Open-access SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA: ANÁLISE FOUCAULTIANA DE RELATOS DE FAMILIARES E DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA OU VISUAL1,2

SEXUALITY AND DISABILITY: A FOUCAULDIAN ANALYSIS OF ACCOUNTS FROM FAMILY MEMBERS AND INDIVIDUALS WITH PHYSICAL OR VISUAL DISABILITIES

RESUMO

A sexualidade é uma dimensão essencial da vida humana, influenciada por fatores sociais, culturais, históricos e políticos, e vivida por pessoas com ou sem deficiência. Entretanto, pessoas com deficiência frequentemente enfrentam estereótipos e preconceitos que comprometem seus direitos afetivos e sexuais, sendo muitas vezes vistas como assexuadas, hipersexuais ou incapazes de estabelecer vínculos afetivos. Este estudo analisou as opiniões de pessoas com deficiência física ou visual e de familiares sobre estereótipos e preconceitos relacionados à sexualidade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa com dez participantes adultos, recrutados por amostragem em bola de neve. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, presenciais e online, organizados por análise de conteúdo temática e interpretados à luz da perspectiva foucaultiana. Os resultados evidenciaram capacitismo, assexualização, negação da maternidade e da paternidade, ausência de diálogo, barreiras familiares e sociais e escassez de programas e recursos educativos. Conclui-se que a sexualidade desses sujeitos permanece marcada por estereótipos e práticas capacitistas, indicando a necessidade de ações educativas e políticas inclusivas.

PALAVRAS-CHAVE:
Sexualidade; Pessoas com deficiência; Estereótipos; Preconceitos.

ABSTRACT

Sexuality is an essential dimension of human life, shaped by social, cultural, historical, and political factors, and experienced by individuals with or without disabilities. However, people with disabilities often face stereotypes and prejudice that undermine their affective and sexual rights, frequently being perceived as asexual, hypersexual, or incapable of establishing affective relationships. This study analyzed the views of individuals with physical or visual disabilities and their family members regarding stereotypes and prejudice related to sexuality. This is a qualitative study involving ten adult participants, recruited through snowball sampling. Data were collected through semi-structured interviews, conducted both in person and online, organized using thematic content analysis and interpreted through a Foucauldian perspective. The findings revealed ableism, asexualization, denial of motherhood and fatherhood, lack of dialogue, family and social barriers, and a scarcity of educational programs and resources. It is concluded that the sexuality of these individuals remains shaped by stereotypes and ableist practices, highlighting the need for educational actions and inclusive policies.

KEYWORDS:
Sexuality; People with disabilities; Stereotypes; Prejudices.

1 INTRODUÇÃO

A sexualidade é uma dimensão inerente ao ser humano, construída a partir das relações sociais, culturais, religiosas, históricas, econômicas e políticas, independentemente de se tratar de uma pessoa com ou sem deficiência (Strapazzon & Cesaro, 2021). Contudo, na sociedade contemporânea, pessoas com deficiência ainda enfrentam desafios relacionados à sua sexualidade, sendo consideradas assexuais, como se não tivessem sentimentos ou desejos sexuais (Gesser et al., 2020). Para esses autores, essa visão gera preconceitos que comprometem a plena expressão da sexualidade tanto de mulheres quanto de homens com deficiência.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018), em 2010, cerca de 46 milhões de brasileiros (quase 24% da população) apresentavam algum grau de dificuldade ou deficiência visual, auditiva, motora ou intelectual, o que reforça a importância de discutir direitos, inclusive os relacionados à sexualidade. O Estatuto da Pessoa com Deficiência define a deficiência como impedimento de longo prazo de ordem mental, física, sensorial ou intelectual que, quando associado a barreiras, pode limitar a participação plena na sociedade em condições de igualdade (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015).

Dessa forma, o conceito de deficiência intelectual aceito atualmente nas instituições educacionais fundamenta-se no sistema de classificação determinado pela Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimental (AAIDD), sendo caracterizado por limitações significativas tanto no funcionamento intelectual quanto no comportamento adaptativo, originadas antes dos 18 anos (Branco & Ciantelli, 2017). Os autores afirmam que o diagnóstico deve ser cuidadoso, considerando fatores biomédicos, sociais, comportamentais e educacionais, além do período de exposição a riscos.

A deficiência física é caracterizada como a alteração completa ou parcial em segmentos do corpo que comprometem a função física, manifestando-se em condições como monoplegia, paraplegia, tetraplegia e paraparesia, entre outras (Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004). Para Andrade e Araújo (2018), além dos aspectos físicos, é fundamental considerar a influência significativa que as interações sociais exercem na identificação da deficiência, conforme a Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF), que amplia a definição de deficiência ao incluir fatores sociais.

A deficiência visual caracteriza-se como uma forma de deficiência sensorial associada ao comprometimento da função visual. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019) evidencia que ela ocorre quando uma doença ocular afeta o sistema visual e compromete uma ou mais de suas funções. Além disso, a deficiência visual também deve ser compreendida considerando-se os fatores contextuais que interferem na experiência dessas pessoas. A OMS (2019) afirma que o acesso limitado ao atendimento oftalmológico, a ausência de recursos de apoio e as barreiras presentes no ambiente físico e social podem ampliar as limitações enfrentadas no cotidiano e dificultar a participação plena dessas pessoas em distintos espaços da vida social.

Ainda assim, pessoas com deficiência, incluindo deficiência intelectual, física e visual, possuem o direito à plena expressão de sua sexualidade. Para isso, é forçoso admitir a necessidade de haver um amparo apropriado que proporcione a essas pessoas acesso a informações relevantes, à educação sexual e a suporte emocional.

A história de lutas das pessoas com deficiência pelo reconhecimento de seus direitos e da inclusão social resultou em avanços significativos, como a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), que afirma que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, incluindo o direito ao casamento e à união estável, à sexualidade, à vida familiar e à responsabilidade legal (Lei nº 13.146, 2015). Contudo, dependendo do grau de comprometimento que a pessoa com deficiência intelectual apresenta, pode haver restrições, reforçando a necessidade de uma abordagem sensibilizadora e individualizada.

