O presente artigo discute o papel da epidemiologia e da saúde coletiva no enfrentamento do racismo e das desigualdades raciais em saúde no Brasil. As reflexões aqui apresentadas foram inspiradas na conferência “Desvelando iniquidades: o papel da epidemiologia no enfrentamento do racismo”, ocorrida no 12o Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em 2024. Por meio de uma análise crítica e histórica, busca-se compreender como a epidemiologia brasileira — consolidada na América Latina e reconhecida por suas contribuições à saúde coletiva — ainda reproduz mecanismos de invisibilização de pesquisadoras e pesquisadores negros e indígenas. Argumenta-se que o combate ao racismo não pode ser tarefa isolada de um grupo específico, mas um compromisso coletivo e ético que envolva toda a comunidade científica. Os dados de morbimortalidade falam por si e pela maioria da população brasileira. É preciso debater de forma mais explícita o racismo na área de epidemiologia e refletir como as nossas instituições e grupos se organizam e operam de acordo com as relações de poder. Além disso, propõe-se que temas contemporâneos, como saúde digital, mudanças climáticas e saúde mental, sejam analisados sob perspectivas interseccionais, considerando raça, gênero, classe e outras dimensões de desigualdade. O texto enfatiza que o reconhecimento do racismo como determinante social da saúde é condição essencial para a construção de uma epidemiologia comprometida com a equidade e com o direito à vida. É necessário reconhecer essas lacunas para avançar, conforme aponta o nosso V Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil.
Palavras-chave:
Racismo; Epidemiologia; Saúde da população negra; Desigualdades raciais; Saúde coletiva