Open-access Violência e preconceito contra pessoas LGBTQIAPN+ no curso de Medicina

RESUMO

Introdução:  Gênero e sexualidade são pouco abordados durante a formação médica. O currículo é falho em garantir a despatologização das condições diversas de sexo e gênero e em capacitar os cuidados específicos para as pessoas LGBTQIAPN+. Os alunos LGBTQIAPN+ sofrem diversos tipos de preconceitos, sendo a literatura ainda escassa com relação a essas percepções.

Objetivo:  Este estudo descreve situações de violência e preconceito no curso de Medicina por meio de relatos de alunos LGBTQIAPN+.

Método:  Trata-se de um estudo qualitativo de natureza exploratória que avaliou relatos coletados por meio de um questionário online aberto semiestruturado disponibilizado para alunos do curso de Medicina no ano de 2023. As questões abordaram a LGBTQIAPN+fobia, o programa didático em relação ao tema diversidade sexual, as motivações em relação à escolha do curso e a expectativa profissional futura desses alunos. Os relatos foram avaliados segundo a análise de conteúdo de Bardin.

Resultado:  Dezesseis relatos de participantes com idade média de 22,9±3,8 anos foram avaliados. Doze relataram vivência de pelo menos um episódio de LGBTQIAPN+fobia dentro da universidade, sendo a transfobia o aspecto mais citado. O ambiente hierárquico e a percepção da impunidade contra preceptores e alguns docentes foram apontados como perpetuadores das situações de preconceito e violência. Com relação ao currículo, a abordagem sobre o tema foi relatada como mínima e estigmatizante. A escolha da medicina foi referida como tentativa de melhorar a aceitação familiar e garantir estabilidade socioeconômica no futuro, havendo uma expectativa positiva de empregabilidade, embora acompanhada de receio quanto ao preconceito e à necessidade de ocultar a sua sexualidade.

Conclusão:   Os alunos LGBTQIAPN+ relatam vivências de inúmeras situações de violência, sobretudo transfobia, no curso de Medicina e apontam lacunas no ensino e acolhimento das demandas dessa população. A impunidade e as estruturas hierárquicas foram apontadas como elementos reforçadores do preconceito.

Palavras-chave:
Medicina; Sexualidade; Identidade de Gênero; Preconceito; Violência

ABSTRACT

Introduction:  Gender and sexuality are rarely addressed during medical graduation. The curriculum is inadequate in ensuring the depathologization of diverse sex and gender conditions and in providing training for specific care for LGBTQIAPN+ individuals. LGBTQIAPN+ students experience several types of prejudice, and the literature on these perceptions is still scarce.

Objective:  To describe situations of violence and prejudice in the medical course through reports from LGBTQIAPN+ students.

Methods:  This is a qualitative, exploratory study that evaluated reports collected through an open, semi-structured online questionnaire made available to medical students in 2023. The questions addressed LGBTQIAPN+phobia, the educational program’s approach to sexual diversity, motivations for choosing the course, and the students’ future professional expectations. The reports were analyzed according to Bardin’s content analysis.

Results:   Sixteen reports from participants with an average age of 22.9±3.8 years were evaluated. Twelve reported experiencing at least one episode of LGBTQIAPN+phobia within the university, with transphobia being the most frequently cited issue. The hierarchical environment and the perception of impunity towards preceptors and some faculty members were identified as perpetuating factors for prejudice and violence. Regarding the curriculum, the approach to the topic was reported as minimal and stigmatizing. Choosing medicine was described as an attempt to improve family acceptance and ensure future socioeconomic stability, with a positive expectation of employability, although accompanied by concerns about prejudice and the need to hide their sexuality.

Conclusion:  LGBTQIAPN+ students report experiencing numerous situations of violence, particularly transphobia, during their medical training and identify gaps in education and support for the needs of this population. Impunity and hierarchical structures were pointed out as reinforcing prejudice.

