Objetivo: Identificar perfis interseccionais de vulnerabilidade em crianças de 5 anos com cárie dentária não tratada e analisar desigualdades sociais associadas no Brasil.
Métodos: Estudo transversal de base populacional com dados do Levantamento Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil) 2023. Foram incluídas crianças de 5 anos examinadas no inquérito. As variáveis utilizadas para identificação dos perfis foram: raça/cor, renda familiar, escolaridade da mãe, participação em programas sociais e região de residência. Para comparação entre perfis foram: última consulta com dentista e presença de água canalizada no domicílio. Realizaram-se análises descritivas, bivariadas (qui-quadrado), análise Two-Step Cluster e regressão logística binária e multinomial.
Resultados: Foram analisadas 7.185 crianças, das quais 44,8% apresentaram cárie dentária não tratada. As maiores prevalências ocorreram entre crianças com baixa escolaridade da mãe (51,9%), negras (49,9%) e indígenas (75%), de baixa renda (54,1%), do Norte (56,3%) e beneficiárias de programas sociais (53%) (p<0,001). Identificaram-se três perfis: Perfil A (meninos, negros, nordestinos, de baixa renda e alta dependência de programas sociais) apresentou menor probabilidade de consulta com dentista nos últimos 2 anos (OR 0,59; IC95% 0,48-0,73; p<0,001); Perfil B (meninos, brancos, nordestinos, de baixa renda e beneficiários de programas sociais) apresentou piores condições quanto à presença de água canalizada no domicílio (OR 0,38; IC95% 0,19-0,76; p=0,006); e Perfil C (meninas, negras, nortistas, com renda mais alta e menor dependência de programas sociais) concentrou as melhores condições de consulta e água canalizada (p<0,001).
Conclusão: Cárie dentária não tratada em crianças de 5 anos reflete iniquidades estruturais que combinam desigualdades de raça, classe, território e renda.
Palavras-chave:
Cárie dentária; Determinantes sociais da saúde; Desigualdades de saúde; Interseccionalidade