Além disso, o Poder Executivo brasileiro conta com a Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, anteriormente vinculada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (Serviços e Informações do Brasil, 2021); atualmente, suas competências estão integradas ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que é o encarregado de executar uma série de políticas voltadas a esse grupo.

Entretanto, esses direitos ainda não são plenamente respeitados, especialmente no que se refere à sexualidade. Alguns autores apontam que, diferentemente das pessoas sem deficiência, as mulheres que possuem impedimentos físicos são, culturalmente, vistas como incapazes de desempenhar papéis tradicionais, como esposa, mãe, dona de casa e trabalhadora (Gesser et al., 2020). Esses estereótipos podem limitar tanto a expressão da sexualidade quanto o exercício da maternidade.

Esse contexto resulta em uma sociedade capacitista, com perspectivas limitadoras e estigmatizantes sobre as pessoas com deficiência. Segundo Mello (2016), o capacitismo é uma forma de preconceito que estabelece hierarquia entre as pessoas com base na adequação, ou não, de seus corpos a um padrão normativo. Para a autora, essa perspectiva trata, de maneira generalizada, as pessoas com deficiência como incapazes de, por exemplo, amar, ser desejadas, cuidar, desejar e trabalhar.

Essa situação relaciona-se ao que Foucault (2014) discute sobre a natureza do dispositivo da sexualidade, uma extensa rede a partir da qual a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a produção de discursos, a construção de conhecimentos e o reforço de controles e de resistências se articulam segundo amplas estratégias de saber e poder.

Além disso, essa situação cria barreiras que afetam a vivência sexual e a forma como essas pessoas são percebidas, pois, no geral, elas são concebidas, por não se adequarem aos padrões normativos estabelecidos, como assexuadas, hipersexuais, pouco atraentes, anormais ou inférteis, reforçando preconceitos e estereótipos que limitam sua plena expressão sexual (Maia & Ribeiro, 2010). Essas representações impactam a expressão plena da sexualidade dessas pessoas.

Essas representações foram sendo construídas ao longo da história. Diniz (2007) afirma que a ideia de deficiência surgiu a partir de uma construção discursiva no século XVIII, na qual a deficiência passou a ser vista como uma variação do normal do ser humano. Para a autora, a partir dessa situação, ser uma pessoa com deficiência significava experienciar um corpo que não se encaixa no padrão socialmente determinado. Assim sendo, ao longo do tempo, a deficiência foi comparada a uma desvantagem natural.

O Modelo Biomédico, que surgiu após a Primeira Guerra Mundial, passou a dominar o campo dos estudos sobre as deficiências. A abordagem desse modelo entendia a deficiência como consequência natural de lesões no corpo, devendo ser tratada por meio de cuidados biomédicos (Diniz, 2007). Para a autora, embora os avanços biomédicos promovam melhorias no bem-estar das pessoas com ou sem deficiência, essa visão trata a deficiência como um problema individual, ignorando os aspectos sociais.

Diniz (2007) afirma que a Liga dos Lesados Físicos Contra a Segregação (UPIAS) foi uma das primeiras organizações políticas formadas por pessoas com deficiência a responder às demandas de Paul Hunt, que buscava entender o fenômeno sociológico da deficiência a partir do conceito de estigma do sociólogo Erving Goffman. Para a autora, a UPIAS passou a entendê-la não como problema do indivíduo, mas como questão social, marcada pela incapacidade da sociedade de lidar com a diversidade, diferentemente do Modelo Biomédico, que atribui à lesão a causa da deficiência.

Segundo Marafon e Piluso (2020), para os teóricos do Modelo Social, as desvantagens enfrentadas pelas pessoas com deficiência derivam mais das barreiras sociais do que das lesões; assim, com a retirada dessas barreiras, elas poderiam alcançar a independência. A análise foucaultiana se entrelaça a essa perspectiva ao evidenciar como o poder atua sobre as representações da deficiência e as práticas sociais.

No entanto, os autores afirmam que as teóricas feministas, muitas delas mães e cuidadoras, avançaram para a segunda geração do Modelo Social. Nela, incorporaram temas como o cuidado, a subjetividade, a dor, a dependência e a interdependência dos corpos. Destacam, ainda, que, além da opressão associada ao corpo com deficiência, há a intersecção de outros marcadores sociais de diferença que atuam como vetores (de aumento) das desigualdades sociais, como raça/etnia, classe, gênero, sexualidade, entre outros.

As teóricas criticaram a sobrevalorização da independência defendida pela primeira geração, vista como um ideal perverso para muitas pessoas com deficiência, especialmente aquelas com quadros graves, incapazes de vivenciar tal realidade, mesmo com a eliminação das barreiras sociais (Marafon & Piluso, 2020). Contudo, apesar dos avanços na compreensão da deficiência, ainda predomina a perspectiva do Modelo Biomédico.

Segundo Foucault (2014), vive-se em uma sociedade da sexualidade, em que os mecanismos de poder se voltam para a vida, atuando sobre a saúde, a vitalidade, a raça, a reprodução e o futuro da espécie, em outros termos, uma sociedade do biopoder e da biopolítica. Para o autor, a sexualidade passa a ser regulada como uma forma de controle social, vinculada ao saber científico, às normas e às práticas disciplinares que buscam ordenar os corpos e a vida em sociedade.

O Modelo Biomédico reflete a crítica produzida pela perspectiva foucaultiana do poder que se dirige aos corpos, considerando a deficiência como um problema individual a ser corrigido. A sexualidade dessas pessoas, por vezes, é vista por lentes normativas que apresentam ideias sobre o que é considerado aceitável e normal. Assim, o poder, neste caso, manifesta-se por meio do controle sobre corpos considerados diferentes e da imposição de normas sociais que restringem a expressão da sexualidade das pessoas com deficiência.