Keywords:
Medicine; Sexuality; Gender Identity; Prejudice; Violence

INTRODUÇÃO

Pessoas LGBTQIAPN+ (mulheres lésbicas, homens gays, pessoas bissexuais, pessoas transgênero, pessoas queer, pessoas intersexo, pessoas assexuais, pessoas poli/pansexuais, pessoas não binárias e outras terminologias que se identificam como pertencentes à diversidade sexual e de gênero) enfrentam diversas situações de violência e preconceito ao longo de suas vidas. A universidade e o acesso à educação, que poderiam fomentar a discussão de direitos humanos, tornam-se, em alguns casos, perpetuadores de violência e preconceito contra essa população1. A imposição do comportamento cisgênero e heterossexual como algo natural e preconcebido é uma das principais motivações para o preconceito e a violência contra esses grupos, sendo as instituições de ensino alguns dos locais de maior exposição ao risco de violências2.

Atualmente no Brasil mais de 10% da população se identifica como LGBTQIAPN+3. Apesar disso, apenas uma parcela dessas pessoas conclui o ensino superior. Isso ocorre devido aos desafios relacionados ao acesso e à permanência nos ambientes educacionais decorrentes do preconceito e da estigmatização dessas condições. A privação de recursos financeiros, decorrente da exclusão familiar e da marginalização social, e a manifestação de violência explícita dentro do ambiente escolar são questões que também fomentam a não permanência desses alunos nas instituições de ensino3.

Além do preconceito e da violência explícita, a negligência institucional nessas situações favorece a saída do aluno do ambiente educacional. A chegada ao ensino superior faz com que grupos minoritários tenham que lidar com adaptações à nova realidade, enfrentando preconceito e discriminação de muitos docentes e discentes4. Em algumas situações, comportamentos sutis, como a ocultação da própria sexualidade, surgem como uma ferramenta de defesa nesse ambiente5)-(8.

O currículo e o despreparo de funcionários para o acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+ também são falhos. A temática normalmente é abordada durante seis horas na formação médica pelas disciplinas de ginecologia, urologia e psiquiatria, focando o tema, majoritariamente, em aulas referente às infecções sexualmente transmissíveis (IST) e ao HIV/aids9),(10.

Identificar situações de LGBTQIAPN+fobia no ambiente acadêmico e social pode ser um processo importante na redução de danos e no desenho de estratégias que possam ser implementadas dentro do ambiente universitário para maior inclusão e permanência desses alunos. Dessa forma, este artigo tem por objetivo descrever situações de violência e preconceito no curso de Medicina por meio de relatos de alunos LGBTQIAPN+.

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo de natureza exploratória, realizado por meio de preenchimento online de um questionário semiestruturado, durante o ano de 2023, com pessoas LGBTQIAPN+ dentro do ambiente universitário.

A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) é responsável pelos cursos de graduação em Medicina, Ciências Biomédicas, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Informática Biomédica, Nutrição e Metabolismo e Terapia Ocupacional. No ensino de graduação, a instituição tem implementado metodologias de ensino ativas em práticas em simuladores e aulas-vídeo em plataformas online, e ensino presencial em cenários reais, com atividades práticas em laboratórios, núcleos de saúde da família, ambulatórios, enfermarias e centros de diagnóstico e tratamento. Recentemente, foi incorporado à disciplina de saúde da mulher o tema “atendimento à diversidade sexual” que busca consolidar estratégias mínimas para que o médico generalista possa conduzir o atendimento às pessoas LGBTQIAPN+. A faculdade também possui comissões específicas criadas para incluir a discussão da inclusão e desenhar estratégias para implementação e capacitação dos funcionários e discentes da instituição.

Todos os alunos do curso de graduação em Medicina da FMRP-USP foram convidados a participar desta pesquisa. O convite foi feito por meio de grupos de e-mail e Whatsapp das turmas com link para o formulário do software Research Electronic Data Capture (REDCap®). Incluíram-se aqueles que aceitaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e que se autodeclararam como LGBTQIAPN+. Excluíram-se os participantes com idade inferior a 18 anos.

