Open-access Cárie não tratada em adolescentes do Brasil: análise pelo índice PUFA

RESUMO

Objetivo:  Descrever o perfil de distribuição de cáries não tratadas em adolescentes brasileiros, utilizando o índice PUFA, identificando os principais fatores associados.

Métodos:  Trata-se de um estudo transversal, baseado em dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal de 2023. A amostra foi composta de 8.053 adolescentes entre 15 e 19 anos. A variável dependente foi a presença de lesão de cárie não tratada, mensurada pelo índice PUFA. As variáveis independentes incluíram fatores sociodemográficos e relacionados à saúde bucal, como qualidade de vida e acesso aos serviços odontológicos. Foram realizadas análises descritivas e bivariadas, utilizandose os testes de Rao-Scott e de regressão logística múltipla, considerando-se nível de significância de 5% (p<0,05).

Resultados:  Foi verificado que 12,5% dos adolescentes apresentaram, ao menos, um dente acometido por alguma repercussão da cárie não tratada. Houve associações significativas entre o PUFA ≥1 e as condições socioeconômicas dos adolescentes, como menor escolaridade, renda familiar reduzida e participação em programas governamentais, além da cor/raça preta. Houve impacto negativo na qualidade de vida de 22,4% dos adolescentes com índice PUFA ≥1, sendo que 19,1% nunca haviam realizado consulta odontológica. Baixa renda familiar, presença de dor nos últimos seis meses e autopercepção de necessidade de tratamento odontológico foram fatores fortemente associados ao PUFA ≥1.

Conclusão:  Determinantes sociais influenciaram a progressão da doença cárie em adolescentes. Assim, políticas sociais direcionadas aos adolescentes de cor/raça preta e ampliação do acesso de serviços odontológicos são essenciais para a redução de agravos em saúde bucal nessa população de maior vulnerabilidade.

Palavras-chave:
Saúde bucal; Cárie dentária; Saúde do adolescente; Inquéritos de saúde bucal

ABSTRACT

Objective  To describe the distribution profile of untreated dental caries in Brazilian adolescents, using the PUFA index, and identify the main associated factors.

Methods:  This is a cross-sectional study based on data from the 2023 National Survey of Oral Health. The sample consisted of 8,053 adolescents aged 15 to 19 years. The dependent variable was the presence of untreated caries, measured by the PUFA index. Independent variables included sociodemographic and oral health-related factors such as impacts on quality of life and access to dental services. Descriptive and bivariate analyses were performed using the Rao-Scott test and multiple logistic regression, considering a significance level of 5% (p<0.05).

Results:  We verified that 12.5% of Brazilian adolescents had at least one tooth affected by some repercussion of untreated caries. There were statistically significant associations between PUFA≥1 and the adolescents’ socioeconomic conditions, such as lower level of education, low family income, being beneficiary of government cash transfer programs, in addition to Black skin color/race. We observed a negative impact on the quality of life of 22.4% of adolescents with PUFA index ≥1, and 19.1% had never had a dental appointment. Low family income, presence of pain in the last six months, and self-perceived need for dental treatment were factors strongly associated with PUFA≥1.

Conclusion:  Social determinants influenced the progression of dental caries in adolescents. Therefore, social policies targeting Black adolescents and expanded access to dental services are essential to reduce oral health problems in this more vulnerable population.

Keywords:
Oral health; Dental caries; Adolescent health; Dental health surveys

INTRODUÇÃO

Os problemas bucais são cada vez mais reconhecidos como parte integrante da saúde geral, com repercussões físicas, emocionais e psicológicas1,2. Nesse contexto, ao longo das últimas décadas, governos e organizações não governamentais têm intensificado esforços para promover a saúde bucal da população. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a prevalência de cárie tem apresentado declínio em diversas regiões do mundo3.

A Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB) vem sendo implementada desde 2004, sob a denominação Brasil Sorridente, orientando a organização das ações em saúde bucal no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2023, sua consolidação como Política de Estado representou um marco para a sustentabilidade dessas ações, ao assegurar financiamento e integração institucional. Nesse cenário, os inquéritos epidemiológicos nacionais, como o Projeto Saúde Bucal Brasil (SB Brasil), assumem papéis estratégicos ao fornecer evidências sistemáticas e representativas sobre as condições de saúde bucal da população, subsidiando o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações, fortalecendo a vigilância em saúde bucal e contribuindo para a redução das desigualdades4.

A cárie dentária pode ser influenciada por diferentes determinantes sociais, e as estratégias de manejo devem incluir planos de prevenção e de assistência baseados em faixas etárias, por esse fator desempenhar um papel relevante5. Evidências sobre o impacto do comprometimento pulpar por cárie na qualidade de vida de crianças e adolescentes podem sensibilizar gestores de saúde pública quanto à importância de ações preventivas, do diagnóstico precoce e do tratamento da cárie dentária2.

O índice PUFA tem sido utilizado para avaliar a presença de condições bucais decorrentes de cáries não tratadas, por meio do registro da progressão da lesão cariosa para os tecidos circundantes, incluindo envolvimento pulpar (P), ulceração (U), fístula (F) e abscesso (A). Desse modo, o PUFA classifica quatro estágios clínicos da cárie avançada, evidenciando condições bucais prevalentes e relevantes para o planejamento de ações em saúde6. Esse índice reflete o envolvimento pulpar e periapical, subjacente à lesão cariosa, e serve como um instrumento de triagem para a indicação de exames complementares e a determinação diagnóstica7.

Em 2023, a avaliação por meio do índice PUFA foi incorporada à Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil), possibilitando estimar a gravidade da doença e identificar patologias associadas8. Diante disso, a elaboração e a implementação de estratégias eficazes para o controle da cárie dentária, especialmente no contexto das desigualdades sociais e seu impacto sobre a população mais jovem, tornaram-se extremamente relevantes e urgentes9. Assim, compreender a distribuição das condições pulpares não tratadas, da perspectiva da saúde pública, permite avaliar com maior precisão as necessidades de tratamento e orientar a alocação adequada de recursos para o cuidado odontológico.

Destarte, o presente estudo teve como objetivo descrever o perfil de distribuição das cáries não tratadas em adolescentes, com base no índice PUFA, bem como identificar os principais fatores associados a esses agravos.

MÉTODOS

Este é um estudo transversal, baseado em dados secundários provenientes do SB Brasil (2023). Trata-se de um inquérito epidemiológico de abrangência nacional que investiga as condições de saúde bucal da população brasileira e está vinculado à PNSB. O processo de amostragem adotado foi probabilístico, estratificado e por conglomerados em múltiplos estágios. Detalhes adicionais sobre o delineamento metodológico encontram-se nas publicações técnicas do SB Brasil 20238,10.

A amostra analisada no presente estudo incluiu 8.053 adolescentes, com idades entre 15 e 19 anos, que foram entrevistados e examinados em seus domicílios.

A variável dependente foi a presença de pelo menos uma lesão decorrente de cárie não tratada com repercussão clínica, conforme o índice PUFA. A variável foi dicotomizada em PUFA ≥1 (presença de uma ou mais lesões) e PUFA=0 (ausência de lesões).

As variáveis independentes englobaram aspectos sociodemográficos (sexo, idade, cor/raça autodeclarada, escolaridade, renda familiar, recebimento de auxílio governamental e região), além de fatores relacionados à saúde bucal (dor nos últimos seis meses, autorrelato de necessidade de tratamento, perda de dentes permanentes, sangramento gengival, cálculo dental, oclusopatias e urgência percebida de tratamento). Também foram incluídas variáveis referentes à saúde bucal e aos seus impactos na qualidade de vida, bem como ao uso de serviços odontológicos.