Devido à predominância da perspectiva do Modelo Biomédico, surgem estereótipos negativos e preconceitos sobre a sexualidade das pessoas com deficiência, podendo resultar na ideia de que essas pessoas precisam ser controladas ou até mesmo ter seus direitos negados, a fim de se adequarem aos padrões normativos. Disso decorre a limitação do direito à livre expressão da vida afetiva e sexual desses indivíduos. Diante disso, o objetivo desta pesquisa foi investigar opiniões de pessoas com deficiência física ou visual e de familiares de pessoas com deficiência acerca de estereótipos e preconceitos relacionados à sexualidade.

2 MÉTODO

O estudo foi desenvolvido no município de Uberaba, no estado de Minas Gerais (MG), em duas instituições voltadas ao atendimento de pessoas com deficiência, que desenvolvem atividades nas áreas de Educação, Reabilitação e Inclusão Social. Esses espaços constituem importantes locais de convivência e acesso a serviços para esse público. Além disso, a coleta de dados ocorreu entre os meses de junho e novembro de 2024, período em que foram realizadas entrevistas individuais, online e presenciais, com os participantes.

Na pesquisa, participaram dez adultos, sendo quatro familiares de pessoas com deficiência e seis pessoas com deficiência física ou visual. Foram considerados critérios de inclusão: ser residente do município de Uberaba/MG, ter idade igual ou superior a 18 anos e possuir disponibilidade para participar. No caso dos familiares, exigiu-se vínculo de parentesco ou convívio regular com pessoas com deficiência.

Para garantir o anonimato, os participantes foram identificados pela letra P, seguida de numeração sequencial (P1 a P10), conforme a ordem das entrevistas. Esse procedimento preservou o anonimato durante as etapas de transcrição, análise e apresentação dos resultados. Para caracterizar os participantes familiares, ou seja, os familiares de pessoas com deficiência, organizou-se o Quadro 1, com informações sociodemográficas, como idade, gênero, vínculo familiar, estado civil, escolaridade, renda e profissão.

Quadro 1
Perfil sociodemográfico dos familiares de pessoas com deficiência

Observa-se que todas as participantes familiares são mulheres, com idades entre 54 e 61 anos. Entre elas, duas mães têm filhos com deficiência física, uma mãe tem filho com deficiência visual e a tia tem um sobrinho com deficiência visual. Quanto à raça/etnia, uma participante se autodeclara preta, duas, pardas, e uma, indígena. O estado civil apresenta variação, com duas solteiras, uma casada e uma divorciada.

Em termos de escolaridade, uma participante possui Ensino Fundamental incompleto, uma possui Ensino Médio completo e duas possuem Ensino Superior completo. A renda individual concentra-se entre um e dois salários-mínimos, enquanto a renda familiar varia entre um e quatro salários-mínimos. As ocupações declaradas incluem duas participantes aposentadas, uma dona de casa e uma funcionária pública.

Da mesma forma, o Quadro 2 apresenta o perfil sociodemográfico das pessoas com deficiência participantes do estudo, detalhando idade, gênero, tipo de deficiência, estado civil, escolaridade, renda e profissão.

Quadro 2
Perfil sociodemográfico das pessoas com deficiência

Entre os participantes com deficiência, a faixa etária variou entre 35 e 58 anos, sendo quatro mulheres e dois homens. Três participantes apresentavam deficiência visual, e três, deficiência física. Quanto à raça/etnia, os participantes se autodeclararam brancos e pretos. O estado civil inclui três participantes solteiros, além de dois casados e um divorciado. Em termos de escolaridade, três participantes possuem Ensino Superior completo, uma possui Ensino Médio completo, uma possui Ensino Superior incompleto e um possui Ensino Fundamental incompleto.

Em relação à renda individual, três participantes relataram receber entre um e dois salários-mínimos, enquanto dois informaram renda entre dois e três salários-mínimos. A renda familiar variou entre um e quatro salários-mínimos, com maior frequência nas faixas de um a dois e de dois a três salários-mínimos. Apenas um participante não quis informar sua renda individual e familiar. Quanto à ocupação, dois participantes são aposentados, uma é doméstica, uma é atleta, um atua como instrutor de informática e diretor jurídico, e uma participante não possuía ocupação no momento da entrevista.

O recrutamento ocorreu por meio da técnica de amostragem em bola de neve, na qual o pesquisador começa com pessoas ou fontes iniciais de informação (originárias de sua rede de contatos), que ajudam a identificar pessoas com o perfil desejado e que, por sua vez, indicam novos contatos, ampliando gradualmente a amostra (Vinuto, 2014). O tamanho da amostra foi definido pelo critério de saturação dos dados, isto é, os conteúdos da coleta são periodicamente avaliados pelos pesquisadores, e a coleta é interrompida quando não surgem novas informações relevantes para o fenômeno estudado (Nascimento et al., 2018).

Assim sendo, as entrevistas, com autorização prévia dos participantes, foram gravadas e transcritas. Cada entrevista foi analisada individualmente antes da análise da entrevista seguinte. Na primeira entrevista, foram identificadas as primeiras informações significativas e, em seguida, as demais entrevistas foram analisadas para reconhecer tanto novos elementos quanto confirmar aspectos já mencionados por participantes anteriores. Esse processo foi repetido até se atingir a saturação em cada um dos quatro temas propostos no roteiro. A saturação dos quatro temas ocorreu na nona entrevista, quando nenhuma informação nova foi identificada. Optou-se por não realizar novas entrevistas, pois os dados coletados eram suficientes para atender aos objetivos do estudo.

Após a finalização da coleta, os dados foram organizados a partir da análise temática. Segundo Souza (2019), esse procedimento qualitativo possibilita identificar padrões e temas recorrentes no conjunto de dados. A análise seguiu uma abordagem indutiva, sem definição prévia de temas, que surgiram ao longo da análise das entrevistas. O processo ocorreu em etapas: inicialmente, cada entrevista foi lida cuidadosamente para identificar padrões e temas recorrentes; em seguida, foram criados códigos iniciais representando temas relevantes para o estudo. Depois, buscaram-se relações e padrões entre os códigos para agrupá-los em temas mais amplos, essenciais para a compreensão dos dados.