Todas as respostas foram captadas e armazenadas no software REDCap do sistema da FMRP-USP. O questionário e a análise dos dados foram desenvolvidos e realizados pela Liga Acadêmica de Gênero, Saúde e Sexualidade (LAGSSex). Dividiu-se o questionário em duas partes. Em um primeiro momento, coletaram-se informações acerca da caracterização da amostra, e, num segundo momento, realizaram-se seis perguntas com respostas abertas para a avaliação das vivências dentro do ambiente universitário:

  1. Qual é a sua impressão sobre a intersecção do meio acadêmico e a diversidade sexual e de gênero?

  2. Você já presenciou alguma experiência ruim na faculdade envolvendo LGBTQIA+fobia?

  3. Você já sofreu alguma experiência ruim na faculdade envolvendo LGBTQIA+fobia?

  4. Você enfrenta dificuldades em se relacionar sexual ou afetivamente? Quais são elas e por que você acredita que isso ocorre?

  5. Qual é a sua expectativa em relação à sua vida profissional?

  6. Quais eram suas expectativas com a escolha da Medicina?

A identificação dos participantes ocorreu de forma sequencial, com a letra Q (questionário), seguida da letra ED (estudante da diversidade) e de número arábico para cada indivíduo (de QED01 a QED17).

As respostas dos questionários foram analisadas seguindo uma abordagem qualitativa e dedutiva segundo a análise de conteúdo de Bardin11. As etapas de codificação das respostas e preenchimento da matriz de saída foram realizadas de forma independente por duplas, compostas por integrantes da LAGSSex. Todas as respostas foram analisadas apenas por uma dupla de avaliadores, e cada dupla avaliou duas questões do questionário. Cada dupla de analista completou uma matriz de saída para cada questão, e discrepâncias entre as duplas foram resolvidas por consenso ou intervenção de um terceiro.

As matrizes de saída foram integradas e discutidas de acordo com cada tema, buscando identificar padrões, subtemas e falas representativas para cada tema identificado. Com base nessa discussão, produziu-se uma síntese narrativa das conclusões de cada tema. A síntese narrativa de cada tema foi revisada pelo grupo de analistas, e selecionaram-se por consenso falas ilustrativas dessas conclusões. A amostra foi definida por conveniência e contempla todas as entrevistas com elegibilidade realizadas em 2023.

RESULTADOS

Analisaram-se relatos escritos de 16 participantes realizados entre 8 de agosto de 2023 e 29 de dezembro de 2023. Os participantes tinham idade média de 22,9 ± 3,8 anos. Nove (53,6%) identificaram-se como raça/cor da pele branca, 13 (81,3%) como cisgênero e nove (53,6%) como bissexual (Tabela 1). Nove (53,6%) informaram que moravam sozinhos e não enfrentavam dificuldades financeiras para que pudessem se manter no curso de Medicina. A família foi informada como fonte de suporte financeiro por 15 participantes (93,8%).

Tabela 1
Dados socioeducacionais dos participantes.

LGBTQIAPN+fobia no curso de Medicina

Doze participantes relataram vivenciar ou sofrer pelo menos um episódio de LGBTQIAPN+fobia, sendo a transfobia o aspecto mais citado nas respostas. A transfobia e a invalidação da existência de pessoas trans foram relatadas por situações em que havia utilização de pronomes inadequados ou do “nome morto” (nome de registro) por funcionários e docentes. De acordo com os relatos dos participantes, a violência contra as pessoas LGBTQIAPN+ também ocorre por meio de comentários e opiniões expressos em redes sociais de funcionários, sendo a ignorância em relação ao tema a justificativa para isso. Em algumas situações, relatou-se que as falas fóbicas são protegidas por uma impressão de impunidade devido à hierarquia.

Já passei por ocasiões em que atendia o paciente e este me tratava corretamente com pronomes femininos, porém passou a me chamar no masculino após presenciar o chefe me tratando no masculino. [...] Mais recentemente, uma professora e figura proeminente da faculdade estava fazendo piadas sobre homens e me disse que eu “ainda sou um homem mesmo tendo trocado de time”, e repetidamente me tratou no masculino, por vezes se corrigindo e dizendo que ela erra, pois “é difícil acertar” (QED10).