Para as análises, foi considerado o plano amostral complexo do SB Brasil 2023, que inclui estratificação, conglomerados (unidades primárias de amostragem) e pesos amostrais ajustados à probabilidade de seleção. Para garantir estimativas representativas e erros padrão corretos, aplicou-se o arquivo com plano de amostra complexa, utilizando os componentes de estrato, unidade primária de amostragem e peso fornecidos pelo inquérito.

As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20, com aplicação do módulo de amostragem complexa. Inicialmente, procedeu-se à análise descritiva e, em seguida, às análises bivariadas, para testar associações entre PUFA ≥1 e as variáveis independentes, utilizando-se o teste de Rao-Scott, versão ajustada do teste qui-quadrado para amostragens complexas. Por fim, foi conduzida uma análise de regressão logística múltipla, incluindo variáveis com p<0,05 na análise bivariada. Após a análise de regressão, foram mantidas no modelo final apenas as variáveis independentes que permaneceram com p<0,05 após o ajuste. O modelo final estimou os odds ratios (OR) brutos e ajustados, com seus respectivos intervalos de confiança de 95%, adotando-se nível de significância de 5% (p<0,05).

A multicolinearidade entre as variáveis independentes apresentadas no modelo final foi avaliada por tolerância, fator da inflação da variância (VIF) e índices de condição, não sendo observados valores indicativos de colinearidade (tolerância 0,90–0,97; VIF 1,02–1,11; maior índice de condição=14,95). Assim, todas as variáveis foram mantidas no modelo multivariado.

Não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa por se tratar de estudo baseado em dados secundários. O SB Brasil 2023 foi previamente aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa — CONEP (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética — CAAE nº 34497120.6.3001.0008; parecer nº 4.823.054).

Declaração de disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que sustenta os resultados deste estudo encontra-se disponibilizado no próprio artigo.

RESULTADOS

A amostra incluiu 8.053 adolescentes, com idades entre 15 e 19 anos, dos quais 12,5% apresentaram o índice PUFA ≥1, ou seja, pelo menos um dente acometido por lesão de cárie não tratada, sendo a ocorrência mais comum o envolvimento pulpar (Tabela 1).

Tabela 1
Prevalência da cárie dentária não tratada e lesões bucais em dentes permanentes em adolescentes do Brasil, SB Brasil 2023.

Ao considerar o índice PUFA ≥1 e as características demográficas da população avaliada, foram identificadas associações com algumas características socioeconômicas, tais como: cor/raça, baixa escolaridade, renda familiar e presença de benefícios de renda social, conforme detalhado na Tabela 2.

Tabela 2
Prevalência de PUFA ≥1 em dentes permanentes segundo características sociodemográficas em adolescentes do Brasil, SB Brasil 2023.

O Oral Impacts on Daily Performances (OIDP) foi o instrumento utilizado para avaliar o impacto de problemas bucais na qualidade de vida dos adolescentes. Por meio desse instrumento, observou-se que, entre aqueles adolescentes cuja saúde bucal impactou a qualidade de vida, 22,4% apresentavam índice PUFA ≥1. Foram significativas as associações entre PUFA ≥1 e as variáveis relacionadas às atividades diárias, nas quais os adolescentes relataram: deixar de praticar esportes (50,5%), deixar de se divertir (43,0%), ter prejuízo nas atividades diárias (42,8%), dormir mal (35,9%), ficar nervoso/irritado (34,1%), dificuldades para falar (31,6%) ou comer (31,3%) e ter vergonha ao sorrir ou falar (21,6%), como destacado na Tabela 3.

Tabela 3
Associação entre impacto na qualidade de vida (OIDP) e presença de PUFA ≥1 em dentes permanentes de adolescentes brasileiros, SB Brasil 2023.

A Tabela 4 mostra os agravos associados à presença do índice PUFA ≥1. Desse modo, pode-se destacar que 17,5% dos adolescentes identificaram a necessidade de tratamento por meio de uma autoavaliação. Já 79,5% dos adolescentes com PUFA ≥1 tiveram uma autopercepção de tratamento imediato de urgência, 30,5% desses adolescentes relataram dor nos últimos seis meses e 26,1% relataram perda de, pelo menos, um dente permanente.

