Aos editores,
Lemos com grande interesse o artigo de Mascarello et al.1 e colaboradores recentemente publicado por esta revista. O estudo contribui para o debate sobre a assistência à saúde das gestantes avaliando as complicações maternas precoces e tardias relacionadas à via de parto. O principal desafio está relacionado às cesarianas, um recurso importante para a redução da mortalidade materna e neonatal, mas que, quando usado de maneira excessiva, pode estar associado a um risco aumentado de resultados maternos desfavoráveis. Os motivos relacionados ao aumento considerável nas taxas de cesarianas verificado nos últimos anos no mundo e no Brasil2 são inúmeros e complexos, podendo-se citar a inadequada organização da rede de atenção à saúde, a falta de qualidade na atenção à saúde relacionada ao parto e fatores socioculturais3. Dessa forma, desejamos colaborar com o estudo, demonstrando algumas informações pertinentes às intervenções direcionadas à saúde e ao cuidado com as gestantes no Brasil. Atualmente, estão em andamento programas desenvolvidos por órgãos nacionais, como o programa Rede Cegonha, que envolve hospitais que atendem usuárias do serviço público, com o objetivo de garantir acesso, acolhimento e qualidade na atenção ao parto e ao nascimento4. Com o intuito de diminuir as taxas de cesarianas, especialmente aquelas sem indicação médica, foram criados programas como o “Projeto Parto Adequado”, no âmbito da saúde suplementar; o “Projeto Parto Cuidadoso”, por meio do monitoramento on-line da quantidade de cesarianas nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS)3; e o “Projeto de Aprimoramento e Inovação no Cuidado e Ensino em Obstetrícia e Neonatologia” (Apice On), que tem por objetivo a qualificação do ensino e o exercício da obstetrícia e da neonatologia baseada em evidências científicas4. Para o desenvolvimento desses projetos, é necessária a adesão do trabalho multidisciplinar em diversas práticas, como nas orientações fornecidas às gestantes referentes ao período gravídico-puerperal. Entretanto, essas intervenções não devem ser contempladas apenas com intervenções clínicas, mas associadas à compreensão das crenças das gestantes, das expectativas quanto ao parto, do medo de sentir dor e da qualidade dos cuidados. Como o próprio estudo aborda, para a escolha da via de parto, a gestante deve estar ciente dos riscos à sua saúde e à do seu bebê, além de considerar os benefícios e os danos de ordem psicológica, especialmente quando o tipo de parto realizado é diferente do desejado. Dessa forma, as diferentes abordagens devem incluir educação pré-natal, presença de enfermeiras obstétricas em maternidades, integração entre os profissionais de saúde e implementação de diretrizes baseadas em evidências para treinamento adequado dos profissionais envolvidos no atendimento do binômio mãe-feto5. Além disso, em 2014, a Organização Mundial da Saúde propôs a utilização da “Classificação de Robson” como o instrumento padrão mundial para avaliar, monitorar e comparar as taxas de cesarianas realizadas nos hospitais, sendo este um instrumento considerado útil, de baixo custo e facilmente interpretável, além de possibilitar a transparência e melhorar a qualidade na prestação de cuidados de saúde materno-fetal6,7.
REFERÊNCIAS
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1 Mascarello KC, Matijasevich A, Santos I da S dos, Silveira MF. Complicações puerperais precoces e tardias associadas à via de parto em uma coorte no Brasil. Rev Bras Epidemiol 2018;21: e180010. http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180010
» http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180010 -
2 Boerma T, Ronsmans C, Melesse DY, Barros AJD, Barros FC, Juan L, et al. Global epidemiology of use of and disparities in caesarean sections. The Lancet 2018; 392(10155): 1341-8. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31928-7
» https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31928-7 -
3 Occhi GM, de Lamare Franco Netto T, Neri MA, Rodrigues EAB, de Lourdes Vieira Fernandes A. Strategic measures to reduce the caesarean section rate in Brazil. Lancet 2018; 392(10155): 1290-1. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)32407-3
» https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)32407-3 -
4 Leal M do C. Parto e nascimento no Brasil: um cenário em processo de mudança. Cad Saúde Pública 2018; 34(5): e00063818. https://doi.org/10.1590/0102-311X00063818
» https://doi.org/10.1590/0102-311X00063818 -
5 Betrán AP, Temmerman M, Kingdon C, Mohiddin A, Opiyo N, Torloni MR, et al. Interventions to reduce unnecessary caesarean sections in healthy women and babies. The Lancet 2018; 392(10155): 1358-68. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31927-5
» https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31927-5 - 6 Organização Mundial da Saúde. Declaração da OMS sobre Taxas de Cesáreas. Hum Reprod Program 2015; 1-8.
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7 Hehir MP, Ananth CV, Siddiq Z, Flood K, Friedman AM, D’Alton MED. Cesarean Delivery in the United States 2005-2014: A Population-Based Analysis Using the Robson Ten Group Classification System. Am J Obstet Gynecol 2018; 219(1): 105.e1-105.e11. https://doi.org/10.1016/j.ajog.2018.04.012
» https://doi.org/10.1016/j.ajog.2018.04.012