A hierarquização do poder nos cenários de ensino é outro fator relatado pelos participantes como um fomentador do preconceito. A discussão de questões relacionadas à diversidade sexual foi relatada de forma jocosa ou depreciativa. Alguns participantes, inclusive, mencionaram situações de provocação associadas a esses discursos.

É recorrente o discurso LGBTQIA+fóbico entre docentes e contratados do meu curso, sem qualquer tipo de pudor. Muitas vezes em tom provocativo, em que fazem questão de inserir discursos intolerantes sem que sejam questionados de qualquer forma sobre seu posicionamento. Isso, frente a alunos e outros profissionais em posições inferiores, sabendo que não haverá resposta ou repreensão devido à sua posição de poder (QED06).

Os relatos de transfobia também contemplaram situações fora da sala de aula. Uma participante informou que recebeu uma reclamação por parte de funcionárias do hospital por utilizar o banheiro feminino. Como citado por QED10: “Quando vou me trocar no vestiário, percebo que várias das mulheres me olham com desconforto, e já fui confrontada com uma reclamação por usar o vestiário feminino, logo me troco somente dentro da cabine”. Outro participante cisgênero mencionou que também presenciou situações semelhantes. Alguns participantes chegaram a cogitar o uso de banheiro para pessoas com deficiência (PcD) ou de cabines individuais como estratégia encontrada por essas pessoas para evitar novos confrontos.

A LGBTQIAPN+fobia também foi identificada no convívio entre os alunos. Relataram-se situações de omissão de ajuda, agressão física, estereotipagem e preconceito dentro da convivência universitária. As situações relatadas envolveram situações de violência psicológica, moral e até física: “Tomei um tapa megaforte na cara de um veterano, que depois descobri que é homofóbico. Na época denunciei ele e, ao invés de ser acolhido, eu fui mais agredido ainda porque tentaram me calar e me pintaram de vilão da história” (QED04).

O meio acadêmico e a diversidade sexual

As percepções sobre a interação entre o meio acadêmico e a diversidade sexual e de gênero dividiram-se entre questões sociais e acadêmicas. A maioria das respostas associaram o convívio social no ambiente acadêmico a uma conotação negativa, uma vez que esse ambiente foi descrito como problemático e reprodutor de violências, perpetuadas pela hierarquia. Além disso, os discursos reforçam a necessidade de melhoria entre a relação institucional e a população sexo e gênero diversa, visto que o tema é pouco discutido dentro da universidade. Tal lacuna foi apontada como uma justificativa para o sentimento de medo e a evitação por parte de alunos potencialmente causadora de prejuízos e desconfortos nesses acadêmicos. Apesar disso, uma pequena parcela dos participantes considerou que o ambiente universitário, ainda assim, é mais receptivo quando comparado com os ambientes externos à universidade.

[...] a faculdade é um ambiente até que bem receptivo à diversidade sexual, principalmente em comparação com a maioria dos ambientes externos a ela. [...] a questão de diversidade de gênero, apesar de continuar sendo melhor que o ambiente externo, ainda tenho muito receio com me assumir trans aqui dentro [...] (QED03).

A falta de espaços seguros para a comunidade LGBTQIAPN+ leva à repressão da expressividade, sendo o ambiente acadêmico, segundo alguns relatos, um replicador dessas barreiras. O medo de reações externas, como a demonstração de afetos em locais públicos e a preocupação com a aceitação familiar, também foi destacado. Os trechos que melhor descrevem esses acontecimentos são:

Eu sinto que a minha vida até o dia de hoje foi reprimida, em parte por mim mesmo. Eu sinto medo de me expressar na minha totalidade. Às vezes, é como se a minha adolescência tivesse começado agora (QED13).

Ainda tenho medo de demonstrar afeto com minha namorada em ambientes públicos quando estamos sem um ciclo de amigos/proteção por perto (QED05).