Tabela 4
Associação entre agravos em saúde bucal e uso de serviços odontológicos com a presença de PUFA ≥1 em dentes permanentes em adolescentes do Brasil, SB Brasil 2023.

Pode-se também destacar que, dentre os adolescentes com PUFA ≥1, 19,1% nunca haviam comparecido a uma consulta odontológica. Contudo, 32,0% dos adolescentes que buscaram atendimento odontológico relataram odontalgia, e 17,7% dos adolescentes buscaram atendimento pelo SUS, conforme Tabela 4.

No modelo de regressão logística, observou-se que os principais fatores associados à presença de PUFA ≥1 foram as desigualdades socioeconômicas e a presença de agravos bucais. Após ajuste do modelo, adolescentes de cor/raça preta apresentaram 2,41 vezes mais chances de apresentar PUFA ≥1 em comparação aos brancos. Além disso, aqueles pertencentes a famílias com renda de até um salário-mínimo apresentaram 3,22 vezes maiores chances de PUFA ≥1 do que os adolescentes com renda superior a três salários-mínimos. A presença de dor (OR=3,54), o autorrelato de necessidade de tratamento (OR=3,59) e a perda dentária (OR=1,88) também foram fatores fortemente associados à presença de PUFA ≥1, após ajuste das chances, conforme Tabela 5.

Tabela 5
Modelo de regressão logística entre fatores sociodemográficos e agravos em saúde bucal com PUFA ≥1 em adolescentes do Brasil, SB Brasil 2023.

DISCUSSÃO

O presente estudo avaliou dados de 8.053 adolescentes brasileiros, entre 15 e 19 anos, faixa etária em que mudanças físicas, emocionais e sociais tornam a aparência e a funcionalidade bucal relevantes para a autoestima e a qualidade de vida. Por se tratar de um estudo transversal, não é possível estabelecer a temporalidade das associações observadas, havendo risco de causalidade reversa. Assim, não se pode afirmar se as condições clínicas antecederam os impactos ou se estes influenciaram a percepção e o comportamento em saúde bucal. Assim, as associações encontradas devem ser interpretadas com cautela.

Os resultados destacaram a frequência de 12,5% dos adolescentes brasileiros entre 15 e 19 anos apresentando índice PUFA ≥1, ou seja, possuírem pelo menos um dente acometido por lesão de cárie não tratada, tendo como principal consequência o envolvimento pulpar (9,9%). De forma semelhante, Gomes et al.9, ao avaliarem adolescentes de 12 anos, observaram que as consequências clínicas de lesões de cárie não tratadas (índice PUFA ≥1) ocorreram em 8,71% da amostra, com o comprometimento pulpar sendo o mais frequentemente também o comprometimento pulpar. Isso é particularmente preocupante em razão da gravidade das lesões cariosas e suas consequências, principalmente ao se considerar o pequeno intervalo (três anos) entre as idades dos adolescentes avaliados nos dois estudos, com aumento da frequência dos acometidos em quase quatro (3,99) pontos percentuais, considerando a faixa etária entre 15 e 16 anos (12,7%). Ainda, no presente trabalho, apesar de não significativo, houve aumento da prevalência do índice PUFA ≥1 entre as faixas etárias de 17–18 anos, passando de 11,8 para 13,5% aos 19 anos, com pior condição bucal nessa idade. O manejo dessa situação na saúde pública é complexo e demanda gestões intersetoriais dos serviços de saúde bucal, com planejamento, gerenciamento de recursos e maiores investimentos na atenção primária e especializada para identificar e tratar dentes com comprometimento pulpar9.

