar à aula por motivo de saúde; sentir-se preocupado(a), triste, que ninguém se preocupa consigo, irritado(a), nervoso(a) e mal-humorado(a); e considerar que a vida não vale a pena ser vivida.

Por outro lado, verificou-se menores chances de autoavaliação ruim entre adolescentes do sexo masculino, consumo de frutas e atividade física regular, ter amigos, procura por serviços de saúde e entre aqueles que mantêm o hábito de tomar café da manhã regularmente.

A prevalência global de AAS ruim entre adolescentes pode variar de 1,2% a 38%, com maior frequência entre meninas19. No presente estudo essa diferença também foi observada, uma vez que o sexo masculino apresentou menor chance de relatar AAS ruim, confirmando achados prévios na literatura nacional. Embora as adolescentes demonstrem maior preocupação com a saúde e procurem mais os serviços de saúde, o que as torna mais informadas sobre os processos saúde-doença, sua AAS permanece mais negativa4,10. Uma possível explicação é que meninas percebem mais as mudanças no corpo e reconhecem melhor riscos à saúde14.

Nos últimos anos tem-se observado uma diminuição na proporção de adolescentes que percebem sua imagem corporal nos padrões considerados normais, com aumento de meninos que se veem como magros ou muito magros e meninas que se percebem como gordas ou muito gordas20. Essa insatisfação corporal, influenciada por fatores como redes sociais, mídia e aspectos sociodemográficos, pode afetar hábitos de vida e o bem-estar psicológico20,21. Neste estudo, a percepção corporal inadequada esteve associada à AAS ruim, especialmente entre adolescentes que se veem fora do peso ideal, em linha com achados anteriores22. Destaca-se, ainda, uma prevalência de 27,6% de ASS negativa entre adolescentes com percepção corporal distorcida21. Essa manifestação diferenciada entre meninos e meninas reflete padrões culturais e sociais que moldam a relação dos jovens com o próprio corpo e a sua saúde19,20.

Os adolescentes tendem a priorizar alimentos ultraprocessados, como frituras, doces e refrigerantes, em detrimento de opções mais saudáveis, como frutas21. A alimentação desbalanceada tem sido associada a uma pior autopercepção da saúde21. Neste estudo identificou-se que o hábito de tomar café da manhã regularmente esteve associado a uma menor chance de AAS ruim, o que reforça a importância dessa prática como indicador de estilo de vida saudável. Pesquisas anteriores também apontam que o consumo regular do desjejum contribui para o desempenho cognitivo e acadêmico, na qualidade de vida, no bem-estar e nos fatores de risco de morbidade8,23. Assim, a regularidade no café da manhã pode ser considerada um fator protetor para a saúde percebida entre adolescentes.

Além disso, este estudo evidenciou que a prática regular de atividade física e a ingestão frequente de frutas estiveram associadas a menor chance de uma AAS ruim. Destaca-se que hábitos de vida saudáveis, tais como a prática de exercícios físicos e o consumo diário de frutas8, têm sido identificados como um fator positivo para a percepção da própria saúde, conforme aqui observado.

Observa-se um aumento significativo do sofrimento mental entre adolescentes nos últimos anos22. Assim como neste estudo, outras pesquisas identificaram que sentimentos frequentes de tristeza, sensação de desvalorização da vida e a percepção de que ninguém se importa estão associados a uma autopercepção negativa da saúde20. Esses sentimentos foram mais prevalentes entre adolescentes do sexo feminino, o que reforça os achados desta pesquisa20. Esse cenário é preocupante, pois a adolescência é uma fase vulnerável ao surgimento de sintomas depressivos e ansiosos.

Neste estudo identificou-se que raça/cor está associada a AAS ruim em adolescentes. Esse achado dialoga com evidências nacionais que apontam a influência das desigualdades raciais na forma como os indivíduos percebem sua própria saúde4,24,25. Estudos realizados em diferentes populações brasileiras demonstraram que pessoas pardas tendem a relatar piores indicadores de saúde autorreferida quando comparadas às brancas4,24,25. Esses resultados refletem o impacto das desigualdades estruturais e das condições sociais que atravessam o processo saúde-doença, repercutindo não apenas em agravos objetivos, mas também na percepção subjetiva do bem-estar4,24,25.

A literatura aponta que a autopercepção da saúde tende a ser mais negativa com o avanço da idade14, o que foi confirmado neste estudo: adolescentes entre 16 e 17 anos apresentaram pior autopercepção da saúde em comparação àqueles com idades entre 13 e 15 anos. Essa diferença pode estar relacionada à maturação cognitiva, que leva os adolescentes mais velhos a conceber a saúde de maneira mais abrangente, considerando não apenas a ausência de doenças, mas também aspectos físicos, emocionais e sociais14. Esse amadurecimento pode também influenciar a forma como percebem e avaliam sua própria saúde ao longo dos anos10.

As limitações deste estudo incluem possível viés de memória e interpretações equivocadas devido ao uso de questionário autoaplicado. A amostra contempla apenas estudantes matriculados, excluindo adolescentes fora da escola, possivelmente mais vulneráveis. Por ser um estudo transversal, não é possível estabelecer causalidade. Ainda assim, a PeNSE abrange escolas de diferentes regiões, incluindo áreas de difícil acesso, garantindo representatividade nacional e permitindo a generalização dos resultados para os adolescentes brasileiros.

Portanto, além dos fatores sociodemográficos e comportamentais, a saúde mental também se mostrou associada ao desfecho estudado, indicando a necessidade de estudos mais aprofundados para compreender melhor seus determinantes e suas implicações ao longo do tempo.

Material suplementar

Tabela 1

Referências bibliográficas

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  • COMO CITAR ESSE ARTIGO:
    Tonaco LAB, Carrato BA, Pena LL, Malta DC. Prevalência e fatores associados à autoavaliação de saúde ruim em adolescentes brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019. Rev Bras Epidemiol. 2026; 29: e260007. https://doi.org/10.1590/1980-549720260007.2
  • FONTE DE FINANCIAMENTO:
    Ministério da Saúde/Fundo Nacional de Saúde (TED 67/2023); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), chamada 011/2022 - APQ-03788-22; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (SECTICS/MS), chamada 21/2023. Deborah Carvalho Malta agradece ao CNPq pela bolsa de produtividade recebida (processo 310177/2020-0).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Maio 2025
  • Revisado
    07 Nov 2025
  • Aceito
    12 Nov 2025
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