Apesar de pouco enfoque sobre aspectos acadêmicos, foi sintônica a impressão de que a inclusão da temática de diversidade sexual na formação médica é pouco abordada. Quando discutida, restringia-se a um grupo pequeno de disciplinas e de professores. O descaso e a falta de interesse foram relatados como reflexos da falta de preparo e de atualização do corpo docente em relação à temática. O material didático foi criticado por alguns participantes. Segundo alguns relatos, a abordagem da temática de diversidade sexual e de gênero reforça a visão estigmatizada das pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo das pessoas trans: “Vejo de certa forma um despreparo de docentes em diversas áreas relacionadas com a diversidade de gênero, e não é clara qualquer vontade por parte da docência em se capacitar a conhecer assuntos relacionados à diversidade” (QED12).

Motivações para a escolha do curso e perspectivas profissionais futuras

Com relação às expectativas profissionais, pontos como a expressão da sexualidade e do gênero tangenciaram assuntos como a empregabilidade, equiparidade de gênero e atuação profissional. A possibilidade de expressão da própria sexualidade foi apontada como algo que pode ser negativo na atuação profissional devido ao preconceito e estigma associados à população LGBTQIAPN+. A ocultação da orientação sexual, em pessoas cis, sobretudo masculinas, foi identificada como um fator protetor, embora limite a expressão da sexualidade. Como citado por QED15: “Acredito que como cis e não aparente [de orientação sexual não heterossexual], muitos pacientes que seriam causadores de problema irão apenas ignorar ou nem imaginar [...] no geral, vai ser tranquilo.”

Entre os instrumentos para evitar a necessidade de ocultação da própria sexualidade, destacou-se a busca por atuação em áreas com menor contato com o paciente ou em locais voltados para o atendimento à população da diversidade.

[...] a não ser que eu trabalhe em uma área da medicina com enfoque especial para a população LGBT, [...] eu dificilmente teria sucesso profissional independente de minha competência, pois a transfobia preponderante entre a classe médica seria um fator impeditivo (QED10).

Quanto à escolha da medicina como profissão, destacaram-se a empregabilidade e a segurança financeira como motivadores para escolha da carreira. Alguns relatos associam o “ser médico” a uma questão de destaque profissional, o que pode influenciar positivamente a empregabilidade e a aceitação social, familiar e pessoal. Observaram tais fatos nos seguintes relatos:

Minha expectativa era ser aceita dentro de casa, não ser mais um monstro para os meus pais (QED01).

[...] o principal motivo de eu ter escolhido Medicina no lugar de Letras, é porque eu sabia que teria menos chances de estar desempregada como médica do que como professora. [...] De qualquer forma, o estigma com pessoas trans existe em quase todas as profissões, e, se for pra eu sofrê-lo, sofrer na condição de médica não é a pior das opções [...] (QED03).

A expectativa de que o ambiente universitário fosse acolhedor e inclusivo foi relatada pela maioria dos participantes. A esperança de cursar Medicina em uma instituição de excelência em pesquisa e em saúde pública, a existência de um ambiente mais progressista e inclusivo, no qual haveria respeito mútuo entre corpo docente e o discente, e a liberdade para explorar a própria sexualidade foram pontos que reforçavam essa expectativa. Apesar disso, três participantes relataram que o ambiente universitário é machista, LGBTQIAPN+fóbico e conservador, e apontaram a necessidade de melhoria no acolhimento às pessoas LGBTQIAPN+.

Esperava um ambiente acadêmico de respeito mútuo entre docentes e alunos, e também de mentalidade mais progressista e inclusiva, pois espera-se que, em um ambiente de ciência e de tanta excelência da saúde pública, valores conservadores e ignorantes seriam pouco compatíveis. Porém, o conservadorismo da classe médica, em sua composição majoritária de homens de origem na elite econômica, que se mantém sistemática e estruturalmente em posições de poder, se sobrepõe a qualquer progressismo (QED06).

DISCUSSÃO

Este artigo descreveu as vivências de alunos sexo e gênero diversos matriculados no curso de Medicina de uma universidade pública. No geral, os relatos descreveram a universidade como um ambiente LGBTQIAPN+fóbico caracterizado por uma estrutura de ensino engessada que impõe barreiras à inclusão de pessoas diversas de sexo e gênero. Além disso, as falas frequentemente reforçam a ideia de que, para alguns alunos e professores, a diversidade sexual e de gênero é algo não natural e, portanto, patológica, além de apresentarem conteúdos que tangenciam situações de violência, reforçadas pelo conservadorismo, pelo machismo e por hierarquias de poder.