Esses temas foram revisados para garantir coerência entre os dados, resultando em quatro temas principais, analisados e relacionados aos objetivos da pesquisa. Os temas identificados foram: (1) Preconceitos e estereótipos; (2) Comunicação no círculo social; (3) Barreiras; e (4) Recursos de apoio e educação sexual. Essa organização foi analisada à luz de argumentos propostos por Foucault (2014) sobre a relação entre poder e sexualidade.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (CEP/UFTM), sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 77937024.3.0000.5154, Parecer n° 6.801.620, aprovado em 3 de maio de 2024. O estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução n° 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que regulamenta pesquisas em Ciências Humanas e Sociais envolvendo seres humanos.

Antes da realização das entrevistas, os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa, os procedimentos metodológicos e o caráter voluntário de sua participação. Após os esclarecimentos, aqueles que concordaram em participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram adotadas medidas para assegurar a confidencialidade das informações e a proteção da identidade dos participantes. Para esse fim, os participantes foram identificados por meio de códigos alfanuméricos. As entrevistas foram realizadas em ambientes reservados, garantindo privacidade durante a coleta de dados, e as perguntas foram elaboradas levando em consideração aspectos éticos, sociais e culturais, respeitando os valores individuais de cada participante.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

O tema “Preconceitos e estereótipos” reúne relatos relacionados ao capacitismo, ao preconceito associado à maternidade e à paternidade de pessoas com deficiência, à ideia de assexualidade e aos impactos do preconceito na autoestima e na vivência da sexualidade. O tema “Comunicação no círculo social” aborda a ausência de diálogo sobre a sexualidade da pessoa com deficiência em sua comunidade. O tema “Barreiras” contempla experiências que evidenciam diferentes obstáculos à vivência da sexualidade, incluindo barreiras atitudinais e familiares. Por fim, o tema “Recursos de apoio e educação sexual” reúne relatos sobre a falta de informações e a insuficiência ou pouca divulgação de programas e recursos, indicando a necessidade de ampliar iniciativas de educação e conscientização sobre a sexualidade das pessoas com deficiência.

3.1 PReconceitoS e eSteReótiPoS

Na temática “Preconceitos e estereótipos”, surgiram relatos que evidenciam a presença do capacitismo, sobretudo em relação à vida afetiva e sexual das pessoas com deficiência. Um exemplo aparece na resposta de uma mãe, ao ser questionada se já havia ouvido algum comentário relacionado à sexualidade de seu filho com deficiência visual:

Já, já vi. Falam: “Nossa, ele é tão bonito, mas não enxerga. Ele não é capaz de namorar, nem casar, só pela deficiência.” E meu filho, ele é muito bonito. Quer dizer, eu, como mãe, acho muito bonito. (P1, 54 anos)

O comentário mostra como o capacitismo não atua apenas como forma de preconceito, mas como um dispositivo social que regula e exclui o sujeito em diversos contextos, entre eles, o da sexualidade. Essa exclusão se relaciona ao que Foucault (2014) chama de dispositivo da sexualidade, que não é apenas repressivo, mas também produtivo: produz discursos, molda comportamentos e constrói subjetividades. Por meio desses discursos normativos, ainda que provoquem assimetrias de poder, define-se o que é considerado sexualmente normal na sociedade.

Essa perspectiva se alinha à compreensão do capacitismo como forma de preconceito que hierarquiza as pessoas com base na adequação de seus corpos aos padrões de normalidade (Mello, 2016). Para a autora, trata-se de uma atitude discriminatória que generaliza as pessoas com deficiência como incapazes de trabalhar, amar, cuidar ou viver sua sexualidade, aproximando-se de outras formas de discriminação, como o racismo e o sexismo. Essa compreensão aparece no relato da participante P1, em que a deficiência é utilizada como justificativa para negar ao sujeito o direito de se envolver afetiva e sexualmente, revelando a naturalização do preconceito ao pressupor que a deficiência compromete a funcionalidade física e a capacidade de vivenciar relações humanas. Outro tema evidenciado foi o preconceito relacionado à parentalidade. Esse aspecto surgiu no relato de uma participante, ao ser questionada sobre a existência de estereótipos ligados à sexualidade de pessoas com deficiência:

Sim, comentários sempre tem. Igual aqui mesmo, já aconteceu dos dois serem cegos e ela engravidou, e a criança nasceu normal. Então, antes da criança nascer, tinham vários comentários: “Nossa, como ela vai conseguir cuidar? Porque não enxerga”. Sempre tem os comentários. Mesmo se forem dois, no caso, os dois com deficiência, para as pessoas está tudo bem. Agora, se um enxerga perfeitamente e o outro não, sempre vai ter comentários. (P5, 35 anos)

O preconceito enfrentado por pessoas com deficiência na parentalidade evidencia como o poder atua sobre os corpos por meio de normas que regulam a vida. Foucault (2014) aponta a transição de um poder centrado na morte, típico das monarquias e dos Estados soberanos, para um novo tipo de poder que atua sobre a vida, regulando-a: o biopoder, que se manifesta por meio de instituições e práticas que administram a existência humana, controlando a saúde, a reprodução, a longevidade e a organização dos corpos. Dessa maneira, não se trata mais de impor a morte, mas de organizar a vida de forma normalizada e produtiva.

Nesse contexto, a sexualidade, a capacidade de gerar filhos e o exercício da parentalidade tornam-se campos regulados por saberes que classificam, hierarquizam e normatizam os corpos. No relato da participante P5, essa lógica se evidencia, pois não se trata apenas de uma opinião pessoal, mas da manifestação de um discurso social que mede a legitimidade da maternidade pela capacidade funcional do corpo.