A prevenção da cárie dentária e o seu tratamento adequado extrapolam as dimensões funcional e estética dos dentes. A saúde bucal transcende o ambiente oral, influenciando a saúde geral e a qualidade de vida do indivíduo11. Ademais, as condições bucais durante a infância podem repercutir na idade adulta12. As consequências clínicas da cárie dentária não tratada foram associadas a problemas no sono de crianças em idade escolar13. Tal fato foi corroborado pelo presente estudo, no qual foi identificada uma associação estatisticamente significativa entre o índice PUFA ≥1 e a qualidade do sono (35,9%) dos adolescentes. Esses resultados enfatizam a importância do atendimento imediato perante as consequências da cárie dentária e representam um indicador crucial para o estabelecimento de prioridades nos serviços públicos de saúde e para a tomada de decisões clínicas14.

O tipo de alimento consumido também está relacionado à maior prevalência de cárie em idades precoces. Por meio de uma revisão sistemática, Cascaes et al.15 observaram que a ingestão de alimentos ultraprocessados se associou à maior ocorrência de cárie dentária na infância e adolescência, evidenciando a necessidade de políticas públicas voltadas à modificação de determinantes sociais e à redução do consumo desses alimentos, visando à melhoria da saúde bucal de crianças e adolescentes2,15,16.

A distribuição desigual da cárie nas populações está fortemente associada à condição socioeconômica17,18. No presente estudo, características socioeconômicas, tais como cor/raça, escolaridade, renda familiar e recebimento de proventos decorrentes de benefícios sociais de renda foram estatisticamente associadas ao índice PUFA ≥1. Contudo, muitas variáveis têm sido consideradas preditoras de cárie dentária ao longo da adolescência. No SB Brasil de 2010, residir em cidades sem água fluoretada, com menor cobertura de abastecimento hídrico e em municípios com renda mediana mais baixa foram considerados fortes determinantes para a cárie dentária. Além disso, cor da pele, baixa renda familiar e presença de condições clínicas periodontais, como cálculo dentário ou sangramento gengival, foram associadas aos determinantes individuais de cárie dentária em crianças de 12 anos5,17,19.

Ao avaliarem a prevalência e gravidade de cárie em crianças brasileiras de 12 anos e sua associação com fatores individuais e contextuais, Freire et al.17 identificaram que as crianças pretas e pardas apresentaram prevalência de cárie significantemente mais elevada que as crianças brancas. Contudo, os autores destacaram que essa diferença, em grande parte, foi devida à pior condição socioeconômica dos estratos de cor de pele preta e parda na população brasileira. Essas evidências podem ser extrapoladas para os resultados do presente estudo, uma vez que, além da população adolescente preta e parda, grande parte da população indígena também apresentou índice PUFA ≥1, sendo todas as populações possuidoras de baixas condições socioeconômicas. Adicionalmente, adolescentes em famílias com menor status socioeconômico, assim como os pertencentes a famílias com coesão familiar (união afetiva entre seus membros) de baixa a moderada, foram mais propensos a apresentarem maior número de lesões cariosas cavitadas5,20, corroborando os achados do presente estudo, em que o PUFA ≥1 foi três vezes mais prevalente nos indivíduos com renda abaixo de três salários-mínimos, mesmo após ajuste das variáveis.

Maiores níveis educacionais e de renda dos pais estão associados a maior atenção e cuidado com a saúde bucal dos filhos21,22. É possível que a escolaridade materna esteja associada à maior busca por serviços odontológicos entre adolescentes, visto que as escolhas parentais ainda exercem impacto nas decisões dos indivíduos nesse período23. Contudo, estudos avaliando a escolaridade dos adolescentes e o índice PUFA ainda permanecem escassos na literatura, indicando a importância dos achados desta pesquisa, uma vez que foi identificada associação estatisticamente significativa entre a menor escolaridade dos adolescentes brasileiros e o índice PUFA ≥1. As iniquidades persistem, com maior prevalência de cárie em grupos mais pobres, refletindo as marcantes desigualdades sociais no Brasil e seus impactos na saúde da população17.