Entre os participantes, foram expostas inúmeras situações que envolvem a LGBTQIAPN+fobia, de constrangimento a relatos de violência física. Semelhantemente, um estudo realizado com estudantes de universidades espanholas mostrou que 61,2% dos participantes referiram vivenciar situações de violência contra pessoas LGBTQIAPN+. Entre os apontamentos, houve relatos de ocultamento da orientação sexual ou da identidade de gênero, de presenciar ou sofrer discriminação e comentários humilhantes, além de ataques psicológicos. Apesar disso, poucos estudantes (1,2%) referiram que as vítimas denunciaram os casos de violência às autoridades competentes12.

Por diversas vezes, os discursos que envolveram situações de violência e preconceito foram proferidos ou validados por professores e preceptores, o que reforça a visão conservadora e discriminatória que ainda existe dentro do curso de Medicina. Essa posição hierárquica de poder é responsável pela invisibilização e pelo silenciamento desses alunos ou mesmo de pacientes de sexo e gênero diversos por eles atendidos13. Alguns relatos também mencionaram a impunidade de alguns profissionais, o que é visto como mais um agravante perante as questões de LGBTQIAPN+fobia no curso de Medicina.

A ignorância em relação ao tema também reforça o desmazelo com esse assunto dentro da formação médica. Segundo os discursos, essa negligência em relação à temática associada à livre expressão das ideias preconceituosas de alguns docentes e veteranos naturaliza e valida a LGBTQIAPN+fobia dentro do ambiente universitário14)-(17.

Diante desses desafios, como estratégia para permanecer no ambiente universitário e mitigar situações de preconceito, alguns alunos referiram recorrer ao ocultamento da identidade ou masking. Esse conceito se caracteriza como a tentativa de as pessoas trans ou homossexuais esconderem sua real identidade de gênero ou orientação sexual, com o intuito de se encaixarem nas normas preestabelecidas18. Um estudo que também avaliou a vivência de alunos trans dentro do ambiente universitário identificou que estratégias como o masking são capazes de reduzir conflitos e promover menos risco de ataques à comunidade LGBTQIAPN+19),(20. Entretanto, é importante ressaltar que essa alternativa também reforça o sexismo e não promove evolução da discussão da temática da inclusão dessas pessoas no ambiente universitário.

Outro ponto de fragilidade apontado foi o receio associado à utilização de espaços físicos exclusivos de determinados gêneros, como banheiros. Segundo os relatos, esses locais são passíveis de hostilização, agressão e invalidação, o que faz com que pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo as pessoas trans, os evitem21)-(24. Recentemente, a FMRP-USP iniciou um processo de letramento nos banheiros por meio de placas informando que a pessoa é “livre para utilizar o banheiro de acordo com o gênero com o qual ela se identifica”, em consonância à Constituição Federal do Brasil de 198825. Outra estratégia adotada pela faculdade foi extinguir a distinção de gênero em banheiros de uso individual, uma estratégia já consagrada em universidades fora do país.

Apesar de a USP permitir a inclusão do nome social no cadastro de seus alunos, alguns relatos deste levantamento mostraram que ainda existem resistência e desrespeito ao seu uso no ambiente universitário. Embora o uso do nome social seja obrigatório nas instituições de ensino brasileiras desde 2015, até 2017 79 das 284 universidades públicas do país ainda não haviam aderido à possibilidade da sua utilização internamente26. Essa invalidação é uma das barreiras responsáveis pela não permanência das pessoas trans na universidade27. Além do uso do nome social, a utilização errônea de pronomes foi referida pelos participantes. Em algumas situações, as reivindicações de correção no uso foram tratadas de maneira jocosa e desrespeitosa por seus locutores.