O estereótipo da assexualidade também foi abordado nos relatos, configurando a percepção de que pessoas com deficiência seriam desprovidas de desejo ou interesse sexual. Esse aspecto pode ser ilustrado pelo relato da participante P10, ao ser questionada sobre a existência de estereótipos relacionados à sexualidade das pessoas com deficiência:

Existe, porque até em forma de piada, as pessoas quando vão, como meus colegas falam, quando eles vão arrumar namorada, a primeira coisa que elas perguntam é se eles funcionam, a parte sexual. Porque as pessoas acham que deficiente não tem libido, não tem sexualidade. Isso é um tabu, porque a gente tem muito libido, sim, muito a sexualidade aflorada, tudo certinho. (P10, 49 anos)

Para entender melhor essa questão, é importante considerar que os estereótipos funcionam como “esquemas que concernem especificamente os atributos pessoais que caracterizam os membros de um determinado grupo (...). Eles são considerados como resultantes de processos de simplificação próprios ao pensamento do senso comum” (Jodelet, 2001, p. 59). Essa definição mostra que o estereótipo sobre a sexualidade das pessoas com deficiência é uma construção coletiva que simplifica a complexidade das experiências individuais e desconsidera a diversidade de vivências desse grupo.

Além disso, com base na perspectiva foucaultiana, a sexualidade pode ser entendida como um dispositivo, ou seja, uma série de mecanismos de controle e organização dos corpos e dos desejos, moldados por discursos de poder, saber e normas sociais. No relato, ao denunciar o estereótipo de que pessoas com deficiência são desprovidas de desejo ou capacidade sexual, vê-se o efeito direto desse dispositivo: a norma que associa a sexualidade à funcionalidade corporal, excluindo corpos considerados desviantes do campo do desejo legítimo.

Outro ponto relevante refere-se ao impacto do preconceito na autoestima e na sexualidade. Um participante relatou:

O preconceito existe. Ele nunca vai acabar, de certa forma. Até o próprio deficiente fica meio estagnado, com medo. Mas quando começam a acontecer as coisas, ele começa a acreditar no seu próprio potencial. Mas, caso contrário, uma ou outra vez a gente sempre conversa, como no ônibus. Tem aquele preconceito, aquele medo. O preconceito de “será que ela vai me querer só porque estou na cadeira de rodas?”. Então, tem todo esse julgamento preconceituoso. Às vezes, a própria esposa acaba abandonando o marido no meio do casamento, quando ele fica cinco, seis meses ou até mais tempo sem progredir no sexo. Às vezes, a mulher acaba largando, ou vice-versa também. (P8, 45 anos)

A fala revela como o preconceito relacionado à deficiência impacta a autoestima e a vivência da sexualidade, sobretudo pelo medo do julgamento e da rejeição. Para Foucault (2014), desde o século XVIII a sexualidade passou a ser objeto de intensa administração, não apenas por meio da repressão, mas por meio de uma série de dispositivos de poder que produzem verdades, consideradas científicas e, portanto, mais verdadeiras, sobre os corpos e seus desejos. Quem não se encaixa nesses padrões, como pessoas com deficiência, por vezes é tratado como desviante, sendo excluído em diferentes contextos, como o da sexualidade. Portanto, a perspectiva foucaultiana mostra que a exclusão relatada não se origina da deficiência, mas sim de como o corpo deficiente é enquadrado por discursos normativos sobre a sexualidade. Assim, o medo de não ser desejado e a experiência de rejeição são efeitos de um sistema que associa capacidade sexual a um ideal de corpo.

3.2 COMUNICAÇÃO NO CÍRCULO SOCIAL

No eixo temático “Comunicação no círculo social”, emergiram relatos que indicam que a sexualidade da pessoa com deficiência frequentemente não é um tema de discussão em suas comunidades ou círculos sociais. Uma participante relatou de forma sucinta: “Não, ninguém fala nisso.” (P1, 54 anos). Outro relato acrescentou que, quando o assunto surge, ocorre de maneira superficial: “Não, falamos sobre isso em rodinhas de amigos, contando brincadeiras, essas coisas. Agora, contando mais sério, não” (P10, 49 anos).

Esses relatos indicam a ausência de espaço legítimo para a discussão da sexualidade das pessoas com deficiência em seus círculos sociais. Para Foucault (2014, p. 31), “não existe um só, mas muitos silêncios, e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os discursos”. Em outras palavras, o silêncio não é apenas um vazio, mas uma ferramenta ativa de produção de sentidos e de práticas que organiza quem tem o direito de falar, sobre o quê, em que momento e de que maneira.

No caso das participantes, o silêncio que envolve a sexualidade da pessoa com deficiência não é apenas ausência de fala. Ele funciona como uma forma de controle social, que determina quem pode falar sobre sexualidade e quais corpos são reconhecidos como dignos nesse discurso. Assim, o corpo com deficiência acaba não sendo reconhecido, não pela ausência de desejo, mas porque a estrutura social dominante não sabe, ou não quer, reconhecê-lo como inteiro, que sente, ama, deseja e tem o direito de viver sua sexualidade.

O relato da participante P10 revela que, mesmo quando o assunto é abordado, ele costuma ser tratado de forma superficial. No entanto, esse tipo de abordagem, mesmo parecendo inofensiva, contribui para a desvalorização dessas experiências e desses sujeitos, negando às pessoas com deficiência o direito de vivenciar e expressar sua sexualidade.

3.3 BARREIRAS

No eixo temático “Barreiras”, os participantes relataram diversas dificuldades das pessoas com deficiência na expressão de sua sexualidade. Uma mãe de uma filha com deficiência física destacou:

Medo, preconceito, vergonha... medo de ser taxado com algum tipo de coisa pejorativa. Hoje em dia, esse assunto é muito fechado, né? Para qualquer nível de discussão ou mesmo de classe social. Está muito difícil hoje. E é por isso que existem esses índices de abuso e gravidez - falta mesmo conhecimento e uma abordagem adequada nesse assunto. (P4, 61 anos)

O relato da participante ilustra questões como medo, vergonha e preconceito, que decorrem da resistência da sociedade em discutir abertamente a sexualidade de pessoas com deficiência, independentemente da classe social. Essa resistência contribui para a desinformação, a ausência de abordagens adequadas e uma maior vulnerabilidade diante de situações como abuso e gravidez indesejada, entre outras.