Desse modo, evidencia-se a necessidade de uma política pública de saúde integral que articule família, escola e serviços de saúde. O escopo dos serviços deve ser cada vez mais ampliado, visto que as disparidades socioeconômicas ainda são um fator limitante no acesso aos serviços odontológicos. Além disso, o contexto em que os adolescentes estão inseridos também deve ser considerado. A conscientização sobre cuidados bucais precoces deve envolver a família e as escolas, para que sejam propostas estratégias visando reduzir o risco de doenças bucais na infância e adolescência. Adolescentes provenientes de ambiente escolar desfavorável (estudantes de escolas públicas e com maior índice de repetência escolar) apresentaram maior probabilidade de buscarem serviços odontológicos para tratamento e resolução dos sintomas23 de dor decorrentes da já deteriorada condição dentária, o que foi observado no presente trabalho, pela autopercepção de tratamento urgente imediato na grande maioria (79,5%) dos adolescentes com PUFA ≥1. Destaca-se aí a grande procura por parte desses adolescentes pelo atendimento via SUS.

A adolescência é um período de transição da infância para a idade adulta, que envolve mudanças psicológicas e fortes influências sociais, além de maior exposição a fatores de risco emocionais, sociais e físicos, tornando-se uma fase vulnerável a comportamentos nocivos e complexos18,24. Nesse contexto, o OIDP insere-se como um instrumento que mede a percepção dos indivíduos sobre o impacto social dos distúrbios orais em seu bem-estar. Diferentes estudos têm identificado correlações entre a presença de cárie e a redução na qualidade de vida de adolescentes por meio desse instrumento1,25. Tais achados corroboraram os identificados na presente pesquisa, uma vez que foi identificada uma associação entre a pior qualidade de vida e a presença de PUFA ≥1 em dentes permanentes de adolescentes brasileiros. Importante destacar alguns dos fatores associados à redução na qualidade de vida deles, uma vez que as consequências decorrentes da cárie não tratada impediram esses adolescentes de praticarem esportes (50,5%), se divertirem (43,0%) e realizarem suas atividades diárias (42,8%) e também afetarem o seu sono (35,9%). Tais evidências sobre o impacto da progressão da cárie na qualidade de vida de crianças e adolescentes subsidiam maior atenção dos formuladores de políticas públicas quanto à oferta de cuidados odontológicos baseados na prevenção, no diagnóstico precoce e no tratamento das lesões cariosas2.

Ademais, o índice PUFA permite rastrear doenças pulpares por meio de sinais clínicos intraorais; entretanto, o índice apresenta maior sensibilidade quando há cavitação perceptível. Já em casos de dentes restaurados, essa sensibilidade diagnóstica diminui7. Por se tratar de um processo crônico, a cárie dentária apresenta sinais e sintomas pulpares variáveis conforme a fase, aguda ou crônica, podendo um abscesso dentário tornar-se assintomático após a drenagem espontânea por fístula. Assim, uma única avaliação pode não refletir completamente a condição de uma criança com cárie dentária avançada2.

Os resultados da presente pesquisa destacaram que houve associação significativa entre o índice PUFA ≥1 e a presença de agravos à saúde dos adolescentes, tais como necessidade de atendimento de urgência, perdas de dentes permanentes, oclusopatias e doenças periodontais. Desse modo, adolescentes com índice PUFA ≥1 apresentaram maior probabilidade de necessitar de intervenções clínicas invasivas. Dentre esses adolescentes, 79,5% apresentaram uma autopercepção de necessidade imediata de tratamento odontológico em situações de urgência. Ferreira et al.26 destacaram que percepções inadequadas de saúde bucal por parte dos jovens, ou a valorização insuficiente da saúde bucal podem aumentar a ocorrência de procura por um cirurgião-dentista apenas para a resolução dos sintomas, o que é corroborado pelo presente estudo. Lopes et al.23 destacaram que a probabilidade de adolescentes com lesões cavitadas procurarem serviços odontológicos por causa da dor foi 9,0% maior do que a daqueles sem lesões cavitadas. Tal situação traz implicações para a saúde do indivíduo e impacta os serviços de saúde, que podem apresentar maior demanda por atendimentos de urgência.