Apesar das vivências negativas, havia uma expectativa de um ambiente acolhedor e inclusivo antes da entrada na universidade. Entretanto, observou-se que o elitismo ainda presente na medicina e a pressão social para a consolidação da cis-heteronormatividade no curso conflitaram diretamente com esse ambiente que deveria prezar o pensamento crítico e científico. Por diversas vezes, a violência manifestada até de maneira tênue se mostrou presente nos discursos, reforçando as mazelas sociais do mundo externo refletidas na universidade28)-(30. Uma pesquisa realizada em uma universidade federal do Sul do Brasil também identificou a percepção de violências simbólicas e distintas apesar da expectativa de que a intituição se apresentasse de forma diferente das experiências prévias nos ambientes familiar e escolar31.

As pessoas da comunidade LGBTQIAN+ têm sua competência julgada e pautada com base em sua identidade de gênero e orientação sexual, e não simplesmente em suas atividades acadêmicas, em seus rendimentos curricular e atitudinal2. A decisão de realizar graduação em Medicina foi descrita como tentativa de comprovar sua competência e se abster de vivências estigmatizadas e agressivas. Junqueira32 considera o processo de invisibilidade e de exclusão silenciosa uma das mais esmagadoras formas de opressão, com reflexos na limitação de espaços para a prática médica após a graduação dos estudantes LGBTQIAPN+.

A falta de temas relacionados à comunidade LGBTQIAPN+ dentro das matrizes curriculares nos cursos de Medicina leva ao despreparo dos profissionais de saúde em lidar com essa população e promove a manutenção da estigmatização dessas pessoas no ambiente universitário. Em média, destinam-se cinco horas ou menos do curso de Medicina ao estudo da medicina sexual, e tal discussão no geral foca a prevenção de IST e a prevenção de gestação não planejada9),(10. Os alunos que buscaram conhecimento sobre essa temática em atividades extracurriculares tiveram maior aptidão em demonstrar conforto, conhecimento e confiança no cuidado destinado a essa população, o que evidencia a necessidade da inclusão dessa temática nas matrizes curriculares33.

Em contraponto aos relatos, a FMRP-USP tem se apresentado aberta às capacitações e à inclusão no currículo do curso de Medicina das temáticas de gênero e orientação sexual. Por exemplo, o currículo das turmas anteriores a 2023 já possuía uma matéria optativa sobre saúde reprodutiva, sexualidade e gênero, com carga horária de 30 horas. O tema também faz parte da discussão da disciplina de saúde da mulher desde 2020 e, em 2023, foi incluído no eixo de saúde e comunidade34. Além disso, a presença da Comissão de Direitos Humanos (CDH), criada em 2016, e dos Centros de Inclusão e Pertencimento (CIP) e da Comissão Assessora de Inclusão e Pertencimento (Caip) tem importante papel no desenvolvimento de habilidade humanísticas para melhorar a inclusão de membros da comunidade acadêmica LGBTQIAPN+ e fornecer letramento aos profissionais ligados à faculdade. Tais medidas, indiretamente, podem resultar num futuro mais acolhedor para os estudantes, bem como uma futura melhor abordagem das populações LGBTQIAN+ no meio acadêmico35. Apesar disso, as mudanças, sobretudo da matriz curricular, afetam mais os alunos do que os preceptores e docentes, sendo o investimento no letramento e na capacitação desses profissionais uma necessidade adjacente a essa mudança.

CONCLUSÃO

Os alunos LGBTQIAPN+ relatam vivências de inúmeras situações de violência, sobretudo transfobia, no curso de Medicina e apontam lacunas no ensino e acolhimento das demandas dessa população. A impunidade e as estruturas hierárquicas foram apontadas como elementos reforçadores do preconceito.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à ex-aluna e fundadora da LAGSSex Stella Guilhermina Branco Fontanetti, médica trans, a iniciativa de abordar e questionar as estruturas curriculares e o preconceito institucional, que foram os pilares da construção deste artigo, e a toda comunidade LGBTQIAPN+ de alunos da FMRP-USP que aceitou participar deste estudo e expor suas vulnerabilidades durante esse processo.

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento. Research data is available in the body of the document.

Editado por

  • Editora-chefe: Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor associado: Gustavo Antonio Raimondi.

Disponibilidade de dados

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento. Research data is available in the body of the document.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Set 2024
  • Aceito
    27 Jun 2025
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