Essas barreiras refletem, segundo Maia (2006), a dificuldade da sociedade em aceitar a sexualidade de pessoas com deficiência, associando-a apenas ao ato sexual genital, desconsiderando outras dimensões, como o desejo, o afeto e o direito de amar e ser amado. Para a autora, corpos fora dos padrões de normalidade, como os das pessoas com deficiência, são cercados por tabus, mitos e proibições que negam sua humanidade.

Novamente, o depoimento mostra os efeitos concretos do que Foucault (2014) denominou dispositivo da sexualidade, entendido não como uma simples repressão da sexualidade, mas como uma complexa operação de poder que multiplica discursos sobre o sexo, normatizando-o, a partir dos discursos médicos e pedagógicos, e controlando-o por meio dos discursos jurídicos e dos sistemas de vigilância, na maneira como ele pode ser vivenciado.

Além disso, ao ser questionada sobre o papel dos pais, se colaboram, ajudam ou reproduzem preconceitos em relação à sexualidade das pessoas com deficiência, a participante respondeu:

Tem preconceito também porque começa dentro de casa, né? Eu mesma me coloco dentro desse grupo porque não tenho o costume, sou muito reservada de estar falando a respeito disso. Mas, assim, é até comodismo, né? Porque a gente não tem o problema para estar resolvendo; quando surge, a gente corre atrás do prejuízo. (P4, 61 anos)

O depoimento evidencia como o silêncio das famílias sobre a sexualidade das pessoas com deficiência contribui para a reprodução de preconceitos. A omissão, mesmo que não intencional, reflete um desconforto social internalizado, que encontra na família seu ponto de origem e reforço. Foucault (2014) afirma que a família é o espaço no qual o dispositivo de aliança, formação dos laços e dos parentescos, e o dispositivo da sexualidade se encontram, sendo tanto o lugar de regulação das normas sociais e jurídicas quanto de controle e disciplinamento da sexualidade.

Dessa forma, a perspectiva foucaultiana mostra como esse não dito das/nas famílias reproduz formas de exclusão e normatização da sexualidade, sobretudo para as pessoas com deficiência, cujos desejos muitas vezes permanecem invisibilizados na estrutura/dinâmica familiar. A família atua não só como espaço de afetos, mas também como mediadora de um regime moral que sobrepõe o silêncio, a postergação e a invisibilidade, contribuindo para a manutenção de estigmas e de discursos ausentes sobre a sexualidade dessas pessoas.

Outro relato reforça essa realidade. Uma mãe compartilhou uma experiência observada em seu convívio social, evidenciando a interferência dos pais na vivência afetiva da filha com deficiência visual. Ela relatou o seguinte episódio:

É, os pais proíbem porque acham que só vai dar problemas, que só vai estragar a vida dela [da filha]. Eles começaram a ter um relacionamento, e ela falou isso... que a mãe disse que vai estragar e proibiu. Teve até... parece que ela chegou a vir conversar com eles para não ter, de forma alguma, contato. E eles se gostam; não fazem nada, sentam um ao lado do outro e conversam, gostam um do outro. Acho bonito isso, sabe? Que, às vezes, acho que nem se beijam, porque aqui não tem condições para isso, é um lugar aberto, né? Mas percebo que eles se gostam, mas não têm esse contato. Não que aqui impeça, mas percebo que há uma barreira muito grande entre eles. (P3, 57 anos)

Esse relato exemplifica como a família atua como um permutador entre a sexualidade e a aliança; é, assim, o espaço em que as normas sociais, jurídicas e afetivas se entrelaçam e se regulam (Foucault, 2014). A intervenção dos pais, ao proibirem a filha de viver seu relacionamento afetivo, reflete exatamente essa dinâmica. A sexualidade, nesse contexto, deixa de ser uma vivência exclusiva do sujeito e se torna um elemento que a família, como instituição, controla e orienta, impondo normas e regras sociais.

Outro aspecto destacado pelos participantes, em relação às barreiras que as pessoas com deficiência enfrentam na expressão de sua sexualidade, é a barreira atitudinal (comportamentos, preconceitos e julgamentos por parte da sociedade), como apontado por uma participante: “Eu acredito que as atitudinais, as barreiras atitudinais, são o grande empecilho aí. Dessa questão de as pessoas colocarem a pessoa com deficiência como ninguém” (P9, 38 anos).

O relato da participante revela como o poder atua na maneira como as pessoas são vistas e reconhecidas socialmente. Quando a sexualidade das pessoas com deficiência é negada, isso é reflexo de um sistema que define quem pode ou não ser considerado sujeito de desejo. Trata-se de um dos aspectos do dispositivo da sexualidade descrito por Foucault (2014), um conjunto de práticas e discursos que não só reprime o desejo, mas, ao contrário, o produz, organiza e regula.

No entanto, essa produção não é homogênea, pois depende da normatização dos corpos e dos desejos: aqueles que fogem à lógica da sexualidade funcional, produtiva e heteronormativa são, muitas vezes, absorvidos por esse dispositivo como alvos preferenciais de controle e regulação ou, então, tratados como desviantes. Assim, a barreira atitudinal apontada pela participante revela o silenciamento promovido pelo dispositivo da sexualidade que, ao mesmo tempo em que estimula os discursos sobre o sexo, seleciona quais corpos serão erotizados, cuidados e reconhecidos, e quais serão excluídos ou infantilizados.