Adicionalmente, foi identificada associação significativa entre a utilização de serviços odontológicos públicos (17,7%) e a presença de PUFA ≥1 em dentes permanentes em adolescentes brasileiros. Além disso, 32,0% dos adolescentes que buscaram atendimento odontológico relataram odontalgia, refletindo a progressão da cárie e a procura tardia por atendimento, já com envolvimento pulpar e dor. Isso reforça a importância da identificação adequada de grupos mais suscetíveis, a fim de direcionar e otimizar de forma mais eficaz as estratégias e os recursos de controle da doença2,9.

Hábitos de higiene oral devem ser incentivados para reduzir a incidência de cárie dentária16. Há um número crescente de fatores de risco que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de problemas orais e cáries. No entanto, ainda não foi determinado quais fatores apresentam maiores riscos18. Assim, uma investigação sobre esses fatores de risco em adolescentes, particularmente em países em desenvolvimento, torna-se primordial, uma vez que os resultados podem variar dependendo das diferenças regionais20.

Além da renda familiar e da escolaridade, um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de agravos ao tecido pulpar decorrentes da cárie não tratada em adolescentes foi o fator cor/raça, de modo que a chance de adolescentes de cor/raça preta apresentarem PUFA ≥1 foi 2,41 vezes maior que a de adolescentes brancos, independentemente de sua escolaridade ou renda familiar. O mesmo ocorreu com os pardos (OR 1,39), ainda que em menor proporção. Contudo, Freire et al.17 justificaram essa maior prevalência de cárie pela menor renda familiar dos pretos. Segundo Vazquez et al.18, a distribuição da cárie nas populações está diretamente relacionada às condições socioeconômicas. Contudo, no presente estudo, foi identificado que, ao se incluírem no modelo de regressão logística a escolaridade e a renda como principais fatores socioeconômicos, a variável cor/raça permaneceu estatisticamente significativa para o PUFA ≥1.

As causas das desigualdades em saúde bucal permanecem inter-relacionadas e complexas. Intervenções precoces em saúde bucal podem influenciar positivamente a eficácia das ações, especialmente entre os grupos mais desfavorecidos27. A Estratégia Saúde da Família é fundamental para a sustentação da Vigilância em Saúde, ao garantir o acompanhamento do usuário desde o primeiro contato até a continuidade do cuidado, possibilitando maior conhecimento do território e do contexto social28.

Este estudo contribui para a prática do cirurgião-dentista na Atenção Básica ao fornecer evidências para a identificação de grupos vulneráveis e agravos bucais prioritários, qualificando o planejamento das ações no território. Ao reforçar a vigilância em saúde bucal, os achados subsidiam a organização da agenda, a estratificação de risco e o direcionamento de estratégias de prevenção e cuidado, além de apoiar gestores na definição de prioridades e na alocação racional de recursos, fortalecendo as ações de saúde bucal nos serviços públicos8.

Desse modo, políticas sociais direcionadas aos adolescentes de cor/raça preta, voltadas para a ampliação do acesso aos serviços odontológicos, tanto da atenção básica quanto da especializada, seja por meio de ações preventivas, seja por ações intervencionais, são fundamentais para a redução desses agravos em saúde bucal nessa população com maior vulnerabilidade.

AGRADECIMENTOS:

Agradecemos ao Ministério da Saúde pela disponibilização dos dados do inquérito epidemiológico SB Brasil 2023, fundamentais para a realização deste estudo.

COMITÊ DE ÉTICA:

Não houve necessidade de submissão deste estudo ao Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que se trata de análise de dados secundários. Ressalta-se que o SB Brasil 2023 foi previamente aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), em 3 de julho de 2021, sob o CAAE nº 34497120.6.3001.0008, com parecer nº 4.823.054.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Set 2025
  • Revisado
    18 Dez 2025
  • Aceito
    04 Mar 2026
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