3.4 RECURSOS DE APOIO E EDUCAÇÃO SEXUAL

No eixo temático “Recursos de Apoio e Educação Sexual”, surgiram relatos que indicam a ausência de recursos, informações ou programas suficientes para abordar adequadamente a sexualidade das pessoas com deficiência. Um exemplo dessa percepção é apresentado por P8:

Nunca ouvi falar. A gente até vê vários discursos. Você vê discursos sobre bissexual, trans [gênero], negros, e do deficiente, mas, quando falam da parte da sexualidade, o povo pula essa parte. Tem aquele receio, preconceito, ou acham que a gente não faz. Então, é a primeira vez que estou fazendo essa pesquisa com você. Talvez possa mudar alguma coisa, porque estou com 26 anos de acidente, e nunca ouvi essa parte [sexualidade]. Tinha assim quando eu andava e lembrava que na escola falava da parte sexual, questão da AIDS e doenças sexuais, mas, para pessoas com deficiência, nunca ouvi. (P8, 45 anos)

O relato mostra a carência de espaços e iniciativas voltados à orientação e ao acesso à informação sobre sexualidade. Essa lacuna reflete, em grande parte, um conjunto de atitudes sociais, como o “preconceito, desinformação, discriminação, inabilidade, falta de educação sexual familiar, descrédito na capacidade de deficientes em expressar sentimentos e desejos sexuais” (Maia, 2006, p. 34). Nesse sentido, o participante destaca que, mesmo após 26 anos do acidente que resultou em sua deficiência, nunca teve acesso a informações ou discussões relacionadas à sexualidade de pessoas com deficiência, revelando uma profunda lacuna de informação, diálogo e orientação.

Para Foucault (2014), a sexualidade não é apenas uma questão individual (biopoder), mas uma prática social e discursiva que é produzida e regulada por dispositivos de poder que operam ao longo da história e que atingem/organizam o conjunto da população (biopolítica). Assim, a falta de recursos e o silêncio em relação à sexualidade das pessoas com deficiência, evidenciados nas respostas dos participantes, são mecanismos de poder que silenciam essas vozes, tornando-as inaudíveis. Esse silêncio impede que essas pessoas sejam vistas como sujeitos de desejo e de plenos direitos, negando-lhes o reconhecimento de sua humanidade.

Também surgiram relatos que mencionam a existência de recursos e programas sobre a sexualidade de pessoas com deficiência. Contudo, esses recursos foram descritos como insuficientes ou pouco divulgados, não atendendo plenamente às necessidades desse público, como revela o relato de uma das participantes:

Eu acho que ainda falta muita coisa. A maioria dos meninos que eu conheço entende e conseguiu trabalhar essa parte porque teve a oportunidade de estar no Sarah, né? O [hospital] Sarah Kubitschek, que é uma das referências em reabilitação. Lá, eles conseguem ter essa informação, mas eu acho que deveria ter mais. (P10, 49 anos)

O relato destaca que o acesso ao conhecimento sobre o tema é restrito a contextos específicos, como o Hospital Sarah Kubitschek, referência em reabilitação. Essa realidade dialoga com o argumento de Maia (2006), de que as principais barreiras à sexualidade das pessoas com deficiência estão na ausência de recursos educacionais e serviços adequados, além de destacar que esse grupo é diverso e não deve ser tratado de forma homogênea.

Mais do que uma limitação estrutural ou institucional, trata-se de um efeito discursivo com consequências para as práticas, como aponta Foucault (2014). Não se deve estabelecer uma divisão binária entre o que é dito e o que não é dito; é necessário investigar as diversas formas de silêncio: quem pode ou não falar, quais discursos são autorizados e que tipos de discrição são exigidos de diferentes grupos. Esses silêncios atuam como múltiplas estratégias que sustentam e permeiam os discursos e configuram dinâmicas de poder e saber. Assim, a ausência de programas e recursos sobre a sexualidade de pessoas com deficiência não é mero descaso, mas sim um controle discursivo que reforça sua invisibilidade e exclusão.

Diante da ausência de recursos e programas sobre a sexualidade das pessoas com deficiência, os participantes foram questionados sobre como melhorar essa situação. Um participante destacou a necessidade de iniciativas institucionais e de políticas públicas voltadas a esse tema:

É, para isso, tem que criar programas, mas também tem que ter o incentivo do poder público. Tem que ter apoio, senão, não vai. Eu acho que, para isso, a pessoa com deficiência vai ter que ser mais inserida na sociedade, buscar mais também, buscar se locomover mais, ser mais independente. (P7, 38 anos)

Outra resposta reforça a importância da informação e da saúde:

Como nós vivemos em um mundo totalmente digital e você tem informações na palma da mão, acredito que deveria ter programas, né? Principalmente de saúde, porque sexualidade é saúde. E que falassem mais sobre isso. Falar abertamente. Por que não falam sobre tudo? Por que não podem abordar temas assim que é tão importante quanto para a saúde da pessoa? (P10, 49 anos)

As respostas evidenciam a demanda por visibilidade, inclusão e acesso à informação sobre a sexualidade das pessoas com deficiência. Sob a perspectiva de Foucault (2014), essas falas denunciam não apenas a escassez de políticas públicas ou de programas específicos, mas também revelam como o silêncio em torno da sexualidade desse grupo é construído e mantido como estratégia de poder. Assim, as falas dos participantes apontam a necessidade de uma nova abordagem que compreenda a sexualidade dessas pessoas não apenas como uma questão de saúde, mas como um direito a ser respeitado e promovido nas práticas e nos discursos de poder.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As perspectivas dos participantes, pessoas com deficiência física ou visual e familiares, evidenciam que a sexualidade dessas pessoas é marcada por práticas e discursos capacitistas, sustentados por estereótipos que as percebem como assexuadas ou incapazes de estabelecer relações afetivas e/ou sexuais. Nos relatos, identificaram-se barreiras atitudinais e familiares que restringem a vivência da sexualidade, além de um silêncio social persistente, presente nos círculos sociais e no ambiente familiar. Esse silêncio, aliado à superficialidade com que o tema é tratado, reforça preconceitos, nega direitos e inviabiliza desejos.

Observou-se também a escassez de programas, recursos e informações voltados à sexualidade das pessoas com deficiência. Quando existentes, são pouco divulgados e restritos a contextos específicos, como instituições especializadas, evidenciando um cenário de invisibilidade e exclusão que, à luz da perspectiva foucaultiana, configura mecanismos de poder que regulam corpos e desejos.

Dentre os limites desta pesquisa, é preciso destacar que o estudo contou com dez participantes residentes em Uberaba/MG, número reduzido que indica que outras pessoas com deficiência, especialmente com deficiência intelectual, transtorno do espectro autista (TEA), deficiências múltiplas ou síndromes, podem apresentar percepções diferentes. Da mesma forma, questões interseccionais, como gênero, raça e geração, não foram exploradas, mas podem ser relevantes em estudos futuros. Apesar dessas limitações, o estudo contribui para a compreensão da sexualidade de pessoas com deficiência física ou visual e de familiares, articulando o referencial foucaultiano e oferecendo subsídios para repensar políticas públicas, práticas sociais e processos educativos.

  • 2
    Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica nas Ações Afirmativas (PIBIC-Af).
  • Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica nas Ações Afirmativas (PIBIC-Af).

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que deu suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

REFERÊNCIAS

  • Andrade, M. M. A., & Araújo, R. C. T. (2018). Características de alunos com deficiência física na percepção de seus professores: Um estudo sob os parâmetros conceituais da classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde. Revista Brasileira de Educação Especial, 24(1), 3-16. https://doi.org/10.1590/s1413-65382418000100002
    » https://doi.org/10.1590/s1413-65382418000100002
  • Branco, A. P. S. C., & Ciantelli, A. P. C. (2017). Interações familiares e deficiência intelectual: Uma revisão de literatura. Pensando Famílias, 21(2), 149-166. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2017000200012&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2017000200012&lng=pt&tlng=pt
  • Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004. (2004). Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5296.htm
    » https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5296.htm
  • Diniz, D. (2007). O que é deficiência?. Brasiliense.
  • Foucault, M. (2014). História da sexualidade I: a vontade de saber Paz & Terra.
  • Gesser, M., Block, P., & Mello, A. G. (2020). Estudos da deficiência: Interseccionalidade, anticapacitismo e emancipação social. In M. Gesser, G. L. K. Böck, & P. H. Lopes (Orgs.), Estudos da deficiência: anticapacitismo e emancipação social (1ª ed., pp. 17-29). CRV. https://doi.org/10.24824/978655868467.1
    » https://doi.org/10.24824/978655868467.1
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2018). Censo Demográfico 2010. Nota técnica 01/2018. Releitura dos dados de pessoas com deficiência no Censo Demográfico 2010 à luz das recomendações do Grupo de Washington IBGE. https://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/metodologia/notas_tecnicas/nota_tecnica_2018_01_censo2010.pdf
    » https://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/metodologia/notas_tecnicas/nota_tecnica_2018_01_censo2010.pdf
  • Jodelet, D. (2001). Os processos psicossociais da exclusão. In B. Sawaia (Org.), As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social (1ª ed., pp. 53-66). Vozes.
  • Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (2015). Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20152018/2015/lei/l13146.htm
    » https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20152018/2015/lei/l13146.htm
  • Maia, A. C. B. (2006). Sexualidade e deficiências Editora Unesp.
  • Maia, A. C. B., & Ribeiro, P. R. M. (2010). Desfazendo mitos para minimizar o preconceito sobre a sexualidade de pessoas com deficiências. Revista Brasileira de Educação Especial, 16(2), 159-176. https://doi.org/10.1590/S1413-65382010000200002
    » https://doi.org/10.1590/S1413-65382010000200002
  • Marafon, G., & Piluso, R. (2020). Deficiência, mulheres e a dimensão do cuidado: compreensões das interseções em relações jurídico-sociais aplicadas. Teoria Jurídica Contemporânea, 5(1), 110-134. https://doi.org/10.21875/tjc.v5i1.27991
    » https://doi.org/10.21875/tjc.v5i1.27991
  • Mello, A. G. (2016). Deficiência, incapacidade e vulnerabilidade: do capacitismo ou a preeminência capacitista e biomédica do Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC. Ciência & Saúde Coletiva, 21(10), 3265-3276. https://doi.org/10.1590/1413-812320152110.07792016
    » https://doi.org/10.1590/1413-812320152110.07792016
  • Nascimento, L. C. N., Souza, T. V., Oliveira, I. C. S., Moraes, J. R. M. M., Aguiar, R. C. B., & Silva, L. F. (2018). Theoretical saturation in qualitative research: an experience report in interview with schoolchildren. Revista Brasileira de Enfermagem, 71(1), 228-233. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0616
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0616
  • Organização Mundial da Saúde. (2019). Relatório mundial sobre a visão OMS. https://www.who.int/publications/i/item/world-report-on-vision
    » https://www.who.int/publications/i/item/world-report-on-vision
  • Resolução n° 510, de 7 de abril de 2016 (2016). Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-ainformacao/atos-normativos/resolucoes/2016/resolucao-no-510.pdf/view
    » https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-ainformacao/atos-normativos/resolucoes/2016/resolucao-no-510.pdf/view
  • Serviços e Informações do Brasil. (2021, 27 de setembro). Políticas públicas levam acessibilidade e autonomia para pessoas com deficiência. Gov.br https://www.gov.br/pt-br/noticias/assistenciasocial/2021/09/politicas-publicas-levam-acessibilidade-e-autonomia-para-pessoas-com-deficiencia
    » https://www.gov.br/pt-br/noticias/assistenciasocial/2021/09/politicas-publicas-levam-acessibilidade-e-autonomia-para-pessoas-com-deficiencia
  • Souza, L. K. (2019). Pesquisa com análise qualitativa de dados: Conhecendo a análise temática. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 71(2), 51-67. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672019000200005
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672019000200005
  • Strapazzon, J. A. & Cesaro, H. (2021). Diversidade sexual e de gênero: construir conhecimentos para desconstruir preconceitos Instituto Federal Catarinense. http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/643836
    » http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/643836
  • Vinuto, J. (2014). A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temáticas, 22(44), 203-220. https://doi.org/10.20396/tematicas.v22i44.10977
    » https://doi.org/10.20396/tematicas.v22i44.10977
  • Editoras responsáveis
    Aline Maira da Silva (Editora-chefe)
    Carmem Lucia Artioli Rolim (Editora associada)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Abr 2025
  • Revisado
    20 Mar 2026
  • Aceito
    20 Mar 2026
location_on
Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial - ABPEE Av. General Rondon, 1799, Centro, Zip Code: 79331-030 - Corumbá - MS - Brazil
E-mail: revista.rbee@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro